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domingo, 22 de maio de 2016

Saber e Fé no mundo contemporâneo

O texto Fé e Saber de Habermas possui um caráter circunstancial, foi escrito como discurso do filósofo alemão ao receber o Prêmio da Paz da Associação dos Livreiros da Alemanha, um mês após os dramáticos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 em Nova York. Diante dos atentados às torres gêmeas do World Trade no sul de Manhattan, Habermas reencontra e repensa as questões colocadas pelas tendências a secularização dos mundos da vida, impostos pela ampliação geral da modernização, procurando claramente encontrar pontos de conciliação. Sempre houve uma tensão entre fé e saber, de um lado o temor pelo obscurantismo da exaltação de sentimentos arcaicos que desconfiam da ciência, de outro, uma prepotência científica baseada num naturalismo cru destruidor da ética e da moral.

"Mas em 11 de setembro a tensão entre a sociedade secular e a religião explodiu de um modo inteiramente diverso." HABERMAS 2013, página 02

Diante do suicídio dos fundamentalistas, que transformaram máquinas da aviação civil em mísseis atirados contra símbolos capitalistas da civilização ocidental, a reação dos Estados ameaçados tendeu a ser bíblica, numa tonalidade próxima ao velho testamento. De certa maneira, esse tem sido a tônica da reação aos atentados terroristas, desde os das torres gêmeas do arquiteto Minouru Yamasaki em Nova York, até aos de Paris na França de novembro de 2015. HABERMAS caracteriza o fundamentalismo como um fenômeno exclusivamente moderno, apesar de sua linguagem religiosa, e também entende nosso tempo como um processo de secularização ainda inconclusa. Retoma a ideia do cosmopolitismo kantiano, reafirmando um conceito meio vago de crença num poder mundial carregador de uma proposição civilizadora, afastando-se das reações policialescas, que vem caracterizando os estados nacionais atacados.

"Nós só conseguiremos aferir adequadamente os riscos de uma secularização que saiu dos trilhos em outros lugares, se tivermos claro o que significa a secularização em nosas sociedades pós-seculares." HABERMAS 2013 página 05

Na secularização ocidental, desenvolvida a partir do século XVIII, havia a ideia de domesticação do poder eclesiástico e de controle de registros e dados por parte do Estado, que durante muito tempo haviam sido manipulados pela Igreja. A secularização nos países de cultura muçulmana assumiu uma dimensão diversa, uma certa assincronia acelerada entre cultura e sociedade, com fortes consequências desenraizadoras promovidas por uma modernização não endógena. O tema já foi abordado num rexto anterior nesse blog com o título de, A política externa americana no segundo pós guerra e os recentes acontecimentos em Paris, a partir de um texto de ANDERSON 2015.

De qualquer modo, do ponto de vista do Estado Liberal só merecem o status de razoáveis aquelas crenças, que aceitam três predicados muito claros; a coexistência com outras religiões, a aceitação da autoridade das ciências, que detêm o saber mundano, e a adequação ao estado constitucional, que compartilha e divulga uma moral profana. Essas condições pressupõe a ampla aceitação das tradições fortes e aos conteúdos impregnados de visões do mundo, permanecendo aberta para a possibilidade de aprender com todas elas. Mas esses três predicados estão longe de ser aceitos e compartilhados socialmente mesmo nos países centrais ocidentais, que ainda apresentam tensões em questões como o aborto, ou da engenharia genética, ou ainda da posição da espécie humana na história natural, fruto da teoria de Darwin. Tudo isso denota questões extremamente complexas e profundas do ponto de vista do agir humano;

"...o conceito de conformidade a fins, que introduzimos no jogo de linguagem darwinista de mutação e adaptação, seleção e sobrevivência, é pobre demais para abarcar a diferença entre ser e dever ser (Sein und Sollen) que está em jogo quando nós burlamos regras - quando empregamos um predicado equivocadamente ou agimos contrariamente a um mandamento moral. HABERMAS 2013 página12

Me parece que a crença cientificista, ou qualquer outra crença são incapazes de superar a riqueza da interação com o outro, com o diferente de nós, que exatamente por isso relativiza nossas pré-concepções. O reconhecimento dessa possibilidade firmada pela interação entre diferentes é o que garante o sentido da permanência do dever categórico religioso e a autonomia do interesse autoesclarecido. O conceito da reciprocidade do humano não significa sua homogenização, afinal só seremos livres na medida em que não desfaçamos nossas diferenças, como o filósofo pergunta ao final do texto;

"O primeiro homem a determinar um outro em seu ser assim natural, a seu bel prazer, não destruiria aquelas mesmas liberdades que existem entre iguais para, assim assegurar a sua diferença?" HABERMAS página 26

BIBLIOGRAFIA:

HABERMAS, Jürgen - Fé e Saber - Editora Unesp 2013 São Paulo
ANDERSON, Perry - A política externa norte-americana e seus teóricos - editora Boitempo São Paulo 2015

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