segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A Europa Central, um importante ponto na cultura arquitetônica no fim do século XIX e começo do XX

A Antiga Muralha Renascentista de Viena, que será
substituída pela Ringsstrasse

A cidade de Viena capital da Áustria é uma importante referência na Teoria e História da Arquitetura na modernidade, compondo aquilo que muitos da área da historiografia classificam como as vanguardas centro-europeias, ou a região denominada em alemão como Mitel-Europe. A cidade não é a capital dessa imensa região, mas é uma de suas mais expressivas centralidades no período de meados do século XIX até o entre guerras, na qual circulam, se exilam, ou simplesmente a visitam para conferências e exposições, uma miríade de personalidades. Um amplo território, que envolve a Alemanha, a Holanda, a Áustria, a Rússia, a Polônia, a Hungria e a Tcheco Eslováquia, que assiste a um enorme florescimento de personalidades marcantes nos campos das artes, da arquitetura e do pensamento que irão determinar, a revolução da modernidade. Área dominada por uma cultura eslavo-germânica, que pode ser encarada como periférica e então emergente, e em contraste com a cultura hegemônica da Europa, dominada por um certo classicismo romano, franco e anglo saxão. Viena irá produzir em seu território intervenções urbano arquitetônicas de grande expressão e gerará reflexões teóricas de grande importância.

O Plano da Ringsstrasse, que é implantado sobre a antiga
Muralha Renascentista de Viena.

Particularmente esse período de meados do século XIX até o entre guerras foi de grandes manifestações teóricas, projetos, construções realizadas e pensamentos notáveis. A cidade de Viena possui uma rica história politica nesse mesmo período, na qual se confrontam posicionamentos, numa ordem que se inicia por governos liberais de meados do século XIX até 1919, que são sucedidos por administrações social democratas, de 1919 a 1934, naquilo que viria a ser conhecido como "A Viena Vermelha", e por fim, A Guerra Civil Austríaca, vê a ascensão do Nacional-Socialismo e a anexação da Áustria a Alemanha, pelos fascistas de Hitler. Apenas se restringindo ao campo das ideias de Arquitetura e Urbanismo, pode-se iniciar com Gottfried Semper (1803-1879), Otto Wagner (1841-1918), Camillo Site (1843-1903), Joseph Hoffmann (1870-1956), Joseph Maria Olbricht (1867-1908), Adolf Loos (1870-1933) e Karl Ehn (1884-1957). Nem todos arquitetos austríacos, mas conectados a cidade de Viena, por algum motivo, e que assim como Berlim, Moscou, São Petersburgo, Amsterdan, Varsóvia, Budapeste e Praga, que de alguma forma também despontavam no novo círculo, como a novidade cultural.

As condições da classe trabalhadora em
Viena eram muito precárias, por volta de
1910 com condições semelhantes as favelas.

Essas cidades apresentaram um crescimento explosivo no período recebendo aquilo que se convencionou chamar, como as novas demandas arquitetônicas e urbanísticas da intensa urbanização, característica da modernização capitalista, que se expandia nessa parte da Europa. Demandas tais como; complexas redes de infraestrutura diversificadas, como sistemas de transportes de massa, redes de saneamento de coleta de resíduos sólidos, moradia coletiva e social, novos bairros habitacionais e industriais. Amplia-se de forma dramática o abandono do campo e a migração para as grandes capitais e cidades industriais, que invariavelmente apresentam problemas habitacionais sérios. Nada disso, por volta de 1800, fazia parte dos temas enfrentados pelo campo da arquitetura e do urbanismo, seja como exercício acadêmico ou projeto profissional. Em 1850, as demandas sobre as administrações públicas, arquitetos e populações passaram a ser de cunho social no sentido de garantir uma cidade mais inclusiva e com qualidade de vida mais distribuída. Foram essas demandas, que se lastreavam no crescimento explosivo das cidades nessa região da Europa, determinando que arquitetos e urbanistas buscassem conhecimentos e embasamentos teóricos, críticos e metodológico, que apoiassem suas proposições. A Questão da Habitação, como colocada por Engels descrevendo as condições insalubres das cidades inglesas desde o início do século XIX chegavam a Viena, e a toda essa região determinando a emergência de leis de cunho reformista que garantissem o acesso a moradia ao precariado. Como afirma, Jean Louis Cohen em seu livro, "O futuro da arquitetura desde 1898";

