Follow by Email

domingo, 10 de dezembro de 2017

Os 100 anos da Revolução Russa

"Aviso aos não comunistas: Tudo é comum, até mesmo Deus." 
BAUDELAIRE, Charles, Mon coeur mi á nu, feuiller 61

"Se você pegar o mais ardente dos revolucionários, e der a ele um poder absoluto, num ano ele será pior do que o próprio tsar." BAKUNIM, Mikhail

"Todas as revoluções modernas contribuiram para o fortalecimento do Estado." CAMUS, Albert


No dia 07 de novembro de 2017* fez cem anos da Revolução Russa, ou da tomada do Palácio de Inverno pelos bolcheviques na cidade de Petrogrado, terminando com o governo provisório de Alexander Kerensky. Na verdade, o processo de mudança do velho império tzarista se inicia em 1905, com uma série de rebeliões que foram se avolumado até 1917, a partir da decretação da guerra entre Japão e Russia. O ano de 1917, concentra duas revoluções, a de fevereiro e a de outubro, as quais se segue as guerras civis, de 1918 a 1921, que geraram uma mentalidade beligerante e acuada, que por sua vez, acabou afastando a direção revolucionária de seus impulsos iniciais libertadores. O livro, A revolução que mudou o mundo: Russia 1917, de Daniel Aarão Reis nos traz uma reflexão, passados esses cem anos dessa transformação, que ainda reverbera em nosso mundo contemporâneo. O livro se debruça sobre o período, que vai da revolução de 1905, uma revolta contra a autocracia russa, por parte de uma sociedade considerada até então passiva e amorfa, até a revolta dos marinheiros de Kronstadt de 1921, que foi violentamente reprimida pelo governo soviético, e constrangeu vários revolucionários**.

A incrivel qualidade do desenho gráfico russo, poster de
Kazimir Malevich, 1920 no periodo das guerras civis.
Literalmente: "Com a cunha vermelha,bata nos Brancos."
Muitos pensam, que com a queda do Muro de Berlim em 1989, e o desaparecimento subsequente da União Soviética, os apelos contidos nessa preciptação da história foram superados, como possibilidades esgotadas pela modernidade. Apressados pensadores, como Fukuyama e Lyotard, ambos na década de noventa decretaram o 'Fim da História', ou a morte dos 'meta-discursos explicadores", nos condenando a um presente contínuo. A hegemonia neo-liberal, que começa a se instalar em 1979, é potencializada pela queda do Muro de Berlim em 1989, e que permanece formulando teses conservadoras, que ainda alcançam amplos contingentes populacionais. Discursos, que lograram convencer amplas parcelas da população contemporânea, da eternidade do capitalismo, ou de sua lógica implacável e pseudo natural, apesar dos desequilíbrios ambientais do planeta e das suas crises financeiras recorrentes.

"Em suma, o neoliberalismo se tornou hegemônico como modalidade de discurso e passou a afetar tão amplamente os modos de pensamento que se incorporou às maneiras cotidianas de muitas pessoas interpretarem, viverem e compreenderem o mundo." HARVEY 2008 página 13

A primeira questão, a ser considerada é que a primeira revolução socialista ocorre num país atrasado, governado por uma autocracia condicionada por uma dinastia secular retrógrada, com um capitalismo ainda incipiente, e uma sociedade civil pouco desenvolvida. O estopim das revoltas são guerras, como a contra o Japão (1904-1905) e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que claramente demonstram a divergência de objetivos entre população e autocracia tzarista. Numa sociedade assim constituída, irrompeu um processo de indefinição da localização do poder, trazendo demandas sociais represadas e radicalizadas, como nunca antes visto. A centralidade dada ao Estado, como provedor paternalista de transformações demandadas, nessas condições era quase inevitável, uma vez que as organizações sociais eram muito incipientes. As massas clamavam por objetivos simples e que impactavam seu dia a dia de forma concreta, - terra, pão, paz e independência nacional - que não eram considerados pela autocracia. AARÃO REIS modula os acontecimentos em cinco marcos históricos;

"As avaliações críticas e as comemorações que certamente terão lugar neste ano pelo centenário das duas revoluções russas de 1917 não deveriam velar um processo histórico mais amplo que se estende de janeiro de 1905 até março de 1921. É só então, com a assinatura da Paz de Riga, em 18 de março de 1921, e o esmagamento da insurreição de Kronstadt, no mesmo ano, que se completa o ciclo revolucionário constituído por cinco grandes acontecimentos: a Revolução de 1905; as Revoluções de Fevereiro e Outubro de 1917; as guerras civis , de 1918 a 1921; e a Revolução fracassada de Kronstadt." AARÃO REIS 2017 página17

A guerra de fevereiro de 1904 entre Japão e Russia assinala claramente uma disputa regional, a base naval russa no nordeste da China denominada Port Arthur foi atacada pelo ascendente e expansionista império japonês, sem qualquer aviso. A ameaça não mobilizou o velho nacionalismo russo, e deflagrou uma série de manifestações operárias e dentro da até então monolítica forças armadas do império tzarista. Em 09 de janeiro de 1905, uma grande manifestação diante do Palácio de Inverno em São Petresburgo exigia a convocação de uma Assembleia Constituinte e a limitação dos poderes do Tzar. Apesar do tom firme e determinado a multidão ainda entoava hinos religiosos e de louvor ao Tzar Nicolau II, mesmo diante desse contexto a guarda de proteção a monarquia, os cosacos receberam os manifestantes a bala. A matança entrou para a história russa como o domingo sangrento, disparando uma série de grandes ondas de greves naquele ano; em fevereiro, maio e setembro de 1905. Nesse ano, num pequeno centro industrial ao norte de Moscou surgiu uma organização original ágil e flexível, que dificultava a atuação da repressão, o conselho de deputados operários ou soviete, que se disseminou de forma rápida a partir daquele ano.

"Por dificultar a repressão sobre lideranças populares visíveis, essa forma de organização ágil e flexível se disseminou rapidamente e foi adotada em outras cidades, como São Petersburgo e Moscou, com papel central no incentivo e na articulação dos demais movimentos populares na cidade e no campo." AARÃO REIS 2017 página19

Capa do livro de Daniel Aarão Reis
Com a perda de uma sucessão de batalhas na guerra com o Japão, do exército em Mukden em fevereiro, e da marinha no estreito de Tsushima em maio, explode o emblemático motim no encouraçado Potenkim no mar Negro em junho de 1905. A rígida hierarquia da marinha russa é questionada, e os severos castigos a que a marujada era submetida são condenados. Rapidamente a autocracia assina a paz com o Japão, no Tratado de Portsmouth em setembro, e num manifesto de outubro declara o compromisso com a convocação de uma parlamento (Duma).Na época uma série de partidos vivem na clandestinidade, o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) foi refundado em 1903 no exterior, dividido entre bolcheviques, sob a liderança de Vladimir Ilich Ulianov (Lênin) e os mencheviques, liderados por Julius Martov. Nessa ocasião, os partidos de esquerda russos traçavam uma estratégia de duas etapas, na primeira fase sob a hegemonia da burguesia seria convocada uma Assembleia Constituinte, estabelecendo-se uma república democrática, com ampla liberdade de organização partidária e sufrágio universal. Na segunda etapa, os partidos operários e os sindicatos com ampla liberdade de organização proporiam a revolução social. Portanto, as mais diversas correntes da esquerda consideravam necessário abandonar o sistema feudal russo, implantando primeiro uma revolução burguesa. Na extrema esquerda, os anarquistas que as vezes se alinhavam com os socialistas apontavam a proposta da Assembleia Constituinte como fruto de uma 'partidocracia', e celebravam a organização dos sovietes.

