Diário de Pedro da Luz Moreira, interessado em discutir a arquitetura, a cidade e o projeto
domingo, 6 de setembro de 2020
sábado, 29 de agosto de 2020
Apontamentos da Aula 1: Arquitetura, Cidade, Subalternidade, Filosofia no IAB Compartilha
![]() |
| A Redenção de Cam, retrata o processo de embranquecimento da população brasileira, pintor espanhol Modesto Broco 1895 |
“Por "complexo de vira-lata" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.” RODRIGUES, https://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_vira-lata
O curso como um todo, parte do filósofo marxista e italiano Antônio Gramsci, que nasceu na Sardenha em 1891 e morreu em Roma em 1937, com apenas 46 anos, e, que apesar da pouca idade possui potentes reflexões para o nosso mundo contemporâneo sobre a Subalternidade, notadamente no Quaderni 25, que recebe o título; "Às Margens da História (História dos Grupos Sociais Subalternos)". Além dele apresento os desdobramentos de seu pensamento, que chegaram a nós pelas reflexões de diversos pensadores atuais, que se auto denominaram como subaltern studies, e que ancoram suas teorias nos pensamentos de Antônio Gramsci. Sua biografia apresenta um vínculo forte com os grupos sociais subalternos, uma vez que nasce na rural, arcaica e pobre Ilha da Sardenha, migrando em 1911 para a desenvolvida, industrializada, urbana e rica Turim, no norte da Itália. Além disso Gramsci era filho de pais muito pobres, teve de trabalhar desde criança, seu pai foi preso ainda na sua infância, tendo a família que se sustentar com os trabalhos de costura de sua mãe. Ainda muito cedo teve um problema de saúde muito sério, que foi uma tuberculosa óssea, que representou uma fragilidade física para toda sua vida. Turim era um local que concentrava fábricas como a FIAT e a LANCIA, que atraiam imensos contingentes de operários e nos primeiros anos do século XX concentrou importantes movimentos dos Conselhos de Fábrica, que lutava pela auto-gestão dessas industrias. O sistema de pensamento de Gramsci terá sempre um sentido articulador das lógicas espaciais, econômicas, sociais e culturais, que se articulam numa complexidade. Num sistema de centros hierarquicamente articulados, numa estrutura de dependências mútuas, aonde a relação entre hegemonia e subalternidade embasa e organiza processos complexos de auto-identidade, que partem de centralidades e periferias interdependentes. A subalternidade da Itália nesse sistema mundial, a minoridade da burguesia italiana frente as burguesias; inglesa, americana e francesa, sua declaração de dependência do Estado Nacional, a fraqueza do liberalismo italiano frente a essas outras três nações. A posição da Sardenha e a parte meridional da Itália agrária, católica e arcaica, frente ao norte industrializado, urbano e moderno. O marco referencial será sempre a história particular desses diferentes lugares, que a partir da transformação moderna da constituição da Unidade Nacional inclui ou exclui uma participação maior das suas populações, que assumem um caráter conformador de completude ou incompletude.
“Da Sardenha, metade agrária, camponesa e pobre do Piemonte ao Mezzogiorno todo colonizado e feito periferia do norte do reino da Itália. Mas, a rigor, toda a Itália já era periferia da França, pois o Risorgimento italiano, como revolução burguesa com participação difusa das massas, como revolução passiva, fez da Itália uma região periférica e subalterna, de resto como toda a região mediterrânea. Em outro círculo, a própria Europa corre o risco sério de se tornar um centro periférico diante da ascensão dos Estados Unidos.” ROIO, Marco del 2017 página10
Nesse desenvolvimento, a busca por um desenvolvimento justo e equilibrado, que distribua benesses de forma mais equânime entre precariados e empoderados é o objetivo da estruturação do pensamento gramsciano. Uma forma, que entende a auto-expressão de cada cidadão como um processo de alcance da maioridade enquanto a capacidade de auto-determinação, e questiona a fórmula extratificada do status quo atual, cindido entre representantes e representados. O desenvolvimento histórico dos objetivos a serem alcançados, nesse sistema de pensamento, possui um profundo vínculo com o cotidiano prático e efetivo - filosofia da práxis - dos subalternos, que precisam ser levados a se diferenciar como os grandes prejudicados, pelo funcionamento geral da sociedade. A concentração de renda contínua na minoria da população, que desfruta da exclusividade da propriedade e a partir daí opera sua manutenção deve ser justificada por uma narrativa ou "ideologia". Para Gramsci, o termo "ideologia" assumirá um caráter mais neutro, como um sistema de pensamento que estrutura o agir de qualquer pessoa, havendo ideologias progressistas e conservadoras, que lutam pela conquista do metabolismo social, na medida em que recebem a adesão por um maior número de defensores. No entanto, não significa que ela possa ser livre das determinações e interesses sociais dos diferentes grupos sociais, que sempre desenvolverão vínculos profundos com sua forma de pensar. A perspectiva de Gramsci é a de impossibilidade de libertação de qualquer agente das amarras ideológicas, estando todos os grupos sociais condicionados por suas determinações.
“Desse modo, toda época produz um conjunto de discursos e ideologias contraditórios que visam legitimar a desigualdade tal como ela existe ou deveria existir e descrever as regras econômicas, sociais e políticas que permitem estruturar o todo.” PIKETI, 2020 pág.11
Esse tipo de pensamento, que não se conforma com a forma de operar do status quo, do poder instituído, produzindo de forma contínua uma massa de excluídos, que precisa ganhar consciência de sua condição de subalterno. Em 1919, Gramsci funda com Palmiro Togliatti a Revista L´Ordine Nuovo, um periódico que discute política, cultura e sociedade pretendendo o didatismo de atingir os temas e as preocupações desse mesmo precariado. Em 1926, logo após ser eleito deputado pelo Partido Comunista Italiano (PCI) pelo Vêneto é preso pela polícia de Mussolini, que havia tomado conhecimento da capacidade do jovem sardo, quando ainda militava no Partido Socialista Italiano (PSI). Gramsci ficará preso nos cárceres do fascismo, legando uma reflexão importante para nossa contemporaneidade, nos seus apontamentos nos Quaderni di Carceri. Apesar de marxista, Gramsci critica fortemente o positivismo do marxismo, que desde o advento da Revolução Russa de 1917 havia se restringido a um economicismo redutor, se aproximando muito dos questionamentos de Rosa Luxemburgo, a líder polonesa fundadora da Liga Spartakus na Alemanha, de então. O questionamento de Gramsci envolve sempre uma complexa interação dialética entre; Revolução-Ruptura, Reforma-Gradualismo, diferenças históricas entre Oriente e Ocidente, Estado e Sociedade Civil, Ideologia e Hegemonia. Por exemplo, a construção da hegemonia envolve um complexo gradualismo entre Coerção e Convencimento, aonde existiria na relação entre representados e representantes um movimento que partia da submissão unilateral até a legítima aceitação da representação. Um movimento entre a opressão supressora da identidade e a aceitação participativa da representação, nessa última condição se localizava a legitimidade efetiva da democracia. Questões como a centralidade e a subalternidade eram trespassadas por discursos, persuasão e convencimento dos diversos atores, que atingem a maioridade como representados, na medida em que controlam seus representantes. Há implicações claras nessa forma de raciocínio em todos os relacionamentos que envolvem o poder e seu exercício, aonde se concebe a História, como ciência de aprendizado contínuo. Há também no campo da conformação do plano e do projeto, uma possível analogia entre as condições de usuários e desenhistas, que na medida que se posicionam de forma equânime desenvolvem os desejos de forma madura e adequada. Na Itália, com a presença indelével da Igreja, a política como participação e construção coletiva era no tempo de Gramsci bloqueada pela orientação do abstencionismo por parte do catolicismo.
“Escreve Gramsci no Caderno25, que em seguida ao abstencionismo dos católicos da vida política, podia nascer entre os camponeses uma tendência subversiva-popular-elementar as massas rurais na ausência de partidos regulares, cercavam-se de dirigentes locais que emergiram dela própria, misturando a religião e o fanatismo ao conjunto das reinvindicações...”
ROIO 2017 página28
"Em 1913, nos meses de interrupção da atividade universitária, Gramsci pode assistir na sua ilha à campanha para as primeiras eleições com sufrágio semiuniversal (2) e dela retirou uma impressão muito viva da eficácia da política como fator de mobilização e transformação das massas camponesas, admitidas pela primeira vez ao exercício do voto. Em setembro, na esteira das eleições, realizou seu primeiro ato político público, aderindo ao grupo de ação e propaganda dos interesses da Sardenha, de inspiração antiprotecionista, que se constituira no verão. São particularidades de certa importância, porque nos conduzem ao tema da desprovincialização e nos ajudam a entender a natureza do processo que se realizou no espírito do jovem sardo. A inscrição de Gramsci no PSI é parte integrante de sua nacionalização; com tal ato Gramsci não cortava as raizes territoriais, mas especificava a dimensão intelectual e política na qual buscaria a explicação e perseguiria a solução para as angústias e os problemas específicos da Sardenha, lugar originário e indelével da sua tomada de consciência dos antagonismos sociais." RAPONE 2014 páginas63 e 64
Gramsci também construirá um forte vínculo entre linguagem e forma de estruturar o pensamento, negando de forma enfática o naturalismo, o economicismo e o mecanicismo, que imperava nos meios marxista do início do século XX. Mas ao mesmo tempo valorizando de sobremaneira a forma como a linguagem se estrutura, possibilitando a criação, a reformulação e a revolução dentro de parâmetros e regulações socialmente introjetadas em cada indivíduo. Para Gramsci, o estudo e o aprofundamento no fenômeno da linguagem sempre será proveitoso, reunindo criatividade e compreensão socialmente compartilhada, que na verdade impulsionam um devir histórico real e apartado do idealismo. Na questão da lingua internacional, o Esperanto, Gramsci sem dúvida já celebrava a internacionalização da solidariedade entre despossuídos, mas reafirmava a presença da necessidade pulverizada e molecular, que criaria as condições para a emergência da nova língua a partir do cotidiano, e não por decreto. Há nas referências linguísticas de Gramsci uma constante menção às energias sociais livres, que nunca irão parar de se desenvolver, fazendo pouco caso das narrativas que pensavam num estágio último e definitivo das contradições sociais, que para ele jamais cessariam.
