sábado, 11 de fevereiro de 2023

O livro Passagens da Antiguidade ao Feudalismo de Perry Anderson

 

Anfiteatro da cidade de Luca na Itália

O livro Passagens da Antiguidade ao Feudalismo do historiador marxista e professor de história e sociologia da Universidade Católica de Los Angeles (UCLA) Perry Anderson (1938 - ) é um mergulho curioso no período de transição da Antiguidade Clássica (Grega, Helenística e Romana) à Idade Média, principalmente, mas não exclusivamente na Europa Ocidental. Um período pouco estudado pela vertente do materialismo histórico e dialético, a qual o autor está filiado, que majoritariamente se dedica a construir uma compreensão sobre o desenvolvimento do capitalismo, a partir do Renascimento. Isto é, se debruça mais sobre a transição do sistema feudal para o capitalista, portanto no período histórico pós Idade Média, do Renascimento a nossa contemporaneidade, onde se identifica a ampliação, expansão e disseminação do capitalismo e da propriedade privada pelo mundo. O fulcro central do livro é a construção das variadas identidades culturais e nacionais, que emergem na Europa, e conformam essa unidade geográfica contemporânea, a partir da confluência de dois grandes sistemas culturais, de um lado a antiguidade clássica greco-romana e de outro a vertente bárbara. Como, se os dois sistemas culturais tivessem presenças variadas nas diversas unidades geográficas, que hoje compõe a Europa, ou o Ocidente. Tal desenvolvimento, inclusive terá forte atuação na distinção clássica das diferenças estruturais da nossa compreensão das condições Ocidentais e Orientais, que permeiam nossa compreensão do nosso mundo cultural e ideológico contemporâneo, como marcações culturais condicionadas pelos desenvolvimentos históricos particulares. A simplificação redutora, que de forma recorrente os meios de comunicação ocidentais reproduzem, afirmando o ocidente democrático e o oriente autocrático, a partir da contraposição entre impérios orientais autoritários e a antiguidade clássica greco-romana democrática é relativizada e problematizada.

"... gira a todo momento em torno das diferenças estruturais entre Ocidente e Oriente. O Oriente, com suas ricas e numerosas cidades, sua economia desenvolvida, suas pequenas propriedades camponesas, sua relativa unidade cívica e boa distância geográfica dos impactos dos ataques bárbaros, sobreviveu. Já o Ocidente, com sua população mais esparsa  e suas cidades mais fracas, com sua aristocracia pomposa e seu campesinato oprimido, sua anarquia política e sua vulnerabilidade estratégica às invasões bárbaras, soçobrou." ANDERSON 2016, página18

Arles na França e o processo de longo prazo de permanência
da forma

A caracterização do ocidente como dotado de população esparsa, cidades fracas e com uma aristocracia pomposa, contraposto ao oriente com, suas ricas e numerosas cidades, sua economia desenvolvida, suas pequenas propriedades camponesas e sua unidade cívica nos apontam exatamente o reverso do senso comum ocidental, pelo menos no momento da longa transição entre Antiguidade Clássica e Renascimento. A permanência do Império Romano do Oriente, a partir do comando da cidade de Bizâncio ou Constantinopla, atual Istambul, durante todo o período da Idade Média vai também determinar especificidades para esta parte do mundo, que chegam até nós. ANDERSON 2016 pág.166 também assinala a emergência ou "três especificidades estruturais do feudalismo ocidental"; a existência ou sobrevivência de terras aldeãs comunais que representam uma significativa autonomia e resistência camponesa, com impactos na produtividade agrícola. Esta primeira característica, foi inclusive destacada por ENGELS, na Origem da Família, da propriedade privada e do Estado, como um fator de coesão local dos camponeses da Idade Média europeia, que "mesmo sob as mais duras condições da servidão medieval" garantiram meios de resistência, "que nem os escravos da Antiguidade nem os proletários modernos tiveram em mãos." ENGELS 2019 pág 45. Em segundo lugar, e talvez mais importante  para o campo da ordenação espacial é que este arranjo determinará o parcelamento feudal das soberanias, acabando por produzir "o fenômeno da cidade medieval na Europa ocidental." ANDERSON 2016 pág.168 Esta condição, segundo Perry Anderson permitiu e impulsionou nas cidade medievais um desenvolvimento autônomo numa economia predominantemente agrária-natural, que por nunca terem rivalizado em tamanho com as cidades da Antiguidade ou dos impérios asiáticos, escondeu a importância de suas funções mais avançadas dentro da formação social do medievo. Por último, o autor localiza uma ambiguidade ou oscilação na hierarquia instituída nos espaços feudais; "o cume da cadeia também era, em certos aspectos importantes o elo mais fraco." ANDERSON 2016 pág.169 Afinal, o suserano feudal dispunha de recursos econômicos que provinham quase exclusivamente de seus domínios, sendo suas reinvindicações sobre os vassalos tinham uma natureza essencialmente militar, havendo também várias camadas de vassalagem que intermediam seu acesso político à população. Tais condições, irão garantir a celebração romântica, típica dos críticos dos séculos XVIII e XIX no campo da arquitetura e do urbanismo, da Idade Média tão recorrente em autores como PUGIN, RUSKIN, MORRIS, e outros, que celebram uma certa des hierarquização das manifestações construtivas medievais.

"No Império Romano, com sua civilização urbana altamente sofisticada, as cidades se subordinavam ao mando de proprietários nobres que viviam nelas, mas não delas. Na China, vastas aglomerações provinciais eram controladas por burocratas mandarins que residiam em distritos especiais, separados de toda atividade comercial. Em contraste as paradigmáticas cidades medievais que praticavam o comércio e a manufatura eram comunas autogovernadas, com autonomia política e militar frente à nobreza e à Igreja. Marx viu essa diferença com muita clareza e lhe conferiu uma expressão memorável: "A história da Antiguidade clássica é a história das cidades, mas de cidades baseadas na propriedade da terra e na agricultura: a história da Ásia é a de uma espécie de unidade indiferenciada entre campo e cidade (deve-se encarar a grande cidade propriamente dita como um mero acampamento militar do príncipe, sobreposto á estrutura econômica real); a Idade Média (período germânico) começa com o campo como lócus da história, cujo o desenvolvimento prossegue até a oposição entre cidade e campo; a história moderna é a da urbanização do campo e não, como entre os antigos, a da ruralização da cidade."" ANDERSON 2016 pág.169

Esta é uma definição, e um corte histórico no mínimo particular, pois a precariedade representativa da cidade medieval ocidental, lhe garante intrinsecamente uma potência, que decorre da fragilidade histórica da sua representação, no seio daquela transição entre Antiguidade clássica e sociedade medieval. No campo da arquitetura e do urbanismo estas condições materiais erigiram uma forma construtiva que espelha uma certa ausência da localização do poder instituído, e ao mesmo tempo, uma consciência comunitária e coletiva arraigada, que determinou processos construtivos de longa duração no tempo. As cidades medievais, no seu "período germânico" apresentam-nos processos construtivos de longa estratificação no tempo, que muitas vezes eram determinados por um desenho "espontâneo, despreocupado e infinitamente variável" BENEVOLO 1983, pág.255. Antigas estruturas das cidades romanas eram reaproveitadas e reutilizadas como fortalezas, habitação ou praças, como em Arles na França, ou Luca na Itália que se reconstroem no interior do Anfiteatro romano. Ou a cidade de Spalato, denominada Split na Croácia, que é construída dentro do recinto do palácio de Diocleciano, imperador de Roma de 284 a 305 d.C. A cidade medieval é construída a partir da urgência, das necessidades de sobrevivência e de defesa, da presença de uma cultura do construir precária e em crise de transição, mas também a partir de um senso identitário e comunitário notável. A inscrição que encimava a portada de entrada de algumas cidades germânicas - Die Luft Stadt macht Frei, O ar da cidade faz a liberdade - era uma determinação objetiva, que impunha a libertação do escravizado se este tivesse uma permanência longa no território da cidade. Era uma legislação, que identificava o território da cidade, a área intramuros, com o trabalho assalariado, que mesmo que sub valorado, tornava a coerção dos poderosos menos ilimitada. Perry Anderson descreve uma grande variedade de tipologias de formações sociais na época medieval; em função de sua localização, mais próxima ou mais distante das centralidades clássicas, ou de ordem topográfica, onde o solo em terras rochosas e estéreis não fomentaram a organização senhorial, tendendo a conservar bolsões de comunidades camponesas pobres mas independentes. 

"Os historiadores soviéticos Liublinskaya, Gutnova e Udatsova sugeriram com acerto, uma classificação tríplice. De fato, a região central do feudalismo europeu foi aquela onde ocorreu uma síntese equilibrada de elementos romanos e germânicos: em essência, o norte da França e zonas contíguas, o berço do Império Carolíngio. Ao sul desta área, na Provença, na Itália e na Espanha, a dissolução e a recombinação dos modos de produção bárbaros e antigos se deram sob o legado dominante da Antiguidade. Ao norte e ao leste na Germânia, na Escandinávia e na Inglaterra, onde o jugo romano jamais chegara ou apenas fincara raízes superficiais, houve ao contrário, uma lenta transição para o feudalismo sob o domínio nativo da herança bárbara. A síntese "equilibrada" gerou o feudalismo de maneira mais rápida e completa e também proporcionou sua forma clássica - que por sua vez, teve grande impacto sobre zonas periféricas com um sistema feudal menos articulado [...] Por toda a Europa, a dispersão de relações feudais sempre foi desigual em termos topográficos dentro de cada região. Pois, em toda parte, as zonas montanhosas resistiram à organização senhorial, a qual era invariavelmente difícil de impor e desvantajosa de manter em terras rochosas e estéreis. Por este motivo, as montanhas tenderam a conservar bolsões de comunidades camponesas pobres, mas independentes, econômica e culturalmente mais atrasadas que as planícies senhoriais, mas, muitas vezes, militarmente capazes de defender seus esquálidos redutos. [...] Na Escandinávia na Germânia e na Inglaterra anglo-saxã, um campesinato alodial com fortes instituições comunais persistiu até bem depois do começo da crescente diferenciação hierárquica na sociedade rural, do aumento dos laços de dependência e da consolidação de clãs guerreiros em uma aristocracia dona de terras." ANDERSON 2016 pág.174

Enfim, o livro Passagens da Antiguidade ao feudalismo de Perry Anderson é um importante testemunho, para entendermos a variedade e diversidade do território da Europa, desde a península Ibérica até a região das atuais Turquia e Síria, e desde a península Itálica até os países Escandinavos, no norte. Uma leitura que desvenda muito da diversidade de ocupação do território europeu, e suas variadas formas de gerenciar a ocupação humana.

BIBLIOGRAFIA:

ANDERSON, Perry - Passagens da Antiguidade ao feudalismo - Editora UNESP São Paulo 2016

BENEVOLO, Leonardo - História da Cidade - Editôra Perspectiva São Paulo 1983

ENGELS, Friedrich - A origem da família, da Propriedade Privada e do Estado - Editora Boitempo São Paulo 2019

domingo, 22 de janeiro de 2023

O Brasil contemporâneo e a questão do fascismo


O livro de Alysson Leandro Mascaró, Crítica do Fascismo da editora Boitempo São Paulo 2022 é leitura obrigatória para tentar começar a compreender, o apelo da sociabilidade autoritária, fascista e nazista na história do Brasil. Vinculado ao campo do Direito, professor da tradicional Faculdade de Direito da USP  do Largo de São Francisco, na cidade de São Paulo, Mascaró crítica claramente a idealização da justiça, que se generaliza no Brasil. Ao contrário das justificativas morais e éticas, que tendem a enxergar o direito como um instrumental neutro e imparcial, e que acabam levando a idolatria de figuras do nosso judiciário, como foram os casos passados com Joaquim Barbosa ou Sérgio Moro, e agora o mais recente com Alexandre de Moraes. MASCARÓ 2022 defende a ideia de uma sociabilidade capitalista condicionada pela competitividade e a mentalidade empreendedora, que não se coaduna mais com a democracia, com a heterogeneidade social, seja nos tempos históricos do fascismo tradicional italiano, ou do nazismo alemão, ou ainda no contemporâneo do bolsonarismo brasileiro. Embasado numa potente revisão bibliográfica, que envolve autores de diferentes matizes, tais como; Karl Marx (1818-1883), Friedrich Engels (1820-1895), Karl Kautsky (1854-1938), Clara Zétkin (1857-1933),  Vladimir Ulianov Lenin (1870-1924), Leon Trotsky (1879-1940), Josef Stálin (1878-1953), Ernst Bloch (1885-1977),  Nilolai Bukharin (1888-1938),  Evguiémi B. Pachukanis (1891-1937), Antônio Gramsci (1891-1937), Frederich Pollock (1894-1970), Max Hockheimer (1895-1973), Alfred Sohn-Rethel (1899-1990), Michal Kalecki (1899-1970), Franz Neumann (1900-1954), Theodor W. Adorno (1903-1969),  Charles Bettelheim (1913-2006), e Nikos Poulantzas (1936-1979). 

Há uma clara predominância do marxismo nesta bibliografia, no entanto MASCARÓ não se exime de uma avaliação rigorosa dos diferentes posicionamentos, transitando entre o direito, a filosofia e a sociologia. O autor avalia a emergência de práticas autoritárias no tempo histórico, do fascismo e do nazismo, nos anos sessenta na Grécia e na América Latina, e de certa forma não se aprofunda em nossa contemporaneidade, quando fenômenos como o trumpismo e o bolsonarismo celebram o autoritarismo de Estado. Nesta sua interpretação há um afastamento da leitura moralista, ou "juspositiva" àquela que separa a sociedade de forma maniqueísta em cidadãos de bem e cidadãos desqualificados. Para MASCARÓ 2022, é necessário buscar a "raiz material do problema", que segundo ele é a força predominante da sociedade capitalista, a forma mercadoria que se desdobra em valor, que engendra a acumulação e a concentração de renda e que tende a não conviver bem com as liberdades democráticas e os direitos humanos. 

