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domingo, 28 de dezembro de 2014

Se é fácil por que não implantamos: O Hospital IV Centenário em Santa Teresa permanece vazio

Apesar de uma demanda brasileira imensa por novas habitações urbanas, o antigo edifício do Hospital IV Centenário no bairro de Santa Teresa na cidade do Rio de Janeiro permanece fechado, desocupado e se deteriorando. Porque?

A pergunta se insere na série que começa a ser publicada no meu blog Arquitetura, cidade e projeto denominada; Se é fácil porque não implantamos? Uma pergunta básica e simples, que pretende cobrar do poder público e da sociedade brasileira soluções para problemas instalados complexos, mas que na nossa percepção cotidiana da cidade se mostram como enigmas banais e simples. Essa postura, ao final desvenda que a falta de importância dada para uma política urbana estruturada, articulada e pensada representam um fardo pesado para as cidades do país. As três esferas de poder no país, federal, estadual e municipal, precisam começar a reconhecer a centralidade de uma política urbana mais estruturada. As ações nesse segmento podem impulsionar transformações importantes, inclusive na distribuição de renda.

O Hospital IV Centenário em Santa Teresa é uma edificação dos anos sessenta, que funcionou como hospital hotel até o começo do século XXI. Era portanto, uma unidade de saúde que não realizava procedimentos complexos agendados como cirurgia, ou emergência e não tinha alto grau de resolutividade no atendimento ao público. Era portanto, uma unidade que atendia longa permanência e oferecia acompanhamento nos quartos e enfermarias para pacientes que se recuperavam de procedimentos complexos. É portanto, uma unidade de saúde com serviços de longa internação, com uma estrutura que se aproxima daquilo que o jargão da arquitetura hospitalar denomina hospital-hotel. Tal configuração abre para a antiga edificação um leque imenso de opções para sua reocupação, podendo abrigar novos usos como habitação, hotel, centro cultural, enfim qualquer programa arquitetônico.

Pois bem essa estrutura está abandonada há anos. Já houve projeto da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro de implantar um empreendimento do programa do governo federal Minha casa, Minha vida, que não foi para frente. Depois foi anunciado que o edifício abrigaria o 1o Batalhão da PM carioca, no entanto nada ainda aconteceu para tal.

No mundo contemporâneo cada vez mais essas estruturas são reutilizadas e reocupadas com novas funções, reaproveitando as energias já dispendidas para sua construção. Essa atitude revela também uma profunda consciência ambiental e ecológica...

sábado, 20 de dezembro de 2014

José Mariano Beltrame e Museu da Maré homenageados no IAB-RJ na festa da 52a Premiação Anual

O Secretário de Segurança do RJ José Mariano
Beltrame e o Presidente do IAB-RJ Pedro
da Luz Moreira

No último dia 12 de dezembro de 2014 na festa da 52a Premiação Anual do IAB-RJ foram homenageados como personalidade do ano; o Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame  e o Museu da Maré. Duas homenagens que se complementam, e possuem profundas consequências sobre a gestão do território da cidade do Rio de Janeiro. Uma das homenagens se refere as favelas, criação brasileira para se confrontar a ausência de políticas públicas na área urbana e habitacional do país durante décadas, e que permanecem com soluções precárias e improvisadas. E, a outra se refere a uma política de segurança denominada Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), que pretende retomar o território das mesmas favelas para a normalidade constitucional. Sem dúvida duas ações que possuem um profundo impacto sobre o desenvolvimento de uma política de ocupação do território urbano nas cidades brasileiras. As ações podem ser vistas como desconexas e descoordenadas, mas na verdade possuem grande conexão e são interdependentes.

O mundo contemporâneo tende a uma grande fragmentação das ações sobre o território, há uma enorme segmentação das responsabilidades, há esferas governamentais diferentes que se responsabilizam por serviços que não conversam com outros setores públicos. O problema tem efeitos deletérios sobre a construção das cidades brasileiras, que seguem com sua gestão do território fragmentada e dividida. A esfera urbana demanda uma atitude de coordenação, que só pode ser construída por um maior protagonismo do plano e do projeto, que são atividades que tem a pretensão de se antecipar aos impactos da implantação de infraestruturas variadas.


O Secretário de Segurança do Estado do RJ folhea o
Catálogo de Metodologias de urbanização de Favelas

Há muito que se apontam as favelas no Brasil como organismos capazes de estruturar redes de solidariedade e de auto-sustentação para populações fragilizadas economicamente. De uma maneira geral elas se constituem como ambientes onde a edificação da habitação é auto-empreendida e de forma precária pelas próprias famílias, determinando espaços urbanos de difícil legibilidade, onde o limite entre esfera privada e pública permanece indefinido. Apesar disso, elas foram capazes de construir configurações notáveis tanto do ponto de vista arquitetônico, como urbano. Invariavelmente elas demandam pela consolidação do limite entre esfera pública e privada, infraestruturas urbanas como distribuição de água, coleta de esgotos e lixo, acessibilidade, drenagem, iluminação, etc...E, também segurança pública.

A idéia por trás da 52a Premiação Anual do IAB-RJ, ao homenagear o Beltrame e o Museu da Maré, era reforçar que a política de segurança do governo do estado do Rio de Janeiro precisa ser reforçada pelo projeto de reurbanização de favelas. Abaixo o link da minha entrevista na TV Brasil sobre a premiação.

http://tvbrasil.ebc.com.br/reporterrio/episodio/trabalho-de-contar-a-historia-do-complexo-da-mare-vai-receber-premio

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

52a Premiação Anual do IAB-RJ, algumas considerações

Na última sexta feira dia 12 de dezembro de 2014 foi realizada na sede do IAB-RJ a tradicional festa de premiação anual dos arquitetos, que nesse ano teve uma expressiva procura com 81 trabalhos inscritos. Nesse ano a direção do IAB-RJ propos um tema - a Baía de Guanabara - instando aos arquitetos que apresentassem suas propostas e planos para promover uma aproximação positiva e propositiva entre mancha urbana e esse acontecimento geográfico. A idéia do tema pretende promover uma maior aproximação da Premiação Anual com o conjunto da sociedade brasileira, atraindo a área de meio ambiente dos problemas de ocupação do território pelo homem, que são afeitas aos arquitetos e urbanistas. A festa, que montou uma exposição na grande nave da sede do IAB-RJ, revela um retrato da produção da arquitetura nacional, com interessantes manifestações nas categorias; urbanismo e paisagismo, edificações, arquitetura de interiores e design, e Baía de Guanabara.

O IAB-RJ também homenageou como personalidade do ano, o Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame e o Museu da Favela da Maré, para celebrar a retomada dos territórios das favelas cariocas do tráfico de drogas e de atividades ilícitas. Além desses o IAB-RJ também homenageou o arquiteto Edisom Musa como arquiteto do ano, pela sua obra e presença na cidade do Rio de Janeiro.

A homenagem as personalidades do ano geraram protestos de uma minoria barulhenta, que não concordava com essa indicação e que se manifestou constrangendo o Secretário Beltrame de forma discricionária, durante a solenidade. Além disso essa minoria pichou as fachadas do IAB-RJ, com frases agressivas ao Secretário num ato de vandalismo contra um imóvel tombado pelo patrimônio, o que é inadmissível.

O IAB-RJ repudia essa atitude dessa minoria barulhenta e autoritária, reafirmando seus compromissos com a democracia de forma ampla e irrestrita, permitindo inclusive que o contraditório se manifestasse livremente na sua sede. No entanto, não se pode admitir a cassação da palavra do Secretário de Segurança na solenidade, nem tão pouco a depredação do patrimônio tombado pelo IEPHA estadual e pelo Município. Numa democracia é importante que os diversos agentes e atores possam dialogar sem quaisquer constrangimentos, permitindo a livre expressão das idéias.