Gramsci sempre irá celebrar esse caráter indomável e avesso ao autoritarismo, que a língua carrega, como no caso da unidade linguística da Itália, proposta em seu tempo a partir do dialeto da toscana, proposta por Manzoni, ou no caso da adoção do Esperanto como facilitador da comunicação internacional. O linguista e filósofo sardo irá repelir com veemência a imposição de cima para baixo, sobre o argumento de que "a linguagem, ainda antes de mecanismo comunicativo, é produto em contínuo devir." RAPONE 2014 página56.
Assim como, a linguagem, a arquitetura, que é uma necessidade humana difundida e presente em toda a humanidade, afinal o homem em suas diversas culturas produz seu próprio abrigo, e não reconhece no planeta e no seu ambiente, tal qual está constituído, um acolhimento adequado. Afinal, existe a produção da arquitetura culta dos arquitetos, e aquela produzida pela auto construção, pela necessidade do abrigo, aonde as referências construtivas estão presentes, assim como na língua. Essa condição, de auto reprodução das técnicas de construção da sua própria sobrevivência se dissemina entre as pessoas conforme o vocabulário, que dominam, seja na materialidade disponível, ou na parcela aonde estão autorizados a realiza-la, o que vincula de forma definitiva, a linguagem à cultura do construir, que sempre tem profundos vínculos com o lugar e com o tempo. O que também está constituído na cidade, que nunca é a mesma, justamente em função das variações dessa linguagem do construir, tanto no espaço, como no tempo.
"Mas aqui quem se pronuncia não é só o discípulo de Bartoli: é também o militante político para o qual opor-se ao esperanto equivale a declarar-se 'revolucionário' e 'historicista': de fato, significa afirmar que na base do devir histórico está 'a atividade das energias sociais livres', excluindo as utopias - isto é, a pretensão de buscar projetos abstratos, ao mesmo tempo arbitrários e ilusórios, sobrepostos ao agir dos homens - e combatendo a ideia de que o movimento da vida e da história, entendido por Gramsci como perpétuo 'fluir de matéria vulcânica liquefeita', possa atingir um estágio último e definitivo, porque hipoteticamente perfeito: 'Por isso abaixo o esperanto, tal como abaixo todos os privilégios, todas as mecanizações, todas as formas definitivas e enrijecidas de vida, cadáveres que empestam e agridem a vida em devir’” RAPONE 2014 página57
"O povo italiano, há cinquenta anos, não existia, era só uma expressão retórica, Não existia nenhuma unidade social na Itália, existia uma unidade geográfica. Existiam milhões de indivíduos dispersos no território italiano, cada qual vivendo para si mesmo, preso no seu torrão particular; ninguém sabia da Itália, cada qual falava um dialeto particular, acreditava que todo mundo estava limitado ao horizonte de sua aldeia. Conhecia o coletor de impostos, conhecia o carabineiro, conhecia o juiz e o tribunal: sua Itália. E, no entanto, esse indivíduo, muitos destes milhões de indivíduos superaram este estágio particularista, formaram uma unidade social, sentiram-se cidadãos, sentiram-se colaboradores de uma vida, que saia do horizonte da sua aldeia, que se estendia por espaços cada vez mais amplos do mundo, que se estendia ao mundo inteiro.... Ele fez com que um camponês da Puglia e um operário de Biella falassem a mesma língua, passassem, tão distantes, a se expressar de modo igual em relação ao mesmo fato, a dar um juízo igual sobre um acontecimento, um homem..." RAPONE 2014 páginas 66 e 67
“...processo histórico de formação das diversas categorias de intelectuais, que é observado em todo grupo social, por nascer na base originária de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria ao mesmo tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe conferem homogeneidade e consciência de sua função no campo econômico.” GRAMSCI 1934 Q4
“Mas todo grupo social ao emergir da história da estrutura econômica, encontra, ou encontrou na história que desenvolveu até então, categorias intelectuais pré existentes, as quais se apresentam como figuras de uma continuidade histórica ininterrupta, não posta em discussão nem pelas mais complexas mudanças sociais e políticas. Desde os eclesiásticos, monopolizadores por longo tempo de alguns serviços essenciais até Croce que se percebe mais ligado a Aristóteles do que a Agnelli.” GRAMSCI 1934 Q4
“A relação entre intelectuais e produção não é imediata, como acontece para os grupos sociais fundamentais, mas é mediada, e é mediada por dois tipos de organização social; a) pela sociedade civil, isto é, pelo conjunto de organizações privadas da sociedade, b) pelo Estado.” GRAMSCI 1934 Q4
O Caderno 25 faz uma reflexão sobre um período da História Italiana, da sua unificação tardia no século XIX, denominado o Risorgimento da Itália, no qual Gramsci claramente compara o processo de emergência do Estado Nacional no seu país, com as revoluções na Inglaterra (1688), EUA (1775-83), e França (1789-99), identificando uma reparação conservadora entre as massas e as lideranças. Na verdade Gramsci identifica uma minoridade nas massas italianas, que ao serem simplesmente conduzidas não haviam feito o esforço de auto identificação, que ele percebera nos casos da Inglaterra, EUA e França, que portanto se auto-responsabizaram e ganharam visibilidade. Desenvolvendo uma relação complexa (histórica e geográfica) em relação ao par; hegemonia/subalternidade, não apenas econômica, mas também cultural e social.
“Nós não conhecemos a Itália. Pior ainda: faltam-nos os instrumentos adequados para conhecer a Itália como ela realmente é. Portanto, nos encontramos na quase impossibilidade de fazer previsões, de nos orientarmos...Não existe uma história da classe operária italiana. Não existe uma história da classe camponesa...” GRAMSCI 1934 Q25
"Sua crítica [de Spivak], de base marxista, pós-estruturalista e marcadamente desconstrucionista, frequentemente se alia a posturas teóricas que abordam o feminismo contemporâneo, o pós-colonialismo e, mais recentemente, as teorias do multiculturalismo e da globalização.“ ALMEIDA, Sandra Regina Goulart (UFMG – tradutora)
“Por força da lei 12.519, de 2011, a data se transformou no Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra...Em 2018, apenas 1047 municípios, de um total de 5561 optaram pelo feriado. Em alguns estados, como Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Pará e Rondonia, nenhuma cidade se animou a celebrá-lo como um dia de descanso... Os historiadores, Jean Marcel Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira, professores da UNESP... Afirmam que traçar a biografia de Zumbi seria hoje uma tarefa impossível.” GOMES 2019 página422
“Alexandre Moreau de Jonnès – conhecido pelos muitos materiais estatísticos sobre os escravos e seus donos que compilou em diversas colônias a partir dos recenseamentos e pesquisas administrativas realizados desde o século XVII e abolicionista convicto – propõe em 1842, que os escravos ressarçam o valor total da indenização realizando “trabalhos especiais” não remunerados pelo tempo que for necessário. Ele insiste no fato de que isso também ensinará aos escravos o significado do trabalho.” PIKETI 2020 página210
“...Este era o costume cultural do tempo: em vez de estudar as origens de um acontecimento coletivo, e as razões de sua difusão, de seu ser coletivo, isolavam o protagonista e se limitavam a fazer sua biografia patológica, muito frequentemente partindo de motivos não comprovados ou passíveis de interpretação diferente: para uma elite social, os elementos dos grupos subalternos têm sempre algo bárbaro ou patológico” GRAMSCI 1934 Q25
“...todo traço de iniciativa autônoma por parte dos grupos subalternos deve ser de valor inestimável para o historiador integral.” GRAMSCI 1934 Q25
Mais um momento invisível em nossa historiagrafia foi o de 1904, denominado como; A Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro e em Niterói, em 9 de novembro foi aprovada pelo Senado Federal a lei da obrigatoriedade da vacina da Febre Amarela. Em março de 1904, uma lei já havia regulamentado o serviço de profilaxia na cidade, concedendo poderes arbitrários ao Prefeito Pereira Passos nomeado pelo Presidente Rodrigues Alves, dentre eles o de demolir as edificações consideradas insalubres. Em novembro de 1904, a cidade era um verdadeiro canteiro de demolições e desalojamento do seu precariado que habitava os cortiços e outras edificações precárias, que recebiam ordem de abandonar suas habitações, nas quais eram locatários, sem qualquer compensação. As rebeliões e trincheiras se estenderam do dia 9 ao dia 15 de novembro, tendo os rebeldes se apoderado do Quartel da Polícia na Rua Frei Caneca, depredando edificações e o serviço de bondes da cidade. No dia 16, O Governo Federal decreta Estado de Sítio na cidade.
“Ela (Revolta da Vacina) sacrificou grupos subalternos em proveito dos interesses mais gerais das classes dominantes, sob a hegemonizada burguesia cafeeira paulista...Ao mesmo tempo foi proveitosa aos interesses particulares do capital privado...desde o capital bancário internacional, de onde provieram os empréstimos...passando pelas grandes companhias empreiteiras, especuladores e construtores, até as diversas frações do capital comercial, financeiro e industrial que puderam permanecer ou vieram se instalar nas áreas remodeladas.” BENCHIMOL 1992 página328
“Não fazia muito tempo, Rui Barbosa, Ministro da Fazenda do Governo Provisório, mandara queimar toda a documentação relativa a escravidão existente no ministério, alegando que o fazia para apagar a mancha negra das páginas da nossa história.” BENCHIMOL 1992 página311
“Permitam-me enfatizar aquilo que me parece ser uma aspecto essencial da história do capitalismo; sua flexibilidade ilimitada, sua capacidade de mudança e adaptação. Se há, segundo creio, uma certa unidade no capitalismo, da Itália do século XIII até o Ocidente dos dias atuais, é aí, acima de tudo, que essa unidade deve ser situada e observada... Em certos períodos, inclusive períodos longos, o capitalismo de fato pareceu especializar-se, como no século XIX, quando se deslocou tão espetacularmente para o novo mundo da indústria.” ARRIGHI 1996 página4
“...quando os agentes capitalistas não têm expectativa de aumentar sua própria liberdade de escolha, ou quando essa expectativa é sistematicamente frustrada, o capital tende a retornar a formas mais flexíveis de investimento – acima de tudo sua forma monetária. Em outras palavras, os agentes capitalistas passam a preferir a liquidez, e uma parcela incomumente grande de seus recursos tende a permanecer sobre forma líquida.” ARRIGHI 1996 página5
Logo depois da Liga Hanseática, a Inglaterra assume a supremacia no sistema capitalista internacional, com a retirada dos holandeses do comércio internacional para se transformarem nos banqueiros da Europa. A Inglaterra nos primeiros sinais da Revolução Industrial assume uma concentração de riqueza sem par, demonstrando inicialmente uma capacidade ímpar de super explorar seu entorno imediato (irlandeses) e depois o resto do mundo. Num segundo patamar, mas também de forma sincrônica com a Inglaterra, a França desenvolve uma forma particular de acumulação primitiva que é específica, na sua histórica beligerância com o Reino Unido, desde a guerra dos 100 anos. Sua inserção internacional será ideologicamente central com a Revolução Francesa, mas fomentará um capitalismo mais artesanal, agrário, disperso e qualitativo que investirá fortemente numa super exploração de suas colônias.