"A forma do Estado e a forma do direito são derivadas da forma mercadoria, então, não pode a forma jurídica ser contrária àquela que é sua forma raiz: a forma do capital. O direito é forma do capital; não pode ele ser contra o interesse da acumulação e do capital. O direito chancela, constitui, organiza o próprio capital, e o fascismo é uma manifestação capitalista, essencialmente capitalista, fundamentalmente capitalista." MASCARÓ 2022 página111

Alguns dos autores acima possuem reflexões notáveis a respeito do autoritarismo, como por exemplo Max Horkheimer, um dos fundadores da Escola de Frankfurt e testemunha da emergência do nazismo na Alemanha, que afirmou de forma algo emblemática; "quem não conseguir falar do capitalismo não deve falar do fascismo." MASCARÓ 2022 pág.111, apud HORKHEIMER Há aqui uma visceral ligação entre capitalismo e nazismo, que nos remete a questão, de que quando o capital quer explorar chegando ao fascismo, ou quando ele quer explorar sem fascismo, o direito sempre lhe dará apoio. Por outro lado, outro pensador contemporâneo da tragédia fascista é Antônio Gramsci, prisioneiro do Cárcere da ditadura de Mussolini, que Mascaró explora pouco, mas que a partir da identificação de uma certa fraqueza da burguesia italiana justifica a adoção e celebração do autoritarismo fascista, como forma de construção do Estado na Itália. Tal formulação representa um ramo importante das interpretações sobre o inerente autoritarismo das sociedades que chegam tardiamente a organização capitalista, como Alemanha e Itália. E, que será tão importante em nossa sociologia de Florestan Fernandes (1920-1995), Leandro Konder (1936-2014), Carlos Nelson Coutinho (1943-2012) e Luiz Werneck Vianna (1938-), que formularam a ideia de revolução burguesa passiva ou sem povo, no Brasil. 

Mas voltando a revisão bibliográfica de Mascaró, percebe-se um especial destaque para o filósofo alemão Ernst Bloch, "o pensador marxista mais brilhante a compreender as categorias que estavam por detrás do surgimento do nazismo" MASCARÓ 2022, pág.112. Há aqui um especial enquadramento na questão dos desejos, das mobilizações das massas e a perda da aglutinação dos pobres alemães pelo pensamento progressista, para o nazismo, devido a um certo temor dos vanguardismos da República de Weimar. No livro, Erbschaft dieser Zeit de Bloch, que pode ser traduzido como Herança deste Tempo, e que ainda não possui tradução para o português, o autor menciona a presença de uma temporalidade em camadas. Isto é, a convivência de temporalidades e comportamentos éticos e morais distintos, onde a libertação de costumes e práticas confronta uma parcela silenciosa da sociedade, que não aceita e sente medo da velocidade das mudanças.

"Suas cidades perdidas lá no interior da Alemanha têm relações feudais, seus pais viviam relações servis, faz muito pouco tempo que deixaram de ter condicionamento social servil, e basicamente sua mentalidade persiste como servil; são religiosos, de um religiosismo primitivo, separando o mundo entre bem e mal. Tal visão de muitas pessoas da Alemanha não é a mesma, no entanto de quem estava em Berlim, que na década anterior ao surgimento do nazismo, a década de 1920 viveu um florescimento cultural, inclusive com uma liberação extraordinária dos costumes até mesmo eróticos, sexuais, Então, o mesmo país de progressismos tinha massas em outra temporalidade, praticamente feudal. Aponta Bloch que, muitas vezes, as lutas sociais não compreendiam que setores inteiros da sociedade estavam alijados da dinâmica histórica do capitalismo mais avançado, mas o nazismo compreendeu isso, falando ao coração dos setores mais atrasados da sociedade." MASCARÓ, 2022 pág.113

A interpretação nos remete também a ideia presente em Gramsci, dos desenvolvimentos desiguais e combinados, de arcaísmos e modernidades,  entre o sul rural e agrário e o norte urbanizado e industrializado da Itália, que na verdade se constituem como peculiaridades interessadas do sistema capitalista. E, que na verdade se configura como uma característica marcante do desenvolvimento capitalista desde seu surgimento, esta combinação interessada de desigualdades, que sempre impulsionou a apropriação de mais-valia de forma intensa. Mas no livro, o autor enfatiza a interpretação gramsciana do fascismo, a partir da crise de hegemonia, isto é, uma crise de autoridade onde a classe dominante perde o consenso, não sendo mais dirigente pelo consenso, mas mantendo sobre seu domínio as forças coercitivas do Estado. Gramsci menciona, que o velho já havia morrido, e o novo ainda estava impedido de nascer na "crise da hegemonia", levando a soluções de força e a busca por líderes carismáticos ou salvadores impulsionados principalmente pela pequena burguesia. A crise de autoridade ou de hegemonia gramsciana emergia e identificava o fracasso político de um projeto da burguesia, no caso da Itália, a promoção da unificação do Estado, que não incluiu as populações desassistidas do sul do país. Esta condição determinava uma fraca aderência das classes altas ao povo, que apresentam uma tendência a adesão a movimentos políticos carismáticos, que misturam insurgências com pautas de costumes conservadoras.

"Gramsci percebe as peculiaridades culturais e valorativas italianas e as contradições desse velho que morria sem que permitisse novidades de desenvolvimento capitalista ou de socialismo [...] Além disso, a ausência de um história nacional  nos séculos recentes fazia com que a intelectualidade italiana se pensasse como universalista - num sentido no qual se via também a Igreja católica - sem condições de promover, então, uma revolução burguesa nacional." MASCARÓ 2022 pág.27

Um fenômeno com claras analogias com a História do Brasil, onde a ausência de uma história nacional, de certa forma nos condiciona à manifestações auto depreciativas (1), que gestarão soluções de tom autoritário engendradas pelas Forças Armadas de forma recorrente. Mas retornemos, a revisão bibliográfica de MASCARÓ 2022, que então aborda o cientista social e economista alemão também da Escola de Frankfurt, Frederich Pollock (1894-1970), e que vincula o problema do fascismo e nazismo ao capitalismo de Estado e ao capitalismo monopolista. A construção do Estado totalitário, que envolvia a associação explícita entre capital, burguesia e Estado na Alemanha nazista, que para MASCARÓ 2022 acaba desembocando na defesa do direito e das instituições, naquilo que ele chama da "esquerda liberal". Sua crítica, a esta visão da Escola de Frankfurt, presente no livro State Capitalism; Its possibilities and limitations, se baseia na pretensão de autonomia do direito frente a subjetividade jurídica capitalista, que envolve para MASCARÓ 2022 a formalização da competição e da super exploração dos despossuídos. Mas o autor, também aponta a diversidade da Escola de Frankfurt, citando dois pensadores como; Franz Neumann, com o livro; Behemoth; The struture and practice of national socialism e Alfred Sohn-Rethel, com o livro; Economy and class struture of German Fascism que divergiram das posições de Pollock, identificando o nazismo e o fascismo como aglutinadores de fraquezas, como uma coesão de fragilidades. Em contraposição a Pollock, que identificava no nazismo um amálgama de forças fortes, a partir da aliança entre burguesia, capital e Estado, Neumann e Sohn-Rethel apontam cisões e contradições entre capital, burguesia e Estado, exatamente na ênfase da busca frágil de um inimigo externo, quase efêmero tais como; judeus, comunistas, homossexuais, outros países e nações.

"Tanto a tese de Neumann quanto a de Sohn Rethel apontam que o fascismo advém de fraquezas. E as senhoras e senhores transplantem essa leitura de Neumann e de Sohn Rethel para o tempo presente. Tudo aquilo que nós lemos como mobilização da extrema direita no mundo, não só no Brasil em geral não advém de setores econômicos extremamente olímpicos, no sentido da alta lucratividade, de Estados fortíssimos ou então de classes ou grupos sociais com alta dominância, advém da crise do capital, do lúmpen da classe burguesa, do lúmpen do próprio Estado, do lúmpen intelectual [...] Ou seja, Sohn-Rethel faz exatamente o oposto da leitura que diz que o fascismo e o nazismo advém do totalitarismo; muito pelo contrário, advém de uma sociedade capitalista altamente esgarçada, altamente rompida, em crise." MASCARÓ 2022 pág.116

Na sequência de autores abordados por MASCARÓ 2022, destaco aqui a figura do economista polonês marxista Michal Kalecki, que por suas origens possui profundos vínculos com a dominação nazista, uma vez que seu país foi logo ocupado pela Alemanha, e abrigou grandes estruturas do holocausto. Kalecki desenvolve uma tese inusitada, apontando e conectando a emergência do nazismo e fascismo para a destruição da estrutura de reprodução da vida nas sociedades capitalistas, a partir de uma percepção relativa do posicionamento das classes sociais. Para ele, o pleno emprego gera o reacionarismo fascistas na burguesia e na classe média, que percebem a distância relativa dos pobres se reduzir, a partir da acessibilidade a determinados bens e serviços que se generalizam. Kalecki identificava nas gestões social-democratas, de centro esquerda do período entre guerras, uma ampliação do Estado de Bem Estar Social, que amplia o acesso a bens e serviços pelos pobres, e que passa a representar uma ameaça para a burguesia e a classe média em seu posicionamento social relativo. Uma certa sensação de frustração, principalmente da classe média, que se vê obrigada a compartilhar serviços e bens com os pobres. Depois de Kalecki, Mascaró aborda o também economista Charles Bettelheim, que segundo ele; é "o maior economista marxista da segunda metade do século XX." MASCARÓ 2022, pág.118 Para Bettelheim, o nazismo e o fascismo eram consequências do sub consumo das massas, ou de uma falta de conexão entre produção e consumo, fazendo com que a produção tenha de ser direcionada para a guerra. Para Bettelheim, o sub consumo era próprio, era uma característica central da exploração capitalista, levando-o a mesma afirmação de Hockheimer; "o capitalismo é estruturalmente fascista" MASCARÓ 2022, pág118 As leituras de Kalecki e Bettelheim se aproximam, na medida em que identificam no sistema capitalista, de uma forma geral, uma incapacidade para distribuir renda, e desvendam um conflito latente entre classes no sistema.

"Kalecki explica: com o pleno emprego, o salário aumenta. Com as condições da massa salarial subindo, na sociedade, procura-se mais gente para ser explorada, só que já se está em pleno emprego; por isso é que, então, o salário aumentará. O Brasil viveu o pleno emprego no início do governo Dilma Roussef, até 2013, 2014. Para cá acorriam bolivianas e bolivianos, haitianas e haitianos; vinham para trabalhar no Brasil porque já brasileiros e brasileiras não queriam laborar em certos serviços que essas pessoas consideravam inferiorizados ou mal pagos, como o emprego doméstico [...] Pois bem diz Kalecki, o pleno emprego gera o reacionarismo, como o fascismo, porque as classes médias e as elites, quando veem que a distância relativa dos pobres e dos trabalhadores em relação a elas está diminuindo, reagem destruindo as condições desse progresso. Nem é necessário, para tal processo, que o pobre se torne efetivamente de classe média; basta diminuir um pouco a distância relativa entre pobres e classes médias." MASCARÓ 2022 pág.117

Por fim, destaco aqui que MASCARÓ 2022 traz a luz reflexão dos anos 1970 de Nicos Poulantzas, um sociólogo e jurista grego, exilado na França por conta da Ditadura Militar no seu país, que escreveu importantes reflexões sobre o fascismo e ditaduras. Nessa apresentação, MASCARÓ 2022 destaca a diferenciação entre fascismo, nazismo e Ditaduras Militares do terceiro mundo, como no Brasil, na Argentina, no Chile e na sua Grécia. Mas, Poulantzas faz também uma importante aproximação entre fascismo e imperialismo, afirmando as conexões entre política de expansão colonial, dinâmicas econômicas e produtivas e disputas bélicas de dominação. Poulantzas destaca a chegada tardia de Alemanha e Itália na partilha do mundo colonial, principalmente em relação a Inglaterra e França, mas também Espanha e Portugal, e como, essa condição retardatária determina um certo belicismo. Enfim, o livro de Alysson Leandro Mascaró, Crítica do Fascismo é uma das mais importantes reflexões para entender a captura da sociedade brasileira por movimentos reacionários, conservadores e autoritários no início do seculo XXI.

NOTAS:

(1) O dramaturgo Nelson Rodrigues mencionou de forma recorrente, "o recorrente complexo de vira lata do brasileiro", como um narcisismo as avessas.