"Apenas mais tarde, num futuro impreciso, numa segunda etapa histórica, a questão da revolução socialista entraria na ordem do dia. Entretanto, convém registrar, sobretudo pelo seu impacto futuro, que, entre os marxistas, Lênin e Trótsky, em momentos distintos e com termos diferentes, formularam a hipótese de um processo de interpenetração entre essas duas etapas históricas. Em virtude da inapetência revolucionária da burguesia e das elites sociais, evidenciada na e pela Revolução de 1905, ..." AARÃO REIS 2017 página29

E, aqui desponta o problema já apontado por Lenin no seu livro a Revolução e o Estado, escrito entre agosto e setembro de 1917, logo no retorno do seu exílio de volta a Russia, portanto antes da revolução de outubro, no qual defende que a efetiva revolução operária deveria propor a extinção do Estado Burguês, caracterizado como burocrático e repressor. É interessante assinalar, que Lenin apesar de ter esquematizado um sétimo capítulo para esse livro, acaba por não realizá-lo, por conta dos afazeres revolucionáros a partir de outubro de 1917***. Contrariando a citação de Camus, já na década de sessenta do século XX, que inicia esse texto, Lênin propunha pelo menos em seus escritos teóricos a supressão do Estado, citando Marx;

"Por ora, basta assinalar que a 'compreensão' corrente, vulgar, da famosa máxima de Marx citada por nós consiste em que ele teria sublinhado aqui a ideia de um desenvolvimento lento, em oposição à conquista do poder, entre outras coisas semelhantes Na realidade, é exatamente o contrário. A ideia de Marx consiste em que a classe operária deve quebrar, demolir a 'máquina de Estado pronta', e não se limitar simplesmente a sua conquista." LENIN 2017 página61

Aqui, toda a fragilidade da estrutura da sociedade russa fica clara e sua vertente autocrática e autoritária, que represava as organizações de baixo para cima, impediu que o slogan inicial da revolução de outubro - "todo o poder aos sovietes" - se efetivasse na prática. A destruição do Estado burocrático e repressor pressupunha uma capilaridade das organizações de base, que ainda não existia na Russia, e mesmo em outros países da Europa e EUA, com capitalismos mais avançados. Importante mencionar que a escravidão na Russia foi abolida apenas em 1861. A mobilização de baixo para cima, que várias precipitações históricas inicialmente apresentaram, como; as Comunas de Paris de 1848 e 1871, a Revolução Russa, o maio de 1968 em Paris, dentre outras, acabaram arrefecendo de intensidade e, simplesmente minguando. O desenvolvimento posterior acaba desembocando na constituição de um Estado forte e burocratizado, como os que se desenvolveram na URSS e na Alemanha Oriental, que amplia a opressão ao cidadão.

A segunda questão a ser mencionada, relativa ao legado da Revolução Russa foi a não realização de transformações importantes em outros países da Europa central, como a Alemanha, apesar de sinais claros nesse sentido. Os seguidos motins na Marinha de Guerra alemã, no final da primeira grande guerra, mostravam a capacidade de contaminação dos eventos russos, e do amadurecimento de um processo revolucionário além das fronteiras das nações. A restrição da revolução a apenas um país, que na verdade foi fustigado por uma guerra civil patrocinada pelas burguesias russa e de outros países centrais acabou levando a União Soviética a um socialismo de guerra e de escassez absoluta. Trótsky e Gramsci foram particularmente críticos a esse imobilismo, sempre reconhecendo no entanto a capacidade dos bolcheviques de organizar o estado soviético de forma rápida para se contrapor a essa ameaça real. A única voz, no campo marxista que se levantou contra essa situação do socialismo da penúria foi Rosa Luxemburgo, que na Alemanha celebrava a liberdade como, "liberdade de quem pensa diferente."

A terceira e última questão, que gostaria de destacar como legado da Revolução Bolchevique foi o forte abalo na estrutura patriarcal e conservadora da antiga russa, isto é a subversão nos costumes cotidianos. A Russia tzarista compartilhava costumes abomináveis relativos aos tratos com as mulheres, expressos em ditos populares corriqueiros, tais como; "quanto mais a mulher apanha, melhor a sopa" ou "as pancadas de um bom marido não doem muito tempo". Haviam também práticas ancestrais como o "direito de pernada", que era comum no campo, onde se facultava ao sogro dormir a primeira noite de núpcias com a nora. É verdade, que a ruptura com esse padrão de comportamento se instala já no final do século XIX, por parte das mulheres mais ricas, e mesmo aristocráticas com curso superior, formadas no exterior**** de forma marcante;

"Ao coordenar a ação que eliminou o tsar Alexandre II, em março de 1881, Sofia Perovskaia tornou-se um emblema desse tipo de mulher, mas não foi um caso isolado. Ao seu lado, entre muitas e muitas, figuram Ekaterina Brechko-Brechkovikaia, Vera Figner, Olga Liubatovitch, Elizaveta Kovalskaia, Vera Zassúlitch, Maria Spiridonova, Zina Konoplianikova, agitando consciências, organizando, participando de ações. matando personagens do regime... Essas mulheres não queriam somente subverter a ordem política autocrática, mas também a sua matriz primária, a familia patriarcal." AARÃO REIS 2017 página172

Nesse contexto, uma série de discussões levantadas na Russia no inicio do século XX, só seriam pautadas no ocidente muito mais tarde, tais como; o do movimento das mulheres social democratas que criticavam o feminismo das mulheres liberais, que simplesmente contrapunham mulheres e homens, fragilizando a unidade do movimento operário. Ou os debates em torno do grande sucesso no campo do romance de Nikolai Tchernichevski, com o título de O que fazer?, sintomaticamente escrito na prisão tzarista em 1863. No qual, há um claro protagonismo de uma mulher Vera Pavlovna, que se envolve num triângulo amoroso vivido num contexto afetivo de amizade e abnegação, sem qualquer manifestação de ciúmes. O mesmo título será utilizado por Lênin, no seu clássico sobre os partidos da vanguarda revolucionária constituído por militantes profissionais. Em 1910, no contexto da Internacional Socialista, a II Conferência das Mulheres Socialistas aprova o dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher, em referência a lutas protagonizadas por mulheres operárias dos EUA. Em fevereiro de 1917, ainda no contexto do governo provisório de Kerensky, as mulheres russas conquistam o direito de votar e de serem votadas, aliás muito antes os sovietes já haviam admitidos essa condição, em maio de 1905. Numa greve em Ivanovo-Voznessenski, centro têxtil ao norte de Moscou, nesse maio de 1905 é eleito um soviete composto por 151 deputados, dentre os quais 23 eram operárias. Em 29 de outubro de 1917, um dos primeiros decretos revolucionários determinou a instrução obrigatória para todos e a abertura completa do ensino em todos os níveis, independente de sexo ou nacionalidade. A determinação da jornada de trabalho de oito horas e a decretação da igualdade jurídica entre os sexos também fizeram parte das primeiras preocupações da Revolução de Outubro. Em 1918 foi criado o Comissariado do Povo para Assuntos Sociais, dirigido por Alexandra Kollontai, que apesar das difíceis condições da guerra civil implanta uma série de creches e estabelecimentos pré-escolares, liberando a mão de obra feminina. Por fim em 1920, em 18 de novembro, garante-se às mulheres o direito à interrupção voluntária da gravidez, uma conquista ainda não alcançada no Brasil.

Enfim, o legado da Revolução Russa de 1917 é ainda um período de precipitação histórica, no qual, com o poder indefinido e fragilizado se levantam diversas hipóteses de ruptura e de manutenção do status quo, que lutam entre si, onde todas as emancipações parecem possíveis. Em nossa contemporaneidade, onde o conservadorismo parece demonstrar maior capacidade de convencimento frente a posições progressistas, a superação de nosso presente opressivo e condicionado também parece impossível. E, no fim das contas, o presente ainda está dividido entre os que tem propriedade, e os que não tem, entre os que possuem poupança monetária, e os que não tem, entre os que acessam alguma reflexão, e os que simplesmente repetem...

NOTAS:

* O calendário russo adotado até 1918 era o juliano, que foi formulado por Julio César em 46 AC, o calendário gregoriano, formulado pelo papa Gregório XIII em 1582, tornou-se oficial entre os estados europeus e suas colônias. Por isso, a Revolução Russa de 1917 é muitas vezes chamada de Outubro de 1917, pois há uma defasagem de treze dias entre os dois calendários. A partir de 1918, a União Soviética adotou o calendário gregoriano.

** Trótski se referia aos marinheiros da base de Kronstadt como orgulho e a glória da revolução, e em relação à repressão classificou-a como, "uma necessidade trágica". O próprio Lenin reconheceu que os marinheiros de Kronstadt não eram nem brancos nem vermelhos. Bukharin classificou o movimento dos marinheiros, como antes de tudo contra o não-comunismo de guerra.

