terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Verdade, pós verdade e fatos

No dia 16 de janeiro de 2019, na sala do Conselho de Informações da Cidade do Rio de Janeiro, no Instituto Pereira Passos (IPP) foi apresentada a palestra do professor Paulo de Martino Jannuzzi, com o tema Política e Produção de Estatísticas. O professor Paulo Jannuzzi leciona no Programa de Pós Graduação em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE), e trouxe um panorama da ciência da estatística, como construtora de uma política sistemática de promoção da equidade em nossa sociedade. A partir de argumentos justificadores da estatística como construtora e balizadora dos parâmetros de equidade do Estado de Bem Estar Social, de longa construção nos países desenvolvidos, e, de mais tardia adoção entre nós é formulado a tese de combate ao relativismo do mundo da versão, ou da pós verdade. As redes sociais e uma quantidade imensa de informações, sem parâmetro anterior na história, lançaram a humanidade num mundo que muitos caracterizam como, a pós-verdade. É claro, que a compreensão do perfil demográfico da população do Brasil tem na ciência estatística um poderoso instrumento para seu auto mapeamento fatual. No entanto, uma crescente influência da "versão" ou "opinião", não baseada em estudos aprofundados em fatos permeia o nosso mundo das mídias sociais, e consegue atingir a mídia institucionalizada, generalizando-se numa desinformação perigosa. Aquilo, que o professor Jannuzzi chamou de uma certa "midiotização" da sociedade contemporânea, que impacta fortemente a construção do senso comum, direcionando-o de forma perversa para interesses oligopolizados.

"O Brasil seria diferente do que é hoje se não fossem as informações produzidas pelo IBGE e por outras instituições do Sistema Estatístico Nacional. Com todas as iniquidades sociais que ainda persistem no país, o quadro seria seguramente pior caso não houvesse informações estatísticas levantadas há mais de 80 anos ou quase 150 anos, se forem considerados os esforços de realização do primeiro Censo Demográfico em 1872, no final do Império, quase 20 anos depois do planejado, pelas resistências da elite latifundiária e escravocrata da época." JANNUZZI, Palestra no IPP janeiro de 2019

Coeficiente do Indice de Gini de Rendimento Domiciliar 
Per Capita da População
Os exemplos selecionados por Jannuzzi envolvem manchetes concretas dos mais importantes jornais brasileiros, como O Estado de São Paulo, O Globo, e Folha de São Paulo, aonde são destacadas; no primeiro jornal em 15 de setembro de 2018 "Mais Educação do MEC não melhora notas dos alunos", ou no segundo em 25 de setembro de 2015, "Pronatec é irrelevante para o mercado", ou ainda na Folha em 16 de abril de 2018, "Filosofia e Sociologia obrigatórias derrubam notas de matemática". Nenhuma dessas manchetes podem ser comprovadas pela evolução das estatísticas brasileiras, ou nos fatos, que na verdade mostram o contrário, um declínio tímido de alguns parâmetros de medição da desigualdade, e uma melhora tímida na educação. Como por exemplo, o Coeficiente do Indice de Gini de Rendimento Domiciliar Per Capita da População (gráfico acima), que mede a desigualdade no país, e espelha uma melhor distribuição na medida que se aproxima de zero. Em 1982  esse Coeficiente era de 0,582, piorando em 1983 passando a ser de 0,606, a partir desse momento decresce, primeiro de forma mais tímida até 2001, quando alcança 0,591. A partir de 2002 decresce de forma mais forte, partindo de 0,588 e chegando em 2014 a 0,514. Mas apesar desses números permanecem pipocando "versões"  e "opiniões", que repetem que os governos PTistas não distribuíram renda. Na verdade, as políticas de esquerda foram tímidas, mas efetivas distribuidoras de renda. Apesar disso, os delírios e arbitrariedades estampados chegam a índices mais aviltantes, quando se olha para a mídia como um todo, afinal a manchete do jornal O Povo on line, de 13 de março de 2017 estampava a seguinte fala do candidato a Deputado Federal Victório Galli (não eleito) do PSL do Mato Grosso do Sul; "Deputado Federal chama Mickey de homossexual, e acusa Disney de promover o gayismo". Talvez, no campo da liberação dos costumes, as proclamações definitivas desvinculadas dos fatos medidos pelas estatísticas é então mais contundente, pois a aceitação passa a permitir uma maior auto declaração, assustando as ideologias conservadoras. Há clara presença de alguns fatores perversos no Brasil, que impulsionam tendências da midiotização das mensagens, tais como; oligopolização das empresas de comunicação do país, falta de regulação sobre a responsabilidade de conteúdos ofensivos e falsos.

"Midiotização das Políticas Públicas: cobertura pouco profissional e cuidadosa das Políticas Públicas, de sua relevância, dificuldades de implementação e efeitos pelos veículos de comunicação, influenciando sua legitimidade social e sustentação política." JANNUZZI, Palestra no IPP janeiro de 2019

Carga tributária histórica nos países da OCDE
Na verdade, a construção do conceito de Estado de Bem Estar Social é muito recente, emergindo a partir do segundo pós guerra no mundo, que passou a operar com uma carga tributária maior para sustentar políticas sociais de inclusão da pobreza. Os gráficos, apresentados por Jannuzzi mostram de forma clara, o aumento da carga tributária em diferentes países do mundo, que impulsionaram a promoção de políticas sociais de inclusão e de combate a pobreza. No Brasil, diferentes pesquisas apontam que uma mudança social tímida decorreu de uma série de fatores, que aconteceram em nossa história recente, tais como; um pacto progressista instituído pela Constituição de 1988, democratização e estabilidade política após a queda da Ditadura Civil e Militar, boom das commodities, decisões econômicas em favor do mercado interno, fortalecimento de políticas sociais universais voltadas à equidade e a públicos vulneráveis, informação e avaliação da efetividade dos programas.

Com a ascensão do modelo neoliberal no mundo, primeiro com a ascensão de Thatcher e Reagan, no âmbito anglo-saxão, no final dos anos setenta e inicio dos oitenta, e depois no restante do mundo emerge então uma estabilização da ampliação da carga tributária em vários países. A alegação é sempre a mesma, que a carga tributária se ampliou de tal maneira, dificultando o livre movimento das empresas e dos investimentos, dificultando a promoção do desenvolvimento. Mas na verdade, a desregulamentação que estabilizou a ampliação da carga tributária vem dando demonstrações repetidas de concentração de renda e aumento das desigualdades. No Brasil, as perspectivas apresentadas por Jannuzzi apontam uma clara tendência de queda da carga tributária, sem que os benefícios de políticas estatais tenham sido universalizados. O discurso de que temos uma carga tributária alta, sem termos um nível de excelência de serviços públicos parece que saiu vencedor na última eleição majoritária no país, sem que tenha sido oferecido uma alternativa fatual para o alcance desse grau. Na verdade, a escolha parece desconsiderar que o país precisa melhorar sua divisão de renda, e, que a maneira construída pelos países ocidentais centrais do capitalismo de ampliação da carga tributária, me parece ainda não foi refutada. Nesse sentido, o gráfico acima, mostrado por Jannuzzi é esclarecedor, comparando as cargas tributárias de países europeus como Espanha e Portugal, com latino americanos como Argentina, Chile, Méxiso e Brasil.

Toda a ascensão de governos alinhados à direita, nos últimos anos pelo mundo parece apontar uma tendência de retrocessos numa série de campos, tais como; o cosmopolitismo global, o Estado laico, a aceitação da diversidade de costumes e opções sexuais, e a carga tributária dos Estados. Um ponto, que esse blog vem repetindo de forma recorrente em suas publicações é o da presença de uma certa hegemonia do Capital Financeiro, que me parece se articula de forma interessada com o mundo da pós-verdade. Uma vez, que os costumes cotidianos especulativos das bolsas e do rentismo, me parece, se articulam muito mais com as "versões", do que com os "fatos".

BIBLIOGRAFIA:

JANNUZZI, P. M. - Apresentação ao Conselho do IPP em 16 de janeiro de 2019 - apresentação disponibilizada pelo IPP

JANNUZZI, P. M. -  Monitoramento e avaliação de programas sociais: uma introdução aos conceitos e técnicas.- Editora Alínea, Campinas 2016.