BIBLIOGRAFIA:

BETTELHEIM, Charles - La economia alemana bajo el nazismo, vol.2 - Editorial Fundamentos, Madrid 1973

BLOCH, Ernst - Erbschaft dieser Zeit - Suhrkamp, Frankfurt 1985

GRAMSCI, Antônio - Os cadernos do cárcere, Volume 5 Risorgimento e Notas sobre a História da Itália - Editora Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2002

HORKHEIMER, Max - Die Juden und Europa - in Zetschrift für Sozialforschung / Studies in social Science ano 8 1939-1940, Deutscher Taschenbuch, Munique 1980

KALECKI, Michal - Os aspectos políticos do pleno emprego - Editora Hucitech São Paulo 1990

MASCARÓ, Alysson Leandro - A crítica do fascismo - Editôra Boitempo São Paulo 2022

NEUMANN, Franz - Behemoth: pensamiento y acción en el nacional-socialismo - Fundo de Cultura Econômica, México 1983

POLLOCK, Friedrich - State, Capitalism: Its Possible and Limitations - The essential Frankfurt School Reader, Nova York 1982

POULANTZAS, Nicos - Fascismo e ditadura - Enunciado Publicações, Florianópolis 2021

SOHN-RETHEL, Alfred - A economia dual da transição - Zahar Rio de Janeiro, 1982

SOHN-RETHEL, Alfred - The economy and Class Struture of German Facism - Free Association Books, Londres 1987

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Karl Marx, arquitetura e urbanismo, descrição e prescrição

Karl Marx 1818-1883

Karl Marx (1818-1883) é de certa forma um anti filósofo, pois em grande parte de sua vida buscou uma nova linguagem para a filosofia, uma desconstrução do discurso filosófico, emblematicamente expressa na sua 11a tese sobre Feuerbach; "...os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras, trata-se, entretanto de transformá-lo". Tal posicionamento aproxima o pensar marxiano do campo da arquitetura e do urbanismo, uma vez que estas matérias trabalham essencialmente com o projeto e o plano. Portanto, pensam o mundo e a realidade a partir das possibilidades do seu vir-a-ser, do devir, do futuro, daquilo que é possível realizar pela espacialidade; um outro morar, uma outra cidade, ou uma outra região. Não se trata mais da descrição do mundo, mas de sua prescrição, do seu devir, das suas possibilidades de ser revolucionado, a partir de uma atividade considerada por ele essencial no humano; o trabalho. Trabalho, que será abordado em sua obra não apenas do ponto de vista filosófico, mas também do ponto de vista do Direito, da História, da Economia Política, da Antropologia e da Sociologia. Tal posicionamento, de mirar no devir e não na análise distanciada e descritiva do real aproximam seu pensamento, como já assinalado, das ações de planejar e projetar da humanidade, que é claro, em suas construções, devem se pautar pela práxis, e não, pela construção romântica de uma utopia idealista. Este movimento, carregado de complexidade envolve a eleição de um ator ou agente incomodado, e por isso interessado na transformação social e intelectual da forma de operar da sociedade atual, capitalista. E, aqui mais um complexo movimento do seu pensar, Marx estuda de forma compulsiva e detalhada a formação econômica e social do capitalismo, eximindo-se de descrever o futuro, primeiro o socialismo, e depois o comunismo, segundo sua concepção. Esta aproximação, entre práxis cotidiana e impulso de transformação e mudança reúnem o social e o intelectual, na figura de uma experiência de seu próprio tempo, os despossuídos o proletariado, àqueles que só possuem sua força de trabalho para vender. "A filosofia não pode se realizar sem a superação do proletariado, e o proletariado não pode se superar sem a realização da filosofia."  Manuscritos Econômico Filosóficos de 1844 em EAGLETON 1999, pág.7. Daí, destes pontos e deste movimento decorre a força de seu pensamento, a manifestação de um incômodo com as atuais condições de existência da humanidade não se restringe a apontar sua condição, mas procura construir sua superação. Desde sua tese de doutoramento, defendida em março de 1841, na Universidade de Iena: "A diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito (460-370 a.C.) e a de Epicuro (341-270 a. C.)" percebe se a manifestação de uma rebelião frente aos sistemas de pensamento instituídos, naquilo que viria a ser a Alemanha, dominada no seu tempo pelo hegelianismo.

"A leitura atenta do que conhecemos da Diferença justifica a avaliação de muitos biógrafos de Marx (e formulada pioneiramente por Cornu 1975, v.I, pág.277) segundo a qual, na dissertação esboçam-se traços de uma nova concepção do desenvolvimento histórico da filosofia, direcionados para a formulação materialista e com implicações políticas que apontavam para um posicionamento que, transcendendo parâmetros liberais, conduziam a um democratismo radical." NETTO 2020 pág.56

A vitalidade deste pensamento, que permanece atual, apesar do distanciamento das condições e situações na qual foi elaborado, vinculado claramente ao século XIX, advém de sua síntese sistêmica, da explicitação de um funcionamento inerente a sua operação, ou de um vetor que ainda nos condiciona, ou impõe reações mecânicas no capitalismo. Tome-se como exemplo, a inerente tendência especulativa dos capitais, nas suas mais diversas origens, que tendem a abandonar a produção de mercadorias e bens e se entregar a ciranda financeira de forma cíclica. Há aqui, uma forma peculiar de cognição, que está localizada na prática, ou na realidade do caráter terreno do pensar humano, um conhecer-se de uma maneira que altera o objeto de estudo, isto é, uma abordagem que questiona a gênese de seu funcionamento, partindo-se do pressuposto de que a busca deve ser pela satisfação geral, e não apenas de pequenas parcelas. Alguém já disse, que seria como "erguer-se pelos próprios cabelos" EAGLETON 1999, página8, no qual o saber não mais se separa de como fazê-lo, ou melhor da busca da auto-emancipação. Não há mais distinção possível entre fatos e valores, que não se misturam, mas perdem nitidez em sua separação, passando a interagir de forma contínua e construindo o pensamento, que precisa antes de tudo, explicitar seus valores. A consciência não é mais o fundamento da realidade, mas faz-se uma inversão, pois é na prática que o homem deve demonstrar a verdade, o caráter materialista do seu pensar, não mais ligado a um idealismo abstrato, mas a sua existência concreta. A Liberdade, que permeia todo este pensamento se articula com a Necessidade, que enquanto não for superada do ponto de vista geral mantém sempre a condenação a uma livre escolha, como parcial e limitada. O ambiente no qual se formou, o Idealismo Alemão, era visto por ele de forma invertida; a consciência não era mais o fundamento da realidade, mas era fruto de sua interação com as condições materiais e instituições sociais que a conformavam.

"A produção de ideias, de concepções, da consciência, é de início diretamente entrelaçada com a atividade material e com a interação material dos homens, a linguagem da vida real. O conceber, o pensar, a interação intelectual dos homens aparecem neste estágio como uma emanação direta de seu comportamento material... A consciência nunca pode ser outra coisa senão existência consciente, e a existência do homem é seu processo de vida real." MARX, A ideologia Alemã, apud EAGLETON 1999, pág.10

Para ele, alcançamos a verdadeira humanidade quando produzimos livre, gratuita e independentemente de qualquer necessidade material imediata, a liberdade seria uma espécie de superabundância criativa, o trabalho artístico, por excelência. O lugar da consciência e da prática social é a linguagem, que nunca pode ser aprimorada no isolamento da solidão, mas sempre no confronto de ideias na interação com outros seres humanos. A linguagem, surge da necessidade de aprimoramento da produção no trabalho coletivo de aperfeiçoamento das condições de sobrevivência, mas ela transcende esta necessidade e desembocará na literatura. Decorre daí a divisão entre trabalho intelectual e manual, que somente floresce quando uma sociedade atingiu certo excedente econômico, acima da necessidade material, deixando que uma minoria de seus membros livres do trabalho produtivo, fazendo emergir; os políticos, acadêmicos, produtores culturais, filósofos, etc... A primeira separação nesta direção se processa, ainda em tempos bem primitivos, com a identificação do sacerdote, no seio do clã, quando a consciência pode alimentar a ilusão de ser algo diverso da existência, se emancipando como uma representação improdutiva. Neste pensamento típico do século XIX, onde se localiza um otimismo iluminista, racionalista e historicista é certamente muito mais confiante num futuro humano redentor das misérias e tragédias, do que a nossa contemporaneidade. Há a presença de uma quase certeza da redenção humana, a partir do lançamento num turbilhão de mudanças que acabam trazendo a um agente, o operariado ou os sem posses, uma consciência de sua super exploração. De certa forma, como muitos autores dentre eles, BERMANN 1986 pág.15  e EAGLETON 1999 pág.13, enfatizaram como Marx celebra as profundas transformações da sociedade burguesa que lançaram a humanidade num magnífico turbilhão de mudanças.

"A burguesia, onde quer que tenha chegado ao poder liquidou todas as relações feudais, patriarcais e idílicas. Dilacerou impiedosamente os variegados laços feudais que prendiam o homem a seus "superiores naturais", e não deixou subsistir entre homem e homem qualquer outra ligação além do interesse próprio nu e cru, do impiedoso "pagamento à vista"[...] Numa palavra, em lugar da exploração velada por ilusões religiosas e políticas, colocou a exploração aberta, despudorada, direta e brutal [...] A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e com estas todas as relações sociais [...] O revolucionamento constante da produção, a perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, a permanente incerteza e agitação distinguem a época burguesa de todas as anteriores. [...] Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado, e os homens são por fim forçados a confrontar com sobriedade suas reais condições de vida e suas relações uns com os outros." EAGLETON 1999 pág.13 e 14, apud Manifesto Comunista MARX  e ENGELS

Apesar, desta quase certeza, Marx também aponta a insidiosa presença da alienação e da reificação no pensar humano nas condições do capitalismo, mantendo-se as estratégias de dominação de classe pelo processo de fetichização geral, das mercadorias, da terra, dos seres humanos, etc. Este entorpecimento da consciência decorre da penetração da ideia de competição de todos contra todos, da ausência de cooperação e do associativismo das classes despossuídas, pela doutrinação de que o enriquecimento é acessível a todos. "As ideias das classes dominantes são em cada época as ideias dominantes" (EAGLETON 1999, pág.16 apud Ideologia Alemã), havendo uma distinção importante na categorização de base ou infraestrutura, contrapostas a categoria de secundárias ou superestruturais. Enquanto, a base ou infraestrutura envolve o interior e o domínio das forças de produção, que no sistema capitalista é profundamente injusto, a superestrutura envolveria a política, a filosofia, o direito, a ideologia, etc, enfim meios que legitimam e justificam as forças de produção. A separação entre as duas esferas é sempre perpassada pelo dinamismo da dialética, que está sempre em constante movimento. A inversão de Marx da construção de Hegel, de sua dialética, está corporificada pela inversão materialista do seu pensamento, entre consciência e vida; "A vida não é determinada pela consciência, mas a consciência pela vida" EAGLETON 1999 pág.14, apud Ideologia Alemã MARX e ENGELS. O que significa que nos auto concebemos como seres histórico-sociais, nos quais, o que dizemos ou pensamos está determinado pelo que fazemos e vivemos. Este fazer envolve o trabalho, que a cada novo desafio nos confronta com novas possibilidades do ser, fazendo com que ao final da jornada de sua realização apareça um novo ser, diferente daquele que a iniciou. A imaginação humana que pré figura num plano e num projeto, antecipa na atividade do trabalho uma vontade e uma consciência, que nunca é uma determinação, mesmo na cópia mais fiel.

"Uma aranha realiza operações semelhantes às de um tecelão, e uma abelha envergonha muitos arquitetos na construção de sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é o fato de que o arquiteto constrói sua estrutura na imaginação antes de erigí-la na realidade." EAGLETON 1999 pág.15, apud MARX, O Capital vol.1 pág.178

Vista de uma rua no Brasil, 10 metros de caixa de rolamento
de veículos, para apenas 2,5 metros de cada lado para os 
pedestres

E aqui, fica claro como as atividades de planejar e projetar inerentes ao campo da arquitetura e do urbanismo humanizam o fazer humano, dando-lhes consciência e vontade, racionalizando escolhas e desejos, explicitando a origem das vontades, possibilitando que elas sejam identificadas sobre o crivo do interesse público ou particular. As nossas cidades, nosso território, nossas superfícies humanizadas sobre o planeta precisam, cada vez mais em nosso tempo, serem avaliadas a partir deste crivo; interesse particular ou geral. Basta olharmos para uma rua típica da cidade brasileira, e constatarmos a quem os interesses das superfícies atendem ou acolhem. Nesta rua genérica, com 15 metros de seção de testada de lote a testada de lote, 10 metros são dedicados aos automóveis, e apenas 5 metros aos pedestres, a maioria da população. Portanto, 67% é dedicado principalmente aos veículos com pneus, que na sua maioria carrega pessoas com maior poder aquisitivo, e apenas 33% acolhe os pedestre, nos seus 2,5 metros de cada lado do logradouro. É a materialização da supremacia dos interesses dos mais privilegiados, os proprietários de veículos particulares, em detrimento da maioria da população que se restringe a 33% da superfície. Certamente, quando projetamos estas cifras em termos de custo do investimento público compreendemos de forma clara quem pauta e captura o orçamento de nossas cidades em seu próprio benefício. Marx diria que esta é a real captura objetiva dos investimentos públicos, materializada nas dimensões dedicadas a acolher cada um dos agentes da sociedade, entenderia a naturalização desta predominância, como a fetichização do automóvel particular. Isto é, a imposição deste padrão de secção da rua brasileira, e sua naturalização constitui a própria presença da força material da classe dominante, sua demonstração de força, condenando o conjunto da sociedade a suas imposições. Os meios de produção material, da configuração da secção da rua brasileira são naturalizados pelo conjunto da sociedade alienada, que aceita a coerção abrindo mão de problematizar a proporção dos investimentos realizados. O primado não deve ser a idealização, mas a práxis e operação efetiva do construir a cidade concreta, que demonstra de forma clara, a injusta e contraditória, destinação dos recursos para sua construção efetiva. Diferentemente do pensamento idealista, hegeliano, a concepção materialista da história de Marx acredita que "todas as formas e produtos da consciência não podem ser dissolvidas pela crítica espiritual" EAGLETON 1999, pág.17, mas apenas pela derrubada prática das relações sociais. Esta capacidade de expor o processo real de produção da rua no Brasil, e de a partir dele expor a conjuntura de interesses presente na sociedade desvenda para quem os recursos do Estado são mobilizados.

