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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Debate sobre habitação no Congresso Brasileiro de Arquitetura










Ontem, quinta feira dia 24 de abril de 2014 foi realizado um debate no Congresso Brasileiro de Arquitetura sobre habitação nas cidades brasileiras, com os arquitetos Elizabeth França, Marcos Boldarini e Jorge Mario Jauregui, mediados por mim, Pedro da Luz Moreira. O que coloquei logo no inicio para todos os debatedores é que a produção habitacional brasileira precisa desenvolver uma melhor conceituação com relação sua inserção urbana, que sua construção deve estar atrelada a um projeto de cidade, mais inclusivo e tolerante. Um modelo de cidade, que promova a aproximação entre diferentes extratos sociais, que se baseie na diversificação de tipologias, que proponha a construção de uma cidade multifuncional, densa e com riqueza de espaços públicos.


A primeira palestrante a se manifestar foi a arquiteta Beth França, professora na FAAP e na USP Cidades, e curadora em 2002 do Pavilhão Brasileiro na oitava Bienal de Arquitetura de Veneza, que iniciou vinculando fortemente os conceitos de democracia e cidade. Segundo a arquiteta paulista a democracia está presente nas cidades, como uma imposição, pois ela nos ensina no seu cotidiano a conviver com os opostos, com a diferença. Beth percorreu também experiências emblemáticas do século XX no campo da habitação, para lembrar aos presentes das experiências humanas neste campo. Iniciou com o ano de 1927, mostrando a emblemática Siedlung Wiessenhoh em Sttugart na Alemanha, conjunto habitacional no qual os grandes mestres do movimento moderno europeu estavam presentes, como Mies, Le Corbusier, Gropius, Hibelsiemer, J. P. Oud e outros. A ideologia do movimento moderno afirmava então que os arquitetos não estavam mais interessados em construir os grandes monumentos, como igrejas, teatros, organismos governamentais, mas a edificação indiferenciada das periferias intermináveis da cidade industrial européia. Beth França também mostrou experiências como; o Pedregulho de Reidy de 1950/52, o IBA Berlim de 1957, o Pruitt Igoe em Saint Louis de Minoru Yamaki de 1954, contextualizando a complexidade da habitação nas grandes cidades modernas, e mostrando os desafios e experiências bem sucedidas ou fracassadas que foram promovidas. A partir deste ponto a arquiteta Beth França apresentou um forte questionamento relativo à idealização da cidade, promovida pela geração modernista, que na verdade pretendia homogeneizar a complexidade da vida, não oferecendo qualquer resposta aquela diversidade e alteridade anteriormente apontada como a principal característica da urbe. Beth França então apontou os programas de urbanização de favelas como; Favela Bairro e Renova São Paulo, como esforços para promover uma mudança de paradigma para a cidade brasileira. Onde se celebre a intensa utilização do espaço público, da vida comunitária e solidária presente nas favelas brasileiras, como um contraponto ao modelo de nossas cidades formais, onde o espaço individual, do isolamento do apartamento e do automóvel ganharam uma dimensão desmedida.




O segundo palestrante foi o arquiteto também paulista Marcos Boldarini, que coordena projetos de urbanização de favelas e de habitação de interesse social há mais de doze anos. Marcos iniciou uma comparação entre tecidos urbanos formais e informais - o bairro de Panalto Paulista e a favela de Heliopolis - dispostos na mesma escala, refletindo sobre quais eram as relações entre território e sociedade. Qual o papel da maior presença das infraestruturas urbanas no desenvolvimento de leituras diferenciadas do território? Como equalizar a distribuição destas infraestruturas no território da cidade brasileira, promovendo uma cidade mais inclusiva? O arquiteto apresentou quatro projetos de sua autoria; Nova Jaguaré, Corruiras na Operação Urbana Consorciada de Água Espraiada, Areião, e por último Cantinho do Céu, todas com uma forte interação com mananciais, beiras rio e frentes aquáticas. A partir da experiência acumulada destes e de outros projetos, Marcos Boldarini desenvolveu uma interessante reflexão entre o desenvolvimento de micrro-economias e localização territorial, enfatizando como estes laços são importantes para a construção da auto sustentabilidade de variados agentes. Boldarini também discorreu sobre o desfrute e a apropriação de espaços de forma coletiva e a preservação de valores ambientais mais adequados. O desenvolvimento de atividades no espaço público projetado como; cinema, exercícios para a terceira idade, banhos e mergulhos revelam as potencialidades das comunidades na auto gestão e manutenção destes territórios como parte integrante da cidade.




O terceiro palestrante foi o arquiteto argentino, radicado no Rio de Janeiro, Jorge Mario Jauregui, que participa intensamente de programas de urbanização de favelas como; Favela Bairro, PAC urbano e Morar Carioca. O inicio da palestra de Jorge Mario se centrou na caracterização do "magma da complexidade urbana", que ele apontou como um esforço de leitura e de escuta a partir de diferentes disciplinas como; arquitetura e urbanismo, psicanálise, filosofia, engenharia, meio ambiente e outras. Para Jorge Mario a oposição de variados tempos; de projeto, do político, da comunidade, muitas vezes desarticulam demandas pretendidas e consolidações, dissipando esforços variados, que não realizam no cotidiano as transformações almejadas. A participação comunitária, que qualifica as intervenções nas favelas segue para Jorge Mario uma sequência de ações; chegada, projeto, execução de obras e controle pós implantação. Para o arquiteto a variação tipológica cobrada dos projetos demanda do desenhador uma consciência do território em diversas escalas - macro e micro - e, num raciocínio contínuo e tenso entre Repetição e Diferenciação. Para Jorge Mario há também um novo desafio colocado para as intervenções em favelas, a questão da melhoria das casas pré-existentes, que demandam dos arquitetos, das escolas de arquitetura, do poder público um novo pensamento, afastado da ortodoxia e do modus operandi atual.




Após esses debates houveram interessantes questionamentos da platéia que enriqueceram o tema e esclareceram posicionamentos diferenciados. Destaco aqui, a pergunta do professor Pablo Benetti da UFRJ, que perguntou a mesa sobre o esforço das cidades brasileiras para romper com o estigma da segregação entre tecidos formais e informais, entre cidade e favela. A pergunta certamente está demandando dos arquitetos e urbanistas brasileiros novas formas de pensar e de se posicionar, não só com relação aos seus próprios projetos, mas como se promove esta manutenção no longo prazo e no nosso cotidiano.