“...as sociedades de proprietários que prosperavam na Europa no século XIX e início do século XX se caracterizavam por uma concentração extrema de propriedade. Na França, no Reino Unido e na Suécia os 10% mais ricos detinham durante a Belle Époche (1880-1914) entre 80% e 90% de tudo que havia para ser possuído (terras, imóveis, ativos profissionais e financeiros, líquidos de dívidas) e o 1% mais rico detinha, sozinho entre 60 e 70% de tudo o que havia para ser possuído.” PIKETI 2020, página247
![]() |
| Gráfico que mostra a apropriação da renda nacional, pelos 10% mais ricos no mundo, mostrando como Brasil e Índia são países desiguais |
Em seguida a hegemonia inglesa emerge os EUA, uma nova base do domínio capitalista mundial, inicialmente no segundo pós-guerra, com um discurso anti-colonial no Oriente Médio, numa aparente domesticação do imperialismo inglês. Mas em seguida usando-se de expedientes de contra espionagem determina uma nova forma de dominação, realizada pelas suas grandes corporações e multi nacionais. Os EUA também hierarquizam as nações pelo mundo exercendo sua supremacia de forma diferenciada; nos paises mais desenvolvidos como na Europa e Japão a partir do soft power. E, nos países da periferia e semi-periferia do capitalismo, na América Latina, África e Oriente, a partir do hard power, ou da utilização de tropas ou promoção de golpes de Estado. Por fim, mencionei a China, nova potência mundial, que vem dominando os ativos financeiros estadunidenses, território de atração do capitalismo de acumulação primitiva, combinado com Planejamento Estatal, mas sem poder bélico para se contrapor aos EUA. Mas assim como os BRICs; Brasil, Russia, India, China e África do Sul se apresentam como promotores de um desenvolvimento de grande concentração de renda, que na verdade atraem desenvolvimento a partir de sua capacidade de super explorar seus precariados, a partir da desarticulação do fordismo-keynesianismo, que se inicia no final dos anos setenta, com as eleições de Margareth Thatcher na Inglaterra (1979) e Ronald Reagan nos EUA (1980).
“Desde então, (final dos anos setenta) todas as nações tem estado a mercê da disciplina financeira, seja pelos efeitos da fuga de capitais, seja por pressões institucionais diretas; “Sempre houve, é claro, um equilíbrio delicado entre os poderes financeiros e estatais no capitalismo, mas a desarticulação do fordismo-keynesianismo significou uma evidente guinada para um aumento de poder do capital financeiro frente ao Estado nacional.”” ARRIGHI 1996, página03
NOTAS:
(1) Glotologia, ciência que estuda comparativamente as diversas línguas, considerando suas origens e formação. (Sin.: glossologia, glótica.)
(2) O sufrágio universal masculino foi decretado em 1912, e apenas em 1945 admitiu a participação das mulheres.
BIBLIOGRAFIA:
ADORNO, Theodor e HOCKHEIMER, Max – A Dialética do Esclarecimento, fragmentos filosóficos – Jorge Zahar Editores Rio de Janeiro 1985
ALEXANDER, Christopher – Una Linguagen de patterns – Editorial Gustavo Gilli 1987
_____________________ - Ensayo sobre la Sintesis de la forma – Editorial Gustavo Gilli 1976
ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
BACHELARD, Gaston - A formação do espírito científico, contribuição para uma psicanálise do conhecimento - Editora Contraponto Rio de Janeiro 1999
BENCHIMOL, Jaime Larry - Pereira Passos: um Haussmann Tropical - Biblioteca Carioca Rio de Janeiro 1992
BRAUDEL, Fernand - The Wheels of Commerce - Harper & Row, Nova York 1982
DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian – A Nova Razão do Mundo, ensaio sobre a sociedade neo-liberal – Editora Boitempo São Paulo 2016
DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian – O Comum, ensaio sobre a revolução do século XXI– Editora Boitempo São Paulo 2017
FIORI, Pedro Arante - Arquitetura na era digital e financeira – Editora 34 letras São Paulo 2017
FRAMPTON, Kenneth - Studies on Tectonic Culture – MIT Press Nova York 2002
FRAMPTON, Kenneth – História Crítica da Arquitetura Moderna – Editora Martins Fontes São Paulo 1997
FUKUYAMA, Francis – O fim da História – Edição Vozes Petrópolis 1989
GABRIEL, Mary - Amor e Capital, a saga da família de Karl Marx e a história de uma revolução - editora Zahar Rio de Janeiro 2013
HABERMAS, Jürgen – Arquitetura Moderna e Pós Moderna – Revista CEBRAP 1989
__________, Jürgen – O Discurso filosófico da modernidade – Editora Martins Fontes São Paulo 2002
HOBSBAWM, Eric - Como Mudar o Mundo, Marx e o marxismo de 1840-2011 - Editora Companhia das Letras São Paulo 2011
JAMESON, Frederic – A Cultura do Dinheiro, Ensaios sobre a globalização; O Balão e o tijolo, arquitetura, idealismo e especulação imobiliária – Editora Vozes Petrópolis 2001
KANT, Immanuel - Duas introduções à crítica do juízo - Editora Iluminuras São Paulo 1995
KHOURY, Ana Paula – Arquitetura moderna brasileira, uma crise em desenvolvimento textos Rodrigo Lefèvre – FAPESP São Paulo 2019
KING, Ross – O Domo de Brunelleschi, como um gênio da Renascença reinventou a arquitetura – Editora Record Rio de Janeiro 2013
LYNCH, Kevin – A Imagem da Cidade – Editora Martins Fontes Rio de Janeiro 1991
LYOTARD, Jean Françoise – A Condição pós Moderna – Editora José Olympio Rio de Janeiro 1986
KONDER, Leandro - A questão da ideologia - Companhia das Letras São Paulo 2002
LAGO, Ivann - O Jair que há em nós - artigo publicado em carta maior coletado em maio de 2020 em https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/O-Jair-que-ha-em-nos/52/47388
LÊNIN, Vladimir Ilitch Ulianov - O estado e a Revolução, a doutrina do marxismo e as tarefas do proletariado na revolução - Editora Boitempo São Paulo 2017
LIGUORI, Guido e VOZA, Pasquale (orgs.) – Dicionário Gramsci 1926-1937 – Editora Boitempo São Paulo 2017
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich - A Ideologia Alemã: Crítica da novíssima filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Brauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas, 1845-1846 - Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2007
MONEO, Rafael - Inquietação Teórica e Estratégias Projetuais – Editorial Cosac Naif São Paulo 2002
MOREIRA, Pedro da Luz – Projeto, Ideologia e Hegemonia; em busca de um conceito operativo para a cidade brasileira – Tese de doutorado de 2007 do PROURB FAU-UFRJ
_______, Pedro da Luz - O espaço da Europa em 1848, e o nosso tempo contemporâneo - Dezembro de 2018, em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com coletado em 05/06/2020
_______, Pedro da Luz - A mudança, o Estado e a Sociedade Civil - Fevereiro de 2018, em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com coletado em 05/06/2020
PIKETI, Thomas – Capital e Ideologia – Editora Intrínseca Rio de Janeiro 2020
PULS, Mauricio – Arquitetura e Filosofia – Editora Anablume São Paulo 2006
ROLNIK, Raquel – A Guerra dos Lugares, a colonização da terra e da moradia na era das finanças – Editora Boitempo São Paulo 2015
RAPONE, Leonardo - O jovem Gramsci, cinco anos que parecem séculos, 1914-1915 - Editora Contraponto, Brasília 2014
ROIO, Marco del – Gramsci e a Emancipação do Subalterno – Editora UNESP São Paulo 2018
_____________ (org.) – Gramsci, Periferia e Subalternidade – EDUSP São Paulo 2017
ROSSI, Aldo – A Arquitetura da Cidade – Editora Martins Fontes São Paulo 1997
SANTOS, Carlos Nelson dos – A cidade como um jogo de cartas – Editora Projeto Rio de Janeiro 1989
SCHUMPETER, Joseph A - Capitalismo, socialismo e democracia - Editora UNESP São Paulo 2017
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
REUNIÃO DO CVI SOBRE "CUIDANDO DE QUEM CUIDA"
![]() |
| Cartaz do Evento do Centro de Vida Independente (CVI) |
![]() |
| Tela capturada do meu computador na reunião do CVI; Cuidando de que Cuida |
No meu depoimento, procurei enfatizar o importante retorno que a convivência com Felipe me proporciona, procurando me afastar das visões romantizadas e mistificadoras, que recalcam as profundas frustrações e ansiedades que permeiam essa convivência num mundo do autismo, aonde a comunicação é sempre um fio tênue e muito delicado. Apesar disso tudo, reconhecia de forma categórica como essa experiência de ser pai do Felipe havia mudado minha existência e meu cotidiano de forma sensível, num processo de auto aprendizado que revolucionou minha forma de interação com o mundo de uma maneira geral. Essa mudança impactou toda a família - imediata e expandida - de forma clara e indelével, tornando-nos a todos outras pessoas. De certa forma, uma maior abertura para as especiais necessidades e comportamentos de todo ser humano, que na verdade está sempre distante do que se convencionou categorizar, como neuro normalidade. Considerei também, em minha fala a importância da ampliação da visibilidade do neuro especial no seio da sociedade, que denota uma atitude política no enfrentamento dos pré conceitos arraigados em todos. A luta pelo acolhimento de instituições do Estado, que garantam o resguardo, a convivência e o acompanhamento dos neuro especiais, que no meu entendimento representam um grande ganho para qualquer sociedade no mundo. Enfim, foi uma experiência notável, que deveria ser compartilhada por todos, fazendo com que a sociedade tivesse mais empatia com a neuro diversidade, que representa na verdade um ganho.
