segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Debate importante no âmbito do 21 CBA sobre a utopia, diversidade e autoritarismo na cidade contemporânea

Debate no Centro Cultural da URRGS; Pedro da Luz e Carlos Vainer
Nessa última sexta feira, dia 11 de outubro de 2019 houve um importante debate sobre a nossa condição contemporânea, no ambiente das cidades, entre eu e o professor doutor Carlos Vainer, no âmbito do 21o Congresso Brasileiro de Arquitetos (21CBA) em Porto Alegra, no Centro Cultural da UFRGS. O professor Carlos Vainer é professor do IPUR da UFRJ, e lidera junto com Henri Acserald o ETTERN (Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza). O debate recebeu um título algo niilista de;  "A cidade está morrendo, viva a cidade!", que aborda uma certa distopia do mundo atual, aonde a intolerância e uma certa homogeneização da diversidade do humano parece voltar a emergir, e ser celebrada. Há uma certa Crise da Cidade, instalada pela condição contemporânea, derivada da perda do seu sentido mais antigo definido pela ascensão da burguesia, que teve sua  própria auto definição como classe, profundamente vinculada a essa forma de implantação humana. Segundo Vainer, a burguesia abandonou a cidade a sua própria sorte, não se importando mais pelo seu embelezamento ou desenvolvimento, uma vez que se desterritorializou de forma definitiva, com o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. A ampliação da violência, da intolerância, e da insegurança no seu território fizeram a cidade perder o status de definidora do sentido da história da humanidade, fazendo-a vagar sem direção aparente. A descrença no plano e no projeto da cidade foi determinada pela ampliação da mercantilização geral, aonde se estabelece um balcão de negócios, que negocia e impõe valor a tudo.

Mas, o que seria a cidade? Carlos Vainer se utiliza da definição da Escola de Sociologia de Chicago, que a definiu como o lugar do encontro e do diverso, dotado de uma certa densidade, o lugar da variedade do ser humano. A cidade de Chicago, no começo do século XX era o lócus de uma concentração de pessoas, jamais vista na história humana, aonde 80%  eram estrangeiros, que migraram para ela de diferentes partes do mundo. A citação de WIRTH 1973, membro dessa escola, utilizado por Vainer menciona a sua principal característica baseada na; "dessemelhança dos seus concidadãos, num aglomerado denso e diverso". A menção a metáfora da fundação de Roma, a partir da lôba que alimenta os irmãos Rômulo e Remo, que definem uma cava aonde as diferentes nacionalidades, que se reúnem para formar a cidade e depositam os torrões de suas terras natais de aonde vieram, reunindo diferentes identidades, que se desfazem no solo de Roma. A perda das identidades específicas dos diferenciados clãs e famílias se desfaz no território da grande cidade, que a partir da mistura das terras pátrias originais permite a convivência de diferentes costumes e crenças. A grande cidade irá permitir a liberdade de comportamentos e crenças aos mais diversos agentes, possibilitando a relativização e desnaturalização dos nossos próprios, gerando o "citadino tolerante."

Por outro lado, algumas cidades da Idade Média europeia possuíam códigos que tolhiam a servidão, determinando que se um escravo passasse mais de 24 horas em seu solo, ele se tornaria livre, e capaz de buscar seu sustento pelo seu trabalho. A revolução burguesa, intrinsecamente conectada ao território da cidade busca a extinção da servidão, para que todos se transformassem em trabalhadores e consumidores no seu mercado. Algumas aglomerações na Europa Central, notadamente na atual Alemanha possuíam na portada de suas muralhas a inscrição "Die Stadtluft macht frei nacht Jahr und Tag", literalmente, "O ar da cidade liberta depois de um ano ou um dia". Mas as grandes cidades industriais de meados do século XIX e começo do século XX eram estruturas que haviam superado a própria noção de uma comunidade única e íntegra da cidade medieval, se desintegrando numa plêiade de grupos. Essa condição trará para a existência nas grandes cidades, uma certa indiferença e anonimato hogeneizador, que potencializa a liberdade de comportamento livre e independente, mas também gera um clima geral de indiferença. Esse cosmopolitismo do confronto de uma diversidade incrível de individualidades e de grupos de práticas diferenciadas, gera aquilo que é denominado de pluriversal. Um cosmopolitismo não nivelador e supressor das diferenças e das diversidades, mas enfatizador dessas identidades, que representam uma série de valores que enraízam e dão sentido a diversas práticas. Num mundo preso pelos discursos identitários, como o nosso contemporâneo, começa a emergir uma perda da solidariedade entre diferentes, que passa a se restringir apenas aos iguais.

Por último, a questão da utopia foi levantada pelo professor Carlos Vainer, e sua gestação no seio das próprias cidades, a partir de uma clara referência da autora Françoise Choay, que mencionou os urbanistas utópicos, em seu livro Urbanismo, como antecessores dos urbanistas de fato. Também a partir do autor neokantiano CASSIRER, Vainer reforça a ideia de que o homem possui um passado, e por isso, problematiza seu futuro, pensando que ele e as futuras gerações pensam numa existência melhor e diferenciada. Por isso, a formulação utópica envolve a construção de um outro lugar, ou de um não lugar, aonde emerge a construção de expectativas, muitas vezes abstratas e não compartilhadas por todos. Daí surge a emergência de uma vertente autoritária no discurso utópico, a partir desse caráter subjetivo e abstrato das suas formulações, que invariavelmente envolveram desvios autoritários e colonizadores. Pois, foram formulações que não forjaram uma didática para as massas, se restringindo a uma vanguarda isolada, que de libertadora se transforma em opressora, pelo seu próprio isolamento. A distopia, atualmente instalada no ambiente das cidades brasileiras é um fato, aonde cada vez mais emerge uma grande intolerância com as diversidades de posicionamentos ideológicos e comportamentais.

A partir desses posicionamentos, meu papel ali como participante daquela mesa era de polemizar  e problematizar os posicionamentos do professor Carlos Vainer, comecei por relativizar as propostas excessivamente caustico, paralisador das ações, afirmando que o ofício dos arquitetos e urbanistas é intrinsecamente propositivo, sem que isso exclua a dimensão crítica. Citando TAFURI 1981 reforcei suas considerações a respeito do plano e do projeto como ações críticas/operativas, nas quais a dimensão subvertora do status quo se combina com operação, se reforçando mutuamente. Essa dimensão, crítica e operativa do ofício me remeteu também as considerações de GRAMSCI, um marxista também italiano como Tafuri, com uma origem muito particular, na Ilha da Sardenha. Uma área periférica ao desenvolvimento econômico italiano mais virtuoso, concentrado no norte industrializado, no entorno das cidades de Turim e Milão, enquanto a região do sul e a Ilha da Sardenha permaneciam agrárias e arcaicas. Para mim Gramsci caracterizou o marxismo como a filosofia da práxis, o que traz a dimensão da crítica para uma aproximação com a operação, similar a colocada por Manfredo Tafuri.

Além disso, sua condição de subalterno com relação ao desenvolvimento capitalista hegemônico da própria Itália, o que confere ao seu pensamento uma imbricação espacial e hierárquica, que envolve os conceitos de centro e periferia como estruturantes. Gramsci é como um nordestino na cidade de São Paulo, porta voz de um discurso da subalternidade, identificando aí uma potência de rebelião e de transformação, a partir da não aceitação de sua própria condição. Essa condição, para mim, está presente nos movimentos sociais urbanos contemporâneos, das cidades brasileiras e outras, nas ocupações de edificações nos centros das cidades, nas favelas e nas populações precarizadas e abandonadas em situação de rua. Uma resistência capaz de gerar um outro programa de inclusão a partir da dimensão concreta do espaço, que afinal acaba sendo a dimensão mais concreta da própria exclusão. Essa potência precisa ser explorada pelo plano e pelo projeto de forma a gerar um contra projeto para o desenvolvimento econômico-espacial do país, visando incluir mais extratos sociais de nossa população.

Na sequência houveram uma série de questionamentos e provocações muito adequados, que colocaram um eixo estruturante básico e preciso; como mudar o desenvolvimento econômico espacial do nosso país? Um contra projeto é possível?

