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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O novo edifício do Instituto Moreira Sales na Av. Paulista

A edificação do IMS-SP na Avenida Paulista
Por ocasião do 152o Encontro do Conselho Superior (COSU) do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que se realizou em São Paulo de 27 a 30 de setembro de 2017, foi programada uma visita guiada ao novo edifício do Instituto Moreira Sales (IMS), na Avenida Paulista com o escritório Andrade Morettin arquitetos, que assina a autoria do projeto. A visita foi precedida por um debate, Produção e Desafios da Habitação na Arquitetura Contemporânea em São Paulo, no auditório do mesmo IMS, que contou com a presença;  representantes dos escritórios; Andrade Morettin, (o arquiteto Vinicius Morettin); do escritório BaseUrbana,  (a arquiteta Marina Grinover) e do escritorio Biselli + Katchborian (o arquiteto Mario Bizeli) . A mediação foi feita pela arquiteta Luciana Royer, professora da FAU USP e vice-presidente do IABsp; que também contou com a ajuda da arquiteta Marta Bogéa, professora da FAU USP.  O debate foi sobre a recente produção de habitação de interesse social e urbanização de favelas no centro da cidade de São Paulo, um tema caro na história da rede do IAB, que desde pelo menos 1963 quando num seminário no Hotel Quitandinha em Petrópolis, os arquitetos defenderam a reforma urbana. Nessa ocasião, os arquitetos irmanados pela representação do IAB já defendiam que a urbanização de favelas deveria fazer parte da política habitacional do país, não sendo portanto um problema, mas na verdade uma solução. A questão permanece em debate na sociedade brasileira, e nunca pretendeu romantizar as favelas brasileiras, que são fruto claro da precariedade e da exclusão social, mas que, com a implantação de melhorias urbanas adequadas poderiam se incluir como áreas da cidade brasileira, com claras potencialidades. Mas apesar da relevância do assunto, esse texto de hoje se restringe a uma análise do novo edifício do IMS na Avenida Paulista do escritório Andrade Moretin arquitetos associados.

Corte transversal na edificação do IMS-SP
A primeira questão a ser destacada é o primor do detalhamento e da construção da edificação do IMS na Avenida Paulista, um padrão claramente acima da média nacional, e que certamente assinala a monumentalidade do programa. A edificação impressiona e se destaca pelo padrão de detalhamento e pela sua execução, frente a seu entorno imediato, fazendo com que o usuário, por antecipação tenha consciência da magnitude da proposta. Um certo descuido com o pavimento de acesso, no nível da Avenida Paulista, se justifica apenas pela proposição algo forçada e abstrata de construção da grande recepção do centro cultural estar localizada no quinto pavimento. Onde encontramos, a estátua de Calder pertencente ao IAB-SP, a pavimentação em pedra portuguesa, o não fechamento pelas esquadrias da edificação, conformando um avarandado, e as atividades de recepção, guarda volumes, e loja de lembranças e café típicos dos controles de entrada de todos os centros culturais contemporâneos. Tal imposição arbitrária típica do projetar, se remete claramente ao corte da edificação, uma obsessão da arquitetura paulista depois de Vilanova Artigas, seu grande ideólogo, aqui nas palavras dos autores;

"O corte longitudinal esclarece a distribuição do programa, consolidado no ano e meio de desenvolvimento do projeto. Nele, visualiza-se a permeabilidade da calçada da Paulista com o interior do edifício, assim como o seu prolongamento no percurso iniciado por meio de duas escadas rolantes - a primeira com lance de seis metros e a outra, de 11 -, espécie de túnel de luz que conduz ao térreo elevado. Este, localizado no núcleo do prédio - desdobramento dos espaços públicos da Paulista -, é uma praça que abriga infinitas possibilidades de ocupação, “como se tirassem o vão livre do Masp e colocassem no meio do IMS, deixando a liberdade acontecer dentro do edifício”, menciona Marcelo Maia Rosa, arquiteto associado do escritório. A partir daí, tem-se acesso à área de exposições, nos três pavimentos acima, e à midiateca posicionada abaixo." Matéria Arcoweb

Corte esquemático do foulder do IMS para comunicação com os
usuários. A escada frontal não acessa o térreo, nem o 9o pavimento
Várias pessoas já discorreram sobre o significado do corte para a arquitetura paulista desde Vilanova Artigas, no emblemático edifício da escola de arquitetura da Universidade de São Paulo (USP), a FAU, e em outras edificações do mestre. Enquanto, em Le Corbusier a planta é geradora da espacialidade arquitetônica, sintetizando as experiências que serão vividas, em Artigas, o corte é o que melhor concentra a proposição central da edificação. Tanto é assim, que o foulder de visitação amplamente distribuído no centro cultural, se utiliza de um corte para se comunicar com os usuários. Tal atitude definidora da composição arquitetônica, além de se constituir numa plataforma privilegiada da tectonia, sempre também reforça a ideia de caixa autônoma da edificação, acabando por enfatizar a separação entre interior e exterior, enfatizando limites que parecem querer ao mesmo tempo doutrinar e se diferenciar do contexto. Basta lembrarmos da citação do próprio Artigas, enfatizando a interpretação do mestre de obras da própria FAU-USP;

"Doutor, por dentro é uma maravilha, por fora é uma fortaleza." ARTIGAS página35

A escada frontal
Tal atitude metodológica apresenta uma tendência de autonomizar o objeto frente ao seu contexto, reforçando o isolamento da caixa arquitetônica, que no IMS-SP parece estar reforçada pela decisão de transplantar a portaria para o quinto pavimento. A estrutura, a tectonia, a adequação climática estão primordialmente bem resolvidas e concatenadas, mas a distribuição funcional e sua conectividade não são claras. Com isso, há um claro problema de legibilidade na apropriação social da edificação, tornando a imagem ou o mapa mental da construção um pouco complicado, trazendo claros prejuízos na sua utilização. A perda da continuidade e contiguidade com o espaço convencional de maior ordem pública, a rua, a Avenida Paulista trazem claros problemas no registro afetivo da edificação. Tais condições são ainda mais enfatizadas pela ausência de um núcleo de circulação vertical bem dimensionado e bem localizado, que cumprisse o papel claro de reconecção entre galerias, auditório, mediatecas, hall e cidade. A escada frontal, que se conforma clara aos usuários, apenas no quinto pavimento, além de subdimensionada, não acessa o térreo, muito menos o nono andar, trazendo uma descontinuidade para a fruição do edifício, e o registro de um mapa legível. Nesse sentido, a edificação como um todo acaba comprometendo o registro do circuito de visitação, ítem fundamental para qualquer centro cultural.

Bibliografia:

https://www.arcoweb.com.br/projetodesign/tecnologia/andrade-morettin-instituto-moreira-salles-sao-paulo
ARTIGAS, Vilanova - Caminhos da Arquitetura - Editora Cosac Naif São Paulo 2004

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O filme Feito na América é representativo da política externa americana

O filme Feito na América com Tom Cruise
Os Estados Unidos há muito abandonaram uma política externa de princípios ou valores, por outra em nome da sua segurança e dos seus negócios, numa clara traição ao cidadão e contribuinte americano, que sequer consegue saber qual é o orçamento da Central Intelligence Agency (CIA), desde sua criação em 1947. O filme Feito na América faz menção a biografia de Barry Seal, um piloto da TWA, que abandona a aviação comercial para prestar serviços para a CIA na América Latina como piloto autônomo. O relato se concentra na década de 1980, mostrando o piloto Barry Seal que traficava armas para a CIA abastecendo os contra da Revolução Sandinista e ao mesmo tempo, servindo ao cartel de Medellín de Pablo Escobar, trazendo drogas para os EUA. A trama real se passa em grande parte na cidade de Mena no Arkansas, nos EUA, onde ocorriam várias atividades ilegais com a anuência dos presidentes Ronald Reagan, George H.W. Bush e do então governador do Arkansas, Bill Clinton, dentre elas um campo de treinamento dos contras em pleno território americano. A quantidade de dinheiro que Barry Seal manipulava era tão grande que ele passou a enterrar o dinheiro em seu quintal, impossibilitado de recorrer ao sistema financeiro de seu país, com medo da fiscalização da receita.

