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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O atraso de nossa elite

Escravidão, a instituição que melhor nos explica
O sociólogo Jessé Souza propõe para a sociedade brasileira uma reflexão interessante e justa, o que representa a presença da escravidão em nossa história, para nossos atuais comportamentos, principalmente no que se refere às interações entre extratos sociais diversificados. Para ele num momento de crise, como o que vivemos, todas as legitimações são enfraquecidas, e podem ser relativizadas e problematizadas. As novas proposições explicadoras devem ser convincentes, e serão validadas desde que expliquem e convençam melhor nossa condição societária, tendo ao final que ter permeabilidade social. O Brasil é uma complexa realidade dinâmica portanto os discursos que construiram a ideia de Brasil no passado precisam ser repensados e reestruturados frente as nossas novas condições. O livro A elite do atraso, da escravidão à lava jato possue essa pretensão de se livrar dos discursos explicadores de nossa condição brasileira. Para Jessé Souza, os discursos explicadores do Brasil partem de três conceitos elaborados e compartilhados por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, e Roberto da Matta que são; o patrimonialismo, o populismo e o homem cordial. Nesse sentido, o autor assume que repete  construções anteriores como; A modernização seletiva (2000), A construção da subcidadania (2003), A ralé brasileira (2009), e A tolice da inteligência brasileira (2015).

A proposta de Jessé pretende convencer pelos seus argumentos, mas também pela sua recorrência e repetição. Dos livros mencionados, só conheço o último, que também foi utilizado e comentado aqui no blog nos textos; O judiciário no Brasil e a questão central do acesso diferenciado à oportunidades nas sociedades contemporâneas (Dezembro de 2016), e Fernando Haddad e uma avaliação muito além de São Paulo (Julho de 2017). Na verdade, a argumentação de Jessé é bastante convincente, apesar de repetida, pois se constitui em torno de um núcleo objetivo e redutor, a escravidão negra. Sem dúvida uma herança pesada, que carregamos não só por sua extinção tardia entre nós (1888), mas também pela absoluta ausência de políticas compensatórias e pela massa dos precarizados então libertados. Há uma identificação que me parece certeira e apropriada da realidade brasileira, já mencionada pelo grande dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, principalmente no que se refere as suas elites; um certo "complexo de vira-lata". Uma consciência sempre negativa e condenatória das formas de operar do povo brasileiro, que invariavelmente no campo político desemboca numa certa demofobia, expressa nas afirmações por muitos compartilhada, tais como; "brasileiro não sabe votar" , ou "precisamos de educação", ou ainda "bandido bom é bandido morto" e outras.

Aqui no blog arquitetura, cidade e projeto, num texto de maio de 2013; Antonio Cândido sugere uma lista de leitura para compreender o Brasil já apresentamos um conjunto de livros, que segundo o brilhante ensaísta explicariam nossa condição. A lista de Antônio Cândido, articula temáticas; introdução, o português, o índio, o negro, integração dos três elementos, independência, império, isolamento rural, proclamação da república, modernização, e imigrantes com autores;

"1. Introdução Geral: O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro
2. O português: Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda
3. O Indio: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha 
4. O negro: Ser escravo no Brasil (1982), Kátia de Queirós Mattoso. A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco
5. Integração dos três elementos; português, índio e negro: Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre.Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior
6. Independência do Brasil: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim.  D. João VI no Brasil (1909) Oliveira Lima e O movimento da Independência (1922) Oliveira Lima
7. O Império: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda. Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897)
8. Isolamento do Brasil Rural: Euclides da Cunha n’Os sertões (1902)
9. Da proclamação da República a 1930: Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal
10. Modernização do Brasil:  A revolução burguesa no Brasil (1974) Florestan Fernandes
11. Imigrantes:  A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento"



O Brasil é uma dimensão complexa e múltipla, com diversas explicações e interpretações. A crise pela qual passamos não apresenta qualquer visão positiva e celebratória de nossa maneira de ser, das nossas instituições ou dos nossos ordenamentos societários. De um momento para o outro, a partir do ano de 2013 fomos arrastados por uma onda de pessimismo, que na verdade nos confrontou com uma conjuntura difícil e paralisante. A pauta da inclusão social, dentro de uma sociedade marcada por uma das piores distribuição de renda do planeta, permanece como nosso desafio. No entanto, o Estado sózinho não me parece capaz de implementar políticas públicas capazes de promover uma melhor distribuição de renda Ele permanece prisioneiro de lobbies particulares que amoldam suas políticas aos seus interesses imediatos, como ficou comprovado pelo programa Minha Casa, Minha Vida, onde a promoção de habitação subsidiada acabou beneficiando mais aos construtores do que aos usuários. A sociedade civil precisa ser empoderada de forma a promover melhor controle sobre essas ações contínuas do Estado no Brasil. O livro de Jessé Souza desvenda um pacto do atraso das elites brasileiras para permanecerem com a sociedade tal qual ela sempre foi, com péssimos índices de acesso á oportunidades.

BIBLIOGRAFIA:

SOUZA, Jessé - A Elite do atraso, da escravidão a lava jato - editora Leya Rio de Janeiro 2017

domingo, 29 de outubro de 2017

Espraiamento urbano, uma difícil batalha

A Região das Vargens na baixada de Jacarepaguá
Hoje dia 29 de outubro de 2017, o jornal O Globo publicou matéria sobre o Projeto de Estruturação Urbana (PEU) da Região das Vargens na Baixada de Jacarepaguá, com o título de Um freio para a expansão da fronteira urbana, assinada pela jornalista Selma Schmidt. Há uma fala minha na matéria, defendendo a ideia de reocupação de áreas já infraestruturadas, como na Zona Norte e Avenida Brasil, que se configuram como vazios urbanos, mantendo áreas de baixa ocupação (chácaras e sítios) ou desocupadas, como a Região das Vargens sem novos empreendimentos. Essa, no entanto não é a inércia do mercado imobiliário, nem o comportamento generalizado de nossa sociedade, que quando pensa em morar, imagina um retiro idílico próximo a natureza. Os vazios urbanos já infraestruturados precisam ser reocupados, começando o enfrentamento do problema da universalização dos serviços urbanos, tais como; distribuição de água, coleta de esgoto, lixo, iluminação, redes de transportes, águas pluviais, calçamento, etc... Enfim, tudo que se constitui nas comodidades urbanas que desfrutamos nas áreas mais infraestruturadas, e, que demandam investimentos invariavelmente públicos ou gerenciados pelo espírito público. Quando a mancha urbana é dispersa e espalhada no território mais difícil será a presença de todas essas comodidades em todas as partes de seu território, por isso a cidade densa e compacta é muito mais adequada do ponto de vista ambiental.