BIBLIOGRAFIA:

CASSIRER, Ernst - A Filosofia do Iluminismo - Editora Unicamp São Paulo 1997

FREIRE, Paulo – A pedagogia do oprimido – Editora Paz e Terra Rio de Janeiro 1970
GRAMSCI, Antonio - Concepção dialética da história - editora Civilização Brasileira Rio de Janeiro 1966

TAFURI, Manfredo – Teorias e História da Arquitetura – Editora Presencial Lisboa 1981

WIRTH, Louis - Life in the Cities - Editora Chicago School Papers Chicago 1973

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A experiência do Workshop Habitar o Centro com a AIA no IAB-RJ

Mapa Síntese da proposta determinando as principais ações no território para
sua requalificação
Durante os dias de 26, 27. 28. 29 e 30 de setembro de 2019, um grupo de arquitetos dos EUA e do Brasil, bem como estudantes do Sul da Flórida e estudantes de diversas escolas de arquitetura da metrópole do Rio de Janeiro se reuniram para pensar o tema do Habitar o Centro no contexto da Zona Portuária da cidade. Os arquitetos são filiados ao American Instiut of Architects (AIA), uma entidade da sociedade civil, similar ao nosso IAB, que reúne profissionais interessados em divulgar a importância e a necessidade da elaboração de planos e projetos em sintonia com amplos setores da população. O programa de assessoria do AIA para diferenciados solicitantes possui o nome de Regional / Urban Design Assistance Team Program (R/UDAT) e também recebe a designação de Design by Comunities. As ações se inserem na tradição anglo saxônica do advocacing planning, ou, planejamento participativo, uma forma de desenvolvimento de projeto que envolve a escuta de setores populares e usuários em geral. O interessante na iniciativa é o reconhecimento do projeto e do plano, como instrumentos de aprofundamento do debate do que pretendemos como desejo, seja uma instituição ou edificação, um bairro, ou uma cidade. No caso, desenvolvido na Zona Portuária do Rio de Janeiro, na Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) do Porto Maravilha, as solicitações e contatos se iniciaram com os EUA há dois anos, quando no âmbito da Comissão de Relações Internacionais (CRI) do CAU-BR foi sugerido esse recorte espacial.

Boulevard Luiz Paulo Conde
Portanto, as determinações espaciais do objeto a ser abordado são de suma importância para seu próprio sucesso, uma vez que deverão ser analisadas e apropriadas por instituições e organizações sociais. O desenho e o projeto passam a ser instrumentos de provocação e mobilização, que fomentam o debate sobre o vir-a-ser da população na área, procurando seu engajamento. A forma é particularmente interessante no contexto da cidade brasileira, uma vez que sua tradicional maneira de reprodução sempre envolveu a construção de um projeto que excluiu parcelas significativas de nossa população, mantendo o direito a urbanidade apenas para poucos. Portanto, o desafio envolve a elaboração de um contra projeto, capaz de sinalizar para o conjunto da população que ninguém deverá ser excluído, procurando vencer as vulnerabilidades e precariedades econômicas presentes na população alvo. Há aqui um profundo questionamento sobre as formas inerciais de reprodução do desenvolvimento econômico brasileiro, que sempre mirou em parâmetros econômicos desterritorializados, não olhando para as profundas diferenças sociais invariavelmente segmentadas no espaço.

Galpão do Cobra, intensificação do uso habitacional, com a manutenção
das suas grandes pinturas
Na verdade, as ações de plano e projeto sempre foram desdenhadas na cultura do país, que parece permanecer acreditando na virtude da improvisação e do espontaneismo, como única atitude autêntica capaz de promover autenticidade. Práticas que envolvem o levantamento de hipóteses, checagem de sua capacidade de inclusão de amplas parcelas da população, gerando uma sinergia de expectativas positivas, capazes de gerar coesão social, aonde ninguém é deixado para trás são as pretensões problematizadas pela área,e, pelo próprio desenvolvimento do país.. Como, a experiência do workshop Habitar o Centro se trata de uma imersão intensa, diante de uma área concreta da cidade, com grupos de interesse diferenciados, com desejos diversos, e compreensões variadas o trabalho é sempre continuado e concentrado, iniciando pela percepção e assimilação da área. Seguido pelas proposições preliminares, que são submetidas ao conjunto da população interessada, em forma de minuta e croquis (ver o desenho síntese). Terminando com retorno de proposições mais estruturadas, que apresentam uma clara visão estratégica, aonde o tempo e o impacto de cada investimento é avaliado a partir de sua capacidade de gerar sinergia entre moradores, pequenos investidores e novos habitantes.  ao longo do tempo. Mas na verdade, o processo é contínuo e deve ser parametrizado por objetivos claros, de fácil apreensão por todos, de forma que a medição do plano e do projeto seja socialmente compartilhada.

Do ponto de vista do IAB-RJ e das entidades de arquitetura e urbanismo que participaram desse esforço nos parece interessante implantar metodologia de assessoramento similar, que rompesse com a tradição instalada no país de demanda exclusiva por parte dos entes governamentais e empresariais, pulverizando entre diferenciados atores a possibilidade de pensar um contra projeto.


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

As aulas de Arquitetura, Cidade, Filosofia no IAB-RJ

A Escola de Atenas quadro de Rafael Sanzio
A experiência das aulas de Arquitetura, cidade, filosofia ministradas na sede do IAB-RJ nas primeiras semanas de setembro de 2019, se constituíram numa experiência notável envolvendo o pensamento de oito filósofos, desde a antiguidade clássica grega até a contemporaneidade. A eleição dos oito filósofos, que foram; a)Platão (*Atenas 428/427 A.C. + Atenas 348/347 A.C.), b)Santo Agostinho (*Tagaste 354 D.C + Hipona 430 D.C.), c)Adam Smith (*Kirckcald Escócia 1723 + Edimburgo 1790). d)Imanuel Kant (*Konigsberg 1724 + Konigsberg 1804), e)Georg Wilhem Friedrich Hegel (*Stuttgard 1770 + Berlim 1831), f)Antonio Gramsci (*Ales 1891, + Roma 1937), g)Michel Foucault (Poitier 1926, + Paris 1984), g)Jürgen Habermas( * Dusseldorf 1929, ...). Esse quadro geral envolvia uma clara filiação ao pensamento ocidental, cujo o centro é a Europa e a sua eleição se baseava numa vontade de mapear nossa principal estrutura de pensamento no Brasil. A par disso, os principais autores que mapearam o pensamento dos oito filósofos eram brasileiros, envolvendo além dos próprios, autores como Mauricio Puls, José Guilherme Merquior, Leandro Konder e textos meus publicados aqui nesse blog. Na aula sobre Antonio Gramsci me utilizei principalmente da biografia do filósofo quando jovem, escrita por Leonardo Rapone, além do Dicionário Gramsciano, organizado por Guido Liguori e Pasquale Voza. É preciso também reconhecer, que havia nessa seleção alguma conveniência, pois alguns desses foram meus companheiros na minha tese de doutorado defendida no âmbito do PROURB na FAU-UFRJ em 2007, Projeto, Ideologia e Hegemonia; em busca de uma conceituação operativa para a cidade brasileira como; Kant, Gramsci, Foucault e Habermas. Os outros quatros foram selecionados por seu tempo; a antiguidade clássica; Platão, o medievo Santo Agostinho e o otimismo da primeira industrialização iluminista; Adam Smith e Hegel.


Na primeira aula procurei contextualizar para os alunos a situação do nosso campo, a arquitetura e o urbanismo, nesse começo do século XXI procurando limitar nosso ofício à experiência do projeto e do plano, como ações que pretendem compreender e criticar nossa condição contemporânea. A premissa aqui utilizada é que projetar e planejar envolvem uma dimensão além da resolução de problemas, mas que se envolve com a "crítica operativa do real". Feliz construção de Manfredo Tafuri no livro Teorias e História da Arquitetura, que aproxima a crítica da projetação na medida que seleciona objetos arquitetônicos, e descarta outros, que provocam a ampliação da convivência humana.  Desde o Iluminismo, o debate sobre as profissões, tanto sobre a arquitetura quanto sobre o urbanismo, pretende construir a figura do arquiteto como um ideólogo social, capaz de organizar de forma persuasiva a cidade e o viver. Mais contemporaneamente o arquiteto, Manfredo Tafuri dedicou-se ao termo, qualificando muitas vezes a atuação dos profissionais como uma ordenação ideológica, que aponta para um esforço de convencimento e cooptação molecular das idéias, de modo que estas ganhem permeabilidade social ou aceitação geral.


"O que habitualmente se entende por crítica operativa é uma análise da arquitetura (ou das artes em geral) que tinha como objetivo não um levantamento abstrato, mas a projetação de uma orientação poética precisa, antecipada em suas estruturas e resultante de análises históricas programaticamente acabadas e deformadas... Pode ainda acrescentar-se que esse tipo de crítica, antecipando as vias da ação, força a história; força a história passada, dado que, ao investi-la de uma forte carga ideológica, não está disposta a aceitar os fracassos e as dispersões de que a história está impregnada...põe o crítico na situação de quem, depois de ter precisado o porquê dessas antíteses, realiza ele próprio uma escolha que, essencialmente é uma aposta sobre o futuro." TAFURI 1981 página177

Portanto, o ato do plano ou do projeto é entendido como uma forma de compreender o mundo, uma maneira que não apenas descreve como é sua situação atual, mas oferece uma visualização de como ele pode vir-a-ser no futuro. Uma "aposta no futuro", como diz TAFURI 1981. Há aqui um risco positivo, que seleciona da história, não estando "disposta a aceitar os fracassos e dispersões" de que o passado está cheio.  Uma atividade de prognóstico, mas do que de diagnóstico, um esforço de convencimento, que dadas as condições atuais simbólicas, tecnológicas e de disponibilidade de recursos elege uma solução, que desfruta de adequação total, ou pelo menos aceita pela maioria.. A união dos termos crítica e operação nos indica que o esforço será sempre vinculado à indução, mais que a mera dedução. E, mais "antecipando as vias da ação, força a história passada" dando-lhe um caráter de evolução positiva, que a humanidade na contemporaneidade enxerga com profunda desconfiança.