sábado, 13 de junho de 2020
Aula 2: Arquitetura, Cidade, Filosofia, Pandemia (apontamentos)
Na segunda aula de Arquitetura, Cidade, Filosofia, Pandemia reforcei a presença da importância do debate e do encontro do contraditório para ampliação do conhecimento, no esforço da rede do IAB para organização do Congresso UIA 2021Rio, no qual a cidade e a ocupação humana do território estará sendo pensada e problematizada. Foi também recordado alguns pontos da Aula 1, tais como;
Theodor Adorno (1903-1969) e Max Hockheimer (1895-1973), dois filósofos da Escola de Frankfurt, um centro universitário da Alemanha, que se dedica a crítica cultural identificando assim como Gramsci a necessidade de transformação, a partir dos comportamentos do cotidiano. O tema de Adorno e Hockheimer se concentra na indústria cultural do cinema e da música identificando nela uma supremacia do entretenimento e da superficialidade, frente a um aprofundamento crítico. O livro, A dialética do esclarecimento, fragmentos filosóficos foi escrito por Theodor W. Adorno e Max Hockheimer em pleno exílio nos EUA, nos anos da ascensão do Partido Nacional-Socialista, que impediu as atividade do Instituto de Pesquisas Sociais (IPS), a Escola de Frankfurt, dentro da Alemanha de 1933 a 1945. Os dois filósofos alemães escrevem o livro exilados na costa oeste americana, na cidade de Berkeley próxima a San Francisco, convivendo com a emergência do modelo de uma cidade espalhada e de baixa densidade, dominada pelo automóvel e o pneu, que assiste ao surgimento da moderna indústria da cultura de massas, representada pelo cinema e pela música. Na Alemanha, o nazismo fora eleito determinando a perseguição aos judeus e aos intelectuais de esquerda, na União Soviética, Stálin havia assumido o controle do Partido Comunista calando vozes de diversos opositores. Mesmo nos EUA e na Califórnia, distantes das terríveis convulsões da Europa e iniciava a perseguição aos comunistas, que impuseram aos dois filósofos alemães uma série de constrangimentos. Adorno por exemplo, que não possuía o visto americano permanente, não podia se afastar mais de cinco quilômetros da Universidade e de sua casa, sem comunicar a polícia da Califórnia, o que já denotava o surgimento do Macarthismo (2), e da perseguição ao pensamento de esquerda. Por tudo isso, aqui emerge um marxismo desconfiado da coletividade e mesmo do proletariado, que radicaliza um discurso vanguardista e isolacionista, que Horkheimer já prenunciava no livro A teoria tradicional e teoria crítica de 1937;
Há uma desconfiança continuada sobre a ampliação do consumo das classes precarizadas, que efetivamente não representaram uma efetivação do esclarecimento, mas um entorpecimento e uma alienação generalizada. O discurso estadunidense de que no país não havia uma classe trabalhadora, mas apenas uma classe média consumidora, que desfrutava de bens e confortos permitidos pela ampliação contínua de sua economia é questionado contrapondo-se a ampliação da alienação do divertimento e do consumismo.
Por último abordamos Jürgen Habermas (1929-), o último representante vivo da Escola de Frankfurt, que irá trabalhar sobre a diferenciação entre razão instrumental e razão comunicativa, dando a primeira uma restrita dimensão operativa, enquanto a segunda desfrutaria de uma maior legitimidade. Habermas é membro da Escola de Frankfurt, o Instituto de Pesquisas Sociais (Institut fur Socialforschung) tendo sido assistente de Adorno coopera com este na crítica ao positivismo lógico. Desenvolve sua teoria dos interesses cognitivos, em sintonia com o pensamento de Herbert Marcuse, e com a didática de Piaget especialmente em relação ao interesse emancipatório. Desde o início, sua obra transita ao redor da categoria da interação. O trabalho de Habermas trata dos fundamentos da teoria social, no qual a racionalização do mundo da vida ocorre mediante uma progressiva libertação do potencial de racionalidade contido na interação comunicativa. A ação orientada para o entendimento mútuo ganha cada vez mais independência dos contextos normativos, que são considerados no âmbito da racionalidade operativa. Em meados dos anos 1990 o filósofo Habermas decreta num texto no qual ironiza a tendência contemporânea de se utilizar do prefixo pós para caracterização do nosso tempo. O texto de Habermas distingue a modernidade do modernismo, dizendo que a pretensão humana de desígnio do seu futuro, que as revoluções americana e francesa tinham expressado permanecia inalcançado. Habermas constroe sua teoria da racionalidade comunicativa, que se contrapõe a racionalidade meramente instrumental, determinando que a razão não deve estar carregada de personalismos, mas construída a partir de conflitos. Abre-se uma nova perspectiva utópica, que não mais condena as gerações futuras a uma construção congelada e fixa, mas que celebra o processo de auto-construção e de auto-determinação.
Muitos formularam uma crítica a filosofia de Habermas em cima de sua filiação euro-cêntrica, uma vez que se referia ao mundo desenvolvido, que apresentava uma constante ampliação da esfera pública de debates e explicitação de conflitos. Realmente, havia nos anos setenta, a percepção de ampliação das formas de regulação do mercado, e a inclusão social promovidas pelas formas de ordenação governamental, pelo menos no espaço da Europa, Japão e dos EUA. Havia então um declínio do capitalismo concorrencial e uma forma de regulação das sociedades avançadas baseadas no fordismo, no domínio monopolista da economia, e no keynesianismo, que começou a desmoronar com a ascensão de Tatcher e Reagan no final dos anos setenta. Nesse contexto era fundamental a existência do Estado, regulando as interações humanas e arrecadando impostos para promoção do estado de bem-estar social (Welfare State). O reconhecimento, o acato das ordens, e as estruturas burocráticas do Estado eram reconhecidas e identificadas como ordenadores das interações humanas, e necessitavam ter legitimidade para operar. Há uma presença da burocracia do Estado, que vigia e regula as atitudes dos cidadãos, a partir de impostos, que retornam em serviços notadamente de saúde, habitação e educação, que o Brasil nunca usufruiu. Mas, apesar dessa crítica não como negar que o conceito habermasiano da Legitimação coloca um dos problemas mais agudos dos sistemas de governo representativos, pois medem a qualidade da relação entre governados e governantes, e que no Brasil dos últimos anos assume uma dimensão dramática. Ou metaforicamente, a capacidade de lobos se transmutarem em cordeiros, ou a delegação conferida a chacais para cuidar de rebanhos dóceis, ou ainda a variação entre passividade e ativismo de cidadãos e seus representantes. No Brasil e no resto do mundo, nossa condição sobre o julgo da hegemonia financeira ou do improdutivo rentismo, lançou numa luta pela sobrevivência todos os que vivem apenas de seu trabalho, os despossuídos.
Desde o Iluminismo, o debate sobre as profissões, tanto sobre a arquitetura quanto sobre o urbanismo, pretende construir a figura do arquiteto como um ideólogo social, capaz de organizar de forma persuasiva a cidade e o viver. Mais contemporaneamente o arquiteto, Manfredo Tafuri, no livro História e Teorias da Arquitetura dedicou-se ao termo, qualificando muitas vezes a atuação dos profissionais como uma ordenação ideológica, que aponta para um esforço de convencimento e cooptação social das idéias, de modo que estas ganhem permeabilidade social ou aceitação geral. Tal condição pode ser comprovada quando nos debruçamos sobre a História da Arquitetura, buscando a construção de seu sentido, que aponta para ampliação da sociabilidade humana, de sua interação social. A história da arquitetura está pontuada por esforços de mudar práticas humanas arraigadas adequando-as aos novos tempos, tais como; no Iluminismo no seu esforço de deixar transparentes os recursos aplicados a transformação da obra, ou no modernismo na sua ênfase no habitar coletivo, ou ainda na contemporaneidade com sua adequação a nova consciência de limitação dos recursos do planeta. A ordenação ideológica e o alcance da hegemonia são operações constantes nesses exemplos para convencer o conjunto da sociedade da necessidade de mudança. Portanto, é necessário enfatizar a presença da ideologia em nosso mundo contemporâneo, esta simples palavra possui uma das caracterizações mais dinâmicas dentro das ciências sociais. A Ideologia sob o ponto de vista do senso comum se constitui como um conjunto de crenças, idéias, pensamentos, doutrinas de um indivíduo ou de um grupo social, que estruturam o seu agir. Habermas, em seu livro, O discurso filosófico da modernidade destaca que a necessidade de auto-legitimação do pensar moderno determinou que o homem se tornasse refratário a seguir sistemas de idéias já instalados, buscando sempre reconstruir sua visão de mundo particular. A desconfiança frente a sistemas de crenças instituídos é cada vez mais intensa, gerando uma constante instabilidade na produção ideológica.
Os exemplos desse esforço se sucedem na Europa no período entre guerras, principalmente na sua região central; da República de Weimar Alemã, da Austria, da Tcheco Eslováquia, aonde administrações social-democratas buscam reduzir as agruras dos imigrantes recém chegados a cidade, com a produção habitacional. A casa do operário ou da classe média, que se constituia na grande massa edificada da cidade industrial, as periferias desse fenômeno inusitado que também explodia na Europa na sua escala e tamanho, determinando um contínuo construído rápido, feio e inadequado. As infraestruturas urbanas e a habitação produzida em massa são os temas eleitos pelas vanguardas centro-européias. O Metrô de Viena, os conjuntos de Karl Marx Hof também na capital austríaca, o conjunto habitacional de Wiessenhof em Stugart na Alemanha, ou ainda o Karl Liegen Stadt de Bruno Taut em Berlim são testemunhos desse esforço de inclusão de massas que aportavam as cidades. Com essa estratégia, não há como negar que o modernismo conquistou corações e mentes em todas as partes do mundo, com diferentes nuances e formulações ele encarnou um desejo na sociedade de ampliação da autonomia dos povos na definição de seu futuro, de seu vir a ser, materializado na produção indiferenciada da habitação social. Mas esse posicionamento sofre uma inflexão na década de 30, como apontado pelo historiador Keneth Frampton, com a emergência da hegemonia de Le Corbusier no cenário dos CIAMs. A cidade imaginada na modernidade corbusieana radicaliza as transformações propostas pela primeira modernidade, rompe-se a estrutura tradicional baseada na rua, na quadra e no lote. As edificações ficam independentes do traçado das ruas. Há uma crença na especialização de partes do território da cidade, que passam a estar segregados em áreas de lazer, habitação e trabalho, como se fosse a tendência da cidade industrial. O automóvel assume a dimensão do transporte único e exclusivo da cidade, num rodoviarismo, que irá fortemente impactar a vida urbana. O automóvel ocupa e demanda um espaço exclusivo nas aglomerações urbanas, assumindo um papel destruidor da convivência e da interação urbana. No contexto do Brasil, o modernismo assume uma face criativa e generosa, reinterpretando o modernismo corbusieano, dando-lhe uma face inusitada e inovadora, sintetizada e concentrada no projeto das super quadras de Brasília do ideólogo Lucio Costa.