Na mesma matéria, a taxa de crescimento da mancha urbana apontada pelo arquiteto e urbanista Vicente Loureiro, coordenador da Câmara Metropolitana é da ordem de trinta quilômetros quadrados por ano, o que demonstra empiricamente a preferência, tanto do mercado, quanto da população pela conquista de novas áreas, ao contrário dos empreendimentos sobre antigos bairros. Portanto, a luta contra a expansão desenfreada da mancha urbana é difícil e deve ser enfrentada no âmbito da mudança de concepções e mentalidades particulares, do que representa o bem viver. Enquanto, o bem viver, para o senso comum, estiver representado pela unidade habitacional unifamiliar construída nas proximidades da natureza, dependente de uma mobilidade centrada no automóvel particular, continuaremos com a expansão criminosa de nossas cidades. Tal atitude, além de impactar fortemente o meio ambiente, também condena parcelas significativas da população a viver sem urbanidade.

A questão está cobrando do poder público uma política de Estado, que por exemplo incentive a implantação de chácaras e sítios produtivos, baseados na agricultura familiar, que produzam alimentos para a cidade do Rio de Janeiro. Nesse quesito, o Rio de Janeiro sofre de grandes carências, recentes levantamentos nos informam que menos de 30% dos alimentos consumidos nas merendas escolares da cidade metropolitana são provenientes de outros estados. O que nos indica, que há uma atividade econômica rentável capaz de fazer frente a especulação imobiliária predatória, e pouco sintonizada com um desenvolvimento mais amigável ao meio ambiente.

O link da matéria do jornal O Globo pode ser acessado abaixo

https://oglobo.globo.com/rio/projeto-quer-incentivar-ocupacao-de-areas-com-infraestrutura-como-porto-22006629

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O edifício Praça das Artes em São Paulo

A complexa implantação da obra da Praça das Artes, na quadra atrás
do Teatro Municipal de São Paulo
O conjunto Praça das Artes na cidade de São Paulo é uma das boas surpresas do centro de São Paulo, que vem de forma constante se reestruturando, entre a Praça da República e o Vale do Anhangabaú, próximo ao Teatro Municipal, a obra se localiza num terreno com várias testadas para diferentes ruas. Fui visita-lo por ocasião 152a Reunião do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil, que se realizou em São Paulo no final de setembro. Inaugurada em 2012, a obra é de autoria do escritório Brasil Arquitetura, dos arquitetos; Marcelo Ferraz, Francisco Fanucci, e Marcos Cartoun, e representa uma extensão das atividades culturais do Teatro Municipal de São Paulo. A obra não foi integralmente terminada, e ainda apresenta sua face para o Vale do Anhangabaú com aspecto de canteiro de obras. A obra ocupa a quadra nos fundos do Teatro Municipal de São Paulo e apresenta três frentes de acesso para as ruas Conselheiro Crispiniano, avenida São João e rua Formosa, que é a face do vale do Anhangabaú. E essa me parece ser o grande valor da edificação, que assume uma postura de preenchimento fragmentado e de passagem e conexão do interior da quadra para sua periferia. O projeto oferece de forma generosa, espaços públicos de passagem, conectando no horário de expediente a rua Conselheiro Crispiniano com a avenida São João, e no futuro com o vale do Anhangabaú. A situação de maior generosidade urbana, que no meu entender deveria se estender para além do período do expediente de trabalho, se tivéssemos condições melhores de segurança em nossas cidades, ainda não é possível de ser operacionalizada para horários mais avançados, mas de certa forma é colocada pela implantação..

Praça de acesso pela rua Conselheiro Crispiniano

A construção é toda feita de concreto aparente, com uma clara preocupação com a paginação das formas de madeira em tábuas de 10cm de altura, tal efeito enfatiza a horizontalidade da edificação, reforçando a ideia de preenchimento. Não há aqui a preocupação com a percepção integral da obra, que se fragmenta, preenchendo o contexto de forma a configurar praças e espaços de convívio, que demandam que a atividade cultural também se exponha ao público. Os limites entre espaço construído e praças conformam uma dialética, na qual fica claro a interação, e não a subordinação de um ao outro. A diversidade de janelas acabam enquadrando atividades, que se mostram muito mais ao público passante, do que enquadram vistas do interior para o exterior. A edificação parece reclusa em suas atividades artísticas, que efetivamente demandam maior concentração.
Há em determinadas partes a aplicação de pigmentos
na concretagem

Com uma área de cerca de 28.500m², o espaço cultural contem o novo edifício para os corpos artísticos do Teatro Municipal, que são: a Orquestra Sinfônica Municipal, a Orquestra Experimental de Repertório, o Balé da Cidade de São Paulo, o Coral Lírico, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, o Coral Paulistano, o Centro de Documentação Artística, e a Escolas de Música e de Dança. Desta forma terá o Teatro Municipal a liberação do palco para seus espetáculos, promovendo assim um desafogo e ampliação de seus trabalhos em condições bem melhores. O atual Conservatório  abrigará as atividades, que até então não tinham seu espaço próprio, e o Quarteto de Cordas da Cidade terá no salão principal sua sede. Com isso, o Teatro Municipal não é mais um equipamento cultural solitário na região central de São Paulo, que agora deveria se mobilizar para atrair empreendimentos habitacionais para essa parte da cidade, buscando atingir horários mais tarde com movimentação por suas praças. A habitação é o único dos programas arquitetônicos, que não gera a sazonalidade dos usos concentrados, como os edifícios de comércio e serviços, bem como a cultura. A presença habitacional nos centros urbanos brasileiros é de suma importância para a retomada de sua vitalidade em diferentes horários do dia e da noite, gerando também um comércio que se mantém funcionando em horários mais elásticos.