"...mostra que a história não termina ao ser dissolvida em "auto-consciência" como o "espírito do espírito", mas que em cada estágio encontra-se um resultado material: uma soma de forças produtivas, uma relação historicamente criada de indivíduos com a natureza e entre si, a qual é transmitida para cada geração pela precedente; uma massa de forças produtivas, de capitais e condições que, por um lado, é na verdade modificada pela nova geração, mas também, por outro lado, prescreve a ela suas condições de vida e lhe dá desenvolvimento determinado, um caráter especial. Ela demonstra que as circunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem as circunstâncias." EAGLETON 1999 pág.18, apud MARX e ENGELS Ideologia Alemã pág.56

E, aqui, cabe o registro de que Marx acredita na possibilidade de transformação das circunstâncias nas quais os homens estão engendrados, e que lhes condiciona a prática e a operação mecânica e repetida da vida, afinal; "o que foi historicamente criado pode sempre ser historicamente mudado." EAGLETON 1999 pág.21 Como ao final, pode ser assinalado há um fundamento objetivo para este pensamento que na verdade está imbricado em nossas existências, e que portanto paira ambiguamente entre a descrição e a prescrição, entre fato e valor, ou entre como somos e como devemos ser. De novo há um confronto unitário entre ser e dever ser, entre ser e devir, que efetivamente conformam nossa consciência, assim como na arquitetura e no urbanismo. O que também coloca a questão, de que Marx é um pensador teleológico, isto é alguém que imagina um ser genérico, feliz e pleno, como um objetivo a ser alcançado. De certa forma, a teleologia do pensamento de Marx é, e ao mesmo tempo, não é um fato. Pois, não deveria existir uma razão única para a existência humana, além do seu pleno desenvolvimento prazeroso na sociedade em que vive. Há um reconhecimento tácito da diversidade humana, que por si só se realiza plenamente no seio da sociedade, e que respeita a pluralidade de objetivos diferenciados de cada um. Assim, há um objetivo, uma teleologia, mas como a plena realização humana se insere na condição social do humano, a interação entre indivíduo e sociedade desemboca numa pluralidade de manifestações, que acabam contrariando a sua única direção.

"A essência humana da natureza existe apenas para o homem social; pois, apenas neste caso, a natureza existe para ele como um vínculo com outros homens, como sua existência para os outros, e a existência dos outros para ele, como elemento vital da realidade humana; apenas assim esta essência existe como a base de sua própria existência humana. Só então sua existência natural torna-se sua existência humana, e a natureza torna-se para ele o homem. A sociedade é portanto a plena unidade essencial do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição da natureza, o naturalismo realizado do homem e o humanismo realizado da natureza..." EAGLETON 1999 pág.22, apud MARX Manuscritos Econômico Financeiros de 1844 pág.15

Disto surge, o questionamento pós moderno, ou contemporâneo, ou ainda dos ecologistas, de que este pensamento celebra a artificialização do homem e de seu convívio predatório com a natureza, típico da infância da Revolução Industrial no século XIX. Sem dúvida, Marx é um pensador de seu tempo, seduzido por uma crença de redenção dada pela imensa produtividade conquistada pelas indústrias no século XIX. Existem traços claros de um prometeísmo tecnológico, assim como de um produtivismo predador, que se refere a um ambiente impulsionado pelo otimismo típico do século XIX, que enxergava as transformações no campo e na cidade como oportunidades de redenção da espécie humana. Alguns autores, como Ted Benton, André Gorz, Michael Löwy, James O' Connor, Daniel Tanuro e Alain Lipietz consideram que Marx não considerou as questões ligadas ao meio ambiente sendo dominado por um produtivismo arrogante e anti ecológico. Em contraposição, autores como John Bellamy Foster, Paul Burkett e Kohei Saito releem as obras de Marx e Engels, apontando que sua crítica ao modo de produção capitalista permanece atual, identificando na cíclica evolução do sistema as origens das eco crises globais do nosso tempo. Na verdade, o cerne do discurso de Marx e Engels possui uma clara direção anti-opressão, de libertação das energias humanas dos subalternos, de compreensão das implicações do domínio dos meios de produção, que implicam na ideia de emancipação e liberdade. Uma visão, que explicita a forma limitada, alienada e parcial dos homens em sociedade, e desta também com a natureza e o metabolismo natural do qual pretensamente nos libertamos. SAITO 2021 justificando sua tese sobre as preocupações ecológicas de Marx aponta a presença nos cadernos dos esboços, para completar os livros 2 e 3 do Capital, lançados por Engels após a sua morte; da agronomia, como por exemplo, da Química Agrícola, de Justius von Liebig. Tal presença está vinculada a preocupação de entender a interação entre capitalismo e natureza, entre a expansão da fronteira agrícola e os controles e impactos destas atividades no meio natural.

"Isso possibilita que Saito trace um estudo que liga os aspectos econômicos dos Cadernos sobre a alienação, terra, forma mercadoria e o rompimento do lado afetivo do trabalho com a própria teoria da ruptura metabólica que é explorada por John Bellany Foster em A ecologia de Marx, e que demonstra a relevância do Livro 3 do Capital e os estudos que influenciavam Marx em seu tempo, como sua atenção especial ao químico alemão Justius von Liebig. Com isso, Saito estabelece como a visão marxiana da alienação do trabalho não pode ser dissociada da transformação que também ocorre na relação entre humanos e natureza. Tal visão ampliada confere ênfase e sentido mais explícito à formulação de Marx de que "humanismo = naturalismo". FERNANDES 2021 pág.12

Mais além desta problemática, SAITO 2021 vincula a teoria da absolutização do valor na sociedade capitalista a uma transformação do metabolismo de interação entre humanos e natureza, que determina uma forma alienada de produção. A busca é pela concretude dos condicionamentos impostos pelo modo de produção capitalista, que estrutura a operação da sociedade, sem que esta tenha consciência de seus movimentos em torno do conceito de valor, que passa a ser absolutizado. O desejo de acumular Dinheiro de forma desmedida, que pauta o comportamento humano na sociedade capitalista aliena nossa relação com os contínuos e biomas naturais, absolutizando a questão da propriedade frente ao direito à vida, ou à cidade. Os contínuos naturais e o patrimônio construído de nossas cidades são hoje vistos como estruturas comuns, que deveriam ser desfrutados por todos, pois eles não foram produzidos a partir da lógica da propriedade. No entanto, a indústria do turismo e do lazer pretendem e promovem o cercamento contínuo destes tesouros comuns no sentido de monetizar o seu acesso e desfrute atribuindo-lhe um valor. A mediação do valor nos condiciona uma produção alienada de mercadorias, que se movimenta entre valor de uso e valor de troca, acabando por decretar a predominância do último como objetivo principal. A anarquia produtivista faz emergir um "sujeito usurpador" que cerca os contínuos e conjuntos construídos indo além do valor, buscando na verdade sua valorização contínua a partir de um consumo predatório e devastador. A emergência de um valor desmesurado para um meio de otimização das trocas, como é o equivalente universal, o Dinheiro, transforma toda a produção, que o elege como objetivo final e maior. No Capital de Marx há uma equação, que representa o circuito interminável da produção que está representada pelas letras maiúsculas; D- Dinheiro e M- Mercadoria, na sequência; D-M-D'. Esta forma de circulação é contraposta a outra, que representava a centralidade da Mercadoria, numa outra forma de ordenação da produção, que era; M-D-M', no qual o processo era direcionado a um valor de uso. Na primeira forma, o valor como capital passa a ser um "sujeito automático", que entende sua valorização como a meta final da produção, e mesmo, o sentido único e último da vida.

"Na circulação D-M-D, ao contrário, mercadoria e dinheiro funcionam apenas como modos diversos de existência do próprio valor: o dinheiro como seu modo de existência universal, a mercadoria como seu modo de existência particular, por assim dizer, disfarçado. O valor passa constantemente de uma forma a outra, sem se perder neste movimento, e, com isso, transforma-se no sujeito automático do processo. Ora, se tomarmos as formas particulares de manifestação que o valor que se autovaloriza assume sucessivamente no decorrer de sua vida, chegaremos a estas duas proposições: capital é dinheiro, capital é mercadoria. Na verdade, porém, o valor se torna, aqui o sujeito de um processo em que ele, por debaixo de sua constante variação de forma, aparecendo ora como dinheiro, ora como mercadoria, altera sua própria grandeza e, como mais valor, repele a si mesmo como valor originário, valoriza a si mesmo." MARX, O Capital, citado em SAITO 2021 pág.156

A teoria da alienação de Marx vem da constatação de uma singularidade destrutiva, que é inerente a anarquia da competição capitalista, que visa gerar uma subjetivação isolada onde declina o associativismo e emerge a luta de todos contra todos. Um processo de destruição do mundo material, que parece encontrar uma redenção no desenvolvimento tecnológico e científico, que no entanto, ao permanecer governado pela lógica do valor permanece gerando mais alienação e destruição. Tome-se como exemplo, o desenvolvimento de determinados softwares contemporâneos, como os aplicativos de mobilidade tais como; Uber e outros. Aquilo, que parece atender uma necessidade fundamental humana de deslocamento no território de forma racional e rápida, acaba por ser sua prisão a lógica do valor, super explorando trabalhadores, que destinam 25% do seu tempo de trabalho para pagar o desenvolvedor da tecnologia. Tecnologia, que foi desenvolvida certamente pelo acúmulo de conquistas variadas no campo da informática por diversificados agentes, mas que foi reunida, patenteada, cercada e monetizada por uma agente isolado, que segue sendo o principal beneficiário de algo que teve uma gênese coletiva. O objetivo, ao seguir a imperiosa determinação de mais-valor acaba destruindo e super explorando o mundo material e humano de uma maneira predatória, causando mais alienação e sofrimento para a vida. Talvez o exemplo mais emblemático da dinâmica entre "valor de uso" e "valor de troca" em nossa sociedade esteja concentrado na moradia urbana, uma necessidade humana, um direito. Sua transformação em mercadoria vinculada a uma parte determinada da cidade, na lógica da cidade capitalista, que possui distribuição diversificada da presença de confortos e infra estruturas acaba determinando, que extratos específicos de renda mais aquinhoados monopolizem áreas da cidade, empurrando o precariado ou os despossuídos para áreas carentes destas benesses, nas periferias. A questão da renda fundiária, no sistema de Marx é de certa forma algo em processo ou estudo, uma vez que consta do livro 3, editado após sua morte por Engels. Marx identificava que a lógica do valor era complexa de ser implantada sobre duas esferas muito claras; a terra e o trabalho, exatamente as duas esferas da interação metabólica entre homens e natureza. Enfim, a riqueza do pensamento de Marx para as ciências sociais, e particularmente para a arquitetura e urbanismo é enorme e complexa, e continua operando, apesar de sua formulação no século XIX.

BIBLIOGRAFIA:

BERMAN, Marshall  - Tudo o que é sólido desmancha no ar; a aventura da modernidade - Companhia das Letras, São Paulo 1986

EAGLETON, Terry - Marx e a liberdade - Unesp São Paulo 1999

FERNANDES, Sabrina - Prefácio a O ecossocialismo de Karl Marx: capitalismo, natureza e a crítica inacabada á economia política - Boitempo São Paulo 2021

MARX, Karl - A diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito (460-370 a.C.) e a de Epicuro (341-270 a. C.) - Boitempo, São Paulo 2018 

NETTO, João Paulo - Karl Marx: uma biografia - Boitempo São Paulo 2020

____________- Introdução ao estudo do método de Marx - Expressão Popular São Paulo 2011

SAITO, Kohei - O ecossocialismo de Karl Marx: capitalismo, natureza e a crítica inacabada á economia política - Boitempo São Paulo 2021

domingo, 20 de novembro de 2022

Arquitetos Soviéticos e o "Concurso de Camaradagem" em 1926

Capa do álbum publicado pelo Stroykom em 1929, Tipos de Projetos e Normas para Construção de Habitação, Recomendado para o ano de 1930


Recentemente uma exposição montada no casarão da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF), na cidade de Niterói no bairro de São Domingos mostrou nos um concurso de arquitetura em torno do tema do Conjunto Habitacional, que reuniu oito trabalhos notáveis, na URSS no ano de 1926. Montada com o apoio das professoras Cristina Nacif e Adriana Caúla, a exposição é uma notável oportunidade para refletir sobre a forma com que o Brasil e a nossa contemporaneidade vêm produzindo Habitação de Interesse Social (HIS) de uma maneira meramente quantitativa, sem qualquer consideração pela qualidade e pela diversidade das demandas dos diversos perfis familiares existentes. Além disto, a política habitacional é potencialmente conformadora da política urbana, uma vez que a demanda por moradia chega a 80% dentre os diferentes usos que estão na cidade, construir moradia é conformar o território urbano. Em 1926, nove anos apenas depois da tomada do poder pelos bolcheviques (Outubro de 1917), o "Concurso da Camaradagem", foi lançado pela Associação de Arquitetos Contemporâneos (OSA), onde constava a demanda aos concorrentes, tanto na escala íntima da família quanto na vida condominial, de que fosse incentivado novas relações de cooperação e incentiva-se a libertação das mulheres dos serviços de reprodução da vida, como alimentação e cuidados com a prole e os mais idosos. A compreensão do ambiente construído como um condensador social era compartilhada por grande parte da OSA, e havia sensibilizado grande parte do aparato estatal soviético. Além disto, a denominação do concurso é emblemática e deve ser destacada, apontando claramente para a instituição de novas práticas entre os arquitetos, que não deveriam se restringir a competição, mas incentivar e celebrar a cooperação e a camaradagem, uma vez que inerentemente, os concursos além do embate, envolvem também o intercâmbio e a divulgação de soluções variadas. No edital do Concurso de Camaradagem havia também claramente a demanda por um experimentalismo, de fomento a novas articulações da vida cotidiana, incentivando o associativismo cooperativo entre os moradores e usuários, como forma de transformação do cotidiano.