Um pouco antes, nos anos 1950 o arquiteto Loui I. Khan (1901-1974) retoma o tema da monumentalidade e quebra a unidirecionalidade tecnológica dos materiais, retomando o tijolo como elemento pré-moldado mais potente. Em 1947 Khan assume a cadeira de arquitetura em Yale, fazendo reflexões fundamentais, como: “O que o lugar quer ser?” “ Programa morto e vivo” “Espaços que servem e os que são servidos”. No começo da década de 60, Jane Jacobs no livro Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas (1961), no qual decreta a perda da vitalidade das cidades americanas em função de um rodoviarismo exacerbado, presente no modernismo nos projetos de Le Corbusier como o Plano Voisin para Paris. A jornalista Jane Jacobs desenvolve a ideia de protagonismo do usuário no desnho das cidades;
Os dois autores retomam os textos do jovem Marx, que em 1842 escreveu uma série de artigos na Gazeta Renana (Reinish Zeitung), sobre a lei que impedia a coleta de lenha nas florestas privadas da Renânia, que constituem a abertura do filme do diretor haitiano Raoul Peck, que descreve o começo da vida do filósofo alemão, desse momento até a síntese do Manifesto Comunista em 1848, junto com Engels. Esses textos destacam a profundidade das reflexões de Marx a partir do problema da coleta de lenha naturalmente caída no solo, com respeito a filosofia do direito, um tema caro ao seu mestre, o também filósofo Hegel. No final da aula numa rápida autocrítica dessa coletânea observa-se a ausência do pensamento feminino, que deve ser corrigida numa próxima reflexão, abordando a ; Arquitetura, Cidade, Filosofia. A menção à Rosa Luxemburgo (1871-1919) que desenvolveu um profundo pensamento sobre: Militarismo, guerra e classe trabalhadora (1913), A acumulação do capital (1963); E, Hannah Arendt (1906- 1975), com: Origens do Totalitarismo, antisemitismo, imperialismo, totalitarismo (1951), Eichmann em Jerusalém (1963) termino essa duas aulas.
NOTAS:
(1) Glotologia – estudo da evolução da língua coloquial
(2) Macarthismo - movimento notadamente anticomunista, inspirada no movimento dirigido pelo senador Joseph Raymond McCarthy 1909-1957, que dominou os serviços secretos americanos.
(3) Excurso - tem como significado; desvio, digressão, divagação, ou desvio do tema principal.
(4) Niilismo - doutrina filosófica que nega a existência do absoluto, quer como verdade, quer como valor ético
BIBLIOGRAFIA:
AARÃO REIS, Daniel - A revolução que mudou o mundo: Rússia 1917 - Companhia das Letras São Paulo 2017
ADORNO, Theodor W. e HORCKHEIMER, Max - Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos - Jorge Zahar Rio de Janeiro 1985
ALEXANDER, Christopher - Ensayo sobre la sintesis de la forma - Editorial Gustavo Gilli 1976 Barcelona
___________, Christopher - Una lenguagen de padrons - Editorial Gustavo Gili 1981 Barcelona
BACHELARD, Gaston - A formação do espírito científico, contribuição para uma psicanálise do conhecimento - Editora Contraponto Rio de Janeiro 1999
BRAUDEL, Fernand - The Wheels of Commerce - Harper & Row, Nova York 1982
DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian - O comum, a revolução do século XXI - Editora Boitempo, São Paulo 2017
FOUCAULT, Michel - Vigiar e Punir - Editora Vozes Petrópolis 2000
FRAMPTON, Kenneth - Studies in Tectonic Culture - MIT Press Londres 2001
__________, Kenneth - História Crítica da Arquitetura Moderna - Editora Martins Fontes São Paulo 2007
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich - A Ideologia Alemã: Crítica da novíssima filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Brauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas, 1845-1846 - Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2007
MERQUIOR, José Guilherme - Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamim - Editora Civilização Brasileira 1965
__________, José Guilherme - Michel Foucault ou o Niilismo de Cátedra - Editora Nova Fronteira Rio de Janeiro 1985
MONEO, Rafael - Inquietação Teórica e Estratégia Projetual - Editora Cosac Naify São Paulo 2008
MOREIRA, Pedro - Projeto, Ideologia, Hegemonia; em busca de um conceito operativo para a cidade brasileira - Tese de Doutorado no PROURB FAU-UFRJ 2007
________, Pedro da Luz - O espaço da Europa em 1848, e o nosso tempo contemporâneo - Dezembro de 2018, em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com coletado em 05/06/2020
__________, Pedro da Luz - A mudança, o Estado e a Sociedade Civil - Fevereiro de 2018, em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com coletado em 05/06/2020
__________, Pedro da Luz - O jovem Gramsci, a linguagem e as formas de construir – Janeiro 2019 em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com, coletado em 08/06/2020
RAPONE, Leonardo - O jovem Gramsci: cinco anos que parecem séculos 1914-1919 - Editora Contraponto Rio de Janeiro 2014
SANTOS, Carlos Nelson - A cidade como jogo de cartas - Editora Projeto São Paulo 1988
SCHUMPETER, Joseph A - Capitalismo, socialismo e democracia - Editora UNESP São Paulo 2017
- A epidemia do Covid-19 radicaliza uma presença constante da era moderna e contemporânea, o impulso de conhecer e problematizar a sociedade em que vivemos, na sua operação, principalmente no que se refere a sua capacidade de distribuir felicidade e bem estar entre todos.
- Esse desejo de transformação se aglutina em dois pontos. Um lado progressista, luta contra a manutenção de sua forma operativa; alienada, competitiva e repetitiva, bloqueadora da felicidade, da solidariedade e do bem estar. E o outro lado, conservador, que celebra a atual forma de ordenação social, alienada, competitiva e repetitiva, considerando que essa manutenção garantirá o alcance da felicidade e do bem estar.
- as tradições estruturais do autoritarismo brasileiro,
- a longa recusa do enfrentamento em nossa história desse mesmo autoritarismo,
- o capital rentista que apura valores exorbitantes sem produzir nada e
- a curta conjuntura de emergência de grupos milicianos e para militares, a partir de 2013, que endemonizaram a política pós constituinte de 1988.
- O que é exatamente conhecer?
- O que me autoriza a afirmar que realmente conheço um assunto?
- Quem me garante que o que sei, ou acho que sei, corresponde ao real?
![]() |
| Arcaico e Moderno, dimensões que se aproximam e se juntam na exploração mútua. Favela e Condomínios de Luxo |
Logo após essas recordações abordamos o filósofo italiano Antônio Gramsci (1891-1937), que nasceu em Ales na Ilha da Sardenha em 1891, junto do sul da Itália, e morreu em Roma em 1937, tendo uma vida trágica marcada pelo cárcere do fascismo de Mussolini. Em 1911, Gramsci sai da Sardenha e vai estudar Linguística na Faculdade de Letras em Turim, proveniente de uma família pobre, de uma área agrícola do sul, ele chega ao norte industrializado e desenvolvido como um imigrante precarizado. Nesse tempo, se dedica a trabalhos na imprensa de Turim, primeiro do Partido Socialista e depois do Comunista, a partir de 1919, funda com Palmiro Togliatti a Revista L´Ordine Nuovo, que se posiciona não só politicamente, mas também no campo cultural. Se dedica ao estudo de linguística de forma sistemática, escrevendo textos de solidariedade ao mundo cultural da Sardenha se aprofundando nos estudos de glotologia (1) do neo linguista Matteo Bartoli. Em1922, Gramsci foi à Rússia representando o Partido Comunista Italiano e lá conheceu sua esposa, Julia Schucht (1896 - 1980), uma jovem violinista, com a qual teve dois filhos Delio (1924 - 1982) e Giuliano (1926 - 2007). Em 1924, foi eleito Deputado Federal pelo PCI pela região do Venetto, dois anos depois em 1926 é preso pela polícia de Mussolini, que declara "É preciso calar a mente brilhante desse deputado." Nos cárceres do fascismo irá construir uma reflexão importante no marxismo, criticando o modelo centralizado e autoritário da União Soviética e de Stálin. A crítica gramsciana aponta a presença de uma vertente positivista no marxismo, considerando que esse muitas vezes se restringe a um economicismo reducionista, que não considera os aspectos culturais da transformação revolucionária. As reflexões serão manuscritas nos Cadernos do Cárcere, uma fragmentária abordagem de uma série de problemas, que partem de problemas cotidianos próximos e corriqueiros para amplas abstrações. Gramsci, terá uma importante reflexão sobre as formas de alcançar o poder pela esquerda, não de forma violenta mas pelo voto, sem que isso signifique um declínio da qualidade da mudança, ou da radicalidade revolucionária. Há em Gramsci o início de uma certa melancolia, em função da derrota da Revolução na Alemanha e na própria Itália, bloqueando a ideia da internacionalização do processo de mudança. A ascensão de regimes totalitários, o nazismo na Alemanha, e o fascismo na Itália foram exatamente movimentos que responderam ao perigo dessa internacionalização. Gramsci constroe uma argumentação, que identifica um centro, Inglaterra, França e EUA, uma periferia imediata no sistema capitalista, Alemanha, Itália, Espanha, Grécia, e uma periferia distante, dando um caráter espacial, geográfico e dinâmico. No qual, a subalternidade e a centralidade de determinadas burguesias ou da classe operária, dentro de uma concepção da história como uma ciência. A relação entre representantes e representados é problematizado, com base na força da organização das sociedades civis e da democratização das práticas cotidianas, operadas por sindicatos, associações e organizações de aglutinação de solidariedades. Ideologia e Hegemonia seguem uma relação dinâmica e dialética aonde discursos, falas apontam para um esforço de persuasão e convencimento.