Conceituada essa questão passou-se a definição de dois termos caros às ciências sociais; a ideologia e a hegemonia, que estarão presentes ao longo do curso avaliando o desenvolvimento histórico mais geral e a evolução da ideia de plano e projeto no mundo contemporâneo. A ideologia não é mais definida de forma negativa, como foi por Marx e Engels na Ideologia Alemã, "uma consciência invertida do real" ou uma "falsa consciência". Mas de forma positiva, ou de que é impossível se furtar da presença da ideologia, pois diante do reconhecimento da complexidade da totalidade do real e da parcialidade de nossas vivências, experiência e discurso são sempre parciais e interessados, sobre essa mesma totalidade. Como um ato de reconhecimento da imparcialidade do nosso saber, a ideologia se torna uma presença inescapável. Mas, reconhece-se nesse quadro a presença de ideologias progressistas, que pretendem a transformação do mundo, e conservadoras, que investem na manutenção do status quo atual. "Cada camada social tem sua consciência e sua cultura, isto é sua ideologia, essa portanto não é apenas estreitamente política, mas identifica um grupo ou camada social." LIGUORI e VAZA 2017 página 407 Por outro lado, o termo hegemonia dinamiza o conceito de ideologia, mostrando-nos que determinadas concepções de mundo conquistaram o metabolismo social, passando a governar nossa forma de operar. De forma sucinta os termos são apresentados na aula da seguinte maneira;


Ideologia: Reconhecimento da existência da totalidade do real e consciência da parcialidade do nosso conhecimento e discurso sobre esta mesma totalidade.
Hegemonia: Dinamização do conceito de Ideologia, sendo a capacidade da ideologia de conquistar o metabolismo social.


A partir daí procurei caracterizar a dinâmica do nosso mundo contemporâneo, como um embate ideológico entre uma mentalidade concorrencial, que reforça um estado de luta individual de todos contra todos, contraposto a outro aonde a solidariedade entre agentes abre a possibilidade de construção de um comum coletivo.  O neoliberalismo da imposição da concorrência generalizada, contraposto a solidariedade que luta por maior equidade no gênero humano. A própria cidade e a construção de seu patrimônio construído é entendido como a expressão desses esforços comuns, que muito além de qualquer personalismo investem fortemente na ideia de coletividade específica. Ideologicamente a cidade é única e caracterizada como o encontro da diferença da multiplicidade didática e formadora, potencializadora de um imenso desenvolvimento humano a partir da convivência com o outro.


Em 2030, seis entre dez pessoas viverão em cidades. Hoje em dia 1 bilhão de pessoas vivem em favelas ou em loteamentos irregulares. Em 2030 serão 2 bilhões de pessoas na informalidade. E, em 2050, 3 bilhões de pessoas estarão na informalidade. A partir desses dados procurei estabelecer, que  há um desenvolvimento explosivo da população urbana no mundo, um processo que se acelera de forma definitiva com a industrialização, iniciada na Inglaterra no século XVIII. Esse processo irá determinar pela primeira vez na história da humanidade uma presença maior de pessoas vivendo em cidades, do que no campo. O projeto da modernidade, desde o Renascimento apontava para a pretensão de controle do desenvolvimento, implantando a autodeterminação consciente das comunidades. O mundo ocidental, desde a sua fundação na antiguidade clássica greco-romana buscava estabelecer o compartilhamento de responsabilidades entre os cidadãos, para promoção de um futuro comum e melhor.

Nesse ponto, na nossa segunda aula tentei caracterizar de forma mais breve possível os dois filósofos temporalmente mais distantes de nossa contemporaneidade; Platão e Santo Agostinho. O primeiro foi vinculado as cidades estado da Grécia antiga, particularmente sua comunidade a Atenas logo após a era de ouro de Péricles, que desenvolveu entre seus cidadãos livres a ideia da democracia ateniense. A reflexão de Platão está profundamente marcada pela imposição do suicídio de Sócrates pela assembleia (eclesia) ateniense, que não compreendeu a complexidade de suas proposições, levando a se refugiar num idealismo que distingue "o que é", do que "o que deveria ser". Depois Santo Agostinho é rapidamente caracterizado como o filósofo da emergência do cristianismo no ocidente, que já vivencia o declínio de Roma, mas paradoxalmente vive a ascensão da cultura e lingua latina como demonstração de erudição e o declínio paulatino do grego. O cristianismo, particularmente romano é também caracterizado como uma especificidade ocidental, que dissemina a ideia universal de igualdade entre todos os seres humanos. Uma ideia absolutamente inusitada e niveladora da humanidade, que conhece uma nova ética, aonde todos podem atingir a salvação.

Na terceira aula abordamos Adam Smith e Imanuel Kant, filósofos que partilham grande otimismo em função das transformações, descobertas e da ampliação da racionalidade científica, que os séculos XVIII e XIX representam na história humana. Adam Smith é mais um economista que um filósofo, mas sua inclusão se justifica por sua inserção na cidade de Glasgow entre 1723 e 1790, que segundo Peter Hall será a representação da "Conquista dos Oceanos" num período mais alargado de 1770 a 1890. David Hume, seu companheiro na Universidade de Glasgow talvez fosse mais adequado, como representante do empirismo inglês. Mas, a otimista leitura de Smith do nivelamento dos mercados mostra-nos uma certa infância ingênua do sistema capitalista, que ainda não percebia sua tendência recorrente de formar monopólios de proteção contra o lucro declinante, justificando sua eleição. Kant, e a filosofia alemã mereceram uma especial atenção. O cosmopolitismo kantiano é destacado, como uma típica atitude do iluminismo alemão, que carrega um verdadeiro paradoxo, afinal Kant nunca saiu de sua cidade natal Konigsberg, na Prússia Oriental. Uma cidade que hoje é Kaliningrado na Russia, que abrigou em sua provinciana atmosfera, o cosmopolitismo do sonho de paz de uma humanidade unificada por suas diferenças, na filosofia de Kant.

Na quarta aula os dois filósofos presentes são Hegel e Gramsci, aonde ainda se percebe a presença de um otimismo teleológico contagiante no futuro da humanidade, afirmativo e quase enlouquecido do primeiro, enquanto no segundo já indicando sinais de melancolia e angústia. Hegel é a expressão de uma confiança desmedida da razão realizada num espírito que só se aprimora, hipótese e antítese resolvem seus embates contraditórios numa síntese sempre melhor e aperfeiçoada. Razão tão prepotente, que desdenha da arte, pois inevitavelmente ligada à mágica,  à religião e ao mistério, que não são mais admitidos mais, sendo suplantados pela compreensão da totalidade, num movimento do espírito do tempo que só se aprimora. A arrogância da razão de Hegel talvez esteja mais claramente expressa em sua construção algo peremptória e definitiva; “O que é racional é real e o que é real é racional.” Gramsci, o genial sardo, apesar de manter a vinculação dos marxistas ao hegelianismo terá uma premissa estruturante da sua juventude ligada aos estudos de linguística. A glotologia, que estuda a evolução molecular das línguas, apontou desde cedo para o filósofo italiano, que o processo revolucionário, só fará sentido quando capilarizado molecularmente no comportamento cotidiano das massas. As noções de grande intelectual, intelectual orgânico apontam para uma das mais criativas relações entre fazer e pensar, na filosofia ocidental, inclusive no que se refere a nossa capacidade de construir o real, e de modifica-lo. Apesar das imensas derrotas, tanto no plano nacional da Itália, com sua prisão nos cárceres de Mussolini, como também no plano internacional, com a Revolução Russa, que começava a se desvirtuar em autoritarismo totalitário, com a emergência de Stálin, Gramsci mantém uma atitude otimista inusitada para sua vivência de perdas importantes. Os conceitos de ideologia e hegemonia são destacados, mostrando que sua diferenciação identitária com a Sardenha agrária e atrasada, e o contexto do Piemonte, industrial e moderno também irá marcar seu pensamento numa dialética entre centro e subalternidade absolutamente genial e operativo. As distinções entre periferia, semi periferia e centro no sistema capitalista será uma de suas mais brilhantes síntese da filosofia contemporânea.


