sábado, 26 de outubro de 2024

MODELOS OU PRINCÍPIOS DO BEM VIVER NAS NOSSAS CIDADES BRASILEIRAS AINDA PODEM SER DISCUTIDOS

Republico aqui no blog Arquitetura,cidade,projeto.blogspot.com o texto que publiquei na Revista Vírgula, em maio de 2024, e que já saiu do ar. Boa leitura, e aguardo críticas e comentários...

O modelo do "Bem Viver"
no Brasil envolve;
a torre em altura,
o condomínio fechado
e o rodoviarismo

Estamos às vésperas das Eleições Municipais de 2024 no Brasil e apesar disso o tema da espacialidade da cidade, sua configuração e engendramento material é continuamente recalcado pela mídia, pelos políticos e até por nossa sociedade civil organizada. Há um entorpecimento geral, uma alienação, que naturaliza determinações culturais e condicionamentos sociais como se fossem inevitáveis, ou como se não fossem escolhas de planos e projetos determinados por um pensamento conservador e retrógrado. Essas eleições serão diversas de todas as outras que ocorreram anteriormente no Brasil, por uma série de fatos que atingiram nosso meio ambiente, tais como as enchentes no Rio Grande do Sul, as chuvas torrenciais concentradas que determinaram tragédias como as do litoral norte de São Paulo, ou nas cidades serranas do Rio de Janeiro, ou no rompimento de barragens da mineração em Minas Gerais, ou ainda no imenso passivo ambiental que as cidades brasileiras carregam nos temas da emissão de carbono, saneamento básico, coleta e destinação de resíduos sólidos, impermeabilização do solo, etc. Nossa macro política será tirada de uma inércia estabelecida de longa data, que debate temas como habitação, saúde, educação, cultura, violência, sem sua espacialização correspondente no território? Afinal, essas eleições também podem ser uma oportunidade ímpar para refletir sobre que cidade temos, e qual queremos construir para as futuras gerações? O que aconteceu com nossas cidades, ou para onde estamos indo? Ou melhor, qual imagem do bem viver, da boa cidade que elegemos como modelo entre nós? Qual forma-tipo de cidade que compartilhamos como representação ideal da boa vida e do bem viver? Apesar dos modelos estarem esgotados, e, como defendem alguns teóricos, vivemos um momento pós hegemônico, onde não é mais possível a eleição de uma forma tipo sintética e representativa; será que ainda é possível compartilhar princípios norteadores da cidade que queremos ter?

Um princípio geral vem pautando a política no Brasil nos últimos anos, pelo menos no campo progressista, e tudo indica que continuará na nossa agenda, que é a busca por uma sociedade com maior equidade, ou melhor distribuição de renda. De uma maneira geral, o senso comum da sociedade brasileira não identifica nas atribuições dos governos, federal, estadual ou municipal, uma estruturação do espaço construído do território, nas cidades e no campo, uma capacidade para promover ou induzir uma melhor distribuição de renda. De uma maneira geral, o brasileiro considera que a promoção de maior equidade em nossa sociedade é fruto apenas de políticas nas áreas da habitação, da saúde, da educação, da cultura, do saneamento, da mobilidade social, etc de forma desvinculada do território, da espacialidade das cidades e das áreas rurais. Nossa ordenação espacial não é só fruto de uma sociedade dividida e partida por interesses de classe, mas também mantenedora de uma situação bloqueadora de oportunidades e benefícios para as classes menos privilegiadas. A política urbana e de ocupação territorial do país podem ser fatores de promoção de oportunidades de geração de renda e de transformação social, pois a ordenação espacial pode superar a exclusão gerando inclusão e pertencimento. A mentalidade, que parece ainda operar em nossa macro política é a do recém falecido ex ministro da economia Delfim Neto, na época da decretação da Ditadura Civil e Militar de 1964, de que “era necessário primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”. Como se, a premissa de inclusão social e da promoção de oportunidades para a população brasileira determinasse um bloqueio do desenvolvimento econômico do país. Trata-se de um grande equívoco, uma vez que a qualidade espacial da cidade pode representar uma apropriação indireta de renda para parcela significativa da população, impulsionando o desenvolvimento. Nosso desenvolvimento econômico seguiu aquilo que muitos teóricos identificam como o “modelo prussiano” ou autoritário, típico de países de chegada tardia ao desenvolvimento capitalista, que pregam um acordo restrito a suas elites, sem a participação popular. Essa gerência conservadora da territorialidade da cidade gerou concentração de renda, pois o desenvolvimento citadino muitas vezes é determinado por investimentos públicos vultuosos combinado com uma apropriação privada desses benefícios, por parte dos donos da terra urbana. A cidade brasileira espelha isso em seu território de forma emblemática. Nossas cidades se apresentam com uma mobilidade de transportes ineficiente e cara, guetos ricos e pobres segmentados e bem marcados, áreas especializadas em usos restritivos especializados, zonas dedicadas a serviços e dormitórios, antigos centros históricos abandonados, deteriorados e subutilizados e uma relação predatória com o meio ambiente, a partir de uma dispersão territorial desnecessária.

Por exemplo, se temos melhores condições de mobilidade, que garantam tempos médios pendulares menores dos deslocamentos, a população poderá se apropriar de um maior tempo livre, que pode representar incremento de renda, ou de qualidade de vida. Apesar disso, recente pesquisa da Confederação Nacional de Transportes (CNT) realizada em 319 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, segundo o censo do IBGE de 2022 indicaram que houve um forte decréscimo na utilização de meios transportes coletivos (ônibus, trens e barcas), que migraram para formas particulares de mobilidade (automóveis, motos e aplicativos), representando um acréscimo de tempo nos deslocamentos. A pesquisa aponta, que nessas cidades brasileiras apenas 31,7% da população usa o transporte coletivo, contra 68,3% que se utilizam de formas individuais. Os resultados também espelham um forte declínio das formas de transporte coletivo em nossas cidades, quando vistos a partir da série histórica entre 2017 e 2022, pois naquele ano essa mesma percentagem era de 49,2% nos meios coletivos contra 50,8% nos modos individuais. Tal condição decorre claramente de um declínio dos investimentos no transporte público, e no incentivo a indústria automobilística e a ideologia individualista e rodoviarista, que prospera no neoliberalismo contemporâneo e nas políticas das três esferas governamentais. Com sua celebração da desregulamentação interessada, onde o planejamento de Estado é endemoniado e uma suposta liberdade de escolha celebrada. Como se ela não fosse planejada e implicasse numa total ausência de alternativas, fora de uma mentalidade individualista e particularizada, que desdenha das soluções coletivas. Em outro aspecto das infraestruturas espaciais, se tivermos melhores condições de saneamento em nossos bairros pobres e favelas teremos menos poluição de mananciais e rios e menos gastos em saúde, e portanto, apropriação indireta de rendas suplementares por parte da nossa população em geral.

Por outro lado, a estruturação de uma política habitacional, de educação, de saúde, de cultura, de segurança vinculadas a questão espacial ou a política urbana de nossas cidades é um fator primordial para se alcançar maior equidade na sociedade brasileira, afinal a segmentação espacial das nossas cidades está determinada por forte clivagem entre as classes sociais, e promove constantemente a sua manutenção. Para tal, basta pensarmos no campo da representação social do bem viver ou da boa vida, quais os modelos de moradia ocupam o imaginário da população em geral. Certamente uma pesquisa indicaria; uma habitação unifamiliar isolada próxima a um idílio da natureza, num subúrbio distante, ou nas situações mais adensadas um apartamento numa torre com grande desenvolvimento em altura, com vista privilegiada e de preferência o mais distante possível do barulho urbano. Tais representações foram escolhidas pela nossa população, ou são impostas pelo mercado imobiliário, que claramente otimiza seus lucros, com ambas as opções. A superconcentração das torres de apartamentos residenciais, assim como a unidade unifamiliar isolada perto de idílios naturais representam claros interesses de uma sociabilidade individualista e isolada, que acabam potencializando problemas como o declínio da esfera pública da cidade e a violência urbana. Dois filmes brasileiros problematizam ou contrariam tais posições de forma emblemática e bastante elucidativa e didática, mostrando-nos que a opção do modelo habitacional interage com a precariedade dos sistemas de transporte coletivos e com a deterioração de nosso meio ambiente.

Em 2015, o cineasta Felipe Barbosa realizou o filme Casa Grande, onde uma família de classe média alta habita uma residência unifamiliar de alto padrão, próxima a Floresta da Tijuca, no Itanhangá na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, de forma isolada, mostrando-nos as agruras do filho para se deslocar até o Colégio São Bento no centro da cidade. No início do filme, esses deslocamentos são feitos com um motorista particular, mas a partir de seu desenvolvimento, com as dificuldades financeiras familiares, passa a se utilizar do sistema de ônibus da cidade, mostrando-nos o profundo medo de nossas elites do contínuo urbano precarizado das nossas cidades. Com a precariedade do seu sistema de transportes e a presença de favelas, como a Rocinha ou a presença na paisagem exuberante da cidade do Rio de Janeiro da obra rodoviarista repleta de malabarismos estruturais da auto estrada Lagoa Barra. E, em 2016, o cineasta pernambucano Kleber de Mendonça Vasconcelos Filho realizou o filme Aquarius, que foi mais aclamado pela crítica e pelo público. O filme estrelado pela atriz Sonia Braga apresentava uma sensível crítica as formas hegemônicas do habitar na sociedade brasileira, e um potente testemunho de como as formas do “Bem Viver” e da Boa Vida vem sendo manipuladas pelas incorporadoras imobiliárias no país. Tanto a casa isolada no Itanhangá do filme Casa Grande, quanto o edifício Aquarius na praia de Boa Viagem no filme de Kleber Mendonça, onde os filmes são ambientados existem, são materialidades concretas. E os bairros do Itanhangá e a praia de Boa Viagem ocupados de forma exclusiva pelas elites endinheiradas do Rio de Janeiro e de Recife, que elegeram, nessas cidades e em todo país, uma forma tipo de habitar em oposição e confronto à esfera pública, à vida urbana intensa e geral. A exclusividade isolada do habitar e suas conquistas com fartos recursos financeiros são tematizados e explorados mostrando-nos as cidades para poucos, que pretendemos construir.

Os filmes exploram o contraste, em suas tomadas de forma quase obsessiva, mostrando, de um lado, o exclusivo isolamento da Casa Grande e o rodoviarismo de nossas grandes cidades, quanto no edifício Aquarius, que com apenas três pavimentos de altura, sem pilotis, contrasta com a massa de torres com mais de trinta andares, que dominou a paisagem dos bairros litorâneos Brasil afora, desde a década de 70 e 80 do século XX. Importante destacar, que as edificações efetivamente existem seja, na Barra da Tijuca, quanto no bairro da Boa Viagem, e são frutos de formas de empreendimentos que otimizam o lucro imobiliário, em claro detrimento do interesse público. A casa isolada no Itanhangá na Barra da Tijuca, bairro ocupado mais intensamente a partir da construção da auto estrada Lagoa Barra, obra de realização pública, efetivada na paisagem no início da década de 1970, que viabilizou a conexão litorânea da Zona Sul com a área. E, que claramente recalcou a conexão mais natural da região com a Zona Norte, através da Avenida Cândido Benício, no vale entre a Floresta da Tijuca e o Maciço da Pedra Branca, e, portanto sem os malabarismos estruturais da auto estrada. Portanto, potencializando enormemente os lançamentos imobiliários, que assumiram nomes como Nova Ipanema e Novo Leblon, marcando as proximidades com as amenidades litorâneas. Mais uma vez na nossa história, viabilizando a apropriação privada dos donos da terra, a partir de investimentos públicos vultosos, como o da autoestrada. Não por acaso, o protagonista dono da Casa Grande no Itanhangá, vivido pelo ator Marcelo Novaes é um representante dos empreendimentos rentistas e improdutivos, que determinam sua bancarrota.