“Em 1926, os principais teóricos da Associação de Arquitetos Contemporâneos (OSA) anunciaram um “Comradely Competition for Preliminary Design of Housing for Workers”. O resumo do concurso, publicado na terceira edição do jornal da associação Sovremennaya Arkhitektura (SA), pedia o desenvolvimento de novas tipologias residenciais. O objetivo declarado não era meramente resolver a escassez de moradias para trabalhadores na União Soviética, mas, mais importante, facilitar “novas relações que caiam sob a noção de comunidade” (Ginzburg et al. 1926a; tradução do autor). É claro que houve esforços anteriores para abordar a questão premente da habitação. Mas o Comradely Competition (a Competição da Camaradagem) foi o primeiro a desenvolver sistematicamente soluções inovadoras tanto na escala da unidade habitacional individual quanto na escala da construção residencial, em uma tentativa deliberada de ajudar na emancipação das mulheres. Sua intenção era redefinir não apenas a natureza da “família socialista”, mas também a relação entre individual e coletivo, de forma mais ampla. Apenas alguns dos projetos de vanguarda que procuravam abordar a migração de populações rurais para as cidades em rápida expansão durante os anos da Nova Política Econômica NEP (1921-28) foram realmente implementados. logo após a Primeira Guerra Mundial e a revolução de 1917, os trabalhadores e suas famílias foram inicialmente realojados em habitações existentes que, até então, eram casas burguesas unifamiliares. apartamentos - resultado da nacionalização da terra e da abolição da propriedade - poderiam, na melhor das hipóteses, fornecer uma solução temporária para as precárias condições de vida dos trabalhadores em cidades como Moscou ou São Petersburgo, onde as empresas industriais eram tipicamente concentradas.” MOVIDA 2020, tradução minha do inglês 

A utilização do parque imobiliário existente em Moscou e São Petersburgo, obtido pela nacionalização da propriedade privada acomodou parcela expressiva da população operária, mas demandava inevitavelmente pequenas reformas e transformações nas habitações unifamiliares que se transformavam em condomínios de apartamentos. As soluções do Concurso de Camaradagem trazem uma grande variedade de plantas e arranjos de unidades, apesar de ter como premissa básica a celebração da padronização típica do industrialismo, então uma ideologia hegemônica no mundo nos anos 1920s e na URSS de então. O conceito que considerava a arquitetura e o urbanismo como "Condensadores Sociais" envolvia a questão do fomento e direcionamento a formas de vida no cotidiano pautadas pela cooperação e colaboração, que seriam impulsionadas pela espacialidade está amplamente materializado nas propostas. A questão da espacialidade condicionando a vida cotidiana, ou sendo condicionada por ela é muito antiga no campo da arquitetura e urbanismo, e mobilizou as sensibilidades; suprematistas, construtivistas, formalistas, futuristas da URSS de então. Hoje esta atitude é considerada como decorrente de uma utopia autoritária, que o modernismo engendrou na busca e na formulação do homem novo. O debate transbordava para a gênese da linguagem, impulsionado pelas propostas da Nova Objetividade, que afastava os posicionamentos romântico-decadentes do personalismo isolado e exarcebado da arte burguesa e procurava alcançar ou dar protagonismo ao proletariado ou ao coletivo. Segundo TAFURI 1989 afirma com razão, a utopia regressiva do modernismo baseava-se na específica "ideologia do plano", de um plano de suporte formal e simbólico à máquina produtivista, seja capitalista ou socialista dos anos 20. Num texto, ao mesmo tempo esclarecedor e pessimista, o crítico italiano - El socialismo realizado y la crisis de las vanguardias - localiza as estratégias mercantis para absorver as vicissitudes das vanguardas históricas, na conceituação da "destruição criativa" (1). Note-se, que o rigor da categorização tafuriana já está emblematicamente expressa no título, que caracteriza corretamente como "socialismo realizado" a experiência da URSS, que nem por isto deixa de ser ajuizada como um experimentalismo valoroso, ao propor o enfrentamento da "questão da habitação" (2). 

“Na URSS, tendo como pano de fundo a mudança política e a instabilidade social na década de 1920, a questão da habitação para as massas foi abordada pela Associação de Arquitetos Contemporâneos (OSA), sob a liderança de Moisey Ginzburg. A sua missão não era apenas dar uma solução à falta de alojamento nas grandes cidades do país, mas redefinir a habitação como um enquadramento adequado a uma sociedade em transição para uma vida plenamente socializada. A resposta foi desenvolvida em três etapas de pesquisa em design, durante um período de cinco anos. A fase conceitual inicial foi formalmente apresentada pelos membros da OSA no Concurso de Camaradagens de 1926, e se concentrou na questão habitacional, com projetos específicos para casas comunais. A segunda etapa girou em torno da pesquisa científica e metodológica do Stroykom, desenvolvida em paralelo com os projetos para as novas unidades de vida comunitária. A etapa final tomou forma material em oito edifícios específicos, conhecidos como casas experimentais do tipo transicional. Um deles, o Narkomfin, ganhou reconhecimento mundial como um protótipo moderno de habitação de vanguarda soviética e tem sido amplamente pesquisado como resultado. No entanto, até o momento nenhum estudo abordou todas as três fases com igual escrutínio e metodologia.” MOVILLA 2020 tradução minha do inglês

O texto de MOVILLA 2022 destaca, além do nome já sublinhado aqui, Concurso de Camaradagem, o acompanhamento das experiências como "casas experimentais do tipo transicional", o que denota que o certame monitoraria os resultados em seus fracassos e sucessos vigiando o processo pós ocupação. O conjunto do Narkomfin (1928-32), dos arquitetos Mosey Guinsburg (1896-1942) e Ignatti Millinis (1899-1974), mencionado pela mesma autora é um representante destacado do esforço da arquitetura modernista, dentro da questão da habitação. Todos tinham consciência, de que se testava uma vida plenamente socializada, e que, as experiências dependiam da gestão e da auto-organização das estruturas condominiais no longo prazo. A partir do Narkomfin, os conjuntos habitacionais testaram estruturas comuns em diferentes partes do mundo, tais como; Carl Liegen Stadt em Berlim (1928-30), arquiteto Bruno Taut (3), Conjunto do Pedregulho, Rio de Janeiro (1946) arquiteto Afonso Eduardo Reidy, Unidade de habitação de Marselha (1951), arquiteto Le Corbusier, dentre outros. O fato destes equipamentos não terem sido aceitos em muitas destas estruturas passou a ser interpretado, como a comprovação da vertente autoritária da ideologia moderna, notadamente pela geração dos anos 60s. Mas, o que deve ser pensado é que a política habitacional, de qualquer tempo, deve ser pensada como uma continuidade, onde deve-se monitorar a superação das fragilidades econômicas das famílias envolvidas, impulsionando sua auto sustentação. Neste sentido, as proposições do Concurso de Camaradagem da OSA de 1926 são um exemplo para os impasses e dificuldades do nosso tempo contemporâneo, na construção de uma política habitacional consistente e estruturada. Abaixo apresenta-se os oito projetos, que foram selecionados pelo concurso, e que fazem parte da exposição da Arquitetura Soviética na EAU-UFF, com os arquitetos responsáveis.


É notável nos oito projetos a construção da legibilidade da estrutura condominial na sua inserção na cidade, as articulações entre os núcleos de circulação vertical (escadas comuns) e a estrutura urbana é claramente pensada a partir da premissa de oferecer aos futuros usuários uma compreensão socialmente clara e legível, não só para os moradores, mas também para os eventuais visitantes. Há uma importante reflexão sobre a escala de vizinhança imediata das estruturas, figurando uma clara predominância pelo tipo de duas unidades por andar, o que determina uma boa ventilação cruzada para todas as unidades, além de uma dimensão desmassificada. Paradoxalmente, estas características não eliminam a premissa genérica que todos os projetos parecem seguir, uma filiação incondicional a uma capacidade de reprodutibilidade técnica das soluções.  Vários autores destacam a sintonia entre estas experiências da jovem URSS e uma série de administrações social-democratas da Europa Central, do entre guerras que também buscavam soluções para os graves problemas do déficit habitacional, em cidades que explodiam de tamanho. Tanto FRAMPTON 1997, quanto TAFURI 1979 denominam o conjunto destes arquitetos, como as "vanguardas centro-europeias", identificando aí o embrião do movimento moderno, e na aglutinação teórica da questão da habitação operária ou do exôdo rural o objetivo maior da sinergia dos seus pensamentos. Posicionamentos reformistas e revolucionários se digladiam em diferentes localidades, gerando um patrimônio construído notável na história da arquitetura, que pela primeira vez rompe as esferas das demandas burguesas, e de certa forma a particular condição pequeno burguesa dos arquitetos. 

O emblemático conjunto de apartamentos do Narconfim dos arquitetos Guinsburg e Milinis se insere neste contexto experimental, que interpreta a arquitetura e a cidade como "condensadores sociais" em direção a uma vida cotidiana menos competitiva e mais colaborativa. O engendramento do programa do Narconfim nos mostra os investimentos nas formas de vida comunitárias associativas e colaborativas, que claramente pretendiam induzir uma vida plena, quebrando costumes arraigados. A cozinha comunitária, a creche, a biblioteca, a academia de ginástica articuladas a diferentes arranjos de unidades habitacionais pretendem pensar a vida em seu cotidiano reequilibrando o íntimo e o social. O pensamento conservador alega sempre, que estas experiências fracassaram que grande parte dos espaços comunitários foram subutilizados; seja no Narconfim (1928-32) de Guinzburg e Millinis, ou no Carl Liegen Stadt em Berlim (1928-30), do arquiteto Bruno Taut, ou no Conjunto do Pedregulho, Rio de Janeiro (1946) arquiteto Afonso Eduardo Reidy, ou ainda na Unidade de Habitação de Marselha (1951), arquiteto Le Corbusier. Este pensamento está sempre procurando celebrar a dimensão competitiva da ação humana, buscando naturalizar o modo de produção capitalista, no entanto, a crise sanitária e ambiental que vivemos na contemporaneidade nos leva a pensar e clamar por mudanças de comportamentos cotidianos, que sejam mais solidários, colaborativos e comuns.

NOTAS:

(1) A categoria da "destruição criativa" não é de TAFURI 1981, mas me parece ser de SCHUMPETER 2017, para caracterizar uma ansiosa destruição superficial, mantendo-se os fundamentos do sistema intocados. 
(2) A questão da habitação será abordada por ENGELS já em 1873, num texto Sobre a questão da moradia publicado originalmente no jornal Der Volksstaat, órgão do Partido Social Democrata Alemão, em resposta a um texto do médico alemão Arthur Mülberger, que era influenciado pelas ideias do socialismo pequeno-burguês de Pierre Joseph Prodhon. Segundo ENGELS 2015 página8, "Seduzir os trabalhadores com a utopia burguesa de que todos eles merecem uma casinha e uma hortinha para chamar de suas é uma maneira ardilosa de prendê-los a terra, ao método antiquado da produção individual e do trabalho manual."
(3) O Conjunto Carl Liegen Stadt, do arquiteto Bruno Taut está localizado em Prenzlauer Berg na Berlim Oriental, e teve alguns de seus equipamentos comuns, como suas lavanderias transformados em pequenos locais de exposição sobre a Arquitetura Moderna, num didatismo que explicita a conceituação de "condensador social" dos arquitetos soviéticos. 

BIBLIOGRAFIA:

ENGELS, Friedrich - Sobre a questão da moradia - Editôra Boitempo São Paulo 2015

FRAMPTON, Kenneth - História crítica da arquitetura moderna - Editôra Martins Fontes São Paulo 1997

MOVILLA, Vega -  Housing and Revolution: From the Dom-Kommuna to the Transitional Type of Experimental House (1926–30) - Edition Architectural Histories, 8(1), p.2. DOI: http://doi.org/10.5334/ah.264 acesso em outubro de 2022

SCHUMPETER, Joseph A. - Capitalismo, socialismo e democracia - Editora da UNESP São Paulo 2017

TAFURI, Manfredo - Teorias e História da Arquitetura - Editorial Presença Lisboa 1979

TAFURI, Manfredo - El socialismo realizado y la crisis de las vanguardias - Visor Libros Madrid 1973


domingo, 21 de agosto de 2022

O livro O interior da História, historiografia arquitetônica para uso de latino americanos de Marina Waisman


O livro O interior da História da crítica e historiadora argentina Marina Waisman (1920-1997) traduzido para o português em 2013, lançado na Argentina em 1990 é uma importante oportunidade para discutir a produção arquitetônica na América Latina, fora dos países centrais. Subdividido em duas partes muito claras; a primeira uma categorização geral da historiografia arquitetônica, e a segunda conceitua os instrumentos para avaliação da arquitetura de um ponto de vista latino americano. Como bem assinalou Gustavo Rocha Peixoto, num brilhante artigo para a Revista digital Vitruvius, Marina desmonta e remonta a arquitetura latino americana mostrando-nos seu funcionamento, seus impasses, suas fragilidades e potências. Como também bem coloca, Ruth Verde Zein na introdução para a edição brasileira é uma leitura fundamental, construtora de uma conceituação que dialoga com a práxis da disciplina abrindo possibilidades de desdobramentos importantes para a teoria e a projetação. Na minha leitura, há em Marina Waisman, no interior de seu estruturalismo, um certo excesso de localismo isolacionista cultural, que represa e desqualifica o profícuo diálogo entre culturas centrais e periféricas. Algo distante da antropofagia do nosso modernismo, que no campo mesmo da arquitetura moderna reinventou e ressignificou mensagens do racionalismo e do organicismo de forma criativa e inusitada. 

