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domingo, 24 de janeiro de 2016

125 anos do nascimento de Gramsci e as nossas cidades contemporâneas

No dia 22 de janeiro de 2016, o filósofo italiano Antonio Gramsci teria completado 125 anos se estivesse vivo. Nascido na Sardenha em 1891, o político antifascista mudou a trajetória do pensamento marxista contemporâneo, criticando de forma veemente o economicismo, o determinismo e o cientificismo dessa linha do pensamento. A contribuição original de Gramsci ao marxismo se deve à crítica ao conceito de objetividade científica, que deveria ser contraposto a um relativismo subjetivo absoluto, principalmente no campo da história.

Marx e Engels são classificados como contaminados por um determinismo científico, pois sua localização histórica no século XIX demanda deles uma certeza mobilizadora, que seja capaz de ser persuasiva naquele momento específico. Em contraposição Gramsci irá se utilizar e se valer muito mais de leis tendenciais, do que da objetividade do determinismo científico histórico, buscando valorizar a interpretação subjetiva da história. Gramsci irá fazer a caracterização do marxismo como filosofia da práxis, pretendendo a reunificação entre ação e pensamento, tendo o sujeito como protagonista, que a cada novo ciclo reconstroe a interpretação histórica de forma a objetivá-la.

"O sujeito humano existe intervindo no mundo, sendo constituído pelo movimento da história e, simultaneamente, constituindo esse movimento." KONDER, 2002, p.109

Há dois conceitos fundamentais na filosofia de Gramsci -a ideologia e a hegemonia -, que demonstram seu esforço de adequar o método marxista ao seu tempo contemporâneo, o começo do século XX, com as presenças da primeira guerra mundial, da revolução russa e da ascenção do fascismo na Itália.

Marx e Engels enxergavam a ideologia como um condicionamento social ou de classe, que distorcia a capacidade de interpretação do real pelo sujeito, sendo portanto um termo carregado de negatividade. Gramsci irá reafirmar essa visão, mas dando-lhe um aspecto mais positivo, alertando que qualquer pensamento não pode se libertar das vicissitudes da ideologia. Mesmo a ciência, que Marx contrapunha a ideologia, para Gramsci está condenada a reconstruções, revisões e correções contínuas e constantes ao longo da história. Portanto, mesmo a ciência não é capaz de uma representação do real de forma permanente e eterna, estando sujeita a reconstruções e reinterpretações contínuas em função do contexto histórico.

Por outro lado, para Gramsci há ideologias arbitrárias ou conservadoras, que mantém o status quo, ou o módus operandi do mundo sem mudanças, e ideologias historicamente orgânicas ou progressistas, que estão comprometidas com uma visão de transformação e são vitórias da representação sobre o real. A essas últimas - ideologias historicamente orgânicas - Gramsci considerava como "hipóteses científicas de caráter educativo e energético", que tinham a capacidade crítica de realizar o desenvolvimento histórico.

O outro conceito importante na filosofia de Gramsci era a hegemonia, uma dinamização da concepção de ideologia, que na verdade pretendem conquistar o tecido social, tornando-se representações socialmente compartilhadas por todos. Portanto algumas ideologias se hegemonizam no tecido social, determinando práticas e costumes que estruturam nossa concepção de mundo, se transformando em representações socialmente convincentes para todos.

Um exemplo notável de ideologia, que se hegemonizou está na forma de representação dos Estados, que com as revoluções burguesas abandonaram a linha hereditária da realeza com delegação eterna para uma família, passando a adotar a escolha republicana do representante pela eleição de votos e o mandato temporário. A ideologia republicana penetrou nos mundos da vida, convencendo o tecido social de sua maior adequação, desempenhando um papel contra-hegemônico num tempo histórico específico, destituindo a nobreza hereditária que era então a ideologia predominante. Anote-se que a mudança foi de longa duração, afinal o voto demorou a se generalizar na sociedade como um todo, mantendo-se excluídos os analfabetos e as mulheres por longo período.

Nas cidades também temos ideologias arbitrárias ou predominantes que se hegemonizaram, determinando práticas e costumes que estruturam nossa forma de construí-las, e que se naturalizaram como ideias estabelecidas. Dois aspectos representam ideologias arbitrárias instaladas, que demandam formulações de ideologias contra-hegemônicas para desalojá-las de nossas práticas; o rodoviarismo imperante, e o idílio isolacionista da habitação.

Essas duas ordenações ideológicas se estruturam de uma maneira, que mutuamente se justificam, o automóvel individual induz a habitação isolada, que por sua vez também é indutora da necessidade da presença do pneu. As duas na verdade estão profundamente articuladas com a crise do espaço público que nossa sociedade vive, determinado pelo declínio da esfera pública, que também tem entre seus componentes o individualismo exagerado. Nossas cidades apresentam densidades baixas, ocupam um território muito maior que o necessário, e no mundo subdesenvolvido não conseguem universalizar o acesso as infraestruturas urbanas, que permanecem restritas a áreas privilegiadas. Apesar de todos os sinais do planeta de que o modelo baseado no isolamento unifamiliar e no automóvel particular são inviáveis, eles seguem representando o bem viver.

Como articular ideologias contra-hegemônicas que celebrem os meios de transportes públicos e o adensamento da habitação, fazendo-os representar o bem viver? É o desafio de nosso tempo...

BIBLIOGRAFIA:

KONDER, Leandro - A questão da ideologia - Editora Companhia das Letras, São Paulo 2002

MOREIRA, Pedro da Luz - Projeto, Ideologia e Hegemonia, em busca de um conceito operativo para a cidade brasileira - Tese de Doutorado Prourb FAU-UFRJ. Acesso a  http://www.prourb2.fau.ufrj.br/pedro-da-luz-moreira/

http://www.esquerda.net/artigo/125-anos-de-gramsci-o-intelectual-organico/40847, acesso em 23/01/2016

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