JANNUZZI, P. M. - Indicadores sociais no Brasil: conceitos, fontes de dados e aplicações. - 6. ed. rev. e ampl. Editora Alínea, Campinas 2017.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O bairro de Santa Teresa, suas peculiaridades e potencialidades

Um dos exemplares da tipologia arquitetônica do bairro, que 
demonstra a profusão de torres e minaretes captando vistas
inusitadas. O Castelo Valentim, segundo alguns, obra de
Lucio Costa, nos seus anos de juventude, antes de aderir ao
movimento moderno
Toda grande cidade, no mundo apresenta uma diversidade de peculiaridades, e partes com fortes personalidades diferenciadas, que se constituem como sua riqueza, que irá propiciar e promover uma grande variedade de maneiras de viver e se comportar. O bairro de Santa Teresa é um desses lugares, que fazem parte da imensa diversidade do Rio de Janeiro. A riqueza das opções faz parte dessa capacidade de toda grande cidade abrigar diferentes mentalidades, crenças, comportamentos e atitudes, gerando e promovendo diversidade cultural. A cidade contemporânea e especulativa tende a gerar partes e bairros homogêneos, uma vez que as diferenças tendem a gerar uma certa ansiedade, quando nos defrontamos com ela.  É claro também, que a cidade capitalista estratifica essas escolhas entre suas partes entre diversos extratos sociais, mas os bairros de uma maneira geral, que apresentam maior vitalidade são exatamente aqueles que oferecem diversidades de uso e renda. Por outro lado, as diferenças não se restringem a um padrão de renda, mas envolvem diversidades como; crenças, etnias, opção sexual e outras. No mundo contemporâneo há uma tendência ao tribalismo e uma certa vertente de classificação estereotipada dos grupos sociais, que me parece o bairro de Santa Teresa claramente contraria. Portanto, partes da cidade do Rio de Janeiro, como Santa Teresa contrariam uma regra básica da cidade especulativa; a segmentação de classes sociais, nas suas diversas partes, abrigando um certo cosmopolitismo diverso.

Nesse sentido, há nesse bairro uma incrível diversidade de extratos sociais, e diferenças inclusive na sua articulação internacional, a partir da recorrência de determinados hotéis boutiques de diárias caras na sua trama de ruas. Além dessa presença há uma rede de estrangeiros instalados no bairro, que volta e meia atraem um novato, que se encanta por suas particularidades, e se instala. Mas muito além da presença dos estrangeiros, há em Santa Teresa a presença de uma grande quantidade de favelas, pequenas e grandes, que garantem a convivência com extratos sociais mais populares, que fazem a fortuna do local. Afinal de contas, nada mais entediante do que a homogeneização social promovida pela cidade especulativa. Mas, também há uma clara carência; a ausência de comércios, transportes e serviços diversificados daquelas partes da cidade que gozam de maior grau de centralidade, trazendo um ar provinciano e num paradoxo, pouco cosmopolita ao bairro.

Há um certo distanciamento montanhês nessas paragens, e um certo distanciamento folclórico das altas temperaturas típicas do verão carioca, que não correspondem aos fatos. Na verdade, nos curtos períodos do inverno carioca, Santa Teresa realmente apresenta a maior recorrência de temperaturas mínimas da cidade, mas no verão, também disputa com Bangú, as suas máximas. Mas o isolamento acaba sendo um dado construído pela morfologia de seu relevo, que se diferencia fortemente das áreas de baixada, que constituem a maior parte da cidade do Rio de Janeiro. A topografia é uma forte presença no bairro determinando o lançamento das ruas, a sua divisão fundiária dos lotes, e portanto, sua arquitetura. Há um tema recorrente na tipologia arquitetônica do bairro, as torres e minaretes que enquadram vistas emblemáticas, desde o castelo Valentim, que segundo alguns nasceu da prancheta do doutor Lucio Costa, o autor de Brasília, em sua fase eclética da juventude, até a residência de Benjamim Constant, os observatórios pontuam a paisagem do lugar de forma determinante.

Esse mesmo relevo vai determinar o traçado orgânico de suas ruas, vielas e escadas que sobem os contra fortes da Floresta da Tijuca, volta e meia no ambiente agora público enquadram vistas da zona sul, centro e norte magníficas. Um velho tio-avô meu, que nasceu no bairro, e era embaixador do Brasil, tendo representado o país em Cabo Verde, Boston, Argélia e Japão dizia que mais que Monmartre em Paris, Santa Teresa lembrava Lisboa, e seu bairro da Mouraria. Sem dúvida, há uma forte analogia com o bairro Lisboeta, que possui o mesmo encanto das perspectivas seriadas, que apenas são descobertas enquanto nos movimentamos. A escala das ruas demanda uma velocidade no bairro, para fruição de sua complexa arquitetura, que não deveria ultrapassar o limite de 30 Km/h, dos seus bondes, ou melhor das caminhadas sem destino certo.

O vetor principal de articulação do bairro, e sua espinha dorsal de legibilidade são as ruas Joaquim Murtinho e Almirante Alexandrino, que estruturam o bairro desde dos Arcos da Lapa até a Floresta da Tijuca, na subida para as Paineiras, Mirante Dona Marta e Corcovado. A origem desse eixo surge, ainda no século XVII, com a necessidade de coleta de águas do Rio Carioca para leva-las ao centro da cidade, no chafariz do Largo da Carioca, tanto que as ruas Joaquim Murtinho e Almirante Alexandrino tinham o mesmo nome até o século XIX; Rua do Aqueduto. E, correspondiam ao leito do canal de água desviado do Rio Carioca, na área hoje a montante da Favela Cerro Corá, um pouco antes do ponto final do ônibus 006. Local, que vem sendo restaurado pelo INEPAC, e que concentra uma série de obras de engenharia hidráulica, que remontam à época da construção do aqueduto e ao período de reflorestamento das encostas promovido por Dom Pedro II, quando a cidade vive uma crise hídrica sem precedentes. Esse eixo é o que confere legibilidade geral ao bairro, surgindo ao longo dele o Centro de Bairro do Largo dos Guimarães até o Curvelo, aonde se concentram a maior parte dos restaurantes e comércio local. Nos últimos tempos, houve uma clara gourmetização desse centro de bairro, que passa a ser exclusivo quase de restaurantes e cafés, enquanto há alguns anos atrás ainda abrigava um comércio mais variado e diversificado, como açougue, loja de materiais de construção e verdureiro. Tal tendência, certamente se instalou a partir da intensificação do turismo na cidade, fazendo com que os antigos e novos estabelecimentos do comércio de alimentação aumentassem seus preços de forma que não atendem mais a população do bairro.

O bonde elétrico de Santa Teresa, que atualmente parte do Largo da Carioca, usa os arcos da Lapa e se conecta na rua Joaquim Murtinho, e chega na rua Almirante Alexandrino no edifício Pereira da Silva, na altura do Silvestre é um claro animador do bairro. Vários comerciantes celebram a reimplantação do bondinho, como um importante acontecimento, mobilizador de passeios bucólicos para estrangeiros no bairro. Atualmente, o sistema atende gratuitamente a população do bairro, e cobra uma tarifa salgada dos estrangeiros, que pagam R$20,00 por uma viagem do Largo da Carioca ao Silvestre. Há ainda um ramal que não foi reinaugurado, que liga o Largo da Carioca ao Largo do França na Paula Matos, e que é de suma importância para esse outro eixo comercial do bairro, pois desempenha esse mesmo papel, nesse recorte. Esse sistema, que foi recentemente reformado, a partir do grave acidente de 28 de agosto de 2011, reforça o caráter da legibilidade do eixo Joaquim Murtinho / Almirante Alexandrino, como eixo estruturante. O sistema existe desde o século passado, primeiro puxado a burros, e depois eletrificado, e era segundo os moradores mais velhos do bairro, um primor de funcionamento. Vários depoimentos colhidos entre os idosos reafirmaram, que acertavam seus relógios pela passagem das composições. Nesse aspecto, é interessante destacar a independência do bairro, até a década de sessenta, com relação ao automobilismo e rodoviarismo, hoje hegemônicos em toda a cidade. Há testemunhos, arquitetonicamente materializados, que atestam essa independência antes da década de sessenta, tais como; o condomínio Terra Brasilis que oferece grandes apartamentos, de 600 metros quadrados, sem oferta de vagas de garagem. Fato que atesta, como já houve um tempo na cidade do Rio de Janeiro, em que suas elites usavam os sistemas públicos de mobilidade, compartilhando-os com as classes mais populares.