Já foi comentado aqui no blog a questão do envolvimento internacional dos EUA, no texto; A política externa americana no segundo pós guerra e os recentes acontecimentos em Paris, quando houve o ataque de terroristas árabes na capital francesa. Naquela ocasião assim como nessa minha principal referência é o livro de Perry Andreson, A política externa norte-americana e seus teóricos, no primeiro texto as questões do Oriente Médio eram mais abordadas, e agora nessa reflexão me restrinjo a América Latina. Segundo esse livro, houve uma mudança na passagem do presidente Roosevelt para Truman, na qual se percebe o declínio dos princípios do republicanismo e da democracia, e a ampliação  da questão da segurança.

No entanto, é verdade que a doutrina americana, ou sua concepção de mundo sempre se pautou por uma visão expansionista de ampliação contínua dos domínios da América, principalmente no que se refere ao continente americano. Em comparação com a Europa, na qual havia e ainda há um certo complexo de inferioridade por parte dos americanos, na América do Sul os EUA sempre tiveram uma prepotência culturalista e religiosa, que tem suas raízes na doutrina de pré-destinação protestante e em tempos fundacionais. Basta se remeter as palavras de John Adams a Thomas Jefferson em 1813, ou ao famoso slogan de Jackson, que mostram claramente a doutrina dos founding fathers, muito antes da hegemonia cultural americana do século XX;

"Nossa república federativa pura, virtuosa e dotada de espírito público perdurará para sempre, governará o globo e introduzirá a perfeição do homem." ou a fala de Jackson; "o direito a nosso destino manifesto de cobrir e possuir o continente por inteiro, direito que a Providência nos deu para o grande experimento da liberdade e do autogoverno federado." ANDERSON 2015 página14

A anexação de quase metade de superfície do México (1846-48) aconteceu na sequência desses pronunciamentos, demonstrando de forma clara que a política anti-colonialista americana servia para confrontar as potências imperialistas européias, mas não o continente sul americano, que sempre foi considerado como quintal dos nossos irmãos do norte. Ainda sobre o primeiro Roosevelt, o Panamá foi arrancado da Colômbia. e transformado num protetorado americano para ligar dois mares, o Atlântico e o Pacífico. É verdade que vozes dissonantes e contrárias a doutrina do Destino Manifesto[1] dos EUA sempre se levantaram, dentre elas os Whigs [2], o oficial do exército americano Ulysses S. Grant [3], e o filósofo Henry David Thoureau.[4]. Com a chegada de Woodrow Wilson (1856-1924) a Casa Branca como 28o presidente (1913-1921) a política externa americana assumiu um tom messiânico. A religião, o capitalismo, a democracia, a paz e o poder dos EUA eram uma só força e discurso, fazendo com que o país entrasse na Primeira Guerra, apoiasse o exército branco na guerra civil da revolução russa, e construisse uma lógica que misturava liberdade, justiça e venda de bens americanos para o mundo. No entanto, quando a guerra acabou os 14 Pontos de Wilson foram tratados com desdém pelas potências vitoriosas (Inglaterra e França), mostrando que a Pax Americana ainda não se estabelecera. Mas muito além do século XIX e o começo do século XX, a hegemonia americana plena se manifesta com o final da Segunda Guerra Mundial, quando os sinais de prosperidade transbordavam no país;

"Em 1945, com seu território intocado pela guerra, os Estados Unidos tinham uma economia três vezes maior que a da URSS e cinco vezes maior que a da Grã Bretanha, controlavam metade da produção industrial do mundo e três quartos de suas reservas de ouro... Em Bretton Woods, o berço do Banco Mundial e do FMI, a Grã Bretanha foi obrigada a abandonar a política de Preferência Imperial e o dólar foi estabelecido como mestre dos sistema monetário internacional, a moeda de reserva à qual todas as outras tiveram de se atrelar para fixar seus preços." ANDERSON 2015 página31

Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) não viverá a vitória do exército vermelho sobre Hitler [5], em maio de 1945 quando as tropas soviéticas chegaram em Berlim, Harry S. Truman (1884-1972) um nacionalista paroquial já era o 33o presidente americano. Quatro dias após a rendição da Alemanha em Berlim o novo presidente americano cancelou o acordo militar com a URSS sem qualquer aviso prévio, estabelecendo a Doutrina Truman. Em 05 de junho de 1941, quando ainda era senador, Truman declarara que aos EUA interessava a destruição mútua da Alemanha e da Rússia[6], prenunciando a substituição da Lei de Segurança Social [7] do New Deal, pela Lei de Segurança Nacional. Em março de 1947, Truman proferiu o discurso de alerta contra os perigos do comunismo, no qual ficava claro que a ideologia da política externa americana se pautaria pela segurança. É dessa época a criação do Departamento de Defesa, o Estado-Maior Unificado, o Conselho de Segurança Nacional e a Agência Central de Inteligência (CIA), mecanismos governamentais com orçamentos secretos, justificados pela recorrente tendência de exagerar a fictícia vulnerabilidade do país a ataques. Se conforma então uma mentalidade anti-popular, que chega a pensar em negar o direito de voto a mulheres e negros, centrada numa elite dirigente pseudo esclarecida, e principalmente, imune as paixões populistas, um verdadeiro Estado Novo norte americano.[8] Permanece a referência ao sagrado e a missão divina americana, mesmo quando se trata da matança nuclear, Truman ao lançar a segunda bomba atômica sobre Nagasaki, fala:

"Agradecemos a Deus por [a bomba atômica] ter vindo a nós, e não aos nossos inimigos; e oramos para que Ele possa nos guiar para usá-la em Seus caminhos e para Seus propósitos. " ANDERSON  2015 página42

Aliás as menções a Deus e a uma orientação divina para as ações da política externa americana são constantes e não se restringem a Truman, mas envolvem uma grande diversidade de posicionamentos e atitudes. Com Roosevelt; "O Deus todo poderoso abençoou nossa terra de muitas maneiras...Ele deu ao nosso país uma fé que se tornou a esperança de todos os povos em um mundo angustiado." Ou Eisenhower, que transformou em lema oficial da nação; "Em Deus confiamos" ANDERSON2015 página42. Ou, o católico irlandes Kennedy; "Tendo uma boa consciência como nossa única recompensa garantida e a história como última juíza de nossas ações, sigamos em frente para liberar a terra que amamos, pedindo Sua benção e Sua ajuda, sabedores, porém de que aqui na Terra a obra de Deus deve, em verdade, ser obra nossa,..."ANDERSON2015 página43. Ou o jovem Bush; "Nossa nação foi escolhida por Deus e comissionada pela história para ser um modelo para o mundo..."ANDERSON2015 página43. Até Obama; "Essa é a fonte de nossa confiança: o conhecimento de que Deus nos convoca a dar forma a um destino incerto..." ANDERSON2015 página43 Todos esses depoimentos atestam que a Doutrina Calvinista da Pré-Destinação deixou o indivíduo e se abrigou numa nação, que usa desses argumentos divinos para tiranizar e policiar nosso continente de forma arbitrária.

