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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um bonde chamado Santa Teresa, utilidade e contemplação

No último sábado dia 26 de agosto de 2011, o bondinho de Santa Teresa na cidade do Rio de Janeiro sofreu um grave acidente, que matou cinco pessoas. Um dos acidentados era meu irmão, que sofreu um grave corte na orelha, que já foi sanado com uma intervenção de um cirurgião plástico. Artista de teatro de renome nacional ele se dirigia da minha casa neste bairro para o teatro Ginástico no centro da cidade, onde representava a peça de Tchecov junto com o Grupo Galpão, Tio Vania. A peça teve que ser suspensa e a cidade foi privada das apresentações deste grupo e das reflexões contidas no brilhante texto, no sábado e no domingo. É claro, que este impacto não significa nada diante da gravidade da perda de vidas e de acidentados mais graves, que foram ocasionados pelo evento.

A gravidade deste evento força nos a uma reflexão sobre como as autoridades públicas e a própria população tratam o transporte de passageiros nesta cidade. O bondinho há muito tempo faz parte do grupo de modais de transportes, que se destina apenas aos passeios contemplativos de turistas, sendo descartado pela população como modal objetivo de mobilidade, entre casa e trabalho. Esta situação foi determinada pela absoluta ineficiência dos horários e os tempos de deslocamento do bondinho, que não são consequências inevitáveis, mas que foram determinadas a partir do descaso das mesmas autoridades públicas com a modernização e manutenção do sistema. A população de Santa Teresa, através de sua associação de moradores, já se mobilizou diversas vezes pela manutenção do sistema de bondes, argumentando sempre pelo valor inestimável deste elemento na paisagem e na história do bairro. No entanto, o sistema vem sucessivamente sendo sucateado e depredado, acabando por se instalar uma desconfiança crescente com relação ao seu funcionamento. Agora, diante de uma sucessão de graves acidentes num curto periodo de tempo, se instala a desconfiança definitiva que se refere a segurança e a vida dos passageiros.

Neste sentido, acho que estrategicamente a população e a associação de Santa Teresa deveriam fazer adaptações na sua pauta de reinvindicações, passando a pleitear não só a manutenção do sistema, mas também sua modernização, para que o bondinho se transformasse num modal eficiente no transporte diário de sua população. O bonde é ainda um modal eficiente e turístico em cidades como Lisboa, Milão, Paris, San Francisco e Nova Orleans. A chave da questão me parece estar num atendimento mais equilibrado das dimensões do cotidiano e do espetáculo, ou deslocamento diário e turismo, que não são antagônicos.

2 comentários:

  1. Nossa Pedro!
    Eu assisti a peça na sexta-feira. Adorei seu irmão. Não sabia que era seu irmão, é claro. E fiquei sabendo do ocorrido, pois um amigo foi assistir no sábado, quando o elenco anunciou. Que chato! Espero que ele fique bem.
    Essa questão é muito delicada mesmo. Independente dos erros e acertos das autoridades, o agravante é o modo como os moradores fazem uso do bonde. Isso é que não imagino como mudar.

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