A proposta para esse sistema em funcionamento é extender a linha até a Estação da Ladeira do Ascurra, que era parada do trem do Corcovado no passado, reativando esse ponto, diminuindo a demanda de passageiros na Estação dessa linha no Cosme Velho. Essa proposta, quando instalada poderá dinamizar e ampliar o centro de bairro de Santa Teresa, atraindo novos serviços e comércios para o bairro, a partir de uma maior afluxo de turistas. Além disso, essa proposta pode representar uma diminuição expressiva no afluxo de vans ao Corcovado, que hoje em dia se constitui num sério gargalo da visitação a atração turística mais procurada da cidade. Nesse sentido, seria importante a instalação de novos modais ligando outros bairros a Estátua do Cristo Redentor, como por exemplo, um teleférico que ligasse o Jardim Botânico ao Hotel das Paineiras, dividindo a demanda com os trens do Cosme Velho, e as vans. Um outro ponto importante no bairro é a melhoria de suas calçadas, que sofrem com as pequenas dimensões, com a presença de um rodoviarismo arrogante, que volta e meia rouba espaço dos pedestres, e uma certa descoordenação na localização de postes de concessionárias - light, outros serviços e a rede de eletrificação do bonde - que também tornam o caminhar a pé, uma corrida de obstáculos. A diminuição da caixa de rolamento de veículos é possível em alguns pontos, e a coordenação entre concessionárias de serviços, na locação de seus postes melhorariam substancialmente essa condição. Além disso, o bairro se ressente de uma melhor arborização urbana, nessas mesmas calçadas, que certamente seria muito melhorada se as redes de fios fossem subterrâneas. Na verdade, o bairro de Santa Teresa é uma dessas preciosidades que a cidade do Rio de Janeiro possue, e que, precisa de novos investimentos no seu sistema de mobilidade para ampliar suas conexões e suas oportunidades, bem como nas suas calçadas, que representam a infraestrutura primeira para uma boa movimentação.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Aymonino e Rossi, a cidade contemporânea, tipologia, origens e desenvolvimento

Os preciosos croquis de Aymonino, no livro Origenes y desarrollo de la 
ciudad moderna
A cidade contemporânea, tal como ela se apresenta nos diversos contextos, aonde se insere em diferentes países e realidades sociais pode ainda ser descrita de uma forma geral, e sintética? Esquecendo-se de seu contexto geográfico, mas apenas por sua condição presente? E, se ela pode assim ser descrita, quais suas origens e desenvolvimento? Essa é uma pergunta complexa, pois a cidade está sempre enraizada no seu contexto específico, que envolve, um lugar e uma história particulares. Mas, será que não há traços compartilhados entre as condições de Roma, Rio de Janeiro, Nova York, Lobito (Angola), Seul (Coreia do Sul), e outras, advindas de nosso tempo presente? Há muito tempo, o arquiteto italiano Carlo Aymonino (1926-2010) escreveu um livro emblemático, que teve grande impacto sobre minha geração de estudante, nos idos do final da década de 70, e começo dos anos 80 na FAU-UFRJ. Mais precisamente o livro é de 1971, em sua primeira edição italiana, Origini e sviluppo dela cittá moderna, e a edição mais popular no Brasil é a da sua tradução espanhola pela editora Gustavo Gilli, Origenes y desarrollo de la ciudad moderna, do ano de 1972*. O livro ainda reunia publicações clássicas do pensamento urbano do final do século XIX e início do século XX, tais como; Ebenezer Howard, Ciudades-Jardim del mañana, ou Tony Garnier, Una ciudad industrial, ou J. Hilberseimer, Proyectos, ou N.A. Miljutin, Sosgorod. Aymonino era então um dos mais importantes arquitetos de uma corrente, que florescia na Itália, desde os anos 60, que num claro movimento contra tendência geral celebrava o racionalismo e a autonomia dos campos do plano e do projeto. Havia na verdade, no grupo diferentes posicionamentos, mas que nos meus tempos de juventude na FAU-UFRJ (1978-83) era visto como um grupo coeso, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo de Veneza (IAUV).

"El desarollo urbano está entonces bastante más caracterizado por el aumento em extensión de los asentamientos, con la constante agregación de periferias programadas o "expontáneas", que por um diseño em algún modo unitário que estabelezca prioridade, puntos de referencia, cualidad, o sea el entramado sobre el qual centrar las razones del desarollo mismo." AYMONINO 1972, página72

De certa forma, essa segue sendo uma das características da cidade contemporânea, a explosão do seu território, que cada vez mais se torna indefinido e impreciso, assinalando que as periferias recém ocupadas acabam semelhantes em todas as partes do mundo. Aymonino também se perguntava se o termo cidade, que se referira ao longo da história a assentamentos humanos com mais de cinco mil anos de história, ainda podia ser aplicado às modernas cidades industriais. Tanto por conta de sua dimensão quantitativa, que se referia a sua dimensão populacional e territorial, como também as transformações qualitativas, como as comunicações e conexões. Mas, esse movimento italiano urbano-arquitetônico de contra corrente, pois naqueles anos a arquitetura e o urbanismo eram cada vez mais contaminados de forma positiva pela sociologia e antropologia, voltando sua prática para suas características de arte utilitária. O ato de planejar e projetar era cada vez mais encarado como um ato arbitrário e autoritário, que pouco contemplava seu usuário, e suas complexas apropriações no pós obra ou inauguração. Além disso, havia uma clara condenação da racionalidade ocidental homogeneizadora do mundo, que era atacada por sua lógica redutora e eurocêntrica de celebração de um módus operandi colonizador e sem respeito pelas diferenças. Aymonino não negava ou se afastava desses posicionamentos, assim como a grande parte da tendenza** italiana, mas reafirmava a racionalidade e a relativa autonomia de determinadas atividades humanas, como a arquitetura e o urbanismo, mesmo dentro desse contexto. Enfim, apesar de sua clara filiação ocidental e italiana, declarava sua solidariedade aos movimentos de descolonização e afirmação de variadas identidades, sem rejeitar a razão e a autonomia do projeto. A postura envolvia uma afirmação contrária a mentalidade pós moderna imperante então, que negava a modernidade com sua teleologia da história, que acreditava caminhar em direção a um aprimoramento geral das condições de vida, socialmente compartilhadas. A crítica ao Iluminismo, e sua crença no progresso interminável da modernidade da Escola de Frankfurt estava presente no neo-racionalismo da tendenza italiana, no entanto, a crença na razão permanecia intacta, pois era ela que garantia o diálogo entre diferenças. Havia uma certa melancolia, típica da Escola de Frankfurt, na sua referência aos filósofos; Adorno, Hockheimer e Benjamim, que haviam produzido críticas ácidas ao otimismo iluminista, a partir da ascensão do fascismo na Europa, em vários contextos.

