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domingo, 19 de junho de 2016

O tijolo e o balão

Um dos textos mais provocativos de Frederic Jameson é O tijolo e o balão: arquitetura, idealismo e especulação imobiliária do livro A cultura do dinheiro, que reune uma série de artigos e ensaios escritos do ponto de vista materialista. A ideia central, do artigo como também do livro é a interrelação contemporânea entre bens simbólicos e economia no nosso mundo de hegemonia financeira, onde cultura e entretenimento estão inexoravelmente misturados, não podendo mais ser separados. O problema central envolve a relação entre arquitetura e urbanismo, o abrigo e a cidade, e dentro desses, a questão da abstração, como um posicionamento presente nos vários modernismos e no pós-modernsmo contemporâneo. O objeto arquitetônico e o seu contexto urbano adjacente, onde as noções de controle, de público, de privado e suas graduações são lidas e mediadas pelos usuários.

Jameson, reconhece de forma antecipada a semi-autonomia do ofício da arquitetura e do urbanismo, e do próprio campo da cultura, e que as reflexões que ligam de forma ligeira e rápida o simbólico com a economia do mundo contemporâneo, incorrem em reduções perigosas. Mas assume o risco, apontando que no campo do espaço há um equivalente análogo da lógica financeira, que nos governa, que é a especulação imobiliária. Jameson cita Niklas Luhmann na sua teoria dos sistemas, e sua conceituação de mediação dentro dos ambientes fechados, ou pretensamente autônomos, ou ainda que pretendem e afirmam sua autonomia como presos ou tributários dessa mediação financeira. Aqui me parece, mais uma vez se manifesta a pretensão marxista de captura da totalidade, uma pretensão perigosa num mundo fragmentado e segmentado, mas que no autor soa elegante, afinal;

"...meu termo é deliberadamente ambíguo ou ambívalente para poder sugerir uma rua de mão dupla, na qual se pode tanto enfatizar a relativa independência ou relativa autonomia da área em questão quanto o oposto, ou seja, insistir em sua funcionalidade e seu lugar dentro do todo,..." JAMESON 2001 página175

Nesse contexto, a compreensão do autor de forma bastante convincente é que tanto o dinheiro, como também a terra urbana são elementos funcionais dentro do sistema ou do subsistema mencionado, mas que por isso mesmo são meios e não fins em si mesmos. Jameson também cita George Simmel no livro A filosofia do dinheiro de 1900, apontando-o como formulador de uma complexa dialética descentrada ou não hegeliana, o que de certa maneira garante sua vacinação diante do problema da totalidade. Apesar de não conhecer a obra de Simmel, o que me é possível inferir da citação, particularmente na sua ênfase no ensaio "Métropole e vida mental", é que a reafirmação da abstração na vida contemporânea é sublinhada ´por essa realidade tão cara a Baudelaire e Benjamim, da grande cidade moderna. Uma realidade, que nos foge, produtora de uma atitude blasé, de um descentramento, de uma ansiedade, de crise de valores, de ausência de pertencimento, dentre outras, tão típicas das grandes aglomerações. As grandes cidades, tais como São Paulo e o Rio de Janeiro são uma abstração em si, afinal quem de nós seria capaz de alcançar sua inteira legibilidade, ou uma descrição sintética. Numa longa citação de Simmel, Jameson descreve a separação entre preços de ações e fatores objetivos da constituição das próprias empresas correspondentes, demonstrando a presença clara e expansiva da abstração nas nossas sociedades e grandes cidades;

"As flutuações no preço das ações frequentemente indicam motivações subjetivo-psicológicas, que em sua crueza e movimentos independentes, estão totalmente fora de proporção em relação aos fatores objetivos...Por exemplo, assim que um grupo poderoso, por razões que nada tem a ver com a qualidade da ação, se interessa por ela, seu preço subirá; por outro lado, um grupo em baixa pode criar uma queda do preço através da mera manipulação." JAMESON 2001 página178

Enfim, não há mais estabilidade na relação entre o valor real e final de uma ação e sua representação das condições efetivas de uma empresa qualquer, numa sociedade financeirizada, onde o valor funcional foi soterrado pelo de troca, ou de especulação futura. Onde, também o meio - dinheiro e ou terra urbana - passaram a ser fins em si mesmo, promessas de realizações de um mercado futuro, que ascena com lucros exorbitantes, sem qualquer produção.