No filme Feito na América fica claro a irresponsabilidade da política externa americana, que a partir da clivagem da Guerra Fria e do perigo de disseminação do comunismo, acaba por incentivar o tráfico de drogas do poderoso Cartel de Medellin. A América latina é vista como um território de bárbaros, onde uma política de segurança cria e impulsiona um dos ciclos de tráfico de drogas mais prejudiciais a uma cidade, como o de Pablo Escobar em Medellin. Literalmente, um Estado de Exceção que foi naturalizado pelo mundo contemporâneo, que continua se iludindo com a retórica da democracia, que apenas espalha injustiça, e que agora é tornado invisível pela mídia mundial.

"O mundo livre era compatível com a ditadura: a liberdade que o definia não era a liberdade dos cidadãos, mas a do capital..." ANDERSO 2015 página69

As intervenções militares se sucedem desde o final da segunda guerra mundial. Já em 1947 celebra-se no Rio de Janeiro o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o mais importante ideólogo da política externa americana, George F. Kennan declara; "è melhor ter um regime forte no poder do que um governo liberal, indulgente, relaxado e impregnado de comunistas." Em 1954 na Guatemala com a nacionalização da United Fruit Company e a legalização do Partido Comunista local, os EUA contratam mercenários e derrubam o governo eleito de Arbenz. Seis anos mais tarde, em 1960, a Revolução Cubana nacionalizava os empreendimentos americanos na ilha, o presidente Kennedy esbraveja defendendo uma invasão da CIA.  Em 1964 os militares brasileiros encenaram o primeiro dos golpes contra revolucionário, os EUA enviam o porta aviões Forrestal apoiado por destroieres de apoio, numa mobilização nomeada de Operação Irmão Sam. Em 1965, fuzileiros navais americanos entram na República Dominicana para repelir um fictício perigo comunista com o apoio do exército brasileiro em retribuição. Em janeiro de 1973, acordos são assinados em Paris, programando a retirada das tropas do Vietnã em sessenta dias, a potência militar humilhada é compensada pelo golpe de estado contra Allende, um socialista eleito no Chile, em 11 de setembro do mesmo ano.

Enfim, a política externa americana é uma tragédia para a América Latina, o filme Feito na América denuncia essa condição, mas apenas reforça uma ideologia do voluntarismo de um indivíduo, Barry Seal, quando na verdade, mais parece a determinação de um Estado de Exceção, que já não mais presta esclarecimentos ao cidadão americano.

NOTAS:

[1] A doutrina do Destino Manifesto propunha a expansão contínua dos colonos americanos pelo continente com esforço de aperfeiçoamento civilizatório. O povo americano era eleito por Deus para civilizar o continente americano.
[2] O partido Whig foi fundado por Henry Clay em (1833-34), e tinha uma clara posição anti-expansionista propondo o aperfeiçoamento da democracia americana antes de sua expansão.
[3] Ulysse S. Grant (1822-85) foi oficial americano combatente na guerra com o México, quando jovem, depois oficial comandante em chefe das tropas da União, e o 18o presidente americano (1869-77)
[4] Henry David Thoreaux (1817-62) filósofo e poeta trancendentalista norte-americano, que em sua luta contra a guerra com o México se recusou a pagar impostos e se refugiou nas florestas maricanas, praticando um extrativismo de auto-sustentação, no norte dos EUA. É por muitos considerado a inspiração para o movimento hippie dos anos 60, a partir de seu posicionamento propondo a desobediência civil.
[5] A rendição da Alemanha em Berlim foi em 02 de maio de 1945, e Roosevelt morre em 12 de abril de 1945.
[6] O discurso de Truman no senado em 05 de junho de 1941 foi: "Se virmos que a Alemanha está ganhando, devemos ajudar a Rússia, e se a Rússia estiver ganhando, devemos ajudar a Alemanha, e, desse modo, deixá-los matar o maior número possível de pessoas."
[7] Lei promulgada em 1935 instituindo o sistema de seguridade social público nos EUA.
[8] Segundo ANDERSON 2015,  oprincipal ideólogo da política externa americana é George Kennam, um conservador "admirador de Salazar"

BIBLIOGRAFIA:

ANDERSON, Perry - A política externa norte-americana e seus teóricos - editora Boitempo São Paulo 2015

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Debate no IAB-RJ sobre mobilização e projeto no Baixo Rio

Nessa última segunda feira dia 25 de setembro de 2017, reuniu-se no auditório do Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) para debater como a transformação e a modificação da cidade existente são mobilizadores do interesse geral. Um pouco antes foi realizada a Assembléia Geral do IAB-RJ, que abre o processo de inscrição de chapas para a renovação de um terço do seu Conselho Estadual para o ano de 2018. O debate se concentrou a partir da problemática do bairro do Rio Comprido na cidade do Rio de Janeiro, em torno de temas como; a macro-drenagem, o regime de chuvas da cidade, o rodoviarismo, a infraestrutura e os corredores verdes. A tônica era uma estratégia para a transformação desse bairro, em torno da bacia do Rio Comprido. Com uma audiência qualificada, que contava com a presença do presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU-RJ) Jeronimo Moraes, as Assessoras da Secretária de Planejamento do município Aspásia Camargo; Raquel Fares e Claudia Froes, assim como a geógrafa Selma Santa Maria da Secretaria de Meio Ambiente, dentre outros. A mesa para promoção do debate foi composta por Guto Santos, arquiteto coordenador do movimento Baixo Rio, Deise dos Santos fundadora da Organização não governamental ARONG que atua no Rio Comprido, Lucas Araujo arquiteto cursando a pós graduação na PUC-Rio, Osvaldo Rezende, engenheiro civil, hidrólogo e especialista em recursos hídricos e saneamento, Cecília Herzog paisagista urbana coordenadora da pós graduação interdisciplinar em Paisagismo Ecológico da PUC-Rio, mediados pelo arquiteto e presidente do IAB-RJ, Pedro da Luz Moreira.

Rio Cheonggyecheon na cidade de Seul, que até 2004 era coberto por um
viaduto com seis pistas de rolamento
As falas dos palestrantes se sucederam enfatizando temas como; a mobilização social em torno do plano e do projeto, o trabalho de educação continuada da juventude no bairro do Rio Comprido, as potencialidades da infra estrutura verde na regeneração ambiental de nossas cidades, a era do antropoceno, a dinâmica das bacias e sub-bacias fluviais na cidade, as novas premissas do projeto verde, resiliência nas cidades, cidade biofílica, etc... Nas quais, cada palestrante conseguiu transmitir para o auditório no IAB-RJ o nivelamento das informações e potencialidades do processo de mobilização geral do bairro em torno da bacia do Rio Comprido. Destaca-se aqui a menção da professora Cecília Herzog sobre a requalificação urbana levada a cabo na cidade de Seul na Coréia do Sul, que envolveu a supressão de várias faixas de rolamento rodoviário para promover o reaparecimento do Rio Cheonggyecheon (ver foto), no coração da cidade oriental. O presidente do IAB-RJ também assinalou, que a cidade de Seul na Coréia do Sul sediou no começo do mês de setembro de 2017, o Congresso da União Internacional de Arquitetos UIA Seul 2017, e que o próximo encontro será na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 2020, enfatizando a necessidade da mobilização em torno do Rio Comprido ser documentada e ganhar maior expressão até lá.

