domingo, 19 de abril de 2020

Haverão mudanças substanciais na forma de operar do mundo depois da Pandemia do Covid-19?

Corona Vírus e a Favela da Rocinha no RJ, recursos e benefícios mau
distribuídos. Até quando?
Em seu artigo de sábado, dia 18 de abril de 2020, o historiador Daniel Aarão Reis fala da distribuição diferenciada no sistema atual de operação do sistema capitalista da dor das pessoas no período e após a Pandemia do Covid-19. Apesar da contaminação pelo Corona Vírus se disseminar sem distinção de classe no tecido social, as previsões apontam para um maior impacto no âmbito das populações precarizadas e fragilizadas do mundo. A fragilidade econômica, social e cultural provavelmente será mais atingida, durante e após a pandemia do Covid-19, pela falta de recursos acumulados e pelas suas condições de existência. A falta de acúmulo de recursos de sustento, a inexistência de condições mínimas de salubridade nos bairros e moradias aonde habita, bem como, a precarização do seu trabalho e das suas condições de auto reprodução serão sentidas antes e depois dessa crise de forma dramática. O artigo se inicia com a descrição de uma prática absolutamente corriqueira, naturalizada, permitida e banal do nosso tempo contemporâneo, que capta as dramáticas diferenças de acessibilidade marcadas entre nós;

"Em artigo sobre a atual pandemia, Nick Paumgarten narrou a história de um capitalista que joga na Bolsa de Valores. O homem é esperto e descreveu sua última proeza. Ao perceber o ritmo de expansão do vírus na China, suspendeu as férias numa estação suíça de esqui, investiu firme em ações de uma fábrica de equipamentos médicos nos Estados Unidos, botou dinheiro em empresas cujas ações subiriam com a disseminação universal da doença, e se mandou para sua casa de campo, bem longe da cidade onde mora. No caminho para o autoconfinamento, comprou o que pôde de máscaras cirúrgicas e luvas para si mesmo e para a família — mulher e três filhos — dois bujões de oxigênio e uma sacola de cloroquina. A salvo, comentou que ficaria feliz e em segurança até o próximo mês de outubro, acompanhando pelo computador a valorização dos investimentos. Até o momento, seu lucro era de 2.000%. Tudo na perfeita paz, dentro da ordem, respeitando a lei." AARÃO REIS 2020 O Globo 18/04/2020 

Realmente os endinheirados, que multiplicam suas fortunas a partir de seus movimentos especulativos, agora caseiros e no isolamento social, da ciranda financeira das bolsas e das moedas, não só não serão impactados, pela atual pandemia, como também podem tirar benefícios polpudos para seus patrimônios. Sem dúvida, segue o articulista, a metáfora repetida pela grande mídia de que, "estamos todos no mesmo barco", não corresponde aos fatos, e não antecipam às possíveis mudanças que porventura terão de ocorrer. Dissimulados argumentam que poderosos foram igualmente atingidos, como o presidente do Santander da Espanha, que morreu acometido pela devastação da pandemia naquele país. Sem dúvida, nem a biologia, nem os desígnios sagrados possuem uma seletividade, que se aproxime da justiça, mas as estatísticas que apesar de manipuladas e recalcadas já estão aí, mostrando sua seletividade, principalmente no número de mortos. Nos EUA, o número de óbitos de afro-americanos é muito maior do que o de brancos, apesar de vários estados da nação mais poderosa do mundo não distinguirem nas suas estatísticas esses dados. O site de informação Nexo Jornal traz os seguintes dados;

"Vários estados e cidades americanas têm reportado uma desproporção de mortes afro-americanas devido à covid-19, doença causada pelo vírus. Na Louisiana, elas equivalem a 70% de todas as mortes, embora só 33% da população do estado seja negra. No Alabama, negros são 44% das mortes e 26% do total de habitantes. Na cidade de Chicago, 68% das mortes pelo vírus são de afro-americanos, sendo que eles perfazem 30% da população. As estatísticas são preliminares porque a maioria das cidades e estados americanos não inclui informações sobre raça." NEXO Jornal 15/04/2020

Impressionante perceber como em 2008, com a Crise cíclica do capitalismo, que foi mais dramática no mercado imobiliário dos EUA e da Espanha, como o mundo parece não ter percebido sua política necrófila. Aonde o acúmulo de riqueza por uma minoria, ampliava como consequência um número de precarizados pelo mundo de forma exponencial. Naquela ocasião, mais uma vez o sistema socializou as perdas e privatizou os lucros, seguindo com sua atitude de celebração da competição, e seu desdém pela solidariedade. E, apesar de algumas vozes, que explodem em protestos variados desde 1999, como as manifestações daquele ano em Seatle, ou em 2001, em Gênova na Itália, ou em 2009, em Belém do Pará no Brasil, na reunião do Fórum Social Mundial, a hegemonia do capital financeiro permanece inabalável. Uma irresponsabilidade assustadora, que segue distribuindo de forma desigual o acesso a saúde e a vida, repetindo o discurso da eficiência da empresa privada e da competição de todos contra todos, em detrimento da inclusão e da distribuição de recursos, benefícios e renda. Com relação ao Brasil, os dados diferenciados da pandemia, também começam a chegar, segundo a rede Brasil atual; o Covid-19 se espalha mais rapidamente nos bairros ricos, mas mata em muito maior proporção nas áreas pobres, mostrando de forma mais flagrante as nossas desigualdades sociais.

"Dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo nesta sexta-feira (17) mostram que a epidemia de coronavírus torna ainda mais flagrante os efeitos da desigualdade social na capital paulista. De acordo com as informações referentes à situação epidemiológica, os distritos que têm mais casos oficiais de covid-19 estão entre os mais ricos do município, enquanto regiões periféricas lideram em número de óbitos. A cidade tinha um total de 9.356 casos registrados até as 14 horas desta sexta-feira (17). Em termos de localização, os distritos administrativos do Morumbi, com 297 casos; Vila Mariana, com 207, e Jardim Paulista, com 200 casos, eram os que tinham maior número de contaminações registradas por coronavírus. Em relação aos óbitos, que chegaram a 1.935 de acordo com os dados coletados, sendo 743 confirmados e 1.192 suspeitos, os distritos de Brasilândia, com 54 mortes, e Sapopemba, com 51, eram os mais atingidos. Na sequência, aparecem São Mateus, com 41 óbitos, e Cidade Tiradentes, com 37." Rede Brasil Atual, coletado no site em 22/04/2020

Sem dúvida, alguma coisa precisa mudar. Mas será que a injustiça de nosso sistema social será finalmente colocada em debate? Ou permaneceremos privilegiando a minoria que acumula recursos de forma irresponsável, improdutiva e fazendo dinheiro a partir de mera moeda, se esquecendo da miséria e penúria de grande parte dos humanos? A carga tributária, que no Brasil continua reproduzindo nossas injustiças cotidianas, se quer tem coragem de mencionar a taxação de grandes fortunas, ou o incremento da tributação sobre lucros especulativos e financeiros. Recentemente, o economista ex fundamentalista do mercado, André Lara Resende, em entrevista no Globo defendeu a transformação do "Estado cartorial e patrimonialista, num Estado eficiente e a favor da população". Mas quando perguntado, sobre uma taxação mais equânime, se quer mencionou a taxação de fortunas, ou de capitais financeiros especulativos, alegando  não ser o momento propício para aumento de impostos. Realmente cabia a pergunta, sobre seu posicionamento em relação a recente reforma da previdência, ou o corte de recursos do SUS, capitaneado pelos mesmos paladinos da pseudo modernização neo liberal. Nesse momento, me parece fundamental considerar, que não estamos no mesmo barco, mas que, há uma minoria endinheirada que ocupa fortes barcos de aço, outros em frágeis barquinhos de papel, e ainda alguns lançados ao mar e agarrados a tábuas de madeira. Esse reconhecimento me parece fundamental para iniciar qualquer mudança, e a humanidade e o planeta parecem não suportar mais a manutenção dessa situação, aonde recursos e benefícios cada vez mais se concentram.

BIBLIOGRAFIA:

Link para matéria do NEXO JORNAL: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/04/15/O-impacto-do-racismo-estrutural-nas-mortes-por-covid-19


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Cidade, moradia, salubridade, consciência, narrativas e pandemia do Covid 19

Precariedade habitacional e pandemia
Com a pandemia do corona vírus se espalhando pelo mundo de uma maneira geral e ampla, cresce uma vinculação ligeira e superficial entre espacialidade urbana e territorial e disseminação da doença, o episódio ainda é muito recente para conclusões apressadas, mas aqui trago algumas reflexões preliminares. Agora, precisamos ter uma certa humildade diante dos índices, contaminações e mortes da pandemia, pois ainda temos surpresas pela frente, com muitas variáveis. O texto aqui desenvolvido é de um arquiteto e urbanista, que nada entende dos aspectos biológicos e médicos dessa pandemia, pretendendo trazer reflexões sobre o arranjo espacial e demográfico do Brasil, suas regiões e cidades, com vistas a saúde em geral, e ao Covid-19.  Aqui mesmo nesse blog foi publicado o texto, GESTÃO URBANA, SAÚDE, HABITAÇÃO E MODELOS DE CIDADE, trabalho que foi submetido e aceito ao Seminário da Fiocruz, GESTÃO URBANA E SAÚDE, apresentado como palestra em 28 de junho de 2019 (o link do texto vai abaixo). Nesse texto, a partir da oportunidade do Congresso Mundial UIA2020Rio, que ocorreria na cidade do Rio de Janeiro em 2020, e que foi transferido para 2021, em função também da pandemia do Corona Virus, expressava a necessidade de se debater princípios orientadores para a reprodução da cidade contemporânea no Brasil, a partir de premissas da saúde. Uma vez, que a fixação de modelos rígidos não é muito bem aceita pelo conjunto de nossa sociedade no presente, por seu caráter impositivo e discricionário, havendo uma forte demanda pela participação e cooptação de diferentes agentes na formulação de nossos arranjos espaciais. No texto portanto, apresentava quatro princípios básicos, que deveriam nortear o desenvolvimento de nossas cidades, sem a pretensão de impô-los, mais como uma provocação inicial ao debate e à mobilização de diferentes atores. Agora diante do cenário da Pandemia, penso que o debate é fundamental não apenas com vistas a ações imediatas, mas também no sentido de mudar o desenvolvimento inercial da cidade brasileira, que tradicionalmente sempre excluiu parcela considerável de nossa população. Já, no texto mencionava a importância de mudarmos o projeto da cidade brasileira, que sempre excluiu parcela significativa de sua população, não inserindo-a na produção de habitações dignas.