“As transformações na arquitetura não se limitaram à invenção de programas para atender a novas demandas da produção e do consumo. O campo da arquitetura também ampliou com a sua mudança de escala e, sobretudo, com o aparecimento de novas classes de usuários. A arquitetura deixou de. ser uma disciplina exclusivamente a serviço dos ricos e passou a se dirigir a clientelas mais variadas, como municipalidades, associações e um extenso leque de grupos sociais. Além disso, ela foi afetada pela ruptura com os códigos clássicos, pela rejeição da imitação historicista e pela introdução de novos materiais. Suas relações com a tecnologia, com as artes e com a cidade viram-se alteradas por condições externas e internas. E, por vezes, a arquitetura recorreu a fontes externas à sua disciplina, adotando metáforas baseadas em organismos biológicos, em máquinas ou na linguagem; em outras ocasiões, buscou inspiração nas suas próprias tradições disciplinares. Em vista de todas essas transformações, foi impossível restringir a definição de arquitetura neste livro, apenas a obras construídas. Também foram levados em conta projetos não realizados, bem como livros, revistas e ações públicas que dão corpo à cultura arquitetônica em seu sentido mais amplo. Com efeito, os prédios que estão diante de nossos olhos fundamentam-se. sempre em ideias, narrativas e memórias reprimidas de outros projetos.” COHEN, 2013, pág.10

O emblemático quadro romântico de Eugenie Delacroix,
A Liberdade guia o povo,  de 1830 também representa
as pretensões universalistas da Revolução Francesa.

A abordagem de Jean Louis Cohen me parece interessante, pois nos dá a real dimensão do plano, projeto e do desenho, e não apenas das obras concluídas, mas encara essas manifestações como aspirações, como representações do desejo de vir-a-ser de uma época e de um lugar, a partir das perspectivas abertas pelas transformações sociais profundas, que a Revolução Industrial gerou na sociabilidade. Essa região foi também o local de uma manifestação que é considerada muito importante, o Romantismo germânico, que pode ser resumido de uma maneira algo reducionista, como uma reação às tendências universalistas do Iluminismo e do Classicismo. Ainda no século XVIII, começa a emergir um estado de espírito no ocidente, que se rebela contra as teses generalizadoras e universalistas, afirmando a presença do específico e do particular e da necessidade de reconhecimento dos voos inexplicáveis do gênio incontrolável. Esse espírito, de certa forma chega até nós com a celebração contemporânea da alteridade específica de cada cidadão, que impulsiona nossa ansiosa busca por raízes particulares. O autor Isaiah Berlin, no seu livro Raízes do Romantismo, que volta e meia se apresenta como dentro de uma grande perplexidade para tentar definir o movimento, retrocedendo a eras passadas muito antigas. Berlin menciona Maomé, a cultura judaico-cristã, em contraposição a antiguidade clássica grega, mas também Platão, Plotino e Heliodoro como atitudes e posicionamentos românticos que retrocedem a tempos muito primevos, onde existiam sementes do espírito romântico, que segundo ele apenas se constituirá no século XVIII na cultura germânica, na Europa Central; 

"O Barão Seillière, que escreveu extensamente sobre o assunto, cita Platão e Plotino, e também o romancista grego Heliodoro e muitas outras pessoas que, em sua opinião, eram escritores românticos. Não desejo entrar nessa questão - talvez seja verdade. O tema de que eu, pessoalmente, devo tratar é confinado no tempo. Não quero tratar de uma atitude humana permanente, mas de uma transformação especial que ocorreu em um dado momento da história e que nos afeta ainda hoje. Assim, proponho confinar minha atenção ao que se passou no segundo terço do século XVIII. E se passou não na Inglaterra nem na França, mas sim em sua maior parte, na Alemanha.[...] E, vem então uma súbita invasão, aparentemente inexplicável. De repente há uma violenta erupção de emoção, de entusiasmo. Surge um interesse pelos edifícios góticos, pela introspecção. as pessoas subitamente se tornam neuróticas e melancólicas; passam a admirar os voos inexplicáveis do gênio espontâneo." BERLIN, 2015, pág.29

