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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Nunca fui carnavalesco, mas como não se emocionar com a mobilização das cidades brasileiras

Nunca fui muito de carnaval. Mas não há como não se emocionar com a mobilização das cidades brasileiras por uma farra, alegria e brincadeira estruturada como a que acontece nesses tempos do reinado de Momo. A organização da festa é sempre algo pensado e estruturado com ensaios e preparativos sofisticados, mobilizando diversas energias e iniciativas. O filósofo francês Lefebvre no livro Revolução Urbana determinou como uma tendência utópica da sociedade contemporânea, uma realização típica da nossa vivência;

"Na rua, teatro espontâneo, torno-me espetáculo e espectador, as vezes ator. Nela efetua-se o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana, mas separação estipulada e imobilizada...Uma tal apropriação mostra que o uso e o valor de uso podem dominar a troca e o valor de troca"

Essa me parece ser a essência do carnaval no Brasil, a rua como palco da representação individual de personagens onde espetáculo e espectador estão fundidos. A rua, como palco vira uma exibição tão particular, que ao mesmo tempo sou ator e espectador.

A expressão urbano para Lefebvre no mesmo livro envolve uma condição utópica ainda não alcançada, um processo no qual a contemporaneidade está envolvida e que envolve uma conquista, que se dirige para uma urbanidade. O urbano para Lefebvre é um processo no qual está inserida a ampliação da sociabilidade, a troca entre diferentes, o encontro com o contraditório. Efetivamente um processo que está instalado em qualquer das nossas grandes cidades, onde encontramos indivíduos e grupos que pensam de forma diferente da nossa, fazendo com que relativizemos nossos costumes e crenças cotidianas.

Há também no mesmo Lefebvre uma passagem que determina que o sentido maior da cidade é a festa, a explosão de espontaneidade que ocorre e nos surpreende, a surpresa inusitada. Os dias de carnaval no Brasil são exatamente a expressão dessa festa, que nos aponta essa urbanidade maior que estamos condenados quando moramos nas cidades.