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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Viagem à Assunção, para o encontro da Federação Panamericana de Arquitetos

Escola experimental Paraguai-Brasil
de Reidy
Estive entre os dias 24 e 27 de novembro de 2016,  na cidade de Assunção, capital do Paraguai, para o encontro da Federação Panamericana de Entidades de Arquitetura (FPAA), representando a diretoria nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Portanto, as impressões expressas aqui são de um viajante curioso pelo desenvolvimento do fenômeno cidade e da arquitetura em várias partes do mundo, que apenas procurou informações gerais,e basicamente passeou pelo casco histórico de Assunção e seu entorno imediato. Na verdade, ao sair do Brasil tinha uma visita pré-determinada com antecedência, conhecer a Escola Experimental Paraguai-Brasil do arquiteto Afonso Eduardo Reidy, o autor dos emblemáticos Parque do Flamengo e do Museu de Arte Moderna, ambos no Rio
O tema do MAM-RJ, anunciado na
Escola Brasil-Paraguai
de Janeiro. Sem dúvida nenhuma, uma obra ímpar, que apesar do mau estado de conservação, ainda demonstra a incrível destreza desse arquiteto na manipulação do espaço, da escala e da proporção num projeto realizado em 1952, que só foi concluído em 1964 depois da morte do arquiteto. O auditório, o ginásio e a piscina não foram feitos, e hoje em dia grande parte do pilotis proposto por Reidy encontra-se ocupado. Apesar disso tudo, a obra ainda carrega uma imensa potência, demonstrada no dimensionamento da altura do pilotis, das salas de aula, e na conformação dos pilares da fachada principal, comprovando de forma inequívoca a sofisticação das propostas de Reidy. Chama a atenção no grande bloco das salas de aula, o anúncio do tema do MAM-RJ, o uso da estrutura de concreto aparente, que se repete aqui num intercolúnio primoroso, do ponto de vista do ritmo e das proporções.

Edifício do Cabildo, que era o antigo
conselho municipal nas colônias
espanholas da América
A maquete da antiga cidade
A cidade de Assunção, fundada em 15 de agosto de 1537, capital do Paraguai, localizada na confluência do rio Paraguai com o rio Pilcomayo, possui 544mil habitantes em sua sede municipal e 2,5milhões na sua área metropolitana. Pelas minhas impressões pessoais, ou memórias afetivas, tendo em vista sua morfologia geral, Assunção pode ser comparada como algo, que mistura Belo Horizonte, com Buenos Aires. Da capital mineira, Assunção traz as ruas em ladeiras, que na topografia do planalto do rio Paraguai são mais suaves, que no quadrilátero ferrífero no centro de Minas. De uma maneira geral, a tradicional grelha da Lei das Indias, traçado que estrutura as cidades espanholas na América, se adequa ao desenvolvimento do rio Paraguai, intercalando ruas planas, paralelas às suas margens e ruas inclinadas, perpendiculares a esse. De Buenos Aires, Assunção tem a presença dessa grelha estruturante, a grandeza da arquitetura colonial espanhola e de sua arquitetura belle epoche, aqui mais espaçada e esgarçada, e muitas vezes ameaçada. Há uma pré-figuração, que domina minha leitura imediata da cidade, que é a forma tipológica das antigas missões jesuíticas, que se consolidaram como primeira ocupação desse imenso território constituído e estruturado pela bacia do Prata. Reforça essa condição a recorrente presença de arcadas, avarandados ou loggias, principalmente nas edificações coloniais e neo-clássicas, que oferecem generosos passeios cobertos aos pedestres, do inclemente sol do Chaco.

Nesse sentido, uma das mais interessantes visitas que fiz foi a Manzana Rivera. Um conjunto de nove casas restauradas articuladas por seus pátios, localizada em frente ao Palácio de  Benigno López, sede do poder executivo paraguaio. Uma quadra inteira com nove casas restauradas; Casa Viola (séculoXVIII), Casa Clari (princípios do século XX), Clari Mestre (1912), Vertua (1898), Emasa, Casa Castelvi (1804), Casa Serra1, e 2 (sem data), e Casa Balario (1901). Esse conjunto constitui um centro cultural, que está conectado pelos pátios centrais das antigas casas, reproduzindo a tipologia da habitação entorno do vazio. Gaston Bachelard,
Casa Viola (século XVIII)
filósofo francês fenomenólogo descrevia a casa em torno do pátio, como a apropriação ou recorte de um pedaço de céu, que passava a ser patrimônio da edificação, recortando e tornando íntima a sucessão de luzes, noites e luas daquele trecho da abóbada celeste. A visita a Manzana Rivera, articula e modula essa sucessão de diferentes iluminações e graus de intimidade e de seu reverso, em função de suas dimensões e fachadas adjacentes. A geratriz da mais antiga casa, a Viola (séculoXVIII) é um mistério que não consegui decifrar, o fato de não estar alinhada pela conformação das ruas adjacentes aponta que essa construção antecede o Cabildo e a malha de ruas. Há no Museu da cidade, instalado na mesma edificação já mencionada do Cabildo, uma maquete que reconstroi a ocupação colonial de Assunção. Nessa maquete também não se encontra, uma justificativa plausível para a implantação esconsa da Casa Viola, há não ser pela estrutura pouco densa da cidade de Assunção de então, que talvez libertasse seus construtores dos alinhamentos das ruas da cidade, podendo ter sido a sede de uma antiga estância, ligada mais as atividades rural, do que urbanas. No entanto, a proximidade com a antiga praça doCabildo desconstroe essa hipótese, sem descartá-la totalmente.