"Quando parecia que um tipo de solução começava a ser avalizada, quando parecia que começava a haver um aprofundamento em resposta a determinado problema, quando se perfila apenas uma linha de pensamento próprio, sobrevém a nova solução ou a nova resposta ou a nova teoria elaborada nos países centrais e , sem mais, desloca o incipiente desenvolvimento. Essa condição de descontinuidade histórica não só afeta o devir das ideias arquitetônicas, mas também, como será visto, caracteriza os mais diversosos aspectos da práxis até chegar a converter-se em um elemento básico para a elaboração de pautas valorativas." WAISMAN 2013 página64

Ao meu ver, a continuidade e a descontinuidade das culturas contemporâneas ou modernas não podem ser vistas a partir de um isolamento autônomo, mas a partir de um diálogo horizontal entre princípios e manifestações de formas de expressão, que precisam permanecer e se contaminar mutuamente. O isolamento, ou sua necessidade denota uma certa minoridade, um recorrente encaixe num particular folclorizado Se a valoração parte do pressuposto, de que o formulado nos países centrais possui maior qualidade significa que as culturas não estão horizontalmente avalizadas, o que é um fato. Mas a rebelião contra este estágio de dominação não pode ser o isolamento, tão propalado pelo localismo, típico dos anos 90. Muito menos por um cosmopolitismo colonizado, que automaticamente se subordina à centralidade de forma acrítica, o universalismo solidário apenas reconhece a situação efetiva de edxclusão continuada das periferias, mesmo nos países centrais. E, aqui nada melhor do que recorrer a Antônio Gramsci (1891-1937), um autor sensível as pautas dos subalternizados pelas culturas centrais, que identifica este mesmo desequilíbrio entre centro e periferia. O pensador da Sardenha agrária e atrasada, diante da cidade de Turim industrializada e desenvolvida elaborou um marxismo peculiar, no qual a ideia de um inventário particular como patrimônio de sujeitos coletivos deve ser trabalhada, não de forma romântica ou folclórica, mas objetivamente;

"O ponto de partida da elaboração crítica é a consciência do que você é realmente, é o conhece-te a ti mesmo como um produto do processo histórico até aquele momento, o qual depositou em você uma infinidade de traços, sem deixar um inventário, portanto, é imperativo no início compilar esse inventário." GRAMSCI Quadernos 2 página76

O ponto de partida de discussão de um mundo multipolar é a expressão particular das diferenciadas aldeias, entendendo que a perda na capacidade valorativa, mesmo do centro, advém exatamente desta insuficiência ou cegueira em não tratar em sua plena maioridade, os grupos periféricos. GRAMSCI nos chamou a atenção sobre a História dos Grupos Subalternos apontando que a narrativa histórica só estaria completa quando permitisse a plena expressão dos grupos periféricos, sem romantismos e folclorização. Não apenas por parte dos países centrais, mas também pelos próprios grupos da periferia, que ainda não dimensionaram seu próprio inventário. A absolutização da pauta localista, dos anos 90, nos levou a lutas identitárias fragmentadas, que só antendem as estratégias do poder instituído, ou centro, que manipula esta dispersão ao seu interesse de dominação. A questão não é simples e dicotômica, mas talvez envolva mais a leitura de Machado de Assis ou Jorge Luis Borges, que sempre a partir de suas aldeias tocaram fundo no drama humano. O mérito do livro de Marina Waisman, O interior da História, é abrir este e outros debates complexos e importantes, que seguem na pauta da nossa contemporaneidade nos mostrando que arquiteturas como as de Rogélio Salmoná (Colômbia), Eladio Dieste (Uruguai), Severiano Mario Porto (Brasil), Miguel Angel Roca (Argentina) e outros estabelecem um diálogo nivelador com o centro.

BIBLIOGRAFIA:

GRAMSCI, Antônio - Cadernos do Cárcere, Os intelecuais. O princípio educativo. Jornalismo. volume 2 - Editora Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2001

WAISMAN, Marina - O interior da História, historiografia arquitetônica para uso de latino americanos - Editora Perspectiva, São Paulo 2013

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O Renascimento Italiano

A Catedral de Santa Maria del Fiori
em Florença, com o Batistério,
o Campanário de Giotto e a 
Cúpula de Bruneleschi

Dentro do conjunto de textos, publicados aqui neste blog que se articulam com a disciplina Teoria e História da Arquitetura 1, no âmbito da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF), o último tema é o Renascimento Italiano. Portanto, a disciplina percorre os seguintes módulos da história ocidental; a Pré História, a Antiguidade Pré Classica, a Antiguidade Clássica Greco-Romana, a Idade Média e o Renascimento. No sentido, de refletir sobre a História dos grupos subalternos, ou sobre Estudos Pós Coloniais, junto com o módulo da Antiguidade Pré-Clássica é abordado o Império Inca, como um fenômeno histórico pré-colombiano de suma importância para questionar o Euro-Centrismo hegemônico. No texto, As Sociedades Pré Colombianas, o exemplo do Império Inca na América do Sul busco mostrar como a história é um livro aberto possibilitador de novas narrativas, que questionem a supremacia Euro Cêntrica de nossa cultura hegemônica. Mas, o Renascimento, abordado no contexto da disciplina é o renascimento italiano, um fato histórico de suma importância para a cultura urbano arquitetônica da humanidade com exemplos construídos, reflexões teóricas e consequências notáveis para o nosso presente. Aquilo que ficou conhecido como Baixa Idade Média pela historiografia corrente - do século IX ao XV - nos mostra o renascimento das cidades e da cultura do mercado, a emergência dos comerciantes e banqueiros, a retomada de atividades econômicas adormecidas, o declínio do sistema medieval e a emergência do capitalismo. Aquilo, que muitos autores chamam da Longa Transição - ARRIGHI 1997, BRAUDEL 1998, POLANIY 2000 - na qual se percebe a emergência da ideologia da propriedade privada, seus cercamentos, a emergência de uma mentalidade contratual, e a expressão personalizada de determinadas obras e esforços. Talvez a cidade seja a demonstração mais palpável e concreta destes ocasos e emergências, e dentre elas; Florença, seja a mais emblemática e concreta dessas transformações, concentrando numa obra como a Cúpula de Santa Maria del Fiori, de Fillipo Bruneleschi (1377-1446), todo o espírito de um novo tempo. A Catedral, que já tinha agregado manifestações notáveis como o Batistério e o Campanário de Giotto, iniciara sua obra a partir da demolição da antiga igreja de Santa Reparata em 1294, e a partir do projeto de Arnolfo di Cambio (1245-1310) do final do século XIII. Até o concurso da Cúpula convocado pela Ópera del Duomo, em 19 de agosto de 1418 para cobrir o altar mor era a obra que mobilizava e sintetizava uma nova prática e sensibilidade, que emergia. A convocação divulgada por toda a cidade e na região da Toscana, declarava:

"Quem desejar apresentar qualquer modelo ou projeto para a cúpula principal em construção pela Ópera del Duomo seja para armação, andaimes ou outras coisas, ou qualquer aparelho para elevação de cargas relativo à construção e à perfeição da mencionada cúpula ou abóboda, deve fazê-lo antes do final do mês de setembro. Se o projeto for utilizado, a pessoa terá direito a um pagamento de 200 florins." KING 2013 página 13


Era uma quantia razoável para um desafio enorme, pois o vão do octógono a ser coberto tinha um diâmetro de 43,12 metros, sendo maior que a dimensão do Panteão em Roma, e estava a uma altura de 58,19 metros do piso da cidade, muito mais alta do que qualquer das abóbodas das catedrais góticas da França. O feito já foi comentado aqui nos textos do blog, com os títulos de; A cúpula de Santa Maria del Fiori de setembro de 2014 e Brunelleschi e a Cúpula, fragmentação e coesão no processo de projeto; da concepção inicial ao executivo de janeiro de 2021, pois é considerado um marco na história humana da cultura do construir. Nas narrativas da história, tal feito marca a constituição da moderna profissão de arquiteto, um profissional que a partir da análise do contexto formularia uma solução mais adequada, conciliando; técnica do construir, materialidade, custos e estética. Brunelleschi, na verdade pertencia a guilda da Seda (Arte della Seta), e dentro dela prestara juramento como mestre ourives, e pertencia a uma geração que empreendeu a reconstrução de Florença, após esta ser devastada pela Peste Negra, que a atingiu nos anos de 1399-1400, quando ele tinha 22 anos, um ano após sua aceitação nesta corporação de ofício. Mas, segundo VASSARI 2011 (Giorgio Vassari 1511-1574), o primeiro historiador da arte, Filippo Brunelleschi tinha um interesse e talento nato pelo desenho e pela pintura, convencendo a seu pai que tinha planejado outro ofício mais nobre para o filho. O fato é que o pai de Brunelleschi também já havia demonstrado interesse no campo da construção, tendo participado de um comitê de assessoramento da Ópera del Duomo em 1367, que certamente mobilizava os mais nobres cidadãos de Florença. Essa concentração na personalidade de um homem das responsabilidades de uma obra, vinha se manifestando na Itália desde tempos pretéritos, basta vermos a cronologia; São Francisco (1181-1226); Arnolfo di Cambio (1245-1310); Dante Alighieri (1265-1321); Giotto di Bondoni (1267-1337); Petrarca (1304-1374); Bocaccio (1313-1375); Fillipo Bruneleschi (1377-1446); Lorenzo Ghiberti (1381-1455); Leon Batista Alberti (1404-1472);  Nicolau Maquiavel (1469-1527). No campo da construção declina as determinações e o anonimato das Guildas, e passa a se destacar a autobiografia, as interações com seu tempo, a manipulação e o acesso ao conhecimento humano disponível.

"...Filippo disse: "Senhores, considerai que não é possível construir essa abóboda de outra maneira; podeis rir de mim, mas sabereis (se não fordes obstinados) que não se deve nem se pode obrar de outro modo. E a quem quiser fazê-la da maneira como proponho, digo ser necessário que seja usado o arco agudo de quatro pontos, e que haja duas abóbodas, uma por dentro e outra por fora, de tal modo que seja possível caminhar entre as duas. E, nas arestas dos ângulos das oito faces, com dentilhões de pedra, será possível amarrar a edificação em toda a sua espessura, circundando suas faces com tirantes de madeira de carvalho. E é preciso pensar na iluminação, nas escadas e nos condutos, por onde a água da chuva possa sair. E nenhum de vós pensou que é preciso cuidar para que por dentro haja andaimes que possibilitem fazer os mosaicos e uma infinidade de coisas difíceis, mas eu que já vejo a abóboda construída, sei que não há outro modo  nem outro caminho para construí-la, senão este que expus." E, exaltado com a exposição, quanto mais procurava facilitar a compreensão de seus conceitos, para que lhes dessem ouvidos, mais dúvidas suscitava, fazendo-os acreditar menos e considerá-lo besta e charlatão. Por isso, não querendo sair depois de ser dispensado várias vezes, foi carregado para fora do recinto pelos serviçais e passou a ser visto como doido varrido." VASSARI 2011, página 235

Seção das duas cúpulas de Brunelleschi e seu
complexo processo de cosntrução sem escoras
e cimbramentos de madeira

Como se percebe na citação de VASSARI 2011, a auto expressão da genialidade não foi feita sem resistência, chegando mesmo a considerá-la como fora do juízo, mas ela envolve a conquista de um direito humano moderno, na qual o indivíduo ganha o dever de criticar a si mesmo e a sua comunidade no seu pensar e agir, como participante de um projeto geral da humanidade. A humanização do homem será o dogma do humanismo, presente na Renascença italiana, de forma concreta na execução da Cúpula de Santa Maria del Fiori; uma fusão entre artes e técnicas usuais e distantes nos mundos da vida florentinos. Afinal, se utilizava de duas abóbadas, uma interna baseada na distante técnica persa de execução de cúpulas a partir do entrelaçamento de tijolos com 2,20 metros de espessura, e outra externa, com 1,30 metros baseada na técnica gótica das cúpulas de aresta. Ambas juntas realizam o feito de vencer o vão de 43,12 metros, mas também de se auto suportarem sem escoras e cimbramentos naquelas alturas, com um espaço entre elas de 1,20 metros, que até hoje nos permite o acesso ao lanternim no seu topo.  A conquista não foi simples e livre de derrotas e frustações, afinal em 1401, o mesmo Brunelleschi participou de um outro concurso, as duas portas de bronze do Batistério - as portas norte da emblemática edificação(1) - sem ser o vencedor, que caberia a Lorenzo Ghiberti (1381-1455), mais jovem que ele, 4 anos. O concurso bem mais simples do que o do Duomo da Catedral, tinha como tema a decoração das duas portas do lado norte, com o enredo do Sacrifício de Isaac, o filho de Abraão, que está no Velho Testamento da Bíblia, e que deveria ser representado em dez painéis com medidas pré fixadas nas duas faces das portas. Na verdade, dois conselheiros da Calimala, Palla Strozzi e Matteo Villani, a poderosa corporação dos mercadores e responsável pela edificação do Batistério, dedicado a São João Batista eram estudiosos humanistas afeitos aos escritos de Plínio, o Velho; "que descrevia essas antigas competições em termos radiantes e sugeria que o próprio ato de provar a si mesmo através da competição dava ao artista seu posto na sociedade." (WALKER 2005, página 40) O estranho e inusitado na competição era a idade de todos os participantes convocados que eram bastante novos, com exceção apenas de Niccoló d' Arezo, que já tinha cinquenta anos de idade todos os outros tinham de trinta para menos; Ghiberti tinha 20 anos e Brunelleschi, um pouco mais velho, estava com 24 anos. O juri com 34 representantes se fixou no trabalho desses dois jovens, decidindo por uma solução de compromisso, que mostra a dificuldade encontrada na seleção do melhor trabalho entre os dois jovens artistas (2).

