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domingo, 15 de junho de 2014

Da série: Aulas de Teoria e História da Arquiteura IV - Premissas Gerais

As bombas de Hiroshima e Nagasaki marcam o fim da 2a
Guerra Mundial e o inicio de uma profunda descrença com
relação a técnica. A emergência da consciência de que os
recursos do planeta são esgotáveis
No último ano - segundo semestre de 2013 e primeiro semestre de 2014 - passei a ser o professor da matéria História e Teoria da Arquitetura IV na Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF) em Niterói, na cidade metropolitana do Rio de de Janeiro. Essa solicitação fez com que tivesse que estudar o periodo do segundo pós-guerra, no campo da produção cultural urbanística-arquitetônica. Do final da segunda grande guerra, o ano de 1945 até nossa contemporaneidade, para colocar em termos precisos.

A primeira premissa que coloquei para mim mesmo para ser explicitada na primeira aula era buscar definições para o debate com os alunos dos conceitos; de história e de teoria, como uma base elementar do que tratava a matéria. Enfim um recorte, que procurava limitar um campo, que me parecia tão amplo e abstrato, diante do qual era necessário, uma contextualização. Por último, nessa primeira aula pretendia também explicitar, o que tinha sido minha trajetória, apresentando as reflexões que fiz na ocasião da defesa da minha tese no Prourb em 2007.

O Conceito de História:

No dicionário de termos filosóficos de JAPIASSÚ e MARCONDES, o termo história está definido dentro de uma dualidade, ao mesmo tempo "uma disciplina, constituída de relatos, análises, pesquisas de documentos cujos os artífíces são os historiadores" uma pretensa objetividade, e por outro lado; "um relato e não os acontecimentos contados", portanto uma interpretação, uma pretensa subjetividade. Por outro lado, há uma pretensão humana de que a história na sequência dos acontecimentos segue um movimento determinado, e se materializa segundo grandes linhas de força. Ou numa outra visão, ela seria um suceder aleatório de fatos incontrolados, aos quais os homens se adequam, sem possibilidade de qualquer controle. A idéia de projeto e de plano está profundamente alicerçada na primeira concepção, ela também significa que existe um sentido geral para a história, uma teleologia.

Há uma pergunta nesse dicionário absolutamente desconcertante para todos nós, participantes da existência e da história;

"Seu alvo lógico consiste em saber se a história do mundo se desenrola no sentido de um aperfeiçoamento moral, de um progresso da cultura ou se exprime uma decadência dos costumes."
JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo - Dicionário Básico de Filosofia - editora Zahar 2011 

O anjo da história de Paul Klee,
segundo Walter Benjamim
A pretensão da historicidade é um respeito a factualidade do acontecido, no entanto, a sequência dos acontecimentos é passível de leitura, de interpretação, de construção de coerência e casualidade, como as buscas por sentido e coerência típicas do relato, que necessariamente é subjetivo e interpretativo. Em nosso mundo contemporâneo estamos sobrecarregados de informação. Inclusive, a histórica, paralisados diante de uma infinidade de dados, corremos o risco da imobilização, pois já não compreendemos as demandas e os sinais de uma forma sintética. Benjamim, o filósofo da Escola de Frankfurt, nos traz uma construção importante sobre a busca do sentido;

"Articular historicamente algo passado não significa reconhecê-lo como ele efetivamente foi. Significa captar uma lembrança como ela fulgura num instante de perigo... O perigo ameaça tanto os componentes da tradição quanto os seus receptores... A cada época é preciso sempre de novo tentar o que foi transmitido do conformismo que ameaça subjugá-lo... Captar no passado a centelha da esperança só é dado ao historiador que estiver convicto do seguinte: se o inimigo vencer, nem mesmo os mortos estarão a salvo dele. E esse inimigo ainda não parou de vencer."
BENJAMIM, Walter - Teses sobre a Filosofia da História - editora Ática São Paulo 1985

Aqui a noção de perigo e de esperança me parecem algo de fundamental, como um abandono da zona de conforto, que todo pensamento faz, quando quer mudar. Não interessa mais a reprodução mecânica da existência, mas "captar no passado a centelha da esperança", cada época precisa reconstruir seu sentido não de forma confortável, mas buscando o novo e o inusitado.