Por outro lado, o Edifício Aquarius construído em 1952 num tempo quando as incorporações de intensificação do solo urbano eram comandadas por pequenos investidores, longe dos grupos imobiliários monopolizados da atualidade. Claramente, o filme pernambucano contrapõe a torre habitacional, com desenvolvimento em grande altura, àquilo que poderíamos chamar de empreendimento linear de baixa altura, que estabelece com o espaço público da cidade uma mútua vigília. Entre intimidade da unidade habitacional da vida íntima familiar e o espaço público da cidade, a rua, mostrando a protagonista interagindo e participando da vida do bairro pela sua janela, prática inviabilizada pela grande torre de apartamentos. O filme narra o assédio das grandes incorporadoras imobiliárias para comprar a unidade no Edifício Aquarius da protagonista Sonia Braga, última moradora, para promover, empreender e homogeneizar com a solução da torre, suprimindo o último testemunho de uma tipologia de baixo gabarito e de implantação contínua. Importante destacar, que essa mesma tipologia é bastante recorrente nas cidades brasileiras até a década de 60, quando a apropriação da renda urbana, proveniente da intensificação de seu uso não era monopolizada por grandes grupos financeiros. E, gerava uma urbanidade mais plena onde a proximidade entre a esfera privada e pública ainda não havia sido rompida.

O neo liberalismo não é apenas uma forma de ordenação dos Estados Nacionais, mas também a instituição de uma forma de operar na sociedade, no seu cotidiano, um modelo de comportamento que pretende afastar a solidariedade intrassocial, impondo uma concorrência desregulada e selvagem. Há no mundo contemporâneo um modelo de atuação cotidiana hegemônica baseado nos princípios neoliberais, uma forma de operar que celebra a iniciativa particular ou mesmo coletiva, desregulamentada das formas tradicionais de controle do Estado, apesar da afirmação recorrente pelo pensamento conservador de uma realidade pós-hegemônica. As iniciativas públicas ou articuladas pelo Estado são vistas com desconfiança, e consideradas incapazes de promover processos bem sucedidos, ou virtuosos. Essa proposição começa a se desenvolver na década de setenta do século XX, que é apontada como um momento de crise e de virada da regulação internacional acertada pelo acordo de Bretton Woods, que regulava as finanças desde 1944, e que começava a apresentar sintomas de esgotamento, com as crises do petróleo. A partir desse momento com o forte declínio das taxas de lucro, os donos do capital irão se articular numa narrativa, que impõe a desregulamentação financeira e a austeridade fiscal.

Em 1973, ocorre o golpe de estado no Chile impõe-se pela primeira vez uma ideologia neoliberal no país, em 1975-76 a disciplina fiscal é implantada no Reino Unido pelo FMI, e também em 1975 a cidade de Nova York inicia a aplicação de rigorosa meta fiscal, após sua declaração de inadimplência. No final dos anos setenta, as eleições de Thatcher e Reagan marcam a conquista do poder pelo discurso neoliberal, que passa a pautar nosso cotidiano com a ideia da desregulação econômica e liberação do empreendedorismo individual. Em 1979 Margareth Thatcher assume como primeira ministra britânica, em 1980 Ronald Reagan assume a presidência dos EUA, desenvolvendo-se uma enorme desregulamentação do capital. O Wellfare State ou Estado de Bem Estar Social desmorona, uma transformação que esvaziou o uso industrial e fez emergir um contínuo de serviços financeiros e especulativos, que passaram a representar no mundo anglo saxão, um terço do emprego disponível. Inicia-se uma forte hegemonia do capital financeiro no mundo. Em 9 de novembro de 1989 cai o muro de Berlim, que dividia a Alemanha em dois, e o mundo da Guerra Fria das duas superpotências apresenta sinais de esgotamento. Em meados dos anos 1990 o advento da internet e das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) lançam para a humanidade a possibilidade de acessar um amplo acervo de informações, que determinam uma imensa dispersão de energias, parecendo inviabilizar a possibilidade de construção de prioridades e consensos. A política se fragmenta numa infinidade de interesses que parecem irreconciliáveis, apontando para a impossibilidade da construção de consensos. Em 2004, a bolsa de tecnologia de Nova York, Nasdaq força os grandes conglomerados de informação, como o Goggle e Amazon a monetizar suas informações sobre seus usuários, caindo o pretenso sigilo de nossas buscas para as grandes corporações monopólicas. Emerge disso tudo, uma sociedade claramente sub teorizada e super informada, com clara dispersão de suas energias questionadoras e disruptivas.

Muitos dos fluxos financeiros aprisionados por regulações estatais passam a circular pelo mundo de forma livre, e, sem conseguir ser sequer monitorados por qualquer tipo de regulação fiscal, afinal as iniciativas estatais continuam sendo vistas com desconfiança. Esses procedimentos rentistas ancorados em ganhos financeiros completamente autonomizados com relação a produção passam a circular pelo mundo gerando fortunas e fraudes. Aquilo que Bretton Woods pretendera regular, a partir do final da 2ª Guerra Mundial, e que se referia aos processos especulativos do Crack da Bolsa de Nova York em 1929, que haviam produzido uma imensa recessão que permitiu o acesso ao poder pelo nazi-fascismo na Europa, iniciando o conflito mundial. Agora, no final da década de setenta era esquecido, pelo menos no Reino Unido e nos EUA com a doutrina de Thatcher e Reagan, determinando o declínio do movimento sindical organizado e a celebração de um empreendedorismo particular e isolado. Frases, como “não há almoço de graça” ou “a sociedade não existe, é uma abstração, o que há são indivíduos e famílias”, ou ainda “jamais esqueçam que não existe dinheiro público, todo dinheiro arrecadado pelo governo é tirado do orçamento doméstico...” justificam uma imensa deterioração dos serviços públicos e promovem uma mentalidade concorrencial sem limites.

A cidade brasileira e em todo o mundo ocidental é fruto dessa desregulamentação financeira e do culto de uma mentalidade empreendedora, que haviam contaminado nosso cotidiano. Há uma certa especificidade na economia brasileira, apontada por alguns teóricos como Armínio Fraga e Luiz Gonzaga Belluzo, determinada por nossa Constituição Federal de 1988, que possuía uma vertente favorável ao distributivismo de renda e a configuração de um Estado de Bem Estar Social, promotor de maior equidade. Mas a vertente neoliberal também está presente entre nós, notadamente na política urbana e espacial, principalmente no que se refere a regulação do Direito de Propriedade. Comprovando tal fato, basta observar a imensa luta legislativa que envolveu a aprovação do Estatuto da Cidade, que foi aprovado apenas em 2001, treze anos após a decretação da constituição cidadã, e que permanece com instrumentos reguladores da propriedade privada, ainda sem aplicação por claras razões culturais e de costumes. A propriedade privada em nossa cultura patrimonialista é absolutizada, não podendo ser regulada de forma alguma, fato que vem sendo comprovado pelos contínuos pedidos de revisão pela bancada conservadora, dos artigos 182 e 183, que decretaram a necessidade de cumprimento do papel social da propriedade privada em nossa Constituição Federal.

Em 2008, uma crise sem precedentes se abate sobre a economia americana, novamente grandes instituições financeiras sugadas pela quebra de confiança no sistema de hipotecas e nos seguros a sua volta ameaçam grandes conglomerados rentistas, que são classificados pelo governo dos EUA como; "so big to crash". Quase de forma imediata o sistema bancário espanhol, demonstra fragilidades a partir do imenso volume de financiamento de hipotecas habitacionais nas cidades espanholas. O governo liberal do Partido Progressista injeta dinheiro do contribuinte no grupo Santander alegando o mesmo argumento dos EUA. Na sequência, o governo americano, temendo um efeito dominó em toda a atividade econômica, semelhante a crise de 1929, aporta grande quantidade de capital do contribuinte americano, socializando os prejuízos e salvando grandes grupos financeiros. Alguns economistas mesmo auto declarados liberais, como Joseph Stglitz e Thomas Pikety apontam a necessidade de retorno da regulação, que deverá ser globalizada para controlar a especulação desenfreada dos fluxos financeiros que circulam pelo mundo. Alguns insistentes marxistas, como o crítico cultural Frederich Jameson e o geógrafo David Harvey recolocam a questão da tendência preferencial do sistema capitalista pela forma líquida monetizada, que se materializa de forma mais concreta nas bolsas e investimentos rentistas, mas também no espaço, e em processos especulativos nas cidades globais. Apesar disso tudo, permanece em nosso cotidiano uma desconfiança pelas iniciativas governamentais e públicas, que ainda são vistas como esforços arrecadatórios mantenedores de aparatos burocráticos, que apenas visam sua reprodução e auto-sustentação, sem qualquer interesse público ou projeto republicano. Em 2020, com a Pandemia de Covid-19 a sociedade civil parece ter a comprovação definitiva de que as grandes corporações privadas e monopólios centradas no lucro são incapazes de promover a saúde e o Direito de reprodução da vida. Mais uma vez, a pesquisa pública e os investimentos estatais preservam uma parte da vida da humanidade, e promovem o desenvolvimento, evitando uma recessão catastrófica.

Por outro lado, as cidades passam a concentrar e expressar imensas manifestações de rebeldia e de insatisfação, explodem ocupações em várias partes do mundo, que reinvindicam melhores condições de habitar e de circular, sem no entanto, a capacidade de formular uma pré-figuração alternativa para o módus operandi do status quo neoliberal. A espacialidade das cidades é um efetivo aglutinador de movimentos sociais diversificados, que denunciam a produção e reprodução de injustas condições de vida e de ausência de oportunidades. É nas cidades que se materializa uma imensa segmentação e fragmentação de oportunidades, uma concentração desequilibrada de benefícios que atendem a uma minoria, muitas vezes com impactos ambientais e sociais aviltantes. O território de nossas cidades demonstram de forma didática a segmentação da sociedade, a cidade capitalista neoliberal é produtora de imensas áreas de exclusão, enquanto outras muito restritas se globalizam impulsionando exclusividades fetichizadoras, que promovem apenas o valor de troca, recalcando qualquer valor de uso.

As cidades no Brasil, apesar de suas especificidades regionais, invariavelmente apresentam um caráter exclusivo, que confronta áreas muito restritas de uma urbanidade plena, com amenidades de lazer, iluminação, segurança, contraposta a grandes contínuos literalmente sem infraestruturas básicas. De uma maneira geral, ela se apresenta dispersa e esgarçada ocupando um território muito maior do que seria necessário para sua população. Com um centro histórico decadente e esvaziado, dotado de um patrimônio construído importante, mas subvalorizado, desocupado e em contínua destruição pelos próprios interesses de seus proprietários, que almejam sua monetização e destruição imediata. Com áreas especializadas em usos limitados – bairros de serviços ou bairros dormitórios - com extratos sociais de renda homogêneos, sem qualquer possibilidade de diversidade social. Com uma mobilidade deficiente de transportes públicos, de tarifas caras, com um sistema de modais sem qualquer coordenação, hegemonizado pelos veículos sobre pneus e com sua malha ferroviária decadente e com capacidade diminuta de carregamento. Um rodoviarismo agressivo e incapaz de suprir suas demandas por longo período, apresentando invariavelmente imensos congestionamentos. E, uma relação predatória com contínuos ambientais em seu interior ou em suas bordas, que são continuamente impactados por suas emissões e avanços.