***Na edição da Boitempo de 2017 foram publicados os planos, resumos e notas ao livro; O Estado e a Revolução, antes disso há um pósfacio à primeira edição, escrito pelo próprio Lenin;
"Eu já tinha estabelecido o plano do capítulo seguinte, o sétimo. 'A experiência das revoluções russas de 1905 a 1917'. Mas, além do título, não tive tempo para escrever uma única linha desse capítulo - impediu-me uma crise política, a véspera da Revolução de Outubro de 1917. Só podemos nos alegrar com tal impedimento. O segundo fascículo (consagrado à experiência das revoluções russas de 1905 a 1917) deverá provavelmente ser adiado por muito tempo; é mais agradável, é mais útil viver a experiência da revolução que escrever sobre ela." LENIN 2017 página 149

****Na Russia as mulheres só puderam ter acesso às universidades a partir de 1878

BIBLIOGRAFIA:

AARÃO REIS, Daniel - A revolução que mudou o mundo: Rússia 1917 - Companhia das Letras São Paulo 2017
HARVEY, David - O neoliberalismo história e implicações - Edições Loyola São Paulo 2008
LENIN, Vladimir Ilitch Ulianov - O Estado e a Revolução - Editora Boitempo São Paulo 2017

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Modernização ou a ideia de uma revolução burguesa no Brasil

As especificidades de nossa burguesia
O livro A revolução burguesa no Brasil, ensaio de interpretação sociológica é um dos clássicos da elucidação do que significa o nosso país, apontado por Antônio Cândido, numa lista de onze livros, no tema da modernização do país. Essa modernização é a passagem de uma sociedade agrário, senhorial e escravocrata para uma urbano, capitalista e competitiva, que assume no Brasil, por suas particularidades, segundo Florestan Fernandes, um caráter de "uma revolução dentro da ordem" ou "revolução encapuzada". Uma longa transição, que recalca o confronto entre as oligarquias agrárias-escravistas e os centros urbanos aonde pouco a pouco se instala o trabalho livre e o mercado competitivo. O livro está dividido em três partes e foi escrito em duas etapas; as duas primeiras partes, os capítulos um, dois, três e quatro, são fruto de um curso de Florestan Fernandes na USP nas Ciências Sociais em 1966, logo após o golpe civil-militar, pretendendo esclarecer as razões do nosso subcapitalismo, ou das resistências a nossa modernização. A terceira parte, os capítulos seis e sete e última etapa foi escrita no segundo semestre de 1973, com o autor afastado da USP pela ditadura civil-militar, e, abordam as frustrações de um sociólogo de oposição ao regime, que reconhece a acomodação entre arcaísmo e modernização promovida pela nossa história. O livro foi lançado em 1975, ainda antes da emergência do neoliberalismo, que se iniciará no final da década de setenta, com as eleições de Thatcher e Reagan, a expansão capitalista desses tempos ainda estava regulada pelo fordismo e o keynesianismo, que Florestan caracteriza como o capital monopolista. Mas apesar disso, os ensaios e propostas do livro ainda possuem argumentos convincentes, pois se referem a um tempo histórico de longa duração, da independência (1822) à Ditadura civil-militar (1964), destacando uma constância, a acomodação entre as elites decadentes e emergentes. Para FERNANDES 2006 essa acomodação irá gerar uma estrutura estamental, patrimonialista, que toma conta do Estado no Brasil e dita seus interesses não a partir da racionalidade comercial, mas a partir de hábitos oligárquicos:

"Sob semelhante clima de vida material e moral, um vendeiro, por exemplo, podia galgar dura mais rapidamente os degraus da fortuna. Em seguida, fazia por lograr respeitabilidade e influência, através dos símbolos da própria aristocracia agrária, convertendo-se em comendador e em pessoa de bem." FERNANDES 2006 página46

O Brasil nasce como os Estados Unidos, e outras nações na América, fora e além dos marcos culturais do mundo social europeu, afinal o latifundiário da monocultura exportadora não é o burguês ou o empresário capitalista europeu. Apesar disso, a história humana é também um partilhamento de singularidades, que muitas vezes se auto determinam de forma interligada através de padrões comuns de civilização. As noções de centro e periferia exatamente localizam os pontos determinadores e as periferias determinadas, que conformam no mundo ocidental aquilo que foi caracterizado como sua modernidade. Nessa equação há sempre a opção por manter ou renovar o padrão civilizatório compartilhado, mudando-o ou se adequando a ele. O que me parece ser uma característica marcante do Brasil, é uma certa incapacidade de pensar a si próprio com independência. Mas, apesar da absoluta necessidade dessa independência não há como negar que fazemos parte do desenvolvimento da civilização moderna ocidental.

"Há uma tendência, bastante forte e generalizada, no sentido de negá-la, como se admití-la implicasse pensar a história brasileira segundo esquemas repetitivos da história de outros povos, em particular da Europa moderna. A questão estaria mal colocada, de fato, se se pretendesse que a história do Brasil teria de ser uma repetição deformada e anacrônica da história daqueles povos...Trata-se, ao contrário, de determinar como se processou a absorção de um padrão estrutural e dinâmico de organização da economia, da sociedade e da cultura... Falar em Revolução Burguesa, nesse sentido, consiste em procurar os agentes humanos das grandes transformações histórico-sociais que estão por trás da desagregação do regime escravocrata-senhorial e da formação de uma sociedade de classes no Brasil." FERNANDES 2006 página37

E, aqui fica claro que a grande empresa agro-exportadora colonial, que se instala no Brasil a partir da descoberta portuguesa é em si um comportamento mercantil-capitalista, que no entanto drenava as riquezas de dentro para fora. Tal fato, pode ser comprovado pela parcela da renda apropriada pelo agente econômico interno, em comparação ao apropriado pela Coroa Portuguesa, pelos agentes de financiamento, refino e comercialização, que era muito pequena [1]. Assim se perpetuava no ambiente econômico-social do Brasil um estancamento da diferenciação societária e a eternização de um estado de heteronomia. O senhor de engenho da era pioneira da conquista, mais do que um empreendedor é um nobre ou militar, com uma mentalidade de comandante de uma unidade econômica estanque e fechada sobre si mesma, auto-celebrando sua dominação patrimonialista, exatamente pela presença da escravidão.

"Isolado em sua unidade produtiva, tolhido pela falta de alternativas históricas e, em particular, pela inexistência de incentivos procedentes do crescimento acumulativo das empresas, o senhor de engenho acabou submergindo numa concepção da vida, do mundo e da economia que respondia exclusivamente aos determinantes tradicionalistas da dominação patrimonialista... Até que ponto isso é verdade (e também, quão profunda e duradoura se tornou essa influência) evidencia-nos o que sucedeu com Mauá." FERNANDES 2006 página43

A inserção de um componente dinâmico nessa estrutura se dá com a emancipação do país,  com a vinda da corte portuguesa e a necessidade de constituição de um Estado nacional, gerando a intensificação de atividades econômicas em alguns centros urbanos, que promovem o aparecimento de novos tipos e agentes econômicos, rompendo a homogeneidade da aristocracia agrária. O estatuto da autonomia nacional foi afirmado na sua forma meramente jurídica e política, no entanto o substrato material, social e moral da sociedade permaneceu na figura da escravidão. Aqui emerge um pragmatismo, que distorce os fundamentos do liberalismo, apontando sempre para um futuro remoto a ser conquistado pela sociedade e pelo Estado. Estabeleceu-se uma dualidade estrutural na lógica brasileira entre as formas de dominação patriarcal consagradas pela tradição e a mudança de mentalidades, que se restringem a se expressar apenas no discurso, mas não na prática. Nesse esquema, organismos da sociedade civil e os estamentos sociais dominantes passaram a ser a mesma coisa, confundindo-se sempre interesses particulares e celebrações aos das associações de categorias. Na sociedade escravista e patrimonialista apenas uma pequena parcela expressava o querer coletivo, traçava o destino histórico, possuia honra, riqueza e poder, e portanto igualdade e liberdade.

"Eram condições para o rompimento com o estatuto colonial e, ao mesmo tempo, para erigir-se a construção da ordem social nacional a partir da herança colonial (ou seja, de uma "revolução dentro da ordem") FERNANDES 2006 página76

A primeira conciliação se dá entre as classes urbanas, nos centros mais desenvolvidos, que já operavam no mercado de trabalho livre e os estamentos oligárquicos agrários que impedem a extinção da escravidão no Brasil. O autor menciona, que essa conciliação se estrutura não apenas a partir das manifestações do acúmulo monetário, mas a partir do compartilhamento de valores simbólicos e culturais, que constroem a percepção social da dignidade. Nesse meio ambiente, as atitudes patriarcais do oligarca agrário se constituíram em manifestações de honra e dignidade que acabaram por contaminar nosso burguês ascendente. Uma vertente claramente autocrática e discricionária contaminará nossas elites, que ao não se identificarem com a massa de escravos, semi-libertos e o precariado brasileiro, a massa popular constituirá uma nação recorrentemente autoritária.