Outra citação importante de Jameson é a do livro de Giovanni Arrighi, O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo, que já foi comentado aqui nesse blog, num ensaio com o nome de O longo século XX. Arrighi mapea de forma elegante a construção da extrema volatilidade que o capital atingiu em nosso mundo contemporâneo. A incapacidade do processo de desenvolvimento econômico no nosso tempo de se fixar por um período mais longo numa determinada base geográfica, que vem se repetindo de forma recorrente. Efetivamente dos anos 70 para cá assistimos a processos de desenvolvimentos rápidos e efêmeros em diversas localidades; Tigres Asiáticos, Espanha, Brics ou Países Emergentes. Nenhum deles se mantém por muito tempo sobre sua base geográfica, preferindo migrar para localidades mais rentáveis, deixando atrás de si um rastro de destruição.

Arrighi retira a base de sua interpretação do mundo contemporâneo, da afirmação do historiador francês Fernand Braudel, para o qual; "o estágio de expansão financeira é sempre sinal de outono". Isto é, nos tres estágios cíclicos do desenvolvimento histórico do capitalismo, o primeiro é a implantação de uma base produtiva numa nova região, seguida pelo desenvolvimento produtivo da região com industrias e manufaturas, que por último culmina com a desterritorialização do capital possibilitada pela reprodução e multiplicação financeira em processos especulativos. A partir desse terceiro estágio volátil e instável, o capital tenderia a buscar nova base geográfica para repetir os três ciclos novamente. Assim, esses três estágios se repetem em diferentes bases geográficas desde o século XV na Itália configurando ciclos de desenvolvimento repetido.

Assim existiriam quatro ciclos históricos mais importantes de acumulação referenciados a bases geográficas específicas, que desembocam na tendência predominante do capital a procurar sua forma líquida ou monetária. O primeiro seria o ciclo da cidade de Gênova na Itália, e iria do século XV ao início do XVII, o segundo seria o ciclo holandês do fim do século XVI até meados do século XVIII; o terceiro seria o ciclo britânico da segunda metade do século XVIII até o início do século XX; e por fim um ciclo americano, iniciado no fim do século XIX até a nossa atual fase de expansão financeira da atualidade. Arrighi também se envolve em especulações sobre a possibilidade de migração dessa base para o Oriente, particularmente na China, a partir de alguns indícios do nosso tempo. Mas todos envolvem bases produtivas vigorosas que migraram para os serviços financeiros, tornando-se de certa forma os banqueiros do mundo, a partir da constatação de que a verdadeira flexibilidade e liberdade estava no acúmulo de moeda, e não na produção, que enfim é a que representa grande capacidade de liberdade. Arrighi historiciza a centralidade ou o maior dinamismo do sistema capitalista, reconhecendo que cada um deles desenvolveu periferias específicas e enfrenta condições particulares de aceleração ou de realização da forma monetária.

A partir dessas premissas teóricas interpretativas o texto de Jameson envereda para tentar compreender fenômenos especulativos particulares da cidade de Nova York, baseado no livro de Robert Fitch, The assassination of New York, que também não conheço. Mas, que com uma mentalidade típica da América - anti-intelectual e anti-sistêmica - explica a homogeneização do território da cidade, seja na expulsão do Distrito Tecelão do sul de Manhattan, ou na operação do Rockefeller Center, como consequências das atitudes de Robert Moses ou Nelson Rockefeller, que manipulam a visão da boa cidade na Nova York do século XX.

"Estamos em 1928 e desde então, sustenta Fitch, "até 1988 quando venderam o Rockefeller Center aos japoneses, a compreensão do que os Rockefellers querem é pré-requisito para entender o que a cidade se tornou." JAMESON 2001 página187

Jameson, então opera uma celebração da colocação de Fitch, de que indivíduos determinariam o desenvolvimento histórico, contrariando aparentemente sua filiação marxista, afinal estariamos diante de uma afirmação audaz e prometéica, onde muda-se o mundo para se acomodar um indivíduo.

"Mas pelo contrário, Fitch nos dá aqui uma demonstração clássica da "lógica do capital" e em particular daquele "ardil da razão" ou "ardil da história" hegelianos, através dos quais um processo coletivo utiliza indivíduos para seus fins." JAMESON2001 página189



