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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O IAB completou 93 anos

A projeção do filme com a palestra de Iwan Baan
No dia 27 de janeiro de 2014 o IAB completou 93 anos, uma festa que não deveria estar restrita a categoria profissional dos arquitetos, mas que pretendeu envolver o conjunto da sociedade, muito além portanto das lutas corporativas da categoria. A festa foi  realizada na sua sede na rua do Pinheiro 10 no Flamengo, com direito a lanche, projeção de filme, debate e reunião do Conselho Deliberativo. O IAB  desde sua fundação se notabilizou por lutas que transcendiam em muito a luta imediata e corporativa dos arquitetos. Ele se notabilizou por ser uma instituição, que promove e debate a arquitetura e o urbanismo do ponto de vista cultural.

A noção de cultura envolve um dos temas mais complexos da nossa contemporaneidade e se refere a uma ampla gama de aspectos que precisam ser explicitados, para objetivação do debate. Cultura é tradicionalmente definida como algo que se contrapõe a natureza, algo que separa o homem dos condicionamentos animais. No entanto, essa definição é por demais idealizada e romântica, pois trabalha com uma separação muito rígida da experiência humana, cindida entre artficial e natural, que não corresponde ao real. Por isso, pode se também dizer que cultura é cultivo, uma forma de cuidar que é ativa e que trabalha com o natural, num processo dialético que relaciona o artificial e o natural, como aquilo que fazemos ao mundo, e o que o mundo nos faz. Assim a palavra cultura reúne na verdade opostos como; liberdade e determinismo, racionalidade e espontaneidade, liberdade e necessidade, mudança e identidade, o dado e o criado, enfim criação e repetição. A idéia de cultura combina no mesmo conceito, projeto consciente e um excedente não planejado, portanto, ação coordenada e pensada, e improviso estão reunidos. Encarar arquitetura como cultura significa reconhecer que a sua construção envolve também não iniciados, leigos que produzem seu próprio espaço. O fenômeno da arquitetura, ou da construção do espaço, assim como a arte não podem ser encarados como de domínio de alguma categoria. A ampliação da divisão social do trabalho e a interdependência das sociedades humanas podem nos fazer acreditar, que a produção do espaço construído pelo homem poderia ser monopólio de arquitetos formados com diplomas. No entanto, o caráter basicamente empírico ou experimental, portanto cultural, da percepção do espaço, da construção estrutural, do conforto do abrigo, fazem da arquitetura um domínio aberto ao fazer humano.

O debate que foi suscitado pela projeção do filme de Iwan Baan, sobre formas de ocupação de espaços variados espalhados pelo mundo, nos trouxe para a dimensão da produção da cidade brasileira, tal qual ela vem se reproduzindo. Problemas como precariedade, o improviso, necessidade, o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (MC,MV), produção da habitação, qualidade e quantidade. Há na cidade brasileira um pesado dominio do improviso, das ações voluntariosas, do fazer sem planejar. Sem dúvida, mais celebração destes aspectos nos parece arriscado e comprometedor, não só por uma lógica do discurso corporativo, mas também para o seu próprio desenvolvimento social. Por outro lado, o reconhecimento de que grande parte da produção do espaço construído pelo homem escapa do controle dos arquitetos é um fato a ser debatido e entendido por nós mesmos. As vanguardas do centro da Europa que geraram e gestaram o modernismo, defendiam que estavam interessadas em produzir não mais os monumentos, mas a arquitetura indiferenciada da cidade industrial, que já demonstrava um crescimento explosivo. Loos, Wagner, Mies, Gropius, Hannes Meyer e outros ironizavam o empostamento eclético da arquitetura, que se restringia aos grandes monumentos e a grandes casas burguesas e não participava no desenho das periferias indiferenciadas das cidades industriais. Na contemporaneidade, as grandes figuras do star sistem arquitetônico parecem que novamente se refugiaram nos monumentos e nas grandes obras, deixando de lado uma imensa informalidade, que acaba por definir muito o aspecto geral de nossas grandes metrópoles.

A pergunta, que fica do debate no IAB-RJ é que, será que os arquitetos conseguem construir uma estratégia de atuação diante deste cenário de ampliação da informalidade no mundo? Há um antigo paradigma fundador do ofício, desde os tempos de Vitruvio, que distinguia a construção com intenção estética, da mera construção do abrigo, caracterizando a primeira como a verdadeira arquitetura. Será que os tempos mudaram, com a explosão das cidades industriais e das metrópoles contemporâneas?