"As condições histórico-sociais imperantes favoreceram, singularmente, o rápido envolvimento dos demais segmentos das elites senhoriais e, o que é mais importante, imprimiram à modernização amplitude, proporções e intensidade consideráveis para uma sociedade literalmente submersa no tradicionalismo...(foi o que aconteceu, por exemplo, com as instituições jurídicas e políticas, que deveriam moldar uma ordem legal democrática, mas se converteram, basicamente, em instrumentos da burocratização da dominação patrimonialista no nível estamental)." FERNANDES 2006 página87

Modernização e arcaísmo passam a construir uma convivência muito particular e característica do Brasil, uma forma de operar na qual há uma clara propensão das elites dominantes a interpretar qualquer processo de mudança social como assunto privado. A burocratização se articulou com esse privilegiamento estamental construindo um estado intransparente, que espelhava apenas os interesses de uma minoria, na qual havia uma parte decadente dos extratos agrário-escravistas e outra emergente dos centros urbanos mais conectados com as economias centrais. Parcelas representativas das elites burguesas nacionais em conluio com as das economias centrais se declaram, e ao mesmo tempo adiam princípios liberais, em nome de um realismo e pragmatismo, que nada mais faz do que adiar o amadurecimento das suas próprias responsabilidades como dominantes. Essa imaturidade irá acabar por afastar a ideia de identidade interna, entre a massa dos despossuídos e as elites, que acabam sempre se articulando mais com as sociedades centrais do que com sua própria realidade. Um certo escapismo se instala na construção do pensamento nacional, que irá de forma recorrente negar as tendências e escolhas das massas despossuídas. Tal situação, irá forçar a convivência interessada entre arcaísmo e modernidade, construindo um desenvolvimento sem partição de renda, promovedor de uma imensa concentração de recursos.

"Trata-se de uma situação ambígua, pois aqui estamos diante do avesso da medalha: incorporada a contextos histórico-sociais ou socioculturais mais ou menos arcaicos, os dinamismos sociais engendrados pela competição concorrem para manter ou preservar 'o passado no presente', fortalecendo elementos arcaicos em vez de destruí-los...O horizonte cultural orienta o comportamento econômico capitalista mais para a realização do privilégio (ao velho estilo) que para a conquista de um poder econômico social e político autônomo, o que explica a identificação com o capitalismo dependente e a persistência de complexos econômicos semicoloniais (na verdade, ou pré-capitalistas ou subcapitalistas). FERNANDES 2006 página199

Nesse ambiente não se configura plenamente a existência de uma burguesia consciente de suas responsabilidades históricas e integrada a um projeto e destino palpável, mas se mantém uma minoridade recorrente. No comércio urbano, que era o grande interessado na supressão da escravidão, e onde volta e meia algum bem ou mesmo a renda de escravos acabavam no balcão da venda ou do botequim a parte mais compensadora e lucrativa se relacionava a clientela de maior poder aquisitivo. Essa condição logo impunha a importação de mercadorias, o que inviabiliza a competição dos pequenos comerciantes que acessavam mais facilmente apenas produtos domésticos, produz-se uma elitilização e uma intensa especulação em torno de mercadorias. Por outro lado, o trabalho mecânico e braçal sofre com uma mácula inevitável, como se representasse a perda de dignidade social, e mesmo da liberdade.

"No mundo colonial, porém a superposição da escravidão ao regime estamental acarretou uma degradação extrema do trabalho mecânico e impôs critérios inteiramente novos de suplementação do trabalho escravo por trabalho de homens 'livres' ou 'semilivres'... Os números través dos quais tal situação se exprimia criavam uma realidade inelutável: a noção de trabalho se aplicava às tarefas 'mecânicas', ao labor a mando e para gáudio de outrem..." FERNANDES 2006 página225

Florestan descreve que muitos mestres artesãos recém chegados da Europa, pra fugir a essa 'sina', procuravam abandonar o trabalho efetivo, delegando-o ao escravo, que executava as tarefas mais duras, como transporte de materiais e ferramentas. Tudo isso contribui para fomentar o mandonismo, o paternalismo, e um certo conformismo, fazendo declinar a competição e o conflito, e mesmo a obtenção de méritos. Assim vários setores da nossa população não compreendiam bem a natureza do trabalho livre e da mercantilização do trabalho, como se fosse inseparável a pessoa do trabalhador e a mercadoria que esse produzia.

"Aquele mercado deixa, aos poucos, de ser prisioneiro de algumas cidades-chave e dos estreitos interesses que nutriam, inicialmente,  a associação da aristocracia agrária com o alto comércio. Assim, entre o último quartel do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, o período central para esta descrição, esse mercado se transfigura por completo." FERNANDES 2006 página279

A partir das grandes capitais urbanas brasileiras, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, começa a se irradiar o capitalismo competitivo, rompendo as barreiras impostas pelo setor arcaico, inclusive em pequenos núcleos rurais. Nos grandes centros acontece o advento do bonde ou do trem, do usos da energia elétrica, da cosmopolitização dos hábitos mundanos e do aparecimento de um novo estilo de vida, com consumo e comunicação em massa. Agora, admite-se a modernização da área rural, mas mantém-se uma dupla articulação entre capital estrangeiro e nacional contemporizando-se nacionalistas e entreguistas.

"Doutro lado, também se aceita como natural que a articulação às economias centrais, além de persistir, se aprofundasse, sob a presunção de que aí estaria ou a 'melhor' ou a 'única' saída para industrialização e a concomitante aceleração do desenvolvimento econômico interno...  Pela segunda vez na história brasileira - a primeira foi por ocasião das lutas pela independência - as classes dominantes e suas elites econômicas preferem, por acordo tácito, evitar o nó górdio de nossa evolução econômica dentro do capitalismo." FERNANDES 2006 página284

Essas questões nos mostram uma modernização, que sempre se concilia com o arcaísmo, mantendo quase incólumes práticas pré-capitalistas e subcapitalistas, rejeitando temas como tabu, que certamente dinamizariam a economia competitiva, tais como; a reforma agrária, a depressão dos salários das massas trabalhadoras e a consequente fraqueza do mercado interno. O nosso desenvolvimento acaba refém de um mercado altamente seletivo, que acaba gerando uma enorme concentração social e racial de renda. Na verdade, a relação das economias hegemônicas centrais começa a mudar nesse período assinalado por Florestan Fernandes, o advento das multinacionais e das corporações vão determinar a transição do capitalismo competitivo para o monopolista. E, essa determinação será mais uma vez comandada de forma heterônoma, sem a afirmação da autonomia nacional, mas com a clara participação das suas elites, que se articulam antes internacionalmente.  Agora a dupla articulação se faz com a dominação burguesa operante de forma plena, mas mantendo os nichos arcaicos, que interessam para potencializar a super exploração, a economia capitalista aqui na periferia fica condicionada a dependência de impulsos externos.

"O fim da Segunda Guerra Mundial delimita o início de uma nova era, na qual a luta do capitalismo por sua sobrevivência desenrola-se em todos os continentes, pois onde não existem revoluções socialistas vitoriosas, existem fortes movimentos socialistas ascendentes. Os fatos cruciais, nessa evolução, são a revolução iugoslava, o advento das democracias populares, a revolução chinesa e a revolução cubana. Nessa situação, o controle da periferia passa a ser vital para o 'mundo capitalista', não só porque as economias centrais precisam de suas matérias primas e do seus dinamismos econômicos, para continuarem a crescer, mas também porque nela se achava o último espaço histórico disponível para a expansão do capitalismo." FERNANDES 2006 página 297

Aqui fica claro, que no tempo que Florestan Fernandes escreve ainda não estávamos submetidos ao presente contínuo, impedidos de pensar no futuro das novas gerações, presos na eternidade e na naturalização do capitalismo. Mas, haviam "revoluções socialistas vitoriosas" ou "movimentos socialistas ascendentes", que regulavam pelo temor a consciência das elites endinheiradas, que no nosso presente parece que abandonaram qualquer pudor e atuam como se não houvesse o futuro do planeta. O livro de Florestan Fernandes é sem dúvida um dos relatos mais convincentes, do que é o Brasil, com seu desenvolvimento tardio, sua burguesia também tardia, e uma convivência interessada entre arcaísmo e modernidade, como não há em qualquer outro lugar do mundo.