O quadro do pintor romântico alemão Caspar
David Friedrich (1774-1840), mostra o 
indivíduo diante das forças da natureza;
"O Caminhante sobre o mar de névoa" 1818 

A região de eclosão e maior expressão do Romantismo é de certa forma a Europa Central, pois no século XVIII a Alemanha ainda não existia, apenas a Prússia, o Império Austro Húngaro, a Polônia e a Rússia. Importante salientar, que há autores que ligam o movimento Romântico a emergência da xenofobia e do fascismo, exatamente na sua celebração da alteridade e do específico em cada humano, o individualismo exacerbado. Mas também, há os que conectam às três revoluções; "a industrial na Inglaterra, a política na França e a social e econômica na Rússia" BERLIN, 2015, pág.15 ao Romantismo. O fato é que a importância que nossa contemporaneidade dá ao respeito a alteridade específica de cada indivíduo vem desse tempo, a afirmação recorrente da especificidade e a recusa dos discursos universalistas está alicerçado nesse movimento, que governa corações e mentes desde então. E, que de certa forma representará a cultura germano eslava em sua emergência, no contexto da Europa dominada por uma expressão ítalo, franco e inglesa, de se expressar como uma especificidade particular e única. Há uma exacerbação do papel do indivíduo frente as forças naturais e sociais, como um demiurgo genial, que se manifesta de forma inesperada mudando o mundo. O próprio Karl Marx (1818-1883) é muitas vezes considerado um romântico por alguns autores, pela sua celebração da revolução, ou um iluminista e universalista, pelo discurso contido no Manifesto Comunista; "Operários do mundo uni-vos." Nesse contexto, torna-se importante destacar alguns arquitetos que com suas obras ou com suas considerações teóricas fizeram reflexões importantes para o campo do espaço construído pelo homem, seja nas cidades ou no campo.

A Semper Ópera em Dresdem, na Alemanha e a didática
separação programática de seus ítens funcionais;
Foyer, Plateia e Palco

O arquiteto prussiano Gottfried Semper (1803-1879), autor da emblemática Ópera de Dresden, conhecida também como Semper Ópera, que é uma forte referência teórica em campos variados da cultura e das artes. O edifício da Semper Opera é uma composição didática na estratificação dos ítens do programa de um teatro dessa natureza, os volumes do Foyer, da Plateia e do Palco se mostram externamente, mostrando-nos de forma doutrinária a interação entre esses 3 usos ou funções. A edificação, inaugurada em 1841, sofreu dois sinistros notáveis; um incêndio em 1869, quando Semper se encontrava exilado da cidade, devido seu envolvimento nas rebeliões de 1849. E, outro em 1945 devido aos bombardeios dos aliados sobre a cidade universitária de Dresden, que não encontrava justificativa razoável, pela ausência de infraestruturas industriais que sustentasse a máquina de guerra do III Reich.  Semper conviveu com figuras da grande importância cultural, como o músico Richard Wagner (1813-1883) e os arquitetos Karl Friedrich Schinkel (1781-1841) e Violet-Le-Duc (1814-1879). Entre 1855-1871 cursou o Politécnico de Zurique, defendendo importante tese com o título, Der Still in den technische und tektonische Küntten, algo como, O estilo nas artes técnicas e tectônicas, que enfatiza a conexão entre materialidade construtibilidade e expressão na arquitetura, além de um funcionalismo estruturante. Logo em seguida, escreve um ensaio entitulado, Das Prinzip der Bekleidung, ou O princípio do Revestimento, no qual aborda a diferenciação entre estrutura e vedação, sempre a partir de uma lógica construtivista. Semper conviveu com a emergência do aço, como material estrutural das construções que realizava, em função do historicismo e ecletismo imperante, sua forma de compor já começa a denotar o impacto dessas materialidades, no ato de construir. Em 1871 é chamado a Viena, onde realiza o Burgtheater no recém inaugurado boulevard da Ring Strasse, que confere a Viena ares Parisienses.


