segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mais uma casa da série: casa para uma familia (casa de vila em encosta)

Mais um exemplar da série de casas para uma familia, da qual esta é a quinta publicada, com o mesmo programa, isto é os mesmos compartimentos. Agora num terreno diferente da última casa, que também era uma vila, ainda urbana, mas agora em uma encosta, com um declive em relação a rua. Com a proposta da implantação de uma vila, conformando um conjunto articulado de 10 casas. É a primeira da série que apresenta os desenhos coloridos, o que certamente potencializa a compreensão da proposta.  A idéia desta série de casas, que pretendo publicar neste blog exorciza algumas hipóteses que convivem comigo há muito tempo, assim como escreveu Lucio Costa no memorial para a cidade de Brasilia; "apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada, mas surgiu..."

Planta de Situação da vila, mostrando 9 casas de sala 2 quartos
e uma de sala tres quartos. A vila não possue acesso de veículos,
sendo de pedestres
A casa é a materialização da familia no espaço. A casa urbana individualizada no terreno é a representação do modus operandi da familia. A casa de vila, que apresento nesta série é fruto da percepção de uma familia da apropriação da valorização da terra urbana na cidade com a densificação. A familia para viabilizar seu sonho constroi uma vila, que disponibiliza e compartilha com outras familias, que compram e compartilham um modus operandi presente na cultura citadina brasileira. A partir desta apropriação da densificação a familia consegue viabilizar seu sonho, de ter uma casa. As casas são padronizadas e repetidas, otimizando os procedimentos de sua construção, nove casas são de sala e dois quartos, enquanto apenas uma repete o programa das outras casas anteriores, conformando o conjunto de dez casas. As casas possuem uma inserção urbana no microcosmo da vila, buscando ao mesmo tempo se inserir no conjunto e também se individualizar. Há uma clara valoração do conjunto de casas que forma um todo, onde a coletividade e a individualização da familia elegem uma forma de vida mais integrada ao conjunto. Ao contrário da vila anteriormente publicada, esta não permite o acesso de carros às soleiras das casas. Há uma construção junto a rua que faz o papel de garagem de carros, abrigando dez veículos. A vila é portanto território de pedestres, o que amplia o potencial da área pública de se configurar como um local de intenso uso pelas crianças.


Planta e Fachada da casa de sala tres quartos, que se desenvolve
em tres pavimentos


Planta e Fachada de um conjunto de tres casas de sala e dois
quartos
Esta forma de construir sua própria casa oferece resposta a uma série de questões presentes na cidade brasileira, como; segurança, densificação no território, pulverização da apropriação da renda urbana, etc...




Perspectiva mostrando o conjunto conformado por duas casas de sala/dois quartos e a casa maior de sala/tres quartos


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Seminário do IAB Q+50 em Belo Horizonte discute Mobilidade Urbana - resumo do sábado, dia 20 de julho de 2013

Foi realizado em Belo Horizonte mais um seminário da série Quitandinha +50 do Instituto dos Arquitetos do Brasil, que comemora os cinquenta anos do legendário encontro realizado no hotel em Petrópolis em 1963, que debateu a Reforma Urbana, dentro do contexto das reformas de base que mobilizava o país. Desta vez o Q+50 discutiu sobre Mobilidade Urbana, tema que vem mobilizando uma série de manifestações pelo país que lutam por melhor qualidade de vida nas nossas cidades.

A arquiteta Angélica Alvim, Pedro da Luz, Jupira Gomes de
Mendonça e o engenheiro Luiz  Octavio Portela
O encontro se iniciou na sexta feira dia 19 de julho na escola da Assembléia Legislativa, e seguiu no sábado na sede do IAB-MG, com uma mesa institucional que reuniu Rose Guedes presidente do IAB-MG, Haroldo Pinheiro presidente do CAU-BR, Joel Campolina presidente do CAU-MG e Amélia Maria da Costa e Silva presidente do SINARQ, que apresentaram os desafios para as cidades brasileiras no campo da mobilidade. Logo após o encontro reuniu as arquitetas Angélica Alvim da Escola de Arquitetura da Mackenzie em São Paulo, a arquiteta Jupira Gomes de Mendonça da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, e o engenheiro da TENPRO Luiz Octávio Silva Portela. Após as tres apresentações foi realizada a palestra do engenheiro catalão Manuel Herce, que abordou o tema Mobilidade Urbana, grandes eventos e direito à cidade. Depois da palestra a mesa foi recomposta com os quatro participantes mediados por mim, o arquiteto Pedro da Luz Moreira.