O link do texto é https://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com/search?q=gestão urbana, habitação e modelos de cidade

O tema sanitário e epidemiológico já esteve muito mais articulado com a ordenação espacial, particularmente com a configuração das cidades durante todo o século XIX e começo do século XX, alguns autores identificam mesmo a consolidação do urbanismo como ciência, a partir dessa demanda. Intervenções emblemáticas, em cidade importantes, sejam tecidos pré-existentes ou novas estruturas, como Barcelona, Espanha (1848), Paris, França (1853), La Plata, Argentina (1882) e Belo Horizonte, Brasil (1897) mostram uma paradigmática recorrência formal e em suas dimensões, que então assinalam uma preocupação sanitária. Creio que a desvinculação entre saúde e espaço se deu a partir da descoberta das vacinas, mas principalmente, a partir dos modernos antibióticos, que forneceram a humanidade uma certeza arrogante e pretensiosa vitória sobre os micro organismos invisíveis, independente da espacialidade que ocupavam. A vinculação entre espaço e doença advinha, então da teoria dos miasmas, que foi formulada ainda no século XVII, e que vinculava as doenças aos odores fétidos de matéria orgânica em putrefação presente em solos e nos lençóis freáticos. Importante mencionar que as cidades, que ainda não tinham as dimensões atuais eram os locais aonde mais aconteciam áreas e territórios produtores de miasmas. As condições de salubridade de Londres, a cidade de mais forte desenvolvimento capitalista, em meados do século XIX, podem ser atestadas pela história da família de Karl Marx, o autor do Manifesto Comunista junto com Friedrich Engels. Jenny Marx, a mulher de Marx contraiu varíola, e o único filho homem, Edgar Marx, o Musch, morreu em maio de 1855 acometido pelo cólera provavelmente devido as condições insalubres no bairro do Soho Theater, na Dean Street, aonde moravam desde 1853.


"Marx descreve seu lar como um verdadeiro hospital, e temia que o que ganhava não lhe permitisse comprar o tipo de alimento que a família precisava para se manter saudável. Ele estava especialmente preocupado porque, o cólera surgira novamente em Londres, e o epicentro era no Soho. Só na Bond Street, um minuto a pé da Dean Street, 115 pessoas haviam morrido da doença (quase 11 mil morreriam de cólera em Londres naquele ano)" 1853. Como muitos outros, Marx acreditava que o motivo eram os canos de esgoto que atravessavam um trecho onde vítimas da peste de 1665 estava enterradas. O verdadeiro motivo, descoberto por um médico do Soho, John Snow, eram vazamentos do esgoto para dentro de poços de onde os londrinos tiravam sua água potável. Um desses poços era na Broad Street GABRIEL 2013 página323, grifo meu

Londres, que no final do século XVIII é a maior cidade do mundo com 1 milhão de habitantes, chega em meados do século XIX a 2,5 milhões de habitantes, um crescimento explosivo e diferenciado com bairros novos e bem projetados, mas também áreas insalubres, como a área do Soho aonde a família Marx vivia. A partir de 1825 surgem novos meios de comunicação, como as estradas de ferro, que invariavelmente garantirão bairros idílicos mais próximos da natureza para os ricos, enquanto que os pobres se amontoam no antigo centro em casebres insalubres. A residência da família Marx na Dean Street 28 dispunha apenas de dois cômodos no último andar, um para frente e outro voltado para o fundo do lote, com apenas uma área sanitária, compartilhada com os outros andares e o comércio da rua, uma lavanderia, que estava no térreo. Era um edifício de térreo e mais três andares na Dean Street 28, colado nas duas divisas laterais, com três janelas para frente, e com um único banheiro no andar térreo. A necessidade de mudar essas condições já era clara para o movimento higienista, que muitos apontam como fundado pelo médico austriaco Johan Peter Frank, que escreve o livro,  A miséria do povo, mãe de efermidades, no começo do século XIX, após sua experiência na Lombardia como chefe da Divisão Sanitária. Era claro então que as condições de higiene do precariado europeu eram determinadas por sua condição de despossuídos nas emergentes metrópoles do século XIX. Fica também claro, na citação acima, a crença do próprio Marx na teoria dos miasmas, com a hipótese do terreno infectado por cadáveres da peste de 1665. Mas, as pandemias e sua disseminação envolvem também questões relativas aos hábitos cotidianos e corriqueiros no espaço, nesse sentido é exemplar também as condições da família Marx, descritas por um espião prussiano que vigiava o intelectual em Londres;


"Marx vive em um dos piores, se não o pior bairro - e, portanto, dos mais baratos - bairro de Londres. Ocupam dois cômodos... No apartamento inteiro não há nenhum móvel limpo e firme. Tudo está quebrado, manchado e rasgado, com dois dedos de poeira sobre cada canto, e em toda parte há desordem. No meio da sala há uma grande mesa antiga coberta com um oleado, e ali ficam os manuscritos dele, seus livros e jornais, assim como os brinquedos das crianças, e trapos e remendos do cesto de costura da esposa... É perigoso sentar em qualquer cadeira da casa. Aqui uma com três pernas, na outra as crianças estão brincando de cozinhar - essa por acaso tem quatro pernas. Esta é a que oferecem à visita, mas preciso limpar a comida das crianças antes de me sentar, para não sujar as calças." GABRIEL 2013 página318

Friedrich Engels em 1844 com 24 anos, o parceiro da família Marx descreveu as condições do proletariado inglês, em Manchester e Londres, como deploráveis num livro notável; A situação da classe trabalhadora em Inglaterra. Engels era o filho mais velho de um rico industrial da Renânia, cuja a família seguia práticas intolerantes da corrente pietista do cristianismo, e seu pai não enxergava com bons olhos as manifestações de rebeldia manifestadas pelo rapaz. A família Engels havia expandido os seus negócios além da Alemanha, fundando uma fábrica têxtil na Inglaterra na cidade de Manchester, junto com a família Ermen, - a Ermen & Engels - , que será gerida por Friedrich. Em 1842, quando Engels se transfere para Manchester começa a percorrer os bairros operários, aonde há uma grande proporção de irlandeses. Logo conhece, Mary Burns, uma irlandesa de dezenove anos, que trabalha na Ermen & Engels, com seu pai e sua irmã de apenas quinze anos, chocando-se com a forma como os pietistas donos de fábrica tratam seus funcionários. Mary o apresentou a Pequena Irlanda e outros bairros operários de Manchester, aonde casas baixas de dois cômodos, um porão e um sótão abrigavam 120 pessoas que compartilhavam um toalete externo. Engels descreve uma mudança espacial fundamental, que se espalhará pelo mundo de forma definitiva, chegando na contemporaneidade a nossa sociedade majoritariamente urbana. A partir do século XVIII, mais intensamente na Inglaterra, mas também na Europa, o cercamento dos campos comuns no ambiente rural inviabiliza a sustentação de amplas parcelas da população do campo, gerando um forte abandono da vida pastora e agrícola. Ao mesmo tempo, a industria implantada nas cidades demanda grandes contingentes de mão de obra, que no entanto não absorve a totalidade dessa população afastada da vida campestre, ocasionando grandes aglomerações e contínuos de pobreza no ambiente urbano. Tal fenômeno determina condições precárias de existência e saúde para essa população, que na verdade deve ser pensada do ponto de vista sanitário como potencial produtora de doenças e epidemias. Na verdade, o conceito de saúde adotado pela Organização Mundial de Saúde, que ultrapassa a ausência de doença e abrange a ideia de bem-estar físico, mental e social, que é dependente de condicionantes sociais, econômicos, políticos e culturais.

"Em Manchester, os bairros operários se espraiavam como ervas daninhas ao longo do rio, mas em Londres os cortiços eram verticais, e os pobres lotavam edifícios de quatro andares do porão ao sótão. Cada centímetro, inclusive as escadas era ocupado. Algumas pessoas alugavam apenas um lugar na cama, nem mesmo uma cama inteira. Outros alugavam vaga numa corda estendida ao longo de uma parede, junto à qual podiam dormir sentados." ENGELS 1975 página 40

No Brasil, o vínculo foi também amplamente debatido na passagem do século XIX para o XX, com a geração de engenheiros sanitaristas e com uma série de transformações que impactaram as cidades brasileiras naquela época. Cidades novas ou reformas urbanas amplas mudaram a face de nossas ainda pequenas aglomerações urbanas trazendo lhes um caráter higienista e de maior salubridade, que envolviam canalização de córregos, dragagem de alagados, abertura de avenidas largas, ampliação do espaço das ruas, mas também distribuição de água potável, canalização de esgotos, habitação ventilada com instalações sanitárias. São notáveis as intervenções nesse espírito em Belo Horizonte(1897),Vitória(1897),  Rio de Janeiro(1905), Santos(1909), Recife(1915) Essa arquitetura e urbanismo da Belle Époche, Higienista ou Neo clássica tinha a sua frente figuras como; Pereira Passos (1836-1913), Aarão Reis (1853-1936), Theodoro Sampaio (1855-1937), Paulo de Frontin (1860-1933), Saturnino de Brito (1864-1929) e se articulava fortemente com expoentes da área médica como Oswaldo Cruz (1872-1917) e Carlos Chagas (1878-1934)  ligando fortemente profilaxia e estética. A cidade do Rio de Janeiro, nos primeiros anos do século XX já possuía 1 milhão de habitantes e era assolada de forma recorrente por epidemias de febre amarela, febre tifóide, impaludismo, varíola, peste bulbônica e tuberculose. Havia um claro comprometimento da imagem internacional da cidade como porto seguro para mercadorias variadas, que eram exportadas e importadas pelo país, além disso sua eficiência portuária era reduzida, pois não havia calado para os maiores navios, os armazéns eram precários e as ruas estreitas para distribuir as mercadorias. Além disso tudo, havia uma clara deficiência habitacional representada pelos cortiços, que além das densidades extremas, possuíam poucas instalações sanitárias, como cozinhas e banheiros. Ficava claro que diferentes especialidades se somavam na formulação de um outro projeto para o desenvolvimento do país; medicina, gerenciamento do espaço, economia. É representativa dessa aproximação entre médicos e engenheiros, a Comissão constituída para determinar o melhor local para a nova capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, capitaneada por Aarão Reis, mas envolvendo médicos e estudiosos de doenças tropicais. 