A cidade mantém um ar bucólico e provinciano, compartilhando um certo orgulho pela sua especificidade indígena e por seu distanciamento de uma cultura majoritariamente ocidental. A língua Guarani ainda é usada na cidade, inclusive por uma população mais jovem, que muitas vezes se orgulha desse patrimônio, das antigas populações indígenas da área.

Hotel Guarani
O hotel Guarani no centro da cidade de Assunção é fruto de um concurso de projetos, organizado pelo Instituto de Prevision Social, vencido por um arquiteto radicado em São Paulo, Adolpho Rubio Morales, que é autor da Assembléia de Vereadores da cidade de São Paulo. A edificação tem uma característica expressividade nos elementos que sustentam (pilares) o seu peso, transferindo para o solo. O concurso foi organizado em 1957, tendo como membro do juri Afonso Eduardo Reidy, com uma premissa expressa em seu edital; gerar um símbolo emblemático moderno para a cidade de Assunção. A projeção da placa corresponde aos limites da quadra, ao alinhamento de suas ruas, enquanto a torre sobre essa placa tem uma projeção triangular. O edifício na manipulação dessa expressividade dos seus pilares, e na distinção entre os volumes da placa e da torre beira um formalismo exarcebado, com comprometimento da continuidade estrutural.

Há uma recorrente e fantasmagórica presença na cidade de estruturas de torres inacabadas de concreto abandonadas, que muitas vezes são utilizadas como estacionamento nos seus pavimentos próximos ao térreo. Essa presença confere as vezes grande descontinuidades aos conjuntos arquitetônicos, explicitando a presença de um capital especulativo de curtíssimo prazo, com uma clara ansiedade imediatista, descasada dos interesses de mais longo prazo da cidade. A tipologia da torre já domina o skyline da cidade, pontuando essa ansiedade pela busca de ícones, que por sua generalização acabam denunciando uma competição descontínua e desneccessária.

Câmara Legislativa
Há também novas edificações recentemente inauguradas na cidade, inseridas no antigo casco histórico de Assunção, a Câmara Federal na mesma praça do Cabildo, e a Biblioteca Nacional próxima dessa última, voltada para o recente passeio da beira rio, recentemente configurada. Duas edificações que foram fruto de concursos de projetos, com dois resultados divergentes, a Cãmara com uma certa tendência ostentatória, expressa numa materialidade eclética, e a Biblioteca com uma atitude sóbrea e concisa, que me pareceu mais adequada ao contexto. A Câmara em suas tres frentes manipula uma materialidade de vidro,
Biblioteca Nacional
revestimentos de alumínio e granito próxima da imagem das corporações contemporâneas, que claramente desequilibra com o nível de tratamento precário do espaço público de Assunção, mesmo nessa região central. Há portanto, uma ostentação descontextualizadora, que basicamente choca e desequilibra. Enquanto a sobriedade da materialidade da Biblioteca, resumida a vidro e ferro, bem como a concisão de sua volumetria constroem uma imagem muito mais adequada ao novo parque que se inaugura. A Biblioteca ainda não foi inaugurada, estando ainda isolada por tapumes, o que certamente compromete minhas impressões. Há aqui um partido topográfico que tira seus benefícios do desnível existente entre o novo parque e o greide da cidade.

Enfim, essas são minhas impressões sobre a cidade de Assunção, e nos revela a imensa responsabilidade que envolve o ofício da arquitetura e do urbanismo, na geração de adequação ao contexto existente. Portanto, precisamos ampliar de forma expressiva os mecanismos de controle para a definição de nossos esforços construtivos, orientando nossos planos e projetos para se atingir essa adequação.

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