Os questionamentos e colocações da audiência qualificada presente no IAB-RJ envolveram questões variadas, que giravam em torno da relação entre meio urbano artificial e meio ambiente natural, e a necessidade contemporânea de se buscar um convívio mais harmônico. O modelo rodoviarista ainda operante em nossas cidades foi claramente descartado. Muito além de qualquer pré-figuração da transformação pretendida para o bairro do Rio Comprido, o evento no IAB-RJ demonstrou de forma clara que é possível debater princípios e parâmetros norteadores de qualquer tipo de mudança, subsidiando planos e projetos, para ao final, engajar e cooptar a população interessada. Uma clara sinalização de que a gestão dos planos e projetos para a cidade do século XXI começam a mudar.

sábado, 23 de setembro de 2017

Charlotesville na Virgínia nos EUA, Thomas Jefferson e nossas cidades

A Universidade da Virgínia, classicismo, cultura e a celebração das
pequenas comunidades
Volto às particularidades do americanismo, a partir da cidade de Charlottesville no sul dos Estados Unidos, no estado da Virgínia, terra natal do terceiro presidente da república americana (1801-1809), o arquiteto iluminista Thomas Jefferson (1743-1826). Ela foi eleita recentemente (2004) como a melhor cidade para se viver no país, segundo estudo narrado no livro Cities Ranked and Rated de Bert Sperling e Peter Sander, que avaliaram as cidades americanas a partir do custo de vida, clima, desenvolvimento e oportunidades. Recentemente, a cidade esteve estampada nas manchetes dos jornais americanos e do mundo todo pelos confrontos raciais que celebravam e condenavam a veneração à estátua do General Confederado Robert Edward Lee. As manifestações se iniciaram com grupos da supremacia branca, que condenaram a decisão da administração local de remover a estátua equestre do General Lee por ela representar valores racistas do antigo sul americano. Já havia abordado o tema no texto do dia 07 de setembro de 2017, intitulado O fordismo e o americanismo no século XX, e o rodoviarismo e o retiro idílico da habitação unifamiliar, a partir da perspectiva de Antonio Gramsci, que no caderno 22 dos Cadernos do Cárcere aborda a questão do Americanismo e Fordismo. A perspectiva do filósofo da Sardenha é a da crítica radical da cultura, embora recorte o problema a partir do tema do Chão da Fábrica, portanto no ambiente da comunidade urbana, e da estruturação das novas relações do capital e do trabalho na moderna unidade de produção americana. Mas, apesar do recorte do tema a construção de Gramsci é claramente cultural e se refere aos hábitos cotidianos naturalizados, como na passagem;

"Pode se dizer genericamente que o americanismo e o fordismo resultam da necessidade imanente de compor a organização de uma economia programática [1]...Registro de alguns dos problemas mais importantes ou bastante interessantes, mesmo que a primeira vista não sejam prioritários: 1.substituição da atual classe plutocrática por um novo mecanismo de acumulação e distribuição do capital financeiro baseado diretamente na produção industrial 2. A questão sexual, 3. A questão se o americanismo pode constituir uma época histórica, isto é, se pode determinar um desenvolvimento gradual como o examinado anteriormente, como o caso das revoluções passivas, [2] próprias do século passado, ou se, em vez disso, representa apenas a acumulação molecular de elementos destinados a produzir uma explosão, ou seja uma convulsão de tipo francês; ..." GRAMSCI 2008 página32

A casa de Thomas Jeferson em Monticello
E, aqui penso que o americanismo, ou a hegemonia cultural americana é claramente um período histórico, que ainda exerce uma certa sedução  sobre o senso comum, mas que já anuncia seu declínio, principalmente no que se refere aos padrões do habitar e do bem viver. No artigo anterior abordei a questão do rodoviarismo articulado com os subúrbios habitacionais de baixa densidade a partir da residência unifamiliar das cidades americanas, e como esse padrão ainda impera no mundo contemporâneo. Nesse sentido, a cidade de Charlotesville na Virgínia concentra e representa uma outra parte do americanismo, tanto no que se refere ao retiro idílico das pequenas cidades - afinal são apenas 50mil habitantes - , mas também com a presença de uma consciência cosmopolita associada a presença na cidade, da Universidade da Virgínia. Sem dúvida as universidades americanas apresentam um padrão de excelência acima do padrão geral do mundo, e participam do que podemos chamar da doutrina americana. Fazem essa fortuna, o declarado interesse por atrair professores e alunos de todo o mundo, numa celebração clara da didática pela diferença de posicionamentos, e na constituição de acervos documentais das suas bibliotecas impressionantes. também com uma pluralidade de visões. Já publiquei aqui um texto, em 17 de janeiro de 2015, com o título Mais um texto sobre New Heaven: a Biblioteca Bienecke da Universidade de Yale, que guarda as obras raras dessa instituição, que além dela possui um acervo invejável de livros, inclusive em português, e que se constitui numa edificação maravilhosa. Nesse sentido é elucidativo ler a matéria da escritora, tradutora e brazilianista americana, radicada no Brasil, Flora Thomson-Deveaux que é natural de Charlottesville, na última Revista Piauí;

"Minha cidade não faz parte do imaginário coletivo brasileiro, e meus novos amigos, de modo geral não sabiam nada sobre ela, nem sequer onde ela fica exatamente. A formulação vaga de que era 'uma cidadezinha no meio da Virgínia' sempre me pareceu insuficiente. Durante minha primeira estadia no Rio [de Janeiro], cheguei a carregar na carteira uma moeda de cinquenta centavos de dólar, o nickel, e mostrá-la como resposta. A cara de Thomas Jefferson, tem como coroa uma imagem de Monticello, a casa erigida por ele. A construção fica no cume de uma montanha... Logo abaixo do monte está Charlottesville...Fica no sul, eu dizia, mas não no sul de verdade. O que eu queria dizer era; é uma cidade progressista, cravada quase por acaso numa das regiões historicamente mais conservadoras dos Estados Unidos." THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página34

A planta da casa de Jeferson em Monticello
A universidade foi fundada em 1819 por Thomas Jefferson, que preteriu Richmond a capital do estado da Virgínia, para segundo o ex-presidente americano, "afastar os alunos das distrações da cidade grande". Tanto a Universidade da Virginia, quanto a residência de Jefferson em Monticello, ambas atrações do patrimônio de Charlottesville são projetos do terceiro presidente dos EUA, e estão construídas segundo preceitos da arquitetura do iluminismo. Um exemplar neo clássico, aproximado ao romantismo, que mistura colunatas e arcadas clássicas brancas, contrapostas a panos de parede de tijolos aparentes, celebrando ao mesmo tempo uma racionalidade generalista e um localismo contextual e artesanal. O agrarismo e a celebração das pequenas cidades é uma das características dos posicionamentos de Thomas Jefferson, que não via com bons olhos os comportamentos suscitados pelas grandes cidades americanas. Os chamados fouding fathers [3], que se reuniram para decretar a independência das treze colônias frente a Inglaterra, que eram; John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison, e George Washington, nos quais se percebe a predominância de uma mentalidade de celebração das pequenas cidades e comunidades, não necessariamente agrárias. É interessante notar, que dentre os sete pais fundadores da nação se desenvolve uma clara cisão de concepções desde a independência. De um lado, os defensores de um governo central forte, onde prevalece os urbanos, e de outro os partidários de uma federação de estados autônomos, onde prevalecem os rurais. Tais cisões acabarão desembocando na guerra civil americana, entre o norte industrial e o sul agrário e escravocrata, que apontam para uma unidade conformada pela diversidade de posicionamentos, uma heterogeneidade.