O Conceito de Teoria:

Outro conceito que precisa ser esmiuçado é o de teoria. Segundo o mesmo dicionário, na concepção clássica da filosofia grega era conhecimento especulativo, abstrato e puro, que se afasta do mundo da experiência concreta e sensível. Numa concepção mais contemporânea seria um modelo explicativo de um fenômeno ou conjunto de fenômenos, que construísse um sentido e uma direção da sua natureza. No conhecimento científico moderno seria um conjunto de hipóteses organizadas de forma sistemática que verificadas na experiência e na prática, produzem uma explicação convincente dos fenômenos. A teoria seria portanto um afastamento da sucessão aleatória de fenômenos incompreensíveis, para construção de um sentido explicativo, que passaria a uní-los ou vinculá-los numa relação interdependente.

A teoria da arquitetura e da urbanística se refere muitas vezes a dois campos estruturados, uma que pretende avaliar os objetos ou os projetos realizados vinculando-os aos fenômenos artísticos e históricos - uma teoria da excelência do objeto - e outra, que estuda a gênese e a concepção do mesmo objeto, buscando entender como o ofício dialoga com a sociedade, colonizando-a, e por ela sendo colonizado - uma teoria do projeto. A diferença entre as duas vertentes está materializada em trabalhos teóricos como; Espaço, Tempo e Arquitetura de Giedion, ou Por uma Arquitetura de Le Corbusier. Enquanto o primeiro é uma construção interessada em entender o desenvolvimento histórico da arquitetura moderna, mais alinhada com o primeiro campo, o segundo por sua vez é também uma construção interessada mas pretende de forma mais explícita doutrinar a sociedade para a aceitação da arquitetura moderna, se constituindo numa teoria do projeto, ou crítica operativa.  TAFURI, um crítico italiano de arquitetura da segunda metade do século XX possui um discurso esclarecedor no seu livro Teorias e Histórias da Arquitetura, num capítulo intitulado A Crítica Operativa;

"Nesta acepção, a crítica operativa representa o ponto de encontro entre a história e a projetação. Assim pode dizer-se que a crítica operativa projeta a história passada projetando-a em direção ao seu futuro...O seu horizonte teórico é a tradição pragmatista e instrumentalista... Pode ainda acrescentar-se que esse tipo de crítica, antecipando as vias da ação, força a história..."
TAFURI, Manfredo - Teorias e História da Arquitetura - Editorial Presença Lisboa 1979

Esse segundo campo estará muito mais presente em nossas aulas, uma vez que a história nessas aulas não será encarada como um dado ou um fato objetivo, mas um conjunto de informações, que demanda interpretação e arranjo, pois o juízo crítico pode mais do que influenciar o curso da realidade, pode modificá-lo. Essa é enfim uma pretensão dessas aulas, de História e Teoria da Arquitetura IV, construir um instrumental para os alunos, que os habilite não apenas a analisar o seu tempo, mas também a projetá-lo e modificá-lo. Entendendo aqui o projeto como a atividade síntese do ofício da arquitetura e da urbanística, como uma forma de conhecer o real, como uma atitude que abandona o conforto do diagnóstico e se arrisca no campo do prognóstico, como um enfrentamento do real a partir da proposição.

Minha Trajetória:

Projeto para Ilha do Fundão para a exposição Penso Cidade
Além desses dois conceitos, tentei explicitar o que havia sido minha trajetória no campo da reflexão teórica, dentro do ofício da arquitetura e do urbanismo, e, porque esta havia sido convincente para meus colegas de curso, para me responsabilizar na matéria de História e Teoria da Arquitetura IV. Nesse contexto era importante fazer o esforço de mapear minha trajetória, de forma a deixar meus interlocutores - os alunos - conscientes da formação que nessa oportunidade discursava para eles. Para tal nada melhor, que apresentar minha tese de doutorado defendida no ano de 2007, no Programa de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, que teve o título de; Projeto, Ideologia e Hegemonia, em busca de um conceito operativo para as cidades brasileiras.

Uma das premissas dessa reflexão era que o projeto era um discurso, que invariavelmente fazia um esforço para convencer diferenciados interlocutores, de que aquela era a melhor forma para modificar uma determinada condição específica. Há no projeto uma dimensão operativa, que o carrega para uma dimensão persuasiva, isto é, um discurso de convencimento de variados atores e agentes, que gerenciam o processo de transformação. Segundo o Dicionário Básico de Filosofia de JAPIASSÚ e MARCONDES, o termo projeto seria;

"1. Na filosofia de Heidegger característica do Dasein (ser-aí), de estar sempre lançado para além de si mesmo pela preocupação. 2. No existencialismo de Sartre, o projeto é a resposta que cada indivíduo dá a situação em que se encontra no mundo, aquilo que dá sentido a sua existência, as escolhas que faz e que constituem sua liberdade: o para-si, com efeito, é um ser cujo ser está em questão sob forma de projeto de ser." JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo - Dicionário Básico de Filosofia - editora Zahar 2011