"Assim, posto que aquele seria um grande empreendimento, que implicaria muito tempo e muitos recursos, deveria ser entregue a ambos os artistas, que trabalhariam em parceria. Quando Fillipo e Lorenzo foram convocados e informados da decisão, Lorenzo permaneceu em silêncio enquanto Fillipo recusou-se a aceitar a encomenda se a obra não fosse exclusivamente sua. Nesse ponto ele foi inflexível... Os responsáveis ameaçaram entregar a obra a Lorenzo se ele não voltasse atrás; ele respondeu que não queria parte do trabalho se não tivesse total controle, e que se eles quisessem entregar tudo a Lorenzo, que entregassem... A opinião pública da cidade ficou completamente dividida." WALKER 2005 página 47

A Cúpula de Santa Maria del Fiori, construção
e adequação ajustadas pelo contexto


Hoje as duas propostas podem ser vistas no Museu Bargello em Florença, lado a lado, mostrando-nos que a decisão da Guilda da Calimata era realmente difícil, testemunhamos a expressão de dois artistas complexos, narrando o sacrifício de Isaac, o filho de Abraão ofertado a Deus para acalmá-lo. É uma pena, que as outras cinco propostas não tenham se mantido para que pudéssemos ter um panorama mais abalizado desse momento do ocaso do gótico e a emergência da antiga tradição clássica greco romana temperada pelo humanismo renascentista (3). Mas o fato importante a destacar, é que, Brunelleschi, segundo Giogio Vassari no livro A vida dos artistas, a partir desse acontecimento se imporá um auto exílio da sua cidade Florença, indo para Roma fustigada por invasores, com seu discípulo Donatelo, para estudar as antigas ruínas. As circunstâncias históricas levaram Brunelleschi a uma maior reflexão sobre o ofício da construção, sobre as tecnologias utilizadas na antiguidade clássica e na sua contemporaneidade, como um patrimônio humano a ser rearticulado na sua experiência projetual em seu tempo presente? Não sabemos, mas certamente, o concurso das portas norte do Batistério moldaram as personalidades de Brunelleschi e Ghiberti, forjando no primeiro a necessidade da pesquisa sistemática, a ampliação do esforço de persuasão pelo projeto, a argumentação embasada e estruturada, que se manifestarão 27 anos depois no concurso da Cúpula de Santa Maria del Fiori. Competição, na qual os dois artistas estarão novamente frente a frente concorrendo, mas que nessa ocasião terá como vencedor Filippo Brunelleschi, que no entanto pelas desconfianças despertadas por suas certezas ou convicções será ironicamente fiscalizado por Lorenzo Ghiberti, pelo menos nos primeiros anos da empreitada da Cúpula. Mais uma vez aflora a expressividade particular da personalidade de Brunelleschi, mas também o domínio público sobre sua atuação e responsabilidades como um controle social, ou das elites da Ópera da catedral de Florença. Além da cúpula de Santa Maria del Fiori, Fillipo Brunellecshi realizou uma série de projetos notáveis, mostrando em todos seus trabalhos um senso de adequação ao contexto geral sempre apurado e sensível. 

O edifício do Hospital dos Inocenntis, (a direita) colonizou a Piazza da Santíssima Anunziata, com
suas generosas arcadas, que se reproduziram nas edificações que a sucederam; a Igreja da Santíssima
Anunziata (em frente) e o Museu da Galeria de Belas Artes (a esquerda)

A Capela Pazzi em Florença

Em 1419, o Hospital dos Inocentes na Praça della Anunziata em Florença, gerando uma generosa Loggia (arcada) para a Praça, que didaticamente conquistará o espaço colonizando-o, com a fachada da Igreja Santíssima Anunziata (1440), e com o Museu da Galeria de Belas Artes, com a generosidade da arcada. Entre 1420 e 1429 realiza a Igreja de San Lorenzo em Florença, uma antecipação notável de sua manipulação de um módulo como ordenador do nosso caminhar e do nosso olhar. Em 1429, a Capela Pazzi, uma igreja de planta central, uma sucessão hierarquizada de cúpulas, que nos mostra a sua incrível capacidade de composição de arranjos espaciais complexos Em 1436, a Basílica de Santo Spírito, na Praça de mesmo nome em Florença revela para nós toda a concisão modular de uma nova linguagem sóbria e direta, concentrada no módulo e desprovida de qualquer decorativismo. Por outro lado, é importante mencionar que a obra de Brunelleschi se consolidará na historiografia da arquitetura pela grande quantidade de reflexões e textos que gerou após a sua realização, um exemplo único onde uma obra construída suscita um caudal de reflexões teóricas. É visível, por exemplo no livro de Giorgio Vassari, das biografias dos artistas, o primeiro livro de História da Arte no ocidente, o espaço de maior número de páginas dedicado a Fillipo Brunelleschi, em comparação com outros artistas. Vassari, segundo ARGAN 1992, página 95, será o primeiro a relacionar a cúpula de Santa Maria del Fiori não só a construção do templo em si, mas a todo o espaço da cidade e da região da Toscana, demonstrando-nos a sua força de coesão e identidade. Outro importante teórico que lhe dedica grande consideração é Leon Batista Alberti (1404-1472), um humanista e intelectual de grande consistência, o empreendedor de um dos mais importantes tratados da história da arquitetura; o de Re Aedificatória, que também coloca Brunelleschi como uma figura ímpar. Também segundo ARGAN 1992 PÁGINA 95, Alberti lhe dedica o Tratado De Pintura (1435-36), escrevendo, quando "a cúpula havia sido fechada e ainda faltava a lanterna... a grande calota que havia aparecido (quase que por milagre, mas por um milagre da inteligência humana) no céu de Florença... " Chegando a dizer que a cúpula se erguia acima dos céus, refletindo a fundo seu papel na representação de uma centralidade para os povos toscanos, mas também a uma competição entre o céu físico e o metafísico criado pelo homem. Natureza e cultura se confrontam numa complementariedade expressiva, sem necessidade de mútua destruição, mas de contínua auto construção. Enfim, estamos diante de um paradoxo, afinal Brunelleschi não teorizou sobre sua própria obra, mas aglutinou um imenso conjunto de reflexões, que permanecem nos dias de hoje, não apenas sobre a sua cúpula mas sobre sua obra como um todo.

"A cúpula é uma representação porque visualiza o espaço que por certo é real ainda que não seja visível; mas ela é justamente a representação do espaço em sua totalidade e não de algo que acontece numa porção de espaço... Em suma, a extraordinária invenção de Brunelleschi, não é, no modo de ver de Alberti, um objeto arquitetônico, mas um imenso objeto espacial, vale dizer, um espaço objetivado, isto é, representado, pois cada representação é uma objetivação e cada objetivação é perspéctica porque dá uma imagem unitária e não fragmentária, o que implica uma distância ou uma distinção, bem como uma simetria entre objeto e sujeito, de forma que a representação não é a cópia do objeto, mas a configuração da coisa real enquanto pensada por um sujeito." ARGAN 1992, página 96

Igreja de São Sebastião em Mântua 1460,
plantas, corte e fachada inaugura o tema
do Piano Nóbile, o plano além do greide 
da cidade

Mas além de Brunelleschi, o renascimento italiano será pródigo em figuras notáveis, o já mencionado Leon Battista Alberti (1404-1472) era filho natural de Lorenzo Alberti, exilado da cidade de Florença, nasceu em Gênova. Frequentou a escola de Pádua do humanista Barziza, e se diplomou em direito canônico em Bolonha e depois em filosofia, era um intelectual humanista de grande cultura. Possui uma vasta obra que transita entre projetos, construções notáveis e reflexões teóricas de uma profundidade absoluta, que chegam até nossos dias com claros ordenamentos éticos e morais, ainda  válidos e operantes em nossa contemporaneidade. A simples compilação de sua obra teórica impressiona pela vastidão, diversidade e profundidade; ao seu primeiro texto, Philodoxius, uma imitação de sátira clássica de data incerta se sucedem; Tratado De Familia em 1432, Descriptio Urbis Romae 1432-34, Tratado De Estátua 1434-35, Tratado De Pintura em 1435-36, Tratado Della Prospettiva (perdido), Tratado De Re aedificatoria 1444-52, e outros. Além dessa obra teórica se somam os projetos e obras; Igreja de San Francesco em Rimini 1450, Palazzo Rucelai Florença 1453, Fachada de Santa Maria Novella Florença 1458, Igreja de San Sebastiano em Mântua 1460, Igreja de Sant’ Andrea em Mântua 1470. Alberti é a representação maior do homem humanista do Renascimento, que transita por diversos assuntos com imensa competência, numa performance que não poderá mais ser alcançada por nossa contemporaneidade fragmentada e cindida. Ele será responsável pela transformação do ato de construir em uma operação intelectual e pensada, operando uma importante mudança no campo da arquitetura e do urbanismo; de Arte Mecânica em Arte Liberal. Um dos seus conceitos mais interessantes, e que, continua operando em nossa contempraneidade é o de "concinnitas", uma ideia de ajuste ou sintonia entre personalidade e lugar. O termo "concinnitas" é central na conceituação de Alberti, comportando o termo grego “cosmos” entendido como um todo harmonicamente constituído, onde cada elemento ocupa uma posição determinanda e exclusiva. O termo também envolve no latim a reunião do prefixo "con" com o substantivo, "cinnus", que nomeava uma bebida de sabor agradável e inédito. Refere-se a ideia de se estabelecer uma concordância e colaboração de diferentes componentes. O termo foi utilizado no Philodoxus e no Defunctus, obras em que aparece o antônimo; "inconcinnitas", denominando incongruência, má disposição dos textos. No "Della Famiglia", aplica o termo para compreender a correspondência e a harmonia que se pode encontrar nos cantos, na musicalidade e nos versos. No "De pictura", a "concinnitas" é usada para nomear as boas escolhas que o pintor faz ao observar a natureza e a história; a exatidão e o equilíbrio se somam a variedade de temas, inclusive na sua elegibilidade. Segundo BRANDÃO 2016, Alberti parte de Cícero e de Nicolau de Cusa, que usam o termo "concinnitas" para denominar a acomodação da variedade num todo dentro de uma criação artística, construtiva ou retórica. A beleza era a combinação espiritual da "convenientia" e da "mediocritas" num princípio construtivo, envolvendo uma pauta médico, científica, pedagógica, política, ética e moral.

“De acordo com a doutrina de Alberti, “concinnitas” constitui o supremo desafio por meio do qual se manifesta a beleza de uma edificação. Ele se baseia na aplicação prática das leis fundamentais da arquitetura contidas em “numerus”, “finitio” e “collocatio”... A “concinnitas” não impõe limites à imaginação do arquiteto, porém a submete a uma suprema lei da ordem que põe em pé de igualdade os requisitos técnicos, artísticos e utilitários da obras.” HEYNDENREICH 1988 pág.44

Palazzo Rucelai Florença 1453, 
inserção urbana e fachada

Sua proposição de, "Bene beateque vivendum"; pretende generalizar o Bem Viver pleno para todos, argumentando que a humanização do homem se faz pela superação da luta pela sobrevivência, ou "beate uiuere", a vida feliz e justa que precisa ser universalizada para todos. Outra conceituação importante, é a "Virtú"; ou virtude, equilíbrio entre as partes e todo, o controle dos gastos públicos, a ética na mobilização dos recursos públicos para atender os interesses de todos. O "Decorum"; é o embelezamento articulado com a tectônica, com a contenção e a sobriedade, que todo arquiteto deve buscar por conta de uma ética do construir. O "Lineamento"; são os limites do desenho, da intervenção, os limites morais e éticos do construir, o confronto com as pré-existências, que no caso de Alberti era o contínuo construído gótico e medieval, das cidades, em seu reflorescimento comercial. Daí o seu tratado do "Re aedificatória" , no qual pensa como a sensibilidade de restauração do classicismo greco-romano se confronta com a identidade da cidade medieval. Neste tratado, também emerge a ideia da "Res publica"; a ética e moral de construir em sintonia com o interesse público, numa constante vigilância da "Libidine aedificanti"; o hedonismo inerente a atividade da construção, que restringe o interesse público e amplia a expressão personalista e isolada do arquiteto, a cupidez pessoal. Em Alberti estará sempre presente a ideia de um controle público sobre a personalidade humana, o conceito de "Hýbris"; natureza ou tendências inerentes ao humano, que precisam ser vigiadas. A "hýbris" humana, que deve ser contida e vigiada socialmente faz da vida na cidade a possibilidade de regulação e aprimoramento da personalidade humana, sempre sujeita a excessos de personalismos.