"Ni tampoco estoy de acuerdo con las conclusiones del estúdio de Leonardo Benevolo, em las cuales - reexaminando los Orígenes de uma desviación que hoy es sólo aparente - se afirma que "las instancias renovadoras de la cultura urbanística moderna sólo pueden traducirse em realidade reencontrando los contactos con las fuerzas políticas que tienden a uma análoga transformacioón general de la sociedade"  en cuanto "la urbanística es uma parte de la política, necessária para concretar todo programa operativo y al mismo tempo no reducible a las fórmulas programativas generales." Como para muchas otras disciplinas, el afortunado encuentro con la política sólo se ha dado y se dará em circunstancias excepcionales: recordemos la Viena de 1918, las nuevas ciudades soviéticas de 1925, la Inglaterra de 1945." AYMONINO 1972 página19

O livro, como o próprio Aymonino declara é uma resposta crítica à construção de Leonardo Benevolo, que havia lançado As origens da urbanística moderna em 1963 na mesma Itália, que fazia identificações descaracterizadas entre urbanística e política. Existia um clima geral de revisão política, que se iniciara em 1956 no âmbito do XX Congresso do Partido Comunista em Moscou, onde Nikita Khrushchev admitia e criticara os excessos de Stálin, e do Exército Vermelho na Hungria. Na Itália e na França, vozes como Raniero Panzieri ou Mario Tronti com seus ensaios nos Quaderni Rossi, e Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, com sua revista Socialisme ou barbarie já apontavam a burocratização da Revolução Soviética, e o Estatismo opressor. Ainda haviam menções permitidas ao mundo do trabalho, que claramente se contrapunha a lógica dos proprietários, ou a solidariedade contraposta a concorrência, ou ainda, cooperação e luta de classes. Para Aymonino era necessário uma classificação mais precisa da urbanística e da política, que claramente se distinguia entre conservadora e progressista, seguindo os passos de Gramsci, e do programa do PCI, que lançava naqueles anos as bases do eurocomunismo. Havia também um claro esforço de delimitação do campo ou ofício do urbanismo e da arquitetura em conjunto, sem as corriqueiras distinções que então vinham sendo feitas, inclusive pelo próprio Benevolo. A perspectiva de reconstrução do ofício, referenciando essa fortemente na atitude do desenho seduzia de forma definitiva a minha geração, que já se acostumara com uma divisão, algo comportada, entre cidade; formulação escrita, e arquitetura; formulação desenhada. Isto é, urbanistas escrevem, enquanto arquitetos ainda desenham. Havia nessa atitude, um raciocínio implícito algo caricato, de que o desenho era uma atividade arbitrária, autoritária e portanto alienadora de consciência, enquanto a textualidade uma forma mais neutra e acessível a todos.

"Foa a los urbanistas italianos (reunidos em su X Congreso, em octubre de 1964) de no detener el justo critério de interdependência de los fenómenos de asentamiento - puestos de relieve por los estúdios hasta entonces realizados - em los umbrales de las relaciones de producción. Sólo traspassado este umbral, la disciplina específica puede aportar su contribución a uma transformación real del presente y participar de la unidad entre reinvindicaciones económicas (trabajo, salario) e hipótesis urbanísticas (programa, plan). Por outra parte, el movimento obrero sólo puede acentuar su propia hegemonia afrontando el problema de la producción a nível de la ciudad em su conjunto, como processo integral, que involucra cada vez más los problemas de transformación de todo el território nacional." AYMONINO 1972 página11

A afirmação dos fenômenos inerentes aos assentamentos humanos articulados com as relações de produção não nos deixava dúvida, de que as reinvindicações justas do trabalho deveriam estar expressas no programa e no plano, como numa unidade entre desejo e desenho. A explicitação clara do caráter classista da cidade especulativa, que ao contrário de se referir ao território de toda cidade, tentava individualizar intervenções pontuais, nos apontava a necessidade de atuação coordenada em várias escalas, e em toda a cidade. A questão não era de que a intervenção só se justificaria em todo o território da cidade ou do país, mas que qualquer transformação se articula com esse conjunto, devendo portanto ser pensada de forma estruturada, buscando interesses da maioria e não de uma minoria. A referência é aos assentamentos humanos como um todo, em suas diversas escalas e manifestações, envolvendo até o território nacional, como uma continuidade interdependente e relacionada, e a uma mais antiga contradição, entre campo e cidade. Naquilo que Marx e Engels já haviam descritos como a subdivisão de trabalho mais antiga, e, também a exploração ou controle mais primitivo, a relação de dominação entre cidade e o seu entorno, ou seu campo. Apesar da constante referência a outros saberes e ciências há um esforço continuado por definir os limites do profissional que se arrisca na proposição de novas configurações, o arquiteto, que ao estarem claramente formuladas garantem, e só são alcançadas pelo desenho e pela obra. Mas também, por uma gestão territorial que tenha como premissa a inclusão de todos os interesses conflitantes, e não apenas, os de uma minoria promotora do lucro privatizado sempre contraditório com a qualidade. Essa última pressupõe a explicitação dos conflitos de interesses dos diversos setores e extratos sociais, que devem equilibrar a habitação, o lazer, os serviços e o comércio, enfim o trabalho. A realidade física de nossas cidades é um reflexo das nossas relações sociais, exatamente de fragmentação e particularização de determinados trechos em detrimento de outros.

"No soy un economista y no puedo aventurarme em uma demonstración económica: pero em mi campo, el de la arquitetura y de las formas urbanas, no me ha sido dado comprovar em estos años alguna solución de continuidade ni inversión positiva, sino aquella - ya clarificada em el curso del último siglo por muchos marxistas - entre producción y relaciones de producción, entre sociedade y relaciones sociales que tan bien se reflejan y se leen em la realidade física de la relación ciudad-campo." AYMONINO 1972 página12

A capa do livro de Rossi em sua quinta
edição da Gustavo Gilli
Mas para além das reflexões de Aymonino, um outro arquiteto também italiano marcou de forma mais marcante com seus projetos e escritos aquela geração de arquitetos da FAU-UFRJ, entre os anos de 1978 e 1983. Seu nome, Aldo Rossi (1931-1997), através do livro Arquitetura da Cidade, na sua versão em espanhol da Editora da Gustavo Gilli, na sua quinta edição de 1981, que tinha um precioso prólogo de Salvador Tarragó Cid. Nesse prólogo, o arquiteto Salvador Tarragó questionava Rossi, de que, apesar de concordar com a dimensão arquitetônica do urbano considerava importante complementá-la, pela dimensão também urbana da arquitetura.. Na verdade, Tarragó celebrava e questionava o lugar comum partilhado por todos, naqueles anos sessenta, da supremacia da dimensão econômica na cidade, relativizada por Rossi a partir de sua inércia construída e já realizada, suas pré-existências e seus elementos primários. Essa questão envolvia, quase como consequência imediata a consideração do ato arbitrário do projeto, o traçado de ruas e o parcelamento da terra, sua vinculação com a arte, a dimensão do estético, suas respostas às expectativas do programa econômico, a partir de parâmetros atuantes num campo, que desfruta de certa autonomia, que possui seus próprios referenciais e paradigmas. Então, percebia-se na obra dos arquitetos italianos, um enorme esforço para reconstrução do campo autônomo do plano e do projeto, não apenas na dimensão da eficiência quantitativa cobrada pelo capital, mas também em sua importância intuitiva e artística, não mera simplificação e objetivação.

"Asi, mientras que se puede interpretar lo artístico como el campo próprio de lo intuitivo e irracional, valores éstos que al ser assignados desde uma óptica positivista que circunscribe el mundo de lo essencial estrictamente a la dimensión de la realidade con que opera (la de las relaciones cuantitativas), forzosamente ha de conllevar uma subvaloración de la importancia y transcendência del arte al quedar éste ligado a uma forma de intervención no cientificista y por lo tanto secundaria." Salvador Tarragó Cid no prólogo de ROSSI 1981 página 8

O Arquitetura da Cidade, depois apareceu em tradução portuguesa, na edição da Martins Fontes de 1995, que já não tinha o prólogo de Salvador Tarragó Cid, mas ampliou substancialmente seu impacto nas escolas de arquitetura do Brasil. A trajetória do livro é bastante peculiar, tendo sido publicado na Itália em 1966, ele teve uma influência inicialmente restrita as escolas de arquitetura deste país, quando em 1982 Rossi viaja aos EUA, convidado por Peter Eiseman (1932-), que então comandava o Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos de Nova York e lança The Architecture of the city, com prefácio de Eiseman, o livro ganha outra penetração nos meios acadêmicos. A tese de Rossi se ancorava em três debates presentes na cultura arquitetônica italiana, e permanecia com essa capacidade de Aymonino de descrever de forma genérica a cidade contemporânea. A primeira vertente vinha de Bruno Zevi (1918-2000), que celebrava a arquitetura orgânica de Frank Lloyd Wright e havia fundado o Movimento pela Arquitetura Orgânica na Itália. O seu livro Saber ver arquitetura (1948) celebrava a América livre das amarras econômico e culturais da Europa e enfatizava não a materialidade do construído, mas o vazio aprisionado por esta. Outra referência era o pensamento de Giulio Carlo Argan (1909-1992), crítico de arte que havia elegido a arquitetura como obra de arte carregada de impessoalidade, como uma obra coletiva, mas apesar disso única. Seu livro, Walter Gropius e a Bauhaus (1951) celebra a experiência didática da Bauhaus e sua visão de encarar a arquitetura como articuladora de todas as artes. Seu outro livro, Progetto e destino (1965) certamente está presente no pensamento de Rossi, que sempre pautou sua reflexão teórica a partir da concepção de que o ato de planejar e projetar era também uma forma de abordar o real. Por último, o editor de Casabella e Continuittá, (1953-1965) o arquiteto Ernesto Nathan Rogers (1909-1969), que em 1932 fundara o escritório de Milão BBPR, com outros três companheiros. Rogers era um arquiteto atuante e um polemista a frente de publicações especializadas, como Quadrante (1933-1936) e Casabella, que ao assumir a chefia de sua editoria, agrega a palavra continuidade, fazendo clara referência aos conjuntos urbanos, destacando que a beleza da arquitetura se encontrava em sua inserção urbana. Rogers também identificava um claro posicionamento ético e militante nos posicionamentos dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAMs), como um projeto político de trajetória liberal, mas que reforçava um padrão democrático, tanto para a cidade, como para a arquitetura. É nesse contexto rico e diversificado, que Arquitetura da Cidade é publicado, representando para nós um alento positivo, que reavaliava o projeto como um ato autônomo e positivo.

