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terça-feira, 16 de julho de 2013

Doze Anotações sobre Alvaro Siza do cliente Nuno Higino

Expo Lisboa de Alvaro Siza
Na homenagem dos oitenta anos do arquiteto Alvaro Siza, o cliente Nuno Higino faz um belo relato sobre o modus operandi do grande arquiteto português. Particularmente, os itens 4 sobre o olhar e 5 sobre o canteiro de obras mostram esta forma de conceber em eterno processo. 

Quando Siza esteve por aqui, no teatro do Niemyer em Niterói descrevendo o processo de concepção da porta da Expo Lisboa, ele também explicitou esta sua pesquisa muito particular. Naquela exposição ficou claro como a partir da interação com seu calculista, Siza chegou a formulação do edifício da Expo de Lisboa. Incrivel como havia ali um enorme esforço para desmistificar o processo de concepção de projeto, qualificando-o como um desenvolvimento de uma interação muito particular, a partir de uma conversa num café com o engenheiro. Em contraposição ao nosso arquiteto Oscar Niemyer percebe-se uma imensa diferença, enquanto um apresentava uma premissa meio idealizada - as curvas da mulher brasileira ou as montanhas do Rio de Janeiro - o outro reforça que o processo criativo é fruto da transpiração, mobilização, interação e da concentração em torno de um tema.

Expo Lisboa de Alvaro Siza
O item 7 também relembra, não sei se itencionalmente, uma passagem recorrente das palestras do Oscar Niemyer, a que ele mencionava a catedral de Notre Dame em Paris. Na qual, ao adentrar a sua nave sentia que sua alma, de um materialista histórico, se ajoelhava a sua revelia. O item 11 mostra muito do silêncio e uma certa melancolia que a obra de Siza nos transmite. Concordo com o Nivaldo Andrade da Bahia, que este emsmo item 11, critica um pouco da nossa situação contemporânea sobre carregada de textos e de explicações...

Enfim,vale a pena ler as doze anotações e visitar as obras de Siza...






Igreja de Santa Maria
1 Por mais voltas que lhe demos, a nossa cultura nunca deixará de ser platónica no sentido em que, para nós, conhecer significa recordar-se. E, portanto, toda a vida é um processo de reconstrução. Siza gosta de dizer que, em arquitectura, ninguém inventa nada. É uma outra forma de dizer o mesmo.

2 Não sei muito sobre História mas suspeito que nunca, como hoje, se falou tanto na diferença e nunca tudo foi tão igual. Até na arquitectura. Querer obsessivamente ‘marcar a diferença’ representa, em geral, o caminho mais curto para a repetição.


3 A diferença entre a boa arquitectura e a má ou assim-assim é que a boa arquitectura copia sem repetir e a ‘outra’ repete ao copiar.

4 Tudo começa nos olhos. Siza costuma falar na necessidade de aprender a olhar. E na importância de viajar. A arquitectura educa o olhar e educa-se no olhar. Só quando se olha muito e bem se começa a vislumbrar o essencial. Sempre Platão…
  
5 Recordo-me das visitas de Siza à igreja do Marco durante a construção. Mal chegava, olhava. Percorria a obra, sozinho, e olhava. Às vezes media com as mãos. Depois de olhar, pausadamente, e de medir com as mãos, reunia a equipa: colaboradores do gabinete, técnicos das especialidades, encarregado geral, fornecedores, dono da obra.

6 Ao longo do processo, Siza foi-se descosendo: ‘Fui visitar La Tourette’, ‘fui visitar o convento de Barragán’, ‘fui visitar a capela de Vence’, ‘fui visitar uma igreja no sul de Itália’. E quantas outras não terá visitado ao longo do processo e da vida!

7 ‘Numa delas – disse-me, mas já não me recordo em qual. Ou se não me disse, sonhei – entrei e ajoelhei-me. Não podia fazer outra coisa’. Eu compreendo, Siza.

8 Nunca me apercebi se alguma vez, ao entrar na ‘sua’ igreja, caiu de joelhos, por não poder fazer outra coisa. Estou convencido que se o fez, fê-lo discretamente. E se não o fez, foi por modéstia.

9 Poucos dias depois da inauguração (ou sagração, como preferem dizer os peso-pesados do sagrado) Siza entrou e começou a percorrer o espaço, como sempre fazia. Acendeu um cigarro. Com o primeiro fumo atravessado na garganta, saiu na direcção da porta e deitou o cigarro fora. ‘Esqueci-me que agora já não se pode fumar aqui!’

10 Eu sorri. Não faço ideia do que lhe respondi, se é que respondi alguma coisa. Hoje, ao recordar o episódio, ocorre-me o poema ‘Irene entrando no céu’, de Manuel Bandeira: ‘Entra, Irene, você não precisa pedir licença’.

11 Siza nunca explicava tudo, o que, não raras vezes, era um grande incómodo porque obrigava a pensar. E não era por não saber. Ou seria. Eu julgo que ele não explicava tudo por respeitar a inteligência das pessoas.

12 A virtude do mestre é ditar o silêncio. Ditá-lo como se dita um texto a quem está a aprender a escrever. Com todas as pausas necessárias.

http://p3.publico.pt/cultura/arquitectura/8437/doze-anotacoes-nos-80-anos-de-alvaro-siza#.UeBAnLQCHdA.facebook