Um gradiente da presença de autoritarismo, a partir do centro e da periferia do sistema capitalista, contrapõe um padrão ou modelo do oriente ao ocidente, que desembocam em transformações violentas ou graduais. A fragilidade das burguesias é avaliada a partir dessa capacidade de persuasão passiva do conjunto de suas ideias na sociedade, numa poderosa analogia com a língua, molecular e permeada, como estrutura compartilhada bloqueadora do autoritarismo. A condição de subalterno de Gramsci, no espaço social da Itália será uma das fontes mais profícuas do seu pensamento, a noção de um certo centro impulsionador do capital, constituído primeiro pela Inglaterra e depois pelos EUA. A subalternidade da Itália nesse sistema mundial, a minoridade da burguesia italiana frente a inglesa, americana e francesa, sua declaração de dependência do Estado Nacional, a fraqueza do liberalismo italiano frente a essas outras três nações. A posição da Sardenha e a parte meridional da Itália agrária, católica e arcaica, frente ao norte industrializado, urbano e moderno. A reflexão de Gramsci terá sempre esse componente histórico espacial e cultural, que identifica especificidades, mapeia suas potencialidades e problemas, buscando sempre a estratégia da transformação. Mantendo sempre um otimismo propositivo. Sua consciência do desenvolvimento capitalista, sempre nos remete ao confronto entre o arcaico e o moderno, aonde as duas condições não são apenas polos antagônicos, mas realidades que tomam conhecimento mútuo, e muitas vezes exploram sua proximidade de forma complementar. Também a língua, sua evolução e seu desenvolvimento irão sempre constituir para Gramsci como um ordenamento estruturado de forma molecular e dispersa, e de baixo para cima, com transformações contínuas, que lhe permitiam analogias com a política. Além disso, a questão da língua sempre esteve nas reflexões de Gramsci relacionada à organização da cultura e à função dos intelectuais orgânicos das diferentes classes sociais. Um conceito fundamental para a compreensão da forma de pensar o poder em Gramsci, a pulverização da língua como patrimônio comum compartilhado por todos, e completamente avessa ás determinações centralizadas do poder institucionalizado. Gramsci também construirá um forte vínculo entre linguagem e forma de estruturar o pensamento, negando de forma enfática o naturalismo e o mecanicismo, que imperava nos meios marxista do início do século XX. Mas ao mesmo tempo valorizando de sobremaneira a forma como a linguagem se estrutura, possibilitando a criação, a reformulação e a revolução dentro de parâmetros e regulações socialmente introjetadas em cada indivíduo. De baixo para cima. Para Gramsci, o estudo e o aprofundamento no fenômeno da linguagem sempre será proveitoso, reunindo criatividade e compreensão socialmente compartilhada, que na verdade impulsionam um devir histórico real e apartado do idealismo.
Na verdade, nos ensinamentos de Gramsci considero importante fixar e reforçar os seguintes conceitos, que estruturaram minha reflexão de doutorado, Projeto, Ideologia e Hegemonia; em busca de um conceito operativo para a cidade brasileira, no PROURB da FAU-UFRJ;
- Ideologia: uma concepção mais neutra que negativa, quando comparada com a construção de Marx. Distinção entre Ideologias progressistas (socialista) e Ideologias conservadoras (burguesa). Visão dialética entre estrutura- superestrutura. Consciência da parcialidade da classe, superação do interesse corporativo, atingindo interesse universal. Analogia com a conquista do direito de voto da burguesia, contraposto a sucessão dinástica.
- Hegemonia: Ideologia, que ganha supremacia junto ao tecido social, sendo compartilhada pela maioria, superação dos interesses econômicos corporativos atingindo valores universais. Coerção e Aceitação. Estado e Sociedade Civil. Hegemonia é política e cultural, importância dos meios de comunicação; jornal, rádio, etc... “Todos os homens são intelectuais, embora nem todos tenham na sociedade essa função.” GRAMSCI
- Previsão (Plano e Projeto): Ausência de previsibilidade é associada a precariedade da vida cotidiana, na dissolução dos fundamentos sociais das formas tradicionais de expectativa. “A história é uma comparação implícita entre o passado e o presente...E por que seria ilícita a elipse quando a comparação é feita com uma hipótese futura, ao passo que seria lícita se feita com um fato passado?” GRAMSCI Q 10 página 311
![]() |
| A Industria cultural do cinema, crítica a alienação do precariado |
"...a verdade buscará refúgio entre pequenos grupos de homens admiráveis." HORKHEIMER, citado por MERQUIOR 1987 página160
"Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela destinados. A elevação do padrão de vida das classes inferiores materialmente considerável e socialmente lastimável, reflete-se na difusão hipócrita do espírito." ADORNO e HORKHEIMER 1985 página14
![]() |
| O Mito de Ulysses na travessia do mar das sereias |
O livro é composto por um Prefácio, que sistematiza a ideia de esclarecimento como destruidor dos mitos e ritos explicadores e instrumentador de uma ciência desmemorizada, simplificadora e unilateral. Já há nele um embrião de uma ideia importante para a Escola de Frankfurt a distinção entre duas racionalidades; a instrumental, e outra desinteressada e especulativa. Seguido por O conceito de Esclarecimento, no qual a razão instrumental e tecnológica é vista como legitimadora da dominação e do poder sobre a natureza ou outros seres humanos, que passam a ser objetivados. Seguido por dois excursos, um sobre o mito de Ulisses na Odisséia grega:
- Excurso (3) I: Ulisses ou Mito e Esclarecimento - visto como um testemunho precoce da civilização burguesa, onde sacrifício e renúncia prenunciam o domínio total da natureza humana e não-humana. E, o segundo excurso sobre Kant, Sade e Nietzche.
- Excurso(3) II: Juliete ou Esclarecimento e Moral - onde emerge um sujeito autocrático, que descamba para uma objetividade cega, não admitindo mais o contraditório. A industria cultural e Elementos do Anti-semitismo.
Michel Foulcault (1926-1984), aborda a crise da razão ocidental, identificando um profundo vínculo entre razão e poder, partindo do pressuposto da não existência de um pensamento desinteressado, e mais contemplativo. Suas teorias abordam a relação entre Poder e Conhecimento e sua vinculação com o controle social por meio de instituições sociais, que seriam como aparatos de vigilância. Foucault é considerado um pós estruturalista, e por muitos um pensador pós moderno. Foucault acabou rejeitando esses rótulos, preferindo classificar seu pensamento como interessado na formulação de uma história crítica da modernidade ou do presente. Seu pensamento foi muito influente tanto para grupos acadêmicos, quanto para ativistas nos movimentos de 1968 em Paris, e possui ligações com o niilismo (4) de Nietzche. Se Kant era entendido como Federdenker, alguém que escreve pensando, Foucault será um litero-filósofo, alguém que torna a filosofia pela linguagem mais acessível e compreensível ao grande público, atuando como grande produtor de polêmica. Suas principais contribuições escritas são;
- História da Loucura (1961),
- A Palavra e as Coisas (1966)
- História da Sexualidade (1976-1984)
“Nunca fui freudiano, nunca fui marxista e nunca fui estruturalista.” FOUCAULT
Como grande polemista, Foucault já esteve mais na moda nos círculos arquitetônicos ou intelectuais, basta ver sua presença em livros na década de setenta, oitenta e noventa, tais como; A cidade como um jogo de cartas de Carlos Nelson dos Santos, ou o Declínio do homem público de Richard Sennet, ou mesmo Tudo que é sólido desmancha no ar ou Towards a New Architectural de Marshal Bermann. Todos citavam as interligações feitas pelo filósofo francês entre dominação e ordenamento do espaço, ou entre poder e arquitetura ao longo da história humana. Muito do pensamento de Foucault sobre arquitetura foi publicado numa entrevista que levou o título de O Olho do poder, como destaca Mauricio Puls em seu livro Arquitetura e Filosofia. Talvez o conceito caro a Foucault de Sociedade da Vigilância Contínua (1984) esteja sendo substituído pelo de Sociedade do Cansaço (2016) de Byung Chul Han. Aonde a vigilância foi substituída por uma ansiedade produtivista da sociedade concorrencial capitalista, que pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) nos mantém em estágio constante de trabalho, presos a racionalidade instrumental 24 horas por dia. Nesse sentido, o Panóptico projetado por Jeremy Betham (1785), a prisão ideal, como arquétipo que otimiza a vigilância sobre o cotidiano humano contemporâneo, e que será aplicado como uma tese ao ordenamento da fábrica e do escritório burocrático modernos. Uma analogia entre o espaço da prisão, onde a torre de controle vigia os presos, e, estes últimos não sabem o que ocorre dentro dela. Foucault aponta este procedimento como a emergência da sociedade disciplinar, onde o indivíduo é isolado em sua cela, sente a vigilância de todos, mas não consegue saber se na torre de controle o vigia está presente ou não. Um estado consciente e permanente de visibilidade, onde a sociedade como um todo se torna espionável. Hoje tão recorrente em nossas vidas pela presença dissimulada e recorrente das redes sociais, tais como; Facebook, Instagram, Twitter, etc...
![]() |
| Palácio do Escorial, Espanha Felipe II |
A pergunta colocada por Foucault para os arquitetos e os profissionais vinculados ao espaço permanece relevante; o poder pode declinar em sua tirania, ampliando sua representividade, mas a arquitetura e a ordenação do espaço permanecem uma arte aprisionada por ele? Pois apenas nele, se encontram os recursos para sua realização. Foucault menciona, que a história dos espaços é a história dos poderes, desde as pirâmides do Egito, passando pela acrópole da Grécia Antiga, a Praça de São Pedro em Roma, ou ainda Washington e Brasília, há sempre uma profunda vinculação entre arquitetura e poder. Sem dúvida, o vínculo entre construção e poder é real e inafastável, uma vez que construir demanda recursos, que apenas o poder e os possuidores de bens usufruem; mas e a previsão ou o projeto? A questão colocada por Foucault nos leva a uma reflexão sobre o sentido de planejar e projetar; Haveria possibilidade de gestão de um contra plano ou projeto? A construção é cara e vinculada ao Poder, mas e o Plano e o Projeto? O desafio nesse começo do século XXI seria franquear o acesso ao plano e projeto a parcelas da população, que nunca tiveram essa possibilidade em toda a existência humana.