Habermas, um filósofo alemão contemporâneo, que prega a busca de uma certa horizontalidade do debate entre diferentes agentes, a partir do conceito da busca da racionalidade intersubjetiva. Um novo conceito de racionalidade, longe de personalismos, mas firmados a partir da livre argumentação entre diferentes posicionamentos. Enfim, o que Habermas propõe é a escuta da diversidade de opiniões, o ouvir o outro, aquele que pensa diferente de nós. Prática fundamental para o desenvolvimento da idéia republicana que toda democracia pretende alcançar.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Mais diálogo, planos e projetos

Na última sexta-feira, dia 12 de dezembro de 2014, o IAB-RJ realizou a sua a 52ª Premiação Anual. O evento teve uma expressiva marca de 82 trabalhos inscritos entre estudantes e profissionais, numa demonstração de força e jovialidade de uma instituição que jamais se pautou pelo pensamento único, por alinhamentos confortáveis, e sim pela promoção constante do diálogo, do contraditório e do debate tão característicos da democracia e das cidades.
Nesta edição, foi proposta uma premiação especial sobre a Baía de Guanabara, importante acontecimento geográfico que justificou a antiga cidade colonial do Rio de Janeiro. Pensar uma articulação e aproximação positiva e propositiva dos seres urbanos com contínuos ambientais como a Baía de Guanabara é o grande desafio de nossa contemporaneidade.
A proposta do IAB-RJ, ao incitar arquitetos a pensar a Baía, é mobilizar o pensamento sobre o desenho do território para reequilibrá-lo em suas oportunidades. Consideramos, portanto, que a despoluição desse patrimônio ambiental é uma forma de ampliar os confortos e benfeitorias que essa ação traz para o antigo centro da cidade, para a sua Zona Norte e para municípios como São Gonçalo, Duque de Caxias, Magé, entre outros.
Olhemos para as nossas bordas. Numa cidade tão ligada ao mar, queremos voltar a celebrar todas as suas águas e mananciais.
Mas nem tudo foi festa na Premiação Anual do IAB-RJ. Houve protestos de uma minoria autoritária e barulhenta, contra a escolha feita pelo IAB-RJ para os títulos de personalidades homenageadas no ano – o secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, e o Museu da Maré.
Tais indicações, corajosas e longe dos alinhamentos confortáveis, foram aprovadas pelo Conselho Deliberativo da entidade.
Elas têm o propósito de alertar a sociedade para a importância da política das Unidades de Policia Pacificadora (UPPs) nas favelas cariocas. O IAB-RJ acredita que a reconquista dos territórios para a normalidade constitucional e a garantia de livre acesso às favelas são valores absolutamente essenciais para a discussão da cidade.
As homenagens indicam, ainda, a urgência da aproximação entre favelas, representadas pelo pioneiro e inspirador trabalho realizado pelo Museu da Maré, e o poder público, na figura do idealizador das UPPs, Beltrame. O IAB-RJ aposta firmemente no aprimoramento deste diálogo como único caminho para a obtenção de resultados na cidade.
E, não menos importante, as escolhas de Beltrame e do Museu da Maré são estratégicas no sentido de fortalecer a posição do IAB-RJ como agente ativo nas discussões futuras sobre o território das favelas no Rio de Janeiro.
Com essas homenagens o IAB-RJ – das UPPs, do Museu da Maré e também com o arquiteto do ano Edison Musa – pretende, por fim, enfatizar o significado do planejar e projetar. Afinal, planos e projetos articulados e interligados não devem desempenhar um papel descritivo de ações a serem implementadas de forma autoritária. E sim, em suas fases iniciais, medir sua adequação ao contexto em que se implantam. São, portanto, instrumentos fundamentais na ampliação da transparência de nossa democracia.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Lançamento dos três livros de Nabil Bounducki no IAB-RJ

O presidente do IAB-RJ Pedro da Luz, o arquiteto e vereador
Nabil Bounducki, o presidente nacional do IAB Sérgio
Magalhães e as arquitetas Rose Compans e Silvia Barbosa
no lançamento do livro
Nessa última quinta feira dia 04 de dezembro de 2014 foi lançado os três volumes do livro do arquiteto e vereador Nabil Bounducki do PT-SP, um esforço memorável de compilação dos esforços brasileiros para construção de conjuntos habitacionais no país. Os pioneiros da habitação social se desenvolvem em três volumes, com farta documentação iconográfica, fundamental para compreensão dos projetos selecionados. O debate que antecedeu a noite de autógrafos teve a presença do arquiteto Sérgio Magalhães, presidente nacional do IAB e de profissionais expressivos da arquitetura e do urbanismo na cidade do Rio de Janeiro.

Os debates acabaram se referindo ao atual programa de produção habitacional do governo federal, o Minha Casa Minha Vida (MCMV), que vem repetindo erros da política da ditadura militar, centrada no extinto Banco Nacional de Habitação (BNH), que lhe antecedeu, e a forma de produção e reprodução da cidade brasileira, que permanece injusta e excludente para amplos setores sociais. A oportunidade que estamos perdendo com o programa MCMV de reestruturar as cidades brasileiras, fazendo-as mais inclusiva é notória e amplamente compartilhada pelos arquitetos.

A moldura da produção habitacional brasileira permanece presa a uma lógica quantitativa, sem atender a demanda qualitativa da sociedade brasileira, que não solicita mais a casa isolada, mas a casa urbana. A inserção da moradia no contexto urbano significa garantia de acesso a oportunidades, trabalho, lazer, infraestruturas, que muitas vezes são capazes de promover melhorias significativas a diferenciadas famílias.

A habitação representa uns 80% da massa construída de todas as cidades no mundo. Promover assentamentos habitacionais articulados a uma urbanidade mais consolidada, que garanta as famílias acesso a empregos, lazer, educação, cultura pode significar uma mudança na perspectiva de vida da população mais frágil economicamente.

O governo federal, que continuamente se auto define como promotor de uma melhora na distribuição de renda no Brasil, parece que ainda não entendeu, que a política urbana é fundamental para isso.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Debate no IAB-RS sobre a Olimpíada no Rio de Janeiro

Na última quarta feira dia 03 de dezembro de 2014 estive em Porto Alegre no Rio Grande do Sul, debatendo os projetos para a Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro, no contexto dos encontros de quarta no Instituto de Arquitetos do Brasil departamento do Rio Grande do Sul (IAB-RS). A recepção e acolhida dos companheiros gaúchos foi maravilhosa e bem proveitosa, com questionamentos e posicionamentos bem articulados, que debateram de forma acalorada o projeto da cidade contemporânea no Brasil.

Montei minha argumentação a partir da constatação de que existe uma inércia do construir cidades no Brasil, que precisa ser modificada e transformada, pois estamos gerando uma urbanidade incompleta e insegura. A configuração de um território urbano onde existe, de um lado, pequenos trechos infraestruturados com comodidades sofisticadas, e de outro, imensas extensões com precariedades primárias, como falta de abastecimento básico, ausência de calçamento, iluminação, coleta de lixo, dentre outras, determinava uma compreensão geral de injustiça e de desequilíbrio de acesso à oportunidades na sociedade brasileira.

A cidade é a materialização mais concreta e fiel da sociedade. Nela estão reproduzidas as práticas cotidianas de exclusão e elitismo dos extratos sociais brasileiros de maneira geral. A definição de um programa de prioridades, que mudasse a inércia do construir da cidade brasileira deveria enfrentar quatro pontos bem objetivos. Nossas cidades precisam passar a ser:

  1. Densas e compactas, passando a possibilitar a universalização geral dos serviços urbanos em todo seu território, com reforço da mais antiga centralidade.
  2. Cidade que fomente a convivência de diversos extratos sociais e usos, que combata a tendência de gerar guetos separados, de ricos e pobres, e aproxime atividades como habitação, trabalho  e lazer.
  3. Cidade de mobilidade ampliada, que combata a exclusão determinada a partir da ausência ou tarifação cara do transporte público, possibilitando acesso a oportunidades variadas ao conjunto de sua população.
  4. Cidade que amplie a visibilidade e a aproximação dos seus conjuntos naturais, aproximando seus cidadãos de biomas particulares.
E
Enfim, quatro pontos fundamentais para ampliar a democracia brasileira. Abaixo a íntegra do debate

https://www.youtube.com/watch?v=qx80upYVxTE

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Vencedor do concurso do Museu da Imagem e do Som - Profissional

O trabalho primeiro colocado de Silvio Oksman
Foi anunciado nessa sexta feira dia 05 de dezembro de 2014 o vencedor do concurso de projetos para o edifício do Museu da Imagem e do Som para atender os profissionais (MIS-PRO) dedicados a pesquisa. Um edifício dedicado a guardar o acervo do MIS voltado para os pesquisadores que se debruçam sobre o rico patrimônio da música brasileira.

Os responsáveis pelas equipes que foram premiados são os seguintes trabalhos:

1º lugar - Silvio Oksman (SP)
2º lugar - Pedro Varella ( RJ)
3º lugar - André Lompreta de Oliveira (RJ)
Menção Honrosa - Matias Revello Vazquez (RS)
Menção Honrosa - Pablo Emilio Robert Herenu (SP)


O nível do concurso atingiu um patamar extraordinário, a imagem do vencedor demonstra o que estou dizendo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Resultado do Concurso de Projetos da Biblioteca Nacional no IAB-RJ

Dia do anúncio da vitória pelo arquiteto Hector Viglieca
Na última quarta feira dia 02 de dezembro foi entregue o prêmio do Concurso de Projetos para o acervo de periódicos da Biblioteca Nacional, localizado na zona Portuária do Rio de Janeiro. O projeto vencedor foi do arquiteto uruguaio Hector Viglieca de 72 anos radicado em São Paulo.

Na ocasião o arquiteto mostrou seu projeto vencedor e emocionou a platéia presente no IAB-RJ. A exposição de Viglieca enfatizou a inserção pública da edificação, que se implanta no novo boulevard da zona portuária da Rua Rodrigues Alves com uma grande generosidade urbana, articulando com sabedoria acesso e espaço público.