Outro notável arquiteto vienense é Otto Wagner (1841-1918), que será responsável pelo projeto e realização da obra do Metrô de Viena, realizado entre os anos 1894 e 1901 será uma obra de 80Km de extensão de trilhos, 40 Estações, 15 pontes e viadutos. Logo depois do anel viário de contorno de 1860, obra já mencionada, que se realizou sobre a destruição da antiga muralha renascentista da cidade, e circundou com um boulevard, o antigo casco histórico medieval, a Ring Strasse. Otto Wagner desenhará o conjunto de linhas do Metropolitano de Viena, mas também a arquitetura de suas estações, além de uma série de obras de engenharia, como pontes, passagens de nível e passarelas. O Metrô de Viena é um exemplar notável, no que se refere a construção de uma legibilidade sistêmica para a cidade,

o desenho único de um arquiteto, traz para o usuário de qualquer tempo uma compreensão do sistema de forma unificada e coerente. Portanto, será o Metrô de Viena, que pode ser considerado ainda hoje uma obra estruturante referenciada a Grande Cidade, a Grossstadt, a explosiva metrópole industrial, que ficará sobre sua articulação. A estruturação do sistema de transportes públicos a partir de uma sensibilidade Art Nouveau, a qual Otto Wagner estava filiado, e que
O Metrô de Viena e sua
linguagem única dada pelo
desenho de Otto Wagner

confere ao sistema uma compreensão imediata, mesmo aos visitantes estrangeiros de primeira visitação. Em 1911 realiza o plano regulador de Viena subdividindo-o em 2 Sistemas; um referente a parte pré-existente, e outro referenciado a sua expansão, que considerava num prazo de 30 anos, que a população dobraria de tamanho, duplicando o número de seus habitantes. Numa obra com marcada transição entre os estilos historicistas e ecléticos e o Art Nouveau, a obra de Otto Wagner nos mostra o imenso prestígio que o ofício já teve na reestruturação de uma transformação sistêmica e total da grande Viena, como o Metrô e o Plano Regulador de Viena. O arquiteto Otto Wagner irá constituir aquilo que é conhecido como Wagner Schule, que formará importantes arquitetos como Joseph Hofmann e Joseph Maria Olbricht que lançarão o movimento da Secessão Vienense.

"A alusão à tradição, ao sentimentalismo, ao aspecto pitoresco, etc., como base para a habitação do homem moderno, perdeu simplesmente a sua atualidade diante dos gostos de hoje. O número de habitantes das grandes cidades que preferem desaparecer na multidão como um "número" é consideravelmente maior do que o daqueles que desejam ouvir, diariamente, um "bom dia" ou um "como dormiu?" por parte dos vizinhos hipócritas que cercam as suas residências particulares." Otto Wagner, Die Grossstadt, 1911 - FRAMPTON, 1981, pág.119