Na quinta aula, Michel Foucault e Jürgen Habermas, dois pensadores contemporâneos atravessados pela presença das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, e o Holocausto na Alemanha Nazista, uma fábrica macábra da morte. O niilismo e a melancolia tomam de assalto o pensamento dos dois filósofos, desencantando o mundo das promessas do modernismo, que prometiam emancipar a humanidade, acabaram por gerar mais opressão. Foucault se isola num certo "niilismo de cátedra", na genial afirmação de José Guilherme Merchior, condenando de forma indiferenciada a racionalidade como produtora de dominação, A presença do poder em todas as partes, significa sua dispersão no cotidiano humano de forma dissimulada, determinando a presença de uma microfísica da dominação nas relações humanas, mais banais. A impossibilidade de existência de interação desinteressada entre seres humanos é constatada, reanimalizando a espécie humana, que estaria condicionada por impulsos de irracionalidade. A matriz nietzcheana desse pensamento parece radicalizada pela ausência do Super Homem, dominações e coerções se generalizam em todas as direções em função da presença do discurso.

“Falar é antes de tudo deter o poder de falar. Ou ainda, o exercício do poder assegura o domínio da palavra: só os senhores podem falar.” Foucault citado em PULS 2006 página560

Habermas irá restituir a necessidade da razão, como única forma de entendimento possível para a humanidade, distinguido uma racionalidade instrumental, da racionalidade intersubjetiva, e reafirmando o projeto da modernidade. A partir de uma distinção importante entre modernismo e modernidade, sendo o primeiro uma sensibilidade de época dominada por uma crença cega na técnica, enquanto o segundo, seria a pretensão humana de governar seu próprio vir-a-ser. As revoluções americana e francesa com a ampliação da democracia e do republicanismo determinaram a pretensão universal de autonomia para todos. Na verdade, a pretensão de autogoverno e autodeterminação retrocedem a antiguidade clássica e ao renascimento italiano, aonde pela primeira vez se manifestam o desejo pela autodeterminação das comunidades.  Para HABERMAS, os sintomas da evolução social, sejam evolutivos ou regressivos, precisam ser impulsionados em seu sentido progressista, o que significa a ampliação de formas de vida mais democráticas, incluidoras e emancipadoras. Dentro das quais a linguagem, o trabalho e a comunicação são especificidades humanas, que impulsionam aquilo que o filósofo alemão considera como fundamental na vida social, a capacidade de aprendizagem. Essa na verdade, não possui um sentido teleológico, mas necessita e demanda da humanidade uma constante reflexão, viabilizada pelo conflito e o embate de visões dentro da ação comunicativa.

Esse portanto, o quadro geral das aulas, que buscaram mapear as reflexões e determinações no que se refere a construção do ambiente humano no nosso planeta desses oito pensadores, pensando no campo do nosso ofício, a arquitetura, a cidade e a região. 


BIBLIOGRAFIA:


KONDER, Leandro - Os marxistas e a arte - Expressão Popular São Paulo 2012

KONDER, Leandro - A questão da ideologia - Companhia das Letras São Paulo 2002

LIGUORI, Guido e VOZA, Pasquale - Dicionário Gramsciano - Editora Boitrempo São Paulo 2017

MERQUIOR, José Guilherme - Michel Foucault, ou o niilismo de cátedra - Editora Nova Fronteira Rio de Janeiro 1985

MERQUIOR, José Guilherme - O marxismo ocidental - Editora Nova Fronteira Rio de Janeiro 1987

PULS, Mauricio - Arquitetura e filosofia - Editora Anna Blume São Paulo 2006

RAPONE, Leonardo - O jovem Gramsci, cinco anos que parecem séculos 1914-1919 - Editora Contraponto Rio de Janeiro 2014

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A presença da Ideologia

Desenho do grupo Archi5 arquitetos associados para a exposição Penso 
Cidade em 2003, para o adensamento da Ilha do Fundão
O livro de Carlos Guilherme Mota, A Ideologia da Cultura Brasileira (1933 a 1977) foi fundamental para a construção de minha tese de doutorado em 2007, Projeto, ideologia e hegemonia; em busca de uma conceituação operativa para a cidade brasileira no âmbito do PROURB da FAU-UFRJ. Continuo considerando que o alinhamento ideológico é fundamental de ser explicitado e debatido, pois não há possibilidade de escape dele para os intelectuais contemporâneos, em qualquer área do pensamento e da prática. Hoje o termo ideológico tende a ser substituído por "discurso" ou "lugar de fala", querendo denotar a vivência por trás da construção teórica que apresenta uma construção perpassada por parcialidades e incompletudes. A dedicação e a pesquisa mais aprofundada em determinados aspectos, ou mesmo a vivência acabam condicionando a impossibilidade de superação das parcialidades ideológicas, que eram e continuam sendo premissas básicas de qualquer pensamento ou reflexão. A reflexão de qualquer nível, profundidade ou área está condicionada por essas premissas, afinal a totalidade que opera de forma efeftiva foge aos nossos campos e especialidades. Na verdade, na minha tese de doutorado entendia o projeto e o plano como discursos persuasivos e convincentes, que apontavam para o convencimento do outro para serem realizados, portanto carregados pelo ordenamento ideológico. O plano e o projeto eram e ainda são entendidos como uma forma de abordagem do real, estruturados pela análise do existente, mas investindo fortemente no vir-a-ser. A capacidade de convencimento era fundamental para materialização do plano ou do projeto, uma vez que essas ações pré figuravam uma série de desejos e expectativas de diversos agentes e atores. Tinham, portanto a capacidade de explicitar conflitos e interesses divergentes, o consenso provisório e a acomodação de visões pelo desenho não os extinguia, mas podiam ser vistos como etapas de superação sempre parciais. A cidade, como lócus da diversidade, e do choque de interesses era celebrada como estrutura concreta e objetiva, que denunciava o plano e o projeto da sociedade brasileira de exclusão de parcelas substanciais de sua população.

"Ainda no plano do vocabulário, não parece difícil visualizar o circuito percorrido de 1930 a 1974 no plano das produções culturais, indicando a existência de uma sucessão de momentos nos quais as noções como 'civilização brasileira', 'cultura brasileira', 'cultura nacional', 'cultura popular', 'cultura de massa' marcariam os horizontes ideológicos da intelectualidade progressista - incrustada ela mesma, na camada dominante" MOTA 1994 página287

Havia aqui um etapismo redutor que lia a cultura brasileira, ou melhor sua construção intelectual como estruturada a partir de grandes intérpretes, que a leram através de conceitos como; "democracia racial", "história incruenta", "homem cordial", "caráter nacional", "cultura popular", "cultura de massas". Mas o argumento era convincente, chegando mesmo a afirmar que essa mobilização da intelectualidade brasileira provinha de um conceito autofágico e de raiz estamental, que desembocava na afirmação do próprio MOTA 1994, página287; "não existe, nesse sentido, uma Cultura Brasileira no plano ontológico, mas sim na esfera das formações ideológicas de segmentos altamente elitizados..." Sem dúvida, ecoava aqui a interpretação de Raimundo Faoro, da fraqueza de nossa sociedade civil, que sempre permitiu o pensar mais crítico, apenas para o estamento do servidor público. Um esforço que a geração mais radical da década de sessenta e setenta procurava superar com os Centros Populares de Cultura (CPCs) e outras aproximações com a massificação como as de Herzog ou de Vianninha, que aliás recorta de forma precisa o problema;

"Reduzir uma sociedade de 100 milhões de pessoas a um mercado de 25 milhões exige um processo cultural muito intenso e sofisticado. É preciso embrutecer essa sociedade de uma forma que só se consegue com o refinamento dos meios de comunicação, dos meios de publicidade, com um certo paisagismo urbano que disfarça a favela, que esconde as coisas." Oduvaldo Vianna Filho, citado em MOTA 1994 página 317

É engraçado como no mapeamento geral, naquela ocasião, que tinha então de Carlos Guilherme da Mota em minhas anotações e antes de sua leitura, apontavam para um enquadramento na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o que significava a filiação a segunda inteligência universitária paulista, que tinha uma linha que partia de Fernando Azevedo e chegava a Florestan Fernandes para desembocar em figuras como Otavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, e o próprio Carlos Guilherme da Mota. Nada mais esquemático e redutor, e pior, pouco representativo da real complexidade do livro de MOTA 1994, que só por ter a menção na origem aos dois pensadores paulistas já dava a real dimensão complexa do trabalho. Na verdade, naquela época a USP representava para mim uma escola de origem agrário-elitista-oligárquica, que se transformara numa radicalidade urbano-burguesa-paternalista, sem uma dimensão popular ou de massas. Parecia-me então, que figuras, que estão no livro de MOTA 1994, e que fogem a essa instituição como Gilberto Freire, Raymundo Faoro e Ferreira Gular não eram bem avaliados, enquanto personalidades uspianas como; Fernando Azevedo, Florestan Fernandes, Dante Moreira Leite e Roberto Schwarz eram. Tudo não passava de uma visão sectária e superficial, que foram pelos ares principalmente com a leitura de Florestan Fernandes e Francisco Oliveira, e também Otavio Ianni e o próprio Carlos Guilherme Mota. Naquela ocasião como agora, compartilhava com MOTA 1994 a ideia de que o elitismo exacerbado da sociedade brasileira a condenava a repetir um pedantismo isolacionista, que as reformas dos anos sessenta, radicalizadas pelo fechamento do regime procuravam superar. Parecia então, que o fechamento do regime ou sua incursão por caminhos autoritários era inadmissível principalmente após ao ocorrido com Herzog nas celas do DOI-CODI em São Paulo.