"A narrativa de Aarão Reis para justificar a escolha de Curral D´El Rei e Paraúnas como regiões adequadas para implantação da nova capital de Minas Gerais é sintomático do positivismo dominante em nossa república. A descrição para o Curral D´El Rey, a futura Cidade de Minas e a atual Belo Horizonte era representativa; '... local escolhido oferecia condições ideais: estava no centro da unidade federativa, a 100 km de Ouro Preto, rico em cursos d’água, clima ameno, numa altitude de 800 metros. A área destinada à nova capital parecia um grande anfiteatro entre as Serras do Curral e de Contagem, contando com excelentes condições climatológicas, protegida dos ventos frios e úmidos do sul e dos ventos quentes do norte, e arejada pelas correntes amenas do oriente que vinham da serra da Piedade.'" MOREIRA, P. L. 1997 PROURB página55

Todas essas experiências brasileiras tinham como base a filosofia positivista, dominante nos meios militares e na sociedade civil de então, que envolviam formas ingênuas de um dogmatismo cientificista, que reduziam a questão da salubridade das cidades a uma absolutização das ciências naturais, que sempre acabaram nos direcionando a um determinismo redutor. Era como se a realidade tivesse uma independência do ser que a interpreta, represando e bloqueando interpretações e análises mais sofisticadas relativas ao processo de conscientização. Essa atitude sempre endemonizou a política posicionando-a de forma equivocada como ação contrária a ciência, por estar amparada na questão do diálogo e na escuta de lógicas contraditórias. A Revolta da Vacina (0), no Rio de Janeiro 1904 envolve exatamente essa questão, contrapondo ciência ao senso comum e a exploração manipuladora da liberdade individual absolutizada. É interessante assinalar, que no comando das modificações por parte dos governos federal e municipal há uma predominância de positivistas, assim como na oposição, por exemplo do Apostolado Positivista, que apoia a revolta e conspira contra o governo do presidente Rodrigues Alves. Em novembro de 1904, data da revolta, a demolição de casas para abrir a avenida Central terminara e 16 dos novos edifícios estavam sendo construídos. Para tal, o engenheiro e prefeito Pereira Passos, exigiu plena liberdade de ação para aceitar o cargo, sem estar sujeito a embaraços legais, orçamentários ou materiais. Rodrigues Alves, presidente do país, através da lei de 29 de dezembro de 1902, criou um novo estatuto de organização municipal para o Distrito Federal, atribuindo ao prefeito amplos poderes. A lei previa que as autoridades judiciárias, federais ou locais não poderiam revogar as medidas e atos administrativos do município, nem conceder interditos possessórios contra atos do governo municipal exercidos por razões imperativas; acabava com qualquer controle ou adiamento burocrático das reformas e, nos casos de demolição, despejo ou interdição, haveria apenas um auto afixado no local, prevendo penalidades contra as desobediências; dispunha o despejo dos residentes nos prédios a serem demolidos, bem como a remoção dos respectivos móveis e pertences, que seriam feitos pela polícia(1). Havia uma clara vertente autoritária baseada na ciência médica e na salubridade, que se hegemonizava frente a outras narrativas, típica do Positivismo de Auguste Conte. É claro também, que não se trata de corroborar com um anti-cientificismo igualmente limitado e redutor, nem com um relativismo paralisante, mas de uma premissa fundamental de inclusão e promoção de coesão social, possíveis pelo projeto e pela política.


"O engenheiro... é o grande sacerdote e intérprete da natureza. O engenheiro, sempre em contato com a natureza, conhecedor de seu caráter, do seu hábito, chegou pela aplicação de sua força intelectual, a vencê-la e dominar sua força bruta, desviando, corrigindo, dominando sua força bruta, desviando, corrigindo, dominando essa força para servi-lo. A engenharia pode fazer tudo isto; dominando a superfície e as entranhas da terra, as ondas e o fundo dos mares e acaba de transpor os domínios da águia e da andorinha veloz." Saturnino de Brito citado em MOREIRA, F. D. 2010 página 47

O eixo central da avenida foi inaugurado em 7 de setembro de 1904, em meio a grandes festas, já com serviço de bondes e iluminação elétrica. A derrubada de cerca de 640 prédios rasgara, através da parte mais habitada da cidade, um corredor que ia da prainha ao Passeio Público. Parte dos escombros ainda cobria os lados da avenida, facilitando seu uso para as barricadas. A inauguração se dava diante de um cenário de guerra e de terra arrasada, pouco convincente do ponto de vista celebratório, imagético e simbólico. Na mesma data, estavam sendo alargadas as ruas do Acre (ex-Prainha), São Bento, Visconde de Inhaúma, Assembleia e Sete de Setembro. O morro do Senado no bairro da Lapa era arrasado para abertura da Avenida Mem de Sá, Praça da Cruz Vermelha, ligando o Passeio Público a rua Frei Caneca. A rua do Sacramento foi prolongada até a avenida Marechal Floriano Peixoto, recebendo a parte nova o nome de avenida Passos. Interessante assinalar que a Avenida Marechal Floriano foi alargada antes fugindo do padrão das ruas cariocas, era então chamada de rua larga, . A demolição dos velhos casarões, àquela altura já quase todos transformados em pensões e cortiços, provocou uma crise de habitação que elevou os aluguéis e pressionou as classes populares para os subúrbios e para cima dos morros que circundam a cidade. A implantação da modernidade no Brasil parecia querer excluir parcelas importantes da sua população, que assim como hoje se sustentam por pequenos biscates e não possuem vínculos fixos de trabalho(2). A modernidade assumia um caráter parcial e não era disponibilizada para todos, combinando aquilo que será a face perversa de nossa modernização incompleta e combinada, que sempre manteve o arcaico, para dele se beneficiar e super explorar. É claro também, que as classes populares se beneficiavam da reforma sanitária, pois ao final das contas eram muito mais expostas as epidemias de febre amarela, febre tifóide, impaludismo, varíola, peste bulbônica e tuberculose por não usufruir do recurso do isolamento (3), por suas condições de abrigo e do acesso aos serviços médicos e informações sanitárias. A modernidade, no contexto do Brasil daquele tempo, na transição da ordem escravocrata para a competitiva, assumia um caráter exclusivo, importada da Europa de forma ligeira sacralizava a ideia de progresso para usufruto de poucos;


"O partido dos modernos insurge-se contra a autocompreensão do classicismo francês, quando assimila o conceito aristotélico de perfeição ao de progresso, tal como este foi sugerido pela ciência natural moderna. Os 'modernos' questionam o sentido de imitação dos modelos antigos com argumentos histórico críticos, em contraposição às normas de uma beleza absoluta e atemporal, salientam os critérios do belo relativo ou condicionado temporalmente, articulando com isso a autocompreensão do iluminismo francês com a de um novo começo de época." HABERMAS 2000 página13, grifo meu

Mas, além das críticas ao urbanismo higienista e positivista é preciso reconhecer que o movimento representa um importante legado para a cultura urbana brasileira, e depois desse primeiro movimento demonstrou claramente capacidade de auto aperfeiçoamento, principalmente nos projetos de Saturnino de Brito(1864-1929). Saturnino se graduou na Escola Politécnica em 1886, atuou na construção de ferrovias no interior do Brasil, foi assistente de Aarão Reis na construção de Belo Horizonte, deixando essa função para se dedicar ao plano de extensão de Vitória em 1897. Desse momento em diante se dedicou a uma série ininterrupta de planos de extensão e saneamento de cidade, dentre as quais se destacam; Santos (1905-1909) e Recife (1909-1915). Quando nos debruçamos sobre essas atuações percebe-se um retrocesso positivo num formalismo geometrizante rígido e a adoção de uma maior adequação a topografia e as demandas de cada localidade. Saturnino recebeu até agora pouca atenção de nossa historiografia, principalmente no que concerne aos seus desenhos e soluções em cidades concretas, mas, que me parecem uma das mais sensíveis sistematizações nessa área. Seu entendimento do urbano como um processo, e não apenas uma transformação e modificação na cidade podem ser observados em Vitória, Santos e Recife. Tal atitude pode ser comprovada pela sua visão do organismo urbano como um todo, sua preocupação com o gerenciamento da reprodução da cidade no seu desenvolvimento, pensando a construção das casas e edifícios pulverizados nas diferentes partes da cidade, no longo prazo. Uma visão do projeto urbano como processo de interação com a cultura do construir pulverizada e diversificada da sociedade


"Brito produzia extensos relatórios para cada trabalho prático, nos quais discorria desde detalhes técnicos até suas concepções urbanísticas. Escrito para a conferência La Cité Reconstituée em 1916, seu livro Notés sur le tracé sanitaire des villes condensa sua principais ideias e pode ser considerado o primeiro esforço para se estabelecer uma teoria  do urbanismo no Brasil." MOREIRA, D 2010 página49

Essa página do urbanismo no Brasil é de forma recorrente esquecida, com arquitetos e urbanistas muitas vezes citando esses mesmos conteúdos a partir de autores estrangeiros, que parecem pela subalternidade interiorizada sempre mais elegantes que nossas reflexões particulares. Autores brasileiros, mais próximos de nossa contemporaneidade, como; Rodrigo Lefébvre, Sérgio Ferro, ou Carlos Nelson dos Santos, também tiveram reflexões importantes sobre o projeto e sua articulação com procedimentos democráticos de participação, e estão hoje igualmente esquecidos. O que me parece importante frisar, a partir de nossa experiência com a pandemia do Covid-19, no campo do projeto de nossas cidades brasileiras é a emergência de um processo Político que passa a considerar a necessidade de inclusão social e de geração de maior coesão entre os cidadãos. Efetivamente, não importa que apenas uma minoria tenha acesso a uma habitação em condições dignas para o isolamento social, isto é; com saneamento, instalações sanitárias adequadas, densidade de moradores salutar, presença de uma urbanidade civilizada e segura no seu entorno. É cada vez mais evidente, que a crise deflagrada pela propagação do coronavírus está nos mostrando, infelizmente de forma trágica, que as sociedades não podem prescindir de sistemas públicos e gratuitos de saúde, da previdência social, de um programa habitacional que inclua a urbanização, o saneamento das favelas, a produção de unidades habitacionais inseridas em contextos com saneamento, segurança e urbanidade. Que precisamos de legislação e políticas de proteção ao trabalho, de garantia do direito á habitação, de instrumentos de controle e correção sobre a valorização excessiva da terra urbana, de políticas de mobilidade inclusivas, de projetos aonde os excluídos são ouvidos e incluídos em suas demandas. Que a informalidade e a precarização dos vínculos trabalhistas, da moradia, do espaço urbano, da cidade, do direito a produção agrária e urbana constituem fragilidades nocivas a toda a sociedade, e não apenas aos grupos excluídos. Como colocado por SAFATLE em recente entrevista;

