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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A questão da torre, reflexões a partir de uma visita a Nova York

A fachada típica do boulevard de Paris
Há muito que os carros são considerados como verdadeiros vilões para a vida das ruas, mas há também outra invenção moderna, que impactou fortemente a espacialidade das vias urbanas, o elevador, abrindo a possibilidade de desenvolvimento de edificações em grande altura. Antes do advento do elevador as unidades habitacionais, se restringiam a quatro ou no máximo seis andares, e as mais valorizadas eram as mais próximas do burburinho da rua nos primeiros andares. A cidade de Paris é um exemplo dessa tipologia edilícia, o corte típico num boulevard hausmaniano indica as unidades mais nobres e mais valorizadas próximas ao solo da cidade. Enquanto, os últimos pavimentos eram ocupados por pequenas unidades mais simples, definidas pelo desenvolvimento do telhado e com janelas nas mansardas.

A cidade de Nova York, na ilha de Manhattan apresenta ainda em alguns trechos a antiga tipologia arquitetônica de antes do advento do elevador, são os apartamentos chamados de brownstone. Uma tipologia recorrente de intensificação do uso do solo urbano, que se generalizou na cidade a partir de meados do século XIX. O advento do desenvolvimento em altura das edificações
As brownstones de Nova York
em torre, seja de escritórios ou habitacional, é um fenômeno típico da cidade americana, que a partir da Escola de Chicago de arquitetura conquistam o resto do mundo. O tema da torre como objeto icônico, dominando o skyline da cidade, trazendo personalidade a seu território foi bastante celebrado pela cultura arquitetônica do século XX.

Interessante observar que houve a pretensão de alguns arquitetos norte americanos, tais como Sullivan, Saarinem e mesmo Wright, que apostaram na tipologia da torre corporativa, como um reestruturador da coesão comunitária da cidade, como um símbolo da sua estruturação no território geral. Os discursos chegaram a imaginar que a torre do centro de negócios poderia simbolizar a ressignificação do território da cidade, como uma estrutura que lhe conferisse coesão. Há um texto de TAFURI, Manfredo a Montanha Desencantada no livro a Cidade Americana da Guerra Civil ao New Deal, que descreve essas pretensões, e que aponta seu fracasso pela diversidade de interesses e pela volatilização dos negócios imobiliários em torno da torre.

Amsterdã Avenue na parte de cima no lado oeste de Manhattan
A questão que Nova York suscita é qual a melhor tipologia para a saúde e vitalidade da rua? A torre representa para a cidade capitalista uma sedução intensa, pois concentra no território um investimento que possui ampla recepção na sociedade. Há fatores que alimentam mutuamente a escolha pela torre e sua celebração; a segurança, a vista, o afastamento do barulho da rua. No entanto, não há como negar que ela reforça alguns aspectos que determinam a deterioração ou a subutilização da rua e do espaço público. Há torres emblemáticas em Nova York, com uma qualidade acima da média, em todas as épocas, a Flatiron, o Woldworth, a recente do New York Times e outras, tendo elas inclusive tratado bem sua inserção na cidade, revelando sempre uma generosidade com a vida da rua. A mais recente do jornal New York Times do arquiteto Renzo Piano resolve muito bem sua relação com a rua, revelando uma certa generosidade que beneficia o comércio aí instalado.

Qual a escala da cidade?
Apesar disso tudo, a torre representa uma quebra de escala com a vitalidade da rua. Lucio Costa na definição do gabarito das superquadras em Brasília usou um critério interessante, tanto a copa das mangueiras que ele pretendia que circundassem as edificações, quanto o grito da mãe que chamaria seus filhos na área dos jardins. Uma certa definição humana da escala, sem heroismos e grandiosidades. Nessa última visita a Nova York acabei andando muito pela Broadway e pela Avenida Amsterdã no Upper West Side. Perto da Columbia University e do Cloister. Uma região com uma certa continuidade expressiva dessa antiga tipologia. Essa cidade onde o módulo da verticalização, ou do incremento do solo urbano com uma continuidade de quatro ou seis andares é uma cidade melhor do que a pontuada com a solidão expressiva da torre.

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