"A diversificada biografia de Jefferson parecia sob medida para agradar todo mundo. Foi ele o autor da Declaração de Independência e o nosso terceiro presidente, além de ter negociado a compra do território da Lousiana - ou a maior parte do que hoje  é o oeste dos Estados Unidos - de um Napoleão falido. Jefferson era um rebelde, um diplomata, um arquiteto. Foi só na esteira de #charlottesville, que anunciaram: seu memorial em Washington seria atualizado para que constasse, que o herói da Independência também tinha sido um senhor de escravos... Uma das lembranças mais fortes que tenho daquela excursão [ a casa de Jefferson] é da tarde que passamos desenterrando batatas na horta de uma das casinhas próximas a grande mansão de Thomas Jefferson. Os monitores provavelmente devem ter comentado que aquelas casinhas funcionavam como senzala... Alguns anos mais tarde, escavações descobriram um cemitério de escravos naquele terreno. Na mesma época, exames de DNA provaram que Jefferson teve filhos com uma das escravas, Sally Heninings, que era também meia irmã de sua esposa." THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página36

A expansão em direção ao novo em
Charlottesville
Sem dúvida, esse trecho comprova os interesses pela narrativa da história, que volta e meia des-humaniza personagens em nome de um relato, que se adeque as pretensões ideológicas da construção da grandeza das nações. Mas, muito além da celebração da possível integridade moral e psiquíca das pequenas comunidades, e do cosmopolitismo das universidades nos EUA, o americanismo também proclama uma eterna conquista de expansão, uma busca interminável pela fronteira selvagem. Tal mentalidade, tem determinado em nossas cidades pelo mundo contemporâneo, uma constante vontade de anexar novos territórios, de expandir ao invés de reocupar trechos já explorados. É interessante notar como esse posicionamento está expresso no próprio nome do país, que ao se proclamar como Estados Unidos da América, configura um agrupamento de Estados numa federação, e ao mesmo tempo abre a possibilidade contínua de expansão do território. Ao contrário de Brasil, ou Argentina, ou França, ou ainda Inglaterra, o novo país que se liberta da Grã Bretanha, afirma-se como uma federação inicial de treze colônias, literalmente sem uma identidade ou nome [4]. A própria bandeira americana assinala esse caráter expansivo e mutante da história americana, a primeira tinha 13 listras, alternando o vermelho e o branco, no canto superior esquerdo 13 estrelas sobre o fundo azul, tendo havido alguns modelos em que as estrelas delineavam um círculo. A expansão para o oeste, que caracterizou grande parte da história americana consagra uma mentalidade contínua de busca pelo novo e o inusitado, como um valor reformador. Em Charlottesville também há monumentos, que celebram esse expansionismo americano em direção ao oeste e à inovação de uma vida renovada, trazendo a sedução da ampliação contínua.

"Fora do campus da Universidade da Virgínia, espalhadas pela cidade, há algumas estátuas de homens em posição de combate, montados ou não em um cavalo, que me pareciam pouco interessantes Conforme eu ia crescendo, provavelmente por influência do feminismo da minha mãe e da minha irmã, comecei a implicar com um monumento em especial, num dos cruzamentos mais importantes do centro. Tratam-se de três figuras de bronze: em primeiro plano, varonis, estão Meriwether Lewis (1774-1809) e William Clark, os dois homens encarregados pelo já presidente Jefferson de desbravarem o oeste. Em segundo plano, quase escondida atrás deles, está Sacagawea, a intérprete indígena que acompanhava a expedição..."THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página36

É interessante perceber que grande parte da materialização dessas estátuas, do General Lee e dos heróis da expansão para o oeste, em Charlottesville são confeccionadas na década de 1920, muito antes da batalha do Reverendo Marthin Luther King pelos direitos civis dos negros . E, que grande parte delas foi patrocinada por um milionário da cidade, que tinha sua fortuna não por conta da plantação de algodão ou fumo, mas por investimentos na Bolsa de Valores de Nova York. É também interessante destacar que os territórios das cidades são um palco para as diversas versões em disputa das narrativas históricas conformadoras de como nos vemos. E, que a cidade pode ser vista como o território do poder, e como tal é sempre o local da narrativa dos vencedores, afinal não há documento de cultura, que não seja também de barbárie, pelo menos em nossa história até aqui [5].

"Eu não sabia, por exemplo, que as estátuas da minha cidade não eram da época da guerra. Tinham sido instaladas só na década de 20, e a inauguração de algumas delas fora acompanhada de celebrações de simpatizantes do governo escravista - entre eles a famigerada Klu Klux Klan... O doador de várias delas, Paul G. McIntire, nasceu em Charlotesville em 1860, onde ainda criança, testemunhou a invasão das vitoriosas tropas federais. Chegou a matricular-se na Universidade da Virgínia, mas não chegou a concluir o curso superior, e acabou se mudando para Nova York, onde fez fortuna investindo na Bolsa de Valores. McIntire patrocinou a construção de parques e espalhou monumentos pela cidade."THOMSON-DEVAUX 2017 Revista Piauí página36

Enfim, a história me parece um campo aberto para que sejam refeitas reinterpretações daquilo que somos hoje. No patrimônio das cidades efetivamente construídas encontramos discursos celebratórios, que podem se transformar em condenatórios, o valor dos esforços estão sempre sob o julgamento das novas gerações. No meio da humanidade nunca há heróis irretocáveis, mas sempre figuras humanas permeadas por interesses e condicionamentos ideológicos, que estruturam sua atuação por esses. A arquitetura, a cidade e seus monumentos possuem essa capacidade de abrigar novas pretensões da nova história, que afinal também inclua o relato dos vencidos. Nesse sentido, creio que o pensamento de Gramsci tem um valor inestimável para nosso tempo contemporâneo, pois foi estruturado a partir da distinção no Estado moderno entre sociedade política e sociedade civil, garantindo a possibilidade dos discursos progressistas contaminarem o senso comum. A dominação econômica, social e política é realizada por um grupo de interesses quando esse conquista a sociedade política, que envolve os aparelhos burocráticos do Estado moderno, suas leis e sua configuração geral, no entanto o consentimento e a aprovação da dominação se dá na sociedade civil. Num nível abaixo, portanto existe a sociedade civil, que é responsável pela elaboração e difusão de ideologias variadas, e que é conformada pelo sistema escolar, as igrejas, as organizações profissionais, os meios de comunicação, as instituições de caráter artístico e científico, etc...A conquista das mentalidades em geral da sociedade, inclusive a incorporação e vinculação dos relatos dos vencidos para as diversas narrativas históricas se dá no âmbito da sociedade civil. O relato da brazilianista Flora Thonmson-DeVeaux na Revista Piauí sobre a cidade de Charlottesville, me parece confirma essa tese.

