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quinta-feira, 6 de março de 2014

O longo século XX

A capa do livro de Giovanni Arrighi
Num livro brilhante de 1996, o autor italiano Giovanni Arrighi formula uma das mais profundas e acertadas interpretações da nossa dimensão contemporânea; O Longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. Sem dúvida uma brilhante construção para enfrentar a crescente volatilidade e aumento de mobilidade do capital em nosso mundo. A incapacidade do processo de desenvolvimento econômico se fixar por um período mais longo numa determinada base geográfica, vem se repetindo de forma recorrente. Efetivamente dos anos 70 para cá assistimos a processos de desenvolvimentos rápidos e efêmeros em diversas localidades; Tigres Asiáticos, Espanha, Brics ou Países Emergentes. Nenhum deles se mantém por muito tempo sobre sua base geográfica.

Arrighi inicia sua interpretação se alinhando a escola da regulação francesa, que vem defendendo que nossa crise é fruto da desestabilização do sistema de regulação do capital ou do regime de acumulação, que ela denominava por um binômio fordista-keynesiano. Esse regime era caracterizado como uma fase particular do desenvolvimento capitalista, onde existiam fortes investimentos em capital fixo que geravam imensos aumentos na produtividade e no consumo de massas. Havia também a concentração em imensas unidades produtivas, a presença de um estado de bem estar social e uma regulação clara por parte deste mesmo estado. A partir da década de 70 começa a emergir pressões para desregular de forma geral e se instala o declínio do estado provedor e planejador, a atividade econômica se pulveriza, havendo o ressurgimento da produção artesanal e de redes empresariais pessoais e familiares.

"O keynesianismo é descrito como o modo de regulação, que permitiu que o regime fordista emergente realizasse todo o seu potencial." ARRIGHI 1996  pg02

A partir da década de 70 do século XX este modo de regulação começa a demonstrar uma certa exaustão e a ordem econômica passa a pressionar pela desregulamentação geral, do mundo do trabalho, dos impostos, da capacidade de planejamento do estado. Esse argumento se aproxima do geógrafo David Harvey, que identifica neste mesmo momento, a década de 70, a emergência de uma transição histórica do regime fordismo-keynesianismo para o que este autor chama de maneira provisória de "acumulação flexível". Todos argumentam que emerge uma hegemonia do capital financeiro, que se desvencilha da regulação dos estados nacionais, erodindo fortemente a capacidade destes de prever e planejar suas ações. Instala-se um vetor contrário ao que parecia ser a  lógica direcional do segundo pós guerra do capitalismo, que era um planejamento sistêmico, imensas inversões em capital fixo por parte do estado, regulamentação e controle pelo estado e concentração em grandes monopólios da atividade econômica.

A partir desta constatação, Arrighi se remete a um velho argumento do historiador francês Fernand Braudel, de que a característica básica do capitalismo histórico em sua duração longa é a flexibilidade e o ecletismo. 

"Permitam-me enfatizar aquilo que me parece ser um aspecto essencial da história geral do capitalismo: sua flexibilidade ilimitada, sua capacidade de mudança e de adaptação. Se há, segundo creio, uma certa unidade no capitalismo, da Itália do século XIII até o Ocidente dos dias atuais, é aí, acima de tudo, que essa unidade deve ser situada e observada." (BRAUDEL, Fernand 1982)

Apesar do reconhecimento por parte do mesmo autor, que em determinados momentos da história, o capitalismo parece se especializar como no século XIX com a imensa expansão da industria, que parecia apontar uma identidade inseparável entre industrial e capital, logo percebe-se que a verdadeira liberdade do capital é estar liberada da produção, e, por conseguinte não especializado e adaptável. O mesmo BRAUDEL também irá apontar que o sintoma da preferência pela liquidez era um sinal de maturidade de um ciclo da história do capitalismo.

"Todo desenvolvimento capitalista desse tipo, ao atingir o estágio de expansão financeira, parece anunciar, em certo sentido, sua maturidade: é um sinal do outono." BRAUDEL, Fernand 1984 

Marx no Capital também apresenta uma fórmula próxima ao argumento de Braudel, a sequência de transformação de; Dinheiro(D) - Mercadoria(M) - Mais Dinheiro(D'), e que aponta a tendência do sistema  a preferir a forma líquida do dinheiro, pois esta representa flexibilidade e liberdade de escolha. Marx como um homem do século XIX, e portanto inserido no grande boom da industrialização, havia destacado de forma desproporcional a questão da mercadoria em sua teoria, afinal o mundo capitalista vivia sua maior expansão material dos últimos anos.

Por outro lado dentro desta construção há também as teses dos mesmos, Fernand Braudel e Marx, mas também de Weber de que o capitalismo tal qual o conhecemos é inteiramente dependente de uma ordenação estatal forte. A emergência e a expansão do capitalismo são absolutamente dependentes do poder estatal, constituindo-se como uma antítese da economia de mercado. Para Braudel, inclusive o papel da Europa como "monstruosa modeladora da história mundial" a partir de 1500, só se realiza pela simbiose encontrada aí entre poder estatal e capital.

"Portanto, foi o Estado nacional bem delimitado que proporcionou ao capitalismo sua oportunidade de desenvolvimento - e, enquanto o Estado nacional não ceder lugar a um império mundial, o capitalismo também persistirá." WEBER, Marx - História Geral da economia - Editora mestre Jou São Paulo 1968

Mas o que me parece fundamental destacar na construção de ARRIGHI 1996, a partir destes argumentos de Marx, Braudel e Weber, é a identificação de um padrão geral na história de longa duração do capitalismo, que intercala épocas de expansão material e expansões financeiras. Assim existiriam quatro ciclos sistêmicos de acumulação referenciados a bases geográficas específicas e a tendência do capital a procurar sua forma monetária. O primeiro seria o ciclo Genovês e iria do século XV ao início do XVII, o segundo seria o ciclo holandês do fim do século XVI até meados do século XVIII; o terceiro seria o ciclo britânico da segunda metade do século XVIII até o início do século XX; e por fim um ciclo americano, iniciado no fim do século XIX até a nossa atual fase de expansão financeira da atualidade. Todos envolvem bases produtivas vigorosas que migraram para os serviços financeiros, tornando-se de certa forma os banqueiros do mundo, a partir da constatação de que a verdadeira flexibilidade e liberdade estava no acúmulo de moeda.

O sistema montado por ARRIGHI 1996 nos permite compreender como o capitalismo em sua longa expansão pelo mundo demonstra um padrão de repetição, no qual se intercalam fases de expansões material seguidas de financeiras. Esta recorrência não é mecânica, possui especificidades a cada base geográfica e a cada período histórico na qual se desenvolve. Assim os dois primeiros ciclos - o Genovês e o Holandês - estão inseridos na fase mercantilista, uma fase na qual as dimensões do tempo e do espaço ainda não haviam sido mudadas de forma substancial, como nas duas posteriores. Por outro lado, percebe-se a consolidação da figura do Estado Nacional, como governança apropriada para resguardar os interesses do desenvolvimento capitalista. No primeiro ciclo, Genova faz parte do hall das cidades estados italianas, enquanto no segundo ciclo a liga Hanseática já é um consórcio de cidades, que ao final migrará para a Inglaterra, um Estado Nacional consolidado. Assim percebe-se o declínio do poder das cidades como entidades autônomas, e a emergência da figura do Estado Nacional.