"Porque uma coisa que poderia nascer dessa experiência de uma luta coletiva contra a pandemia era um afeto político fundamental de solidariedade genérica. Uma solidariedade que demonstra muito claramente: ‘minha vida depende de pessoas que eu nem sei quem são’. Que não parecem comigo, que não fazem parte do meu grupo, que não têm minha identidade, e essas pessoas são fundamentais; nós temos um destino coletivo." SAFATLE 2020

Emerge uma consciência ou narrativa que me parece importante sublinhar e destacar, nas ocupações precárias de baixa renda como favelas e loteamentos irregulares presentes nas cidades brasileiras, as mais importantes recomendações e procedimentos para evitar o contágio são impraticáveis, ou de difícil implantação, pela baixa qualidade dos serviços de abastecimento de água, coleta de lixo, distribuição elétrica, telefonia e esgotamento sanitário, pelo adensamento excessivo e pela precariedade sanitária das habitações. No sistema de saúde efetivamente constituído em nossas cidades percebe-se, assim como na rede de cultura, ensino, informação um déficit locacional, que privilegia determinados bairros e segrega outros. Além disso tudo, as famílias desses bairros precarizados e sub infraestruturados estão mais sujeitas à diminuição de sua renda pela sua necessidade de prover seu sustento, a cada dia. Os efeitos da redução da circulação e da atividade econômica provocada pela necessidade de estancar a disseminação do vírus são mais violentos nessas mesmas localidades, uma vez que concentram os menores níveis de renda, cultura, saúde e escolaridade. Na verdade, a pandemia do Covid-19 deixou claro que o conceito de moradia adequada em tempos de isolamento social é aquela que possui condições de garantir a existência entre os residentes da habitação, muito além de ter acesso a um mero sistema de saneamento básico que permita manter a higienização constante e apropriada, mas também, condições de co-habitação. A lógica da solidariedade entre diferentes, da celebração de um projeto comum de cidade, aonde ninguém é deixado de lado, conseguirá prevalecer em nossa contemporaneidade? A emergência de um neo positivismo, que celebra a independência absoluta da ciência, frente a ordenação Política da sociedade irá prevalecer. O pessimista filósofo marxista ZIZEK, nos contempla com um inusitado depoimento otimista, que parece concordar com a emergência de um projeto solidário para a humanidade, a partir de uma reflexão pessoal de cada um de nós;


"Nem todo mundo que está em casa passa seu tempo apenas assistindo filmes estúpidos. Todos estão se fazendo perguntas básicas sobre nossa vida cotidiana, questões que em outros momentos definiríamos de metafísicas. Muitos estão usando esse tempo para refletir. E para escolher. É verdade, somos mais isolados, mas também mais dependentes uns dos outros. Vivemos um imperativo paradoxal: demonstramos solidariedade por não nos aproximarmos. Nunca fui um otimista, mas esse respeito pressupõe uma mudança profunda de comportamento que sobreviverá à crise." ZIZEK, Slavoj - Entrevista no site da Unisinos em 13/04/2020 

Mas, muito além do otimismo creio que se impõe uma vigilância constante sobre o processo de tradução e diálogo entre ciência e Política, para que mais uma vez não se imponha uma lógica redutora e de exclusão no Brasil. Pois, será que a interpretação ou narrativa da solidariedade efetivamente se impõe a todos, ou sobreviverá a crise da pandemia, convencendo a todos de que a interdependência intra sociedade é a chave para superá-la? Ou, os fundamentalistas do mercado e da lógica competitiva exarcebada do neo liberalismo, que certamente continuaram sua pregação da seleção natural, entre perdedores e ganhadores do darwinismo social. Certamente, estão articulando narrativas e explicações, que identificarão as fragilidades de nossa estrutura social, a partir de uma lógica de ênfase na competição de todos contra todos. Se levantarão e proclamarão suas narrativas e discursos contra a solidariedade, celebrando a ordem econômica competitiva e meritocrática, que nos doutrinou desde o fim dos anos setenta, com as eleições Thatcher e Reagan. Na verdade, não podemos nos iludir, o sistema sempre se utilizou de crises reestruturadoras para reordenar suas imposições dominadoras, uma rearticulação das necessidades humanas segundo critérios do saber técnico, seja médico ou urbanístico, só poderá ser ratificado pela consciência dos próprios atores Políticos.

NOTAS:

(0) Alguns autores discordam ou problematizam a nomeação desta rebelião no Rio de Janeiro como Revolta da Vacina, pois consideram que os motivos da explosão se deviam a questões muita mais amplas, como a falta de habitação, a precariedade dos transportes e a expulsão da população pobre do centro da cidade. É sintomática a destruição de bondes e a disponibilidade de entulhos de obra, que foram usados nas barricadas cariocas nessa ocasião

(1) De forma concomitante com as obras, Pereira Passos tomou uma série de medidas que visavam proibir e alterar as formas de trabalho, lazer e sociabilidade consideradas incompatíveis com uma capital cosmopolita e moderna. Proibiu cães vadios e vacas leiteiras nas ruas; mandou recolher os mendigos a asilos; proibiu a cultura de hortas e capinzais, a criação de suínos, a venda ambulante de bilhetes de loteria; mandou também que não se cuspisse nas ruas e dentro dos veículos, que não se urinasse fora dos mictórios, chegando mesmo a determinação de que não se soltassem pipas.

(2) É conhecido o fato e de certa forma folclorizado, de que parte desse precariado começou a criar ratos para conseguir prover seu sustento, uma vez que Oswaldo Cruz institui uma remuneração em dinheiro para quem os entregasse aos Serviços Sanitários da Capital Federal.

(3) O retiro na serra adotado pelo imperador, entre os meses de novembro e fevereiro não era para se preservar do calor carioca, mas também para evitar as epidemias.

BIBLIOGRAFIA:

BENCHIMOL, Jaime Larry - Pereira Passos: um Haussmann tropical - Biblioteca Carioca 1992 Rio de Janeiro

ENGELS, Friedrich - A situação da classe operária em Inglaterra - Edições Afrontamento Porto 1975

GABRIEL, Mary - Amor e Capital: a saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução - Editora Zahar Rio de Janeiro 2013

HABERMAS, Jürgen - O discurso filosófico da modernidade - Editora Martins Fontes São Paulo 2000.

HABERMAS, Jürgen - Técnica e ciência como ideologia - Editora Unesp São Paulo 2014

MOREIRA, Fernando Diniz - Saturnino de Brito e o plano de saneamento de Recife - Néctar Recife 2010

MOREIRA, Pedro da Luz - Belo Horizonte, e a fundação de nossa tradição moderna - dissertação de mestrado do PROURB 1997

MOREIRA, Pedro da Luz - Gestão Urbana, saúde, habitação e modelos de cidade - www.arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com.br 

SAFATLE, Vladimir - Safatle: "Bolsonaro se acha capaz de esconder os corpos" - Entrevista ao A Pública coletado em 08/04/2020, no site:  https://apublica.org/2020/04/safatle-bolsonaro-se-acha-capaz-de-esconder-os-corpos/#.Xo2jExPPJow.whatsapp

ZIZEK, Slavoj - Entrevista no site da Unisinos em 13/04/2020  http://www.ihu.unisinos.br/597903-vejo-um-novo-comunismo-distante-do-comunismo-historico-brotar-do-virus-entrevista-com-slavoj-zizek

terça-feira, 17 de março de 2020

Morre Vittorio Gregotti, arquiteto italiano, milanês aos 92 anos propositor de uma outra relação entre teoria e projeto

Vittorio Gregotti, morre em Milão aos 92 anos pelo Covid-19
Vitorio Gregotti nasceu em Novara em 10 de agosto de 1927 e morreu em Milão, no dia 15 de março de 2020 devido a uma tuberculose, causada pela grave epidemia de Covid-19, que assola o norte da Itália. Autor de uma série de edificações projetadas pelo escritório Gregotti Associati International, como o; Desenvolvimento do bairro de Bicocca em Milão (1985-2005), o edifício do Centro Cultural Belém em Lisboa em parceria com Manuel Salgado (1988-1993), o Teatro Lírico de Aix-La-Provence na França (2003-2007), dentre outros. Gregotti se formou em 1952 no Politécnico de Milão e teve grande atuação acadêmica, atuando como professor convidado em várias Escolas de Arquitetura, como a FAU-USP em São Paulo, o MIT nos EUA, a Universidade de Lisboa, dentre outras. Publicou em 1975, o livro Território da Arquitetura, um dos mais importante testemunhos de um arquiteto operativo e praticante, com uma visão muito particular das complexas relações entre teoria e prática, aonde a projetação é central. Esse livro foi formador da minha geração na FAU-UFRJ, no começo dos anos oitenta, nele questões como a materialidade da arquitetura, a forma do território, a história, o Tipo, o Uso e o Significado foram intensamente debatidos na sua dimensão operativa e do projeto. Arquitetos da chamada tendenza italiana como; Aldo Rossi, Carlo Aymonino, Manfredo Tafuri(1) e o próprio Vittorio Gregotti eram debatidos no Brasil do final da Ditadura Militar, como propositores de uma nova relação entre edifício e cidade. Considerados neo racionalistas, Gregotti inclusive menciona nesse livro, como pretensão de sua obra a coincidência entre racionalidade e beleza, que buscava a partir da compreensão social de seus projetos. Logo no começo do livro ele declara esse esforço de união entre razão e beleza;


"Este livro, creio eu, é algo contraditório e destituído de sistematicidade. Por outro lado, não pretendo apresenta-lo como tratado e sim como exercício de projeto, ou seja, como ao elaborar um projeto de arquitetura, continuamente se experimenta e se corrige, amontoam-se numerosos problemas à espera de solução, amontoam-se à margem da folha soluções possíveis ao lado de números de telefone a serem lembrados. Em seguida, mesmo que os apaguemos, os vestígios permanecem sobre o papel a nos lembrar o que foi examinado e recusado; tentativas e erros dão sentido pleno à solução final." GREGOTTI 2004 página 09