NOTAS:

[1]. SIMONSEN, Roberto C.  - História Econômica do Brasil, 1500-1820 volume1 - Editora Nacional São Paulo 1937 "O valor dos artigos exportados corresponderia a 15% do capital imobilizado; no entanto a rentabilidade dos negociantes e armadores, sobre o produto bruto atingia 70%. Por sua vez, as rendas diretas e indiretas da Coroa, sobre o açúcar seriam da ordem de 25%. página139 e 183

BIBLIOGRAFIA:

FERNANDES, Florestan - A revolução burguesa no Brasil, ensaio de interpretação sociológica - editora Globo São Paulo 2006

SIMONSEN, Roberto C.  - História Econômica do Brasil, 1500-1820 volume1 - Editora Nacional São Paulo 1937

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O atraso de nossa elite

Escravidão, a instituição que melhor nos explica
O sociólogo Jessé Souza propõe para a sociedade brasileira uma reflexão interessante e justa, o que representa a presença da escravidão em nossa história, para nossos atuais comportamentos, principalmente no que se refere às interações entre extratos sociais diversificados. Para ele num momento de crise, como o que vivemos, todas as legitimações são enfraquecidas, e podem ser relativizadas e problematizadas. As novas proposições explicadoras devem ser convincentes, e serão validadas desde que expliquem e convençam melhor nossa condição societária, tendo ao final que ter permeabilidade social. O Brasil é uma complexa realidade dinâmica portanto os discursos que construiram a ideia de Brasil no passado precisam ser repensados e reestruturados frente as nossas novas condições. O livro A elite do atraso, da escravidão à lava jato possue essa pretensão de se livrar dos discursos explicadores de nossa condição brasileira. Para Jessé Souza, os discursos explicadores do Brasil partem de três conceitos elaborados e compartilhados por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, e Roberto da Matta que são; o patrimonialismo, o populismo e o homem cordial. Nesse sentido, o autor assume que repete  construções anteriores como; A modernização seletiva (2000), A construção da subcidadania (2003), A ralé brasileira (2009), e A tolice da inteligência brasileira (2015).

A proposta de Jessé pretende convencer pelos seus argumentos, mas também pela sua recorrência e repetição. Dos livros mencionados, só conheço o último, que também foi utilizado e comentado aqui no blog nos textos; O judiciário no Brasil e a questão central do acesso diferenciado à oportunidades nas sociedades contemporâneas (Dezembro de 2016), e Fernando Haddad e uma avaliação muito além de São Paulo (Julho de 2017). Na verdade, a argumentação de Jessé é bastante convincente, apesar de repetida, pois se constitui em torno de um núcleo objetivo e redutor, a escravidão negra. Sem dúvida uma herança pesada, que carregamos não só por sua extinção tardia entre nós (1888), mas também pela absoluta ausência de políticas compensatórias e pela massa dos precarizados então libertados. Há uma identificação que me parece certeira e apropriada da realidade brasileira, já mencionada pelo grande dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, principalmente no que se refere as suas elites; um certo "complexo de vira-lata". Uma consciência sempre negativa e condenatória das formas de operar do povo brasileiro, que invariavelmente no campo político desemboca numa certa demofobia, expressa nas afirmações por muitos compartilhada, tais como; "brasileiro não sabe votar" , ou "precisamos de educação", ou ainda "bandido bom é bandido morto" e outras.

Aqui no blog arquitetura, cidade e projeto, num texto de maio de 2013; Antonio Cândido sugere uma lista de leitura para compreender o Brasil já apresentamos um conjunto de livros, que segundo o brilhante ensaísta explicariam nossa condição. A lista de Antônio Cândido, articula temáticas; introdução, o português, o índio, o negro, integração dos três elementos, independência, império, isolamento rural, proclamação da república, modernização, e imigrantes com autores;

"1. Introdução Geral: O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro
2. O português: Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda
3. O Indio: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha 
4. O negro: Ser escravo no Brasil (1982), Kátia de Queirós Mattoso. A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco
5. Integração dos três elementos; português, índio e negro: Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre.Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior
6. Independência do Brasil: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim.  D. João VI no Brasil (1909) Oliveira Lima e O movimento da Independência (1922) Oliveira Lima
7. O Império: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda. Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897)
8. Isolamento do Brasil Rural: Euclides da Cunha n’Os sertões (1902)
9. Da proclamação da República a 1930: Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal
10. Modernização do Brasil:  A revolução burguesa no Brasil (1974) Florestan Fernandes
11. Imigrantes:  A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento"



O Brasil é uma dimensão complexa e múltipla, com diversas explicações e interpretações. A crise pela qual passamos não apresenta qualquer visão positiva e celebratória de nossa maneira de ser, das nossas instituições ou dos nossos ordenamentos societários. De um momento para o outro, a partir do ano de 2013 fomos arrastados por uma onda de pessimismo, que na verdade nos confrontou com uma conjuntura difícil e paralisante. A pauta da inclusão social, dentro de uma sociedade marcada por uma das piores distribuição de renda do planeta, permanece como nosso desafio. No entanto, o Estado sózinho não me parece capaz de implementar políticas públicas capazes de promover uma melhor distribuição de renda Ele permanece prisioneiro de lobbies particulares que amoldam suas políticas aos seus interesses imediatos, como ficou comprovado pelo programa Minha Casa, Minha Vida, onde a promoção de habitação subsidiada acabou beneficiando mais aos construtores do que aos usuários. A sociedade civil precisa ser empoderada de forma a promover melhor controle sobre essas ações contínuas do Estado no Brasil. O livro de Jessé Souza desvenda um pacto do atraso das elites brasileiras para permanecerem com a sociedade tal qual ela sempre foi, com péssimos índices de acesso á oportunidades.

BIBLIOGRAFIA:

SOUZA, Jessé - A Elite do atraso, da escravidão a lava jato - editora Leya Rio de Janeiro 2017

domingo, 29 de outubro de 2017

Espraiamento urbano, uma difícil batalha

A Região das Vargens na baixada de Jacarepaguá
Hoje dia 29 de outubro de 2017, o jornal O Globo publicou matéria sobre o Projeto de Estruturação Urbana (PEU) da Região das Vargens na Baixada de Jacarepaguá, com o título de Um freio para a expansão da fronteira urbana, assinada pela jornalista Selma Schmidt. Há uma fala minha na matéria, defendendo a ideia de reocupação de áreas já infraestruturadas, como na Zona Norte e Avenida Brasil, que se configuram como vazios urbanos, mantendo áreas de baixa ocupação (chácaras e sítios) ou desocupadas, como a Região das Vargens sem novos empreendimentos. Essa, no entanto não é a inércia do mercado imobiliário, nem o comportamento generalizado de nossa sociedade, que quando pensa em morar, imagina um retiro idílico próximo a natureza. Os vazios urbanos já infraestruturados precisam ser reocupados, começando o enfrentamento do problema da universalização dos serviços urbanos, tais como; distribuição de água, coleta de esgoto, lixo, iluminação, redes de transportes, águas pluviais, calçamento, etc... Enfim, tudo que se constitui nas comodidades urbanas que desfrutamos nas áreas mais infraestruturadas, e, que demandam investimentos invariavelmente públicos ou gerenciados pelo espírito público. Quando a mancha urbana é dispersa e espalhada no território mais difícil será a presença de todas essas comodidades em todas as partes de seu território, por isso a cidade densa e compacta é muito mais adequada do ponto de vista ambiental.

Na mesma matéria, a taxa de crescimento da mancha urbana apontada pelo arquiteto e urbanista Vicente Loureiro, coordenador da Câmara Metropolitana é da ordem de trinta quilômetros quadrados por ano, o que demonstra empiricamente a preferência, tanto do mercado, quanto da população pela conquista de novas áreas, ao contrário dos empreendimentos sobre antigos bairros. Portanto, a luta contra a expansão desenfreada da mancha urbana é difícil e deve ser enfrentada no âmbito da mudança de concepções e mentalidades particulares, do que representa o bem viver. Enquanto, o bem viver, para o senso comum, estiver representado pela unidade habitacional unifamiliar construída nas proximidades da natureza, dependente de uma mobilidade centrada no automóvel particular, continuaremos com a expansão criminosa de nossas cidades. Tal atitude, além de impactar fortemente o meio ambiente, também condena parcelas significativas da população a viver sem urbanidade.