O arquiteto Hector Viglieca a presenta seu projeto no IAB-RJ
A edificação será um exemplo da complexa articulação existente entre espaço urbano e arquitetônico, as animações previstas e presentes nas duas categorias se auto sustentam.  A frente da Baía de Guanabara com a retirada do viaduto da Perimetral terá uma nova visibilidade, que deve ser franqueada ao público.

A Biblioteca Nacional é um marco da nossa cultura, que figura como um dos acervos mais importantes do mundo, ao promover o concurso de projetos de arquitetura essa instituição também reconheceu o valor simbólico e cultural de sua edificação.

Sem dúvida um marco importante na cultura de fazer cidades.

sábado, 29 de novembro de 2014

Seminário sobre cidade sustentável em Duque de Caxias

A programação do encontro
Na semana que vem nos dias 01 e 02 de dezembro de 2014 haverá um seminário na cidade de Duque de Caxias sobre a Produção da cidade sustentável. O termo sustentável me parece bastante inadequado porque hoje em dia é usado para tudo, e aquilo que serve para tudo não é nada. No entanto divido a mesa com alguns craques, que certamente trarão visões e questionamentos notáveis para esse desafio; Luis Renato Vergara (secretário municipal de meio ambiente, agricultura e abastecimento), Luiz Edmundo (secretário municipal de urbanismo e planejamento), Vicente Loureiro (subsecretário de urbanismo regional e metropolitano), e Marilena Ramos ( ex-presidente do IPEA).

O tema do meio ambiente é hoje hegemônico em nosso mundo contemporâneo, no entanto ele possui imensa interface com o urbano e a ocupação humana do território. Na cidade metropolitana do Rio de Janeiro um acontecimento geográfico notável assume uma dimensão fundamental na questão da sustentabilidade, a Baía de Guanabara. Esse acontecimento geográfico é um dos mais belos cenários da nossa cidade, ela possibilitou a fundação da cidade colonial e pode ser vista como uma fortaleza natural, um anfiteatro de montanhas e pedras graníticas memoráveis. A cidade de Duque de Caxias possui profundos vínculos com esse acontecimento geográfico, que no entanto não estão desfrutáveis. A premiação anual do IAB-RJ desse ano conclama os arquitetos do Brasil a apresentarem propostas que reaproximem a Baía de Guanabara de sua mancha urbana, imaginando equipamentos e instalações que ampliem sua visibilidade.

As cidades ocupam apenas 2% do território do planeta, no entanto é nelas que se encontra grande parte de nosso passivo ambiental, como esgotos, resíduos sólidos, emissão de carbono, etc... A arquitetura e o urbanismo podem impulsionar uma convivência mais integrada entre natureza e citadinos.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

"Do Porto para o Anil", ou qual cidade queremos construir?

Em função de uma matéria publicada no jornal O Globo de segunda feira dia 24 de novembro de 2014, enviei a jornalista o seguinte texto, criticando a posição da municipalidade do Rio de Janeiro;

Reportagem publicada no O Globo de hoje, com o título “Do Porto para o Anil”, mostra que empreendimentos imobiliários na Zona Portuária foram trocados, em sua urgência, por iniciativas na Barra e na Baixada de Jacarepaguá. Há muito tempo que os investidores imobiliários da cidade investem na Barra e na Baixada de Jacarepaguá, não necessitando de incentivos públicos. Em contraposição, o centro é mais atraente para lançamentos de torres empresariais. Lá, quase não se verificam empreendimentos habitacionais.

Nota-se, a partir do ocorrido, que a cidade do Rio de Janeiro permanece sem um projeto explícito e claro de direcionamento do seu futuro, atendendo de forma fragmentada a pressões pontuais de investidores. O IAB-RJ defende há anos que a cidade brasileira deve reverter sua tendência inercial de dispersão territorial interminável, construindo e incentivando os empreendimentos próximos aos centros urbanos mais densos. Ao privilegiar a utilização das infraestruturas já instaladas na cidade pré-existente, evita-se que novas tenham que ser implantadas.

A posição decorre do fato de que a cidade brasileira possui em seu território amplas parcelas onde a universalização dos serviços urbanos, como coleta de esgotos e de lixo, distribuição de água potável, calçamento de ruas, iluminação pública e outros não são acessíveis. Isso determina uma profunda diferenciação, com poucas áreas de urbanidade plena e a grande maioria com profundas carências.
Cabe ao poder público reverter essa tendência, operando no sentido de direcionar as pressões pontuais, canalizando suas energias para um projeto de cidade mais denso e compacto, que facilite o acesso à urbanidade plena.

Pedro da Luz Moreira
Presidente do IAB-RJ

A corrupção brasileira, uma reflexão importante

Ricardo Semler, um tucano declarado construiu um artigo brilhante na Folha de São Paulo, destacando o inusitado da prisão de empresários ligados as toda poderosas empreiteiras, que há anos pautam nossos governos. A corrupção no Brasil vem decrescendo é a mensagem otimista contida no brilhante artigo. A corrupção brasileira, assim como outras presentes nos quatro cantos do mundo floresce onde os mecanismos de transparência republicana do estado são pouco eficientes. E, nós brasileiros estamos melhorando nesse quesito, segundo Semler;

"A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas."

O artigo também destaca a presença da corrupção nas empresas privadas, que pelo discurso hegemônico do neo-liberalismo eram estruturas imunes a essa prática, ainda segundo Semler:

"O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras."

A íntegra do artigo está no link abaixo, vale a pena a leitura:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/196552-nunca-se-roubou-tao-pouco.shtml

domingo, 16 de novembro de 2014

A queda do muro de Berlim

Berlim é uma cidade emblemática para a história do século XX, em seu território estão representados os dramas vividos pelos seres humanos nesse período tão rico da nossa história. Ela é acima de tudo o símbolo maior da unidade alemã, e não apenas nesse final do século XX, com a queda do muro, mas desde o século XIX, quando a então capital da Prússia capitaneou a união dos povos germânicos.

Norbert Elias mostra no livro Os Alemães como a construção dos diversos estados nacionais condicionou a experiência de ser e ser visto, como francês, inglês, russo ou alemão, e como cada uma das suas capitais Paris, Londres, Moscou e Berlim, simbolizam e carregam os arquétipos desses quatro povos. As especificidades da tardia unificação alemã apontam para uma certa fraqueza da classe média frente os antigos príncipes e nobres dos diversos estados germânicos do século XVIII, e um certo militarismo prussiano.

"No iníco do século XIX, um dos principais pontos no programas de ambas as correntes de classe média - a Idealista e Liberal e a Conservadora e Nacionalista - era a unificação da Alemanha, pondo fim a pluralidade de numerosos e pequenos Estados. Foi de grande significação para o desenvolvimento do habitus alemão de classe média que esses planos fracassassem. O choque causado por isso foi aprofundado quando um príncipe, o rei da Prússia com seu conselheiro Bismarck, logrou satisfazer militarmente os anseios de uma Alemanha unificada, através de uma guerra vitoriosa, quando as classes médias nada tinham conseguido por meios pacíficos. A vitória dos exércitos alemães sobre a França foi, ao mesmo tempo, uma vitória da nobreza alemã sobre a classe média alemã." Pg26

Berlim era a capital do reino da Prússia, mas percebe-se no mesmo autor a identificação de uma vertente autoritária e militarista na construção do Estado alemão, um certo declínio do habitus urbano frente a lógica militar, principalmente quando o mesmo autor compara com o processo holandês de formação do Estado.

"A arte de governar com a ajuda da negociação e das concessões mútuas foi passada da cidade para o Estado. Na Alemanha pelo contrário, os modelos militares de comando e obediência prevaleceram em vários níveis sobre os modelos urbanos de negociação e persuasão." Pg24

Por outro lado, Berlim assume seu papel de capital dos povos germânicos de forma tardia e tendo concorrentes simbolicamente fortes como Viena ou Praga, onde a construção dessa representatividade é impulsionada pela antiguidade, ainda segundo Elias;

"Comparada com Paris e Londres, Berlim é uma cidade jovem...Um única derrota do rei prussiano na luta com os rivais Habsburgo teria possivelmente sustado para sempre a ascensão de Berlim. Durante a Guerra dos Sete Anos, Frederico II esteve por várias vezes perto de selar esse destino para sua capital. Talvez seja útil acrescentar que no periodo dos imperadores Habsburgo, Viena funcionou frequentemente como cidade capital do império alemão. Praga também serviu nesse papel por algum tempo." Pg22

Altes Museum Karl Friedrich Schinckel
em Berlim
Berlim portanto não possui o destaque de outras capitais européias e chega na passagem do século XIX para o XX como capital da Alemanha unificada com um papel novo e não estabelecido pela antiguidade. A Berlim inicia o processo de construção de uma iconografia particular e memorável com a atuação na cidade do arquiteto Karl Friedrich Schinkel (1781-1841), logo após a derrota de Napoleão, e um pouco antes da unificação. Esse esforço construtivo do início do século XIX, apesar da imensa destruição da Berlim contemporânea, permanece vivo na cidade e é a sua face neoclássica que possui um extremo rigor racionalista, que está na ilha dos museus, no Altes Museum, no Teatro de Ópera Neues Schapielhaus na praça das duas catedrias, no portão de Bradenburgo e em outras manifestações. Esse rigor racionalista do neo classicismo alemão permanecerá presente nas sensibilidades posteriores, passando pelo ecletismo e até atingindo o modernismo. A manipulação da modulação construtiva, a padronização das fenestrações e uma certa proporção entre cheios e vazios é uma constante nas fachadas da cidade.