“Entendo a arquitetura em sentido positivo, como uma criação inseparável da vida civil e da sociedade em que se manifesta; ela é por natureza coletiva. Do mesmo modo que os primeiros homens construíram habitações e na sua primeira construção tendiam a realizar um ambiente mais favorável à sua vida, a construir um clima artificial, também construíram de acordo com uma intencionalidade estética. Iniciaram a arquitetura ao mesmo tempo em que os primeiros esboços das cidades; a arquitetura é, assim, inseparável da formação da civilização e é um fato permanente, universal e necessário.” ROSSI 1981 página60

Havia no livro uma clara celebração do ato de planejar e projetar, como a conformação de um discurso persuasivo e de convencimento, comandado pelo arquiteto, mas submetido ao conjunto social, com a clara consciência da natureza coletiva da arquitetura. A presença da escola de geografia francesa era também um fato, que envolviam geógrafos e sociólogo como; Marcél Poëte (1866-1950), Maurice Halbwachs (1877-1945), Jean Tricart (1920-2003), George Chabot (1890-1975) e Max Sorre (1880-1962). Cada um deles com uma contribuição específica, Poëte com as complexas interações entre matéria e memória vindas de Bergson, Halbwachs com o conceito de memória coletiva, Tricart com a geomorfologia e clima, e Chabot e Sorre a partir da conciliação entre geografia humana e física. O livro envolvia a sistematização do ato de projetar, que se apropriava dos fatos urbanos, construindo uma cidade análoga que era fruto do poder discricionário do projetista, que elegia os elementos a serem manipulados, como na pintura de Canaleto para Veneza. O ato arbitrário buscava uma justificação na própria história da cidade, aproximando o ato de projetar de uma cientificidade subjetiva. Havia um resgate do movimento moderno, apesar da identificação de uma simplificação ortodoxa na menção a um funcionalismo ingênuo, que na verdade banalizara e acomodara as decisões projetuais.

"Nesse estudo de arquitetura que considera e cresce sobre todo seu passado, ocupa um lugar proeminente a meditação sobre a teoria da arquitetura do Movimento Moderno; por isso esse livro constitui também uma valoração do legado do Movimento Moderno, por essa herança ter grande significado... Aceitar tal herança significa desde logo por em um plano crítico o material disponível. Atualmente a teoria do movimento moderno como salto qualitativo da arquitetura ou como movimento político moral foi abandonada quase por todos, exceção feita por alguns obstinados que preferem as ideias e as tendências artísticas do passado às modernas, e cuja produção, por outro lado, não aumentou em nenhum sentido o patrimônio defendido. Nesse livro, se oferece uma primeira valoração dessa herança, intentando ver os termos dentro dos quais sua aceitação é positiva." Tradução minha do espanhol. ROSSI 1981 página 41

Outro livro, do mesmo Rossi, que também fez a cabeça dos jovens arquitetos da FAU-UFRJ, naquele final dos anos setenta e início dos anos oitenta, dessa vez para os já iniciados em sua teorização, era o Para uma arquitectura de tendência, escritos de 1956-1972, que trazia uma série de artigos publicado no calor dos debates da imprensa italiana. No qual apenas destaco; La arquitectura de la razón como arquitetura de tendência e Tipologia, manualística y arquitectura, mas isso pode ficar para um outro artigo.

NOTAS:
* Dois livros precedem a Origem e desenvolvimento da cidade moderna; ROSSI, Aldo - A arquitetura da cidade - editora Gustavo Gilli Barcelona 1981, que a primeira edição italiana data de 1966 e SALZANO, E. Urbanística e societá opulenta - editora Bari Milão 1969.
** Os expoentes mais atuantes dessa corrente na Itália eram; Carlo Aymonino, Aldo Rossi, Ludovico Quaroni, Mario Ridolfi, Manfredo Tafuri, Giuseppe Samoná, Ernesto Nathan Rogers (editor de Casabella i Continuitá de 1953 a 1965). Não eram uma unidade fechada de idéias e conceituações sobre a arquitetura e a cidade, como nos parecia no Brasil de então, mas uma pluralidade de visões diversas. Para um mais aprofundado mapeamento ver: AURELI, Pier Vitório - The project of autonomy: Politics and Architecture within and against Capitalism - Princeton Architectural Press Nova York 2008

BIBLIOGRAFIA:
AURELI, Pier Vitório - The project of autonomy: Politics and Architecture within and against Capitalism - Princeton Architectural Press Nova York 2008

AYMONINO, Carlo - Origenes y desarrollo de la ciudad moderna - Editorial Gustavo Gilli Barcelona 1972

ENGELS, Friedrich - A questão da habitação - editora Aldeia Global Belo Horizonte 1979

ROSSI, Aldo - La arquitectura de la ciudad - editorial Gustavo Gilli Barcelona 1981

ROSSI, Aldo - Para uma arquitectura de tendência, escritos 1956-72 - editorial Gustavo Gilli Barcelona 1977

sábado, 5 de janeiro de 2019

O jovem Gramsci, a linguagem e as formas de construir

Capa do livro de Leonardo Rapone
Gramsci chegou a Turim em outubro de 1911, aos vinte anos de idade, havia conseguido em junho o diploma do liceu em Cagliari, capital da Sardenha, e chegara ao Piemonte pretendendo ingressar na Faculdade de Letras. Não era um abastado, se confrontava com uma grande penúria de meios de sustento, sua saúde era precária, e era um imigrante da Sardenha, uma das regiões mais pobres da Itália recém unificada, exatamente pelo Piemonte rico e industrializado. Sua família era bastante precarizada, seu pai em 1898 havia sido preso por peculato, concussão e falsidade ideológica, deixando a família sobreviver com os bens da herança materna, e de seus trabalhos como costureira. Por outro lado, havia sido um excelente estudante, naquele ano de 1911 participara de um concurso do Colégio Carlos Alberto, uma instituição beneficiente que fornecia bolsas de estudos para estudantes em condições desfavoráveis, obtendo a bolsa pelos anos de 1911-12. Naquela sua chegada a uma metrópole como Turim, seu primeiro esforço foi se despir de seu provincianismo paroquial, de um homem da Sardenha do princípio do século, abraçando a modernidade cosmopolita, que rapidamente se industrializava com a instalação de fábricas como a FIAT e a LANCIA. Essa condição de subalterno no espaço social da Itália será uma das fontes mais profícuas do seu pensamento, a noção de um certo centro impulsionador do capital, constituído primeiro pela Inglaterra e depois pelos EUA. A subalternidade da Itália nesse sistema mundial, a minoridade da burguesia italiana frente a inglesa, americana e francesa, sua declaração de dependência do Estado Nacional, a fraqueza do liberalismo italiano frente a essas outras três nações. A posição da Sardenha e a parte meridional da Itália agrária, católica e arcaica, frente ao norte industrializado, urbano e moderno. A reflexão de Gramsci terá sempre esse componente histórico espacial e cultural, que identifica especificidades, mapeia suas potencialidades e problemas, buscando sempre a estratégia da transformação. Mantendo sempre um otimismo propositivo. Sua consciência do desenvolvimento capitalista, sempre nos remete ao confronto entre o arcaico e o moderno, aonde as duas condições não são apenas polos antagônicos, mas realidades que tomam conhecimento mútuo, e muitas vezes exploram sua proximidade de forma complementar.