Portanto, acredita-se que os princípios da boa cidade e do Bem Viver precisam ser explicitados de forma a dar sentido as imensas manifestações de rebeldia e inconformismo das cidades. A cidade deve encontrar uma série de princípios gerais, que sintetizam a busca da promoção de uma maior equidade de rendas e oportunidades, um território urbano onde está universalizado o acesso às infraestruturas urbanas e as oportunidades é o objetivo maior. Por outro lado, é necessário reconhecer que precisamos enfrentar o problema urbano brasileiro reformando a cidade existente, promovendo ajustes em seus sistemas já instalados de forma a beneficiar a todos, e não apenas uma minoria privilegiada. Nesse sentido torna-se fundamental radicalizar as práticas democráticas, indo além da mera representação parlamentar, mas instituindo práticas cotidianas diretas de regulação dos orçamentos, planos e projetos. Busca-se portanto formular um conjunto de princípios norteadores para as cidades brasileiras, que precisam transformar o modo como vêm sendo construídas, para tanto, sugere-se priorizar quatro proposições objetivas:

1.     A Cidade deve ser compacta e densa, evitando-se a dispersão interminável e enfatizando-se o papel aglutinador do antigo centro histórico. Os instrumentos contidos no Estatuto das Cidades devem ser operados no sentido da preservação de seu contínuo construído, regulando o Direito de Propriedade;

2.     A Cidade deve ser lugar da convivência da diversidade de classes e de usos, evitando-se os guetos de ricos e pobres e a monofuncionalidade. A promoção da urbanização de favelas e a busca de sua integração aos tecidos dos bairros adjacentes deve reforçar o esforço de inserção social de todos seus estamentos e classes, utilizando-se inclusive dos sistemas de transportes sistêmicos para enfatizar sua reinserção;

3.     A Cidade deve ter mobilidade efetiva para todos, evitando-se a exclusão determinada pela ineficiência ou tarifação alta dos sistemas de transporte coletivo. As parcelas precarizadas da nossa população devem ter acesso ao passe livre reivindicado, permitindo o acesso amplo a diversidade de oportunidades que nossa cidades criam;

4.        A Cidade deve ampliar o reconhecimento da ecologia e dos biomas naturais locais, construindo-se melhor relação com a natureza, permitindo uma apropriação social ampla dos ecossistemas e fomentando sua expansão e convivência com o mundo artificializado do humano. Devem ser implantadas obras e transformações que promovam maior ajuste entre a vida urbana e a natureza, se adequando principalmente as chuvas tropicais de maior intensidade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Apontamentos sobre a questão urbana, seus impactos ambientais e a celebração da diversidade, ou o bloqueio de qualquer debate

O fim do mundo está mais próximo, por absoluta falta de 
imaginação

O fim do mundo está mais próximo, por absoluta falta de imaginação de se pensar uma alternativa ao nosso sistema político, a nossa forma de ordenação do território, onde a população urbana pela primeira vez na história da humanidade supera a população rural. As cidades ocupam apenas 2% do território seco do planeta, no entanto representam profundos impactos para o meio ambiente, em função de ocuparem áreas desproporcionais com relação ao número de suas populações. De uma maneira geral, as densidades urbanas são baixas determinando um espalhamento no território muito maior do que seria necessário. Há uma interação explosiva entre a crescente utilização do automóvel particular (rodoviarismo), impermeabilização exagerada do solo urbano (concreto e asfalto), e uma representação do bem viver guiado pela habitação unifamiliar próxima de idílios naturais, ou pela torre de apartamentos em alturas cada vez mais acentuadas. No Brasil, a qualidade de vida urbana tem tido profundas quedas e retrocessos, representados pelo aumento dos tempos de mobilidade pendular, declínio da caminhabilidade, aumento substancial dos gastos com habitação (aluguel ou carência edilícia), ampliação da violência e inadequação sanitária habitacional ou locacional. No entanto, tanto governos conservadores (Bolsonaro 2018-22), e mesmo os mais progressistas (Lula 2002-07) continuam desdenhando das pautas urbanas, mantendo-se preocupados apenas com a agenda da hegemonia financeira, do desequilíbrio fiscal e do déficit público. Em março de 2023 foi publicado aqui no blog um texto meu com o título;  A política de juros, o risco fiscal, inflação e o pensamento único da nossa imprensa, que discorria sobre o pensamento único de nossas preocupações, que olham apenas para a macro economia e se esquecem do nosso cotidiano. O governo atual do PT no Brasil parece repetir o erro que desembocaram nas jornadas de protestos de 2013, quando movimentos sociais autonomistas de rejeição das elites econômicas e políticas se valeram do processo progressivo e contínuo de piora das condições urbanas. O pensamento da grande mídia conservadora de forma muito persuasiva e pertinente parece ter convencido a maioria de que as pequenas mudanças inerentes à política urbana são refutadas, pela lógica do acumulador compulsivo, inerente a lógica especulativa da macro-economia. Com isso me parece, que estamos indo rapidamente em direção a um suicídio coletivo, dado por essas condições urbanas pouco sustentáveis ambiental e socialmente. Afinal, o que será das próximas gerações? O esloveno Slavoj Zizek tem uma irônica e trágica colocação assinalando nossa corrente atitude suicida; 

"a nós nos parece muito mais fácil imaginar o fim do mundo do que uma pequena mudança do sistema político. A vida na terra possivelmente vai acabar, mas o capitalismo de algum modo continuará."  Slavoj Zixek citado em DUAYER 2023 pág.89

No âmbito da cidade metropolitana do Rio de Janeiro, um conglomerado populacional de 12 milhões de habitantes, que apresenta em suas periferias índices inadequados de serviços urbanos, tais como; coleta de esgotos insuficiente, distribuição de água precária, coleta de resíduos sólidos fora dos padrões, mobilidade desestruturada e cara, educação precária, saúde desarticulada, violência urbana explosiva, etc... as provas da deterioração urbana estão por toda parte e escancaradas. A primazia absoluta é do rodoviarismo e dentro dele a absoluta preferência pelo automóvel individual, que agora, pela propaganda oficial passa a ser mais amigável ao meio ambiente, pela sua simples conversão ao modo elétrico. As cidades no mundo todo estão assoladas por um rodoviarismo destruidor da qualidade de vida, do convívio entre pessoas e sua saúde por celebrar uma vida sedentária mecanizada livre de caminhadas. O investimento feito para acolher o automóvel é muito maior do que aquele destinado ao pedestre, numa seção padrão da rua das cidades brasileiras pode-se constatar o imenso investimento dedicado ao rodoviarismo e sub investimento na área de calçadas e passeios. Nossas calçadas são subdimensionadas, nada de acolhimento para as caminhadas, sub arborizadas, sub iluminadas com materialidades inadequadas tanto para o caminhar, quanto para absorção das águas de chuva. Contraditoriamente, a cidade metropolitana do Rio de Janeiro já possuiu um das mais importantes redes de trens urbanos do mundo, na sua parcela oeste, a Rede de Trens da Central do Brasil já transportou nos anos 1960, 1,2 milhão de passageiros/dia. Atualmente, por falta de investimentos, pela primazia dada a concorrência do modal de ônibus, pela absoluta inarticulação dessa rede a outros modais ela está transportando 600mil passageiros/dia, e se mantém em decréscimo. Um verdadeiro crime de irresponsabilidade social de governos estaduais, que abandonaram os investimentos nesta malha de trens, que poderia com poucos investimentos, se qualificar para transportar com qualidade uma parcela expressiva de passageiros.

"Pode até ser surpreendente, mas, de acordo com o aplicativo de transporte 99, Niterói é a cidade com o trânsito mais congestionado do Brasil. A pesquisa mediu a relação entre distância e tempo de viagem com o aplicativo de transporte 99, Niterói é a cidade com o trânsito mais congestionado do Brasil. A pesquisa mediu a relação entre distância e tempo de viagem nos trinta centros onde mais se utiliza a plataforma. Na cidade vizinha ao Rio, que ocupa o 8° lugar no ranking, o tempo levado para chegar ao destino em horários de pico é até 78% maior do que em situações de trânsito livre. Nem mesmo o fluxo de carros de São Paulo, conhecido pelos engarrafamentos quilométricos, foi capaz de superar a lentidão que os niteroienses enfrentam. A capital paulista ficou na sétima posição." https://vejario.abril.com.br/cidade/niteroi-tem-o-pior-transito-do-pais-segundo-aplicativo-99/mobile acessado em 25/11/2023

Nessa mesma questão, o abandono do planejamento inicial do Metrô RJ, de realização da Linha 3, ligando a cidade de Itaboraí, no leste metropolitano ao centro de Niterói é também a mesma perpetuação de um crime de irresponsabilidade de gestão administrativa. Na qual, a matemática foi subvertida, realizando-se um arremedo da Linha 4, que liga a Barra da Tijuca ao Leblon, antes da Linha 3, para melhor atender a realização dos Jogos Olímpicos de 2016. Mais uma vez o capital imobiliário e as parcelas mais privilegiadas de nossa população são atendidas em prejuízo de amplas parcelas, numa lógica pautada pelo neoliberalismo excludente. O descalabro dessa decisão, traçada na escrivaninha do então governador do RJ, Sérgio Cabral, é mais uma prova da incapacidade de comunicação e de sensibilização, quando se menciona os números da população atendidas pelas duas opções; 1,1 milhão de habitantes em São Gonçalo, cidade entre Itaboraí e Niterói, e apenas, 180mil pessoas, que atualmente moram na Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. O caráter de classe e os despudorados interesses especulativos estão escancarados nas políticas urbanas das cidades brasileiras, a questão das antigas centralidades, abandonadas por suas elites, mas ainda plenas de patrimônios construídos notáveis é mais um exemplo da inoperância das políticas públicas na direção do interesse público geral. A questão se assemelha a um processo de destruição da razão, em seu sentido mais amplo, não na direção da racionalidade instrumental de mera adequação de meios a fins, mas passando por cima de argumentos que pretendem intermediar os interesses de todos aos investimentos públicos, para alcançá-los. A questão que ainda também me parece central é a medição dos processos de recuperação da centralidade, a partir da generalização e atração do uso habitacional nessa área, como um impulsionador dessa revitalização. Inicialmente é necessário que se contextualize na cidade genérica brasileira, o desenvolvimento inicial durante nosso intenso processo de urbanização, a ampliação do uso comercial e de serviços, em detrimento do uso habitacional, baseado no American Way of Life. No qual, a presença do Central Business District (CBD) nos cascos mais antigos de nossas cidades, combinados aos bairros dormitórios da periferia e ao zoneamento funcional rígido mostravam a clara emergência da hegemonia Estado Unidense no pós 2a guerra, não só no Brasil, mas pelo mundo afora.