Seguindo é importante mencionar, o arquiteto e historiador das artes vienense Camillo Sitte (1843-1903), que escreveu o livro, Der Städtebau nach seinen künstlerischen Grundsätzen, A arte de construir cidades segundo princípios artísticos. Uma clara crítica a hegemonia do Urbanismo Neo-Clássico de inspiração Hausmanniano, que estava presente nas reformas de Paris de 1848 e na Rings Strasse de Viena de 1860-90, com seus amplos boulevards e a monumentalização do espaço público. Como alternativa a essa tendência, Sitte elege a estratificação temporal no longo prazo da configuração das cidades da Idade Média, que são celebradas em sua lógica construtiva complexa e orgânica. Sitte estava claramente inspirado pelo movimento romântico inglês de John Ruskin (1819-1890) e William Morris (1834-1896), que celebrava a relação artezanal do trabalho dos mestres medievais de construção, que se colocava como alternativa à mediocridade repetitiva da era industrial emergente. Havia uma clara crítica aos preceitos higienistas e cientificistas do urbanismo neoclássico, pautado pela mera ampliação da salubridade nas cidades, era então reforçado a vertente artística da síntese formal urbana, que trazia em seu cerne a crítica ao positivismo. A pesquisa de Sitte mostrava as diferentes formas de tratamento da monumentalidade ou da excepcionalidade na espacialidade das cidades medievais, negando a excessiva centralização. O arquiteto vienense destacava a complexidade da inserção e da interação com o monumental, nos traçados de longa estratificação temporal da espacialidade das cidades medievais, apontando sua intencionalidade artística, sem reducionismos. A complexidade da leitura do espaço vazio da cidade, do espaço sem teto das ruas e praças era celebrado como uma interação muito mais complexa entre o cidadão e sua história, que não aceitava a redução simétrica e centralizada. Apesar de não encontrarmos ecos construídos dessa obra de Camillo Sitte na Viena belle époche da Rings Strasse, ela se revelou como uma profícua inspiração para o urbanismo organicista do biólogo escocês Patrick Guedes (1854-1932), o historiador da arte norte americano Lewis Munford (1895-1990), e até a jornalista Jane Jacobs (1916-2006).

Na sequência Joseph Maria Franz Hoffmann (1870-1956) foi um arquiteto e design de produtos, nascido na Morávia, atual Theco Eslováquia, mas radicado desde muito cedo na cidade de Viena, e por isso considerado austriaco. Joseph Hoffmann e Josep Maria Olbricht eram considerados arquitetos discípulos de Otto Wagner e foram responsáveis pelo importante movimento Secessão, que se rebelava contra a Academia de Viena, inclusive com o aval do mestre. Numa Viena de perfil liberal, o movimento da Secessão se rebela contra o artificialismo do historicismo, querendo representar  a arte do homem moderno. Pintores e decoradores, como Gustav Klint e Koloman Moser se rebelam contra as imposições da Associação da Kunstlerhaus, com seus rígidos parâmetros acadêmicos, ecléticos e historicistas. Segundo o brilhante livro de Carl E. Shorske, A Viena fin de siécle, a Secessão se assemelhava a uma rebelião edipiana contra os pais do sistema de legitimação da arte Vienense burguesa, que se baseava no cânone clássico-iluminista. A Secessão de Viena estava inspirada pelos preceitos anti-racionalistas e niilistas de filósofos como Nietsche e Schopenhauer, que celebravam a sensualidade do deus grego Dionísio da reunião entre mente e corpo das tragédias gregas. Os jovens arquitetos irão afirmar o romantismo e a especificidade única do projeto, retrocedendo ao historicismo puro da antiga Grécia, retratando de forma obsessiva, figuras como Palas Atenas, ou Teseu e o Minotauro. A grande obra de Joseph Hoffmann será o Palácio Stoclet em Bruxelas, construído entre 1905 e 1911, declaradamente inspirado na Haus eines Kunstfreunds de Mackintosh, que nos revela a profunda veneração da Secessão pelo Movimento do Arts and Krafts inglês.

Outro importante arquiteto vienense é Joseph Maria Olbricht (1867-1908), autor do emblemático Edifício da Secessão em Viena 1898, sede do movimento que tem como presidente o pintor Gustav Klint, de marcada inspiração Art Nouveau. Com acentuadas citações naturais, como sua cúpula metálica de folhas ou suas paredes cegas cobertas de representações arbóreas, o Edifício da Secessão é como uma moderna celebração de um espaço expositivo livre e flexível voltado para expor as modernas expressões do século XX, em suas mais diversas formas. O corte e a planta dessa edificação é uma maravilhosa expressão da liberdade de suportes que podem ser usados para abrigar as mais variadas manifestações artísticas. Ainda preso, a ideia hegemônica dos edifícios historicistas do conceito de "piano nóbile" mais alto do que o nível corrente da cidade, com um embasamento de oficinas no térreo e uma monumental escadaria de acesso principal. O edifício da Secessão será uma forte referência imagética para arquiteturas de diferentes partes do mundo, como o Edifício de Escritório Larkin em Bufalo, Nova York, ou a Unity Chapel em Oak Park em Chicago ambos de Frank Lloyd Wright, ou ainda o Auditorium de Sullivan, na mesma Chicago da passagem do século XIX para o XX. 