A frente do vale do Anhangabaú ainda inacabada e
indisponível
Mas apesar de inacabada, e sem a presença de um contínuo habitacional de maior expressão, a obra demonstra todo seu potencial na articulação de passagens e de vistas. que nos convidam e falam de uma outra urbanidade possível. A sucessão de praças, passagens sob vãos livres de concreto e vistas fragmentadas de seu interior conformam uma generosidade urbana, que as cidades brasileiras precisam voltar a ter. A supressão dos portões na rua Conselheiro Crispiniano, na Avenida São João, e na frente do Anhangabaú, franqueando o acesso a obra, durante um horário mais dilatado parece ser quase uma reinvindicação da implantação, que parece aguardar por uma maior civilidade, e ao final uma melhor distribuição de oportunidades para o conjunto das pessoas de nossas cidades. E, essa talvez seja a maior virtude da proposta acreditar e apostar numa urbanidade de maior qualidade, uma generosidade que claramente hoje nos falta, mas que deve ser vista como passageira e efêmera.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O novo edifício do Instituto Moreira Sales na Av. Paulista

A edificação do IMS-SP na Avenida Paulista
Por ocasião do 152o Encontro do Conselho Superior (COSU) do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que se realizou em São Paulo de 27 a 30 de setembro de 2017, foi programada uma visita guiada ao novo edifício do Instituto Moreira Sales (IMS), na Avenida Paulista com o escritório Andrade Morettin arquitetos, que assina a autoria do projeto. A visita foi precedida por um debate, Produção e Desafios da Habitação na Arquitetura Contemporânea em São Paulo, no auditório do mesmo IMS, que contou com a presença;  representantes dos escritórios; Andrade Morettin, (o arquiteto Vinicius Morettin); do escritório BaseUrbana,  (a arquiteta Marina Grinover) e do escritorio Biselli + Katchborian (o arquiteto Mario Bizeli) . A mediação foi feita pela arquiteta Luciana Royer, professora da FAU USP e vice-presidente do IABsp; que também contou com a ajuda da arquiteta Marta Bogéa, professora da FAU USP.  O debate foi sobre a recente produção de habitação de interesse social e urbanização de favelas no centro da cidade de São Paulo, um tema caro na história da rede do IAB, que desde pelo menos 1963 quando num seminário no Hotel Quitandinha em Petrópolis, os arquitetos defenderam a reforma urbana. Nessa ocasião, os arquitetos irmanados pela representação do IAB já defendiam que a urbanização de favelas deveria fazer parte da política habitacional do país, não sendo portanto um problema, mas na verdade uma solução. A questão permanece em debate na sociedade brasileira, e nunca pretendeu romantizar as favelas brasileiras, que são fruto claro da precariedade e da exclusão social, mas que, com a implantação de melhorias urbanas adequadas poderiam se incluir como áreas da cidade brasileira, com claras potencialidades. Mas apesar da relevância do assunto, esse texto de hoje se restringe a uma análise do novo edifício do IMS na Avenida Paulista do escritório Andrade Moretin arquitetos associados.

Corte transversal na edificação do IMS-SP
A primeira questão a ser destacada é o primor do detalhamento e da construção da edificação do IMS na Avenida Paulista, um padrão claramente acima da média nacional, e que certamente assinala a monumentalidade do programa. A edificação impressiona e se destaca pelo padrão de detalhamento e pela sua execução, frente a seu entorno imediato, fazendo com que o usuário, por antecipação tenha consciência da magnitude da proposta. Um certo descuido com o pavimento de acesso, no nível da Avenida Paulista, se justifica apenas pela proposição algo forçada e abstrata de construção da grande recepção do centro cultural estar localizada no quinto pavimento. Onde encontramos, a escultura de Calder pertencente ao IAB-SP, a pavimentação em pedra portuguesa, o não fechamento pelas esquadrias da edificação, conformando um avarandado, e as atividades de recepção, guarda volumes, e loja de lembranças e café típicos dos controles de entrada de todos os centros culturais contemporâneos. Tal imposição arbitrária típica do projetar, se remete claramente ao corte da edificação, uma obsessão da arquitetura paulista depois de Vilanova Artigas, seu grande ideólogo, aqui nas palavras dos autores;

"O corte longitudinal esclarece a distribuição do programa, consolidado no ano e meio de desenvolvimento do projeto. Nele, visualiza-se a permeabilidade da calçada da Paulista com o interior do edifício, assim como o seu prolongamento no percurso iniciado por meio de duas escadas rolantes - a primeira com lance de seis metros e a outra, de 11 -, espécie de túnel de luz que conduz ao térreo elevado. Este, localizado no núcleo do prédio - desdobramento dos espaços públicos da Paulista -, é uma praça que abriga infinitas possibilidades de ocupação, “como se tirassem o vão livre do Masp e colocassem no meio do IMS, deixando a liberdade acontecer dentro do edifício”, menciona Marcelo Maia Rosa, arquiteto associado do escritório. A partir daí, tem-se acesso à área de exposições, nos três pavimentos acima, e à midiateca posicionada abaixo." Matéria Arcoweb

Corte esquemático do foulder do IMS para comunicação com os
usuários. A escada frontal não acessa o térreo, nem o 9o pavimento
Várias pessoas já discorreram sobre o significado do corte para a arquitetura paulista desde Vilanova Artigas, no emblemático edifício da escola de arquitetura da Universidade de São Paulo (USP), a FAU, e em outras edificações do mestre. Enquanto, em Le Corbusier a planta é geradora da espacialidade arquitetônica, sintetizando as experiências que serão vividas, em Artigas, o corte é o que melhor concentra a proposição central da edificação. Tanto é assim, que o foulder de visitação amplamente distribuído no centro cultural, se utiliza de um corte para se comunicar com os usuários. Tal atitude definidora da composição arquitetônica, além de se constituir numa plataforma privilegiada da tectonia, sempre também reforça a ideia de caixa autônoma da edificação, acabando por enfatizar a separação entre interior e exterior, enfatizando limites que parecem querer ao mesmo tempo doutrinar e se diferenciar do contexto. Basta lembrarmos da citação do próprio Artigas, enfatizando a interpretação do mestre de obras da própria FAU-USP;

"Doutor, por dentro é uma maravilha, por fora é uma fortaleza." ARTIGAS página35

A escada frontal
Tal atitude metodológica apresenta uma tendência de autonomizar o objeto frente ao seu contexto, reforçando o isolamento da caixa arquitetônica, que no IMS-SP parece estar reforçada pela decisão de transplantar a portaria para o quinto pavimento. A estrutura, a tectonia, a adequação climática estão primordialmente bem resolvidas e concatenadas, mas a distribuição funcional e sua conectividade não são claras. Com isso, há um claro problema de legibilidade na apropriação social da edificação, tornando a imagem ou o mapa mental da construção um pouco complicado, trazendo claros prejuízos na sua utilização. A perda da continuidade e contiguidade com o espaço convencional de maior ordem pública, a rua, a Avenida Paulista trazem claros problemas no registro afetivo da edificação. Tais condições são ainda mais enfatizadas pela ausência de um núcleo de circulação vertical bem dimensionado e bem localizado, que cumprisse o papel claro de reconecção entre galerias, auditório, mediatecas, hall e cidade. A escada frontal, que se conforma clara aos usuários, apenas no quinto pavimento, além de subdimensionada, não acessa o térreo, muito menos o nono andar, trazendo uma descontinuidade para a fruição do edifício, e o registro de um mapa legível. Nesse sentido, a edificação como um todo acaba comprometendo o registro do circuito de visitação, ítem fundamental para qualquer centro cultural.

