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terça-feira, 1 de março de 2016

Encontro Lusófono no IAB-RJ

Nos dias 24, 25 e 26 de fevereiro de 2016 realizou-se na sede do IAB-RJ o encontro do Congresso Internacional de Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP), que organizou o V Fórum Internacional, A cidade Metropolitana. A multiplicidade na Lusofonia. O encontro reuniu arquitetos de; Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa, Guiné Bissau, Macau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, congregando entidades de representação profissional, que reúnem juntas 150 mil arquitetos, nos diferentes países.

O encontro pretendeu debater a estrutura das cidades metropolitanas no mundo de colonização portuguesa, sua diversidade e sua capacidade de impulsionar a economia local, justamente pela presença de um patrimônio construído notável. As apresentações feitas no auditório do IAB-RJ abordaram as cidades; do Rio de Janeiro (Brasil), Lisboa (Portugal), Luanda (Angola), Salvador (Brasil), Brasilia (Brasil), Macau (China) e Mindelo (Cabo Verde), formando um rico painel do desenvolvimento desses assentamentos.

Na minha percepção geral das cidades identifiquei um elemento comum, que me parece ser o legado mais importante da tradição lusa no campo da arquitetura e da cidade, pelo menos dentre as cidades apresentadas, com exceção de Brasília; um adequado domínio de sitios naturais sem incorrer em manipulações grandiloquentes de escala. Há uma certa singeleza nos monumentos de talha portuguesa, que se apresentam como obras de presença potente no sítio, mas que ao serem visitadas e percorridas demonstram uma maravilhosa adequação à escala humana, sem se envolverem com dimensões desmesuradas.

Um dos exemplos notáveis dessa condição é a Igreja do Outeiro da Glória no Rio de Janeiro, que apesar de suas dimensões singelas, ainda nos dias atuais, domina a enseada da Glória marcando o lugar de forma indelével. A colonização portuguesa do mundo ultramarinho sempre se desenvolveu dentro de precariedades do estado português, tanto do ponto de vista material, como também do ponto de vista da disponibilidade de população. Portugal dentre os reinos coloniais europeus, como Espanha, Inglaterra, França e Holanda, era o que dispunha de menor população e de um orçamento restritivo para a empresa ultramarinha. Tal condição acabou determinando construções e cidades singelas em sua escala, afastadas da grandiloquência exagerada das cidades espanholas na América.

Importante salientar também, que a exclusão de Brasília desse rol deve-se unicamente a seu perfil modernista, que lhe retirou da processualidade das cidades de construção sedmentadas no longo prazo, a partir de estratificações pré-modernas. Brasília é uma cidade de gesto único, concebida numa tacada, sem portanto as interações de longo prazo com seu contexto, que caracterizavam o desenvolvimento urbano pré-moderno. Certamente, Brasília também possui presenças lusas, como na descrição de Lucio Costa que identificou na distinção dos dois eixos; habitacional e monumental, o gesto simples de quem toma posse de um território.

"Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja o próprio sinal da cruz." Lucio Costa em BRAGA 2010 página156.

Há muito tempo que o debate entre as diferenças e particularidades das implantações portuguesas e espanholas na América dominam arquitetos e sociológicos. É conhecida a metáfora construída pelo grande sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Holanda, que associou as cidades espanholas com sua grelha regular ao trabalho do ladrilheiro, enquanto as portuguesas eram associadas ao semeador na sua interação com o sítio. O posicionamento do brilhante sociólogo é claramente condenatório com as implantações portuguesas, celebrando a regularidade das cidades espanholas, e o suposto improviso dos traçados das cidades brasileiras.

Na verdade, tal posicionamento já foi contestado por ampla documentação, que comprovou que a traça das cidades portuguesas eram planejadas e préfiguradas por engenheiros militares, que na verdade interagiram de forma mais intensa com as especificidades dos diversos sítios. Essa especificificidade das cidades de traça portuguesa, contraposta a uma certa homogeneização da cidade espanhola garantiu também um caráter de maior interação entre sítio e ocupação humana nas implantações brasileiras.

O debate e o conhecimento das diversas formas de implantação das cidades portuguesas pelo mundo abre um amplo campo de pesquisas e reflexão sobre o projeto e o plano desses assentamentos.

BIBLIOGRAFIA:

BRAGA, Milton - O Concurso de Brasília - Editora Cisac Naif São Paulo 2010

HOLANDA, Sérgio Buarque de - Raízes do Brasil - Editora Companhia das Letras São Paulo 1997

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