O projeto pelas definições filosóficas; é um incômodo, que nos leva a pensar um vir a ser diferente, e que controlamos. Uma insatisfação com uma condição presente que precisa ser modificada, um incômodo com situações postas. Projeta-se uma viagem, a perda de peso, a melhora de vida, a transformação do espaço humano... Enfim projetar segundo a etimologia da palavra está cindida pelo prefixo pro, que significa antecipar, antever, prever e pelo sufixo jactar que significa lançar, arriscar, atirar... Há uma motivação de incômodo com uma situação dada, que impulsiona um fazer que pretende a mudança a transformação. Argan, num passagem memorável menciona;

"Não se projeta nunca para mas sempre contra alguém ou alguma coisa: contra a especulação imobiliária e as leis ou as autoridades que a protegem, contra a exploração do homem pelo homem, contra a mecanização da existência, contra a inércia do hábito e do costume, contra os tabús e a superstição, contra a agressão dos violentos, contra a adversidade das forças naturais; sobretudo projeta-se contra a resignação ao imprevisível, ao acaso, à desordem, aos golpes cegos dos acontecimentos, ao destino."
ARGAN, Giulio Carlo - Projeto e Destino - Editora Ática São Paulo 2000

Há no projeto uma presença do operativo, uma vontade de realização. Essa construção aproxima muito esse discurso, daquilo que Bobbio qualificou como caracterização neutra do termo ideologia, uma idéia que pretende se transformar numa prática, uma idéia que pretende operar, atuar sobre o real. Para tal ela supera a mera idealização pura, e abraça a práxis. Em um sentido amplo, a ideologia pode ser caracterizada como um conjunto de idéias, princípios e valores, que refletem uma concepção do mundo e orientam uma forma de ação, sobretudo política. A idéia de projeto, seja edilícia ou urbanística, trazem consigo uma promessa de integração entre agir e pensar, como na conceituação da ideologia. Entende –se o termo ideologia como a transformação de idéias em operatividade, desfeito portanto de suas conotações negativas.


"Na verdade não se deve caracterizar a ideologia apenas de um modo negativo, como o que comumente se chamava de falsa consciência; ela é também, sempre positiva e necessariamente a teoria de prática." JAMESON, Frederic - Modernidade Singular, ensaio sobre a ontologia do presente - editora Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2006

Portanto, a ideologia pode ser encarada como o ordenamento teórico que estrutura a ação, a operatividade, uma construção que pretende convencer diferentes agentes de sua adequação, ao tema, ao sítio, ao orçamento. Há um termo em Gramsci, que dinamizou o conceito de ideologia, conferindo-lhe um objetivo uma estratégia; a hegemonia. A idéia de Gramsci de construção da hegemonia, aponta que uma determinada classe só poderá obter o poder efetivo, na medida em que transformar sua ideologia particular e restrita em aspiração geral. Assim as revoluções americana e francesa, se estabilizaram como ideais na medida que conquistaram o conjunto do metabolismo social com suas teses; da eleição dos representantes, da supressão da indicação por linhagem familiar (do rei), mas por mérito, da idéia de sufrágio universalizado na sociedade, etc.. A hegemonia é portanto caracterizada como a capacidade de determinadas ideologias conseguirem conquistar o metabolismo social.

Le Corbusier e sua ideologia
Em nosso campo específico - a arquitetura e o urbanismo - percebemos como determinadas ideologias conquistaram o senso comum de forma contundente, determinando a forma de operar de diferentes atores e agentes, se tornando hegemônicas. Dois exemplos emblemáticos podem ser pinçados da história recente da arquitetura e do urbanismo. O primeiro, a doutrina corbusieana dos cinco pontos da arquitetura moderna, como mobilizou o fazer arquitetônico da geração modernista brasileira, que adotou o pilotis, a planta livre, a fachada livre, como padrão do bem construir. E o segundo exemplo, o rodoviarismo, que imperou soberano no mundo do segundo pós guerra até a crise do petróleo na década de 70, determinando a forma de desenhar cidades, que privilegia o automóvel particular como forma de locomoção no território urbano.

Portanto, ao longo dessas aulas os conceitos de projeto, ideologia e hegemonia serão tratados como ferramentas de interpretação da história e teoria da arquitetura e do urbanismo, procurando entender esses dois campos como expressão de manifestações culturais diversas e variadas.

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