"Em 1913, nos meses de interrupção da atividade universitária, Gramsci pode assistir na sua ilha à campanha para as primeiras eleições com sufrágio semiuniversal* e dela retirou uma impressão muito viva da eficácia da política como fator de mobilização e transformação das massas camponesas, admitidas pela primeira vez ao exercício do voto. Em setembro, na esteira das eleições, realizou seu primeiro ato político público, aderindo ao grupo de ação e propaganda dos interesses da Sardenha, de inspiração antiprotecionista, que se constituira  no verão**. São particularidades de certa importância, porque nos conduzem ao tema da desprovincialização e nos ajudam a entender a natureza do processo que se realizou no espírito do jovem sardo. A inscrição de Gramsci no PSI é parte integrante de sua nacionalização; com tal ato Gramsci não cortava as raizes territoriais, mas especificava a dimensão intelectual e política na qual buscaria a explicação e perseguiria a solução para as angústias e os problemas específicos da Sardenha, lugar originário e indelével da sua tomada de consciência dos antagonismos sociais." RAPONE 2014 páginas63 e 64

E, mais do que sua nacionalização, Gramsci toma consciência das interações no sistema capitalista entre as nações da Europa e dos EUA, hierarquizando suas histórias e constituições, definindo uma centralidade muito além da mera simplificação econômica. Mas logo após sua chegada a Turim, Gramsci circulava no meio sindical, como produtor de ensaios e textos para jornais ligados ao Partido Socialista Italiano (PSI), ao mesmo tempo, era demandado pela Faculdade de Letras de Turim para temas acadêmicos, como os estudos de glotologia*** do professor Matteo Bartolli, uma referência dos neolinguistas. Também a língua, sua evolução e seu desenvolvimento irão sempre constituir para Gramsci como um ordenamento estruturado de forma molecular e dispersa, e de baixo para cima, com transformações contínuas, que lhe permitiam analogias com a política. Além disso, a questão da língua sempre esteve nas reflexões de Gramsci relacionada à organização da cultura e à função dos intelectuais orgânicos das diferentes classes sociais. Gramsci também construirá um forte vínculo entre linguagem e forma de estruturar o pensamento, negando de forma enfática o naturalismo e o mecanicismo, que imperava nos meios marxista do início do século XX. Mas ao mesmo tempo valorizando de sobremaneira a forma como a linguagem se estrutura, possibilitando a criação, a reformulação e a revolução dentro de parâmetros e regulações socialmente introjetadas em cada indivíduo. Para Gramsci, o estudo e o aprofundamento no fenômeno da linguagem sempre será proveitoso, reunindo criatividade e compreensão socialmente compartilhada, que na verdade impulsionam um devir histórico real e apartado do idealismo.

"Mas aqui quem se pronuncia não é só o discípulo de Bartoli: é também o militante político para o qual opor-se ao esperanto equivale a declarar-se 'revolucionário' e 'historicista': de fato, significa afirmar que na base do devir histórico está 'a atividade das energias sociais livres', excluindo as utopias - isto é, a pretensão de buscar projetos abstratos, ao mesmo tempo arbitrários e ilusórios, sobrepostos ao agir dos homens - e combatendo a ideia de que o movimento da vida e da história, entendido por Gramsci como perpétuo 'fluir de matéria vulcânica liquefeita', possa atingir um estágio último e definitivo, porque hipoteticamente perfeito: 'Por isso abaixo o esperanto, tal como abaixo todos os privilégios, todas as mecanizações, todas as formas definitivas e enrijecidas de vida, cadáveres que empestam e agridem a vida em devir'"****RAPONE 2014 página57

Foi exatamente essa celebração do acaso no devir histórico, que sempre mobilizou a curiosidade de Gramsci, e sua capacidade de pensar estratégico, aonde a pretensão ao controle total, já denotava sua crítica aos processos revolucionários violentos. E, as formulações posteriores da distinção entre guerra de posição e guerra de manobras, e o próprio conceito de hegemonia, que dinamiza a ideologia como instrumento efetivo de ação no cotidiano. Mas, outro professor, que incentivou Gramsci ao ensaísmo foi Umberto Cosmo, livre-docente de Literatura Italiana, que incentivou-o a escrever sobre Maquiavel desde 1917, buscando uma ponte entre a cultura e a política, que tanto seduzia o jovem sardo. Nesse sentido, sua simpatia pela ação de ruptura das vanguardas culturais, que contaminavam o ambiente italiano do início do século XX é apontado sempre com destaque de sua vivacidade intelectual, além de um traço de pertencimento geracional. A revista La Voce de caráter burguês e L´Ordine nuovo fundado em 1919, da qual fazia parte mostram esse esforço de tentar dar agilidade e vivacidade à acadêmica e "balofa cultura italiana", nas palavras do próprio Gramsci. Percebe-se nas posições do filósofo da Sardenha, já na sua juventude um profundo vínculo com a cultura humanista italiana, que muito além da política constroe uma conexão entre vida cotidiana e estratégia de construção socialista. Uma continuidade didática, e que celebra na atividade política uma capacidade pedagógica de constante aperfeiçoamento, cada vez mais distante do idealismo, fazendo um enorme esforço em direção ao pragmatismo. Num exemplo dessa atitude embrionária, a partir de um discurso em 1916 de Filippo Turati, um socialista reformista, que declara ferrenha oposição a qualquer forma de sabotagem do esforço bélico italiano na primeira guerra, finalizando no seu texto com a expressão; "isto seria ao mesmo tempo idiota e nefando", Gramsci nas páginas do Avanti de janeiro de 1917 coloca a questão do léxico do líder reformista contra ele próprio;

"Pesemos as palavras. Idiota: palavra nobilíssima, de origem grega. Idiota significa, antes de mais nada, soldado simples, soldado que não tem galão. Significa em seguida: quem pensa com a própria cabeça, quem é peculiar, quem ainda não se submeteu à disciplina social vigente...Idiota é quem é diferente, quem pensa e fala diferentemente da maioria. Idiotismo é a palavra ou o modo de dizer próprio de uma região, e não usado na língua literária ou nacional... Nefando, palavra igualmente nobre, de origem latina. Significa: quem fala como a divindade proibiu que se falasse, quem faz afirmações proibidas pela lei. Duas palavras que têm um valor autenticamente democrático do ponto de vista social." RAPONE 2014 página55

Fica claro nesse posicionamento do jovem Gramsci, essa dimensão questionadora e fora dos parâmetros de uma zona de conforto cômoda, que esse pensamento nos propõe a nos levar, aonde a mentalidade solidária e socialista não se restringe a conquista do poder, mas permeia o agir diário. O livro de Leonardo Rapone, traduzido em 2014 destaca uma série de textos onde o jovem Gramsci, a partir da ironia e em torno do significado assumido pelas palavras em diferentes ocasiões e contextos fustiga seus opositores levantando a adaptação das palavras à diferentes realidades ideológicas e temporais. Gramsci sempre irá celebrar esse caráter indomável e avesso ao autoritarismo, que a língua carrega, como no caso da unidade linguística da Itália, proposta em seu tempo a partir do dialeto da toscana, proposta por Manzoni, ou no caso da adoção do Esperanto como facilitador da comunicação internacional. O linguista e filósofo sardo irá repelir com veemência a imposição de cima para baixo, sobre o argumento de que "a linguagem, ainda antes de mecanismo comunicativo, é produto em contínuo devir." RAPONE 2014 página56. Na questão da lingua internacional, o Esperanto, Gramsci sem dúvida já celebrava a internacionalização da solidariedade entre despossuídos, mas reafirmava a presença da necessidade pulverizada e molecular, que criaria as condições para a emergência da nova língua a partir do cotidiano, e não por decreto. Há nas referências linguísticas de Gramsci uma constante menção às energias sociais livres, que nunca irão parar de se desenvolver, fazendo pouco caso das narrativas que pensavam num estágio último e definitivo das contradições sociais, que para ele jamais cessariam. Assim como, a linguagem, a arquitetura, que é uma necessidade humana difundida e presente em toda a humanidade, afinal o homem em suas diversas culturas produz seu próprio abrigo, e não reconhece no planeta e no seu ambiente, tal qual está constituído, um acolhimento adequado. Afinal, existe a produção da arquitetura culta dos arquitetos, e aquela produzida pela auto construção, pela necessidade do abrigo, aonde as referências construtivas estão presentes, assim como na língua. Essa condição, de auto reprodução das técnicas de construção do sua própria sobrevivência se dissemina entre as pessoas conforme o vocabulário, que dominam, seja na materialidade disponível, ou na parcela aonde estão autorizados a realiza-la, o que vincula de forma definitiva, a linguagem à cultura do construir, que sempre tem profundos vínculos com o lugar e com o tempo. O que também está constituído na cidade, que nunca é a mesma, justamente em função das variações dessa linguagem do construir, tanto no espaço, como no tempo.