"De todo modo, as raízes do irracionalismo moderno podem ser encontradas de maneira geral, de acordo com Lukács, na “grande crise econômico-social, política e ideológica na virada do século XVIII ao XIX” (p. 114). Não por acaso, essa “crise ideológica tem como centro a filosofia de Hegel”, alvo preferencial da rejeição crítica por parte de autores e tendências diversas que, ao contestarem dimensões fundamentais do pensamento hegeliano, depreciam simultaneamente o “entendimento e a razão” e enaltecem a “intuição, a gnosiologia aristocrática” (p. 15). Ademais, segundo Lukács ainda, “a recusa do progresso sócio-histórico, a criação de mitos são, entre outros, motivos que encontramos em quase todo pensador irracionalista” (p. 15).VAISMAN e FORTES 2020, págXIII 

Apesar de ser mostrado os benefícios alcançados pelo interesse de todos, com uma cidade polifuncional, densa na ocupação de seu território, preservando seu patrimônio construído e com mobilidade acessível e eficiente para todos, o irracionalismo da reprodução da cidade centrada no lucro permanece. A aferição de benefícios e comodidades não se generaliza para os despossuídos, mas se particulariza em direção a uma minoria privilegiada, que concentra mais benefícios e não enxerga os riscos dessa trajetória para o futuro do planeta. Sem essa contextualização, ao mesmo tempo; de onde está o "entendimento e a razão" e onde se coloca a "intuição, a gnosiologia aristocrática" as ações perdem força argumentativa e persuasiva, pois se interessam por um pressuposto exclusivista e aristocrático da cidade. A categoria dos arquitetos e urbanistas sem explicitar essa direção seguem intuitivamente reforçando o plano projeto conservador da economia política da cidade brasileira. E, permanecem incapacitados de sensibilizar a população em geral para a regeneração da cidade, para pontuar o potencial de regeneração da proposição do espaço, para a cidade metropolitana como um todo. Nesse sentido, além da poli funcionalidade, existe a questão mais complexa de acomodação e convívio entre diferentes extratos sociais dentro do tema habitacional no centro do Rio de Janeiro, que me parece ser o grande desafio da cidade contemporânea, pois a cidade do capitalismo naturalizado de nossa cultura trabalha por seus agentes imobiliários formais, notadamente no Brasil, a partir de um horizonte de consumo excluidor e seletivo. O mercado imobiliário oficial no Brasil atende uma parcela de 30% da nossa população, ou talvez menos, em nossas cidades, reproduzindo a lógica de nosso desenvolvimento econômico elitista, seletivo, beneficiador de monopólios e concentrador de renda. A presença da Habitação de Interesse Social (HIS) e a manutenção do preço de venda por metro quadrado, nessa prática do mercado monopolizado no "Reviver o Centro" demonstra claramente o bloqueio das pretensões de um acesso mais amplo, revelando a face concentradora de renda de nossa política urbana de uma maneira geral. Quais os mecanismos presentes no Estatuto das Cidades para reverter isso? Eles atuam sobre um valor quase sagrado para nossas elites endinheiradas, que é a relativização do Direito de Propriedade frente ao seu papel social, que o "Reviver o Centro" aborda, mas não pratica, como vem sendo comum em várias cidades brasileiras. Por que? Simplesmente pela falta de uma maior explicitação dos instrumentos, ferramentas ou parâmetros do Estatuto da Cidade, que podem ser utilizados pelo poder público e pela sociedade civil para medir e monitorar a dinâmica urbana no sentido da obtenção de uma cidade poli funcional e com diversidade de renda, que aparecem ser os objetivos apenas abstratos e propagados do "Reviver o Centro", mas nunca alcançados. De fato, um dos índices, que contemporaneamente vem demonstrando de forma cabal a falência do plano projeto neoliberal das cidades é o das populações carcerária e em situação de rua.

"Outro dado relevante que cabe mencionar refere-se à população carcerária brasileira, que é a terceira maior do mundo (atrás apenas dos EUA e China), e que também não parou de crescer nos últimos anos. Ampliou-se O número de crimes contra defensores de direitos humanos e jornalistas. segundo entidades nacionais e internacionais de monitoramento. O extermínio de lideranças indígenas, quilombolas, negras, jornalistas, defensores ampliou-se de forma severa. quantidade de dados e análises possíveis muito grande. Um dos indicadores mais relevantes e reveladores trata do aumento exponencial da população em situação de rua nas cidades do pais. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2023), em 2012 havia 90.480 pessoas em situação de rua. Em 2020, eram 214.415 pessoas e, em 2022 281.472. Enquanto o crescimento geral da população brasileira na ultima década foi cerca de 12% a população em situação de rua cresceu mais de 200% no mesmo período (IPEA, 2023;KOHARA; COMARU, 2023)" GONZALES e COMARU 2023

Nesse sentido, do bloqueio da "razão e entendimento" e celebração da “intuição e a gnosiologia aristocrática” nas cidades brasileiras emerge o foco dado pelas ações atuais no RJ e em SP na questão nos Certificado de Potencial Adicional de Construção (CEPACs, RJ) para equacionamento do tema habitacional nos centros. A questão claramente faz a celebração da tipologia da torre ou do desenvolvimento em altura na cidade, não problematizando a perda de ambiência, escala e interação entre esferas públicas e privadas nas áreas habitação. Aqui no blog publiquei um texto sobre a questão levantada pelo filme pernambucano protagonizado pela Sandra Brea, que tem como título; O filme Aquarius e a cultura brasileira do bem viver. No qual destacava a primazia na configuração das cidades brasileiras, na tipologia habitacional do desenvolvimento em altura excessiva, como nos casos de Balneário Camboriu em Santa Catarina e na Praia de Boa Viagem, em Recife. Argumentava, que essa configuração determinava um espaço urbano potencializado para a violência urbana, uma vez, que a relação de proximidade entre esfera privada da moradia, e esfera pública da rua, mostrada no filme de forma exemplar, se rompia completamente. O represamento dessa discussão, que aparece como naturalizada no poder municipal no Brasil, aparece também articulada a uma ausência da explicitação de uma estratégia de exploração voltada apenas ao lucro de construtoras e empreendedores, e sem levar em conta a espacialidade a ser alcançada. O bloqueio da discussão também aparece como um desdém pela capacidade mobilizadora do espaço da cidade, não apenas em sua concepção, mas também em sua gestão de mais longo prazo, capacitado a sensibilizar e galvanizar a população. O argumento usado pelo pensamento conservador invoca o resultado da maior densidade atingido pela tipologia das torres, argumento que já foi amplamente refutado por vários autores, desde a década de 60, revelando-nos a determinação social e interessada do pensamento conservador.

"No capítulo “The Grid as Generator”, Leslie Martin usa Manhattan para demonstrar seu argumento de que a eficiência espacial é inversamente proporcional à altura da construção, dados os princípios básicos do desenho urbano (planejamento do perímetro). Usando os três tipos construtivos fundamentais, o Pavilhão (torre), a rua (empreendimento linear) e a quadra (empreendimento retangular ou retilíneo), ele planeja um esquema com 49 unidades, no qual o produto pode surgir na forma de torres no centro de cada quadra, ou como pátios, ocupando o perímetro com 50% da ocupação do lote em cada caso (Figura 7.4). Tomando o pavilhão como forma básica, ele demonstra que a antiforma (ou o molde invertido do pavilhão) fornece a mesma forma construída para 1/3 da altura do edifício. Essas relações básicas são mostradas na Figura 7.5. Ele então aplica a ideia básica à grelha urbana de Manhattan, ilustrando não só que torres de 21 andares poderiam ser substituídas por edifícios de oito andares, mas que cada pátio poderia conter uma área verde central equivalente à Washington Square. Esses exemplos demonstram claramente os benefícios ambientais consideráveis advindos do fato de usar um sistema e não o outro, sem nenhuma perda de área total construída e, desde o início dos anos 1970, todo o processo de modelagem urbana tornou-se infinitamente mais especializado (Steadman 2001). De modo geral, entretanto, se tomarmos uma variedade de arranha-céus, ambientes de alta densidade, como Manhattan ou Hong Kong, geralmente é fato que apenas o pavilhão/torre é usado na maioria dos casos, em outras palavras, a forma que acarreta os menores benefícios espaciais para todo o resto, exceto para os que especulam sobre a terra. Portanto, o resultado dessa pesquisa é estabelecer um método de projetar conhecido como planejamento do entorno (ou desenho urbano), já que sua eficiência é monumental, quando comparada com as outras duas alternativas. Exemplos dessa ideia já existem, historicamente, por exemplo, na Cidade Nova Georgiana, área central de Edimburgo (1750), onde um plano básico em formato de grelha garantiu espaço aberto tanto no interior quanto nas adjacências da forma adotada de habitação. Ou mais tarde no modernismo, com o conjunto Hufeisensiedlung[10] projetado por Bruno Taut, em Berlim, 1925-1930 (Figura 7.6). Mais recentemente, na busca por maior eficiência na forma da habitação, muitos arquitetos adotaram o mesmo princípio, como, por exemplo, o Byker Wall, em Newcastle, de Ralph Erskine." CUTHBERT 2006 pág.255

A teoria da racionalidade (ação) comunicativa de Habermas é um grande protagonista como uma premissa teórica estruturante da dimensão da qualidade da participação da população, o que me parece uma opção correta e potente. No entanto, ela também está ausente da explicitação de algumas categorias esclarecedoras dessa premissa teórica, tais como; Comunicação, Estado, Sociedade Civil (organizada e desorganizada), esfera ou espaço do debate e Interesse (público e particular ou de grupos), no sentido de pensar práticas idealizadas e efetivas. Tal esforço, contextualizaria o cidadão urbano informando-o das potencialidades e riscos inerentes aos processos participativos, dando uma linha estratégia de ação ideal, realista, oficial e popular, como num gradiente entre a idealização e a prática. Jürgen Habermas não pode ser considerado um marxista, mas pode ser classificado como um reformista social idealista, e, particularmente no seu livro Para a Reconstrução do Materialismo Histórico se revela sua genealogia presa a Escola de Frankfurt, que pelo menos por teóricos como ANDERSON (Esquerda) e MERCHIOR (Direita) é classificada como inserida no Marxismo Ocidental. Por isto, e relembrando outras tertúlias redutoras de nossa sociedade deve-se afirmar usando um trecho desse livro, que a ampliação dos processos de aprendizagem nas ações interessadas dos grupos subalternos não são alcançadas de forma neutra. Pois, 

"Enquanto Marx localizou os processos de aprendizagem evolucionariamente importantes, que desencadeiam as ondas epocais de desenvolvimento, na dimensão do pensamento objetivante, do saber técnico e organizatório, da ação instrumental e estratégica, em suma, das forças produtivas, existem, entretanto, boas razões para supor que também na dimensão do discernimento moral, do saber prático, da ação comunicativa e da regulação consensual de conflitos de ação se encontram processos de aprendizagem que se manifestam em formas cada vez mais maduras de integração social..." HABERMAS 2016 pág.29. 

A questão aqui me parece ser a busca de formas mais "maduras de integração social", coisa que estamos distantes de alcançar em nossos processos participativos, por conta de raízes culturais autoritárias e autocráticas da sociedade brasileira, mas também por conta de uma certa ingenuidade do pensamento mais progressista, e, ao meu ver, excessivamente idealista. Enfim, sem uma reflexão inicial sobre nossas práticas sobre os processos de aprendizagem dos grupos precarizados ou subalternos na participação, fica-se perdido pois não encontra premissa ou sentido. Num outro aspecto, quanto as CEPACs, que estão previstas no Estatuto da Cidade me parece que permanece de forma generalizada em nossa sociedade, a naturalização dos processos de produção da habitação, como mercadoria e não como direito na cidade brasileira. O desenvolvimento excessivo em altura (tipologia Torre) penaliza de sobremaneira a cidade do ponto de vista da paisagem, da segurança, do impacto ambiental e da vizinhança, mas tal pressuposto, penso eu, é celebrado, mesmo pelos estratos subalternos, uma vez que reproduzem de forma alienada a ideologia da classe dominante. Enfim, há um grande retrocesso em nossas reflexões sobre a cidade, suas relações de poder, sua alienação sobre seu direcionamento, e repito aqui um trecho de um texto meu sobre a ética do pluralismo, que está no meu blog; "Há a presença de quatro proposições apontadas pelo pensador liberal de Oxford na Inglaterra, Isaiah Berlin, que celebram o que ele mesmo define como, a "Ética do Pluralismo", no que concerne as premissas teóricas que devem ser utilizadas; 

1. A escolha é inevitável, 

2. A escolha de uns e outros é sempre limitada, 

3. As pessoas gostam da escolha única, pois conviver com politeísmo teórico é sempre difícil, mas deve-se buscar uma crença inabalável na capacidade de fecundidade dos antagonismo, e 

4. Convicções são sempre provisórias, no entanto, isto não significa e nem é motivo para não defendê-las de forma veemente."