Bibliografia:

https://www.arcoweb.com.br/projetodesign/tecnologia/andrade-morettin-instituto-moreira-salles-sao-paulo
ARTIGAS, Vilanova - Caminhos da Arquitetura - Editora Cosac Naif São Paulo 2004

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O filme Feito na América é representativo da política externa americana

O filme Feito na América com Tom Cruise
Os Estados Unidos há muito abandonaram uma política externa de princípios ou valores, por outra em nome da sua segurança e dos seus negócios, numa clara traição ao cidadão e contribuinte americano, que sequer consegue saber qual é o orçamento da Central Intelligence Agency (CIA), desde sua criação em 1947. O filme Feito na América faz menção a biografia de Barry Seal, um piloto da TWA, que abandona a aviação comercial para prestar serviços para a CIA na América Latina como piloto autônomo. O relato se concentra na década de 1980, mostrando o piloto Barry Seal que traficava armas para a CIA abastecendo os contra da Revolução Sandinista e ao mesmo tempo, servindo ao cartel de Medellín de Pablo Escobar, trazendo drogas para os EUA. A trama real se passa em grande parte na cidade de Mena no Arkansas, nos EUA, onde ocorriam várias atividades ilegais com a anuência dos presidentes Ronald Reagan, George H.W. Bush e do então governador do Arkansas, Bill Clinton, dentre elas um campo de treinamento dos contras em pleno território americano. A quantidade de dinheiro que Barry Seal manipulava era tão grande que ele passou a enterrar o dinheiro em seu quintal, impossibilitado de recorrer ao sistema financeiro de seu país, com medo da fiscalização da receita.

Já foi comentado aqui no blog a questão do envolvimento internacional dos EUA, no texto; A política externa americana no segundo pós guerra e os recentes acontecimentos em Paris, quando houve o ataque de terroristas árabes na capital francesa. Naquela ocasião assim como nessa minha principal referência é o livro de Perry Andreson, A política externa norte-americana e seus teóricos, no primeiro texto as questões do Oriente Médio eram mais abordadas, e agora nessa reflexão me restrinjo a América Latina. Segundo esse livro, houve uma mudança na passagem do presidente Roosevelt para Truman, na qual se percebe o declínio dos princípios do republicanismo e da democracia, e a ampliação  da questão da segurança.

No entanto, é verdade que a doutrina americana, ou sua concepção de mundo sempre se pautou por uma visão expansionista de ampliação contínua dos domínios da América, principalmente no que se refere ao continente americano. Em comparação com a Europa, na qual havia e ainda há um certo complexo de inferioridade por parte dos americanos, na América do Sul os EUA sempre tiveram uma prepotência culturalista e religiosa, que tem suas raízes na doutrina de pré-destinação protestante e em tempos fundacionais. Basta se remeter as palavras de John Adams a Thomas Jefferson em 1813, ou ao famoso slogan de Jackson, que mostram claramente a doutrina dos founding fathers, muito antes da hegemonia cultural americana do século XX;

"Nossa república federativa pura, virtuosa e dotada de espírito público perdurará para sempre, governará o globo e introduzirá a perfeição do homem." ou a fala de Jackson; "o direito a nosso destino manifesto de cobrir e possuir o continente por inteiro, direito que a Providência nos deu para o grande experimento da liberdade e do autogoverno federado." ANDERSON 2015 página14

A anexação de quase metade de superfície do México (1846-48) aconteceu na sequência desses pronunciamentos, demonstrando de forma clara que a política anti-colonialista americana servia para confrontar as potências imperialistas européias, mas não o continente sul americano, que sempre foi considerado como quintal dos nossos irmãos do norte. Ainda sobre o primeiro Roosevelt, o Panamá foi arrancado da Colômbia. e transformado num protetorado americano para ligar dois mares, o Atlântico e o Pacífico. É verdade que vozes dissonantes e contrárias a doutrina do Destino Manifesto[1] dos EUA sempre se levantaram, dentre elas os Whigs [2], o oficial do exército americano Ulysses S. Grant [3], e o filósofo Henry David Thoureau.[4]. Com a chegada de Woodrow Wilson (1856-1924) a Casa Branca como 28o presidente (1913-1921) a política externa americana assumiu um tom messiânico. A religião, o capitalismo, a democracia, a paz e o poder dos EUA eram uma só força e discurso, fazendo com que o país entrasse na Primeira Guerra, apoiasse o exército branco na guerra civil da revolução russa, e construisse uma lógica que misturava liberdade, justiça e venda de bens americanos para o mundo. No entanto, quando a guerra acabou os 14 Pontos de Wilson foram tratados com desdém pelas potências vitoriosas (Inglaterra e França), mostrando que a Pax Americana ainda não se estabelecera. Mas muito além do século XIX e o começo do século XX, a hegemonia americana plena se manifesta com o final da Segunda Guerra Mundial, quando os sinais de prosperidade transbordavam no país;

"Em 1945, com seu território intocado pela guerra, os Estados Unidos tinham uma economia três vezes maior que a da URSS e cinco vezes maior que a da Grã Bretanha, controlavam metade da produção industrial do mundo e três quartos de suas reservas de ouro... Em Bretton Woods, o berço do Banco Mundial e do FMI, a Grã Bretanha foi obrigada a abandonar a política de Preferência Imperial e o dólar foi estabelecido como mestre dos sistema monetário internacional, a moeda de reserva à qual todas as outras tiveram de se atrelar para fixar seus preços." ANDERSON 2015 página31

Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) não viverá a vitória do exército vermelho sobre Hitler [5], em maio de 1945 quando as tropas soviéticas chegaram em Berlim, Harry S. Truman (1884-1972) um nacionalista paroquial já era o 33o presidente americano. Quatro dias após a rendição da Alemanha em Berlim o novo presidente americano cancelou o acordo militar com a URSS sem qualquer aviso prévio, estabelecendo a Doutrina Truman. Em 05 de junho de 1941, quando ainda era senador, Truman declarara que aos EUA interessava a destruição mútua da Alemanha e da Rússia[6], prenunciando a substituição da Lei de Segurança Social [7] do New Deal, pela Lei de Segurança Nacional. Em março de 1947, Truman proferiu o discurso de alerta contra os perigos do comunismo, no qual ficava claro que a ideologia da política externa americana se pautaria pela segurança. É dessa época a criação do Departamento de Defesa, o Estado-Maior Unificado, o Conselho de Segurança Nacional e a Agência Central de Inteligência (CIA), mecanismos governamentais com orçamentos secretos, justificados pela recorrente tendência de exagerar a fictícia vulnerabilidade do país a ataques. Se conforma então uma mentalidade anti-popular, que chega a pensar em negar o direito de voto a mulheres e negros, centrada numa elite dirigente pseudo esclarecida, e principalmente, imune as paixões populistas, um verdadeiro Estado Novo norte americano.[8] Permanece a referência ao sagrado e a missão divina americana, mesmo quando se trata da matança nuclear, Truman ao lançar a segunda bomba atômica sobre Nagasaki, fala:

"Agradecemos a Deus por [a bomba atômica] ter vindo a nós, e não aos nossos inimigos; e oramos para que Ele possa nos guiar para usá-la em Seus caminhos e para Seus propósitos. " ANDERSON  2015 página42

Aliás as menções a Deus e a uma orientação divina para as ações da política externa americana são constantes e não se restringem a Truman, mas envolvem uma grande diversidade de posicionamentos e atitudes. Com Roosevelt; "O Deus todo poderoso abençoou nossa terra de muitas maneiras...Ele deu ao nosso país uma fé que se tornou a esperança de todos os povos em um mundo angustiado." Ou Eisenhower, que transformou em lema oficial da nação; "Em Deus confiamos" ANDERSON2015 página42. Ou, o católico irlandes Kennedy; "Tendo uma boa consciência como nossa única recompensa garantida e a história como última juíza de nossas ações, sigamos em frente para liberar a terra que amamos, pedindo Sua benção e Sua ajuda, sabedores, porém de que aqui na Terra a obra de Deus deve, em verdade, ser obra nossa,..."ANDERSON2015 página43. Ou o jovem Bush; "Nossa nação foi escolhida por Deus e comissionada pela história para ser um modelo para o mundo..."ANDERSON2015 página43. Até Obama; "Essa é a fonte de nossa confiança: o conhecimento de que Deus nos convoca a dar forma a um destino incerto..." ANDERSON2015 página43 Todos esses depoimentos atestam que a Doutrina Calvinista da Pré-Destinação deixou o indivíduo e se abrigou numa nação, que usa desses argumentos divinos para tiranizar e policiar nosso continente de forma arbitrária.

No filme Feito na América fica claro a irresponsabilidade da política externa americana, que a partir da clivagem da Guerra Fria e do perigo de disseminação do comunismo, acaba por incentivar o tráfico de drogas do poderoso Cartel de Medellin. A América latina é vista como um território de bárbaros, onde uma política de segurança cria e impulsiona um dos ciclos de tráfico de drogas mais prejudiciais a uma cidade, como o de Pablo Escobar em Medellin. Literalmente, um Estado de Exceção que foi naturalizado pelo mundo contemporâneo, que continua se iludindo com a retórica da democracia, que apenas espalha injustiça, e que agora é tornado invisível pela mídia mundial.

"O mundo livre era compatível com a ditadura: a liberdade que o definia não era a liberdade dos cidadãos, mas a do capital..." ANDERSO 2015 página69

As intervenções militares se sucedem desde o final da segunda guerra mundial. Já em 1947 celebra-se no Rio de Janeiro o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o mais importante ideólogo da política externa americana, George F. Kennan declara; "è melhor ter um regime forte no poder do que um governo liberal, indulgente, relaxado e impregnado de comunistas." Em 1954 na Guatemala com a nacionalização da United Fruit Company e a legalização do Partido Comunista local, os EUA contratam mercenários e derrubam o governo eleito de Arbenz. Seis anos mais tarde, em 1960, a Revolução Cubana nacionalizava os empreendimentos americanos na ilha, o presidente Kennedy esbraveja defendendo uma invasão da CIA.  Em 1964 os militares brasileiros encenaram o primeiro dos golpes contra revolucionário, os EUA enviam o porta aviões Forrestal apoiado por destroieres de apoio, numa mobilização nomeada de Operação Irmão Sam. Em 1965, fuzileiros navais americanos entram na República Dominicana para repelir um fictício perigo comunista com o apoio do exército brasileiro em retribuição. Em janeiro de 1973, acordos são assinados em Paris, programando a retirada das tropas do Vietnã em sessenta dias, a potência militar humilhada é compensada pelo golpe de estado contra Allende, um socialista eleito no Chile, em 11 de setembro do mesmo ano.

Enfim, a política externa americana é uma tragédia para a América Latina, o filme Feito na América denuncia essa condição, mas apenas reforça uma ideologia do voluntarismo de um indivíduo, Barry Seal, quando na verdade, mais parece a determinação de um Estado de Exceção, que já não mais presta esclarecimentos ao cidadão americano.

NOTAS:

[1] A doutrina do Destino Manifesto propunha a expansão contínua dos colonos americanos pelo continente com esforço de aperfeiçoamento civilizatório. O povo americano era eleito por Deus para civilizar o continente americano.
[2] O partido Whig foi fundado por Henry Clay em (1833-34), e tinha uma clara posição anti-expansionista propondo o aperfeiçoamento da democracia americana antes de sua expansão.
[3] Ulysse S. Grant (1822-85) foi oficial americano combatente na guerra com o México, quando jovem, depois oficial comandante em chefe das tropas da União, e o 18o presidente americano (1869-77)
[4] Henry David Thoreaux (1817-62) filósofo e poeta trancendentalista norte-americano, que em sua luta contra a guerra com o México se recusou a pagar impostos e se refugiou nas florestas maricanas, praticando um extrativismo de auto-sustentação, no norte dos EUA. É por muitos considerado a inspiração para o movimento hippie dos anos 60, a partir de seu posicionamento propondo a desobediência civil.
[5] A rendição da Alemanha em Berlim foi em 02 de maio de 1945, e Roosevelt morre em 12 de abril de 1945.
[6] O discurso de Truman no senado em 05 de junho de 1941 foi: "Se virmos que a Alemanha está ganhando, devemos ajudar a Rússia, e se a Rússia estiver ganhando, devemos ajudar a Alemanha, e, desse modo, deixá-los matar o maior número possível de pessoas."
[7] Lei promulgada em 1935 instituindo o sistema de seguridade social público nos EUA.
[8] Segundo ANDERSON 2015,  oprincipal ideólogo da política externa americana é George Kennam, um conservador "admirador de Salazar"

BIBLIOGRAFIA:

ANDERSON, Perry - A política externa norte-americana e seus teóricos - editora Boitempo São Paulo 2015

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Debate no IAB-RJ sobre mobilização e projeto no Baixo Rio