A arquiteta Angélica Alvim iniciou sua apresentação destacando a capacidade dos sistemas de transportes públicos de induzir a ocupação do território. Para a arquiteta a hegemonia do modelo rodoviarista da cidade brasileira induziu um modelo de ocupação do território disperso e esgarçado. A arquiteta fez também uma importante reflexão sobre as diversas escalas do desenho, a partir da ideia dos desenhos do mapa e da via. Angélica também destacou que a referência para aferir qualidade nos sistemas de transportes nas nossas cidades deve ser regulado pela compreensão do usuário, que envolve o tempo e o preço.

A arquiteta Jupira Gomes de Mendonça destacou a elaboração do Plano Metropolitano de BH elaborado a partir da coordenação do professor Montemor da EAU-UFMG, como um procedimento integrado, interdisciplinar e participativo, que formulou a ideia de uma cidade policentrada e ao mesmo tempo compacta. A arquiteta também destacou a dimensão territorial do plano, que se estrutura a partir de quatro objetivos a serem alcançados; acessibilidade, seguridade, urbanidade e sustentabilidade. A professora da EAU-UFMG também apresentou uma importante reflexão sobre a segmentação instalada no Ministério das Cidades, que subdivide em setores como; habitação, saneamento, infraestrutura, mobilidade etc..., fragmentando o urbano em lógicas e ações, que deveriam estar reunidas.

O engenheiro Luiz Octávio da SENPRO apresentou a ideia de que o chão da cidade está cheio e saturado, propondo a instalação de um sistema de monotrilho elevado. A proposta foi qualificada pelo engenheiro como viável pelos seus custos, pela velocidade de sua implantação e por sua capacidade de adaptação a diferentes contextos.

Arquiteto Pedro da Luz e o engenheiro Manuel Herce
Por fim o engenheiro catalão apresentou sua palestra denominada Mobilidade Urbana, grandes eventos e direito à cidade. A apresentação destacou a presença do carro nas cidades contemporâneas, como fator de degradação de seu espaço público e da sua capacidade de promover a reunião de seus cidadãos. O mito da modernidade, que cultua a máquina e o individualismo acabou gerando exclusão e dispersão na ocupação do território da cidade. Para o engenheiro catalão é fundamental atuar de forma articulada promovendo três ações concretas e interdependentes; melhorias no transporte público, desestímulo ao carro e apoio ao caminhar do pedestre. O solo da cidade precisa ser qualificado dando todo o conforto ao caminhar do pedestre, que deve enquadrar os padrões de exigência do rodoviarismo, submetendo-o a uma matriz de prioridades.

A partir destas colocações o público presente ao evento questionou os palestrantes em uma série de aspectos. Dentre os quais, destaco a questão colocada pelo arquiteto Demetre Anastassakis, que sublinhou algumas especificidades do desenvolvimento brasileiro, que produziu a emergência de uma nova classe média que alcança o consumo de alguns bens, como o carro particular, e não pode ser desconsiderada de forma excludente e elitista.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Matéria no Estado de Minas de ontem dia 21 de julho de 2013 sobre o Q+50 Mobilidade Urbana em BH

http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/07/21/interna_gerais,425718/transporte-publico-e-pauta-de-evento-na-capital.shtml

omingo, 21 / julho / 2013 | Caderno - Gerais
Transporte público em pauta


Todos os dias, Sérgio Coelho, de 33 anos, se desloca do Coração Eucarístico, na Região Nordeste de Belo Horizonte, até o Santo Agostinho, no Centro-Sul. Pegando o metrô e caminhando cinco quilômetros, ele gasta 30 minutos no percurso até o trabalho. De carro, com o caos do tráfego da capital, ele levava uma hora para chegar ao destino. “O ideal seria ter metrô até a Savassi e a Pampulha”, ressalta, justificando que não gosta de pegar ônibus porque eles demoram a passar. Já a vizinha de bairro, a advogada Luzia Fernandes dos Santos, de 37, prefere ir de carro até o Bairro de Lourdes, onde trabalha, porque os coletivos são poucos e estão sempre lotados. “Os usuários pagam caro por um transporte sem qualidade. O metrô é até bom, mas não vai aonde eu trabalho”, acrescenta.