NOTAS:

[1] A expressão economia programática é utilizada para referir-se a uma maior planificação econômica
[2] Por revoluções passivas Gramsci se refere as transformações conservadoras do século XIX, que foram o Rissorgimento Italiano e a Unificação da Alemanha.
[3] Literalmente os pais fundadores da nação, que articularam a revolta contra a Inglaterra, segundo os historiadores. Dentre os sete, três apenas provinham diretamente das atividades agrárias do sul; George Washington (Primeiro Presidente americano), Thomas Jefferson (Terceiro Presidente americano), e James Madison (Quarto Presidente americano). Enquanto que os provenientes de  típicas ocupações urbanas eram; John Adams (Segundo Presidente americano), Benjamim Franklin, Alexander Hamilton e John Jay.
[4] Trechos da Declaração de Independêcia redigida por Thomas Jefferson comprovam claramente isso; "Nós portanto, representantes dos Estados Unidos da América, em congresso geral, reunido, pedindo ao Juiz Supremo do mundo que dê testemunho da retidão das intenções, solenemente publicamos e declaramos em nome do bom povo dessas colônias e pela autoridade que ele nos conferiu, que estas Colônias Unidas são, e por direito devem sê-lo, Estados livres e independentes; que estão liberadas de qualquer lealdade à Coroa Britânica, e que toda a conexão política entre elas e o Estado da Grã-Bretanha é, e deve ser, totalmente dissolvida; e que como Estados livres e independentes, elas têm plenos poderes para fazer a guerra, concluir a paz, contratar alianças, instituir o comércio e fazer todas as leis e coisas que os Estados independentes tem o direito de fazer. E em abono dessa declaração, com firme confiança na Proteção da Divina Providência, mutuamente hipotecamos uns aos outros nossas vidas, nossas fortunas e nossa honra sagrada."
[5] A VII tese sobre a filosofia da história de Wlater Benjamim afirma literalmente; "Não há documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie. E assim como os próprios bens culturais não estão livres da barbárie, também não o está o processo de transmissão com que eles passam de uns a outros." 

BIBLIOGRAFIA:

BENJAMIM, Walter~Teses sobre a filosofia da história - Editora Ática São Paulo 1985
GRAMSCI, Antonio - Americanismo e Fordismo - Editora Hedra São Paulo 2008
KARNAL, Leandro - História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI - Editora Contexto São Paulo 2008
SPERLING, Bert e SANDER, Peter - Cities Ranked and Rated - Wiley Publishing New Jersey 2004
THOMSON-DEVAUX, Flora - #Charlotesville, como minha cidade natal se tornou o foco da disputa política nos Estados Unidos - Revista Piauí setembro 2017
TOTA, Antonio Pedro - Os americanos - Editora Contexto São Paulo 2009

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O livro de Montaner A condição contemporânea da arquitetura

A capa do livro de Montaner
O livro do crítico catalão Josep Maria Montaner, A condição contemporânea da arquitetura, de 2016 pode ser visto como uma continuação do seu livro Depois do movimento moderno. A arquitetura da segunda metade do século XX, de 1993 [1]. Os dois textos tentam sistematizar e identificar uma direção para os movimentos e sensibilidades que nortearam o fazer arquitetônico e urbanístico, no período conturbado de 1945 a 2016. Uma proposta no mínimo arriscada, pela falta de distanciamento histórico, mas também para um tempo que vem se revelando como de posicionamentos voláteis e efêmeros, na presença de uma aceleração sem paralelo na história humana. Afinal, nesses tempos contemporâneos, as ideologias que se hegemonizaram no fazer arquitetônico e urbanístico se mantiveram como paradigmas direcionais por muito pouco tempo, sendo destronadas por novas assertivas, não necessariamente excludentes. A pós modernidade e a celebração da história declinaram nos últimos tempos, havendo a retomada da incompletude do projeto moderno, agora mais domesticado e mercantilizado. A continuidade do projeto moderno, que foi colocada por Habermas [2] e outros filósofos, no final dos anos setenta parece ter ganhado força nos dias atuais. Nas palavras do autor, no livro A condição contemporânea da arquitetura;

"Esta obra pode ser considerada uma continuação do livro Depois do movimento moderno: Arquitetura da segunda metade do século XX (1993), repensa a arquitetura do periodo entre 1990 e 2015 e revisa as correntes hegemônicas das décadas de 1970 e 1980 para comprovar quais aspectos se tornaram ultrapassados e quais foram renovados e que conceitos e movimentos surgiram neste novo século" MONTANER 2016 página7

Em tempos pós alguma coisa, como a nossa contemporaneidade, Montaner parece em busca de um referencial seguro, que dê conta de um fazer ético não mais universalista como o movimento modernista, mas capaz de estruturar um fazer "moral e social". O fascínio parece ser exercido pelas propostas metodológicas dos anos sessenta, que engendraram uma forma de fazer que buscava a cooptação dos usuários, a abertura para o passar dos tempos e uma postura para enfrentar a obsolescência do planejamento totalizante. E mais uma vez, como outros esforços críticos no campo da atualidade da arquitetura e do urbanismo, que se anunciam construtores de uma determinada direção, acabam por nos oferecer uma panorâmica ampla, diluída e diversificada. Afinal como já anunciado no primeiro livro, Despues del movimiento moderno. A arquitetura de la segunda mitad del siglo XX, a pluralidade de posicionamentos é um fato constituinte de nosso tempo;

"De hecho, cada uno de los tres periodos en que se divide el libro, además de tener su propria coherencia interna, requiere una lectura y distancia critica diferente, adquiriendo su propia identidad, los años imediatos a la guerra, que forman ya parte de una historia suficientemente lejana, pero aun especialmente confusa, y que se mueven sobre todo dentro de la dicotomia continuidad o ruptura; los años sessenta que generan una serie de propuestas metodológicas que, si bien siguem  influenciando en la actualidad, pueden ser ya mirados con cierta distancia temporal y critica, y la más imediata actualidad, desde finales e los años setenta, un periodo reciente de enorme diversidad y predominio de las individualidades, cuyo análisis entraña mayores riesgos por su proximidad y su proprio desorden interno." MONTANER 1999 página7

Riscos, desordens, predomínio da individualidade pautam nossa contemporaneidade tornando difícil se perceber um sentido e uma direção, para uma humanidade que parece ter superado algumas meta narrativas[3] - o fordismo, o marxismo, ou o keynesianismo -, mas que na verdade naturalizou outras como; o neoliberalismo e o mercado. As críticas colocadas por Montaner se dirigem principalmente para aqueles arquitetos, que repetiram fórmulas bem sucedidas desprezando a demanda de todo projeto de uma reinvenção criativa a cada novo contexto enfrentado. A celebração se volta para os diagramas, a participação dos usuários, o não iconíco, a flexibilidade, a liberdade de apropriação, a fenomenologia. O conceito de diagrama de força é interpretado como uma abstração, tal qual o conceito de tipologia da década de setenta, agora descompromissado com sua carga histórica;

"Por seu caráter dual - conceito e prática, ferramenta de análise e instrumento de projeto - , os diagramas têm se convertido em emblemas da virada do século. Eles vêm sendo usados no intuito de relevar e superar o conceito de tipologia da década de 1970, e, na atualidade, têm se transformado no conceito estruturador da relação e entre a teoria e a prática da arquitetura." MONTANER 2016 página95

Uma construção muito próxima da que fez Tafuri, e de forma geral ao grupo da revista italiana Casabella y Continuittá, com relação ao conceito de tipologia, que era ao mesmo tempo operativo e teórico, estruturando a projetação e a análise. Mas, Montaner logo na introdução do livro irá construir um quadro de forças de cinco linhas, que são a continuidade "dos princípios e objetivos modernos". A primeira linha, a racionalista, impulsionou o minimalismo principalmente na museografia, operando desde os anos noventa. A segunda, o organicismo, que parte de variadas influências, nas quais está o surrealismo, que permanecem com o programa de "fazer intervenções extraordinárias". A terceira, a arquitetura baseada na memória, que estende "os conceitos da crítica tipológica". A quarta, a arquitetura experimental, baseada no pragmatismo e na celebração do fragmento como a impossibilidade de construção da continuidade. E, a quinta, a arquitetura relacionada com a fenomenologia, com sua valorização do empirismo, do vivido, e da exploração dos sentidos. A partir dessas cinco linhas, com seus respectivos representantes, Montaner desenvolve a seleção de obras e arquitetos com um claro mérito, o afastamento do euro-centrismo, tão comum nessas antologias.