A imensa destruição de Berlim em 1945 - Postadamer Platz
Mas além desse racionalismo percebe-se em Berlim uma certa desconfiança frente ao seu recente papel de nova capital da Alemanha, uma recusa consciente a manifestações nacionalistas. Uma certa alma instável e insegura do papel que lhe foi dado com a queda do muro em 1989. Há mesmo uma certa incerteza e informalidade no trato das estruturas governamentais da Grosse Deutschland, chegando ao ponto extremo de ter ouvido nas suas ruas da cidade que "os berlinenses são os cariocas da Alemanha". Afinal, quem pode prever o vir a ser da Berlim, num mundo perpassado de incertezas, como foi o século XX e continua sendo o XXI.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Vitória da chapa Fortalecimento da Arquitetura e Urbanismo no CAU-RJ

Vitória das teses do IAB na eleição do CAU
Hoje dia 06 de novembro de 2014 tivemos uma importante vitória da chapa Fortalecimento da Arquitetura e Urbanismo, que se candidatou a eleição do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU-RJ). Assim como em outros estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e outros se percebeu uma vitória expressiva das teses do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Essa foi uma vitória de um grupo de arquitetos que vem declarando um grande amor pelo nosso ofício. Há nesse grupo uma diversidade muito grande de opiniões, mas percebo uma convergência na valorização do planejamento e do projeto como atividades estruturantes da nossa profissão. Outra convergência é a visão partilhada sobre as cidades brasileiras e seu processo de reprodução, esse grupo entende essa forma de crescimento como injusta e desequilibrada, não distribuindo oportunidades de forma equitativa pelo território. Há uma pauta oculta na produção e reprodução da cidade brasileira, prisioneira de interesses imediatos e ligeiros, sem olhar para o interesse geral dos seus habitantes. Há uma tendência inercial na produção da cidade brasileira, que precisa ser identificada e denunciada como um projeto excludente e elitista, que não está articulado com a ampliação da democracia que a sociedade brasileira vem alcançando no campo político. Essa não explicitação do projeto brasileiro de cidade determina uma forte fragmentação e segmentação das ações no território, que acaba presa por um voluntarismo descoordenado que beneficia interesses particulares.

Nesse sentido, as atividades de planejamento e projeto cumprem um papel estratégico importante, pois são um poderoso instrumental para a democratização dessa mesma cidade, uma vez que simulam com antecedência sobre o papel, os custos e benefícios das modificações propostas. São nas sociedades mais evoluídas a forma mais correta de se debater seu próprio vir a ser, checando a adequação das transformações propostas ao contexto existente.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Favela de Parque Royal, manutenção ou deterioração da informalidade

A favela manutenção ou deterioração da urbanidade
O site "Entenda a Favela" do jornalista Daniel De Plá publicou uma série de vídeos comigo e o presidente da Associação de Moradores de Parque Royal na Ilha do Governador, para debater o tema da informalidade nas cidades brasileiras. A Favela de Parque Royal fica na beira da Baía de Guanabara e foi urbanizada em 1996 no contexto do Programa Favela Bairro, com projeto do escritório Archi 5 arquitetos associados ltda, coordenado por mim. A favela de Parque Royal foi reconhecida como uma experiência de urbanização bem sucedida, tanto por organismos internacionais, como também nacionais. Comprovando tal fato está sua presença na Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza de 2002, na exposição do Pavilhão Brasileiro denominada Favela Upgrading.

Os vídeos mostram no meu entendimento, que as favelas demandam do poder público um cuidado constante com a manutenção dos serviços públicos, que ao final demonstram a sua efetiva presença nessas localidades. A compreensão e a auto-estima das comunidades é um potencializador do controle sobre o estímulo ou desestímulo da informalidade. A presença de serviços públicos, tais como coleta de esgotos, distribuição de água, coleta de lixos, arruamento, iluminação, drenagem, segurança enfatizam para a comunidade a existência do estado de direito, construindo a sensação de pertencimento à cidade. A presença continuada das concessionárias e dos serviços públicos em geral constroem a idéia de pertencimento à cidade, transformando essas áreas em bairros específicos do contínuo urbanizado. Portanto as ações do poder público devem visar essa continuidade, para que a integração seja efetiva. É óbvio, que essa ação envolve um combate continuado a uma série de preconceitos estabelecidos em nossa sociedade, inclusive nos funcionários públicos e das concessionárias, que muitas vezes permanecem considerando essas áreas como excepcionais, mesmo após a urbanização. É também claro que as próprias comunidades precisam ser responsabilizadas por suas práticas, buscando se adequar aos padrões gerais de funcionamento do conjunto edificado da cidade.

Vejam os filmes nos links abaixo:

/http://www.entendafavela.com.br/conflito-cedae-e-prefeitura-no-esgoto-da-favela/

http://www.entendafavela.com.br/conflito-do-publico-e-privado-na-favela/

http://www.entendafavela.com.br/moradores-contruiram-a-favela-do-parque-royal/

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A palestra de Juan Carlos Rico no IAB-RJ - Cidade e Participação

Estrutura provisória para explicar as obras de transformações de Berlim

No último dia 29 de outubro de 2014 foi realizado no IAB-RJ a palestra do arquiteto espanhol Juan Carlo Rico autor de várias reflexões sobre museus, exposições e a cidade, debatendo o significado da inserção dos museus nos mundos da vida contemporânea. A palestra foi extremamente provocante e abordou temas como a massificação da cultura, o didatismo da cidade como forma emblemática do vir a ser de uma comunidade, a escala e a percepção, e repetição e monumentalidade, dentre outros.  A construção de um cenário variado e provocante, que constantemente questiona a inserção, a capacidade de assimilação e o didatismo de diferentes tipos de acervos fez os presentes refletir sobre as complexas relações entre qualidade e quantidade na nossa contemporaneidade.

A estação central de Berlim
As cidades foram caracterizadas como um imenso acervo de obras de arte variadas e múltiplas, que muitas vezes estão invisíveis, num posicionamento que destaca a unicidade de cada uma delas. Para mim a experiência de Berlim narrada pelo arquiteto espanhol, ganhou grande relevância pelo esforço promovido para divulgar e conscientizar sua população das transformações, que simbolicamente reconstruiram a unidade da Alemanha. As maquetes, o processo de evolução da cidade, a reconstrução do seu papel de capital, o papel das redes de transportes e comunicação sobre o seu território demonstram como a transparência das mudanças procurava cooptar a comunidade para seu próprio projeto de futuro. O instituto de urbanismo de Berlim possui uma série de maquetes da cidade, que inclusive reconstroem momentos da sua história. Esse instrumento é um mecanismo fantástico para a mobilização da população e para sua melhor compreensão das transformações propostas.

O ministro das cidades do Brasil visita as maquetes de Berlim
Um lugar concreto para mim é a representação mais forte dessa reconstrução da capitalidade da Berlim contemporânea, a estação central da cidade, um imenso cruzamento de linhas e redes de transportes de diferentes escalas e velocidades. Pessoas que chegam, outras que saem, lojas, trens de alta velocidade que ligam capitais distantes, o sistema de metrô de Berlim, linhas de ônibus, enfim uma imensa conectividade, que certamente impacta positivamente o cotidiano do cidadão.Pois bem o professor Juan Carlos Rico apresentou uma imensa estrutura provisória que informava o público sobre a futura Berlim. Nesse espaço eram apresentados propostas e idéias para a futura Berlim, isto é projetos ainda não acabados, que pretendiam a ampliar a transparência das transformações explicando para a população os custos e benefícios pretendidos. Um exemplo para nossa prática política brasileira, onde as obras e os projetos não são previamente debatidos e seus custos e benefícios deixam de ser avaliados por parcelas expressivas da população.

sábado, 25 de outubro de 2014

Reflexão de quinze minutos de leitura antes de votar

Um texto esclarecedor do sociólogo Lucas Coradini da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, indicado pelo Pablo Benetti, muito além das pré disposições presentes em posicionamentos apaixonados dos simpatizantes dos dois partidos em disputa. Com uma posição definida para essa eleição, mas procurando usar dos dados e índices presentes em diferentes fontes é construído uma diferenciação entre duas teses claras e transparentes em disputa...