"Na noção de organização social, por exemplo, ao ser retirado seu potencial crítico, o privilégio, o desemprego sistemático, a exclusão cultural e a política passam a ser dados estáveis e neutros nas interpretações do Brasil, quando não omitidos." MOTA 1994 página 288

Disso decorre o imenso retrocesso que sofremos com a última eleição, quando parece que a tese da ausência de autoritarismo levou nossa sociedade a esquecer sua memória mais recente, esquecendo-se das atrocidades da Ditadura de 1964. Nesse campo, a cidade e sua arquitetura eram a materialização física e mais concreta dessa contínua exclusão e da dimensão continuada do autoritarismo brasileiro, nossa incapacidade de universalizar as infraestruturas urbanas para toda nossa população, determinava uma espacialidade didática, aonde o elitismo e a segregação eram um fato. Basta comparar São Gonçalo e Ipanema, ou os Jardins e a Zona Leste paulistana. No meu esquema inicial e final, também no campo da arquitetura e da cidade, os ideólogos foram; Lucio Costa, Vilanova Artigas e Carlos Nelson dos Santos, a partir desse último assumia que a proximidade do tempo me impedia de selecionar pensadores com efetiva permeabilidade na cultura geral da arquitetura. As escolhas recairam em Elvan Silva e Carlos Antonio Brandão, dois engajados na academia brasileira, que desenvolveram reflexões importantes para o método do plano e do projeto, dentro da minha perspectiva. Minha expectativa então, no começo dos anos 2000 era sublinhar a importância do plano e do projeto, como uma prática antecipadora que pensa antes de fazer, uma constatação crítica da forma de operar da sociedade brasileira, que de forma ansiosa realiza sem pensar de forma recorrente. Basta pensar nas práticas arraigadas no Estado Brasileiro, que pensa na obra como uma meta independente A partir da leitura de MOTA 1994 percebi que o enquadramento ideológico não deveria reduzir a superficialidade o pensamento e a reflexão de alguns pensadores notáveis, que se debruçaram sobre a realidade brasileira, uma dinâmica por si só, tão complexa e fluída, que ainda hoje é difícil de ser mapeada. Questões como a escravidão, o imperialismo, a dependência, a subalternidade, o autoritarismo que permanecem em nosso horizonte como obstáculos insuperáveis, que volta e meia reaparecem eram enfrentados muito além de uma lógica dualista. E, mais a interpretação mais aprofundada tinha a capacidade de nos remover de uma posição de conforto, muito além dos confrontos simplificadores.

BIBLIOGRAFIA:

FAORO, Raymundo - Os donos do Poder, Formação do Patronato Político Brasileiro - Editora Globo Porto Alegre 1958

MOTA, Carlos Guilherme - A Ideologia da Cultura Brasileira (1933 a 1977) - Editora Ática São Paulo 1994

quarta-feira, 3 de julho de 2019

GESTÃO URBANA, SAÚDE, HABITAÇÃO E MODELOS DE CIDADE

Pedro da Luz Moreira

Professor Associado da EAU-UFF

Doutor pelo PROURB 2007

RESUMO:

Karl Liegen Stadt de 1929 conjunto do arquiteto Bruno Taut
na Berlim da República de Weimar, um modernismo
integrado a cidade novecentista
O presente texto pretende discutir as complexas interrelações entre a configuração do urbano e a saúde, e se essa está capacitada a apontar um modelo físico de cidade. Isto é, a busca pela cidade saudável estaria capacitada a gerar uma forma de ocupação espacial, que otimizasse os parâmetros da saúde em ruas, quadras e lotes. Elementos estruturais da divisão entre esfera pública e privada, que se constituem no vocabulário de formulação do tecido da cidade desde tempos imemoráveis. O debate envolve também a habitação e sua produção em larga escala, de forma a que seja acessível a amplas parcelas da população. Mas, aqui é fundamental pensar a habitação no contexto da cidade, cercada de serviços e propiciando uma vida urbana densa e diversificada, aonde usos diferenciados se aproximam. Se a proposição de modelos fechados é tida hoje como autoritária, a explicitação de princípios norteadores ao final do artigo pretende apenas fomentar um debate, que nos guie à cidade saudável.



INTRODUÇÃO:

O artigo aqui desenvolvido debate a partir dos eventos do ano de 2020 na cidade do Rio de Janeiro, a construção de quatro eixos estruturadores capazes de direcionar para a cidade saudável. Os eventos são O Congresso da UIA2020Rio e a Capital Mundial da Arquitetura[1], que acontecerão na cidade do Rio de Janeiro em 2020. A partir desses eventos faz-se uma ampla revisão histórica do que foi o urbanismo e a produção habitacional, principalmente no seu enfrentamento da moderna cidade industrial, que determinou uma grande afluência de população para nossas cidades. A presente reflexão se debruça sobre a sensibilidade modernista, que conquistou corações e mentes do mundo em uma diversidade de lugares, que se esgota ao final da 2ª Grande Guerra, com as bombas de Nagasaki e Hiroshima, no Japão. Logo depois, o texto tenta mapear nossa contemporaneidade, apontando que a desconfiança com o cânone modernista nos lança em uma grande insegurança, que na verdade confronta o localismo ao globalismo, direcionando-nos para a necessidade de adoção do multiculturalismo. A inclusão e a promoção de um desenvolvimento que não mais exclua parcelas significativas da população parece se constituir como o paradigma maior a ser enfrentado pela contemporaneidade. A própria massificação do mundo contemporâneo parece nos apontar para uma prática distanciada das vanguardas, aonde o acesso ao conhecimento se generalizou de tal forma, gerando uma pluralidade de posicionamentos que parecem inconciliáveis.

A participação e a administração dos conflitos no seio da nossa sociedade apontam para uma nova perspectiva aonde a construção de consensos parece ter se inviabilizado. O plano e o projeto emergem nesse contexto como fóruns que propiciam o debate e explicitam conflitos, que são provisoriamente acomodados. A processualidade se implantou de forma definitiva, mostrando-nos que as desigualdades e fragilidades da existência contemporânea no lançam num tempo de incertezas e dúvidas. Apesar disso, é reafirmada a continuidade do projeto moderno, na sua pretensão de construir a auto-determinação dos povos. Ao final, são apresentados quatro pontos sínteses, que combatem a forma inercial de reprodução histórica da cidade brasileira, combatendo seu projeto de exclusão de amplos setores de nossa sociedade, e afirmando a necessidade absoluta da inclusão.

1. Todos os Mundos. Um só mundo. Arquitetura 21

O título acima é o tema eleito para o Congresso Internacional de Arquitetos, que se realizará na cidade do Rio de Janeiro em 2020, conquistado pela rede do Instituto de Arquitetos do Brasil em 2014 em Durbhan na África do Sul; o Congresso UIA2020Rio. No mesmo ano, se realizará a Capital Mundial da Arquitetura, título concedido pela UNESCO, que também se utiliza do mesmo tema assinalado. A ideia contempla e celebra o multiculturalismo e a diversidade presente em nossas cidades com a pluralidade de culturas do construir, mas também sinaliza para a unidade de nosso planeta. E, para o impacto ambiental representado por essas mesmas cidades no meio ambiente natural, aonde estão territórios que ocupam apenas 2% da área do planeta, mas concentram grande parte da geração da poluição. O tema denota a busca de um modelo, aonde o localismo é respeitado, sem descuidar de uma consciência global, quando construímos o meio ambiente humano. O que queremos com esse tema? Como a arquitetura e o urbanismo se inserem na sociedade contemporânea e na brasileira? Como esses ofícios estão inseridos na cultura do nosso tempo? Qual a relevância do plano e do projeto na sociedade contemporânea e brasileira? Para responder a tais perguntas será necessário fazer uma breve revisão histórica sobre o nosso recente passado arquitetônico e urbanístico. Quais projetos foram compartilhados por diversas sensibilidades e que pretenderam enfrentar o problema da moderna cidade industrial, que passou a ser de forma definitiva o cenário da vida da maioria da humanidade nos últimos 150 anos.