“Construir não é um ato solitário nem o produto de um ‘gênio’, como vimos no capítulo anterior, mas uma interpelação e ragionare contínuos e compartilhados, desde a proposição de se edificar algo até a avaliação posterior da obra.” BRANDÃO 2016 página 91

Palazzo Rucelai Florença 1453, planta
baixa, inserção urbana e foto do Pátio

Alberti será o porta voz de uma revolução moderna, que identifica uma capacidade nas comunidades citadinas de determinar seu futuro, imaginando sempre um viver mais adequado para as futuras gerações que se aprimora com o tempo. Mas ele ao mesmo tempo, não é crente numa natureza humana perfeita e premiada por uma racionalidade individual e isolada, mas profundamente dependente de aprimoramento público e coletivo por uma racionalidade interativa e auto regulada. Afinal, como ele próprio afirmava de forma peremptória; “ O homem nasce para ser útil a outros homens." e nesta busca deve pensar se o projeto a partir de uma relação transtemporal entre os vivos, mas também com os que nos precederam e com os que nos sucederão. Presente, passado e futuro reunidos pela e na arquitetura e na cidade, pelo urbanismo e pelo território controlado pela "urbis", que condiciona e é condicionada pela "civitas". Compreensão da civilidade como interconectada com a sofisticação do seu ambiente constrído, uma compreensão da arte no seu sentido latino de "ars" enquanto técnica, fato que envolve a técnica e a matéria, mas também o interesse público. Interessante destacar as seis categorias que formam ao mesmo tempo; a reflexão, a aproximação e a classificação do ato projetual de Alberti no tratado De Re Aedificatoria; regio, area, partitio, paries, apertio e tectum. Onde a "regio" seria o em torno de controle da cidade, que assinala e comprova seu poder de atração e coordenação regional, sua capitalidade. A "area" seria uma porção da "regio" delimitada, edificada e construída, portanto a superfície propriamente urbana e densa, o lugar habitado pela sociabilidade da cidade, que no tempo de Alberti era intramuros. "Partitio" eram as subdivisões de personalidades ou tempos da cidade, que lhe davam uma certa continuidade funcional ou formal. "Paries" ou "Parietes" eram as paredes ou muros, que adviam da necessidade de fechamento e de isolamento. A "apertio" eram os vãos, as janelas, passagens ou aberturas, que adviam da necessidade oposta aos muros, de relacionamento e conexão entre fechamentos e isolamentos. E por último, "tectum" eram as coberturas e sua diversidade de formas e tipologias. Enfim, uma metodologia de abordagem do ato de construir, indo das categorias mais gerais e globalizantes, como regio, area e partitio, até as que pensam o processo construtivo em si, como, paries, apertio e tectum. Esta reavaliação da obra de Alberti é fruto de uma revisão historiográfica de longa duração, segundo ARGAN 1992, iniciada por Adolfo Venturi, Mario Salmi e Cesare Brandi em 1956 no ambiente italiano, depois por Bruno Zevi em 1958 numa esfera mais ampla, pelo próprio Argan 1972, e por Carlos Antonio Leite Brandão no Brasil (4) a partir dos anos 1990s. Anteriormente, a obra de Alberti, desde as Vidas de Vassari, era vista, desacreditada e mesmo desdenhada, como excessivamente teórica ou como fruto de uma pretensão ambiciosa de um literato amador.

“Mas, quando porventura teoria e prática se juntam, não há nada que possa ser mais conveniente à nossa vida; seja porque a arte por meio da ciência se torna muito mais perfeita e rica, seja porque os textos e os conselhos dos artistas doutos têm em si  muito maior eficácia e gramjeiam maior crédito que as palavras ou as obras daqueles que só conhecem a simples prática, que eles executam bem ou mal.” VASSARI 2011; pág.288

Praça Pio II na pequena cidade
Pienza na Itália, obra de
Bernardo Rosselino

Mas além de Brunelleschi e Alberti, o renascimento será pródigo em figuras, projetos, obras e reflexões que até hoje nos encantam e seduzem, produzirá um vasto material de tratados de arquitetura impulsionados pela redescoberta do tratado de Vitrúvio. Estes tratados já foram tema de um texto aqui no blog com o título de Os tratados de Arquitetura e Urbanismo do Renascimento e do Maneirismo, ou a Arquitetura e Urbanismo; arte e ciência de março de 2022, podendo ser acedssado através do link; http://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com/. Mas além dessa tradição teórica, o renascimento italiano apresenta uma série de obras construídas notáveis com um alto grau de sofisticação e apuro. A praça da pequena cidade de Pienza, local de nascença do Papa Pio II, a partir de um projeto de Bernardo Rosselino (1409-1463), um discípulo de Alberti, realizada entre 1459-62 é uma demonstração ímpar da convivência entre a cidade medieval e as premissas clássicas da nova sensibilidade, inclusive com truques de perspectiva. A reconstrução de Roma, que se inicia no Renascimento, permanece no Maneirismo, e apenas estará estruturada no Barroco reúne uma diversidade de papas, arquitetos e pensadores, desde Alberti, Bramante, Miguelângelo, Leonardo da Vinci, Bernini, Borromini. Um projeto único transtemporal, que pretende conferir legibilidade a uma cidade frequentemente visitada por peregrinos estrangeiros de toda parte da Europa e do Oriente que demandam uma compreensão sintética da cidade. Nesse esforço, um caso emblemático é a reconstrução da antiga Basílica de São Pedro, que registram intervenções de Alberti, Bernardo Rosselino, Donato Bramante, Rafael Sanzio, Antonio Sangallo, Miguelângelo Buonarotti, que se sucedem, chegando até Bernini que configura a Praça São Pedro circundada pela emblemática colunata. Outro exemplo notável, na cidade de Roma é a Praça do Campidóglio, projeto de Miguelângelo de 1539, uma demonstração de que a projetação enfrenta muitas vezes um território de pré-existências que deve ser avaliado e adequado a nova sensibilidade. A Praça do Campidóglio em Roma de Miguelângelo é o exemplo mais contundente de que o projeto não se restringe ao enfrentamento da tábula rasa e plana, mas ao enfrentamento de um território pleno de história, onde os elementos a serem conservados e os a serem descartados sofre o crivo rigoroso na sua constante busca pela auto-justificação.


A Igreja Il Redentore em 
Veneza, Andrea Palladio

Por último, este texto não pode deixar de mencionar um arquiteto representante do limite temporal entre a tradição clássica greco-romana e o maneirismo, que depois desembocará no barroco, o veneziano Andrea Palladio (1508-1560). Natural de Pádua, uma das cidades satélites da república Sereníssima de Veneza, a obra construída de Palladio talvez seja a manifestação mais cabal das premissas da harmonia serena e do equilíbrio absoluto, onde parte e todo se articulam de forma única. A villa Rotonda (1566), no entorno da cidade de Vicenza, a urbanidade mais Palladiana da Itália é uma demonstração cabal de seus preceitos de equilíbrio e harmonia. A casa ligada ao entorno rural de Vicenza, é o tema da burguesia rica na "regio" de Veneza, que busca no idílio rural próximo a natureza o relaxamento da vida agitada das aglomerações urbanas. Nesse tema das villas rurais, destaco aqui; a Villa Barbaro 1550 em Treviso, a Villa Cornaro também em Treviso em 1552, são trabalhos que entrarão para a história da arquitetura como Villas Palladianas. Um outro exemplar notável de sua prancheta será a Basílica de Vicenza de 1549, um projeto que se aproxima de maneira notável e sensível das pré existências medievais, se configurando como uma arcada de revestimento e uma abóboda de madeira modernas, que se destacam e contrastam com o passado. A articulação entre espaço externo e interno, pela arcada clássica, cria uma graduação notável, aonde se celebra a vida urbana, que se articula no governo da cidade a partir da interação entre os seus cidadãos. A coordenação entre os dois níveis da cidade feita pela Basílica de Vicenza é também um ponto notável do projeto, que nos mostra toda a habilidade de Palladio na definição da implantação de sua nova arcada. A aparição da abóboda sobre a rígida modulaçao da arcada coroa e dá legibilidade a hierarquia do programa nos mostrando de forma didática a celebração do tema do Conselho da cidade. Para finalizar, não há como não mencionar duas igrejas notáveis dentro do contínuo construído da cidade de Veneza; San Giogio Maggiore (1566) e Il Redentore (1577), nas quais os campanários são recuados com relação a fachada principal, num esforço que parece mostrar didaticamente a ordenação espacial em três naves. São igrejas que pontuam a paisagem da cidade de Veneza de forma marcante, possuindo claramente essa consciência do seu lugar nessa construção.

Com este texto se encerra a série de textos, que abordam o conteúdo da disciplina Teoria e História da Arquitetura 1, no âmbito da EAU-UFF, que se iniciou com a pré história, seguiu com os Impérios da Antiguidade Pré-Clássica (Mesopotâmia e Egito), enveredou pelo Império Inca, abordou a Antiguidade Clássica (Grécia e Roma), a Idade Média, e por fim o Renascimento Italiano. Os textos são: 

1. O filme A Guerra do Fogo e a disciplina de História e Teoria da Arquitetura 1, de outubro de 2021; 
2. A Divisão Social do Trabalho na antiguidade Pré Clássica, de dezembro de 2021; 
3. A disciplina História e Teoria da Arquitetura 1 e a Antiguidade Pré Clássica euro cêntrica, janeiro de 2022; 
4. As sociedades Pré Colombianas, o exemplo do Império Inca na América do Sul, de janeiro 2022;
5. A arquitetura Grega de fevereiro de 2022;
6. A arquitetura do Império Romano março de 2022
7. A Idade Média, de março de 2022
8. O Renascimento Italiano de junho de 2022

Os textos são na verdade apontamentos de aula, e são reflexões em andamento, fruto dos estudos desse amplo período da História da Humanidade, desde a Pré História até o Renascimento, certamente serão editados e re editados. E, claramente espelham aquilo que o filósofo grego Epicuro caracterizava como o "estudo", que na verdade servia de forma emblemática para mapear nossa própria ignorância, modelando nossa pretensão. Enfim, a pesquisa continua... 

NOTAS:

(1) A Edificação do Batistério retrocede a tempos imemoráveis, consta que era um antigo Templo Romano dedicado a Marte, deus da guerra, sobre este foi erigido uma pequena igreja cristã no século V ou VI, de forma octogonal.

(2) A ideia de entregar o trabalho aos concorrentes ( no caso dois artistas), também esteve presente no Concurso para a cidade de Brasília (1956), no parecer em separado do representante do IAB, Paulo Antunes Ribeiro, que defendeu a ideia de que as equipes dos diferenciados projetos deveriam se somar para produzir uma única proposta para a nova cidade.

(3) Os competidores eram: Lorenzo Ghiberti, Fillipo Brunelleschi, Simone da Cole, Nicollò d' Arezzo, Jacopo della Quercia de Siena, Francesco di Valdambrino e Nicolò Lamberti. Dois eram florentinos; Ghiberti e Brunelleschi, dois eram de Siena; Jacopo della Quercia e Francesco di Valambrino, e os outros três eram do território de Florença, a Toscana.

(4) Remeto aqui aos textos de ARGAN 1992, O Tratado "De Re Aedificaoria", mas também a toda a série de reflexões de BRANDÃO iniciada com: A formação do Homem Moderno vista através da arquitetura 1991; Quid Tum? O combate da arte em Leon Battista Alberti 2000; Na Gênese das racionalidades modernas, em torno de Leon Battista Alberti 2013; e Arquitetura, Humanismo e República, a atualidade do De Re Aedificatoria 2016

BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo - O Significado da Cúpula e O Tratado "De Re Aedificaoria" em História da Arte como História da Cidade - Editora Martins Fontes São Paulo 1992

BRANDÃO, Carlos Antônio Leite - A formação do Homem Moderno vista através da arquitetura - Editora da UFMG Belo Horizonte, 1991

BRANDÃO, Carlos Antônio Leite - Quid Tum? O combate da arte em Leon Battista Alberti - Editora da UFMG Belo Horizonte, 2000

BRANDÃO, Carlos Antônio Leite - Na Gênese das racionalidades modernas, em torno de Leon Battista Alberti - Editora da UFMG Belo Horizonte, 2013

BRANDÃO, Carlos Antônio Leite - Arquitetura, Humanismo e República, a atualidade do De Re Aedificatoria - Editora da UFMG Belo Horizonte, 2016

CONTI, Flávio - Como reconhecer a arte Renascentista - Ed. Martins Fontes: São Paulo, 1984. 

GLANCEY, Jonathan - A História da Arquitetura. - Edições Loyola: São Paulo, 2001.

HEYDENREICH, Ludwig H - Arquitetura na Itália 1400-1500. - Cosac & Naify Edições: São Paulo, 1998.

KING, Ross - O duomo de Brunelleschi - Editôra Record Rio de Janeiro 2013

 LOTZ, Wolfgang - Arquitetura na Itália 1500-1600 - Cosac & Naify Edições: São Paulo, 1998.

PRINA, Francesca; DEMARTINI, Elena - Grande Atlante dell’Architettura dal Mile al Duemila - Electa: Milão, 2005.

VASSARI, Giorgio - Vidas dos Artistas (Le Vite de' piu eccellenti architetti, pittori, et scultori italiani da Cimabue, insino a' tempi nostri) - Editôra Martins Fontes São Paulo 2011

WALKER, Paul Robert - A disputa que mudou a Renascença, como Brunelleschi e Ghiberti marcaram a história da arte - Editôra Record Rio de Janeiro 2005

WUNDRAM, Manfred; PAPE, Thomas - ObraArquitetônica Completa: Palladio - Ed. Taschen, 2004