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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Belo Horizonte descontínua, as torres e o antiurbanismo


A destruição da relação rua - apartamento
O arquiteto de Milão Ernesto Nathan Rogers, em 1953 quando assumiu a chefia editorial da revista Casabella, agregou a esse nome o termo Continuittá, que portanto passava a se chamar Casabella y Continuittá. Com isso, Rogers expressava uma conceituação de sua própria arquitetura, a proposta de construção de uma continuidade histórica com as pré-existências da cultura e da cidade, que de certa forma transcendiam as demandas programáticas das edificações. Rogers era então um dos expoentes do neo-racionalismo italiano, que claramente formulava uma teoria de crítica ao movimento do international style da arquitetura moderna, que de forma recorrente havia homogeneizado o mundo a partir de uma certa standartização da materialidade empregada. O contextualismo de Rogers se referia a questões relativas ao ambiente construído, aos esforços construtivos já realizados, que acabavam conformando um ambiente particular em cada cidade. Interessante destacar, que as páginas de Casabella y Continuittá em textos do próprio Ernesto Nathan Rogers, destacaram uma certa característica contextualista da moderna arquitetura brasileira, citando projetos de Oscar Niemyer e Afonso Eduardo Reidy, que se reportavam a questões de clima e história em suas premissas, numa resposta a polêmica produzida por  Max Bill nos anos cinquenta.

"Quando Rogers inicia seu texto Pretesti per una critica non formalistica faz uma ressalva que irá pautar toda sua argumentação: é preciso livrar se dos preconceitos trazidos da própria cultura para poder entender a cultura de outro país. É uma advertência próxima àquela colocada por Lucio Costa, para quem as críticas de Bill eram fruto de um «estado prevenido». A partir deste argumento Rogers constrói o seu parecer sobre uma arquitetura, a seu ver, vítima de juízos arbitrários tanto positivos – vindos de Giedion – quanto negativos – vindos de Bill – e acrescenta que olhar para a arquitetura brasileira segundo um modo particular, e ele cita o modo suíço (referindose a Giedion e a Bill), seria um erro de abstração que conduziria às «depreciáveis polaridades da crítica formalista»61. Também seria um erro, para ele, julgar a obra de Niemeyer a partir dos seus numerosos maus seguidores, que faziam arquitetura à «maneira» dele (manieristi 62). No texto, Rogers coloca-se como ponderador que procura construir um juízo capaz de equilibrar justamente a acusação e a defesa da arquitetura de Niemeyer, não a absolvendo e nem retirando seus méritos, mas invertendo o problema colocado por Bill e acusando de formalista a crítica do arquiteto suíço." SANCHES  2012

«Despojado dos preconceitos e colocado na sua geografia e na sua história, o caráter de Niemeyer aparece mais objetivamente e, se os seus defeitos permanecem, afloram também os seus méritos: essencial aquele de ter entendido alguns valores típicos do seu país, deduzindo-os, por analogia, da fisionomia das coisas ao redor: o ciclo entre causa e efeito se fecha na expressão de um estilo onde o conteúdo particular tende a sua inequívoca identificação material." ROGERS, citado em SANCHES  2012

A perda de escala da torre
As cidades brasileiras possuíam contextos memoráveis, que vem se perdendo a partir da manipulação e até da imposição de padrões do bem viver para as classes médias e altas, baseadas no modelo da torre em altura, que também acabam determinando contextos muito descontínuos, aonde as pré-existências são esquecidas. O perfil da cidade de Belo Horizonte nos anos 1970s, já apresentava uma intensificação do uso do solo a partir de uma tipologia de edificação de tres andares, que não dependia de elevadores, isto é com no máximo quatro andares. A partir dos anos 1990s, Belo Horizonte assim como outras cidades brasileiras, passaram a adotar uma legislação urbanística baseada em índices de exploração dos terrenos, que reforçaram uma celebração da torre, como forma tipológica eleita de habitar a cidade. Essa atitude, articulada com uma tradição de ausência de celebração do espaço público como o local da festa e da surpresa, vem desde os 1990s destruindo a urbanidade de nossas cidades. É verdade, que nossas elites abastadas ou médias nunca demonstraram qualquer interesse pelo espaço publico do Brasil e da sua gente, se sentindo mais confortável em urbanidades europeias ou americanas. Mas, a proposta que regulava a intensificação do uso, no período anterior, era de fixação do gabarito - número de andares das edificações - por quadra da cidade, o que garantiu uma maior continuidade da escala a quadra.

Edifício em BH similar ao Aquarius em Recife
O programa da habitação desenvolvida em torre, implica numa ruptura da conexão entre espaço privado da habitação e espaço público da cidade, que vem de forma sistemática deteriorando nossas urbanidades. O tema já foi abordado aqui no blog, no texto sobre o Filme Aquarius e a cultura brasileira do bem viver, que se passa em Recife e narra a mesma opção feita pela Belo Horizonte contemporânea. O dramático na questão é a reprodução desse padrão em cidades menores, a partir de argumentos de otimização da segurança, o que não passa de uma falácia, pois o espaço público vazio e abandonado, que dela resulta é a consequência inevitável dessa atitude, potencializando a violência em nosso espaço público. A pretensão me parece ser, se movimentar pela cidade com carros ou helicópteros blindados, chegando em condomínios murados com desenvolvimento em torres para evitar a interação com nosso espaço público.

Lucio Costa em seu memorial para Brasília, na definição do número de pavimentos dos edifícios das superquadras determinou a altura máxima em 6 pavimentos, mais um de pilotis, argumentando que esse dimensionamento mantinha as crianças no solo da cidade, ainda sob a sujeição do grito das mães nos respectivos apartamentos. É exatamente essa relação que vem se perdendo nas cidades brasileiras com a celebração da tipologia da torre, uma proximidade controladora entre os espaços privados da habitação e a rua. Tal projeto que seduz nossas elites irá significar o declínio da vitalidade dos nossos espaços públicos, que cada vez mais serão condenados a uma baixa urbanidade. Abaixo os links para os textos mencionados no texto.

Bibliografia:

SANCHES, Aline Coelho - Ernesto Nathan Rogers, e a polêmica da arquitetura brasileira - Revista Risco 02 2012

http://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com.br/search?q=filme+aquarius

http://www.iau.usp.br/revista_risco/Risco16-pdf/02_art07_risco16.pdf

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