O interessante é que no desenvolvimento do livro, o autor repete essas cinco linhas nos primeiros cinco capítulos, apenas com uma inversão,[4] somando mais três posicionamentos operantes; capítulo6: Diagramas de Energia, capítulo7: Da crítica radical aos grupos: arquiteturas da informalidade, e capítulo8: Arquiteturas do meio ambiente. Sem dúvida, o quadro geral é elucidativo e esclarecedor, no entanto não há como negar a ausência de um posicionamento crítico, no recalque da presença da sedução do espetáculo, que opera sobre todas as linhas e acaba reduzindo muitas das linhas a repetição fácil. A espetacularização da cidade e da espacialidade em geral segue operando, criando uma visibilidade fácil, que gera sempre uma reprodução mecânica na zona de conforto para cada uma das linhas, declinando muito sua capacidade crítica inicial. Enfim, sem dúvida o mapa oferecido por Montaner é competente, mas merecia uma reflexão mais aprofundada sobre a inevitável captura da arquitetura pela Sociedade do Espetáculo.[5]

O texto foi publicado na resenhas on line da vitruvius no site,  http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.189/6700

[1] A edição que tenho do Después del movimiento moderno. Arquitectura de la segunda mitad del siglo XX é de 1999
[2] HABERMAS, Jürgen - La modernidad: un proyecto inacabado - in Ensayos políticos Barcelona: Ediciones Península. 1988.
[3] As meta narrativas modernas eram citadas por LYOTARD, Jean Françoise - O pós moderno - Editora José Olimpio 1986 Rio de Janeiro, como relatos explicadores da modernidade, mas que celebravam também narrativas de forma implícita como o mercado e a moeda.
[4] O título dos cinco primeiros capítulos são; Capítulo 1: A continuidade do racionalismo e dos princípios modernistas, Capítulo 2: A aceitação do organicismo, Capítulo 3: Cultura, tipologia e memória urbana: monumentalidade e domesticidade, Capítulo 4: Arquitetura e fenomenologia, e Capítulo 5: Fragmentação, caos e iconicidade. A inversão se dá no capítulo 4 e 5, que na introdução são apresentados.
[5] Condição descrita por DEBORD, 1997

BIBLIOGRAFIA:

DEBORD, Guy - A sociedade do Espetáculo, comentários sobre a sociedade do espetáculo - editora Contraponto Rio de Janeiro 1997
HABERMAS, Jürgen - La modernidad: un proyecto inacabado - in Ensayos políticos Barcelona: Ediciones Península. 1988.
LYOTARD, Jean Françoise - O pós moderno - editora José Olimpio 1986 Rio de Janeiro
MONTANER, Josep Maria - A condição contemporânea da arquitetura - Editora Gustavo Gilli São Paulo 2016
MONTANER, Josep Maria - Despues del movimiento moderno. Arquitectura de la segunda mitad del siglo XX - Editora Gustavo Gilli Barcelona 1999

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O fordismo e o americanismo no século XX, e o rodoviarismo e o retiro idílico da habitação no século XXI

Racionalização da linha de montagem no chão das fábricas de Henry Ford
Ao longo da década de trinta no início do século XX, o filósofo Antonio Gramsci, numa série de 29 cadernos manuscritos que escreveu entre 1929 e 1937 - os Cadernos do Cárcere -, nas prisões fascistas de Mussolini abordou o tema da derrota do movimento socialista na Europa Ocidental, notadamente na Alemanha e na Itália para o nazi-fascismo. Nesse contexto, a ascensão da hegemonia norte americana no mundo, com o reforço do individualismo, o combate ao associativismo de classe, a regulação puritana dos hábitos sexuais e alcóolicos do operariado, e também os altos salários e a concessão de benefícios sociais, que caracterizaram o fordismo foi também anunciada. No caderno 22, o filósofo da Sardenha aborda o Americanismo e o Fordismo, para entender a emergência daquilo que classificava como, "a formação social capitalista mais avançada" da sua contemporaneidade. O final da primeira guerra mundial assinala a ascensão do domínio dos EUA no mundo, tal fato terá reflexos políticos, culturais e econômicos para a história do século XX. Gramsci será um crítico dos costumes cotidianos conformados pelas ideologias dominantes, investigando o estabelecimento do senso comum na consolidação de hábitos e gestos naturalizados. O american way of life acabou conquistando mentalidades em diversas partes do mundo, inclusive na Europa, mudando nossa concepção compartilhada do que consideramos, o bem viver. Gramsci tinha uma visão crítica sobre o americanismo e o fordismo, mas também vislumbrava uma potencialidade transformadora;

"O que hoje é chamado de americanismo é em grande parte a crítica preventiva dos velhos estratos que serão descartados pela possível nova ordem, e que já estão tomados por uma onda de pânico social, de dissolução, de desespero, que é uma tentativa de reação inconsciente de quem é impotente para reconstruir e alavancar os aspectos negativos da transformação. Não é de grupos sociais condenados pela nova ordem que se pode esperar a reconstrução, mas daqueles que estão criando, por imposição e com o próprio sofrimento, as bases materiais desta nova ordem. Esses devem encontrar o sistema de vida original e não de marca americana, para tornar liberdade o que hoje é necessidade." GRAMSCI 2008 página89

O subúrbio americano isolamento idílico, rodoviarismo e aproximação
com a natureza
No campo da arquitetura e do urbanismo essas consequências estão materializadas na forma humana de ocupar o território de nosso planeta, que perderam força, mas ainda vigoram de forma atuante em diversas mentalidades, e continuam sendo naturalizadas em diversas partes do mundo. O rodoviarismo, que determinou e ainda determina a espacialidade de nossas cidades, com a ampliação das áreas dedicadas aos automóveis, a implantação de vias expressas, viadutos e obras que aumentaram o acolhimento ao deslocamento sobre pneus, penalizando a vida pública e o circular dos pedestres. Além disso, a cidade americana disseminou o paradigma da habitação unifamiliar de baixa densidade, próximo de idílios isolacionistas, os subúrbios mono funcionais, cercados por amenidades da natureza. As duas determinações, a hegemonia rodoviarista e a moradia unifamiliar isolada nas franjas da cidade, acabam representando um enorme esgarçamento do tecido urbano, baixando muito a densidade e a proximidade entre cidadãos. Essas representações do bem viver continuam fazendo a cabeça de contingentes expressivos da população contemporânea determinando fortes impactos ambientais, e custos excessivos para a universalização das infra estruturas urbanas.