Vale a pena a leitura

http://www.sul21.com.br/jornal/nao-decida-o-seu-voto-agora-decida-em-quinze-minutos-por-lucas-coradini/

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A ausência do espaço nas discussões eleitorais no Brasil

As periferias urbanas, ausência de urbanidade
As eleições presidenciais brasileiras de 2014 chegam a reta final nesse final de outubro. Há uma sensação generalizada de ausência de alguns temas centrais que afligem a sociedade brasileira no discurso dos candidatos. Se pegarmos os temas que foram pautados pelas manifestações de junho de 2013, que eram saúde, educação, habitação, segurança e transporte percebemos sua presença nas campanhas e nas propostas dos candidatos, mas de uma forma descontextualizada, um pouco abstrata por que parecem prescindir da dimensão espacial desses problemas. Essa alienação da base física e concreta do espaço determina muitas vezes, que os temas assumam uma dimensão incompreensível, afeita apenas a especialistas, longe portanto da assimilação comum, que é o campo efetivo da política. Me parece que há uma utilização conservadora e intransparente da linguagem política, que pretende utilizá-la como forma de alijar setores substanciais da população que não reconhecem nos debates políticos, o seu cotidiano. Nesse sentido, parece existir uma supremacia dos temas econômicos, frente a dimensão espacial e territorial, que acaba por dificultar sua compreensão pelo senso comum.

O cotidiano e o bem viver nas metrópoles contemporâneas
Na verdade, o cotidiano concreto das pessoas é profundamente impactado pelo espaço, e ele contextualiza muito dos problemas relativos a saúde, a educação, a segurança e aos transportes de massas. A contextualização desses problemas sobre a base espacial possibilita e potencializa a compreensão das formas diferenciadas de apropriação dessas benfeitorias no seio da sociedade, explicando a partir dos diferentes níveis de acessibilidade a eles, por vexemplo os diferentes valores da terra urbana no seio das cidades. A base espacial condiciona de sobremaneira o cotidiano dos diferentes extratos sociais, determinando a experiência concreta do dia a dia. Afinal, a cidade é o espelho da sociedade, e seu mapeamento ou descrição possuem um imenso poder de explicar nossas cisões e diferenças. Como exemplo, podemos falar sobre a saúde. Os equipamentos de saúde trabalham com diversos graus de resolutividade de problemas, a rede de saúde possui desde o médico de bairro, passando pelos postos de saúde local, até os hospitais gerais e os hospitais especilaizados, como INCA, Traumato ortopedia, Cérebro, etc... A rede é espacializada e integrada, sua legibilidade no território é fundamental para que a população compreenda seu grau de resolutividade, para que não sobrecarregue unidades de alta complexidade com problemas que podem ser resolvidos nos postos locais.

Urbanidade e acesso a oportunidades
Nesse contexto, uma dimensão efetiva da experiência cotidiana das pessoas são as grandes metrópoles brasileiras, que apresentam níveis diferenciados de universalização de infraestruturas urbanas, tais como; coleta de esgoto, distribuição de água, coleta de lixo, calçamento, pavimentação de ruas, iluminação pública, arborização urbana, dentre outras. As comodidades urbanas, tais como; escolas, parques, bibliotecas, cursos, lazer, esportes, envolvem muitas vezes a acessibilidade a oportunidades de progresso para famílias ou extratos sociais fragilizados. Elas podem representar para os extratos sociais mais fragilizados a construção de oportunidades de progresso e desenvolvimento, que muitas vezes apenas se materializarão no periodo de uma geração. A dimensão da proximidade ou distância na cidade pode significar diferentes graus de acessibilidade a um curso ou formação, que podem transformar as perspectivas de progresso de diferentes cidadãos. O bem viver ou a boa vida estão profundamente conectados ao espaço, e sua acessibilidade pode ser determinada por nossa posição na cidade.

Pois bem, essas obviedades não pautaram os discursos políticos das candidaturas brasileiras, seja no primeiro, como também no segundo turno das eleições brasileiras. A ausência de espacialização dos problemas brasileiros representa um forte fator de incompreensão dos temas políticos. Para Habermas toda tentativa de conhecimento só apreende a informação quando essa se transforma em signo, que exige do interlocutor interpretação, que acaba por gerar mais uma nova produção de signos. Me parece que a didática política brasileira está precisando ser remapeada.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Matéria no jornal O Globo sobre o edifício Seabra na praia do Flamengo no RJ

Fachada do Edifício Seabra na Praia do Flamengo RJ
O jornal O Globo publicou matéria sobre o edifício Seabra na praia do Flamengo, uma construção inaugurada na cidade em 1931 típica do ecletismo, com clara inspiração nos palácios venezianos renascentistas. No jornal escrito acabou não sobrando espaço para minha fala, mas na versão online saiu um pequeno comentário meu.

O edifício Seabra nos mostra um pouco do padrão de qualidade construtiva que a cidade já desfrutou, e, que infelizmente não apresenta mais. Na minha entrevista, que fecha a reportagem da versão online procurei destacar exatamente essa característica, que acabou possibilitando um envelhecimento de qualidade  àquela construção. Todos sabemos que a arquitetura, seja a que sensibilidade pertença (colonial, neo clássica, eclética, art decô, art nouveau,  modernista ou contemporânea, ou outras), demanda manutenção e conservação, sem a qual a edificação tende a retornar ao estágio de ruína.

Hall do edifício Seabra
Mas minha impressão é que estamos perdendo capacidade de resistir ao tempo, a medida que chegamos a contemporaneidade. Importante reafirmar que essa qualidade de projeto e construtiva não deriva sua presença ou ausência da ocorrência da profusão de ornamentos, que o historicismo envolvia. Há motivos variados e complexos que justificam a emergência desse processo, dentre eles podemos mencionar; declínio da importância do projeto, declínio do tempo dedicado ao projeto, declínio da mão de obra, declínio da materialidade, e outros. O que impressiona no edifício Seabra é sua capacidade de resistir as intempéries naturais, que certamente foi obtida a partir de um processo de projetação aprofundado e de uma dedicação ao aprimoramento construtivo, duas questões, nas quais nossa sociedade vem claramente perdendo potência.

O link da matéria pode ser visto abaixo.

http://oglobo.globo.com/rio/luxo-de-outros-tempos-dakota-carioca-guarda-charme-de-um-nobre-flamengo-14292619

Vídeo de apoio a chapa 1 Fortalecimento da Arquitetura e Urbanismo do CAU-RJ

Prezados leitores gravei o vídeo de apoio a Chapa 1 Fortalecimento da Arquitetura e do Urbanismo, que concorre a eleição do CAU-RJ, e que se realizará no dia 05 de novembro de 2014. Os integrantes dessa chapa afirmam a necessidade de assegurar uma articulação permanente com todas as entidades e organizações representativas dos arquitetos e urbanistas, em especial, as que constituem o CEAU – Conselho de Entidades de Arquitetura e Urbanismo.

Nessa entrevista falei sobre a importância do CAU, o novo conselho profissional dos arquitetos e urbanistas, e defendi que os seus conselheiros sejam pessoas experientes, com atividade profissional expressiva na sociedade. Essa experiência profissional pode prevenir casos como o do Concurso do BNDES, em que o CAU-RJ deu apoio a um certame que não previa a contratação do vencedor de forma integral, demonstrando uma grande inexperiência do atual presidente do que é a prática de projeto. Esse caso é muito grave, pois o BNDES é o banco de fomento do governo brasileiro e, portanto, uma instituição de referência para estabelecer práticas.

Outro indicador da importância dessa experiência para o perfil dos conselheiros é a defesa da não profissionalização deles, de forma que permaneçam com suas atividades principais ativas. O link da entrevista se encontra abaixo, vejam e divulguem...

https://www.youtube.com/watch?v=-WShgCns1tc

domingo, 19 de outubro de 2014

Arquitetura, turismo e sustentabilidade em Cataguases Minas Gerais

Marcio Takata, Elizabeth Kropf, Pedro da Luz Moreira e Mauro
Neves Nogueira, componentes da mesa de abertura do CATS
Nessa última quinta feira dia 16 de outubro de 2014 fiz uma palestra no 2o Congresso de Arquitetura e Turismo de Cataguases em Minas Gerais. O encontro que se realiza pela segunda vez debate a preservação do acervo arquitetônico e seu papel na estruturação do turismo contemporâneo. A mesa de que participei contou com as palestras do engenheiro do Green Building Council Marcio Takata, e do arquiteto professor da FAU-UFRJ Mauro Neves Nogueira.

Inicei a minha apresentação explicando qual o significado do IAB, uma organização da sociedade civil prestes a alcançar os cem anos de existência em 2021. Mencionei a recente conquista do Congresso Internacional de Arquitetura de 2020 da União Internacional dos Arquitetos, que será realizado na cidade do Rio de Janeiro, e que foi uma conquista da rede do IAB Nacional capitaneada pelo IAB-RJ.

