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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Adam Smith em Pequim de Giovanni Arrighi

Já postei aqui neste blog uma resenha sobre o livro de ARRIGHI, Giovanni O Longo Século XX, como uma das mais interessantes interpretações do nosso tempo contemporâneo. Agora relato uma outra publicação do mesmo autor, Adam Smith em Pequim, um livro provocante, e mais uma vez uma reflexão que foge a toda ortodoxia. A tese central de ARRIGHI nesta publicação é que durante os séculos XVI, XVII e parte do XVIII a China tinha a hegemonia do comércio mundial, e agia fora da lógica da acumulação de capital. A percepção da importância histórica da China foi pontuada pelo próprio Adam Smith, que via no império do meio um equilibrio entre a oferta e o mercado, que sacrificava a acumulação capitalista. Marx rompeu com a idéia de um limite econômico, enquanto Malthus com a questão do limite demográfico. Marx apontou a acumulação capitalista como agente que corrompe este equilíbrio, enquanto Malthus identificava a progressão geométrica da população como desestabilizadora deste mesmo equilíbrio. Arrighi aponta a visão utópica de Smith que imagina um mercado, onde todos estão igualmente empoderados de forma a possibilitar a dinamização das trocas de forma inusitada.

No inicio do século XX a hegemonia européia na Ásia e África era um fato. Nos anos cinquenta no mesmo século nestas duas partes do mundo haviam surgido uma série de estados variados, que se libertaram do julgo colonial e consolidaram um forte movimento anti-ocidental. Essa transformação em um relativo curto espaço de tempo, talvez tenha sido um dos mais importantes eventos do século XX. A sucessão dos estados da Asia oriental, que começa com o Japão nas décadas de cinquenta e sessenta, passando para a Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Cingapura, Malasia e Tailandia nas décadas de setenta e oitenta, que culmina nos anos noventa com o ressurgimento da China como centro da expansão econômica e comercial mais dinâmica do mundo.

Na década de sessenta o maior poderio militar do ocidente, os EUA sofreram um forte revés no Vietnam. Este fato parecia apontar para um maior equilíbrio entre as nações conforme a análise de Adam Smith, que entendia como fundamental para o desenvolvimento de um comércio uma distribuição maior do poder entre as nações. Mas na década de oitenta a demanda americana no mercado financeiro mundial esgotou a oferta de crédito, dificultando a situação do terceiro mundo. O desenvolvimento então retornou ao primeiro mundo com a mesma força que havia tendido para o terceiro mundo na década de sessenta. Ao final da década de oitenta o império soviético desintegrou-se, suprimindo a idéia de segundo mundo. O ocidente, os EUA e a União Européia, aproveitaram o colapso da URSS para impor pela força e pela coação ideológica a desregulamentação da economia mundial como novo paradigma.

CUMINGS, Bruce mencionava então o arquipélago capitalista do oriente ou da Asia oriental, composto por Japão, Cingapura, Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul, que tiveram crescimento virtuoso desde a década de sessenta para cá. O governo Bush, após o onze de setembro lançou o projeto para o Novo Século norte americano, uma tentativa de dar sobre vida ao primeiro império verdadeiramente mundial. No entanto, sucede um novo fracasso do imenso poderio militar americano na segunda guerra do Iraque. Neste contexto, emerge ao longo dos anos noventa um processo de desenvolvimento impressionante na China. A China não é como Japão, Taiwan, Coréia, Cingapura ou Malasia, embora seu poderio militar seja ridículo quando comparado com os EUA, o império do meio é uma imensa extensão territorial com um mercado consumidor de tamanho impressionante. Essa nova potência começa a comprar títulos do tesouro americano, emerge como a mais nova potência mundial, substituindo aos EUA como principal motor da expansão comercial e econômica do mundo.

Marx em Detroit e Smith em Pequim

Os economistas frequentemente erram em suas projeções. No ano de 1996 um famoso economista norte americano, dentro do espírito da desregulamentação geral, disse a uma platéia atenta, que a Russia e não a China havia acertado o caminho das reformas. Essa mesma opinião foi repetida na revista de Economist no ano seguinte. Joseph Stiglitz logo inverteu a tese de Economist, afirmando que o sucesso chinês advinha da não aceitação das terapias de choque defendidas por Washington. A China nunca havia confundido os fins - o bem estar de sua população - com os meios - privatização e liberação do mercado.

A afirmação algo enigmática de Deng Schiao Pin de que as reformas pretendiam criar uma economia de mercado socialista, não foi levada a sério fora da China e mesmo por membros do Partido Comunista Chinês. O mercadismo-leninismo que estava embutido no lema; "é glorioso enriquecer", também lançado por Deng conclamou ao país a imaginar empreendimentos. Ele foi lançado por Deng em 1982, mas apenas na década de noventa ganhou capilaridade. Numa visita do primeiro ministro chinês às províncias do sul, na qual pediu que o país se dedicasse aos negócios e a enriquecer. No entanto, essa posição não era compartilhada pelo meio acadêmico:

"He Oinglain da Universidade de Fudan defendeu que os principais resultados das reformas de Deng foram a enorme desigualdade, a corrupção generalizada e a erosão da base moral da sociedade." Pg31

Muitos marxistas ocidentais corroboram as afirmações descartando a idéia da existência de qualquer coisa similar ao socialismo na China atual. Essa questão continua controversa, Samir Amim afirma que o socialismo não perdeu nem ganhou na China, e ainda se resguarda no princípio do acesso igualitário à terra.