Rockefeller Center em Nova York
Não conheço a fundo as particularidades do desenvolvimento do Rockefeller Center, ou da expulsão do Distrito Tecelão do sul de Manhattan, mas o Rio de Janeiro viu recentemente no seu projeto olímpico as determinações impostas pelo Doutor Carlos Carvalho Hosken para a Vila dos Atletas, no empreendimento imobiliário do Ilha Pura na Barra da Tijuca. A proposição de Jameson no texto mostra-nos como lógicas individuais e locais são operadas por indivíduos e governos concretos em cada especificidade urbana, e longe de avaliações condenatórias ou celebratórias cada cidade apresenta sua dinâmica. A questão central, me parece aqui, a transparência republicana sobre as hipóteses de desenvolvimento que todo planejamento ou projeto contém. Isto é, a explicitação do interesse público ou do Estado frente a estruturas de pressão tanto de governos, como também de indivíduos e suas conveniências momentâneas, que acabam se sobrepondo, seja pela urgência olímpica do Rio de Janeiro, ou pelas concepções familiares (Rockefeller) ou do planejador (Moses) no caso de Nova York. A pretensão de Jameson me parece a construção de uma dialética entre global e local, sistêmico e individual, que são coordenados ou acomodados na pré-figuração da cidade, onde o interesse público é recalcado em nome do particular;

“Uma concepção satisfatória de política é aquela na qual tanto o sistêmico quanto o individual são de algum modo coordenados (ou, se preferirem, para usar um slogan popular do qual Fitch faz uma paródia, na qual o global e o local são de algum modo reconectados.)” JAMESON 2001 página190

Nesse ponto Jameson se envereda por um dos temas mais polêmicos do marxismo, - a renda imobiliária e como ela recebe valor da cultura - ou as relações complexas entre infra-estrutura e superestrutura, entre totalidade e particularidade O autor então se apoia em três autores; Manfredo Tafuri, Siegfried Giedion, e Rem Koolhaas para debater o papel do estético, da arquitetura e do urbanismo, na construção de um sobre-valor. O primeiro livro é La Ciudad Americana, organizada por Francesco Dal Co, com um texto de Tafuri sobre o desenvolvimento histórico do arranha céu, que tem como título A Montanha Mágica, que faria o papel de detrator desesperançado da impossibilidade estética no capitalismo, que submete qualquer pretensão a coordenação da dinâmica da cidade para se tornar numa "ilha de especulação equilibrada". O segundo é Espacio Tiempo e Arquitectura de Giedion, que é considerado por muitos anos, como o panfleto histórico celebratório do movimento moderno, e que identifica o papel de excepcionalidade do Rockefeller Center, como um primeiro caso no contexto imobiliário, antes de sua generalização mediocrizante. E, o terceiro é Delirious New York de Rem Koolhaas, que como exemplar contemporâneo festeja a atitude de hiper concentração do manhattanismo, como uma cidade dentro da cidade, um conceito de Raymond Hood.

Jameson se distancia das análises de Giedion pela proliferação ocorrida no periodo pós Rockefeller Center (1940), afirmando que o entusiasmo modernista retrocedeu em função da perda de excepcionalidade do edifício, passando a se concentrar nas mediações propostas por Tafuri e Koolhaas. Os dois autores se concentram na intencionalidade do ato do arquiteto diante do terreno, ou antes da existência da obra, nos elementos que são manipulados nesse processo; materialidade, função, inserção urbana, centralidade, carga simbólica, etc... Enfim, o desejo ou desígnio dos autores da obra, que tomam decisões e conformam um objeto com determinadas características, que configura um ato simbólico.

"Tenho a impressão de que para Tafuri o Rockefeller Center é este último - um mero ato simbólico, que não consegue resolver suas contradições, enquanto que para Koolhaas, é o fato da ação criativa e produtiva no interior do simbólico, que é a origem do interesse estético." JAMESON2001 página198

Nesse ponto do texto, Jameson abandona o campo simbólico, e retorna ao campo da economia política clássica, afirmando que o valor imobiliário sempre colocou dificuldades insuperáveis, pois nos séculos XVIII e XIX a mercantilização das terras coletivas se processava na cidade, mas também envolvia o meio rural. O autor contrariando economistas brasileiros como Paul Singer vai afirmar que a renda fundiária e o valor da terra são estruturais para a dinâmica do capital, apenas reconhecendo que em alguns momentos se recolhem a um papel secundário, e que no nosso tempo ganham relevância como "centro da acumulação capitalista". Jameson vai recorrer a mais um livro Os limites do capital de David Harvey, para enfrentar a questão espinhosa da renda fundiária em Marx, ao final um economista político clássico do século XIX. Harvey irá formular o conceito de capital fictício para tentar compreender o paradoxo da origem do valor imobiliário, que não se origina no trabalho, ou não se restringe a ele, mas na verdade a uma espectativa de ganho colocada no futuro.