Por último abordamos Jürgen Habermas (1929-), o último representante vivo da Escola de Frankfurt, que irá trabalhar sobre a diferenciação entre razão instrumental e razão comunicativa, dando a primeira uma restrita dimensão operativa, enquanto a segunda desfrutaria de uma maior legitimidade. Habermas é membro da Escola de Frankfurt, o Instituto de Pesquisas Sociais (Institut fur Socialforschung) tendo sido assistente de Adorno coopera com este na crítica ao positivismo lógico. Desenvolve sua teoria dos interesses cognitivos, em sintonia com o pensamento de Herbert Marcuse, e com a didática de Piaget especialmente em relação ao interesse emancipatório. Desde o início, sua obra transita ao redor da categoria da interação. O trabalho de Habermas trata dos fundamentos da teoria social, no qual a racionalização do mundo da vida ocorre mediante uma progressiva libertação do potencial de racionalidade contido na interação comunicativa. A ação orientada para o entendimento mútuo ganha cada vez mais independência dos contextos normativos, que são considerados no âmbito da racionalidade operativa. Em meados dos anos 1990 o filósofo Habermas decreta num texto no qual ironiza a tendência contemporânea de se utilizar do prefixo pós para caracterização do nosso tempo. O texto de Habermas distingue a modernidade do modernismo, dizendo que a pretensão humana de desígnio do seu futuro, que as revoluções americana e francesa tinham expressado permanecia inalcançado. Habermas constroe sua teoria da racionalidade comunicativa, que se contrapõe a racionalidade meramente instrumental, determinando que a razão não deve estar carregada de personalismos, mas construída a partir de conflitos. Abre-se uma nova perspectiva utópica, que não mais condena as gerações futuras a uma construção congelada e fixa, mas que celebra o processo de auto-construção e de auto-determinação.
"Com as fraquezas funcionais do mercado e os efeitos colaterais disfuncionais do mecanismo de mercado também desmorona a ideologia burguesa baseada na troca justa. Por outro lado, surge uma necessidade intensificada de legitimação: o aparelho do Estado, que agora não assegura mais apenas os pressupostos para a existência do processo de produção, mas toma a inciativa de intervir em tal processo, precisa ser legitimado nos domínios crescentes da intervenção estatal, sem que agora houvesse a possibilidade de recorrer à existência de tradições que foram soterradas e desgastadas no capitalismo concorrencial." HABERMAS, 2016 página431
Muitos formularam uma crítica a filosofia de Habermas em cima de sua filiação euro-cêntrica, uma vez que se referia ao mundo desenvolvido, que apresentava uma constante ampliação da esfera pública de debates e explicitação de conflitos. Realmente, havia nos anos setenta, a percepção de ampliação das formas de regulação do mercado, e a inclusão social promovidas pelas formas de ordenação governamental, pelo menos no espaço da Europa, Japão e dos EUA. Havia então um declínio do capitalismo concorrencial e uma forma de regulação das sociedades avançadas baseadas no fordismo, no domínio monopolista da economia, e no keynesianismo, que começou a desmoronar com a ascensão de Tatcher e Reagan no final dos anos setenta. Nesse contexto era fundamental a existência do Estado, regulando as interações humanas e arrecadando impostos para promoção do estado de bem-estar social (Welfare State). O reconhecimento, o acato das ordens, e as estruturas burocráticas do Estado eram reconhecidas e identificadas como ordenadores das interações humanas, e necessitavam ter legitimidade para operar. Há uma presença da burocracia do Estado, que vigia e regula as atitudes dos cidadãos, a partir de impostos, que retornam em serviços notadamente de saúde, habitação e educação, que o Brasil nunca usufruiu. Mas, apesar dessa crítica não como negar que o conceito habermasiano da Legitimação coloca um dos problemas mais agudos dos sistemas de governo representativos, pois medem a qualidade da relação entre governados e governantes, e que no Brasil dos últimos anos assume uma dimensão dramática. Ou metaforicamente, a capacidade de lobos se transmutarem em cordeiros, ou a delegação conferida a chacais para cuidar de rebanhos dóceis, ou ainda a variação entre passividade e ativismo de cidadãos e seus representantes. No Brasil e no resto do mundo, nossa condição sobre o julgo da hegemonia financeira ou do improdutivo rentismo, lançou numa luta pela sobrevivência todos os que vivem apenas de seu trabalho, os despossuídos.
Nesse ponto da aula, enveredamos por tentar compreender o significado do ato de planejar e projetar, representados pela arquitetura e urbanismo, na estruturação de sua formação acadêmica, e na compreensão socialmente compartilhada desse ofício. Desde tempo imemoráveis surge a figura do antecipador da construção, o agente que a pré-figura em desenhos e antecipações, dando previsibilidade ao que vai ser erguido. Muitos teóricos e críticos identificam na história do mundo ocidental, uma cristalização dessa atividade, no concurso da cúpula da Catedral de Santa Maria Maggiore em Florença, vencido por Filippo Bruneleschi (1377-1446), um ourives. Há uma infinidade de reflexões sobre ela, desde Leo Batisti Alberti (1404-1472), até Manfredo Tafuri (1935-1994) e Giulio Carlo Argan (1909-1992), que abordaram o significado da cúpula de Florença. Interessante salientar, que o arquiteto Bruneleschi nunca escreveu uma linha sobre esse feito notável do renascimento italiano, que envolvia uma síntese de elaboração de um objeto, ao mesmo tempo adequado à tecnologia, ao espaço interno (arquitetura) e à região e à cidade (urbano). Daí a a sua identificação como uma refundação ou fundação da profissão do arquiteto, no âmbito do ocidente reunindo uma tradição da cultura do construir e uma capacidade crítica sobre essa mesma cultura. A síntese bruneleschiana na cúpula de Florença envolve realmente uma complexa interligação entre saberes como; tectonia, arquitetura e urbanismo.
Realmente uma complexa interação entre empiria e conhecimento teórico abstrato, que envolve aquilo que Tafuri identificou como a "crítica operativa do real", uma reunião inusitada entre intuição operativa e desconforto com o módus operandi estabelecido. Uma atividade humana, que não reconhece no planeta que habitamos a capacidade de nos abrigar, investindo na sua transformação para obtenção do bem estar. Nos tempos contemporâneos, a partir da consciência da finitude dos recursos naturais, essa atividade ganha uma nova dimensão para exatamente adequar o habitar ao planeta.
“Segundo Vitruvio (séc.IIIA.C), a arquitetura nasce da fabrica e da ratiocinatio. A primeira consiste na experiência que o arquiteto adquire com o ato de construir. A segunda é a teoria que se vai constituindo como resultado da prática.” MACIEL 2006 página 44
Daí nossa necessidade de abordar a história das construções humanas e particularmente da cidade como o fruto de um projeto único e coletivo realizado no tempo longo, com a aspiração de ampliação da participação humana na construção da cidadania. Nesse sentido, a primeira modernidade, da belle epoche gera um modelo higienista, que se repete com grande recorrência em diferentes locais, aonde há uma malha estrutural de vizinhança contraposta a grandes avenidas, que otimizam a circulação. Numa obsessiva busca por iluminação e aeração das ruas, do movimento higienista em cidades novas ou pré existentes, com os exemplos de;
- Barcelona, Espanha 1849,
- Paris, França 1853,
- La Plata, Argentina 1882,
- Belo Horizonte, Minas Gerais Brasil 1897 e
- Rio de Janeiro 1905.
Esse higienismo será a primeira reação estruturada à grande cidade industrial, que explodia na Europa e nos EUA, na passagem do século XIX ao XX. Nesse sentido, o modernismo é fruto da grande cidade industrial e se manifesta primeiro na América, aonde determinadas aglomerações tiveram crescimentos gigantescos nunca vistos na história humana. Esse processo representou, ao final do século XX, a transformação da humanidade de agrária e rural em urbana e densa. A cidade de Chicago na passagem do século XIX para o século XX assiste um debate entre o Movimento do City Beatiful de Burnham - academicista e eclético - e as tendências organicistas e modernistas de Louis Sullivan e de Frank Lloyd Wright que se antecipam em vários anos aos debates das vanguardas centro-européias. De certa forma, a Escola de Chicago de Arquitetura anuncia a hegemonia estadounidense, que se materializará de forma definitiva no segundo pós-guerra, com a emergência dos EUA como nação mais poderosa no mundo. Então, as vanguardas centro-européias seguindo preceitos da Escola de Chicago de Arquitetura, fundaram o modernismo com a pretensão de instituir uma nova objetividade (neue saslichtekeit), na qual os monumentos eram a morte da arquitetura, onde se buscava uma nova essência que estava na grande cidade industrial. Basta lermos Adolf Loos ou Oto Wagner, arquitetos da Secessão Vienense que afirmavam a emergência de uma nova ética do construir, onde o que lhes interessava não era mais; os organismos governamentais, o teatro de ópera ou o parlamento, a arquitetura da exceção, mas a habitação extensiva das periferias intermináveis da cidade industrial européia.
Nos mesmos anos, da concepção de Brasília, o autor Christopher Alexander se propõe a mapear a gênese da evolução da forma no processo de desenvolvimento do projeto, com o claro interesse de impulsionar a participação do usuário na elaboração do seu ambiente construído. Desenvolve-se nos EUA o advocacy planning ou projeto participativo, no qual o processo de construção do vir a ser de comunidades específicas é celebrado como a verdadeira pulverização da democracia. Os livros, Ensayo sobre la Síntese de la Forma (1964) e Una linguagem de padrons, , A pattern Language (1972) do mesmo autor desenvolvendo a ideia do plano e do projeto como processo de desenvolvimento da construção do bem viver. No Brasil, Carlos Nelson dos Santos lança o livro A cidade como jogo de cartas, no qual celebra uma certa neutralidade do desenho da grelha, que impulsiona sua apropriação por diferentes agentes no longo prazo da cidade. Num paradoxo, o Plano de Nova York de 1811 decreta uma imensa homogenização do território baseado na malha xadrez. Os elementos celebrados são a rua, a quadra e o lote como unidades em torno dos quais o jogo da cidade é jogado. Nesse paradoxo, Carlos Nelsom dos Santos aponta que apesar desse inicio homogenizador, aonde todos os lotes são iguais no seu dimensionamento - testada e profundidade - a ilha de Manhattan apresenta hoje grande diversidade de tipologias, usos e contínuos diferenciados. Se restabelece a possibilidade da construção utópica, que deixa de ser um objetivo fixo e congelado, mas a celebração de uma processualidade que restabelece a necessidade da presença contínua da criatividade das futuras gerações. O jogo pressupõe agentes e atores igualmente empoderados, que declaram suas intenções e negociam objetivos, a racionalidade abandona a subjetividade isolada e se aproxima da inter-subjetividade.
