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domingo, 21 de agosto de 2016

Gramsci, Tafuri, a filosofia da práxis e o projeto

Antonio Gramsci
O italiano Antonio Gramsci (1891-1937) é muitas vezes considerado como um pensador vinculado ao que se convencionou chamar de marxismo ocidental,  isto é, um conjunto de teóricos sociais com afinidades com o pensamento de Karl Marx, mas que passaram a se envolver mais com questões culturais, de certa forma declinando da premissa de transformar o mundo pela revolução. O posicionamento está expresso na décima primeira tese sobre o filósofo materialista Feuerbach por Karl Marx, que apontava que os filósofos tinham até então desenvolvido a interpretação do mundo, mas que para o materialismo histórico passava a ser mais importante, transformá-lo. Perry Anderson no seu livro Considerações sobre o marxismo ocidental, bem como em Nas trilhas do materialismo histórico, assim como José Guilherme Merquior em Marxismo Ocidental consideram o filósofo da Sardenha como um dos fundadores dessa tendência do pensamento marxista. Na verdade, ambos destacam que Gramsci se separa dessa linha de pensamento pela sua militância no PCI e nos movimentos grevistas do início do século XX na Itália, que acabaram levando-o aos cárceres de Mussolini. Mas enfatizam também sua preocupação com a dimensão cultural das transformações operadas no mundo moderno. Na verdade Gramsci, constroe a possibilidade de convivência entre o movimento comunista e a democracia burguesa, a partir de sua manipulação de termos como ideologia e hegemonia, que estão vinculados a questão da cultura.

Sem dúvida, a décima primeira tese sobre Feuerbach caracteriza o marxismo como uma filosofia da práxis, envolvendo uma análise que abandona uma contemplação passiva do real, engajando-se numa proposição de mudança. Numa analogia com a linguagem médica, poderiamos afirmar que o marxismo se interessa mais pelo prognóstico, do que com o diagnóstico, enfatizando as estratégias para a mudança e transformação, se aproximando com mecanismos típicos da projetação.

Manfredo Tafuri
Foi Manfredo Tafuri (1935-1994), um crítico de arquitetura também italiano, que destacou um grupo específico de teóricos como promotores da crítica operativa do real, no seu livro Histórias e Teoria da Arquitetura. Segundo Tafuri, essa corrente aproximava a crítica da arquitetura do campo da projetação, uma vez que se interessava pela definição de um sentido para as construções humanas, capacitadora de uma ampliação da civilidade. Os pensadores dessa corrente procuravam intuir a partir da história ou da obra de determinados arquitetos, a construção de um sentido de civilidade, tanto da arquitetura, quanto da cidade. O campo do plano e do projeto de urbanismo ou de arquitetura sempre tiveram uma forte tendência pela operatividade, pois pretendem a materialização da transformação. Mas, também operam no campo da crítica, uma vez que apontam para transformações concretas nos hábitos e costumes humanos materializados na espacialidade proposta. Há no campo do plano e do projeto uma salutar tensão entre desejos de materialização e o alcance de premissas utópicas, transformadoras de práticas arraigadas na sociedade.

A dimensão da práxis, a crítica, a utopia e a questão do plano e do projeto carregam um forte compromisso com o vir-a-ser humano, sendo portanto formas de abordar o real, que não se restringem ao diagnóstico, mas se comprometem com o prognóstico.

BIBLIOGRAFIA:

ANDERSON, Perry - Considerações sobre o marxismo ocidental e Nas trilhas do materialismo histórico - editorial Boitempo São paulo 2004
MERQUIOR, José Guilherme - Marxismo Ocidental - editora Nova Fronteira Rio de janeiro 1987
TAFURI, Manfredo - Teorias e História da Arquitetura - editorial Presença Lisboa 1979

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