BIBLIOGRAFIA:

BERLIN, Isaiah - Limites da utopia, : Capítulos da história das ideias - São Paulo, Companhia das Letras 1991

CUTHBERT, Alexander T. - Compreendendo as cidades: método em projeto urbano - São Paulo, Editora Perspectiva 2006

DUAYER, Mario - Teoria Social, Verdade e Transformação: ensaios de crítica ontológica - Editora Boitempo, São Paulo 2023

GONZALES, Talita Anzei e COMARU, Francisco de Assis - Cidades e Periferias brasileiras: violência despossessão e insustentabilidade: o tempo é agora!, em CHOMSKI, Noam - Em como para o relógio do Juízo Final - São Paulo, ICL 2023

HABERMAS, Jürgen - Para a Reconstrução do Materialismo Histórico - São Paulo, UNESP 2016

MARX, Karl - Posfácio da segunda edição do O Capital: crítica da economia política, Livro 1: O processo de produção do capital - São Paulo, Boitempo 2013

VAISMAN, Ester e FOTES, Ronaldo Vielmi em LUCKÁCS, Georg - Apresentação de A destruição da razão - São Paulo, Instituto Luckács 2020

Veja Rio - Matéria Cidade de Niterói tem o pior trânsito do país - disponível em https://vejario.abril.com.br/cidade/niteroi-tem-o-pior-transito-do-pais-segundo-aplicativo-99/mobile acessado em 25/11/2023


domingo, 14 de julho de 2024

Lukács e a Arquitetura, um livro de Juarez Duayer em confronto com Manfredo Tafuri

"Uma das teses básicas deste livro é a seguinte: não existe visão de mundo “inocente”. Em nenhum sentido tal visão de mundo existe, mas especialmente em relação ao nosso problema e precisamente no sentido filosófico: a tomada de posição a favor ou contra a razão é decisiva quanto à essência de uma filosofia enquanto filosofia, no seu papel junto ao desenvolvimento social." LUCKÁCS, 2010 página 10


Retorno ao livro do Professor Juarez Duayer, Lukács e a Arquitetura, que já foi comentado aqui no blog, pela complexidade de seu conteúdo e pelos impactos dos seus posicionamentos para o nosso campo da Arquitetura e Urbanismo. No primeiro texto, assinalei a partir do projeto e da materialização da cidade de Brasília, nossa capital federal, as perversas apropriações da lógica capitalista na cidade moderna contemporânea planejada ou não. O trajeto do texto anterior parte das reflexões de György Lukács. coletadas por DUAYER, 2008, se centrando nas especificidades da arquitetura dentro da Estética do autor húngaro. Mas na nota 1, ao final do texto no meu blog emerge a complexa questão colocada pela Estética de Lukács, e corroborada por Duayer de que; "O fato de Lukács reconhecer como veremos, somente a autenticidade das manifestações arquitetônicas até o período do Renascimento..." O que denota, para Lukács, que no modernismo, a cidade e a construção haviam sido degradadas a mero valor de troca, o que bloqueia a autenticidade estética das obras arquitetônicas, retirando-lhe a capacidade do reflexo artístico. Na mesma nota apontava, que esse posicionamento encontrava analogias com as formulações pessimista de Tafuri, tanto na sua celebração do Renascimento, como também na profunda desconfiança que lançava sobre as vanguardas do século XX. Na mesma nota foi destacado uma citação de Manfredo Tafuri no livro Sobre el Renascimiento; principios, ciudades, arquitectos, no qual era destacado o caráter fragmentário da arte moderna (Le Corbusier e Klee), que já prenunciava a incapacidade de fazer frente a totalidade social. A questão é extremamente complexa, e apesar de chancelada pela crítica mais recente (TAFURI, 1979, 1985, 1995), vem sendo a meu ver reduzida e simplificada, como se ela fosse mero fruto de uma redutora ortodoxia lukacsiana, que refletia sua filiação incondicional ao realismo. A origem do posicionamento de Manfredo Tafuri, diferentemente da do filósofo húngaro, me parece estar vinculada a crítica da Escola de Frankfurt (Horkheimer, Adorno e Benjamin), que é constante referência do crítico italiano nos seus estudos. E, também como enfatiza Otília Arantes, num texto de 1994, para o III Seminário de História da Cidade, no qual destaca a crença desfeita nas linguagem altamente formalizadas - semiologia e pós estruturalismo - que Tafuri celebrou nos anos 60/70;

"Em resumo, visto que esta correção de rumo é fundamental e será reiterada na introdução de seu livro A Esfera e o Labirinto, de 1980: o que de fato teria ocorrido, num momento (anos 1960/70) em que o estudo das linguagens altamente formalizadas, de simulação ou programação, em que ocorreu um avanço extensivo da cibernética — tudo isto diretamente ligado à utilização capitalista da automação —, é que a arquitetura, através da semiologia, pretendeu recuperar seu significado. O que é uma contradição, diz Tafuri, visto que, reduzido a signo puro e, sua própria estrutura, a relações tautológicas que remetem para si mesmas num máximo de “entropia negativa”, não podem recuperar para si significados “outros” através de técnicas de análise que partem precisamente da aplicação de teorias neopositivistas. Estas jamais poderão explicar a obra, quando muito — talvez sua única contribuição — explicitar a sua funcionalidade no universo da integração." ARANTES, 2020, página 22

Pelo que me consta, as referências de Manfredo Tafuri remetem muito mais à Escola de Frankfurt, como já assinalado, ao pós estruturalismo de Michel Foucault, e ao niilismo de Friedrich Nietsche, mas também são carregadas do mesmo desencantamento de Gyögy Luckács, com relação as possibilidades de inserção crítica da arquitetura nas condições operativas de nossa sociedade atual. Houve segundo eles a predominância de teorias regressivas, ideologias conservadoras que favoreceram formas de individuação favoráveis a mercantilização da vida São dois autores distintos, de tempos distintos, ambos pautados pelo marxismo; um mais ortodoxo, o filósofo Luckács (1885-1971), mas nem por isso defendendo postulações mecânicas e confortáveis, e o outro, no campo da arquitetura e do urbanismo, Tafuri (1935-1994), interessado como Luckács em delimitar o pensamento conservador e regressivo. Ambos racionalistas, entendendo essa razão não como um absoluto, autônomo, mas condicionado pelas contradições inerentes a vida social, pensando como uma plataforma fundamental para a produção de uma humanização crítica, ou a transformação decisiva da sociabilidade. Ambos, como ideólogos acreditavam numa capacidade didática e pedagógica  da atividade intelectual, que pela arte, ou pela ciência, ou pela política era capaz de fornecer condições e oportunidade aos indivíduos de resistir a mercantilização alienante da vida. Ambos, fizeram auto críticas a suas próprias obras, revendo suas posições; Luckács ao creditar a História e Consciência de Classe um acento demasiado idealista e hegeliano, e Tafuri ao considerar Teorias e História da Arquitetura como uma ilusão neo positivista nas estruturas da linguagem. É importante assinalar o absoluto desencantamento dos dois autores, um Luckács propondo enfrentar esse problema a partir de um retorno a Marx, o outro Tafuri se retira da crítica da arquitetura contemporânea, se afirmando apenas como historiador, notadamente do Renascimento.

"Comecei minha verdadeira obra aos setenta anos. Parece que existem exceções nas leis materiais. Nesse domínio sou adepto de Epicuro. Fui idealista, depois hegeliano. Em História e consciência de classe, tentei ser marxista. Durante muitos anos, fui funcionário do Partido Comunista, em Moscou. Pude reler de Homero a Górki. Até 1930, todos os meus escritos consistiram em experiências intelectuais. Depois foram esboços e preparativos. Ainda que ultrapassados, esses escritos serviram de estímulo a outros. Pode parecer estranho que eu tenha tido de esperar setenta anos para me dedicar à redação de minha obra. Uma vida não é suficiente. Recorde Marx, esse gênio colossal. Apenas conseguiu dar um esboço de seu método. Não se encontram em sua obra todas as respostas. Ele pertencia a seu tempo. Utilizo seu método para minha obra sobre a estética. Se ele vivesse hoje, estou persuadido de que escreveria sobre a estética." LUCKÁCS, 2020, pág.29 e 30

"Para Tafuri, também a ideologia possui uma estrutura própria (afinal ele nunca abriu inteiramente mão desta abordagem), mas é preciso passar da crítica meramente descritiva para a explicitação das características e funcionalidade relativamente aos fins gerais que as forças dominantes se propõem. É preciso proceder não apenas a uma crítica da arquitetura como produção ideológica, mas da própria crítica e de seus instrumentos de análise, por exemplo, a semiologia. Isto é, de que maneira a crítica entra nos processos de produção. “A combinação entre antecipações intelectuais, modos de produção e modos de consumo há de fazer ‘saltar’ a síntese contida na obra”, há de evidenciar sua ambiguidade. O que por sua vez se reflete numa “fecunda incerteza” da própria análise — a necessidade de voltar sempre de novo sobre o material examinado e sobre si mesmo." ARANTES 2020, pág.23

A questão é o retorno ao Renascimento, que tanto Luckács, quanto Tafuri retomam como sendo um tempo idílico, no qual a cisão humana pelas especializações variadas ainda não havia gerado o homem moderno compartimentado e preso ao discurso ideológico. Três temas centrais são a alienação, a objetivação e a coisificação que produziram e reproduzem as condições de nossa atual existência, medíocre, improdutiva e burocratizada, pela perda da administração de nosso próprio tempo. Para Tafuri, a ideologia da projetação e do plano, aplicada ao âmbito da cidade moderna representou apenasa a busca de eficência do valor de troca. Enquanto, para Luckács a trincheira se centrava num retorno a Marx e ao realismo, não como um esteticismo desvinculado da ética, mas como um processo compositivo, que nos faria compreender a dimensão social do ser.

BIBLIOGRAFIA:

ARANTES, Otília - Manfredo Tafuri, por uma crítica da ideologia arquitetônica, 1994-2015; A arquitetura da cidade, um ponto de vista e A "dialética negativa" de Manfredo Tafuri - um diálogo com Asor RosaSentimento da Dialética (sentimentodadialetica.org), acesso em julho de 2024

DUAYER, Juarez - Luckács e a Arquitetura - Niterói, EDUFF 2008

LUCKÁCS, György - A Destruição da razão - São Paulo, Instituto Luckács, 2010

LUCKÁCS, György - Essenciais são os livros não escritos: últimas entrevistas 1966-1971 - São Paulo, Boitempo 2020

TAFURI, Manfredo - Teorias e História da arquitetura - Editorial Presença Lisboa 1979 

TAFURI, Manfredo - Projecto e Utopia; arquitetura e desenvolvimento capitalista - Editorial Presença Lisboa 1985 

TAFURI, Manfredo - Sobre el Renascimiento; principios, ciudades, arquitectos - Editôra Cátedra Madrid 1995 


quinta-feira, 7 de março de 2024

Antropoceno ou Capitaloceno, conceitos em disputa, ampliação ou redução das racionalidades