"As cidades tem a capacidade de prover algo para alguém, somente porque, e apenas quando, são criadas por todos... Não existe melhor expert na cidade do que aqueles que vivem e experimentam seu dia a dia." JACOBS 1981 página 77
Essa mesma década de 60, explode com a emergência de um mundo que decreta o fim das vanguardas e a presença de uma grande massificação, aonde uma parcela inimaginável passa a acessar o conhecimento. O mundo elitizado da primeira modernidade dá lugar a uma imensa massificação, que está espelhada nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, que começam em La Sarraz no ano de 1928 com vinte e oito arquitetos e terminam em Dubrovnick no ano de 1956, com uma multidão de estudantes. Passando para nossa contemporaneidade, em 2002, Kenneth Frampton lança o livro Studies in Tectonic Culture, no qual identifica a saturação do problema do símbolo e da representação no campo da arquitetura, apontando como saída o desenvolvimento da tectônica. O compromisso com o construído. As obras de grandes arquitetos são analisadas a partir da escolha de diferenciados modos de construção, que recolocam a complexa relação entre custo e benefício no projeto. Nesse mesmo tempo, o arquiteto Rafael Moneo lança em 2008 Inquietação Teórica e Estratégias Projetuais, no qual rejeita a adoção de um personalismo de linguagem por parte dos arquitetos, celebrando a idéia da reinvenção do arquiteto a cada novo projeto. Cada novo projeto representa uma oportunidade, que demanda do arquiteto uma leitura específica de cada lugar.
Por último, destaca-se o pensamento de uma dupla de pensadores franceses, que recolocam a questão da luta pela transformação mais ampla de nossa condição contemporânea, aonde é revalorizado o conceito de Comum.
"A raiz etimológica da palavra "comum" nos dá uma indicação decisiva e uma direção de pesquisa. Émile Benveniste indica que o termo latino munus nas línguas indo-européias, pertence ao vasto registro antropológico da dádiva e designa ao mesmo tempo um fenômeno social específico... Encontramos nos significados do termo a dupla face da dívida e da dádiva, do dever e do reconhecimento, própria do fato social fundamental da troca simbólica... Não se trata, primordial ou principalmente, de dádivas e obrigações entre parentes e amigos, mas, na maioria das vezes, de prestações e contraprestações referentes a toda uma comunidade." DARDOT e LAVAL 2017, página25
Os dois autores retomam os textos do jovem Marx, que em 1842 escreveu uma série de artigos na Gazeta Renana (Reinish Zeitung), sobre a lei que impedia a coleta de lenha nas florestas privadas da Renânia, que constituem a abertura do filme do diretor haitiano Raoul Peck, que descreve o começo da vida do filósofo alemão, desse momento até a síntese do Manifesto Comunista em 1848, junto com Engels. Esses textos destacam a profundidade das reflexões de Marx a partir do problema da coleta de lenha naturalmente caída no solo, com respeito a filosofia do direito, um tema caro ao seu mestre, o também filósofo Hegel. No final da aula numa rápida autocrítica dessa coletânea observa-se a ausência do pensamento feminino, que deve ser corrigida numa próxima reflexão, abordando a ; Arquitetura, Cidade, Filosofia. A menção à Rosa Luxemburgo (1871-1919) que desenvolveu um profundo pensamento sobre: Militarismo, guerra e classe trabalhadora (1913), A acumulação do capital (1963); E, Hannah Arendt (1906- 1975), com: Origens do Totalitarismo, antisemitismo, imperialismo, totalitarismo (1951), Eichmann em Jerusalém (1963) termino essa duas aulas.
NOTAS:
(1) Glotologia – estudo da evolução da língua coloquial
(2) Macarthismo - movimento notadamente anticomunista, inspirada no movimento dirigido pelo senador Joseph Raymond McCarthy 1909-1957, que dominou os serviços secretos americanos.
(3) Excurso - tem como significado; desvio, digressão, divagação, ou desvio do tema principal.
(4) Niilismo - doutrina filosófica que nega a existência do absoluto, quer como verdade, quer como valor ético
BIBLIOGRAFIA:
AARÃO REIS, Daniel - A revolução que mudou o mundo: Rússia 1917 - Companhia das Letras São Paulo 2017
ADORNO, Theodor W. e HORCKHEIMER, Max - Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos - Jorge Zahar Rio de Janeiro 1985
ALEXANDER, Christopher - Ensayo sobre la sintesis de la forma - Editorial Gustavo Gilli 1976 Barcelona
___________, Christopher - Una lenguagen de padrons - Editorial Gustavo Gili 1981 Barcelona
ARENDT, Hannah - Sobre a Revolução - Companhia das Letras São Paulo 2001
________, Hannah - Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal - Companhia das Letras São Paulo 2002
ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
________, Hannah - Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal - Companhia das Letras São Paulo 2002
ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
BACHELARD, Gaston - A formação do espírito científico, contribuição para uma psicanálise do conhecimento - Editora Contraponto Rio de Janeiro 1999
BRAUDEL, Fernand - The Wheels of Commerce - Harper & Row, Nova York 1982
DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian - O comum, a revolução do século XXI - Editora Boitempo, São Paulo 2017
FOUCAULT, Michel - Vigiar e Punir - Editora Vozes Petrópolis 2000
FRAMPTON, Kenneth - Studies in Tectonic Culture - MIT Press Londres 2001
__________, Kenneth - História Crítica da Arquitetura Moderna - Editora Martins Fontes São Paulo 2007
FRÖLICH, Paul - Rosa Luxemburgo, Biografia - Editora Boitempo São Paulo 2019
GABRIEL, Mary - Amor e Capital, a saga da família de Karl Marx e a história de uma revolução - editora Zahar Rio de Janeiro 2013
HABERMAS, Jürgen - Para a reconstrução do Materialismo Histórico - Editora Unesp 2016 São Paulo
GABRIEL, Mary - Amor e Capital, a saga da família de Karl Marx e a história de uma revolução - editora Zahar Rio de Janeiro 2013
HABERMAS, Jürgen - Para a reconstrução do Materialismo Histórico - Editora Unesp 2016 São Paulo
____________, Jürgen - O discurso filosófico da modernidade - Edição Martins Fontes 2002 São Paulo 2002
HOBSBAWM, Eric - Como Mudar o Mundo, Marx e o marxismo de 1840-2011 - Editora Companhia das Letras São Paulo 2011
HOBSBAWM, Eric - Como Mudar o Mundo, Marx e o marxismo de 1840-2011 - Editora Companhia das Letras São Paulo 2011
JACOBS, Jane - Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas - Editora Martins Fontes São Paulo 2000
JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo - Dicionário Básico de Filosofia - Jorge Zahar Editores Rio de Janeiro 2006
KANT, Immanuel - Duas introduções à crítica do juízo - Editora Iluminuras São Paulo 1995
KONDER, Leandro - A questão da ideologia - Companhia das Letras São Paulo 2002
KRAUSZ, Tamás - Reconstruindo Lênin, uma biografia intelectual - Editora Boitempo 2017
LAGO, Ivann - O Jair que há em nós - artigo publicado em carta maior coletado em maio de 2020 em https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/O-Jair-que-ha-em-nos/52/47388
LÊNIN, Vladimir Ilitch Ulianov - O estado e a Revolução, a doutrina do marxismo e as tarefas do proletariado na revolução - Editora Boitempo São Paulo 2017
LIGUORI, Guido e VOZA, Pasquale - Dicionário Gramsciano - Editora Boitempo São Paulo 2017
JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo - Dicionário Básico de Filosofia - Jorge Zahar Editores Rio de Janeiro 2006
KANT, Immanuel - Duas introduções à crítica do juízo - Editora Iluminuras São Paulo 1995
KONDER, Leandro - A questão da ideologia - Companhia das Letras São Paulo 2002
KRAUSZ, Tamás - Reconstruindo Lênin, uma biografia intelectual - Editora Boitempo 2017
LAGO, Ivann - O Jair que há em nós - artigo publicado em carta maior coletado em maio de 2020 em https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/O-Jair-que-ha-em-nos/52/47388
LÊNIN, Vladimir Ilitch Ulianov - O estado e a Revolução, a doutrina do marxismo e as tarefas do proletariado na revolução - Editora Boitempo São Paulo 2017
LIGUORI, Guido e VOZA, Pasquale - Dicionário Gramsciano - Editora Boitempo São Paulo 2017
MACIEL, Justino M. - Vitruvio 10 livros de Arquitetura - Ist Press 2006 Lisboa 2006
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich - A Ideologia Alemã: Crítica da novíssima filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Brauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas, 1845-1846 - Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2007
MERQUIOR, José Guilherme - Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamim - Editora Civilização Brasileira 1965
__________, José Guilherme - Michel Foucault ou o Niilismo de Cátedra - Editora Nova Fronteira Rio de Janeiro 1985
MONEO, Rafael - Inquietação Teórica e Estratégia Projetual - Editora Cosac Naify São Paulo 2008
MOREIRA, Pedro - Projeto, Ideologia, Hegemonia; em busca de um conceito operativo para a cidade brasileira - Tese de Doutorado no PROURB FAU-UFRJ 2007
________, Pedro da Luz - O espaço da Europa em 1848, e o nosso tempo contemporâneo - Dezembro de 2018, em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com coletado em 05/06/2020
__________, Pedro da Luz - A mudança, o Estado e a Sociedade Civil - Fevereiro de 2018, em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com coletado em 05/06/2020
__________, Pedro da Luz - O jovem Gramsci, a linguagem e as formas de construir – Janeiro 2019 em www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com, coletado em 08/06/2020
RAPONE, Leonardo - O jovem Gramsci: cinco anos que parecem séculos 1914-1919 - Editora Contraponto Rio de Janeiro 2014
SANTOS, Carlos Nelson - A cidade como jogo de cartas - Editora Projeto São Paulo 1988
SCHUMPETER, Joseph A - Capitalismo, socialismo e democracia - Editora UNESP São Paulo 2017
TAFURI, Manfredo - História e Teorias da Arquitetura - Editorial Presença Lisboa 1981
Assinar:
Postagens (Atom)