Ambos engrossam o coro popular de insatisfação com o transporte público, que foi o estopim para as manifestações que ocorreram em todo o país no mês passado. Ontem, eles conheceram e aprovaram o ônibus do BRT durante um evento na Praça da Assembleia. Com o tema Mobilidade Urbana, a iniciativa foi promovida pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e reuniu representantes da BHTrans e da Polícia Militar.

 A ideia, segundo Rose Guedes, presidente do Departamento de Minas Gerais do IAB, era garantir uma maior participação popular e um espaço democrático para o diálogo com a comunidade sobre a construção de cidades sustentáveis. Um microfone estava disponível em uma tribuna popular para quem quisesse se manifestar. Francisco Maciel, secretário geral da Associação de Usuários de Transporte Coletivo da Grande BH (AUTC), usou o espaço. Ele ressaltou que a AUTC defende a prioridade do coletivo sobre o individual. “É preciso que as vias sejam mais dedicadas ao ônibus do que ao carro, que tenha pedágio urbano dentro do limites da Avenida do Contorno, rodízio de placas e proibição de estacionamento em áreas centrais”, diz.

Pedro da Luz Moreira, arquiteto da diretoria do IAB nacional, diz que a mobilidade significa o acesso a uma melhor oportunidade na vida. O arquiteto, assim como Francisco Maciel, acredita que as cidades erroneamente continuam investindo em obras pensadas na cultura do carro, do indivíduo, em detrimento do coletivo.

SOLUÇÃO SIMPLES Ainda na programação do sábado, foi realizada na sede do IAB-MG, no Bairro Cruzeiro, uma mesa-redonda com os arquitetos Angelica Alvim, Jupira Mendonça e José Abilio Belo sobre o tema Mobilidade, projeto e cidade-metropolitana. Manuel Herce, professor da Universidade Politécnica da Catalunha (Espanha), apresentou uma conferência. Para ele, a solução para o trânsito das cidades é simples: investimento em transporte público.

Seminário do IAB Q+50 em Belo Horizonte discute Mobilidade Urbana - resumo da sexta feira dia 19 de julho de 2013

Foi realizado em Belo Horizonte mais um seminário da série Quitandinha +50 anos do Instituto dos Arquitetos do Brasil, que comemora os cinquenta anos do legendário encontro realizado no hotel em Petrópolis em 1963, que debateu a Reforma Urbana, dentro do contexto das reformas de base que mobilizava o país. Desta vez o Q+50 discutiu sobre Mobilidade Urbana, tema que vem mobilizando uma série de manifestações pelo país que lutam por melhor qualidade de vida nas nossas cidades.

O encontro se iniciou na sexta feira dia 19 de julho com um quadro institucional dos transportes na cidade de Belo Horizonte. Logo após foi composta uma mesa com os arquitetos Vicente Loureiro, Demetre Anastassakis e o engenheiro Zenilton Kleber Gonçalves. Após as tres apresentações foi apresentada a palestra da arquiteta Valeska Peres da ANTP, Projetos de Mobilidade Urbana, atribuição dos arquitetos. Depois da palestra a mesa foi recomposta com os quatro participantes mediados por mim, o arquiteto Pedro da Luz Moreira.

Arquiteto Demetre Anastassakis apresenta suas provocações 
no Seminário Q+50
A palestra de Vicente Loureiro chamou a atenção para a extensão da malha de trens urbanos da cidade do Rio de Janeiro, equiparando em tamanho a outras cidades importantes pelo mundo. Apesar deste tamanho a malha de trens transporta apenas 3% da população da cidade metropolitana, o que contraposto aos 57% que usam o sistema de õnibus, demonstra muito da falta de confiança da população do Rio de Janeiro no sistema. Vicente também anunciou que está formulando com o IAB-RJ um Concurso de Idéias para qualificar o sistema de trens metropolitanos da cidade metropolitana do Rio de Janeiro.

Logo após houve a apresentação do engenhero Zenilton Gonçalves, que enfatizou que o problema dos transporte público nas cidades brasileiras não se restringem a uma incapacidade inventiva, mas a uma forte carência de gestão do sistema. Zenilton enfatizou que a gestão do sistema atual deve ser operada, procurando otimizar seu funcionamento buscando padrões de conforto para o cotidiano da população usuária. O Engenheiro da MP engenharia também enfatizou a ideia de que o planejamento do setor deve enfrentar o desafio de ser ao mesmo tempo; participativo, integrativo, multimodal, com gestão compartilhada e de forma inter disciplinar.