A ideia de futuro modulado e programado é cara aos urbanistas e arquitetos, que em seus planos e projetos se dedicam a reorganização estrutural do tempo, uma colonização contínua do futuro, que não por acaso se inicia com o renascimento italiano. Mas esse mesmo futuro programado assumiu uma dinâmica acelerada no nosso sistema atual, estando sempre atrás da reinvenção, ou da destruição criativa, ou ainda da obsolescência programada, trazendo um caráter efêmero para os objetos.

"Pode-se iniciar um questionamento estético mais apropriado dessas questões com uma pergunta sobre o modo através do qual 'futuros' específicos - no sentido financeiro e temporal - se tornam traços estruturais da arquitetura mais recente, algo como um arcaísmo planejado na certeza de que o prédio não terá jamais uma aura de permanência, mas carregará em seus próprios materiais a certeza eminente de sua futura demolição." JAMESON2001 página201

Aqui, claramente Jameson faz eco ao pessimismo de Tafuri, diante da aceleração dos processos capitalistas em nossa contemporaneidade, mas então ele próprio parece indicar uma solução estética apropriada, "o espaço isométrico extremo" de Mies Van Der Rohe. Na verdade, uma canibalização do livro de Charles Jencks, The New Moderns, no qual o crítico de arquitetura sistematiza uma das tendências da arquitetura contemporânea, a hiper modernidade. A espacialidade neutra, infinita e universal das formulações de Mies se transformaram na imagem do desejo das grandes corporações em nossas cidades.

"A evolução da parede de vidro 'diminui a massa e o peso enquanto enfatiza o volume e o contorno - a diferença entre o tijolo e o balão'...Sem querer abusar do argumento, parece-me surpreendente que a dimensão abstrata ou sublimação materialista do capital financeiro tenha algo da semi-autonomia do espaço cibernético." JAMESON2001 páginas202e203

Por fim, Jameson irá mencionar as histórias de fantasmas, sempre articuladas com experiências espaciais concretas como quartos, casas, bairros, marcados pela memória de eventos macabros, que tanto sucesso fazem em nossa contemporaneidade. Os fantasmas parecem fazer sucesso em função da presença de uma certa nostalgia; de tempos perdidos, do ornamento, da abstração, onde a reação mais apropriada parece para Jameson a retomada do realismo, concluindo seu ensaio.

Mas o realismo na arquitetura do começo do século XX, sintetizado pelos movimentos das vanguardas centro européias, em torno da nova objetividade (neue saslichkeit), procurava se afastar do romantismo culturalista, por uma agenda que encarava a grande cidade industrial como seu desafio. Os temas excepcionais, como os monumentos e as representações do poder eram afastados, em nome de uma celebração do cotidiano representado pela residência operária construída em massa, pelas estações dos sistemas de transportes de alta capacidade, enfim por uma arquitetura presente e operante no dia a dia. No seu programa básico, a arquitetura do realismo procurava reessencializar o construído, deixando de ser uma questão de linguagem para se transformar na essência operativa do abrigo. De certa forma o neo racionalismo italiano dos anos sessenta recolocava a mesma questão a partir do estudo dos fatos urbanos concretos, e da proposição de uma continuidade com as pré existências. A retomada da abstração tomou força com as proposições do próprio Koolhaas nos anos noventa, com a constatação de que o projeto moderno ainda era uma possibilidade em aberto, já num contexto político neo liberal, que naturalizou a especulação como forma de produzir a cidade. Mas enfim essas são outras considerações...

BIBLIOGRAFIA:
ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
DALCO, Francesco, organizador - La ciudad americana, de la guerra civil al new deal - editora Gustavo Gilli Barcelona 1975, particularmente o ensaio de TAFURI, Manfredo - La Montaña desencantada, el rascacielo y la ciudad
FITCH, Robert - The assassination of New York
GIEDION, Siegfried - Espacio, Tiempo y Arquitectura - editorial Dossat Madrid 1978
HARVEY, David - Os limites do capital -editorial Boitempo São Paulo 2013
JAMESON, Frederic - A cultura do Dinheiro, ensaios sobre a globalização - editora Vozes Petrópolis 2001, particularmente o ensaio O tijolo e o balão: arquitetura, idealismo e especulação imobiliária 
JENCKS, Charles - The New Moderns - Nova York 1990
KOOLHAAS, Rem - Delirious New York - The Monaceli Press Nova York 1994
LUHMANN, Niklas - Introdução a teoria dos sistemas -editora Vozes Petrópolis 2010
SIMMEL, Georg - A filosofia do dinheiro -

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