Em 2030, seis entre dez pessoas viverão em cidades. Hoje em dia 1 bilhão de pessoas vivem em favelas ou em loteamentos irregulares. Em 2030 serão 2 bilhões de pessoas e em 2050 3 bilhões de pessoas estarão na informalidade[2]. Além desses dados a relação pessoas por domicilio passará nos próximos dez anos no Brasil; de 2,9 habitantes, para apenas 2 habitantes[3], o que significa que a demanda por habitação aumentará enormemente. A questão da habitação é central desde o advento da moderna cidade industrial, pois aproximadamente 80 % do contínuo construído das cidades se refere a esse uso.

Manchester de uma comunidade a várias
Há um desenvolvimento explosivo da população urbana no mundo, um processo que se acelera de forma definitiva com a Revolução Industrial. Na Inglaterra entre os séculos XVIII e XIX, a cidade de Manchester tinha no ano de 1760 doze mil habitantes, em 1850 ela atinge quatrocentos mil habitantes[4]. No Brasil a cidade de São Paulo tinha em 1930 novecentos mil habitantes, chegando em 2011 a vinte milhões de habitantes[5]. Nos próximos dez anos está previsto um êxodo rural da ordem de 200 milhões de pessoas na China, ou o correspondente a dez cidades de São Paulo.

Portanto, o desafio colocado para a arquitetura e urbanismo contemporâneos nesse inicio do século XXI, se refere ao problema iniciado pela cidade industrial, que determinou contingentes populacionais cada vez mais expressivos, que se destinam a elas. A história recente da humanidade nos oferece um rico referencial, mostrando como a cultura arquitetônica e urbanística procurou dar resposta a esses problemas[6].

Historicamente, o movimento urbano higienista de meados do século XIX até o início do século XX sintetizou um modelo de cidade, que alimentou intervenções como; Plano Cerdá (Barcelona 1848), Hausmann (Paris, 1853), Plano Dardo Roca (La Plata Argentina 1882), Plano Aarão Reis Belo Horizonte, Brasil 1897). Apesar da diversidade de contextos percebe-se nesses planos uma estrutura comum, que contrapõe uma malha de avenidas mais espaçada, contraposta a uma malha de vizinhança regular, que conforma a base de todo o desenho. Esses planos e intervenções urbanas são nomeados pelos historiadores, sobre diferentes nomes; neoclássico (BENÈVOLO 1983), higienista (HALL, 2002), primeira modernidade ou belle epoche (AYMONINO 1972). Muito além dos nomes, as cidades reformadas ,ou os planos para novos territórios representaram uma clara morfologia, aonde as ações do circular rápido (grandes avenidas), e ruas de vizinhança foram separados e diferenciados por geratrizes de desenho distintas. Nos casos de ampliação sobre território virgem, como Barcelona, La Plata e Belo Horizonte, essa recorrente repetição chega ao dimensionamento das quadras, ruas vicinais e avenidas, que possuem dimensões iguais[7]. Além dessas cidades, o Brasil foi marcado pela geração dos engenheiros higienistas, como Aarão Reis, principal artífice da nova capital mineira, mas também ideólogo das transformações da capital da república em 1905 no governo Pereira Passos. Também, Saturnino de Brito engenheiro sanitarista nascido em Campos dos Goytacazes que trabalhou em várias cidades, como Santos e Recife marcou esses territórios a partir da definição de padrões para avenidas, ruas, quadras e lotes[8]. Essa atitude denota a presença de um modelo, que representa a cidade burguesa por excelência, que é também a última consolidação de um modelo de desenho, no campo do urbanismo.

2. Modernismo:

Oto Wagner, arquiteto vienense projeta em 1901 o Metrô de
Viena, não apenas as estações, mas toda a rede
.
Essa primeira modernidade será sucedida pelo modernismo das vanguardas centro-europeias[9], que pretenderam construir uma cidade que fizesse frente ao imenso êxodo rural, que assolava as cidades da Europa e da América do Norte. O modernismo é um fruto da grande cidade industrial, a cidade de Chicago na passagem do século XIX para o século XX assiste um debate entre o Movimento do City Beatiful de Burnham - academicista e eclético - e as tendências organicistas e modernistas de Sullivan e de Wright[10] que se antecipam em vários anos aos debates das vanguardas centro-européias. A cidade de Chicago, por sua dinâmica explosiva e de rápido crescimento representou um palco aonde a primeira modernidade se confronta com a segunda. A Escola de Chicago anuncia a hegemonia americana[11], que se materializará de forma definitiva no segundo pós-guerra, o debate é entre a produção estratificada no tempo da cidade tradicional (city beautiful), ou a produção massiva e repetida da nova cidade industrial.



O conjunto Karl Marx Hof de 1930 em Viena, produção
habitacional para a demanda explosiva de habitação da
moderna cidade industrial
As vanguardas centro-européias seguindo preceitos da Escola de Chicago, fundaram o modernismo com a pretensão de instituir uma nova objetividade (neue sachlichkeit), na qual os monumentos eram a morte da arquitetura, onde se buscava uma nova essência que estava na grande cidade industrial. Basta lermos os textos de Adolf Loos[12] ou Oto Wagner[13], arquitetos da Secessão Vienense, que afirmavam a emergência de uma nova ética do construir, onde o que lhes interessava não eram mais os programas como; organismos governamentais, o teatro de ópera ou o parlamento, a arquitetura da excessão, mas sim a habitação extensiva das periferias intermináveis da cidade industrial européia. A casa do operário ou da classe média, que se constituia na grande massa edificada da cidade industrial, as periferias desse fenômeno inusitado que também explodia na Europa na sua escala e tamanho, determinando um contínuo construído rápido, feio e inadequado. As administrações socialistas e social democráticas do período da República de Weimar na Alemanha e de outros países adjacentes, que construíram uma série de experiências habitacionais interessantes. As infraestruturas urbanas e a habitação produzida em massa são os temas eleitos pelas vanguardas centro-européias, procurando a partir do industrialismo redimir a cidade moderna.



O conjunto do Pedregulho de 1947 de Afonso Eduardo 
Reidy no Rio de Janeiro
Não há como negar que o modernismo conquistou corações e mentes em todas as partes do mundo, com diferentes nuances e formulações ele encarnou um desejo na sociedade de ampliação da autonomia dos povos na definição de seu futuro, de seu vir a ser[14]. O modernismo celebrava uma ideologia industrialista, que acreditava na superação dos problemas da humanidade, a partir da repetição e do standart. No campo da produção habitacional de massa há exemplos de experiências notáveis, que pareciam demonstrar a potência do industrialismo para resolução dos problemas da moderna cidade industrial europeia.


Assim como em outras partes do mundo, o modernismo também conquistou uma ampla gama de discípulos, que produziram uma das suas mais belas vertentes. Por exemplo, ser moderno no Brasil era romper com um arcaismo agrário, com o patriarcado e adotar um comportamento urbano e republicano, que mirava na superação de nosso passado colonial e dependente. O modernismo carioca explode a caixa da arquitetura se expandindo em direção a natureza e ao meio natural. A cidade do Rio de Janeiro se insere num cenário natural generoso pontuado de ícones geológicos como o Pão de Açúcar, Corcovado, Morro Dois Irmãos, Pedra da Gávea, a arquitetura modernista valoriza a fluidez entre exterior e interior e se dedica a criação de espaços públicos notáveis.


3. Crítica e revisão ao movimento moderno:

A imensa destruição das bombas nucleares em 1945

No final da Segunda Guerra Mundial, as bombas de Hiroshima e Nagasaki demonstram uma imensa capacidade destrutiva e acabam vinculando fortemente tecnologia e destruição. O poderio industrial e militar americano e soviético ganham uma lógica particular, que se torna independente das aspirações comuns, se envolvendo numa espiral competitiva interminável. A crença na industrialização, padronização e repetição intermináveis como uma promessa de redenção das misérias da humanidade sofre um abalo definitivo[15], passando a ser encarada com desconfiança. Emerge uma hegemonia da diversidade entre os seres humanos, que passam a ser vistos como especificidades culturais, raciais, de gênero, ou de qualquer outra característica. O fordismo passa a ser visto com desconfiança.



Em 1961 a jornalista Jane Jacobs publica Morte e Vida das
Grandes Cidades Americana
s
No começo da década de 60, a jornalista Jane Jacobs decreta a perda da vitalidade das cidades americanas em função de um rodoviarismo exacerbado, presente no modernismo nos projetos de Le Corbusier como o Plano Voisin para Paris.



