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domingo, 20 de março de 2016

Reflexões a partir da Casa Batló em Barcelona


A casa Batló, reforma empreendida por Gaudí sobre uma antiga construção do Passeio de Gracia. A esquerda a antiga casa e à direita a proposta de Gaudí
A casa Batló em Barcelona foi construída em 1906, pelo arquiteto Antoni Gaudí na avenida Paseig de Gracia, que ligava o antigo centro histórico da cidade (Bairro Gótico) ao então novo bairro-jardiim do distrito de Gracia. A casa Batló é fruto de uma substancial reforma de uma casa pré-existente, conforme imagem acima. Essa  avenida precede o Plano de Ildefonso de Cerdá de 1848, se constituindo num novo boulevard, inaugurado em 1821, que ligava o sítio denso da antiga cidade murada de Barcelona ao bairro jardim de Gracia. Esse bairro, então no começo do século XIX, de baixa densidade, se constituía como o local preferencial de moradia dos ricos industriais catalães, que abandonaram a insalubridade da densa cidade antiga.

A casa Batló possui uma história muito particular, construída inicialmente em 1877, com a configuração mostrada acima, por  Emilio Sales Cortes, sendo então comprada em 1903 por Josep Batló y Casanova, que contrata o arquiteto Gaudí para construir uma nova casa no lote. Gaudí contra argumenta que a casa deveria ser reformada, aproveitando partes da estrutura. A sugestão de Gaudí é aceita por Josep Batló.

Corte perspectivado da casa Batló
A casa Batló mostra desde sua primeira configuração a presença de unidades habitacionais acima dos tres pavimentos iniciais, mais próximos à cidade,  que eram destinados a locação para outros agentes, estranhos à família proprietária. Gaudí irá manter essa estrutura na sua reforma, mantendo os tres pavimentos superiores, que eram alugados pela familia Batló. Portanto os dois pavimentos iniciais, mais perto ao solo da cidade, eram os mais nobres e elaborados, o que comprova, que na passagem do século XIX para o XX, já com a presença do elevador que é disponibilizado para as unidades mais acima da casa Batló, a preferência dos extratos mais aquinhoados era pela proximidade do espaço da rua, e não pelo distanciamento dos últimos andares.

Assim, no início do século XX, o vínculo da burguesia endinheirada, ainda era com o solo da cidade, com seu burburinho e dinamismo. O desenvolvimento de uma espacialidade agressiva e insalubre no chão da cidade terá mais forte presença a partir da hegemonia dos automóveis e dos veículos dotados de pneus, ocorrida ao final da segunda grande guerra. O concomitante desenvolvimento do elevador, como uma máquina mais segura e confortável, articulado com esse declínio da rua produzido pelos automóveis acabou determinando uma maior valorização das unidades mais distantes do solo da cidade.

Por outro lado, o modernismo catalão, que baliza a casa Batló e o ideário de Gaudí celebra uma certa artesania, olhando de forma desconfiada para o industrialismo, a padronização e a produção em massa determinada por ele. A casa Batló, assim como La Pedrera no mesmo Passeig de Graciá e a Catedral da Sagrada Familia, - todos desenhados por Gaudí - encaram o processo de construção como uma oportunidade para expressão dos diversos artesãos comandados pelo arquiteto.

Há uma certa celebração, ou retorno nostálgico aos procedimentos construtivos medievais, típicos dos escritos de Ruskin e Morris do movimento Arts and Crafts na Inglaterra, ou os de Eugène Viollet-le-Duc na França, ou ainda os de Richard Wagner, sobre a obra de arte total. Segundo o historiador de arquitetura Kenneth Frampton, o movimento do modernismo catalão articulava uma expressividade local com o racionalismo estrutural proposto no Entretiens sur l´architecture de Violet-le-Duc (1863-72), contidos em suas aulas na École des Beaux-Arts.

O que me parece importante destacar no modernismo catalão é sua especificidade, apontando para nós a diversidade do movimento moderno, que mais tarde será hegemonizado pela Bauhaus e pelas vanguardas centro-européias. 


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