É claro nesse trabalho a centralidade do projeto e seu processo de desenvolvimento, sua operação atua no sentido de uma auto consciência numa direção predeterminada para se auto constituir como significado social. Interessante mencionar, que essa auto consciência é desassociada de uma autoria unificada e personalista, mas dissipada entre vários atores que explicitam seus desejos e modulam a forma. Gregotti, como arquiteto atuante reconhece na fenomenologia do projeto uma "grande distância entre desejo e satisfação", uma vez que sua materialização está condicionada por fatores concretos de custo, de uso, e de tecnologias. Mas, entende que a contemplação das diferentes lógicas e pressões dos diferenciados desejos constroem uma racionalidade não idealista, mas profundamente pragmática e objetiva. Mas isso não implicava um afastamento daquilo que foi considerado o objetivo maior da tendenza italiana, que era a autonomia do projeto, como atividade que deveria ter independência, inclusive com relação ao canteiro de obras. É interessante notar que Gregotti aponta que a cadeia produtivo-industrial da reprodução da cidade, no qual o projeto está inserido possuía parâmetros planejados, mas também intuídos. Esses últimos parâmetros, os intuídos, que longe de ser espontâneos tinham sua genealogia presa a uma cultura compartilhada, e que podia ser influenciada e doutrinada como uma linguagem, que envolvia uma relação entre pesquisas científicas e projetuais. Ao fazer isso, Gregotti aproxima a atuação projetual da área artística, segundo duas direções diversas, de um lado, uma indagação e conhecimento da realidade, como uma forma de compreensão do real, e de outro, como objetos humanos, instituições do mundo moderno, ligadas às suas necessidades e símbolos. Na verdade, era um claro esforço de aproximação através da cidade, da arquitetura e do território construído das atuações científicas e estéticas, como campos associados, e não excludentes.


"Tal particular permeabilidade não deve ser atribuída equivocadamente à complicação técnica do trabalho do arquiteto, e sim de modo mais genérico à complexidade estrutural e funcional dos materiais com os quais ele trabalha; materiais que se apresentam com um tal grau de elaboração técnica e cultural que se constituem de fato em disciplinas autônomas que nos induzem a pensar o operar arquitetônico enquanto construção de sistemas significantes, como um sistema de sistemas." GREGOTTI 2004 página 16


Enfim, muito da discussão em curso na pauta da cultura arquitetônica do Brasil na nossa contemporaneidade, que contrapõe a pesquisa científica e a prática de projeto estão presentes na obra de Vittorio Gregotti, não só no seu livro Território da Arquitetura, mas também em sua obra construída e projetual. A projetação é um fenômeno específico, que envolve a confluência de campos como; o estético, o científico, a compreensão social, os usos e a simbologia, seja no edifício como no desenho ou planejamento urbano. Os programas de Pós Graduação no país estigmatizam a prática do projeto e do desenho, como atividades subjetivas sem fundamento científico, numa atitude doutrinária conservadora Toda a obra de Gregotti pretende claramente fazer uma ponte entre o mundo da subjetividade e da objetividade, do estético e o científico, do processo e da solução dos problemas, uma proposição corajosa, que está a espera de novas visitações.

NOTAS:

(1) Aqui no blog há menções aos arquitetos Aymonino, Rossi e Tafuri nos textos; Aymonino e Rossi, a cidade contemporânea, tipologia, origens e desenvolvimento, Gestão Urbana, saúde, habitação e modelos de cidade, Gramsci, Tafuri, a filosofia da práxis e a arquitetura, Uma mesa redonda debate o projeto, O tijolo e o balão, nos linkes; https://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com/search?q=aymonino e https://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com/search?q=tafuri

BIBLIOGRAFIA:

GREGOTTI, Vitório - Território da Arquitetura - Editora Perspectiva São Paulo 2004

sexta-feira, 6 de março de 2020

América Latina, resistência e aceitação do neo liberalismo

América Latina, resistência e aceitação do neo liberalis
Um dos maiores problemas da América Latina é uma arraigada concepção da sua mídia, dos seus intelectuais e de seus ideólogos de uma certa subalternidade, que está espelhada na ausência de destaque nos seus momentos mais criativos, legítimos de superação e construção autônoma. Em nossa história recente, a conformação de um grupo de governos democraticamente eleitos, alinhados num posicionamento contrário ao neo liberalismo, que desde o início do século XXI parece ter passado despercebido, pelos mesmos; da mídia, dos intelectuais e dos ideólogos.  Apesar de me parecer um momento particular da história, no qual os Estados Latino Americanos demonstraram uma capacidade criativa, frente a uma hegemonia de comportamento neo liberal, que solapava o mundo inteiro. Um acontecimento, que nos mostrava uma sinergia inusitada, uma confluência de objetivos, que talvez só tenha se manifestado no início do século XIX, com a emergência dos processos de independência no continente (1).  Agora, que Lula já recebeu o título de cidadão honorário de Paris, talvez os latinos americanos passem a considerar a especificidade desse momento histórico. Na verdade, a supremacia do neo liberalismo em todas as partes do mundo pode ser também entendida como a Pax Americana, uma forma de dominação e coerção, que não se manifesta apenas no econômico, mas também no social e cultural, e que se diferencia muito da forma precedente da hegemonia britânica.


"O chamado "modo de vida americano" se globalizou, com seus estilos de consumo, suas marcas e, principalmente, sua concepção central: a mercantilização da vida em todos os seus rincões, uma sociedade em que tudo é mercadoria, em que tudo tem preço, em que tudo se vende e tudo se compra." SADER 2019 página60

Ao simplesmente listarmos datas percebemos como houve uma onda de governos com posturas além do neo liberalismo, que começam com o final do século XX e início do XXI. Afinal em; 1999 Hugo Chavez foi eleito na Venezuela, em 2002 Lula no Brasil, em 2003 Nestor Kirchney na Argentina, em 2005 Tabaré Vazques no Uruguai, em 2005 Evo Morales na Bolívia e em 2006 Rafael Correa no Equador. Todos frutos de eleições majoritárias legítimas, que foram ganhas por propostas mais próximas dos posicionamentos de esquerda. É verdade, que esses governos não chegam a forjar uma identidade anti neo-liberal explícita, mas se contrapõe às posições hegemônicas das administrações que os antecederam, a partir dos duros acontecimentos determinados pelas  crises; do México, 1994, Brasil 1999 e Argentina 2001-02. Na verdade, esses governos podem ser qualificados como reformistas conservadores, uma vez que não se declaram explicitamente e principalmente no campo da macro economia, como anti neo liberais.

Segundo a concepção gramsciana, que combina fatores objetivos da história, com a capacidade de criação de narrativas aglutinadoras de consensos, contrários a mercantilização geral, parecia então estar se manifestando na América do Sul uma resistência ao neo liberalismo hegemônico no resto do mundo. É interessante assinalar a identificação de uma ruptura, sem a sua expressa explicitação, que está demonstrada pelo uso do termo por Emir Sader, no seu livro Lula e a esquerda do século XXI, com a expressão do pós-neoliberalismo. Era uma frágil renuncia do neo liberalismo, uma vez que muitos desses governos tiveram recaídas neo liberais, tais como, após a apertada vitória de Dilma Roussef sobre Aécio Neves em 2014, quando é chamado Joaquim Levy para comandar a economia do Brasil. Um ministro da economia muito mais alinhado a uma imposição única das diretrizes do governo federal; o combate ao déficit público. Segundo, o filósofo alemão Jürgen Habermas, a utilização do prefixo "pós" que de certa forma se generaliza na contemporaneidade determinando uma certa continuidade, com aquilo com que se rompe, como com o que acontece, nos termos; pós moderno, pós comunismo, pós capitalismo, etc.. Na verdade, a identidade entre esses governos pode ser expressa em alguns pontos claros, que foram defendidos e compartilhados por esses diferentes presidentes, nas suas falas, ações e políticas, tais como;

1. declínio do poder único estadounidense, com a contraposição da defesa de um mundo multipolar, combatendo os alinhamentos automáticos;
2.  prioridade a políticas redistributivas e de cunho social que combatam a desigualdade fortemente presente nessas sociedades;
3. uma certa recuperação do Estado e da sua estrutura burocrático administrativa e sua capacidade de planejar e desenhar políticas sociais;
4. relativização da questão do ajuste fiscal do Estado, que passa a admitir a possibilidade de políticas econômicas anti cíclicas para incentivo ao desenvolvimento.

As origens dessas sinergias governamentais aparecem hoje de forma mais clara pela falência, principalmente nas três economias mais importantes - México, Brasil e Argentina - na década de 90 da implantação do modelo do Consenso de Washington, no qual o controle dos gastos públicos e da inflação aparecia ser a única política a ser implementada. Era então o pensamento único, que fez com que governos de FHC no Brasil, Carlos Menem na Argentina, Rafael Caldeira na Venezuela, e outros tentassem implantar um modelo de privatizações, declínio do tamanho do Estado e ajuste fiscal severo, muitas vezes retirando recursos das políticas sociais, sem ter muito sucesso. A resistência popular mais forte a essas políticas se manifestou na Venezuela em 1989, com uma explosão ensandecida contra o aumento da tarifa de transportes públicos, exatamente no primeiro governo de Carlos Andrés Pérez, naquilo que ficou conhecido como Bogotazo. Um pouco antes dessa época (1982) houve a fundação por um ainda desconhecido oficial de esquerda do exército venezuelano, Hugo Chavez de um  movimento militar, que comemorava os 200 anos do nascimento de Símon Bolivar denominado Movimento Bolivariano Revolucionário. Além disso, sempre houve resistências variadas na América Latina a ampliação generalizada da sociedade concorrencial, como no Chile em 1970 com a eleição democrática de Allende pelo partido socialista, ou em 1979 com a Revolução Sandinista. Mas particularmente no Brasil ocorrem no declínio da Ditadura Militar; a fundação do Partido dos Trabalhadores PT (1980), a Central Única dos Trabalhadores CUT (1983) e o Movimento dos Sem Terra MST (1984).