Afinal, vivemos uma nova era geológica denominada Antropoceno, na qual os impactos da atividade humana generalizada sobre o planeta atingem a dimensão de uma Era Geológica, fazendo-nos superar o Holosceno, decretando uma crise ecológica nunca vista. Ou, estamos diante do Capitaloceno, uma era na qual a produtividade capitalista, o extrativismo desenfreado, a expansão do imperialismo, a ampliação da mercantilização da vida atinge várias áreas do planeta, enfim uma ordenação social específica, que determina uma crise ecológica sem precedentes. As duas versões vem sendo debatidas, e trazem cada uma, um alinhamento ideológico, um critério de juízo sobre a Crise Ambiental que vivenciamos; o Antropoceno aparece como uma construção das ciências naturais, enquanto o Capitaloceno emerge de uma visão das ciências sociais. As duas conceituações não são excludentes, mas reforçam posicionamentos e alinhamentos ideológicos; o Antropoceno responsabiliza a humanidade como um todo pelo que alcançamos, enquanto o Capitaloceno responsabiliza os beneficiários de um sistema econômico, social e político, que emerge num determinado tempo histórico. As mudanças climáticas, a extinção de espécies animais, o advento de biomas naturais modificados e desequilibrados são frutos de um longo processo de autonomização da espécie humana em relação a natureza? Ou são produzidas por um desenvolvimento predatório, com excesso de desperdícios e não absorção de dejetos e subprodutos de um processo produtivo exponencial, cujo os beneficiários se restringem a uma minoria da humanidade? Há aqueles que se voltam contra a razão ocidental, eurocêntrica que a partir do século XV, se lançou a conquista do mundo, impondo uma lógica linear redutora, instrumental, incapaz de perceber a complexidade da vida. A modernidade, que frutificou no Renascimento, reconstruindo a ontologia da cultura greco romana que impulsiona uma racionalidade que se restringe a alcançar fins redutores e limitados. Que racionalidade é essa? A racionalidade é a mesma para toda a humanidade? Para Max Weber existiam dois tipos de racionalidades; uma mais completa ou integral era a ação racional valorativa, e outra mais limitada e restrita era a ação racional instrumental, o autor vinculava essa segunda racionalidade instrumental à modernidade. Há também em Jürgen Habermas, uma distinção importante entre razão instrumental e razão intersubjetiva; a primeira é dominada pela restrição individual ou interesses de grupos restritos e sua objetivação é ditada pela manipulação de meios adequados a fins. Enquanto, a segunda racionalidade contempla ou negocia com o coletivo e objetiva-se por valorizações morais e éticas, onde a gestão dos recursos disponíveis é problematizada e os benefícios são ampliados socialmente. Habermas ao contrário de Weber, se mantinha como defensor da racionalidade renascentista e iluminista da modernidade, partindo da ideia de Kant do universalismo da razão(1), além das identidades, e impulsionada pelo auto esclarecimento.

"Não podemos excluir de antemão que o neoconservadorismo ou o anarquismo de inspiração estética está apenas tentando mais uma vez, em nome de uma despedida da modernidade, rebelar-se contra ela. Pode ser que estejam simplesmente encobrindo com o pós esclarecimento sua cumplicidade com uma venerável tradição do contra-esclarecimento." HABERMAS, 2002, pág.8

Mas além, do Capitaloceno como expressão questionadora do Antropoceno, também surgiram outras expressões que além do Capitalismo localizam o problema em outras ordenações sociais como; o Faloceno (machismo), o Racismoceno (racismo), o Plantatioceno (colonialismo), ou ainda Necroceno (necrofilia). Enfim, o valor de todos esses termos emerge do mérito de identificar no conjunto da humanidade, os principais responsáveis ou beneficiários de uma racionalidade redutora instrumental de meios-fins, procurando distinguir em consequência, os principais prejudicados, a sub humanidade deixada ao largo pelo mesmo sistema produtivo. É claro as correspondências entre os impactos da crise climática e as atividades antrópicas principalmente as que decorrem da concentração de Gases do Efeito Estufa (GEE) na atmosfera, majoritariamente provenientes da queima de combustíveis fósseis, incrementados pelos processos históricos de industrialização decorrem ao final da distribuição desequilibrada de oportunidades fomentada pelo capitalismo, pelo machismo patriarcal, pelo racismo, pelo colonialismo, pelo imperialismo. No entanto, é necessário manter um certo cosmopolitismo da consciência humana geral, identificando que a maioria dos seres humanos são despossuídos e foram colocados à margem como uma sub espécie, que não desfrutou e segue sem desfrutar dos benefícios de uma ordenação sócio-cultural excludente, o capitalismo. É importante nesse contexto, a identificação do neoliberalismo hegemonizado pela globalização capitalista como promotor e responsável central dos riscos ambientais que corremos, de forma absolutamente diferenciada, pois são as populações do Sul Global que mais serão atingidas. O sistema de operação do neoliberalismo naturalizou, que um número pequeno de interesses particulares controle a maior parte da produção e reprodução da vida social no planeta, apurando benefícios individuais particulares, de maneira mais explícita a partir dos governos de Thatcher (1979) e Reagan (1981). Tudo isso fica atestado de forma clara pelo enorme crescimento da pobreza, da desigualdade social e econômica nas sociedades e entre nações, fruto da expansão capitalista, do imperialismo e da hegemonia financeira-produtivista. Enfim, é necessário reconhecer que as políticas de afirmação identitária não tem conseguido fazer frente, oposição consistente, ou construir alternativas ao módus operandi do neoliberalismo. A partir da perspectiva crítica da história é preciso começar a reconhecer que o mundo do trabalho - sindicatos, associativismo de categorias, partidos trabalhistas e ligas camponesas - eram mais eficientes na contenção dos interesses predatórios dessa minoria endinheirada, do que as políticas identitárias atuais. Será preciso combinar, com grande sensibilidade, uma convergência geral de revalorização do mundo do trabalho e das formas variadas de reprodução da vida, questionadoras do acúmulo desregrado de renda de uma minoria, e ao mesmo tempo, frutificar as lutas identitárias específicas dos subalternos do mundo. Uma busca aparentemente paradoxal, entre a homogenização dos despossuídos do mundo e a heterogenização das identidades variadas do mundo.

"0 neoliberalismo é o paradigma econômico e político que define o nosso tempo. Ele consiste em um conjunto de políticas e processos que permitem um número relativamente pequeno de interesses particulares controlar a maior parte possível da vida social com o objetivo de maximizar seus beneficios individuais. Inicialmente associado a Reagan e Thatcher, o neoliberalismo é a principal tendência da politica e da economia globais nas últimas duas décadas, seguida, além, da direita, por partidos politicos de centro e por boa parte da esquerda tradicional [...]. As consequências econômicas dessas políticas têm sido as mesmas em todos os lugares e são exatamente as que se poderia esperar: um enorme crescimento da desigualdade econômica e social, um aumento marcante da pobreza absoluta entre as nações e povos mais atrasados do mundo, um meio ambiente global catastrófico, uma economia global  instável e uma bonança sem precedente para os ricos. Diante desses fatos, os defensores da ordem neoliberal nos garantem que a prosperidade chegará inevitavelmente até as camadas mais amplas da população - desde que ninguém se interponha a política neoliberal que exacerba todos esses problemas!" CHOMSKY, 2002, p. 3.

A crença de que o modelo do neoliberalismo promoveria a distribuição de riqueza e um desenvolvimento mais equilibrado entre as nações, típica das décadas de 80 e 90, já se desfez pela recorrente emergência de crises financeiras, aumento da pobreza e da inequidade ao longo desse tempo. Mas, ainda nos confrontamos com agentes defensores dos paradigmas neoliberais, particularmente na grande imprensa, tais como; valorização da competição geradora de eficiência, a desregulamentação estatal do mercado, o fomento a iniciativa privada desvencilhada das externalidades, supervalorização do Mercado como reino da virtude, e subvalorização do Estado como reino da corrupção e da ineficiência. O sistema desconsidera de forma recorrente a manutenção das condições de vida, em nome de uma eficiência da competitividade, com a primazia da razão técnica, que não leva em conta as externalidades humanas ou ambientais. Será preciso superar o identitarismo branco e europeu, questionando a modernidade carregada de uma racionalidade redutora de meios e fins, rompendo com o colonialismo que dita verdades sem pensar e sentir os meios de produção e reprodução da vida. A própria compreensão da história da humanidade precisa ser ampliada, para envolver a todos da espécie, reconsiderando as relações entre centro e periferia. A clássica subdivisão entre História da Antiguidade Pré Clássica, Clássica, Idade Média e Modernidade, que carregam o eurocentrismo deve ser questionada. Apenas, no espaço do ocidente deve-se revalorizar as contribuições; Árabe para as ciências modernas e a própria preservação do Aristotelismo, a Epistemologia dos povos originários da América, com sua lógica cíclica centrada na reprodução da vida, e a Africana que rejeita o pathos da demolição e de não aceitação do outro e do diverso (2). A consideração reproduzida em compêndios de História da arte, arquitetura e urbanismo, que se apresenta como universal, mas que recalca o imenso período de 5 século e meio, que vai da Queda do Império Romano do Ocidente (476d. C.) até o século X (1.000d.C.) na Europa é um testemunho cabal da desconsideração com a expansão árabe no norte da África e na Península Ibérica, ocorrida nesse momento. Manifestações como a Alhambra em Granada, ou o Califado e a Mesquita de Córdoba são desconsiderados, por não pertencerem ao esquematismo colonizador da Europa hegemônica.

"O domínio epistemológico tem na razão instrumental sua fundamentação. A razão nessa perspectiva soberana, totalitária, tornou-se, no Ocidente, a racionalidade científica que, como modelo totalitário, nega o caráter racional de todas as outras formas de conhecimento que não tiverem como critério os princípios epistemológicos e regras metodológicas da epistemologia dominante. Funciona como um acontecimento apropriador, como diria Heidegger. Isso nos leva a crer que os processos de 
descolonização que se iniciaram, historicamente, como um processo de libertação das colônias formação de Estados-nacões independentes, hoje devem continuar com a libertação de uma colonização epistêmica que, se efetivada, abriria espaço para a concepção de outra razão, de outra racionalidade ou ainda de outras formas de operação humanas para produzir conhecimento científico e filosófico. A descolonização colocaria fim a um processo histórico de implantação de poder, ou ao menos o enfraqueceria." PIZA e LIMA 2023 pág.113

A modernidade carregada de colonialismo precisa ser superada, por uma modernidade sem colonialidades brancas, uma questão complexa, que não deve descambar para uma simplificação redutora, da mera desqualificação como um todo, da contribuição da Europa. A divisão pseudo científica da história "humana" em Idade Antiga (antecedente greco-romano), a Idade Média (preparatória ou crítica) e Idade Moderna (Renascimento Europeu) é uma ordenação ideológica redutora, que não corresponde a sua pretensão de ser "humana" ou universal. Uma parte dessa ordenação serve a reprodução da razão instrumental, com claras finalidades de reprodução do acúmulo do capital, do imperialismo e da concentração de renda. Há uma cruel lógica capitaneada pelo avanço tecnológico, que como assinalou Franz Hinkelammer opera como um bicicleta ergométrica, que independente da velocidade não sai do lugar. O ambiente no capitalismo globalizado e neoliberal transmite a impressão de mudança constante e inevitável, sem nada mudar, mantendo sempre a mesma catástrofe de exclusão e concentração de renda. O marco histórico das bombas de Hiroshima e Nagasaki em 1945, assinalam aquilo que alguns autores consideram como a ampliação da "natureza barata"(3) humana ou natural, quando se processa uma imensa expansão do capitalismo pelo mundo e da razão instrumental de meios e fins. A implantação de um raciocínio de guerra, afinal quanto custa a destruição da Amazônia? Segundo a racionalidade instrumental de meios e fins, apenas os custos da mão de obra, das serras elétricas, do transporte da madeira, e nada mais, pois a venda da madeira que consegue superar esses custos, se apresenta e mensura o lucro. Apenas, a partir daí, no segundo pós guerra (4), é que emerge a consciência dos limites dos recursos do planeta, da finitude da Terra, que apesar de já operar desde a exploração da prata em Potosí na Bolívia, ou do ouro em Minas Gerais no Brasil, nos séculos XVI e XVII, só alcançará nesse ponto a materialidade do estrago planetário, ou sua consciência. As consequências para o campo da arquitetura e do urbanismo são notórias e incontornáveis, pois fica claro a relação entre realidade e projeção, entre contexto e formulação do devir, entre terreno e projeto, entre cidade e plano, agora condicionada pelo "automatismo do mercado". Já não se fala mais em corrigir o mercado, em respeito a satisfação das necessidades humanas, na lógica neoliberal deve-se agora adaptar a "realidade" às imposições do mercado, como algo automático, insuperável e repetido ao infinito. Com isso, parece que estamos indo rapidamente em direção a um suicídio coletivo, dado por essas condições de operação pouco sustentáveis ambiental e socialmente. Afinal, o que será das próximas gerações? O esloveno Slavoj Zizek tem uma irônica e trágica colocação assinalando nossa corrente atitude suicida; 

"a nós nos parece muito mais fácil imaginar o fim do mundo do que uma pequena mudança do sistema político. A vida na terra possivelmente vai acabar, mas o capitalismo de algum modo continuará." DUAYER 2023 pág.89

NOTAS:

(1) Imanuel Kant escreveu em 1784 um opúsculo denominado "Ideia de uma história universal com um propósito cosmopolta", no qual se contrapõe a ideia de "sujeitos singulares" e o "conjunto da espécie" para a determinação de uma "liberdade da vontade", que acaba por conformar as disposições naturais para o uso da razão na humanidade.