A questão está cobrando do poder público uma política de Estado, que por exemplo incentive a implantação de chácaras e sítios produtivos, baseados na agricultura familiar, que produzam alimentos para a cidade do Rio de Janeiro. Nesse quesito, o Rio de Janeiro sofre de grandes carências, recentes levantamentos nos informam que menos de 30% dos alimentos consumidos nas merendas escolares da cidade metropolitana são provenientes de outros estados. O que nos indica, que há uma atividade econômica rentável capaz de fazer frente a especulação imobiliária predatória, e pouco sintonizada com um desenvolvimento mais amigável ao meio ambiente.

O link da matéria do jornal O Globo pode ser acessado abaixo

https://oglobo.globo.com/rio/projeto-quer-incentivar-ocupacao-de-areas-com-infraestrutura-como-porto-22006629

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O edifício Praça das Artes em São Paulo

A complexa implantação da obra da Praça das Artes, na quadra atrás
do Teatro Municipal de São Paulo
O conjunto Praça das Artes na cidade de São Paulo é uma das boas surpresas do centro de São Paulo, que vem de forma constante se reestruturando, entre a Praça da República e o Vale do Anhangabaú, próximo ao Teatro Municipal, a obra se localiza num terreno com várias testadas para diferentes ruas. Fui visita-lo por ocasião 152a Reunião do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil, que se realizou em São Paulo no final de setembro. Inaugurada em 2012, a obra é de autoria do escritório Brasil Arquitetura, dos arquitetos; Marcelo Ferraz, Francisco Fanucci, e Marcos Cartoun, e representa uma extensão das atividades culturais do Teatro Municipal de São Paulo. A obra não foi integralmente terminada, e ainda apresenta sua face para o Vale do Anhangabaú com aspecto de canteiro de obras. A obra ocupa a quadra nos fundos do Teatro Municipal de São Paulo e apresenta três frentes de acesso para as ruas Conselheiro Crispiniano, avenida São João e rua Formosa, que é a face do vale do Anhangabaú. E essa me parece ser o grande valor da edificação, que assume uma postura de preenchimento fragmentado e de passagem e conexão do interior da quadra para sua periferia. O projeto oferece de forma generosa, espaços públicos de passagem, conectando no horário de expediente a rua Conselheiro Crispiniano com a avenida São João, e no futuro com o vale do Anhangabaú. A situação de maior generosidade urbana, que no meu entender deveria se estender para além do período do expediente de trabalho, se tivéssemos condições melhores de segurança em nossas cidades, ainda não é possível de ser operacionalizada para horários mais avançados, mas de certa forma é colocada pela implantação..

Praça de acesso pela rua Conselheiro Crispiniano

A construção é toda feita de concreto aparente, com uma clara preocupação com a paginação das formas de madeira em tábuas de 10cm de altura, tal efeito enfatiza a horizontalidade da edificação, reforçando a ideia de preenchimento. Não há aqui a preocupação com a percepção integral da obra, que se fragmenta, preenchendo o contexto de forma a configurar praças e espaços de convívio, que demandam que a atividade cultural também se exponha ao público. Os limites entre espaço construído e praças conformam uma dialética, na qual fica claro a interação, e não a subordinação de um ao outro. A diversidade de janelas acabam enquadrando atividades, que se mostram muito mais ao público passante, do que enquadram vistas do interior para o exterior. A edificação parece reclusa em suas atividades artísticas, que efetivamente demandam maior concentração.
Há em determinadas partes a aplicação de pigmentos
na concretagem

Com uma área de cerca de 28.500m², o espaço cultural contem o novo edifício para os corpos artísticos do Teatro Municipal, que são: a Orquestra Sinfônica Municipal, a Orquestra Experimental de Repertório, o Balé da Cidade de São Paulo, o Coral Lírico, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, o Coral Paulistano, o Centro de Documentação Artística, e a Escolas de Música e de Dança. Desta forma terá o Teatro Municipal a liberação do palco para seus espetáculos, promovendo assim um desafogo e ampliação de seus trabalhos em condições bem melhores. O atual Conservatório  abrigará as atividades, que até então não tinham seu espaço próprio, e o Quarteto de Cordas da Cidade terá no salão principal sua sede. Com isso, o Teatro Municipal não é mais um equipamento cultural solitário na região central de São Paulo, que agora deveria se mobilizar para atrair empreendimentos habitacionais para essa parte da cidade, buscando atingir horários mais tarde com movimentação por suas praças. A habitação é o único dos programas arquitetônicos, que não gera a sazonalidade dos usos concentrados, como os edifícios de comércio e serviços, bem como a cultura. A presença habitacional nos centros urbanos brasileiros é de suma importância para a retomada de sua vitalidade em diferentes horários do dia e da noite, gerando também um comércio que se mantém funcionando em horários mais elásticos.


A frente do vale do Anhangabaú ainda inacabada e
indisponível
Mas apesar de inacabada, e sem a presença de um contínuo habitacional de maior expressão, a obra demonstra todo seu potencial na articulação de passagens e de vistas. que nos convidam e falam de uma outra urbanidade possível. A sucessão de praças, passagens sob vãos livres de concreto e vistas fragmentadas de seu interior conformam uma generosidade urbana, que as cidades brasileiras precisam voltar a ter. A supressão dos portões na rua Conselheiro Crispiniano, na Avenida São João, e na frente do Anhangabaú, franqueando o acesso a obra, durante um horário mais dilatado parece ser quase uma reinvindicação da implantação, que parece aguardar por uma maior civilidade, e ao final uma melhor distribuição de oportunidades para o conjunto das pessoas de nossas cidades. E, essa talvez seja a maior virtude da proposta acreditar e apostar numa urbanidade de maior qualidade, uma generosidade que claramente hoje nos falta, mas que deve ser vista como passageira e efêmera.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O novo edifício do Instituto Moreira Sales na Av. Paulista

A edificação do IMS-SP na Avenida Paulista
Por ocasião do 152o Encontro do Conselho Superior (COSU) do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que se realizou em São Paulo de 27 a 30 de setembro de 2017, foi programada uma visita guiada ao novo edifício do Instituto Moreira Sales (IMS), na Avenida Paulista com o escritório Andrade Morettin arquitetos, que assina a autoria do projeto. A visita foi precedida por um debate, Produção e Desafios da Habitação na Arquitetura Contemporânea em São Paulo, no auditório do mesmo IMS, que contou com a presença;  representantes dos escritórios; Andrade Morettin, (o arquiteto Vinicius Morettin); do escritório BaseUrbana,  (a arquiteta Marina Grinover) e do escritorio Biselli + Katchborian (o arquiteto Mario Bizeli) . A mediação foi feita pela arquiteta Luciana Royer, professora da FAU USP e vice-presidente do IABsp; que também contou com a ajuda da arquiteta Marta Bogéa, professora da FAU USP.  O debate foi sobre a recente produção de habitação de interesse social e urbanização de favelas no centro da cidade de São Paulo, um tema caro na história da rede do IAB, que desde pelo menos 1963 quando num seminário no Hotel Quitandinha em Petrópolis, os arquitetos defenderam a reforma urbana. Nessa ocasião, os arquitetos irmanados pela representação do IAB já defendiam que a urbanização de favelas deveria fazer parte da política habitacional do país, não sendo portanto um problema, mas na verdade uma solução. A questão permanece em debate na sociedade brasileira, e nunca pretendeu romantizar as favelas brasileiras, que são fruto claro da precariedade e da exclusão social, mas que, com a implantação de melhorias urbanas adequadas poderiam se incluir como áreas da cidade brasileira, com claras potencialidades. Mas apesar da relevância do assunto, esse texto de hoje se restringe a uma análise do novo edifício do IMS na Avenida Paulista do escritório Andrade Moretin arquitetos associados.