"As cidades tem a capacidade de prover algo para alguém, somente porque, e apenas quando, são criadas por todos... Não existe melhor expert na cidade do que aqueles que vivem e experimentam seu dia a dia." JACOBS 1961 página27


As intervenções de Robert Moses em Nova York elegem o rodoviarismo e destroem relações de vizinhança e de comunidades, a hegemonia do automóvel determina um certo isolamento do indivíduo na grande metrópole, reduzindo o espírito de participação na cidadania. Los Angeles emerge como paradigma do bem viver, onde o automóvel se articula com a baixa densidade, surgindo um modelo de baixa interação social e isolamento do ser urbano. A habitação unifamiliar se exila num idílio, próximo da natureza, com uma garagem abarrotada de automóveis, sem qualquer disponibilidade para a urbanidade.[16]





O 1o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna de 1928
reúne trinta arquitetos
A década de 60, explode com a emergência de um mundo que decreta o fim das vanguardas e a presença de uma grande massificação em todos os campos. O mundo elitizado da segunda modernidade dá lugar a uma imensa massificação, que pode ser exemplificada nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, que começam em Sarraz no ano de 1928 com vinte e quatro arquitetos e terminam em Dubrovnick no ano de 1956 com uma multidão de estudantes[17].

Filósofos como LYOTARD (1979) e FUKUYAMA (1992) decretam o fim dos discursos explicadores da modernidade como o marxismo e o iluminismo, que construiam uma ética do agir e do pensar. Emerge uma lógica localista, que se rebela contra o pensamento sistêmico e estruturador do modernismo. Desenvolve-se a consciência de que a utopia modernista era autoritária e congelava as aspirações de realização das futuras gerações, impedindo-as de pensar a partir de suas condições.



Em 1980 Ronald Reagan assume a
presidência dos EUA, impondo uma forte
desregulamentação do capital
Em 1979 Margareth Thatcher assume como primeira ministra britânica, em 1980 Ronald Reagan assume a presidência dos EUA, desenvolvendo-se uma enorme desregulamentação do capital. O wellfare state ou estado de bem estar social desmorona, uma transformação que esvaziou o uso industrial e fez emergir um contínuo de serviços financeiros e especulativos, que passaram a representar no mundo anglo saxão, um terço do emprego disponível. Inicia-se uma forte hegemonia do capital financeiro no mundo[18]. Em 9 de novembro de 1989 cai o muro de Berlim, que dividia a Alemanha em dois, e o mundo da Guerra Fria das duas superpotências apresenta sinais de esgotamento.


Em meados dos anos 1990 o advento da internet e das Tecnologias de Informação e Comunicação lançam para a humanidade a possibilidade de acessar um amplo acervo de informações, que determinam uma imensa dispersão de energias, parecendo inviabilizar a possibilidade de construção de prioridades e consensos. A política se fragmenta numa infinidade de interesses que parecem irreconciliáveis, apontando para a impossibilidade da construção de consensos.


4. As respostas da crítica, ou a permanência do Projeto Moderno:


Também em meados dos anos 1990 o filósofo Jürgen Habermas decreta num texto, no qual ironiza a tendência contemporânea de se utilizar do prefixo pós para caracterização do nosso tempo, a distinção entre modernidade e modernismo[19]. O texto de Habermas ao distinguir a modernidade do modernismo, afirma que a pretensão humana de auto determinação do seu futuro, que as revoluções americana e francesa tinham expressado, permanecia inalcançado. Habermas também elabora sua teoria da racionalidade comunicativa, que se contrapõe a racionalidade meramente instrumental, determinando que a razão não deve estar carregada de personalismos, mas construída a partir de consensos[20]. Abre-se uma nova perspectiva utópica, que não mais condena as gerações futuras a uma construção congelada e fixa, mas que celebra o processo de auto-construção e de auto-determinação.



1979 Teatro do Mundo Aldo Rossi
No campo específico da arquitetura e do urbanismo, Kevin Linch[21] e Aldo Rossi[22] apontam para a processualidade da construção da cidade, reforçando conceitos como o da Legibilidade, e o da História. Emerge a idéia das pré-existências na cidade e a leitura de que o projeto da cidade é único e coletivo, desenvolvido no longo tempo por uma série de agentes e atores. Emerge a idéia de legibilidade das partes da cidade, a partir da experiência concreta da vida nesses espaços.

O crítico italiano de arquitetura Manfredo Tafuri lança em 1968 o livro História e Teorias da Arquitetura, no qual elabora a idéia do arquiteto como ideólogo do habitar, um formulador de conceitos e proposições que propõe o Bem viver e possuem a capacidade de contaminar a sociedade para suas formas de operação e de prática[23]. Em 1977 o arquiteto Christopher Alexander lança o livro A Patern Language (Uma linguagem de padrões)[24], que se propõe a mapear a gênese da evolução da forma no processo de desenvolvimento do espaço construído, com o claro interesse de impulsionar a participação do usuário na elaboração do seu ambiente. Desenvolve-se nos EUA o advocacy planning ou projeto participativo, no qual o processo de construção do vir a ser de comunidades específicas é celebrado como a verdadeira pulverização da democracia.



Nova York, apesar de um plano homogeneizador de 1811, a
cidade gerada é diversa e variada
No Brasil em 1988 Carlos Nelson dos Santos lança o livro A cidade como jogo de cartas[25], no qual celebra uma certa neutralidade do desenho da grelha, que impulsiona sua apropriação por diferentes agentes no longo prazo da cidade. O Plano de Nova York de 1811 é celebrado, pois apesar de decretar uma imensa homogenização do território baseado na malha xadrez, em um padrão de ruas e avenidas, e até nas mesmas dimensões dos lotes, acaba por gerar uma cidade diversificada. Os elementos celebrados são a rua, a quadra e o lote como unidades em torno dos quais o jogo da cidade é jogado. Num paradoxo, Carlos Nelsom dos Santos aponta que apesar desse inicio homogenizador a ilha de Manhattan apresenta hoje grande diversidade de tipologias, usos e contínuos diferenciados. Se restabelece a possibilidade da construção utópica, que deixa de ser um objetivo fixo e congelado, mas a celebração de uma processualidade que restabelece a necessidade da presença contínua da criatividade das futuras gerações. O jogo pressupõe agentes e atores igualmente empoderados, que declaram suas intenções e negociam objetivos, a racionalidade abandona a subjetividade isolada e se aproxima da inter-subjetividade.

Kenneth Frampton lança em 2002 o livro Studies on Tectonic Culture[26], no qual aponta a saturação do problema do símbolo e da representação no campo da arquitetura, apontando como saída o desenvolvimento da tectônica, as opções construtivas como um vetor de reessencialização para os arquitetos. O compromisso com o construído. As obras de grandes arquitetos são analisadas a partir da escolha de diferenciados modos de construção, que recolocam a complexa relação entre custo e benefício no projeto.



Museu de Arte Romana em Mérida,
arquiteto Rafael Moneo
O arquiteto atuante Rafael Moneo lança em 2008 Inquietação Teórica e Estratégias Projetuais[27], no qual rejeita a adoção de um personalismo de linguagem por parte dos arquitetos, celebrando a idéia da reinvenção do arquiteto a cada novo projeto. Cada novo projeto representa uma oportunidade, que demanda do arquiteto uma leitura específica de cada lugar, celebrando uma reinvenção particular a cada novo projeto. Moneo também percorre no livro a obra de arquitetos notáveis, identificando em cada um deles as estratégias para convencer a sociedade da relevância do fazer arquitetônico. Nesse percurso reflete sobre a auto biografia de cada arquiteto, encarando as oportunidades de cada projeto como um momento estratégico de celebração do ofício. A obra construída de Moneo revela muito desse ecletismo de linguagem, principalmente quando comparamos o Museu de Arte Romana de Mérida de 1985, com o Kursaal de San Sebastian de 1999.

 






O Plano Voisin para Paris de 1925, destruição da cidade histórica; torres
e rodoviarismo
Estamos às vésperas do Congresso UIA2020Rio e da Capital Mundial da Arquitetura, que começarão em 01 de janeiro de 2020, e se estenderão por todo o ano, culminando nas futuras eleições municipais brasileiras, que ocorrerão em outubro de 2020, no seu primeiro turno. Essas eleições serão diversas de todas as outras que ocorreram anteriormente no Brasil, por uma série de fatos que atingiram nosso meio ambiente político, tirando-o de uma inércia estabelecida. O periodo do Congresso Mundial UIA2020Rio e da Capital Mundial da Arquitetura também pode ser uma oportunidade ímpar para refletir sobre que cidade temos, e qual queremos construir para as futuras gerações? O que aconteceu com nossas cidades, ou para onde estamos indo? Ou melhor, qual imagem da boa cidade que elegemos como modelo entre nós? Qual forma-tipo de cidade que compartilhamos como representação ideal do bem viver? Apesar dos modelos estarem esgotados, e, como defendem alguns teóricos, vivemos um momento pós hegemônico, onde não é mais possível a eleição de uma forma tipo sintética e representativa; será que ainda é possível compartilhar princípios norteadores da cidade que queremos ter?