"O povo italiano, há cinquenta anos, não existia, era só uma expressão retórica, Não existia nenhuma unidade social na Itália, existia uma unidade geográfica. Existiam milhões de indivíduos dispersos no território italiano, cada qual vivendo para si mesmo, preso no seu torrão particular; ninguém sabia da Itália, cada qual falava um dialeto particular, acreditava que todo mundo estava limitado ao horizonte de sua aldeia. Conhecia o coletor de impostos, conhecia o carabineiro, conhecia o juiz e o tribunal: sua Itália. E, no entanto, esse indivíduo, muitos destes milhões de indivíduos superaram este estágio particularista, formaram uma unidade social, sentiram-se cidadãos, sentiram-se colaboradores de uma vida, que saia do horizonte da sua aldeia, que se estendia por espaços cada vez mais amplos do mundo, que se estendia ao mundo inteiro.... Ele fez com que um camponês da Puglia e um operário de Biella falassem a mesma língua, passassem, tão distantes, a se expressar de modo igual em relação ao mesmo fato, a dar um juízo igual sobre um acontecimento, um homem..." RAPONE 2014 páginas 66 e 67

Aqui há uma profunda vinculação entre espaço nacional, esforço particular e individual, construção de uma mentalidade coletiva solidária, identidade linguística e cultural, consciência e determinação, particularidades que também estarão presentes na arquitetura. Na verdade, os alicerces conceituais do jovem Gramsci são vários e diversificados, indo do socialista Benedeto Croce ao fascista Giovanni Gentile, ambos neo-idealistas e hegelianos, de Henri Bergson com sua construção da consciência, ao engenheiro sindicalista George Sorel, ambos detratores do positivismo. Sua filiação ao marxismo problematiza sempre a tendência a um certo economicismo, e reafirma a centralidade da cultura e a necessidade de atuação na revolução dos costumes cotidianos dos diversos agentes. Gramsci encara a teoria de Marx não como a elaboração de uma síntese fechada, baseada em ortodoxias, mas como um pensamento sistêmico que permite apropriações variadas em função das conjunturas históricas e espaciais específicas. A identificação da figura do intelectual como uma possibilidade acessível aos diversos extratos sociais, na construção do pensar orgânico, que por vivenciar uma determinada experiência carrega um conhecimento, que merece um espaço de narrativa a ser ouvida. Sua construção da cultura e do pensar humano sempre se afastou de um certo elitismo exclusivo, mirando numa prática cotidiana portadora de uma potência didática e reveladora da liberdade. Seu marxismo jamais tendeu a redução determinista e etapista, suas reflexões a partir do advento da revolução russa e seu ainda embrionário sistema capitalista, sempre enfatizaram a questão do indivíduo como impulsionador da história.

Enfim, o sistema gramsciano de pensamento está fortemente estruturado em torno das dimensões da linguagem, do conceito de centro e de hierarquia, bem como a ideia de espacialidade e temporalidade diversificadas, que geraram especificidades, que precisam ser estudadas. Tudo isso configura um instrumental importante para a compreensão da cidade e da arquitetura no nosso mundo contemporâneo.

NOTAS:

* O sufrágio universal masculino foi decretado em 1912, e apenas em 1945 admitiu a participação das mulheres.
** RAPONE 2014 página 64 destaca que a adesão de Gramsci foi publicada na Voce9 de outubro de 1913.
*** Glotologia, ciência que estuda comparativamente as diversas línguas, considerando suas origens e formação. (Sin.: glossologia, glótica.)
****RAPONE 2014 página57 destaca que Bartoli sempre destacava a mobilidade da vida da linguagem.

BIBLIOGRAFIA:

RAPONE, Leonardo - O jovem Gramsci: cinco anos que parecem séculos 1914-1919 - Editora Contraponto Rio de Janeiro 2014

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O espaço da Europa em 1848, e o nosso tempo contemporâneo

Mapa da região da atual Alemanha em 1848, ano de publicação do
Manifesto Comunista
Karl Marx nasceu em 1818 na Prussia, e morreu em 1883 em Londres, é portanto um típico homem do século XIX, com alguns traços burgueses e conservadores, característicos do seu tempo notadamente em suas relações familiares e pessoais. Uma das mais belas sínteses sobre essa faceta da vida do filósofo alemão é o livro da sua biógrafa inglesa, Mary Gabriel, Amor e Capital, a saga da família de Karl Marx e a história de uma revolução, que nos revela sua vida afetiva. Um dos aspectos mais destacados por Mary Gabriel é o amor e a dedicação da nobre prussiana Jenny von Westphalen, que foi sua mulher durante toda sua vida. Mas, uma das questões apresentadas logo no começo do livro, que exatamente assinalam essa condição de um homem do século XIX é o mapa da ainda inexistente Alemanha em 1848, mesmo ano da publicação do Manifesto Comunista. A pequena cidade de Treveris aonde Marx nasceu em maio de 1818 ao norte de Berlim, mau está assinalada no mapa. A Prússia que domina a costa do Mar do Norte ainda se estende em sua parte oriental, com o nome de Prússia Polonesa. O Império Austríaco, com sua capital na cidade de Viena ainda domina uma ampla região no sul, mantendo fronteira com o Império Otomano, chegando ao que foi a Hungria. Esse mesmo Império também denominado de Austro Húngaro, alcançava o Mar Adriático, dominando a região da Lombardia-Venecia, que envolve a atual região do Veneto da Itália, e que abriga uma das cidades mais marcadamente italianas do nosso tempo, a charmosa Veneza. A Alemanha atual ainda está partida em uma série de reinos e feudos, como; a Silésia, a Baviera, a Saxônia, a Westphalia, e outros, sendo denominada como Confederação Germânica. No mesmo ano de 1848, a Itália também está partida em uma série de pequenos reinos, iniciando o processo do que se denominou, o risorgimento, que foi sua unificação.

O segundo mapa apresentado por Mary Gabriel é o da Europa também em 1848, com uma nota esclarecedora de que grande parte das fronteiras da Europa haviam sido definidas pelo Congresso de Viena de 1815, que após a queda de Napoleão haviam consolidado fronteiras a oeste da França de monarquias, apesar dos clamores pelas liberdades democráticas. Vários historiadores destacam o papel de Napoleão na disseminação dos ideais da Revolução Francesa, através das Guerras Napoleônicas no continente europeu.  Nessa mesma nota, também assinala-se, que no ano de 1848 ocorerram uma série de rebeliões, que reforçavam as demandas por liberdades democráticas, e que foi a única revolta continental da história europeia, segundo a biógrafa inglesa. Tal fato, explica a veemência da frase inicial do Manifesto Comunista, que se inicia com o anuncio de que; "Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo."

Mais uma questão também se destaca no mesmo livro, as condições de salubridade da Londres da Rainha Vitória, aonde a família do velho Marx viveu, que não era das melhores e que acabou determinando a morte de dois de seus filhos, devido a epidemias como cólera, típicas das condições sanitárias e das péssimas formas de sustentação. O mapa de Londres ao lado, assinala o ano da morte de Marx 1883, mas em 1851 quando chegou a cidade o filósofo alemão estava com 33 anos e a cidade mantinha as mesmas condições. Marx e sua mulher, Jenny von Westphalen e cinco filhos ocuparam um sótão na Dean Street no terceiro andar sem instalações sanitárias refugiados primeiro da França e depois da Bélgica. Apesar disso, a cidade se destacava no cenário europeu como destino preferencial de irlandeses, alemães, franceses, húngaros, italianos refugiados de seus países por conta das rebeliões contra as monarquias de seus países.