Nessa última segunda feira dia 25 de setembro de 2017, reuniu-se no auditório do Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) para debater como a transformação e a modificação da cidade existente são mobilizadores do interesse geral. Um pouco antes foi realizada a Assembléia Geral do IAB-RJ, que abre o processo de inscrição de chapas para a renovação de um terço do seu Conselho Estadual para o ano de 2018. O debate se concentrou a partir da problemática do bairro do Rio Comprido na cidade do Rio de Janeiro, em torno de temas como; a macro-drenagem, o regime de chuvas da cidade, o rodoviarismo, a infraestrutura e os corredores verdes. A tônica era uma estratégia para a transformação desse bairro, em torno da bacia do Rio Comprido. Com uma audiência qualificada, que contava com a presença do presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU-RJ) Jeronimo Moraes, as Assessoras da Secretária de Planejamento do município Aspásia Camargo; Raquel Fares e Claudia Froes, assim como a geógrafa Selma Santa Maria da Secretaria de Meio Ambiente, dentre outros. A mesa para promoção do debate foi composta por Guto Santos, arquiteto coordenador do movimento Baixo Rio, Deise dos Santos fundadora da Organização não governamental ARONG que atua no Rio Comprido, Lucas Araujo arquiteto cursando a pós graduação na PUC-Rio, Osvaldo Rezende, engenheiro civil, hidrólogo e especialista em recursos hídricos e saneamento, Cecília Herzog paisagista urbana coordenadora da pós graduação interdisciplinar em Paisagismo Ecológico da PUC-Rio, mediados pelo arquiteto e presidente do IAB-RJ, Pedro da Luz Moreira.

Rio Cheonggyecheon na cidade de Seul, que até 2004 era coberto por um
viaduto com seis pistas de rolamento
As falas dos palestrantes se sucederam enfatizando temas como; a mobilização social em torno do plano e do projeto, o trabalho de educação continuada da juventude no bairro do Rio Comprido, as potencialidades da infra estrutura verde na regeneração ambiental de nossas cidades, a era do antropoceno, a dinâmica das bacias e sub-bacias fluviais na cidade, as novas premissas do projeto verde, resiliência nas cidades, cidade biofílica, etc... Nas quais, cada palestrante conseguiu transmitir para o auditório no IAB-RJ o nivelamento das informações e potencialidades do processo de mobilização geral do bairro em torno da bacia do Rio Comprido. Destaca-se aqui a menção da professora Cecília Herzog sobre a requalificação urbana levada a cabo na cidade de Seul na Coréia do Sul, que envolveu a supressão de várias faixas de rolamento rodoviário para promover o reaparecimento do Rio Cheonggyecheon (ver foto), no coração da cidade oriental. O presidente do IAB-RJ também assinalou, que a cidade de Seul na Coréia do Sul sediou no começo do mês de setembro de 2017, o Congresso da União Internacional de Arquitetos UIA Seul 2017, e que o próximo encontro será na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 2020, enfatizando a necessidade da mobilização em torno do Rio Comprido ser documentada e ganhar maior expressão até lá.

Os questionamentos e colocações da audiência qualificada presente no IAB-RJ envolveram questões variadas, que giravam em torno da relação entre meio urbano artificial e meio ambiente natural, e a necessidade contemporânea de se buscar um convívio mais harmônico. O modelo rodoviarista ainda operante em nossas cidades foi claramente descartado. Muito além de qualquer pré-figuração da transformação pretendida para o bairro do Rio Comprido, o evento no IAB-RJ demonstrou de forma clara que é possível debater princípios e parâmetros norteadores de qualquer tipo de mudança, subsidiando planos e projetos, para ao final, engajar e cooptar a população interessada. Uma clara sinalização de que a gestão dos planos e projetos para a cidade do século XXI começam a mudar.

sábado, 23 de setembro de 2017

Charlotesville na Virgínia nos EUA, Thomas Jefferson e nossas cidades

A Universidade da Virgínia, classicismo, cultura e a celebração das
pequenas comunidades
Volto às particularidades do americanismo, a partir da cidade de Charlottesville no sul dos Estados Unidos, no estado da Virgínia, terra natal do terceiro presidente da república americana (1801-1809), o arquiteto iluminista Thomas Jefferson (1743-1826). Ela foi eleita recentemente (2004) como a melhor cidade para se viver no país, segundo estudo narrado no livro Cities Ranked and Rated de Bert Sperling e Peter Sander, que avaliaram as cidades americanas a partir do custo de vida, clima, desenvolvimento e oportunidades. Recentemente, a cidade esteve estampada nas manchetes dos jornais americanos e do mundo todo pelos confrontos raciais que celebravam e condenavam a veneração à estátua do General Confederado Robert Edward Lee. As manifestações se iniciaram com grupos da supremacia branca, que condenaram a decisão da administração local de remover a estátua equestre do General Lee por ela representar valores racistas do antigo sul americano. Já havia abordado o tema no texto do dia 07 de setembro de 2017, intitulado O fordismo e o americanismo no século XX, e o rodoviarismo e o retiro idílico da habitação unifamiliar, a partir da perspectiva de Antonio Gramsci, que no caderno 22 dos Cadernos do Cárcere aborda a questão do Americanismo e Fordismo. A perspectiva do filósofo da Sardenha é a da crítica radical da cultura, embora recorte o problema a partir do tema do Chão da Fábrica, portanto no ambiente da comunidade urbana, e da estruturação das novas relações do capital e do trabalho na moderna unidade de produção americana. Mas, apesar do recorte do tema a construção de Gramsci é claramente cultural e se refere aos hábitos cotidianos naturalizados, como na passagem;

"Pode se dizer genericamente que o americanismo e o fordismo resultam da necessidade imanente de compor a organização de uma economia programática [1]...Registro de alguns dos problemas mais importantes ou bastante interessantes, mesmo que a primeira vista não sejam prioritários: 1.substituição da atual classe plutocrática por um novo mecanismo de acumulação e distribuição do capital financeiro baseado diretamente na produção industrial 2. A questão sexual, 3. A questão se o americanismo pode constituir uma época histórica, isto é, se pode determinar um desenvolvimento gradual como o examinado anteriormente, como o caso das revoluções passivas, [2] próprias do século passado, ou se, em vez disso, representa apenas a acumulação molecular de elementos destinados a produzir uma explosão, ou seja uma convulsão de tipo francês; ..." GRAMSCI 2008 página32