A importância de Gramsci pode ser avaliada pelo destaque dado no seu pensamento a política e a cultura para a pretendida mudança das circunstâncias atuais, a partir de uma crítica veemente e sistemática ao imperante economicismo, pós revolução de 1917, mesmo no campo marxista. Sua interpretação político-cultural entendia a estruturação social dos países ocidentais a partir de uma distinção entre "sociedade política" e "sociedade civil". Onde, a "sociedade política" é composta pelo Estado, o governo, a representação da classe dominante, formado pelas burocracias repressivas e de aplicação de leis, os poderes executivo, legislativo e judiciário, que nos dirige pela coerção e pelo consenso. Já, a "sociedade civil" eram as organizações responsáveis pela formulação e difusão de ideologias; o sistema escolar, as igrejas, os partidos, os sindicatos, as organizações profissionais, os meios de comunicação, as instituições de caráter artístico ou científico, etc. Essa distinção gramsciana é fundamental para se entender o mecanismo da hegemonia, que ao final é a forma como a classe dominante legitima o monopólio legal da coerção, que envolve direção política e intelectual, e construção de consenso. A mudança das circunstâncias atuais de operação de nossa sociedade, no pensamento de Gramsci, envolvem portanto a conquista do Estado, mas também as organizações de formulação e difusão das ideologias. A "sociedade civil" é a nova esfera, que emerge nos países ocidentais liberais, a partir dos processos de socialização da política, que doutrinam o conjunto social de forma pulverizada. A formulação das ideologias nas instituições da "sociedade civil" são no pensamento de Gramsci caracterizadas de forma neutra, podendo haver estruturas progressistas ou conservadoras;

"Que uma tentativa progressista seja iniciada por uma ou outra força social não é algo sem consequências fundamentais: as forças subalternas, que teriam de ser "manipuladas" e racionalizadas de acordo com as novas metas, necessariamente resistem. Mas resistem também alguns setores das forças dominantes, ou, pelo menos, aliados das forças dominantes. O proibicionismo [1], que era nos Estados Unidos uma condição necessária para desenvolver o novo tipo de trabalhador adequado a uma industria "fordizada", foi derrubado pela oposição de forças marginais, ainda atrasadas, e não certamente pela oposição dos industriais ou dos operários." GRAMSCI em COUTINHO 2011 página328 

O rodoviarismo, a tomada do espaço da cidade pelo pneu
O rodoviarismo e o retiro idílico da habitação unifamiliar conquistaram e ainda conquistam mentalidades no mundo todo, pela formulação e difusão dessa maneira de operar na "sociedade política", mas também na "sociedade civil". Há aqui uma relação dialética que envolve a articulação e a reprodução dissimulada das relações de poder, a celebração do rodoviarismo e do isolacionismo habitacional servem aos interesses de reprodução de um modelo econômico que celebra o individualismo, e reprova o associativismo de qualquer natureza, como o americanismo. A articulação e a reprodução das relações de poder nesse arranjo são dissimuladas, por que não se explicita a celebração do individualismo e a reprovação do associativismo. Tal mecanismo de reprodução de nosso espaço físico das cidades contemporâneas começa a ser denunciado principalmente pelas graves consequências ambientais que esse modelo econômico produz e reproduz. Por exemplo, se coletamos o material de propaganda tanto da industria automobilística, quanto da imobiliária percebe-se de forma clara a dissimulada tentativa de articular essas formas de operar com uma reaproximação da vida natural, para o cidadão urbano. No entanto, essa forma de ocupar o território acaba causando fortes danos ambientais, pois ela expande o terreno artificial da cidade, que demanda sempre a presença da luz, da água tratada, da coleta de esgoto, da coleta de lixo, da mobilidade por automóvel, etc. Todos esses serviços são caros e aumentam substancialmente de valor na medida em que se espalham no território, determinando muitas vezes a restrição da sua universalização, e ou, seu acesso estratificado de forma mercantilizada.

Enfim, essa condição das nossas cidades só será superada na medida em que um projeto contra-hegemônico ganhar força, que envolve a celebração do transporte de massa, da habitação multifamiliar densa, com a presença da multiplicidade de usos e de extratos sociais diversificados conquistar a "sociedade política" e a "sociedade civil". O americanismo e o fordismo já anunciam seu declínio, no entanto as organizações da "sociedade civil" apenas começam a difusão de argumentos contra-hegemônicos dispersos, que ainda aparecem de forma segmentada e desarticulada, sem alcançar ainda a "sociedade política".

NOTAS:

[1] Por proibicionismo Gramsci se refere à famosa "lei seca", promulgada em 1919 e revogada em 1933, que proibia a produção e o consumo de bebidas alcoólicas em todo o território dos Estados Unidos.

BIBLIOGRAFIA:

GRAMSCI, Antonio - Americanismo e Fordismo - Editora Hedra São Paulo 2008
COUTINHO, Carlos Nelson, org. - O leitor de Gramsci, escritos escolhidos 1916-1935 - Editora Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2011

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Documentário sobre teatros contemporâneos na cidade do Rio de Janeiro

Capa do DVD sobre Teatros Contemporâneos na cidade do
Rio de Janeiro
A professora Evelyn Furquim Werneck Lima coordena uma pesquisa sobre espaços teatrais, que destaca a importância do plano e do projeto na adequação do objeto a seu contexto urbano, assim como a valorização da atividade teatral, e também ao reconhecimento da sua relevância na sociedade contemporânea. O teatro era considerado pelo arquiteto Aldo Rossi, como a obra de arte completa, aquela que tinha um profundo significado urbano, pois os personagens podiam ser confundidos com a tipologia dos seus cidadãos. Para mim, um dos mais emblemáticos projetos de teatro, realizado por arquitetos, foi o Teatro del Mondo para a Bienal de Arquitetura de 1979 em Veneza, realizado pelo mesmo Rossi, sobre uma barca flutuante, reproduzindo a experiência das companhias itinerantes de Commedia dell'arte, que ancoravam na cidade desde a Idade Média.

Há entre teatro e cidade uma relação peculiar, que nos faz atuar, ou desempenhar papéis específicos, em função do lugar em que estamos, uma certa personalidade imposta pelo lócus, um comportamento condicionado pela personalidade do espaço. Afinal, os moradores de São Paulo ou do Rio de Janeiro não partilham o mesmo modus vivendi, e, assim é com cada cidade, cada lugar acaba construindo uma tipologia específica de morar, e de se comportar, que pode ser encarada como a atuação de seus moradores. Essa maneira de ser condicionada pela personalidade da cidade ou do lugar acaba impondo um comportamento a todos (moradores e visitantes), que pode ser caracterizado como o Espírito do Lugar ou o Genius Loci do crítico de arquitetura Christian Norberg-Schulz.

O documentário da Professora Evelyn Furquim Werneck Lima mostra cinco teatros construídos na cidade metropolitana do Rio de Janeiro, na contemporaneidade. Dois são de Oscar Niemyer, um em Niterói, o outro em Duque de Caxias, o terceiro é do arquiteto Indio da Costa na Barra da Tijuca, o quarto é do arquiteto João Calafate, uma transformação do antigo cinema Imperator do Méier em teatro, e o último é no Jardim Botânico das arquitetas Mariana Fortes e Mariana Cailloux, que transformaram um antigo galpão no Teatro Tom Jobim. Abaixo o link do vídeo no youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=1cf-N60f6sw&feature=youtu.be