O concurso do Chicago Tribune,
proposta de Adolf Loos 1923
Apresentei os conceitos de projeto, ideologia e hegemonia, como forças que estruturam nosso dia. Caracterizei projeto a partir da etimologia da palavra, como um vocábulo cindido pelo prefixo "Pro" que significa antecipar e pelo sufixo "Jactare" que denota lançar ou arremessar. Projeto seria portanto lançar com antecedência, ou se antecipar as ações. É portanto um discurso que pretende persuadir a sociedade para avaliação consciente dos custos e benefícios das intervenções. Tentei por outro lado caracterizar ideologia, como um conjunto de crenças e convicções que estruturam nossa operação ou fazer no cotidiano. A ideologia é uma presença inevitável no mundo contemporâneo, onde sistemas estruturados de princípios de atuação, como igrejas, partidos e associações estão sempre em crise, onde o fazer cotidiano demanda do ser humano moderno uma constante reconstrução de suas premissas. Por fim tentei caracterizar hegemonia, como a dinamização do conceito de ideologia, sendo a capacidade da ideologia de conquistar o metabolismo social, como um todo.

Com esses conceitos como premissas teóricas procurei enfatizar que as atividades de projeto e de planejamento, que estruturam o ofício da arquitetura e do urbanismo precisam ser melhor consideradas pelo conjunto da sociedade brasileira, como atividades que lançam e estruturam diferentes setores, dentre os quais também o turismo. A celebração do improviso e a ausência de protagonismo para as ações de projetar e planejar na sociedade brasileira deveriam ser ideologias combatidas de forma incessante. Projetar e planejar é fundamental para potencializar os destinos turísticos de qualquer parte do mundo.

A cúpula de Santa Maria del Fiore em Florença, projeto de
Bruneleschi de 1418
A partir desse ponto a minha apresentação procurou focar na questão de que grande parte dos destinos turísticos mais procurados do mundo contemporâneo, seja no Brasil ou no resto do mundo são fruto de projetos, não apenas de projetos arquitetônicos, mas de planos que abordam a cidade como um todo. O que se busca na grande maioria das vezes é desfrutar de uma atmosfera que uma cidade construiu a partir de planos e projetos concretos. Os exemplos começaram pela Itália, as cidades de Florença, Roma e Veneza foram assinaladas como destinos turísticos reconhecidos por todos e valorizados, justamente pela presença de projetos memoráveis. Florença com o concurso da cúpula de Santa Maria del Fiore em 1418, que escolheu o projeto de Bruneleschi. Roma, com a reforma implantada pelo papa Sixto V em 1602, que construiu uma série de praças pontuadas por obeliscos e ligadas por eixos de circulação, que tornaram o território da cidade legível para uma série de peregrinos e devotos estrangeiros. Veneza com seu intrincado de ruas, canais e vielas, onde é inevitável se perder, mas onde os grandes monumentos e praças nos recontextualizam. Enfim exemplos que foram construídos a partir de projetos concretos, que possuíam intenções claras de transformar realidades concretas.

A cidade de Ouro Preto em Minas Gerais e o projeto da Praça
Tiradentes de 1783
Selecionei também exemplares mais recentes como Nova York (1811), Barcelona (1849), Paris (1853), e Chicago (1893) que a partir de planos concretos conformaram trechos expressivos de seus tecidos urbanos, consolidando destinos turísticos dos mais procurados no mundo. Além desses também busquei exemplares nacionais como Ouro Preto e Congonhas do Campo, ambas em Minas Gerais, que haviam também recebidos projetos específicos. A antiga Vila Rica com o projeto da atual Praça Tiradentes em 1783, seis anos antes da descoberta da Inconfidência Mineira. E o emblemático Adro da Igreja de Bom Jesus do Matosinhos feito por Aleijadinho em 1782, com seus profetas, os passos da paixão e a fachada da Igreja, conformando um sítio mágico de precisa adequação ao sítio local.

Por último mencionei a cidade do Rio de Janeiro, destino turístico dos mais mencionados nos últimos tempos com a ascensão internacional do Brasil. A mística da cidade maravilhosa envolvia uma urbanidade intensa e a presença de contínuos naturais expressivos, todos projetados. Citei a reforma de Pereira Passos em 1905, que pretendeu transformar o porto da emergente república brasileira, num destino mais confiável, e o projeto da recuperação da Floresta da Tijuca, ainda no tempo do império como forma de melhorar os mananciais que abasteciam a cidade.

Enfim destino turístico é fruto de uma projetação e de um planejamento sistemático e vigilante...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Artigo meu no O Globo de domingo, 12 de outubro de 2014

Imagem do artigo no O Globo
Nesse último domingo saiu um artigo meu sobre a Baía de Guanabara, e seu papel na cidade metropolitana do Rio de Janeiro. Como um acontecimento geográfico importante e único na costa brasileira, a Baía justificou a cidade colonial portuguesa do Rio de Janeiro, não sem luta com o projeto da França Antártica. A Baía de Guanabara, como ponto determinante da história da cidade do Rio de Janeiro concentra uma imensa quantidade de fatos urbanos notáveis, que se restaurados ou reapropriados podem significar o reequilíbrio da metrópole. Lugares como as Ilhas do Fundão, do Governador ou Paquetá, e municípios como Duque de Caxias, Magé, São Gonçalo e Niterói podem ter sua qualidade de vida redirecionada a partir da despoluição da Baía de Guanabara.


domingo, 5 de outubro de 2014

A Inconfidência Mineira

A cidade de Ouro Preto
O livro 1789 do jornalista Pedro Dória é um interessante relato sobre a Inconfidência Mineira, o século XVIII no Brasil, e a formação do estado de Minas Gerais, com o ciclo do ouro são relatos preciosos. A formação da primeira rede urbana no território da colônia do reino ultramarinho de Portugal, conformando uma hierarquia de centralidades e sub-centralidades é uma fato a ser destacado. Há em Minas um patrimônio construído invejável, com exemplares notáveis em Ouro Preto, Mariana, Congonhas do Campo, Sabará, Tiradentes, São João D´El Rei, Catas Altas, na região aurífera e Diamantina, e Serro na região de diamantes, dentre outras. Importante registrar que Vila Rica, o centro da região aurifera era então a maior cidade das Américas.

É importante mencionar como se percebe a emergência de uma sociedade mais liberal em seus costumes, Por exemplo, Simão Pires Sardinha havia nascido escravo, pois era filho de Francisca Oliveira da Silva, a Xica da Silva de Diamantina, que se casara com o  poderoso contratador da zona dos diamantes João Fernandes de Oliveira. Pois bem, Simão Pereira da Silva apesar de mulato tinha ido para a Universidade de Coimbra, tendo sido um dos estudiosos do país, que se dedicava aos fósseis, mas que também irá frequentar a Sociedade Literária do Rio de Janeiro, um grupo que logo após a Inconfidência Mineira esteve na mira das autoridades. Tiradentes visitou efetivamente Sardinha em três ocasiões, levando consigo uma edição em inglês da História da América Inglesa, que narrava os feitos de 04 de julho de 1776 com a independência das treze colônias. Numa outra ocasião levou uma edição em francês do Recueil de loix constitutives des colonies anglaise, confederées sous la dénominations d´États-Units da l´Amerique Septemtronial. Um livro pequeno do tamanho de um caderno Moleskine, pois tinha que ser escondido, afinal era proibido na França.

O impressionante no relato é como as idéias vinculadas ao Iluminismo se disseminaram no território de uma terra afastada e distante como Minas Gerais, de forma simultânea com a Europa e com a América do Norte. O cônego Luis Vieira da Silva, um dos inconfidentes possuía uma biblioteca com 270 títulos distribuídos em 800 volumes, o que era uma coleção representativa, comparando com a de Adam Smith na mesma época, que juntou em toda sua vida três mil volumes. A cultura urbana desenvolvida nessa parte do país certamente fomentou essa disseminação e embate das idéias de forma livre e arejada.

O sítio mágico de Bom Jesus do Matosinhos em Congonhas
do Campo
Talvez o atestado mais sofisticado dessa cultura se encontre no Adro da Igreja do Bom Jesus do Matosinhos na cidade de Congonhas do Campo na área aurífera. Uma obra que tem como referência o sitio de Bom Jesus de Braga em Portugal, mas que demonstra uma imensa superação pela sua adequação impressionante ao sítio. Realmente uma das maiores obras do barroco mineiro é a realização desse sítio - uma cumeada de montanha - com a manipulação do Adro da Igreja,  o Balé dos Profetas e os Passos da Paixão mais abaixo, numa sequência articulada e estruturada de forma sensível e inteligente.

O artigo de Cacá Diegues, mito e projeto

Cacá Diegues texto sensível e inteligente
sobre o Brasil
O artigo de Cacá Diegues no jornal O Globo nesse domingo dia 05 de outubro de 2014 com o título de "O que ainda não sabemos" é uma reflexão preciosa sobre o Brasil, nossos mitos e nossos projetos. A pena do cineasta nos contempla com um raciocínio ao mesmo tempo inteligente e sensível, principalmente na parte que identifica em solo pátrio a presença de "mitos fundadores" e "projetos inconscientes". Dentre os mitos que nos colonizaram e que permanecem presentes na sociedade brasileira está espelhada "em nossa permanente esperança de sermos o futuro". Uma idéia que possue uma imensa potência e nos faz sempre esperar ou pensar que estamos disponíveis para construir um futuro melhor e brilhante. E, pasmem, não só para nós, mas para a humanidade como um todo. Há nessa construção uma imensa disponibilidade e mesmo uma generosidade incrivel, que simplesmente celebra uma vontade de se reinventar no futuro de forma criativa e inusitada. A celebração das novas tecnologias de informação e comunicação se alastram de forma tão rápida pelo país, exatamente por essa presença. A consciência de uma história debilitada e de um presente endurecido e brutal nos condenam a divagar eternamente sobre o futuro, a olhar nossos filhos com uma esperança maravilhosa.