Em nossa sequência de menções emerge a figura de Adolf Loos (1870-1933) e seu ascetismo contra o ornamento, um arquiteto que se rebelou contra o decorativismo dos estilos historicistas, e que desejava reduzir a arquitetura ao seu construtivismo básico. Ao contrário de Mies Van Der Rohe, que monumentaliza a crueza construtiva, Loos fará uma profissão de fé numa sobriedade compositiva, que se recusa a adornar suas intenções. Os elementos são articulados de forma concentrada, evitando a dispersão de uma nova objetividade sintética, se retira da arquitetura sua capacidade de articular espacialidades, numa negação da tríade vitruviana, que é deliberadamente reduzida a uma dualidade; firmitas e utilitas. O túmulo no cemitério será o único vitruviana refúgio da venustas, segundo seu livro manifesto, Ornamento y Delito, que retira o símbolo da linguagem construtiva, com consequências dramáticas para um sobre desenho. Há uma passagem, nesse seu livro em que um cliente é fustigado pelo arquiteto pelo uso de um calçado em determinado espaço, como manifestação inadequada de gosto, quando o cliente lembra ao arquiteto, que aquele calçado havia sido desenhado por ele mesmo, o desenhista lembra-o corrigindo-o que aquilo deveria restringir seu uso apenas a seu quarto!! Há uma certa ironia panfletária nos escritos de Loos, que nos mostram a artificialidade do mundo burguês da passagem do século XIX para o XX. Tudo isso, marcado por um certo niilismo irracional doutrinado por Nietsche e Schopenhauer, que com a redução do horizonte utópico determinado pelo advento da Primeira Guerra Mundial, que bloqueou o diálogo. Nesse sentido é bastante sintomático o diagnóstico de György Lukács, no seu livro a Teoria do Romance, que antecede sua aproximação ao marxismo depois da Revolução de 1917;

"Este estudo foi esboçado no verão de 1914 e redigido no inverno de 1914-15 (...) A circunstância que lhe desecadeou foi a eclosão da guerra de 1914, o efeito da aclamação da guerra pela social-democracia exercera sobre a inteligência de esquerda. A minha posição íntima era de repúdio veemente, global e, especialmente no início, pouco articulado da guerra, sobretudo do entusiasmo pela guerra. Lembro-me de uma conversa com a senhora Marianne Weber, no final do outo de 1914. Ela queria minar minha resistência narrando alguns feitos heroicos concretos. Respondi apenas: "Quanto melhor, pior." Nessa época, ao tentar alçar à consciência minha atitude emocional, cheguei aproximadamente ao seguinte resultado: as Potências Centrais provavelmente baterão a Rússia; isso pode levar à queda do czarismo; de acordo. Há também certa probabilidade de que o Ocidente triunfe sobre a Alemanha; se isso tiver como consequência a derrocada dos Hohenzollern e dos Habsburgo, estou igualmente de acordo. Mas então surge a pergunta: quem nos salva da civilização ocidental? (Tomava como um pesadelo a perspectiva de uma vitória final da Alemanha da época.)" LUKÁCS, 2009, pág.7