(2) As epistemologias decoloniais do Sul Global, fomentadas por autores como; Enrique Dussel, Juan José Bautista, Franz Hinkelammert, Henry Mora Jiménez e Achille Mbembe.

(3) Jason Moore se refere a "Cheap Natures" para se referir a forma de apropriação do colonialismo, que explora naturezas humanas e naturais na periferia do mundo de baixo custo, numa atitude predatória de segregação.

(4) O primeiro autor a se referir ao Antropoceno no início dos anos 2000 foi o prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, segundo MOREIRA e GARRIDO, 2024 pág140. Os mesmos autores fazem referência  a "Grande Aceleração", ocorrida após a década de 50, após as bombas atômicas como uma época de aceleração da industrialização e urbanização.

BIBLIOGRAFIA:

BAUTISTA, Juan José - Hacia la descolonización de la Ciencia Social Latinoamericana - La Paz, Rincón Ediciones, 2012

CHOMSKY, Noam - Como parar o relógio do Juízo Final? - São Paulo, Instituto do Conhecimento Liberta (ICL), 2023

DUAYER, Mario - Teoria Social, Verdade e Transformação: ensaios de crítica ontológica - Editora Boitempo, São Paulo 2023

__________, Noam - O lucro ou as pessoas - Rio de Janeiro, Bertrand Russel, 2002

DUSSEL, Enrique - 1492; el encobrimiento del otro - La Paz, Plural 1994

________, Enrique - Ética da libertação: na idade da globalização e da exclusão - Petrópolis, Editora Vozes, 2000

HINKELAMMERT, Franz e JIMÉNEZ, Henry Mora - Hacia una economia política para la vida - Costa Rica, San José, UNA Economía y Sociedad n.21 2005

MBEMBE, Achiles - Necropolítica: biopoder, soberania, Estado de exceção, política da morte - São Paulo,  N-1 Edições, 2016

MOREIRA, Danielle de Andrade e GARRIDO, Carolina de Figueiredo - Uma nova época: Antropoceno ou Capitaloceno? Contexto histórico e desafios contemporâneos da crise climática - São Paulo, ICL, 2023

PIZA, Suze e LIMA, Bruno Reikdal de - Racionalidade e economia no fim dos tempos - São Paulo, Instituto do Conhecimento Liberta, 2023

HABERMAS, Jürgen - O discurso filosófico da modernidade - São Paulo Martins Fontes 2002

sexta-feira, 1 de março de 2024

As origens da arquitetura, um livro notável

Figura 1: Cronologia da Pré História, com a distinção entre
o Paleolítico (200.000 a.C. até 18.000a.C.),  o Neolítico
(18.000a.C. até 5.000a.C.) com a Revolução Agrícola e a
Idade dos Metais (5.000a.C. até 4.000a.C.) com a Metalurgia
e a Rev. Urbana

O texto a seguir é fruto da leitura do livro de Leonardo Benevolo e Benno Albrecht, que tem como título; "As Origens da Arquitetura", uma obra notável impulsionadora de questões fundamentais para operação da projetação contemporaneamente. Já, há alguns anos sou responsável pela cadeira de Teoria e História da Arquitetura 1 (THArq1) na Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF), que abarca um período longo, entre o advento da espécie humana, ou das primeiras manifestações de expressão pictórica nas cavernas ou de marcação territorial no Paleolítico (2,5 milhões de anos antes de Cristo), até o Renascimento Italianos nos séculos XIV, XV e XVI na era cristã. Um período extremamente extenso e complexo, no qual a humanidade constrói, transmite, apaga, recupera e retoma técnicas construtivas diversificadas, que interagem com várias formas de organizações sociais, constituindo o patrimônio da humanidade. Essa noção de Patrimônio Construído Comum, que perpassa esse longo período carrega a ideia de que a experiência humana em sua auto construção, ou na ampliação de sua humanização é um processo contínuo compartilhado, onde as tecnologias são apropriadas pela ideia kantiana de História Comum da Humanidade. Essa disciplina THArq1 era ministrada pelo Professor Juarez Duayer, que gentilmente forneceu me todo seu material didático e de trabalho, e a quem, sou extremamente grato por seus apontamentos, bibliografia e conceituação. Aqui nesse texto, pretende-se abordar o grande período da Pré História, que se refere ao tempo anterior a Idade Antiga, quando ainda não há escrita. Já houve aqui no blog, uma abordagem desse período no texto de 13 de outubro de 2021; "O filme a Guerra do Fogo e a disciplina de  Teoria e História da Arquitetura 1 (THArq1)", que aborda o citado filme do diretor Jean Jacques Annaud de 1981. Esse imenso período, conforme mostra a cronologia de 200.000a.C até 4.000a.C., que está subdividido em três partes. O primeiro período, o Paleolítico quando a espécie humana é caracterizada pelo nomadismo e por atividades extrativistas como a caça e a pesca e pelo aparecimento dos primeiros utensílios de pedra. O segundo trecho é o período do neolítico, quando ocorre a revolução agrícola, quando se desenvolve o início da fixação dos grupos humanos em sítios específicos em assentamentos classificados como aldeias. O terceiro período nomeado como Idade dos Metais, quando aparecem os primeiros utensílios de ferro e cobre, a metalurgia, e a Revolução Urbana, que determina uma aceleração incrível da apropriação de tecnologias pela humanidade, até alcançar o advento da escrita, que determina o final da pré história e o início da História. Esse período, apesar de distante é de suma importância para a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo, por representar o advento da modificação do meio natural e o desenvolvimento da construção do abrigo, da casa, da cidade e da paisagem humana. É o período de artificialização ou da desnaturalização do humano, tanto pela confecção de utensílios, como pela formulação do abrigo, como um lugar que se constrói. Inicia-se aí a humanização do homem, que se manifesta na sua autonomização com relação ao meio natural, uma diferenciação que não mais reconhecerá na natureza a capacidade de abrigar e acolher a sua espécie. Começa um processo de acumulação contínua de tecnologias, saberes e pensamentos, que produz uma capacidade crescente de compreensão do mundo natural que passa a ser manipulado para seu próprio proveito e conforto. Emerge a arquitetura, o urbanismo, o paisagismo e a manipulação territorial em benefício do grupo humano, que pelas Revoluções Agrícola e Urbana materializam uma fenomenologia humana, parcialmente destacada da animalidade. Nesse sentido, em 1881, o arquiteto William Morris nos forneceu uma das mais precisas definições do que é a arquitetura, o urbanismo e o paisagismo, numa palestra intitulada, "The Prospects of Architecture in Civilization".

"Arquitetura é uma concepção ampla, pois abarca todo o ambiente da vida humana. Não podemos subtrair-nos a ela enquanto fizermos parte da sociedade civil, porque a arquitetura é o conjunto das modificações e alterações introduzidas na superfície terrestre como vistas as necessidades humana, com a única exceção do deserto puro [...]  citação de William Morris em BENÉVOLO e ALBRECHT 2002 pág.7

A ideia de constituição de uma sociedade colaborativa humana, que desemboca numa sociedade civil regrada e pautada por princípios de convivência, que garantem, e ao mesmo tempo promovem a autonomização do homem frente ao natural, identificando aí uma força diferenciadora. E, que concentram nessa atitude, nesse ambiente construído, modificado e adequado a sua existência, a seu comportamento diferenciado com relação ao natural, o próprio fator de uma reprodução da espécie autonomizada. E, prosseguem Leonardo Benévolo e Benno Albrecht, destacando o afastamento da tradição de certas definições culturais arraigadas da arquitetura, que destacaram a diferenciação entre necessidade e contemplação estética, como fenômenos distintos. E, mais ao fato de que as transformações humanas do meio natural estão carregadas de um espírito empreendedor impossibilitado de distinguir necessidade e arte no fazer humano.

"[...]A uma ideia restrita de arquitetura, historicamente qualificada, continua ser fiel, como se sabe, um grupo ínfimo de arquitetos contemporâneos, por um intuito programático preciso" BENÉVOLO e ALBRECHT 2002 pág.7

Essa definição materialista da arquitetura, de William Morris, que é compartilhada por alguns profissionais e pensadores do século XIX, e que questiona claramente a postura idealista, que encara o ofício como uma manifestação cultural compartilhada pela humanidade como um todo. E, que se distancia do posicionamento mais corriqueiro, idealista, que considera arquitetura e as transformações "introduzidas na superfície terrestre", apenas aquelas, que possuem intencionalidade estética, longe do império da necessidade. Nessa visão, necessidade e intencionalidade estética se misturam, mantendo-se a utilidade operacional e contemplativa dos objetos num interação dialética. Instrumentação e contemplação se somam a partir da capacidade de pré imaginar ou pré figurar - planejar e projetar - antes de realizar, como uma forma de problematizar as escolhas e assim refletir sobre o sentido. Liberdade e necessidade interagem de forma contínua e progressiva, gerando a auto problematização de sua própria existência, das tecnologias já inventadas e as que ainda devem ser inventadas para seu benefício próprio e do seu grupo. Há aqui, um embrião do desenvolvimento futuro da cultura arquitetônica, que se materializará na exposição do Museum of Modern Art (MOMA) de 1964, com curadoria de Bernard Rudovski, denominada "Architecture without Architects", que demonstra o vínculo intrínseco entre construção e cultura pulverizada e compartilhada. Um dos méritos dessa exposição do MOMA foi a apresentação de conjuntos construídos, como determinados vilarejos nas Ilhas Gregas ou em vilarejos africanos, que demonstravam uma profunda interação entre meio ambiente natural e humano, onde a parte e todo conformavam uma expresividade integral. Essa posição, me parece derivar da atitude romântica que nasce da crítica a razão universalista do Iluminismo francês, que resistia a reavaliação do gótico, da Idade Média ou do particular, como uma expressão única de um gênio espontâneo, muito além dos cânones. 