A apresentação do arquiteto Demetre Anastassakis reinvindicou que o urbanismo assuma seu caráter de coordenador do território urbano, conciliando diferentes agentes e atores urbanos pelo desenho da cidade. O arquiteto também assinalou a capacidade que os sistemas de mobilidade das cidades possuem em induzir a ocupação do território, articulando diferentes fenômenos como valor da terra, densidade, atração de atividades, desenvolvimento econômico, etc...

Por último, a arquiteta Valeska Peres defendeu a necessidade de diminuir as demandas por deslocamentos em nossas grandes cidades, aproximando moradia de trabalho/escola. A arquiteta também assinalou que o fenômeno da hegemonia populacional urbana frente a população campesina é recente, gerando uma série de problemas que permanecem sem solução.

A partir destas colocações o público presente ao evento questionou os palestrantes em uma série de aspectos. Dentre os quais, destaco a questão colocada pelo Movimento do Passe Livre, que alegou que o subsídio governamental deveria abandonar a industria automobilística e incentivar os modais de transportes de alta capacidade.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Debate sobre a Operação Urbana Consorciada (OUC) de Niterói no IAB-RJ

Apresentação da OUC de Niterói
Foi realizado na última segunda feira dia 15 de julho de 2013 um debate sobre a Operação Urbana Consorciada (OUC) do centro da cidade de Niterói na sede do IAB-RJ. Certamente um tema que interessa a cidade metropolitana do Rio de Janeiro de forma geral. A apresentação da Secretária de Urbanismo, Verena Andreata deixou claro que a Prefeitura de Niterói não possui um desenho de cidade que pretende ser alcançado no futuro. A proposição de indices de aproveitamento de terrenos (CEPACs) também impõe um modelo que celebra a torre individualizada, pois os investidores compram potencial construtivo de um terreno isolado, esquecendo das adjacências desta parcela. A falta de definição com relação ao sistema viário, ao modelo de quadra, a massa construída, aos modais de transportes demonstram a incapacidade da proposta de controle sobre o futuro da cidade. Particularmente na questão do transporte público, no transbordo de modais - barcas/ônibus ou barcas/futuro metrô (linha 03) - fica clara a omissão da proposta, que parece fragmenta realidades, se restringindo de forma apressada a oferecer apenas potencial construído, sem conectar com o transbordo de modais, o desenho das quadras, o gabarito, o desenho das ruas, etc...

Nessa condição a arquitetura e o urbanismo passam a ser um exercício de fragmentação de ações, que tendem a construir um cenário que interessa a muito poucos...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Seminário Q+50 em Belo Horizonte sobre Mobilidade Urbana

Prezados, será realizado agora em Belo Horizonte o seminário Quitandinha +50 sobre Mobilidade Urbana nos dia 19 e 20 de julho de 2013. Esta é a quinta edição da série de Seminários Q+50, que comemora os cinquenta anos do histórico Seminário realizado no Hotel Quitandinha em 1963 sobre a Reforma Urbana. O tema de Belo Horizonte entrou definitivamente na pauta dos governantes devido as manifestações das ruas durante a Copa das Cofederações. A Mobilidade Urbana corresponde a um dos itens mais importantes para ampliação da qualidade de vida nas cidades brasileiras. Já foram realizados quatro seminários:

Rio de Janeiro - Arquitetura, Cidade e Metrópole, Democratizar Cidades Sustentáveis,

Rio Grande do Sul - A moradia brasileira

São Paulo - A Gestão das Cidades

Brasilia - Espaço público: Cultura Patrimônio e Cidadania

As próximas edições estão programadas para acontecer até o final do ano de 2013 em:

Salvador - Esvaziamento dos Centros,

Manaus - A Amazônia Urbana

Ceará - Metrópoles e Redes de Cidades

terça-feira, 16 de julho de 2013

Doze Anotações sobre Alvaro Siza do cliente Nuno Higino

Expo Lisboa de Alvaro Siza
Na homenagem dos oitenta anos do arquiteto Alvaro Siza, o cliente Nuno Higino faz um belo relato sobre o modus operandi do grande arquiteto português. Particularmente, os itens 4 sobre o olhar e 5 sobre o canteiro de obras mostram esta forma de conceber em eterno processo. 