No seu raciocínio as manifestações de junho de 2013 são consideradas como um reforço a esse mito formador, que foram desviadas de seus objetivos iniciais pela tradição de violência de nossa polícia, e pela "estupidez dos black blocs", que aliviaram os representantes do poder. Há um tom geral, bem brasileiro que afasta qualquer euforia ou celebração mitológica da construção de grandes figuras ou grandes feitos. Afinal o mais importante para o articulista seja "que ainda quero ver por aqui as manhãs que cantam, a luz do sol sobre o horizonte, a primavera chegando sem avisar." Realmente, nossa luz do sol ou a primavera são patrimônios memoráveis compartilhados por quem já vivenciou o Brasil. Sei que é pouco. Mas sempre que chego na minha janela e vivencio essa luz parece que renascem as vontades de enfrentar novos projetos e reconstruir esse país.

A íntegra do artigo está no link abaixo. Vale a pena ler:

http://oglobo.globo.com/opiniao/o-que-ainda-nao-sabemos-14135661

06 de outubro Dia Mundial da Arquitetura

Nessa segunda feira dia 06 de outubro de 2014 se celebra o Dia Mundial da Arquitetura, que tem como tema proposto pela UIA, "Cidade Saudável. Cidade Feliz". Estarei amanhã num debate na Semana de Arquitetura e Urbanismo na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Considero uma importante oportunidade para que a sociedade brasileira reflita sobre a forma como a sua cidade vem sendo construída. Na minha concepção há cinco pontos prioritários que precisam ser revertidos na maneira como a cidade brasileira vem sendo construída. Eles envolvem uma certa concepção do que é o "Bem Viver" e se encontram profundamente arraigados nas elites e no conjunto da nossa população. São eles:

1. Cidade Densa e Compacta.  A cidade brasileira é dispersa e espraiada num território imenso, tal fato torna muito difícil a universalização dos serviços urbanos como coleta de lixo e de esgotos, distribuição de água, arruamento e calçamento, iluminação pública, transporte público, educação, lazer, trabalho, e outros.

2. Os antigos centros devem ser reocupados. A cidade brasileira vem abandonando os antigos centros históricos, abandonando um passado construído notável, muitas vezes pela inadequação desses a comodidades como o automóvel e outras.

3. Ampliar a mobilidade e acessibilidade a partir de uma rede estruturada de transportes. A cidade brasileira possui uma mobilidade e acessibilidade deficitária por que não está estruturada a partir de uma rede de modais de transportes clara e eficiente. Os modais de grande capacidade como trens, metrôs, barcas e BRTs devem configurar uma rede complementada por outros modais de baixa capacidade como vans, bondes, bicicletas, calçadas bem desenhadas que fomentem o caminhar.

4. A cidade deve ter uma multiplicidade de usos e de extratos sociais convivendo juntos. A cidade brasileira está constantemente construindo guetos de ricos e guetos de pobres, assim como locais dormitórios e centros de concentração de serviços. A cidade segura é a cidade que aproxima pobres e ricos, zonas de habitação e de trabalho.

5. A cidade deve se aproximar de contínuos naturais, respeitando a biodiversidade. A cidade brasileira possui um imenso passivo ambiental, destruindo muitas vezes mananciais e biomas importantes como baías e rios. Reaproximar de forma inteligente e articulada a população urbana desses contínuos pode significar a potencialização de sua preservação, fazendo reaparecer a vida de uma diversidade de espécies.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Artigo publicado no site Arqbacana sobre o Congresso da UIA 2020

O site Arqbacana publicou um texto meu sobre o Congresso Global da União Internacional de Arquitetos 2020 (UIA 2020) no Rio de Janeiro, uma data que deve servir para refundar a relação entre sociedade brasileira e as práticas de planejamento e de projeto, que estruturam o ofício da arquitetura e do urbanismo. Mais importante que o evento, creio ser fundamental a construção dele, lutando para que o país avalie melhor sua infra estrutura construída e pense de forma mais estruturada quais transformações são prioritárias e quais são periféricas. Um encontro profissional dessa natureza possui um potencial imenso para que a sociedade brasileira entenda o papel do Plano e do Projeto, como ações fundamentais para que tenhamos obras mais bem feitas e mais sintonizadas com os anseios gerais.

O artigo está no link abaixo;

http://www.arqbacana.com.br/internal/arq!mix/read/14200/projetar-e-executar-o-significado-do-congresso-da-uia-2020-no-rio-de-janeiro

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Palestra de Rob Adans no Rio Centro

Amanhã dia 01 de outubro de 2014 no Rio Centro na Barra da Tijuca acontece a palestra do arquiteto Rob Adans no contexto da Feira Construir. Na programação da feira também consta debate sobre a frente marítima e a Baía de Guanabara com os arquitetos João Pedro BackheuserMilton Braga, além do presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP), Alberto Silva. 

De acordo com Adams, a sociedade vive uma nova revolução: a revolução urbana. No estudo “Transforming australian in cities”, atualizado em março de 2010, o australiano já relatava que mais de 80% da população australiana vivia nas cidades. O estudo ainda apontava uma projeção da população urbana mundial para os próximos 36 anos de 6,4 bilhões de pessoas, enquanto em 1900 contabilizávamos uma população urbana de 200 milhões de habitantes.

“Isso vai requerer uma construção urbana, para os próximos 40 anos, equivalente ao que foi construído desde que foram estabelecidos os primeiros assentamentos urbanos”, afirmou Adams no estudo “Transforming Australian Cities For a More Financially Viable and Sustainable Future.

Rob Adams se tornou reconhecido internacionalmente ao liderar a premiada requalificação urbanade Melbourne, feita integralmente dentro de princípios sustentáveis. Nesse trabalho, o arquiteto se dedicou a revitalizar não apenas as ruas, mas também parques e lagos, integrando-os ao ambiente urbano.

Promovido pelo IAB-RJ e pela Feira Construir 2014, organizada pela FAGGA | GL Events Exhibitions, a conferência com Rob Adams e a mesa redonda “Frente marítima e a Baía de Guanabara” integram a programação do Fórum AC 21 – Arquitetura e Cidade no século XXI. Em setembro, o fórum reuniu os arquitetos Edison MusaErnani FreireSérgio Conde Caldas, que discutiram o protagonismo do arquiteto no canteiro de obra. 

Vans sairão da sede do IAB-RJ, às 14h, para o Riocentro. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Docomomo no IAB-RJ

Ceça Guimarães, João Calafate, Marcio Roberto, Pedro da Luz
e João Amorim na sede do IAB-RJ antes do debate
Na última sexta feira dia 26 de setembro de 2014 foi realizado no IAB-RJ o Seminário da rede Documentação, Conservação do Movimento Moderno (DOCOMOMO), que abordou a obra do escritório carioca MMM Roberto. A mesa de debates foi composta pelos arquitetos João Calafate, Luis Amorim (Secretário Executivo do DOCOMOMO), Marcio Roberto (filho do arquiteto Mauricio Roberto), Pedro da Luz Moreira (Presidente do IAB-RJ) e Luiz Felipe Machado (autor de uma tese sobre os irmãos Roberto). O encontro também teve a participação determinada da arquiteta Ceça Guimarães (vice presidente do IAB-RJ) e também diretora do DOCOMOMO no Rio de Janeiro.

A mesa de debates foi aberta pelo arquiteto Marcio Roberto, que apresentou uma série de depoimentos afetivos e familiares do escritório dos Irmãos Roberto, dentre os quais se destaca a compreensão do processo de projeto como um constante debate entre as três personalidades. O projeto do escritório para a cidade de Brasilia também foi destacado como portador de um debate entre escala e pertencimento, tendo sido inclusive revisitado mais contemporaneamente como referência.

Depois veio o depoimento do arquiteto João Calafate, que declarou sua filiação incondicional aos objetos realizados pelo escritório, que inclusive determinaram sua escolha profissional. João declarou que nasceu e cresceu no edifício da rua Voluntários da Pátria, 127 em Botafogo projetado pelo escritório dos MMM Roberto. João Calafate acabou construindo uma autobiografia sentimental a partir da vivência que experimentou nos edifícios projetados pelo escritório.

A palestra do arquiteto Luiz Felipe Machado, que escreveu uma tese sobre a produção do escritório, versou sobre a obra dos arquitetos apresentando um vasto material iconográfico. Luiz Felipe destacou o esquecimento e o descaso a que foi condenada a obra dos três arquitetos.

