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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sérgio Bernardes, um arquiteto visionário

Residência de Lota Macedo Soares projeto
de Sérgio Bernardes
"Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sutil que participa de uma  e outra, que se tornou inútil, insensato." HELDER, Herberto - Os Passos em Volta - Azougue editorial Rio de Janeiro 2010

Nessa segunda feira dia 16 de junho de 2014 assisti o filme sobre Sérgio Bernardes, numa avant premiére no cine Kinoplex do Shopping Leblon. Um maravilhoso documentário sobre um dos maiores provocadores do campo cultural no Brasil, um visionário incomodado com sua própria zona de conforto, um arquiteto na mais pura definição desse ofício. Um inventor, como ele constantemente se auto definia.  Ainda me lembro, quando era estudante de arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ, numa de suas palestras, da sua capacidade de sedução e persuasão, mesmo quando apresentava formulações visionárias e fantásticas.

O filme mostra uma série de projetos realizados por Sérgio Bernardes, que retratam sua face de inventor e empreendedor incansável. Desde residências como a de Lota Macedo Soares em Itaipava no estado do Rio de Janeiro, passando pela reordenação espacial de Copacabana com suas torres em parafuso, até propostas geopolíticas de reformulação das comunicações do território brasileiro, como a da integração
Proposta de reordenamento do bairro de Copacabana no
Rio de Janeiro de Sérgio Bernardes
das bacias hidrográficas do país. Enfim, os projetos e propostas do arquiteto, polemista e
animador cultural nos levam a refletir sobre a forma de ocupação do território do planeta Terra, pela humanidade em diversas escalas. Nada parece impossível para a prancheta desse arquiteto, que parece ter introjetado a missão de nos tirar da zona de conforto, com suas provocações nada ortodoxas.

Creio que um dos maiores méritos do filme é reconhecer que a produção desse incansável arquiteto ainda está por ser descoberta, e
Hotel Tambaú em Natal, projeto de Sérgio Bernardes
adormece no Núcleo de Projetos e Documentação (NPD) da FAU-UFRJ, que hoje guarda seu acervo. É engraçado, que eu mesmo me lembro de um projeto do Sérgio Bernardes, que me marcou profundamente e que nunca mais encontrei a fonte onde está guardado e registrado, da qual não me recordo mais com precisão. E, que ansiosamente esperava por reencontrá-lo nesse filme, mas que infelizmente não é mencionado. É verdade, todavia que o filme faz menção a atitude geradora do projeto - uma certa negação da arquitetura - um posicionamento que Bernardes chamava de não arquitetura, e que está presente no Hotel Tambaú de Natal. Na verdade, uma vontade de fazer a arquitetura desaparecer, mimetizando-a com seu entorno, um posicionamento raro e inusitado entre arquitetos, sempre afeitos aos afagos no seu próprio ego.

Aerofotogrametria do Rio de Janeiro, mostrando a Lagoa
Rodrigo de Freitas e a praia de Copacabana, onde assinalo
o terreno do projeto perdido de Sérgio Bernardes
O meu grande encantamento por esse esquecido projeto de Sérgio Bernardes era seu caráter específico de referência a um lugar particular da cidade do Rio de Janeiro, e ao mesmo tempo e paradoxalmente sua capacidade de ser uma proposta genérica, utilizável em outros sítios, onde existam pedreiras desativadas. As mais novas gerações não tem na memória a ferida que esta pedreira desativada representava para o cenário estonteante da Lagoa Rodrigo de Freitas, pois nesse terreno havia uma concessionária de veículos, que era uma construção baixa, que não
Corte geral da proposta
escondia o estrago da antiga atividade mineradora. Hoje a construção de dois edifícios mais altos de habitação multifamiliar, de certa forma esconderam a ferida que a antiga exploração de granito e brita para construção determinavam na cidade. Nesse contexto, o arquiteto Sérgio Bernardes irá desenhar, num de seus mais belos gestos, um projeto simplesmente genial, que a cidade certamente até hoje se ressente por sua não realização. Recompondo o perfil da montanha, o arquiteto constroi um edifício de habitação multifamiliar com as lajes de cada pavimento escalonadas e alinhadas pela antiga silhueta do relevo. Esse escalonamento também determina um grande átrio com um imenso pé-direito, que
Corte ampliado da proposta
desnuda ao fundo o antigo corte da rocha, um espaço de convivência dos condôminos, uma imensa portaria com uma monumentalidade impressionante. Do lado externo, Sérgio Bernardes localiza nas bordas das lajes uma grande jardineira contínua, com capacidade para receber uma vegetação de médio porte, que garante a reconstituição do perfil da montanha. Os três núcleos de circulação vertical, são os únicos elementos artificiais que se destacam e pontuam a fachada verde escalonada, conforme descritos nos meus croquis ao lado, que desenhei de memória desse
Perspectiva da proposta de Ségio Bernardes
fabuloso projeto de arquitetura.

Concedi também uma entrevista ao jornal O Globo sobre a trajetória de Sérgio Bernardes, um arquiteto que precisa do reconhecimento da sociedade brasileira.

Abaixo link da entrevista sobre o filme no jornal O Globo

http://oglobo.globo.com/rio/design-rio-na-prancheta-de-sergio-bernardes-ideal-de-um-mundo-melhor-12866554

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