O neoliberalismo vem se demonstrando uma política mais eficiente exatamente nas economias centrais do sistema capitalista, penalizando de forma clara as economias periféricas, como a Grécia, Portugal e outros, assim como a América Latina. Segundo Giovanni Arrighi, no seu livro O Longo Século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo, o sistema capitalista sempre teve um centro irradiador, que representava além da supremacia econômica, também um domínio social e cultural.  Na história do capitalismo, sempre a troca da base central do sistema representou um momento traumático, envolvendo guerras e conflitos variados. Particularmente a troca da Inglaterra pelos EUA foi o advento das duas grandes guerras do século XX. Foram essas duas grandes guerras, que marcaram também a grande crise de confiança no liberalismo, também hegemônico no começo do século XX, pelo menos até o crack da bolsa de Nova York. As respostas a essa grande crise podem ser classificadas em três correntes muito claras; a primeira o Estado de bem estar social promovido por Franklin Delano Roosevelt nos EUA, a segunda o fascismo europeu, que propunha a unificação da nação e do Estado, criticava o mercado e propunha um capitalismo de Estado, e a terceira o modelo soviético de forte centralidade também do Estado como planejador da economia. Ao final da segunda guerra, com a derrota da segunda opção, o fascismo europeu, o mundo emergirá com um forte protagonismo do Estado, determinado pela presença do keynesianismo. Segundo ARRIGHI 1996 foi o único momento em que o capitalismo distribui renda, determinado por seu mais longo período de desenvolvimento, sem crises na sua história. De 1945 a meados de 1970, o sistema teve um crescimento continuado, fazendo inclusive com que Nixon, um presidente republicano e conservador, na mesma década de 70 declara-se; "somos todos keynesianos." SADER 2019 página 64


"A imposição do neoliberalismo no âmbito da economia mundial é resultado de uma crise profunda que atingiu o conjunto do que se vai chamar aqui de modo de regulação keynesiana de Bem-estar-social, ou ainda consenso Keynesiano, que, dominante a partir de 1945, foi responsável por um longo período, quase 25 anos, de crescimento econômico com pleno emprego. Esses anos dourados, como foram denominados, pareceram confirmar as teses mais otimistas, que, a partir da crise de 1929, acreditaram que o capitalismo havia aprendido com aquela dramática situação e se preparado para, com base no Estado e em um novo arsenal de políticas públicas, administrar a macroeconomia, bem como garantir certos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários." PAULA org. 2005 página 30

A partir de Thatcher (1979) e Reagan (1980) essa lógica da forte presença do Estado começa a ser erodida, desmontando o Welfare State celebrando-se a regulação do mercado para tudo e, promovendo forte arrocho das contas públicas. Segundo alguns autores a Ditadura de Pinochet (1973) no Chile (2) foi a primeira experiência de gestão neo liberal, algo ainda fora de qualquer padrão generalizante, pois profundamente articulada com um autoritarismo criminoso. Mas ao final da segunda crise do petróleo, no final da década de setenta, com as eleições nos dois países propagadores do capitalismo de forma hegemônica no mundo, começa a emergir o declínio da forma de regulação pautada pelo fordismo e pelo keynesianismo. Foi impressionante a perda de postos na indústria fordista na Inglaterra e nos EUA, com uma compensação sempre precarizada pelo setor dos serviços, principalmente financeiros. Essa perda representou, segundo ARRIGHI 1996, o declínio de uma regulação importante do capitalismo do segundo pós guerra, o sindicalismo industrial, que foi fortemente atacado pelas gestões neo liberais. Além dele, um outro importante contrapeso do segundo pós guerra começa a demonstrar suas fragilidades, frente a imensa capacidade produtiva do capitalismo, o sistema soviético, que representava uma forte ameaça para as políticas anti sociais do neo liberalismo, que retornava. Mas, é exatamente essa imensa capacidade de ampliação do consumo, a produtividade do sistema capitalista frente ao socialismo, que a partir da década de 90 começará a ser reduzida, pois constantemente submetida a crises cíclicas capitaneadas por um sistema financeiro desregulamentado e autonomizado frente a produção, num retorno às condições pré 1929.

A partir de 1989, com a Queda do Muro de Berlim e dois anos após com o desmonte do sistema soviético, o capitalismo aparecia como o único vencedor, fazendo com que Francis Fukuyama, um neo hegeliano de direita decretasse o Fim da História. O Fim da História não era a supressão da sucessão de acontecimentos, mas a vitória das democracias liberais, que emergiram como vitoriosas frente ao socialismo, naquilo que havia sido para Fukuyama a disputa ideológica do século, como uma superação sintética da contradição entre dois sistemas. Mas junto a essa condição, com o fim das regulamentações sobre o sistema financeiro o capitalismo começa a apresentar uma recorrente presença de crises especulativas, que solapam o desenvolvimento e reduzem a produtividade do sistema. A ausência das formas de regulação, o sindicalismo fortalecido e o Estado planejador, acabam por determinar a presença recorrente de crises cíclicas, que se sucedem com gravidade cada vez maior até a grande crise de 2008, quando EUA e a Europa são fortemente atingidos, acabando por representar um forte declínio do crescimento da economia global. Mesmo a excessão da China, que continua apresentando números de crescimento invejáveis pode ser explicada por sua imensa capacidade de controle dos sistemas financeiros do país. A economia de mercado socialista inventada por Deng Xiaoping (1979) não se importava "com a cor do gato, desde que comesse os ratos"(3), mas na verdade, até agora não abriu mão do seu sistema financeiro. Sem dúvida, o sistema financeiro chinês, apesar de admitir participação privada de diversos grupos permanece majoritariamente estatal, e volta e meia banca políticas públicas anti cíclicas. 


Enfim, a resistência da América Latina ao neo liberalismo apesar de frágil me parece um movimento digno de reflexão e a espera de um aprofundamento do debate sobre as opções que se apresentam ao nosso futuro. A história e os seus ensinamentos são fundamentais para não repetirmos os erros de anos mais distantes e mais próximos, os contra pesos e regulações de sistemas competitivos me parecem fundamentais, pois a reflexão dialética ainda não foi suprimida. A contraposição de uma lógica mais solidária a um raciocínio concorrencial ainda hegemônico e majoritário, me parece fundamental.


NOTAS:

(1) Ver nesse mesmo blog, o texto Ciclos históricos na América Latina, a partir do século XX,  um projeto de continente e a questão indígena. Na verdade no texto enfatizo a ideia de uma identidade latino amedricana e mesmo americana, que está precisando sere melhor estudada e pensada. No link; https://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com/

(2) Autores como HARVEY (2008), DARDOT e LACVAL (2016)

(3) Expressão imputada a Deng Xiaoping ; "Não importa a cor do gato, o importante que ele coma os ratos." justificando a implantação da economia de mercado socialista na China, a partir de algumas cidades e depois generalizando-a por todo o país.

BIBLIOGRAFIA:

ANDERSON, Perry - O Fim da História, de Hegel a Fukuyama - Jorge Zahar Editora Rio de Janeiro 1992

ARRIGHI, Giovanni - O Longo Século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - Editora UNESP São Paulo 1996

DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian - A nova razão do mundo, ensaio sobre a sociedade neo liberal - Editora Boitempo São Paulo 2016

HARVEY, David - O neoliberalismo, história e implicações - Edições Loyola São Paulo 2008

LÖWE, Michael (org.) - O marxismo na América Latina, uma antologia de 1909 aos dias atuais - Expressão Popular Perseu Abramo São Paulo 2016

PAULA, João Antonio de - Adeus Desenvolvimento: a opção do governo Lula - Autêntica Editora Belo Horizonte 2005

SADER, Emir - Lula e a esquerda do século XXI, neoliberalismo e pós-neoliberalismo no Brasil e na América Latina - Editora LPP UERJ Rio de Janeiro 2019

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Hoje meu filho especial Felipe completa 30 anos de idade

Hoje, dia 28 de fevereiro de 2020 meu filho especial Felipe completa 30 anos de idade. Felipe é autista não verbal, e apesar dessa condição se comunica de uma forma bastante peculiar, através de algumas ecolalias, que são a repetição de frases e palavras sem sentido. Uma das mais recorrentes, pelo menos comigo, é; "Cadê o Pinguim?" Uma pergunta meio surrealista, que sempre me remete ao isolamento das geleiras da Antártica dentro de um enorme grupo de pinguins, aonde Felipe parece condenado a só utilizar as formas de interação dessa ave meio particular e inusitada. A frase é claramente utilizada para chamar a atenção, quase como que fosse; "Oi estou por aqui." Há outras também, como; "Fecha a geladeira!" ou "No copo!", que se remetem a situações mais concretas de repressão a seus comportamentos como o de abrir a geladeira ou beber água nas garrafas.  O autismo é uma síndrome grave, que afeta o relacionamento social de determinadas pessoas, num amplo espectro de gravidade, que envolve capacidades variadas e diversos comportamentos de isolamento social. Em 30 de março de 2017 escrevi um texto aqui mesmo no blog sobre ele, quando já tinha 27 anos. O link é; 

https://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com/2017/03/meu-filho-cacula-felipe-e-autista.html.

Felipe não é violento, nem pratica auto mutilamento ou agressividade que alguns autistas apresentam, possuindo apenas alguns comportamentos repetidos e obsessivos, como pular e rir de forma aparentemente inusitada e inesperada. Apesar disso manifesta uma imensa capacidade de afeto e carinho, com as mais variadas pessoas, mais próximas ou nunca vistas. Suas maiores manifestações de violência estão invariavelmente direcionadas a seu irmão mais velho, Daniel, que me parecem expressões claras de ciúme, manifestações de sua consciência da fragilidade de sua capacidade de comunicação e interação pela falta da linguagem. Há aqui, uma presença confusa da consciência de suas limitações de linguagem, a afirmação do seu espaço essencial e uma competição originária ou inconsciente, que na verdade o perturba mais que o reconforta. Muitas vezes, após a ocorrência desses eventos conversei particularmente com êle de forma dura e repressora, fazendo-o muitas vezes chorar. Apesar dessa clara demonstração de arrependimento e reconhecimento das suas limitações, Felipe volta a repetir invariavelmente a ação, muitas vezes de forma inesperada, como uma reação involuntária e impensada.

Tudo isso é um grande mistério, e a nossa consciência das limitações e potencialidades dos comportamentos de Felipe e dos autistas em geral me parecem ainda campos inexplorados, que demandam da sociedade uma maior capacidade de convívio com o especial. Essa maior convivência e disponibilidade certamente representaria um significativo apuro civilizatório e pessoal de inteligência e sensibilidade nas pessoas. A convivência com o autismo, como já afirmado aqui nesse blog é um eterno aprendizado, principalmente de respeito a alteridade humana, que mesmo ao desfrutar de uma plena capacidade de expressão parece e pode sempre esconder mistérios. Muito além de uma funcionalidade prática, Felipe parece sempre nos lembrar, que há um manifesto em toda existência humana.