"O estudo da arquitetura passada serviu sempre para estimular a criatividade contemporânea. Basta recordar, no passado próximo, a redescoberta do gótico pelas vanguardas inglesas - John Ruskin, William Morris - da segunda metade do século XIX a releitura do classicismo nas universidade americanas - Rudolph Wittkower, James S. Ackermann, Joseph Rykwert - e por Loui I. Khan e seus discípulos; a reavaliação das vanguardas no início do século XX pelos movimentos revisionistas europeus; a curiosidade omnívora de James Stirling por qualquer achado do passado." BENÉVOLO e ALBRECHT 2002 pág.9

São atitudes que comprovam a permanência do romântico de forma trans temporal, como um posicionamento humano, que muito além de estar localizada num determinado espaço, a Europa Central, o mundo Germânico, ou num determinado tempo, o último terço do século XVIII até a primeira quadra do século XIX perpassa ou corresponde a um estado de espírito da humanidade. O espírito romântico seria a negação da possibilidade de um pensamento absoluto, simétrico, bem arranjado e comportado, que criasse uma ordem racional universalmente inteligível. Esse seria por excelência o mundo do longo período do Paleolítico, quando os padrões estão por ser estabelecidos e a humanidade não tem consciência de si própria. Quando olhamos para nossa cronologia, na Figura 1, percebe-se que os acontecimentos figurativos que chegaram até nós estão concentrados nos períodos; Finais do Paleolítico, a partir de 40.000a.C., Neolítico e na Idade dos Metais, quando a atividade humana ganha capacidade de representar o mundo exterior. Pinturas rupestres nas cavernas, em Lascaux na França, na serra da Capivara no Piauí, Ordenações de Menires em Carnac, Dólmens variados pelo mundo, Stonehenge na Inglaterra, dentre outros, testemunham uma vontade de marcar o território, de domínio sobre a caça, ou de controle do tempo. Nessa observação, há uma clara aceleração da História Comum da Humanidade, chegando até a passagem entre a aldeia e a cidade, da Revolução agrícola à Revolução urbana, como entidades conceitualmente muito diferentes quantitativa, mas principalmente qualitativamente. Na cidade, que difere da aldeia por sua ruptura com o provincianismo das famílias próximas, nasce um cosmopolitismo de convivência entre a diversidade de humanos, propiciando um incrível desenvolvimento tecnológico, pela aceleração do compartilhamento entre diferentes. Emerge uma didática da cidade, que impõe a convivência com a diversidade, a ampliação do respeito a uma certa privacidade única e particular, obtida a partir do anonimato da grande cidade. Um aprendizado com a presença da diversidade entre seres humanos; de crenças, costumes e tecnologias, que é gerador de curiosidades e portanto de um intenso desenvolvimento científico, artístico, poético e político para a humanidade. Mas sigamos com calma;

"Os artefatos físicos arquitetados pelo homem e ainda visíveis compreendem aquilo que não desapareceu no naufrágio das esperanças passadas, consumidas pelo tempo e pelo acaso. Permitem-nos a nós, descendentes afastados, um contato direto, face a face, com os nossos antepassados, transpondo o abismo do tempo. A partir de uma certa época, os artefatos são acompanhados de monografias, que, do ponto de vista histórico geral, estabelecem a diferença entre pré história e história. Mas os objetos construídos tem uma eloquência direta própria, que impressiona de igual modo os olhos de todas as gerações, e que pode passar por cima de qualquer diferenças de culturas e tradições." BENÉVOLO e ALBRECHT 2002 pág.9

A presença silenciosa, sem uma base textual explicativa das Pinturas Rupestres nas cavernas, em Lascaux na França, na serra da Capivara no Piauí, Ordenações de Menires em Carnac, Dólmens em partes variadas do mundo, Stonehenge na Inglaterra, dentre outros, aparecem como enigmas, que nos desvendam a nós mesmos como humanos. Elas parecem ser possíveis através de um longo desenvolvimento, que se processa no Paleolítico e nos marca a morfologia corporal, a configuração atual da mão humana, a postura ereta e a adaptação das cordas vocais marcam o longo processo da transformação e do alcance da condição humana. Emergem três limiares importantes da condição humana. O primeiro, a capacidade de se colocar a si próprio e os objetos exteriores num espaço unitário, compreendido pelos limites da visão humana e por sua possibilidade de ser descrito e apropriado, seria a consciência de si e sua localização espacial. O segundo, a capacidade de denotar simbolicamente os objetos, as coisas e a vida de uma maneira geral, indicando e nomeando aos outros próximos a localização e o tipo. E, o terceiro a capacidade de colocar sobre um suporte qualquer - grutas, pedras, areias, e outros - a representação imagética de qualquer objeto visível, como sustentação e comprovação de seus relatos particulares. Esses limiares são compartilhados e trocados entre os grupos humanos, iniciando um processo infindável de acumulação de experiências e vivências particulares, que vão se desenvolvendo em técnicas, poéticas e abstrações, que explicam o mundo. Essas experiências transcendem o indivíduo, ganham o grupo e passam a ser compartilhadas por gerações, que se sucedem e compartilham técnicas e relatos que sempre são aprimorados ou eleitos; objetos cortantes, objetos que apiloam, objetos que armazenam, vestimentas, etc... O desenvolvimento de trabalhos coletivos, onde as capacidades, as características etárias, sexuais e morfológicas de cada um são medidas e avaliadas, iniciando o processo de divisão social do trabalho. A comunidade ganha em coesão e interação, a medida que alcança objetivos e fins compartilhados de forma comum, realizados a partir do esforço conjunto, muitas vezes realizados em torno de ritmos e cantos, a partir de uma divisão social do trabalho embrionária, medindo e avaliando os potenciais particulares de cada um.

"Ao longo deste caminho entrevê-se uma história relativamente recente, diferente de qualquer outra, que se liga ao presente imprime a todo o percurso intermédio um carácter unitário: o aparecimento da espécie atual, o Homo sapiens sapiens, que substituiu em toda a parte as espécies anteriores. Este resultado parece apontar para a dependência de um acontecimento único e não repetível, e para esta conclusão convergem, até agora, tanto as provas arqueológicas como os estudos feitos ao DNA dos grupos humanos vivos (foi demonstrado que os grupos não africanos têm uma historia que não ultrapassa os 100.000 anos). A espécie atual, nascida provavelmente em África, propagou-se durante o
último período glaciar em todas as terras que emergiram nos dois hemisférios, muitas vezes ligadas entre si pelo abaixamento do nível dos mares, substituindo ou absorvendo os grupos humanos precedentes. Nenhuma particularidade anatômica relevante distingue os nossos antepassados de então dos seis bilhões de descendentes que hoje povoam a Terra. No que respeita aos equipa-
mentos técnicos e culturais tudo mudou, mas não a marca comum, reconhecível nos desempenhos fundamentais. Esta observação é particularmente importante no campo que estamos a tratar, A história geral da arquitetura não se apresenta como um feixe de experiências separadas, mas sim como uma
árvore de experiências conexas e comensuráveis." BENÉVOLO e ALBRECHT 2002 pág.24

É a esse patrimônio comum, que a partir dos 40.000 anos do Paleolítico aparecem para nós hoje em dia, como uma capacidade de abstração e representação, nos mais diferentes substratos como uma arte, tal qual a nossa. Como bem enfatizaram vários críticos, como Giulio Carlo Argan, Ernst Fischer, Bruno Zevi dentre outros, esse fenômeno - a Arte - não nasce primitivo, como esperando evoluir, onde não há possibilidade de qualquer juízo evolucionista. Ela nasce nos maravilhando, como que carregando uma euforia identitária, que invade todos os campos da experiência humana afirmando para todos o advento de algo específico do humano. As interpretações funcionalistas reduzem a sofisticação das representações, a uma necessidade do ganho de coragem para enfrentar feras e manadas que precisam ser caçadas. Ou a entonação de ritmos e cantos, a música primitiva, que suavizavam as tarefas a serem realizadas para se alcançar um maior conforto, mas que já nascem com essa capacidade de gerar empatia dos trabalhos comuns. Certamente, ela também está presente, mas também não se restringem a esse ganho de coragem, ou de entorpecimento há nessas manifestações um compartilhamento de uma capacidade já consciente dos mistérios da vida, da morte, da luz, das trevas, do medo, da coragem, do amor, do ódio. Enfim, uma síntese descritiva feliz dos dramas humanos diante do mundo, no qual o olhar aparece como sentido privilegiado, que nos indica ou permite conhecer melhor, nunca inteiramente mas sempre com um reconfortante sentido de progresso. Nessas representações planares começa a emergir um controle embrionário do espaço e a compreensão de sua capacidade de nos transmitir um sentido. Elementos como uma montanha, um riacho, uma árvore e uma vegetação começam a criar conjuntos, que nos conferem uma compreensão do caminho, uma legibilidade, a identidade de um lugar, que passam a ser valorados. A movimentação passa através desse patrimônio descritivo que identifica particularidades e valores a ser feita com maior segurança, mapeia-se a água, as manadas, os frutos, as ervas, os perigos e os confortos. Logo, já no neolítico emerge a vontade de interferir nesse território formulando a construção de cenários humanizados, marcas na paisagem que assinalam o cemitério das saudades dos antepassados queridos e venerados, pois a morte sempre nos relembra de nossa origem animal, cíclica e misteriosa.

"A modificação do terreno, sobre o qual o homem tem caminhado há centenas de milhar de anos é, por sua vez, rica em implicações intelectuais e emocionais. A imutabilidade da paisagem é um atributo divino, cuja lembrança sobrevive frequentemente nas tradições religiosas subsequentes. Perturbá-la não pode ser um ato desencantado, mas tem um duplo valor: de transgressão de uma ordem existente e de imposição de uma nova ordem. Assim como a referência constituinte dos objetos construídos, é a linha vertical, a referência constituinte do que está agarrado à terra é o plano horizontal. Todos os projetos devem transformar a complexidade tridimensional da superfície de apoio na simplicidade de uma série de planos horizontais, separados por paredes verticais no escarpadas inclinadas. A dialética entre planos horizontais colocados a alturas diferentes põe em evidência um principio importante para toda a história da arquitetura que se segue: as medidas em elevação - as alturas -tem um peso diferente das medidas horizontais - comprimentos e larguras - e atraem uma vez mais a força da gravidade, que dificulta os movimentos em subida e facilita os movimentos em descida. Uma pequena distância entre SO níveis em elevação origina um efeito grandioso, em comparação com as distâncias existentes no terreno plano. A arquitetura das movimentações de terras adquire assim um papel central nos novos cenários inventados pelo homem, e, sobretudo, regula a colocação das construções de todos os tipos em relação ao suporte territorial. Para qualquer construção, pode escolher-se entre três situações, mantê-la ao nível do terreno circundante, elevá-la a um nivel superior ou encaixá-la um nível inferior; para realizá-las é preciso recorrer a três operações diferentes: aplanar o terreno, juntar material para obter uma elevação, ou retirar material para obter uma escavação. Se for possível, essas três operações tornam-se complementares, de modo a compensar entre si as movimentações de terras." BENÉVOLO e ALBRECHT 2002 pág.24

Essas operações correspondem a grande maioria dos sítios arqueológicos encontrados e pesquisados hoje em dia, nas mais variadas culturas e quadrantes do planeta no neolítico, cumprindo segundo teorias recentes; formas de contar o tempo para ordenar a colheita, tais como o nascer do sol, ou o por do sol, ou o solstício de inverno, ou solstício de verão. Arranjos articulados construtivos, paisagísticos em pedras, que muitas vezes envolvem territórios extensos e variados, tais como os túmulos sepulcrais na Dinamarca, ou os menires de Carnac na França, ou Stonehenge na Inglaterra, ou o sítio arqueológico em Caçuenes no estado do Amapá no Brasil. Enfim, antes de produzir sua própria habitação o homem do neolítico desenvolve implantações paisagísticas notáveis que permanecem para nós como enigmas, que são reduzidas por nossa razão instrumental; a formas de contar o tempo.

BIBLIOGRAFIA:

BENEVOLO, Leonardo e ALBRECHT, Benno - As Origens da Arquitetura - Edições 70 Lisboa, 2002