Implantação do Karl Marx Hof num subúrbio
de Viena

Por último Karl Ehn (1884-1957), que também fazia parte da Escola de Otto Wagner, mas que desenvolverá sua carreira de projetista, como funcionário arquiteto da Municipalidade de Viena, que se inicia em 1908, aos 24 anos de idade, e irá até 1950, quando se aposenta. Karl Ehn será responsável pelo famoso conjunto de habitações sociais do Karl Marx Hof 1930, construído durante as administrações social democratas de Viena, que perfazem o período de 1918 a 1934, e que denominaram esse período da cidade como a Viena Vermelha. O Karl Marx Hof se estende longitudinalmente por 1 quilômetro, com uma sucessão de edificações contínuas, estruturadas em torno de pátios centrais, que conformam suas unidades de vizinhança. Ao centro do conjunto, os pátios são suprimidos e o conjunto conforma uma generosa praça pública central, que pode ser acessada atravessando a edificação por generosos arcos, a qualidade da edificação chama a atenção reunindo 1382 unidades, com grande oferta de área. 

O Karl Marx Hof em Viena, arquiteto Karl Ehn 1930

O que impressiona no Karl Marx Hof, e em outras edificações do período da Viena Vermelha é, que apesar da escala do número de unidades, as implantações se inserem com maestria no contínuo da cidade novecentista de Viena, sem determinar a descontinuidade muito comum nos conjuntos habitacionais da habitação social pelo mundo. Apenas, o arquiteto Karl Ehn chegou a desenhar entre 1918 e 1934, 2476 apartamentos voltados para a Habitação Social, na cidade de Viena. Outras realizações desse período, da Viena Vermelha, que ainda estão presentes no tecido da cidade são; August Ferdinand Bebel Hof (1925), com 301 unidades  do mesmo Karl Ehn, ou Friedrich Engels Hof (1933) com 1467 unidades do arquiteto Rudolf Perco, que também era discípulo de Otto Wagner, ou ainda Leopold Winarsky Hof (1924-25), com 534 unidades, que teve como arquitetos; Peter Behrens, Josef Hofmann, Adolf Loos e outros. Todos os nomes dos conjuntos habitacionais homenageiam figuras notáveis do Partido Social Democrata Alemão ou Austríaco, que Marx e Engels ajudaram a fundar, e que ajudaram a construir uma mística da conquista social que essa edificações representaram. Nesse sentido, a rebelião do Movimento Operário Vienense de 1934, que resistia contra o Anschlus Österreich (Anexação da Áustria) de 1938, ajudou a reforçar essa mística, pois o conjunto chegou a ser bombardeado pelas forças reacionárias da expansão nazista, que se anunciava.

Enfim, o texto compila uma série de biografias e bibliografias de arquitetos e urbanistas, que se inseriram nas diferentes formações sociais que perpassaram essa região da Europa, usando a cidade de Viena, como um caso notável. Mostrando como o território delas foi condicionado pelas lutas ideológicas entre o liberalismo e a social democracia do entre guerras, pontuadas pela tragédia da Primeira Guerra Mundial. A Ringstrasse e seus monumentos artificializados do ecletismo e do historicismo indiferentes às massas que se dirigiam às cidades de então, mas que de certa forma anunciam o advento de um "novo", notadamente no Metrô de Viena. Na sequência, as administrações social democratas da Viena Vermelha, que elegeram as unidades habitacionais como tema central de sua governança. Recentemente foi publicado um artigo que aponta que a capital da Áustria é a única cidade na Europa, na qual os preços de aluguéis e moradia não explodiram, com a onda de desregulamentação neoliberal, pelo simples fato de que Viena, manteve o solo da habitação social como propriedade pública. Será que é isso?

BIBLIOGRAFIA:

BERLIN, Isaiah, As Raízes do Romantismo, São Paulo, Três estrelas, 2015

COHEN, Jean-Louis, O Futuro da arquitetura desde 1889: Uma história mundial, São Paulo, Editora Cosac Naif, 2013

FRAMPTON, Kenneth Modern Architecture 1851-1919, Special Issue, New York Ga Document, 1981

LUKÁCS, György, A Teoria do Romance, um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica, São Paulo Duas Cidades, 2009

SCHORSKE, Carl E. Viena Fin-de-Siècle; política e cultura, São Paulo, Companhia das Letras 1988