Feliz Aniversário, meu filho...

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A segunda aula de Arquitetura, Cidade, Filosofia Moderna no contexto do Programa IAB-RJ Compartilha


Cartaz do Curso Arquitetura, Cidade, Filosofia Moderna
Nos dias 04 e 05 de fevereiro de 2020 na sede do IAB-RJ  ministrei um workshop sobre Cidade, Arquitetura, Filosofia Moderna para um grupo de alunos de composição variada, sugerindo um exercício ao final, através de um texto vinculando os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e nossa espacialidade contemporânea. Esse texto é uma compilação expandida da segunda aula. De acordo com o final da primeira aula foi identificado um decréscimo da confiança na técnica e no progresso científico, a partir das bombas atômicas lançadas pelos EUA nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, que marcam o final da 2a Guerra Mundial (1945). Com isso, emerge uma hegemonia da diversidade entre os seres humanos, que passam a ser vistos como especificidades culturais, raciais, de gênero, ou de qualquer outra natureza, que correspondem à políticas de afirmação identitárias. Há uma forte crítica a um racionalismo unitário e unidirecionado do mundo ocidental, que enxergava a modernidade como a ampliação capitalista pelo mundo, a partir de países tidos como centrais. A história e o patrimônio construído passam a ser valores celebrados, numa multiplicidade de casos, que exatamente constroem a diferenciação enraizadora de identidades específicas. A crítica já estava em Gramsci, na sua percepção e identificação de um centro para o desenvolvimento capitalista no mundo, e o desenvolvimento de relações de supremacia e subalternidade entre e intra países.


Arts United Center em Fort Dale Loui I. Khan
No campo específico da arquitetura e da construção emergem críticas, como a de Loui I. Khan (1901-1974), que recupera sistemas de pré moldagem ancestrais, como o tijolo de barro, numa clara reapropriação de tecnologias adormecidas. Nos anos 1950 o arquiteto Loui I. Khan retoma o tema da monumentalidade de maneira silenciosa e quebra a unidirecionalidade tecnológica dos materiais, retomando o tijolo como elemento pré-moldado mais potente, numa reinterpretação da forma de construir dos romanos. Sua crítica é principalmente construída, possuindo uma enorme concisão no que escreve. De certa forma, recebe o reconhecimento ideológico oficial do modernismo, quando em 1947 assume a cadeira de arquitetura em Yale, fazendo reflexões fundamentais, sobre a metodologia de projetar. As perguntas de Khan acabam refletindo na própria construção do campus de Yale, com a realização de dois edifícios emblemáticos; O Centro de Artes Britânicas e a Galeria de Artes de Yale. As perguntas que Khan incita a seus estudantes, para que pensem o ato de projetar como algo muito além da objetividade funcionalista são: “O que o lugar quer ser?”, ou “A ordenação das demandas do programa arquitetônico em;  Programa morto e vivo”, ou ainda  “A hierarquização desse mesmo programa de necessidades em; Espaços que servem e os que são servidos

No âmbito mais amplo da comunicação, a jornalista Jane Jacobs toma partido dos bairros e comunidades ameaçados pelo rodoviarismo imperante no urbanismo americano em Boston e Nova York, discordando da objetividade dos planos de Robert Moses, publicando o livro; Morte e Vida das Grandes cidades Americanas em 1961. Jane Jacobs proclama a perda da vitalidade das cidades americanas em função de um rodoviarismo exacerbado, presente no modernismo que devasta bairros e unidades de vizinhança em função da objetividade do circular. A crítica de Jacobs focava na vitalidade de algumas partes da cidade, que exatamente não haviam sido projetadas sobre premissas higienistas ou rodoviaristas, como nos projetos de Le Corbusier do Plano Voisin para Paris. A jornalista claramente celebrava a presença e a opinião dos usuários, acusando urbanistas de positivismo e tecnocracia exagerada. A arquitetura e a cidade precisavam ser vivenciadas no seu cotidiano, a partir de parâmetros que pressupunham uma relação entre espaço privado e público, que mantinham proporcionalidades que o modernismo havia rompido.


"As cidades tem a capacidade de prover algo para alguém, somente porque, e apenas quando, são criadas por todos... Não existe melhor expert na cidade do que aqueles que vivem e experimentam seu dia a dia." JACOBS 2011 página 47

Na verdade, a crítica de Jane Jacobs mencionava além do rodoviarismo imperante, a preferência da classe média americana pela baixa densidade nos subúrbios próximos a idílios naturais, com total dependência do automóvel. A habitação unifamiliar de baixa densidade é contraposta aos bairros densos das classes populares estadounidenses, nos centros e guetos, que acabavam possuindo uma vida de interação social intensa e muito mais rica. Sem dúvida, as intervenções de Robert Moses em Nova York elegem o rodoviarismo e destroem relações de vizinhança e de comunidades, descritas no livro; Tudo que é sólido desmancha no ar de Marshall Bermann, que descreve a hegemonia do automóvel a partir dos anos cinquenta nas cidades estadounidenses, e um pouco mais tarde no resto do mundo. Tal situação determina um certo isolamento do indivíduo na grande metrópole, reduzindo o espírito de participação na cidadania, aonde casas unifamiliares, com garagens abarrotadas de carros fazem a fortuna do american way of live. A cidade de Los Angeles, na costa oeste emerge como paradigma do bem viver, onde o automóvel se articula com a baixa densidade, surgindo um modelo de baixa densidade e de interação social, com um isolamento do ser humano na cidade.


Por outro lado, a década de 60, explode com a emergência de um mundo que decreta o fim das vanguardas e a presença de uma grande massificação, que é determinada pela maior acessibilidade garantida aos cursos superiores e a informação em geral. O mundo elitizado da primeira modernidade, dominado pelas vanguardas dá lugar a uma imensa massificação, que está emblematicamente representada nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAMs), que começam em La Sarraz no ano de 1928 com vinte e oito arquitetos e terminam em Dubrovnick no ano de 1956 com uma multidão de estudantes. Essa deselitização do horizonte determina a presença de uma pluralidade de visões, tornando-se difícil a construção de posicionamentos com sentido e manifestações claras. As posições, teses e manifestos tornam-se mais difíceis de serem construídos pela presença e participação de uma variedade de agentes e atores, que muitas vezes dispersam os alinhamentos.

Entre as décadas de 80 e 90, pensadores ou filósofos como Lyotard e Fukuyama decretam o fim dos discursos explicadores da modernidade, como o marxismo e o iluminismo, que construiam uma ética do agir e do pensar, compartilhado por muitos. Françoise Lyotard lança em 1986 A condição pós Moderna declarando a morte de relatos legitimadores da modernidade como o iluminismo e o marxismo, colocando em seu lugar a transparência comunicacional. Em 1989, Francis Fukuyama publica em Washington O Fim da História?, decretando um profundo divórcio entre o pensamento dos intelectuais, ou as elites dirigentes, que após sucessivos desapontamentos se colocam equidistantes da massa indiferenciada de pessoas, declarando o fim das macro narrativas ou das verdades compartilhadas. O Fim da História era determinado pela vitória final do capital e do liberalismo como a representação do Estado Universal de Hegel, aonde a supressão do socialismo do horizonte da humanidade era decretada de forma interessada, Há uma emergência de uma lógica localista, que se rebela contra o pensamento sistêmico e estruturador do modernismo, que se baseava num discurso mais generalista e global. Desenvolve-se a consciência de que a utopia modernista era autoritária e congelava as aspirações de realização das futuras gerações, que possuiam uma predominância euro cêntrica, branca, ocidental, masculina e heterosexual.

No campo filosófico mais estrito emerge a figura de Michel Foucault (1926-1984), um pensador essencialmente desconfiado da racionalidade ocidental, com aquilo que José Guilherme Merchior identificou como um certo Nihilismo de Cátedra. Em 1979 lança o livro Microfísica do Poder, aonde defende a ideia da onipresença das dominações e coerções em qualquer interação humana, que está impossibilitada de se desvencilhar do interesse pessoal. Há uma denuncia da constante presença do desnivelamento hierárquico nas relações entre seres humanos, que estão imbricados numa luta constante de dominação. A impossibilidade de nivelamento desinteressado bloqueia o desenvolvimento mediado pela razão, que enxerga nas interações sociais o reino de uma disputa constante e ferrenha, aonde o diálogo é desacreditado. Há uma constante negação da racionalidade estrutural do ocidente, que na verdade se confunde com objetivos coloniais e neo coloniais de constante dominação, e uma, celebração da alteridade como geradora e impulsionadora de outras narrativas.

No campo da política, em 1979 Margareth Thatcher assume como primeira ministra britânica, prometendendo quebrar o mundo do trabalho inglês, que é visto como privilegiado e usurpador da carga tributária do país. Do outro lado do Atlântico, em 1980 Ronald Reagan assume a presidência dos EUA, desenvolvendo-se uma enorme desregulamentação do capital, particularmente em sua vertente financeira, que passa a atuar sem as amarras do Estado regulador. Começa então o desmonte do wellfare state ou estado de bem estar social, que foi a política que emergiu ao final do segundo pós guerra, que havia consolidado um horror a desregulamentação especulativa e liberal do Crack da Bolsa de Nova York em 1929. Um acontecimento histórico, que gerou a eleição de Hitler em 1933, naquele que era o país mais alfabetizado da Europa, desembocando na 2a Guerra Mundial. O esvaziamento industrial representou uma transformação que determinou seu declínio como principal empregador e fez emergir um contínuo de serviços, principalmente financeiros, que passam a ser o principal mobilizador da mão de obra. De uma hora para outra, as empresas de serviços financeiros e seguros passaram a representar no mundo anglo saxão, um terço do emprego disponível, enfraquecendo o movimento sindical em todo o mundo. O Estado é apontado como um estrutura burocrática e ineficiente, enquanto a Empresa privada é celebrada como dinâmica e eficiente Inicia-se uma forte hegemonia do capital financeiro no mundo, que dita a política do Estado, forçando sempre para a desregulamentação livre dos fluxos.
"Em suma, o neoliberalismo se tornou hegemônico como modalidade de discurso e passou a afetar tão amplamente os modos de pensamento que se incorporou às maneiras cotidianas de muitas pessoas interpretarem, viverem e compreenderem o mundo." HARVEY 2008 página 13


No campo mais geral do comportamento societário, em meados dos anos 1990 o advento da Internet e das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) lançam para a humanidade a possibilidade de acessar um amplo acervo de informações, que determinam uma imensa dispersão de energias, parecendo inviabilizar a possibilidade de construção de prioridades e consensos. A dispersão é enfatizada em todos os campos do cotidiano. Há estudos de instituições educacionais de que se amplia o Déficit de Atenção Continuada (DAC), uma síndrome identificada entre jovens, que não conseguem se concentrar de forma continuada num único assunto por um período superior a 15 minutos. É a cultura do zapping, impulsionada pela internet, em pesquisas que se mantém na superficialidade da busca ansiosa, com a perda da prática da leitura e do aprofundamento continuado num assunto. Por outro lado, a política se fragmenta numa infinidade de interesses que parecem irreconciliáveis, apontando para a impossibilidade da construção de consensos, uma vez que a troca de posicionamentos se acelera de uma maneira exponencial.