A casa de Thomas Jeferson em Monticello
E, aqui penso que o americanismo, ou a hegemonia cultural americana é claramente um período histórico, que ainda exerce uma certa sedução  sobre o senso comum, mas que já anuncia seu declínio, principalmente no que se refere aos padrões do habitar e do bem viver. No artigo anterior abordei a questão do rodoviarismo articulado com os subúrbios habitacionais de baixa densidade a partir da residência unifamiliar das cidades americanas, e como esse padrão ainda impera no mundo contemporâneo. Nesse sentido, a cidade de Charlotesville na Virgínia concentra e representa uma outra parte do americanismo, tanto no que se refere ao retiro idílico das pequenas cidades - afinal são apenas 50mil habitantes - , mas também com a presença de uma consciência cosmopolita associada a presença na cidade, da Universidade da Virgínia. Sem dúvida as universidades americanas apresentam um padrão de excelência acima do padrão geral do mundo, e participam do que podemos chamar da doutrina americana. Fazem essa fortuna, o declarado interesse por atrair professores e alunos de todo o mundo, numa celebração clara da didática pela diferença de posicionamentos, e na constituição de acervos documentais das suas bibliotecas impressionantes. também com uma pluralidade de visões. Já publiquei aqui um texto, em 17 de janeiro de 2015, com o título Mais um texto sobre New Heaven: a Biblioteca Bienecke da Universidade de Yale, que guarda as obras raras dessa instituição, que além dela possui um acervo invejável de livros, inclusive em português, e que se constitui numa edificação maravilhosa. Nesse sentido é elucidativo ler a matéria da escritora, tradutora e brazilianista americana, radicada no Brasil, Flora Thomson-Deveaux que é natural de Charlottesville, na última Revista Piauí;

"Minha cidade não faz parte do imaginário coletivo brasileiro, e meus novos amigos, de modo geral não sabiam nada sobre ela, nem sequer onde ela fica exatamente. A formulação vaga de que era 'uma cidadezinha no meio da Virgínia' sempre me pareceu insuficiente. Durante minha primeira estadia no Rio [de Janeiro], cheguei a carregar na carteira uma moeda de cinquenta centavos de dólar, o nickel, e mostrá-la como resposta. A cara de Thomas Jefferson, tem como coroa uma imagem de Monticello, a casa erigida por ele. A construção fica no cume de uma montanha... Logo abaixo do monte está Charlottesville...Fica no sul, eu dizia, mas não no sul de verdade. O que eu queria dizer era; é uma cidade progressista, cravada quase por acaso numa das regiões historicamente mais conservadoras dos Estados Unidos." THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página34

A planta da casa de Jeferson em Monticello
A universidade foi fundada em 1819 por Thomas Jefferson, que preteriu Richmond a capital do estado da Virgínia, para segundo o ex-presidente americano, "afastar os alunos das distrações da cidade grande". Tanto a Universidade da Virginia, quanto a residência de Jefferson em Monticello, ambas atrações do patrimônio de Charlottesville são projetos do terceiro presidente dos EUA, e estão construídas segundo preceitos da arquitetura do iluminismo. Um exemplar neo clássico, aproximado ao romantismo, que mistura colunatas e arcadas clássicas brancas, contrapostas a panos de parede de tijolos aparentes, celebrando ao mesmo tempo uma racionalidade generalista e um localismo contextual e artesanal. O agrarismo e a celebração das pequenas cidades é uma das características dos posicionamentos de Thomas Jefferson, que não via com bons olhos os comportamentos suscitados pelas grandes cidades americanas. Os chamados fouding fathers [3], que se reuniram para decretar a independência das treze colônias frente a Inglaterra, que eram; John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison, e George Washington, nos quais se percebe a predominância de uma mentalidade de celebração das pequenas cidades e comunidades, não necessariamente agrárias. É interessante notar, que dentre os sete pais fundadores da nação se desenvolve uma clara cisão de concepções desde a independência. De um lado, os defensores de um governo central forte, onde prevalece os urbanos, e de outro os partidários de uma federação de estados autônomos, onde prevalecem os rurais. Tais cisões acabarão desembocando na guerra civil americana, entre o norte industrial e o sul agrário e escravocrata, que apontam para uma unidade conformada pela diversidade de posicionamentos, uma heterogeneidade.

"A diversificada biografia de Jefferson parecia sob medida para agradar todo mundo. Foi ele o autor da Declaração de Independência e o nosso terceiro presidente, além de ter negociado a compra do território da Lousiana - ou a maior parte do que hoje  é o oeste dos Estados Unidos - de um Napoleão falido. Jefferson era um rebelde, um diplomata, um arquiteto. Foi só na esteira de #charlottesville, que anunciaram: seu memorial em Washington seria atualizado para que constasse, que o herói da Independência também tinha sido um senhor de escravos... Uma das lembranças mais fortes que tenho daquela excursão [ a casa de Jefferson] é da tarde que passamos desenterrando batatas na horta de uma das casinhas próximas a grande mansão de Thomas Jefferson. Os monitores provavelmente devem ter comentado que aquelas casinhas funcionavam como senzala... Alguns anos mais tarde, escavações descobriram um cemitério de escravos naquele terreno. Na mesma época, exames de DNA provaram que Jefferson teve filhos com uma das escravas, Sally Heninings, que era também meia irmã de sua esposa." THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página36

A expansão em direção ao novo em
Charlottesville
Sem dúvida, esse trecho comprova os interesses pela narrativa da história, que volta e meia des-humaniza personagens em nome de um relato, que se adeque as pretensões ideológicas da construção da grandeza das nações. Mas, muito além da celebração da possível integridade moral e psiquíca das pequenas comunidades, e do cosmopolitismo das universidades nos EUA, o americanismo também proclama uma eterna conquista de expansão, uma busca interminável pela fronteira selvagem. Tal mentalidade, tem determinado em nossas cidades pelo mundo contemporâneo, uma constante vontade de anexar novos territórios, de expandir ao invés de reocupar trechos já explorados. É interessante notar como esse posicionamento está expresso no próprio nome do país, que ao se proclamar como Estados Unidos da América, configura um agrupamento de Estados numa federação, e ao mesmo tempo abre a possibilidade contínua de expansão do território. Ao contrário de Brasil, ou Argentina, ou França, ou ainda Inglaterra, o novo país que se liberta da Grã Bretanha, afirma-se como uma federação inicial de treze colônias, literalmente sem uma identidade ou nome [4]. A própria bandeira americana assinala esse caráter expansivo e mutante da história americana, a primeira tinha 13 listras, alternando o vermelho e o branco, no canto superior esquerdo 13 estrelas sobre o fundo azul, tendo havido alguns modelos em que as estrelas delineavam um círculo. A expansão para o oeste, que caracterizou grande parte da história americana consagra uma mentalidade contínua de busca pelo novo e o inusitado, como um valor reformador. Em Charlottesville também há monumentos, que celebram esse expansionismo americano em direção ao oeste e à inovação de uma vida renovada, trazendo a sedução da ampliação contínua.