"As classes populares chinesas tem confiança em si... Em grande parte rejeitam atitudes submissas... As lutas sociais são ocorrência diária, contam-se aos milhares, costumam ser violentas e nem sempre resultam em fracasso."

As afirmativas de Amim parecem ser corroboradas pelas iniciativas do governo chinês em fevereiro de 2006, quando foi lançado um novo campo socialista, ampliando a assistência médica, educacional e previdenciária para agricultores e adiando a privatização das terras. Liu Guoguang da Academia de Ciências Sociais da China teme pela elitização da criação da economia de mercado, se não for enfatizado o espírito socialista de justiça e responsabilidade social. Mas afinal, o que é uma economia de mercado elitista, é o mesmo que uma economia de mercado capitalista? Pode existir uma economia de mercado socialista?

O PCC no começo de 2005 lançou uma campanha entre líderes públicos e acadêmicos para mobilizar e modernizar o marxismo, para enfrentar o que Ju Jintao chamou de "problemas e contradições em todos os campos". A idéia por trás da iniciativa de Ju Jintao é discutir o marxismo a luz do problema de que empresas privadas vem se tornando a base da economia chinesa. Parece que a prática na China antecede a formulação teórica, que permanece perplexa.

Marxismo Neo Smithiano

Em 1968, Mario Tronti, um teórico marxista italiano publicou um artrigo com o provocante título de "Marx em Detroit". A tese de Tronti era que o verdadeiro epicentro da luta de classes teria ocorrido nos EUA, onde os trabalhadores haviam sem qualquer influência marxista, conseguido dobrar o capital, acomodando suas reinvindicações salariais e efetivamente obtendo ganhos substanciais. Numa analogia com a Ideologia Alemã, Tronti dizia que na Europa

"Marx existia ideologicamente, mas era nos EUA que as relações trabalho e capital foram objetivamente marxianas."

É verdade que a tese também espelhava a crise de identidade eurocêntrica do marxismo, que parecia migrar para a periferia; o terceiro mundo, Vietnam, Cuba, China, etc... Era como se o Capital de Marx tivesse perdido sustância para explicar o cotidiano do primeiro mundo, ganhando por outra parte musculatura para explicar as relações de dependência do terceiro mundo. Tronti na verdade relembrava um convite feito por Marx no livro I do Capital, para que deixássemos a esfera barulhenta do mercado e entendêssemos a morada oculta da produção, o chão da fábrica, onde está o segredo da formação do lucro. É importante assinalar que o mais brilhante dos discípulos de Tronti, Antonio Negri, irá na contemporaneidade formular o provocante livro: Multidão. Um livro escrito junto com Michael Hardt, que celebra a possibilidade de um mundo onde seja possível atingir a liberdade e a igualdade, uma exigência que emerge da multidão, exigindo uma sociedade global democrática e inclusiva.

Na verdade, é preciso que se reconheça que Marx no século XIX empreendeu um enorme esforço para compreender o funcionamento do Capital na Inglaterra, mas não tinha o instrumental para a análise de sua disseminação pelo mundo. E isto, se refere ao outro lado do oceano Atlântico, apesar das recorrentes solicitações intelectuais que Marx recebeu dos EUA. Enfim, as reflexões de Marx sobre a disseminação do capitalismo no mundo não possuiam o lastro, que o próprio método exigia.

Nesse sentido, as reflexões de Marx possuem muita semelhança com a idéia de "mundo plano" defendida por Thomas Friedman muito depois, que nasceram a partir da leitura deste último autor do famoso Manifesto Comunista. É preciso que se reconheça uma vertente homogeneizadora no Manifesto, que trabalha a partir da Revolução Industrial inglesa, uma clara tentativa de supressão do espaço físico, ou das especificidades locacionais. No entanto, mais uma vez o mundo contemporâneo nos mostra que as teses homogeneizadoras do século XIX não se realizaram, havendo hoje um quase consenso sobre as especificidades do desenvolvimento em função da diversidade de contextos. Segundo ARRIGHI:

"... é que nesses cento e cinquenta anos a interdependência cada vez maior das nações não aplainou o mundo com o desenvolvimento capitalista generalizado... nos últimos dois séculos a crescente interdependência entre os mundos ocidental e não-ocidental tem sido associada não a convergência presente no Manifesto Comunista, mas uma enorme divergência."

Ao mesmo tempo de Tronti, André Gunther Frank lançava Desenvolvimento e Subdesenvolvimento que reforçou a tese da diferenciação do mundo em arquétipos como, metrópole e periferia.  Mais uma vez a ortodoxia marxista condenou a interpretação entre centro e periferia, como algo que revelava a erosão da tese da luta de classes. A tese de Frank explica muito do tipo de desenvolvimento que o Brasil teve, onde não emerge um grupo de interesses coesos mobilizados pela transformação do estágio de relacionamento econômico do país:

" a burguesia nacional passou a se interessar não pelo desenvolvimento, mas pelo apoio exatamente ao sistema de classes de produção e de extração de excedentes que limitam o desenvolvimento econômico..."

Em outras palavras, a inércia do desenvolvimento capitalista consolidou a estrutura centro e periferia, que as elites dos países absorvidos não precisam mais de um pensamento autônomo para serem inseridas ou aceitas. Por um outro lado, nesse mesmo debate ressurge a partir dos argumentos de Robert Brenner a centralidade do mecanismo de classe, como uma estratégia para sobreviver no mercado.

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