Também em meados dos anos 1990 o filósofo Habermas decreta num texto, Modernismo e Pós modernismo, no qual ironiza a tendência contemporânea de se utilizar do prefixo pós para caracterização do nosso tempo, dando a impressão dúbia de uma superação com continuidade. O texto de Habermas distingue a modernidade do modernismo, dizendo que a pretensão humana de desígnio do seu futuro, que as revoluções americana e francesa tinham expressado permanecia inalcançado. Habermas se mantém fiel a sua teoria da racionalidade comunicativa, que se contrapõe a uma racionalidade meramente instrumental, determinando que a razão não deve estar carregada de personalismos, mas construída a partir de consensos interpessoais. O filósofo da Escola de Frnakfurt se mantém fiel ao Iluminismo, abrindo uma nova perspectiva utópica, que não mais condena as gerações futuras a uma construção congelada e fixa, mas que celebra o processo de auto-construção e de auto-determinação, instalado pela modernidade.

No campo mais específico da arquitetura e do urbanismo, desde os anos 60, Kevin Linch e Aldo Rossi apontam para a processualidade da construção da cidade, reforçando conceitos como o da Legibilidade, e o da História. Eles reforçam a ideia da impessoalidade da produção da cidade, que apesar disso se remete sempre a um projeto coletivo, mediado seja pelos elementos primários de Rossi, ou pela capacidade de registro dos Mapas Mentais de Lynch. Por outro lado, o crítico italiano, Manfredo Tafuri, elabora a idéia do arquiteto como ideólogo do habitar, um formulador de conceitos e proposições que propõe o Bem Viver e possuem a capacidade de contaminar a sociedade para suas formas de operação e de prática. Sua crítica é envolta num pessimismo angustiante e numa melancolia, que não mais distingue no capitalismo tardio um espaço para a construção do ambiente humano, uma vez que os fluxos e a realização do lucro assumiram velocidades inimagináveis.

No campo mais específico da metodologia de plano ou projeto celebra se primeiro no mundo Anglo Saxão, o advocacing planning de Christopher Alexander, que publica livros como; Ensayo sobre la sínteses de la forma ou Uma Linguagem de Patterns, nos quais se articulam uma reflexão sobre a síntese projetual mais participativa. No Brasil, Carlos Nelson dos Santos lança o livro A cidade como jogo de cartas, no qual celebra uma certa neutralidade do desenho da grelha, que impulsiona sua apropriação por diferentes agentes no longo prazo da cidade. O Plano de Nova York de 1811 decreta uma imensa homogenização do território baseado na malha xadrez, os elementos aí celebrados são a rua, a quadra e o lote como unidades em torno dos quais o jogo da cidade é jogado. Num paradoxo, Carlos Nelsom dos Santos aponta que apesar desse inicio homogenizador a ilha de Manhattan apresenta hoje grande diversidade de tipologias, usos e contínuos diferenciados. O livro restabelece a possibilidade da construção utópica, que deixa de ser um objetivo fixo e congelado, mas a celebração de uma processualidade, que restabelece a necessidade da presença contínua da criatividade das futuras gerações. O jogo do plano e do projeto pressupõe agentes e atores, igualmente empoderados, que declaram suas intenções e negociam objetivos, a racionalidade abandona a subjetividade isolada e se aproxima da inter-subjetividade.

Em 2002, Kenneth Frampton lança o livro Studies on Tectonic Culture, no qual identifica a saturação do problema do símbolo e da representação no campo da arquitetura, apontando como saída o desenvolvimento da tectônica. O compromisso com o construído, e com sua ética particular. As obras de grandes arquitetos são analisadas a partir da escolha de diferenciados modos de construção, que recolocam a complexa relação entre custo e benefício no projeto.  Um pouco depois o arquiteto Rafael Moneo lança em 2008 lança, Inquietação Teórica e Estratégias Projetuais, no qual rejeita a adoção de um personalismo de linguagem por parte dos arquitetos, celebrando a idéia da reinvenção do arquiteto a cada novo projeto. A linguagem não é mais uma constante específica e particular, mas cada novo projeto representa uma oportunidade, que demanda do arquiteto uma leitura específica de cada lugar. No Brasil, Pedro Fiori Arantes lança o livro a Arquitetura na era digital-financeira, que faz uma reflexão importante sobre o ato de construir numa era sobre a hegemonia do capital financeiro, aonde a realização dos lucros assume grande rapidez e ansiedade. A partir de um livro de Frederic Jameson de 2001, A cultura do dinheiro, no qual há um ensaio; O Balão e o tijolo, arquitetura, idealismo e especulação imobiliária, Pedro Fiori Arantes em 2012 desenvolve a ideia de que o tempo de investimento inviabiliza a produção da arquitetura pela financeirização geral da sociedade. Há aqui a retomada de uma importante reflexão da arquitetura paulista dos anos sessenta e setenta de Sérgio Ferro e Rodrigo Lefévre, que pensavam os vínculos entre arquitetura e poder, arquitetura e relações de produção no canteiro de obras.

“É o momento em que a lógica do capital fictício assume o comando das forças produtivas reais, como previra Marx, em O Capital... , o tempo se projeta para frente com os juros comandando, de forma ditatorial, a expectativa de lucros futuros e as decisões do presente.” ARANTES 2012 pág116

Por outro lado, na França, a partir de uma releitura dos textos do jovem Marx, num jornal Renano (Reinish Zeitung), dois autores de formação sociológica; Pierre Dardot e Christhian Laval constroem uma alternativa ao módus operandi do neo liberalismo. sintetizado na ideia de Comum. Marx, nesses artigos, irá sobre a visão estrita do Direito demonstrar a ampliação da lógica do Estado Burguês da propriedade privada sobre áreas comuns como florestas, áreas de pastoreio na Alemanha do século XIX. A questão levantada por Marx se refere aos galhos, caídos das árvores pelo efeito dos ventos, e que eram catados e usados pelos pobres na produção do calor, e que esse costume/direito havia sido impedido pela ampliação do cercamento das áreas. O Comum, portanto é visto como um valor que o capitalismo em sua longa transição sente dificuldade em cercar e privatizar. Os mares, os gravetos caídos das árvores, os frutos silvestres, os oceanos, a Arquitetura e o Patrimônio construído pela humanidade, o Meio Ambiente são patrimônios comuns. Primeiro os dois autores escrevem, A nova razão do mundo, ensaio sobre a sociedade neoliberal (2016), e logo depois, O Comum, ensaio sobre a revolução do século XXI (2017). No primeiro livro, a história do Neo liberalismo, suas diferenças marcantes com relação ao liberalismo tradicional e suas estratégias de penetração no cotidiano humano, reconhecendo sua capacidade de persuasão e convencimento desde a década de 80. No segundo livro, uma forte auto crítica do comportamento de esquerda, que precisa voltar a problematizar sua relação com o Estado, apontando daí um claro declínio da sua capacidade de oferecer um projeto alternativo, tendo sido suplantada pela nova direita e pelo neo liberalismo. Para eles, a nova estratégia do confronto com o capitalismo vem da explicitação e aprofundamento do conceito de Comum.

Enfim, esse me parece num rápido apanhado, o debate das ideias mais importantes do nosso tempo, uma luta entre pensamentos e práticas que possuem de um lado a premissa da solidariedade, e de outro, a da competição. O mundo do plano e do projeto precisa escolher um lado...

BIBLIOGRAFIA:

ALEXANDER, Christopher - Una Linguage de patterns - Editora Gustavo Gilli Barcelona 1990

ALEXANDER, Christopher - Ensayo sore la sintesis de la forma - Editora Gustavo Gilli Barcelona 1966 

ARANTGES, Pedro Fiori - Arquitetura na era digital-financeira - Editora 34 Letras São Paulo 2012

BERMANN, Marshal - Tudo que é sólido desmancha no ar - Editora Companhia de Bolso São Paulo 2007

DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian - A nova razão do mundo, ensaio sobre a sociedade neo liberal - Editora Boitempo São Paulo 2016

DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian - Comum, ensaio sobre a revolução do século XXI- Editora Boitempo São Paulo 2017

FRAMPTON, Kenneth - Studies in Tectonic Culture: the poetics of construction in ninenteenth and twentieth century architecture - MIT Press John Cavas Chicago 2001

FUKUYAMA, Francis - O fim da História? - Editora Roccio Rio de Janeiro 1989

HARVEY, David - O neoliberalismo, história e implicações - Edições Loyola São Paulo 2008

JACOBS, Jane - Morte e Vida das Grandes cidades americanas - Editora Martins Fontes São Paulo 2011

JAMESON, Frederic - A cultura do Dinheiro, ensaios sobre a globalização - Editora Vozes Petrópolis 2001

LYOTARD, Francis - A condição pós Moderna - Editora José Olympio Rio de Janeiro 1986

MERCHIOR, José Guilherme - Foucault ou o Nihilismo de Cátedra - Editora Nova Fronteira Rio de Janeiro 1985

MONEO, Rafael -Inquietação Teórica e Estratégias Projetuais, na obra de oito arquitetos contemporâneos - Editora Cosac Naif São Paulo 2008

SANTOS, Carlos Nelson dos - A cidade como jogo de cartas - Editora Projeto 1986 Rio de Janeiro