Corte transversal na edificação do IMS-SP
A primeira questão a ser destacada é o primor do detalhamento e da construção da edificação do IMS na Avenida Paulista, um padrão claramente acima da média nacional, e que certamente assinala a monumentalidade do programa. A edificação impressiona e se destaca pelo padrão de detalhamento e pela sua execução, frente a seu entorno imediato, fazendo com que o usuário, por antecipação tenha consciência da magnitude da proposta. Um certo descuido com o pavimento de acesso, no nível da Avenida Paulista, se justifica apenas pela proposição algo forçada e abstrata de construção da grande recepção do centro cultural estar localizada no quinto pavimento. Onde encontramos, a escultura de Calder pertencente ao IAB-SP, a pavimentação em pedra portuguesa, o não fechamento pelas esquadrias da edificação, conformando um avarandado, e as atividades de recepção, guarda volumes, e loja de lembranças e café típicos dos controles de entrada de todos os centros culturais contemporâneos. Tal imposição arbitrária típica do projetar, se remete claramente ao corte da edificação, uma obsessão da arquitetura paulista depois de Vilanova Artigas, seu grande ideólogo, aqui nas palavras dos autores;

"O corte longitudinal esclarece a distribuição do programa, consolidado no ano e meio de desenvolvimento do projeto. Nele, visualiza-se a permeabilidade da calçada da Paulista com o interior do edifício, assim como o seu prolongamento no percurso iniciado por meio de duas escadas rolantes - a primeira com lance de seis metros e a outra, de 11 -, espécie de túnel de luz que conduz ao térreo elevado. Este, localizado no núcleo do prédio - desdobramento dos espaços públicos da Paulista -, é uma praça que abriga infinitas possibilidades de ocupação, “como se tirassem o vão livre do Masp e colocassem no meio do IMS, deixando a liberdade acontecer dentro do edifício”, menciona Marcelo Maia Rosa, arquiteto associado do escritório. A partir daí, tem-se acesso à área de exposições, nos três pavimentos acima, e à midiateca posicionada abaixo." Matéria Arcoweb

Corte esquemático do foulder do IMS para comunicação com os
usuários. A escada frontal não acessa o térreo, nem o 9o pavimento
Várias pessoas já discorreram sobre o significado do corte para a arquitetura paulista desde Vilanova Artigas, no emblemático edifício da escola de arquitetura da Universidade de São Paulo (USP), a FAU, e em outras edificações do mestre. Enquanto, em Le Corbusier a planta é geradora da espacialidade arquitetônica, sintetizando as experiências que serão vividas, em Artigas, o corte é o que melhor concentra a proposição central da edificação. Tanto é assim, que o foulder de visitação amplamente distribuído no centro cultural, se utiliza de um corte para se comunicar com os usuários. Tal atitude definidora da composição arquitetônica, além de se constituir numa plataforma privilegiada da tectonia, sempre também reforça a ideia de caixa autônoma da edificação, acabando por enfatizar a separação entre interior e exterior, enfatizando limites que parecem querer ao mesmo tempo doutrinar e se diferenciar do contexto. Basta lembrarmos da citação do próprio Artigas, enfatizando a interpretação do mestre de obras da própria FAU-USP;

"Doutor, por dentro é uma maravilha, por fora é uma fortaleza." ARTIGAS página35

A escada frontal
Tal atitude metodológica apresenta uma tendência de autonomizar o objeto frente ao seu contexto, reforçando o isolamento da caixa arquitetônica, que no IMS-SP parece estar reforçada pela decisão de transplantar a portaria para o quinto pavimento. A estrutura, a tectonia, a adequação climática estão primordialmente bem resolvidas e concatenadas, mas a distribuição funcional e sua conectividade não são claras. Com isso, há um claro problema de legibilidade na apropriação social da edificação, tornando a imagem ou o mapa mental da construção um pouco complicado, trazendo claros prejuízos na sua utilização. A perda da continuidade e contiguidade com o espaço convencional de maior ordem pública, a rua, a Avenida Paulista trazem claros problemas no registro afetivo da edificação. Tais condições são ainda mais enfatizadas pela ausência de um núcleo de circulação vertical bem dimensionado e bem localizado, que cumprisse o papel claro de reconecção entre galerias, auditório, mediatecas, hall e cidade. A escada frontal, que se conforma clara aos usuários, apenas no quinto pavimento, além de subdimensionada, não acessa o térreo, muito menos o nono andar, trazendo uma descontinuidade para a fruição do edifício, e o registro de um mapa legível. Nesse sentido, a edificação como um todo acaba comprometendo o registro do circuito de visitação, ítem fundamental para qualquer centro cultural.

Bibliografia:

https://www.arcoweb.com.br/projetodesign/tecnologia/andrade-morettin-instituto-moreira-salles-sao-paulo
ARTIGAS, Vilanova - Caminhos da Arquitetura - Editora Cosac Naif São Paulo 2004

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O filme Feito na América é representativo da política externa americana

O filme Feito na América com Tom Cruise
Os Estados Unidos há muito abandonaram uma política externa de princípios ou valores, por outra em nome da sua segurança e dos seus negócios, numa clara traição ao cidadão e contribuinte americano, que sequer consegue saber qual é o orçamento da Central Intelligence Agency (CIA), desde sua criação em 1947. O filme Feito na América faz menção a biografia de Barry Seal, um piloto da TWA, que abandona a aviação comercial para prestar serviços para a CIA na América Latina como piloto autônomo. O relato se concentra na década de 1980, mostrando o piloto Barry Seal que traficava armas para a CIA abastecendo os contra da Revolução Sandinista e ao mesmo tempo, servindo ao cartel de Medellín de Pablo Escobar, trazendo drogas para os EUA. A trama real se passa em grande parte na cidade de Mena no Arkansas, nos EUA, onde ocorriam várias atividades ilegais com a anuência dos presidentes Ronald Reagan, George H.W. Bush e do então governador do Arkansas, Bill Clinton, dentre elas um campo de treinamento dos contras em pleno território americano. A quantidade de dinheiro que Barry Seal manipulava era tão grande que ele passou a enterrar o dinheiro em seu quintal, impossibilitado de recorrer ao sistema financeiro de seu país, com medo da fiscalização da receita.

Já foi comentado aqui no blog a questão do envolvimento internacional dos EUA, no texto; A política externa americana no segundo pós guerra e os recentes acontecimentos em Paris, quando houve o ataque de terroristas árabes na capital francesa. Naquela ocasião assim como nessa minha principal referência é o livro de Perry Andreson, A política externa norte-americana e seus teóricos, no primeiro texto as questões do Oriente Médio eram mais abordadas, e agora nessa reflexão me restrinjo a América Latina. Segundo esse livro, houve uma mudança na passagem do presidente Roosevelt para Truman, na qual se percebe o declínio dos princípios do republicanismo e da democracia, e a ampliação  da questão da segurança.

No entanto, é verdade que a doutrina americana, ou sua concepção de mundo sempre se pautou por uma visão expansionista de ampliação contínua dos domínios da América, principalmente no que se refere ao continente americano. Em comparação com a Europa, na qual havia e ainda há um certo complexo de inferioridade por parte dos americanos, na América do Sul os EUA sempre tiveram uma prepotência culturalista e religiosa, que tem suas raízes na doutrina de pré-destinação protestante e em tempos fundacionais. Basta se remeter as palavras de John Adams a Thomas Jefferson em 1813, ou ao famoso slogan de Jackson, que mostram claramente a doutrina dos founding fathers, muito antes da hegemonia cultural americana do século XX;

"Nossa república federativa pura, virtuosa e dotada de espírito público perdurará para sempre, governará o globo e introduzirá a perfeição do homem." ou a fala de Jackson; "o direito a nosso destino manifesto de cobrir e possuir o continente por inteiro, direito que a Providência nos deu para o grande experimento da liberdade e do autogoverno federado." ANDERSON 2015 página14

A anexação de quase metade de superfície do México (1846-48) aconteceu na sequência desses pronunciamentos, demonstrando de forma clara que a política anti-colonialista americana servia para confrontar as potências imperialistas européias, mas não o continente sul americano, que sempre foi considerado como quintal dos nossos irmãos do norte. Ainda sobre o primeiro Roosevelt, o Panamá foi arrancado da Colômbia. e transformado num protetorado americano para ligar dois mares, o Atlântico e o Pacífico. É verdade que vozes dissonantes e contrárias a doutrina do Destino Manifesto[1] dos EUA sempre se levantaram, dentre elas os Whigs [2], o oficial do exército americano Ulysses S. Grant [3], e o filósofo Henry David Thoureau.[4]. Com a chegada de Woodrow Wilson (1856-1924) a Casa Branca como 28o presidente (1913-1921) a política externa americana assumiu um tom messiânico. A religião, o capitalismo, a democracia, a paz e o poder dos EUA eram uma só força e discurso, fazendo com que o país entrasse na Primeira Guerra, apoiasse o exército branco na guerra civil da revolução russa, e construisse uma lógica que misturava liberdade, justiça e venda de bens americanos para o mundo. No entanto, quando a guerra acabou os 14 Pontos de Wilson foram tratados com desdém pelas potências vitoriosas (Inglaterra e França), mostrando que a Pax Americana ainda não se estabelecera. Mas muito além do século XIX e o começo do século XX, a hegemonia americana plena se manifesta com o final da Segunda Guerra Mundial, quando os sinais de prosperidade transbordavam no país;