Quando Siza esteve por aqui, no teatro do Niemyer em Niterói descrevendo o processo de concepção da porta da Expo Lisboa, ele também explicitou esta sua pesquisa muito particular. Naquela exposição ficou claro como a partir da interação com seu calculista, Siza chegou a formulação do edifício da Expo de Lisboa. Incrivel como havia ali um enorme esforço para desmistificar o processo de concepção de projeto, qualificando-o como um desenvolvimento de uma interação muito particular, a partir de uma conversa num café com o engenheiro. Em contraposição ao nosso arquiteto Oscar Niemyer percebe-se uma imensa diferença, enquanto um apresentava uma premissa meio idealizada - as curvas da mulher brasileira ou as montanhas do Rio de Janeiro - o outro reforça que o processo criativo é fruto da transpiração, mobilização, interação e da concentração em torno de um tema.

Expo Lisboa de Alvaro Siza
O item 7 também relembra, não sei se itencionalmente, uma passagem recorrente das palestras do Oscar Niemyer, a que ele mencionava a catedral de Notre Dame em Paris. Na qual, ao adentrar a sua nave sentia que sua alma, de um materialista histórico, se ajoelhava a sua revelia. O item 11 mostra muito do silêncio e uma certa melancolia que a obra de Siza nos transmite. Concordo com o Nivaldo Andrade da Bahia, que este emsmo item 11, critica um pouco da nossa situação contemporânea sobre carregada de textos e de explicações...

Enfim,vale a pena ler as doze anotações e visitar as obras de Siza...






Igreja de Santa Maria
1 Por mais voltas que lhe demos, a nossa cultura nunca deixará de ser platónica no sentido em que, para nós, conhecer significa recordar-se. E, portanto, toda a vida é um processo de reconstrução. Siza gosta de dizer que, em arquitectura, ninguém inventa nada. É uma outra forma de dizer o mesmo.

2 Não sei muito sobre História mas suspeito que nunca, como hoje, se falou tanto na diferença e nunca tudo foi tão igual. Até na arquitectura. Querer obsessivamente ‘marcar a diferença’ representa, em geral, o caminho mais curto para a repetição.


3 A diferença entre a boa arquitectura e a má ou assim-assim é que a boa arquitectura copia sem repetir e a ‘outra’ repete ao copiar.

4 Tudo começa nos olhos. Siza costuma falar na necessidade de aprender a olhar. E na importância de viajar. A arquitectura educa o olhar e educa-se no olhar. Só quando se olha muito e bem se começa a vislumbrar o essencial. Sempre Platão…
  
5 Recordo-me das visitas de Siza à igreja do Marco durante a construção. Mal chegava, olhava. Percorria a obra, sozinho, e olhava. Às vezes media com as mãos. Depois de olhar, pausadamente, e de medir com as mãos, reunia a equipa: colaboradores do gabinete, técnicos das especialidades, encarregado geral, fornecedores, dono da obra.

6 Ao longo do processo, Siza foi-se descosendo: ‘Fui visitar La Tourette’, ‘fui visitar o convento de Barragán’, ‘fui visitar a capela de Vence’, ‘fui visitar uma igreja no sul de Itália’. E quantas outras não terá visitado ao longo do processo e da vida!

7 ‘Numa delas – disse-me, mas já não me recordo em qual. Ou se não me disse, sonhei – entrei e ajoelhei-me. Não podia fazer outra coisa’. Eu compreendo, Siza.

8 Nunca me apercebi se alguma vez, ao entrar na ‘sua’ igreja, caiu de joelhos, por não poder fazer outra coisa. Estou convencido que se o fez, fê-lo discretamente. E se não o fez, foi por modéstia.

9 Poucos dias depois da inauguração (ou sagração, como preferem dizer os peso-pesados do sagrado) Siza entrou e começou a percorrer o espaço, como sempre fazia. Acendeu um cigarro. Com o primeiro fumo atravessado na garganta, saiu na direcção da porta e deitou o cigarro fora. ‘Esqueci-me que agora já não se pode fumar aqui!’

10 Eu sorri. Não faço ideia do que lhe respondi, se é que respondi alguma coisa. Hoje, ao recordar o episódio, ocorre-me o poema ‘Irene entrando no céu’, de Manuel Bandeira: ‘Entra, Irene, você não precisa pedir licença’.

11 Siza nunca explicava tudo, o que, não raras vezes, era um grande incómodo porque obrigava a pensar. E não era por não saber. Ou seria. Eu julgo que ele não explicava tudo por respeitar a inteligência das pessoas.

12 A virtude do mestre é ditar o silêncio. Ditá-lo como se dita um texto a quem está a aprender a escrever. Com todas as pausas necessárias.

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