"Fora do campus da Universidade da Virgínia, espalhadas pela cidade, há algumas estátuas de homens em posição de combate, montados ou não em um cavalo, que me pareciam pouco interessantes Conforme eu ia crescendo, provavelmente por influência do feminismo da minha mãe e da minha irmã, comecei a implicar com um monumento em especial, num dos cruzamentos mais importantes do centro. Tratam-se de três figuras de bronze: em primeiro plano, varonis, estão Meriwether Lewis (1774-1809) e William Clark, os dois homens encarregados pelo já presidente Jefferson de desbravarem o oeste. Em segundo plano, quase escondida atrás deles, está Sacagawea, a intérprete indígena que acompanhava a expedição..."THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página36

É interessante perceber que grande parte da materialização dessas estátuas, do General Lee e dos heróis da expansão para o oeste, em Charlottesville são confeccionadas na década de 1920, muito antes da batalha do Reverendo Marthin Luther King pelos direitos civis dos negros . E, que grande parte delas foi patrocinada por um milionário da cidade, que tinha sua fortuna não por conta da plantação de algodão ou fumo, mas por investimentos na Bolsa de Valores de Nova York. É também interessante destacar que os territórios das cidades são um palco para as diversas versões em disputa das narrativas históricas conformadoras de como nos vemos. E, que a cidade pode ser vista como o território do poder, e como tal é sempre o local da narrativa dos vencedores, afinal não há documento de cultura, que não seja também de barbárie, pelo menos em nossa história até aqui [5].

"Eu não sabia, por exemplo, que as estátuas da minha cidade não eram da época da guerra. Tinham sido instaladas só na década de 20, e a inauguração de algumas delas fora acompanhada de celebrações de simpatizantes do governo escravista - entre eles a famigerada Klu Klux Klan... O doador de várias delas, Paul G. McIntire, nasceu em Charlotesville em 1860, onde ainda criança, testemunhou a invasão das vitoriosas tropas federais. Chegou a matricular-se na Universidade da Virgínia, mas não chegou a concluir o curso superior, e acabou se mudando para Nova York, onde fez fortuna investindo na Bolsa de Valores. McIntire patrocinou a construção de parques e espalhou monumentos pela cidade."THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página36

Enfim, a história me parece um campo aberto para que sejam refeitas reinterpretações daquilo que somos hoje. No patrimônio das cidades efetivamente construídas encontramos discursos celebratórios, que podem se transformar em condenatórios, o valor dos esforços estão sempre sob o julgamento das novas gerações. No meio da humanidade nunca há heróis irretocáveis, mas sempre figuras humanas permeadas por interesses e condicionamentos ideológicos, que estruturam sua atuação por esses. A arquitetura, a cidade e seus monumentos possuem essa capacidade de abrigar novas pretensões da nova história, que afinal também inclua o relato dos vencidos. Nesse sentido, creio que o pensamento de Gramsci tem um valor inestimável para nosso tempo contemporâneo, pois foi estruturado a partir da distinção no Estado moderno entre sociedade política e sociedade civil, garantindo a possibilidade dos discursos progressistas contaminarem o senso comum. A dominação econômica, social e política é realizada por um grupo de interesses quando esse conquista a sociedade política, que envolve os aparelhos burocráticos do Estado moderno, suas leis e sua configuração geral, no entanto o consentimento e a aprovação da dominação se dá na sociedade civil. Num nível abaixo, portanto existe a sociedade civil, que é responsável pela elaboração e difusão de ideologias variadas, e que é conformada pelo sistema escolar, as igrejas, as organizações profissionais, os meios de comunicação, as instituições de caráter artístico e científico, etc...A conquista das mentalidades em geral da sociedade, inclusive a incorporação e vinculação dos relatos dos vencidos para as diversas narrativas históricas se dá no âmbito da sociedade civil. O relato da brazilianista Flora Thonmson-DeVeaux na Revista Piauí sobre a cidade de Charlottesville, me parece confirma essa tese.

NOTAS:

[1] A expressão economia programática é utilizada para referir-se a uma maior planificação econômica
[2] Por revoluções passivas Gramsci se refere as transformações conservadoras do século XIX, que foram o Rissorgimento Italiano e a Unificação da Alemanha.
[3] Literalmente os pais fundadores da nação, que articularam a revolta contra a Inglaterra, segundo os historiadores. Dentre os sete, três apenas provinham diretamente das atividades agrárias do sul; George Washington (Primeiro Presidente americano), Thomas Jefferson (Terceiro Presidente americano), e James Madison (Quarto Presidente americano). Enquanto que os provenientes de  típicas ocupações urbanas eram; John Adams (Segundo Presidente americano), Benjamim Franklin, Alexander Hamilton e John Jay.
[4] Trechos da Declaração de Independêcia redigida por Thomas Jefferson comprovam claramente isso; "Nós portanto, representantes dos Estados Unidos da América, em congresso geral, reunido, pedindo ao Juiz Supremo do mundo que dê testemunho da retidão das intenções, solenemente publicamos e declaramos em nome do bom povo dessas colônias e pela autoridade que ele nos conferiu, que estas Colônias Unidas são, e por direito devem sê-lo, Estados livres e independentes; que estão liberadas de qualquer lealdade à Coroa Britânica, e que toda a conexão política entre elas e o Estado da Grã-Bretanha é, e deve ser, totalmente dissolvida; e que como Estados livres e independentes, elas têm plenos poderes para fazer a guerra, concluir a paz, contratar alianças, instituir o comércio e fazer todas as leis e coisas que os Estados independentes tem o direito de fazer. E em abono dessa declaração, com firme confiança na Proteção da Divina Providência, mutuamente hipotecamos uns aos outros nossas vidas, nossas fortunas e nossa honra sagrada."
[5] A VII tese sobre a filosofia da história de Wlater Benjamim afirma literalmente; "Não há documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie. E assim como os próprios bens culturais não estão livres da barbárie, também não o está o processo de transmissão com que eles passam de uns a outros." 

BIBLIOGRAFIA:

BENJAMIM, Walter~Teses sobre a filosofia da história - Editora Ática São Paulo 1985
GRAMSCI, Antonio - Americanismo e Fordismo - Editora Hedra São Paulo 2008
KARNAL, Leandro - História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI - Editora Contexto São Paulo 2008
SPERLING, Bert e SANDER, Peter - Cities Ranked and Rated - Wiley Publishing New Jersey 2004
THOMSON-DEVAUX, Flora - #Charlotesville, como minha cidade natal se tornou o foco da disputa política nos Estados Unidos - Revista Piauí setembro 2017
TOTA, Antonio Pedro - Os americanos - Editora Contexto São Paulo 2009