Por último, o arquiteto Luis Amorim pontuou muito bem a estruturação de alguns escritórios do movimento moderno brasileiro em torno de laços familiares e lançou uma importante pergunta para a reflexão contemporânea. Porque a produção contemporânea de edificações multifamiliares não compartilha a mesma qualidade dos edifícios projetados pelos irmãos Roberto?

domingo, 28 de setembro de 2014

Ainda as eleições do CAU-RJ

Chapa do CAU-RJ Fortalecimento da Arquitetura e Urbanismo
Serão completados três anos de existência do Conselho de Arquitetura e Urbanismo no final de 2014, uma conquista dos arquitetos que construiram um conselho uni profissional, independente dos engenheiros. Mas é preciso reconhecer, que se nossa avaliação no nível federal é extremamente positiva, já na esfera estadual ela deixa muito a desejar. No plano federal conquistamos o sistema de informação unificado do SICAU, que está em funcionamento, e apesar do bloqueio de algumas informações pelo antigo sistema CONFEA, ele foi instalado e já está operando. Já no âmbito estadual o CAU-RJ está com a fiscalização ainda muito incipiente, não denunciou algumas práticas deletérias de órgãos públicos, que permanecem contratando projeto por menor preço ou por pregão eletrônico, e o mais grave de tudo, deu apoio a um concurso do BNDES que não previa a contratação integral do vencedor do concurso.

Por esse motivo, o IAB-RJ a partir de uma orientação do seu Conselho Superior, que se reuniu em Brasilia no final de agosto, e pelo seu Conselho Deliberativo que se reuniu no Rio de Janeiro no começo de setembro, onde foi determinado que a entidade participasse intensamente do debate eleitoral do CAU. O IAB-RJ constituiu uma chapa para concorrer as eleições do CAU-RJ, encabeçada pelos companheiros; Luiz Fernando Janot e Pablo Benetti como conselheiros federais, e pelo seu ex presidente Jeronimo Moraes como candidato a Presidente do CAU-RJ, com o nome de FORTALECIMENTO DA ARQUITETURA E DO URBANISMO.

As teses defendidas pelos IABs são que os conselheiros indicados para os diversos CAUs deveriam ser profissionais com ampla atuação, nos diversos campos tais como; projeto, planejamento, gestão, ensino, conservação e outros evitando-se a todo custo que a dedicação seja exclusiva ao conselho. Fortalecimento dentro dos CAUs das diversas entidades que construiram o conselho uni profissional; IABs, FNA, Sindicatos, ASBEA, ABEA e ABAP de forma a ancorar a atuação dos seus respectivos conselheiros. Defesa da idéia do concurso público de projetos de arquitetura como forma mais transparente para contratação de obras públicas. E defesa da integridade do projeto como atividade autoral, que se desenvolve em diversas fases, tais como estudo preliminar, anteprojeto, aprovação legal e projeto executivo, mas que não podem ser independentes e possuem uma responsabilidade nominada de um profissional, que assina sua autoria.

Importante também destacar, que o IAB-RJ investiu até o último momento numa chapa de unidade das entidades que representam os arquitetos; IAB, Sindicato, ASBEA, ABEA e ABAP. Mas foi confrontado pelo Sindicato com indicações de conselheiros que representavam o CAU-RJ, que seriam como representações endógenas ao organismo recém criado, idéia que foi amplamente rechaçada, uma vez que em nossa visão as entidades dos arquitetos é que deveriam ser empoderadas.

Visite o site no facebook

https://www.facebook.com/fortalecimentoau?fref=ts

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Lançamento do Concurso do MIS-Pro

Mesa de lançamento do Concurso de Projetos do MIS-Pro;
Mariana Varzea Superintendente de Museus, Adriana Rattes
Secretária de Cultura, Pedro da Luz Presidente do IAB-RJ,
Rosa Maria Diretora do MIS, Olga Campista Subsecretária
de Cultura e Larissa Graça da Fundação Roberto Marinho.
Foi realizado na última terça feira dia 23 de setembro de 2014 o lançamento do Concurso de Projetos da edificação do Museu da Imagem e do Som - Profissional (MIS-Pro) localizada na Lapa numa quadra adjacente a Sala Cecília Meireles e ao Hotel Bragança, imóveis históricos que também estão sendo requalificados. A iniciativa reforça uma importante sinergia de recuperação de antigos imóveis no Largo da Lapa, com exemplares importantes do ecletismo carioca, e que abrigarão importantes instituições culturais da cidade.

O concurso será uma oportunidade para arquitetos do Brasil inteiro se aproximar do tema da requalificação edilícia, se envolvendo com um programa que tem como premissa aproximar o acervo do MIS dos pesquisadores brasileiros. O novo edifício que está em construção na avenida Atlântica no bairro de Copacabana terá a função de abrigar o acervo da instituição, que será exposta para um público mais amplo, enquanto a edificação na Lapa irá recepcionar os pesquisadores interessados no seu imenso acervo. A idéia é a construção de uma instituição viva e dinâmica, que se afaste da mera guarda e manipulação do seu acervo, mas que incentive a pesquisa criativa.

Para maiores informações acessem o link

http://concursomispro.iabrj.org.br/

sábado, 20 de setembro de 2014

A cúpula de Santa Maria del Fiori

A cúpula de Santa Maria del Fiori em Florença uma concepção
extraordinária onde há adequação entre o conjunto da catedral,
e também ao conjunto da cidade
No dia 19 de agosto de 1418 foi lançado na cidade de Florença na Itália um concurso para cobrir o altar da magnífica igreja de Santa Maria del Fiori, que vinha sendo construída a mais de um século, e que prometia ao vencedor um prêmio de duzentos florins. O concurso envolvia um desafio enorme cubrir um octógono de paredes com um vão de 43,12 metros, numa altura com relação ao solo de 58,19 metros. O simples envio dos materiais necessários para essa empreitada, numa altura de quase 60 metros do solo, o que corresponde a um edifício moderno de quinze andares era um desafio de proporções épicas. Muitos levantavam a hipótese de enchimento da área do octógono com areia compactada até o perfil da futura cúpula, com a utilização dessa base como fôrma da imensa estrutura, para depois esvaziá-la. O anúncio do concurso de 1418 do Bando da Opera del Duomo, simplesmente conclamava:

A dupla cúpula, que resolve com maestria em 1418 o problema
de vencer o vão extraordinário da catedral de Florença, que
vinha sendo construída a mais de um século
"Quem desejar fazer algum modelo ou desenho para a abóboda da grande Cúpula que está sendo construída pela referida Opera, para um estrutura de suporte, andaime ou outra coisa ou qualquer mecanismo para alçar relativos à construção e ao aperfeiçoamento da dita Cúpula ou abóboda... deverá fazê-lo antes do final do mes de setembro."

A solução dada por Bruneleschi ao problema é de uma incrivel maestria, que muitos teóricos passaram a considerar como a fundação de uma nova forma de encarar o problema da construção, fundando a figura do arquiteto moderno. A dupla cúpula, que foi construída se auto sustentava e garantia ao mesmo tempo uma das mais belas relações de proporção, não apenas com o objeto arquitetônico da catedral, mas também com o conjunto da cidade. Simplesmente, uma síntese bem equilibrada de eficiência construtiva e beleza estética. ARGAN, Giulio Carlo numa passagem memorável no artigo "O significado da cúpula", citando Vasari, o primeiro historiador de arte declara:

Técnica persa de construção de cúpula sem escoras dominada
pelos persas, que Bruneleschi utilizou em Florença
"Vendo-se ela elevar-se em tamanha altura, que os montes ao redor de Florença parecem semelhantes a ela.' Portanto, também está relacionada ao céu que domina aquele horizonte de colinas e contra o qual 'parece que realmente combata - e na verdade, parece que o céu dela tenha inveja, pois sem cessar os raios todos os dias a procuram'."

A cúpula de Bruneslechi é talvez o objeto arquitetônico mais citado e debatido, desde sua concepção em 1418, começando por Alberti que considerava sua formulação, "quase que por milagre, mas por um milagre da inteligência humana no céu de Florença." O único que não dedicou uma linha sequer a esse feito grandioso foi o próprio autor, Bruneleschi, que permaneceu apenas realizando e construindo.

Quando eu era jovem, um estudante na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ na cidade do Rio de Janeiro não entendia muito bem porque os professores invariavelmente citavam essa obra de forma recorrente. Meu argumento um tanto simplista repetia; "Porque tanto debate e discurso, se  o cara fez apenas a cúpula da igreja?" Apenas quando visitei Florença e vivenciei sua espacialidade compreendi porque tanta reflexão teórica sobre esse feito humano extraordinário. A cúpula de Bruneleschi permanece na cidade de Florença questionando simplesmente, a capacidade humana de construir de forma adequada.

Abaixo um filme sobre a cúpula

http://www.archdaily.com.br/br/627169/como-brunelleschi-construiu-a-cupula-da-catedral-de-florenca