"Em 1945, com seu território intocado pela guerra, os Estados Unidos tinham uma economia três vezes maior que a da URSS e cinco vezes maior que a da Grã Bretanha, controlavam metade da produção industrial do mundo e três quartos de suas reservas de ouro... Em Bretton Woods, o berço do Banco Mundial e do FMI, a Grã Bretanha foi obrigada a abandonar a política de Preferência Imperial e o dólar foi estabelecido como mestre dos sistema monetário internacional, a moeda de reserva à qual todas as outras tiveram de se atrelar para fixar seus preços." ANDERSON 2015 página31

Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) não viverá a vitória do exército vermelho sobre Hitler [5], em maio de 1945 quando as tropas soviéticas chegaram em Berlim, Harry S. Truman (1884-1972) um nacionalista paroquial já era o 33o presidente americano. Quatro dias após a rendição da Alemanha em Berlim o novo presidente americano cancelou o acordo militar com a URSS sem qualquer aviso prévio, estabelecendo a Doutrina Truman. Em 05 de junho de 1941, quando ainda era senador, Truman declarara que aos EUA interessava a destruição mútua da Alemanha e da Rússia[6], prenunciando a substituição da Lei de Segurança Social [7] do New Deal, pela Lei de Segurança Nacional. Em março de 1947, Truman proferiu o discurso de alerta contra os perigos do comunismo, no qual ficava claro que a ideologia da política externa americana se pautaria pela segurança. É dessa época a criação do Departamento de Defesa, o Estado-Maior Unificado, o Conselho de Segurança Nacional e a Agência Central de Inteligência (CIA), mecanismos governamentais com orçamentos secretos, justificados pela recorrente tendência de exagerar a fictícia vulnerabilidade do país a ataques. Se conforma então uma mentalidade anti-popular, que chega a pensar em negar o direito de voto a mulheres e negros, centrada numa elite dirigente pseudo esclarecida, e principalmente, imune as paixões populistas, um verdadeiro Estado Novo norte americano.[8] Permanece a referência ao sagrado e a missão divina americana, mesmo quando se trata da matança nuclear, Truman ao lançar a segunda bomba atômica sobre Nagasaki, fala:

"Agradecemos a Deus por [a bomba atômica] ter vindo a nós, e não aos nossos inimigos; e oramos para que Ele possa nos guiar para usá-la em Seus caminhos e para Seus propósitos. " ANDERSON  2015 página42

Aliás as menções a Deus e a uma orientação divina para as ações da política externa americana são constantes e não se restringem a Truman, mas envolvem uma grande diversidade de posicionamentos e atitudes. Com Roosevelt; "O Deus todo poderoso abençoou nossa terra de muitas maneiras...Ele deu ao nosso país uma fé que se tornou a esperança de todos os povos em um mundo angustiado." Ou Eisenhower, que transformou em lema oficial da nação; "Em Deus confiamos" ANDERSON2015 página42. Ou, o católico irlandes Kennedy; "Tendo uma boa consciência como nossa única recompensa garantida e a história como última juíza de nossas ações, sigamos em frente para liberar a terra que amamos, pedindo Sua benção e Sua ajuda, sabedores, porém de que aqui na Terra a obra de Deus deve, em verdade, ser obra nossa,..."ANDERSON2015 página43. Ou o jovem Bush; "Nossa nação foi escolhida por Deus e comissionada pela história para ser um modelo para o mundo..."ANDERSON2015 página43. Até Obama; "Essa é a fonte de nossa confiança: o conhecimento de que Deus nos convoca a dar forma a um destino incerto..." ANDERSON2015 página43 Todos esses depoimentos atestam que a Doutrina Calvinista da Pré-Destinação deixou o indivíduo e se abrigou numa nação, que usa desses argumentos divinos para tiranizar e policiar nosso continente de forma arbitrária.

No filme Feito na América fica claro a irresponsabilidade da política externa americana, que a partir da clivagem da Guerra Fria e do perigo de disseminação do comunismo, acaba por incentivar o tráfico de drogas do poderoso Cartel de Medellin. A América latina é vista como um território de bárbaros, onde uma política de segurança cria e impulsiona um dos ciclos de tráfico de drogas mais prejudiciais a uma cidade, como o de Pablo Escobar em Medellin. Literalmente, um Estado de Exceção que foi naturalizado pelo mundo contemporâneo, que continua se iludindo com a retórica da democracia, que apenas espalha injustiça, e que agora é tornado invisível pela mídia mundial.

"O mundo livre era compatível com a ditadura: a liberdade que o definia não era a liberdade dos cidadãos, mas a do capital..." ANDERSO 2015 página69

As intervenções militares se sucedem desde o final da segunda guerra mundial. Já em 1947 celebra-se no Rio de Janeiro o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o mais importante ideólogo da política externa americana, George F. Kennan declara; "è melhor ter um regime forte no poder do que um governo liberal, indulgente, relaxado e impregnado de comunistas." Em 1954 na Guatemala com a nacionalização da United Fruit Company e a legalização do Partido Comunista local, os EUA contratam mercenários e derrubam o governo eleito de Arbenz. Seis anos mais tarde, em 1960, a Revolução Cubana nacionalizava os empreendimentos americanos na ilha, o presidente Kennedy esbraveja defendendo uma invasão da CIA.  Em 1964 os militares brasileiros encenaram o primeiro dos golpes contra revolucionário, os EUA enviam o porta aviões Forrestal apoiado por destroieres de apoio, numa mobilização nomeada de Operação Irmão Sam. Em 1965, fuzileiros navais americanos entram na República Dominicana para repelir um fictício perigo comunista com o apoio do exército brasileiro em retribuição. Em janeiro de 1973, acordos são assinados em Paris, programando a retirada das tropas do Vietnã em sessenta dias, a potência militar humilhada é compensada pelo golpe de estado contra Allende, um socialista eleito no Chile, em 11 de setembro do mesmo ano.

Enfim, a política externa americana é uma tragédia para a América Latina, o filme Feito na América denuncia essa condição, mas apenas reforça uma ideologia do voluntarismo de um indivíduo, Barry Seal, quando na verdade, mais parece a determinação de um Estado de Exceção, que já não mais presta esclarecimentos ao cidadão americano.

NOTAS:

[1] A doutrina do Destino Manifesto propunha a expansão contínua dos colonos americanos pelo continente com esforço de aperfeiçoamento civilizatório. O povo americano era eleito por Deus para civilizar o continente americano.
[2] O partido Whig foi fundado por Henry Clay em (1833-34), e tinha uma clara posição anti-expansionista propondo o aperfeiçoamento da democracia americana antes de sua expansão.
[3] Ulysse S. Grant (1822-85) foi oficial americano combatente na guerra com o México, quando jovem, depois oficial comandante em chefe das tropas da União, e o 18o presidente americano (1869-77)
[4] Henry David Thoreaux (1817-62) filósofo e poeta trancendentalista norte-americano, que em sua luta contra a guerra com o México se recusou a pagar impostos e se refugiou nas florestas maricanas, praticando um extrativismo de auto-sustentação, no norte dos EUA. É por muitos considerado a inspiração para o movimento hippie dos anos 60, a partir de seu posicionamento propondo a desobediência civil.
[5] A rendição da Alemanha em Berlim foi em 02 de maio de 1945, e Roosevelt morre em 12 de abril de 1945.
[6] O discurso de Truman no senado em 05 de junho de 1941 foi: "Se virmos que a Alemanha está ganhando, devemos ajudar a Rússia, e se a Rússia estiver ganhando, devemos ajudar a Alemanha, e, desse modo, deixá-los matar o maior número possível de pessoas."
[7] Lei promulgada em 1935 instituindo o sistema de seguridade social público nos EUA.
[8] Segundo ANDERSON 2015,  oprincipal ideólogo da política externa americana é George Kennam, um conservador "admirador de Salazar"

BIBLIOGRAFIA:

ANDERSON, Perry - A política externa norte-americana e seus teóricos - editora Boitempo São Paulo 2015