Um princípio geral vem pautando a política no Brasil nos últimos anos e tudo indica que continuará na nossa agenda, que é a busca por uma sociedade com maior equidade, ou melhor distribuição de renda. O senso comum da sociedade brasileira de uma maneira geral não identifica nas atribuições do governo municipal, ou na estruturação do espaço construído da cidade a capacidade para promover ou induzir uma melhor distribuição de renda. De uma maneira geral, o brasileiro considera que a promoção de maior equidade em nossa sociedade é fruto apenas de políticas nas áreas da saúde, da educação, do salário mínimo, mas nunca da nossa ordenação espacial.

No meu modo de entender esse é um grande equívoco, uma vez que a qualidade espacial da cidade pode representar uma apropriação indireta de renda para parcela significativa da população. Por exemplo, se temos melhores condições de mobilidade, que garantam tempos médios pendulares menores dos deslocamentos casa e trabalho, a população poderá se apropriar de um maior tempo livre, que pode representar incremento de renda, ou de qualidade de vida. Se tivermos melhores condições de saneamento nas nossas cidades, menos poluição e menos tempos em nossos deslocamentos teremos menos gastos em saúde, e, portanto apropriação indireta de rendas suplementares. A estruturação espacial ou a política urbana de nossas cidades é um fator primordial para se alcançar maior equidade na sociedade brasileira, afinal a segmentação espacial das nossas cidades está determinada por forte clivagem entre as classes.

Há no mundo contemporâneo um modelo econômico hegemônico baseado no neo-liberalismo, uma forma de operar que celebra a iniciativa particular ou mesmo coletiva, desregulamentada das formas tradicionais de controle do Estado, apesar da afirmação recorrente de uma realidade pós-hegemônica. As iniciativas públicas ou articuladas pelo Estado são vistas com desconfiança, e consideradas incapazes de promover processos bem sucedidos, ou virtuosos. Essa proposição começa a se desenvolver na década de setenta do século XX, que é apontada como um momento de crise e de virada da regulação internacional acertada pelo acordo de Bretton Woods, que regulava as finanças desde 1944, e que começava a apresentar sintomas de esgotamento. A partir desse momento irá se articular uma narrativa, que impõe a desregulamentação financeira e a austeridade fiscal.

Em 1973 o golpe de estado no Chile impõe uma ideologia neo-liberal no país, em 1975-76 a disciplina fiscal é implantada no Reino Unido pelo FMI, e também em 1975 a cidade de Nova York  inicia a aplicação de rigorosa meta fiscal, após sua declaração de inadimplência[28]. No final dos anos setenta, as eleições de Thatcher e Reagan marcam a conquista do poder pelo discurso neo-liberal, que passa a pautar nosso cotidiano com a ideia da desregulação econômica e liberação do empreendedorismo individual. Muitos dos fluxos financeiros aprisionados por regulações estatais passam a circular pelo mundo de forma livre, e, sem conseguir ser  sequer monitorados por qualquer tipo de regulação fiscal, afinal as iniciativas estatais continuam sendo vistas com desconfiança.

Em 2008, uma crise sem precedentes se abate sobre a economia americana, grandes instituições financeiras sugadas pela quebra de confiança no sistema de hipotecas e nos seguros a sua volta ameaçam grandes conglomerados rentistas, que são classificados como; "so big to crash".[29] O governo americano, temendo um efeito dominó em toda a atividade econômica, semelhante a crise de 1929, aporta grande quantidade de capital do contribuinte americano, socializando os prejuízos. Alguns economistas liberais, como Stglitz[30] e Piketi[31] apontam a necessidade de retorno da regulação, que deverá ser globalizada para controlar a especulação desenfreada.

Os insistentes marxistas, como o crítico cultural Jameson[32] e o geógrafo Harvey[33] recolocam a questão da tendência preferencial do sistema pela forma líquida monetarizada, que se materializa de forma mais concreta nas bolsas e investimentos rentistas, mas também no espaço, e em processos especulativos nas cidades. Apesar disso tudo, permanece a desconfiança pelas iniciativas governamentais e públicas, que ainda são vistas como esforços arrecadatórios mantenedores de aparatos burocráticos, que apenas visam sua reprodução e auto-sustentação, sem qualquer interesse público ou projeto republicano.

Por outro lado, as cidades passam a concentrar e expressar imensas manifestações de rebeldia e de insatisfação, explodem aglomerações em várias partes do mundo, que reinvindicam melhores condições de habitar e de circular sem a capacidade de formular uma pré-figuração alternativa para o módus operandi do status quo hegemônico. É nas cidades que se materializa uma imensa segmentação e fragmentação de oportunidades, uma concentração desequilibrada de benefícios que atendem a uma minoria. O território de nossas cidades demonstram de forma didática a segmentação da sociedade, a cidade capitalista neo-liberal é produtora de imensas áreas de exclusão, enquanto outras muito restritas se globalizam.

Portanto, se não há mais possibilidade para os modelos pelo seu esgotamento, os princípios da boa cidade precisam ser explicitados de forma a dar sentido as imensas manifestações de rebeldia. A cidade deve encontrar um princípio geral na busca da promoção da equidade, um território urbano onde está universalizado o acesso às infraestruturas urbanas é o objetivo maior. Por outro lado, as cidades brasileiras precisam transformar o modo como vêm sendo construídas, para tanto, sugere-se priorizar quatro proposições objetivas:

* a Cidade deve ser compacta e densa, evitando-se a dispersão interminável e enfatizando-se o papel aglutinador do antigo centro histórico;

* a Cidade deve ser lugar da convivência da diversidade de classes e de usos, evitando-se os guetos de ricos e pobres e a monofuncionalidade;

* a Cidade deve ter mobilidade efetiva para todos, evitando-se a exclusão determinada pela ineficiência ou tarifação alta dos sistemas de transporte coletivo;

* a Cidade deve ampliar o reconhecimento da ecologia e dos biomas locais, construindo-se melhor relação com a natureza. 
6. NOTAS:
[1] Disponível em www.uia2020rio.archi
[2] Dados disponíveis no site da ONU, sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) https://nacoesunidas.org/conheca-os-novos-17-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu/
[3] Disponível na pesquisa nacional por domicílio PNAD contínua, que projeta para 2030 esse resultado. Ver https://www.ibge.gov.br/
[4] BENEVOLO 1983 página 557
[5] REIS 2004 página 17
[6] HALL 2002 descreve as terríveis condições das primeiras cidades industriais “A cidade da noite apavorante”
[7] MOREIRA 1999 página 27
[8] CARVALHO (org.) 2010 descreve as experiências de Saturnino de Brito em Recife
[9] A referência as vanguardas centro-europeias está em TAFURI 1979, que identificou na Alemanha, Austria, Russia e outros países o impulso do modernismo
[10] DAL CO (org.) 1975 – La ciudad americana de la guerra civil al New Deal – compilação de vários autores
[11] ARRIGHI 1996 destaca a hegemonia cultural Estado Unidense como uma conquista a partir do 2º pós Guerra
[12] LOOS 1980 condena a ornamentação na arquitetura
[13] WAGNER 1983 OBRAS COMPLETAS
[14] KOPP 1990 página 42
[15] HABERMAS 2002 página 153
[16] MOREIRA 2007 página 87
[17] FRAMPTON 1997 página 328
[18] ARRIGHI 1996 desenvolve a ideia de que o mundo contemporâneo é dominaod pela hegemonia do capital financeiro.
[19] HABERMAS 1987 página 125
[20] HABERMAS 2002 página 412
[21] LINCH 1999
[22] ROSSI 1995
[23] TAFURI 1979
[24] ALEXANDER 1977
[25] SANTOS 1988
[26] FRAMPTON 2002
[27] MONEO 2008
[28] DARDOT  e LAVAL 2016 indicam a instalação no mundo contemporâneo do neo-liberalismo, a partir do Golpe de Estado no Chile
[29] DARDOT  e LAVAL 2017 apontam o conceito de comum como algo que transcende a esfera pública e privada, e como os governos foram privatizados pela lógica financeira
[30] STIGLITZ 2013 aponta a necessidade de se retomar a regulação do sistema financeiro para estancar a crise, trata-se de um Prêmio Nobel de Economia
[31] PIKETI 2015 também aponta a necessidade de se operacionalizar um imposto de âmbito mundial, que regule os fluxos financeiros. Internacionais.
[32] JAMESON 2001 aponta como o capital financeiro se articula com o capital imobiliário na cidade contemporânea, impulsionando o caráter especulativo da economia em geral.
[33] HARVEY 2013 aponta como determinadas cidades americanas foram aprisionadas pelo capital especulativo imobiliário e financeirO




7. BIBLIOGRAFIA:

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DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian - A nova razão do mundo, ensaio sobre a sociedade neoliberal - Editora Boitempo, São Paulo 2016



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STIGLITZ, Joseph E. - O Preço da Desigualdade – Editora Boitempo São Paulo 2013

TAFURI, Manfredo – Teorias e História da arquitetura – editorial Presença Lisboa 1979 389 páginas