"Eram refugiados políticos após tentativas fracassadas de derrubar a monarquia e lutavam pelas liberdades mais fundamentais. Agora, castigados pela chuva e pelo frio cortante, até a ideia de lutar pelos próprios direitos parecia absurda. O farol que Londres parecia ser se provara uma miragem; a cidade lhes abrira as portas, mas não lhes dera nada. Morriam de fome. Dia e noite uma cacofonia de vozes aflitas se esgoelava para se fazer ouvir em meio ao rumor da capital. Para sobreviver, os recém-chegados vendiam tudo o que podiam – cortes de tecido, botões, cadarços. O mais frequente, contudo, era venderem-se a si mesmos, por hora ou por dia, no trabalho ou na prostituição. " GABRIEL 2013 página21

Apesar dessa grande força de atração das diferentes nacionalidades, as condições sanitárias de Londres e de Manchester eram absolutamente degradantes, envolvendo densidades inimagináveis e condições habitacionais insuportáveis, nunca antes vistas. As cidades na Inglaterra, e logo depois na Europa explodem com um número de população nunca visto, Manchester em 1760 tinha 12mil habitantes, em 1850 atinge 400mil. Engels descreveu as terríveis condições desse crescimento explosivo das cidades industriais inglesas dessa época, reconhecendo a perda de uma certa unidade comunitária, para uma diversidade de grupos culturais e de raças. As condições da infância eram aviltantes, não havendo qualquer proteção contra o trabalho infantil nas fábricas, nas ruas, muitas vezes oferecendo seus próprios corpos para exploração sexual.

"Em Manchester, os ricos se empenharam para não ver os pobres - a cidade era disposta de modo que as classes ricas pudessem viver sem de fato jamais encontrar nenhuma pobreza. Em Londres tais esforços nunca tinham sido feitos. Ricos e pobres parilhavam as mesmas ruas, mas era como se fossem duas espécies diferentes, tão socialmente afastados, que era como se não existissem a não ser como objetos da exploração.. Em Manchester, os bairros operários se espraiavam como ervas daninhas ao longo do rio, mas em Londres os cortiços eram verticais, e os pobres lotavam edifícios de quatro andares do porão ao sótão. Cada centímetro, inclusive as escadas era ocupado. Algumas pessoas alugavam apenas um lugar na cama, nem mesmo uma cama inteira... A industria do sexo que reunia os pobres em Soho Square, St. Giles e no Strand era lendária. Crianças imitando adultos proferiam suas ofertas repulsivas para qualquer passante que pudesse lhes dar um centavo" GABRIEL2013 página127 e 128

Por tudo isso, percebe-se a condição de homens do século XIX tanto de Marx, como de Engels, apesar disso, a construção feita por eles do sistema capitalista, ainda mostra algumas permanências na sua forma de operar. Sem dúvida, o mundo capitalista e sua própria espacialidade mudaram de forma brutal do século XIX para o XXI, as formas de atuação e operação mudaram havendo uma clara aceleração dos processos, no entanto a lógica de procurar na forma monetária a segurança da realização do lucro permanece intocada. E, esse fato acarreta uma série de permanências que não parecem mudar. Uma certa aproximação inevitável, e inexorável com as crises. Aquilo que SCHUMPETER 2017 denominou como destruição criativa do capitalismo, uma forma constante de revolucionar as formas de atuação. Marx no século XIX já apontava essa marca do sistema capitalista de funcionamento, que tendia a procurar a forma monetária, tendendo inexorávelmente a especulação e ao rentismo para de certa forma se livrar da forma mercadoria. Essa capacidade de descrever criticamente o sistema capitalista é talvez o principal legado de Marx e Engels, que identificaram nas crises cíclicas da economia um modo atávico de realizar o lucro para poucos, e sempre concentrar renda. O historiador francês Fernand Braudel, na sua imensa obra fazia uma distinção, que me parece importante entre mudanças superficiais, que ocorrem na superfície do mar fustigado por ventos e ondas, enquanto as grandes profundidades se mostram imutáveis, e funcionando do mesmo jeito. Na sua analogia Braudel, se referia a longa transformação, sofrida entre o feudalismo e o capitalismo, fixando um certo padrão de repetição no capitalismo, no qual a última metamorfose era sempre a fase de predominância financeira, da realização do lucro, ou sua monetarização.

"O ponto de partida de nossa investigação foi a afirmação de Fernand Braudel, de que as características essenciais do capitalismo histórico em sua longue durée - isto é, durante toda suas existência - foram a flexibilidade e o ecletismo do capital, e não as formas concretas assumidas por ele em diferentes lugares e épocas: 'Permitam-me enfatizar aquilo que me parece ser um aspecto essencial da história geral do capitalismo: sua flexibilidade ilimitada, sua capacidade de mudança e de adaptação. Se há, segundo creio, uma certa unidade no capitalismo, da Itália do século XIII até o ocidente dos dias atuais, é aí, acima de tudo, que essa unidade deve ser situada e observada.'" BRAUDEL 1982 pagina 433, citado por ARRIGHI 1996 página4

Os ciclos repetidos do capitalismo são sem dúvida uma constante na sua história desde o século XIII europeu, conforme demonstrado por ARRIGHI 1996, aonde a sucessão de hegemonias dominadoras assinalam o processo apontado por Braudel. Uma fase de intensa produção, aonde a mercadoria parece ser a própria representação da riqueza, seguida por uma fase aonde a moeda passa a ser centralidade da prosperidade. ARRIGHI 1996, também assinala, que no século XIX o capital parecia ter encontrado uma nova casa, algo inusitado até então, que eram as unidades fabris de produção da revolução industrial, que pareciam ter ancorado o capital na produção. Mas logo, a repetição das crises em 1870 e 1929 mostraram que o padrão de busca pelo padrão rentista e especulativo se repetia da mesma forma. Desde os banqueiros genoveses do século XV, que descobriram que era mais seguro emprestar dinheiro aos reis da península ibérica, aos investidores de Wall Street em Nova York em 1929 ou em 20018, vale mais apostar do que produzir. As crises das duas grandes guerras na Europa determinaram para ARRIGHI 1996 a emergência de um novo modo de regulação, notadamente depois do segundo pós guerra, orientados pelo fordismo e pelo keynesianismo. Ainda, segundo o autor italiano, único momento em que o sistema distribuiu renda, mesmo assim apenas nas economias centrais, a partir da super exploração das economias emergentes e periféricas, que mantiveram as condições da acumulação primitiva, também apontada por Marx. No entanto, o modelo de regulação, pelo fordismo e keynesianismo começa a demonstrar esgotamento, com a crise do petróleo dos anos setenta, determinando nova desregulação representada pela ascensão de Thatcher (1979) e Reagan (1981). O mundo dos anos oitenta e noventa reencontra o liberalismo, a partir de sua nova face, o neoliberalismo, que primeiro no mundo anglo-saxão, e depois da Queda do Muro de Berlim, no resto do mundo ditam a celebração da concorrência, e a recusa a qualquer tipo de solidariedade. Diferentemente do liberalismo do final do século XIX e início do XX, o neo-liberalismo elege como fundamental a conquista e domínio do Estado, como aparato regulador da economia, e portanto, criador das regras de sua própria autoajuda.

"Superpondo-se parcialmente a essa biografia, numerosos estudos seguiram os passos da "escola de regulação" francesa, interpretando as atuais mudanças no modo de funcionamento do capitalismo como uma crise estrutural do que eles denominam de "regime de acumulação" fordista-keynesiano. Esse regime é considerado uma fase particular do desenvolvimento capitalista, caracterizada por investimentos em capital fixo que criam uma capacidade potencial para aumentos regulares da produtividade e do consumo em massa. Para que esse potencial se realize, são necessárias uma política e ação governamental adequadas, bem como instituições sociais, normas e hábitos comportamentais apropriados (o"modo de regulação"). O keynesianismo é descrito como o modo de regulação que permitiu que o regime fordista emergente realizasse todo o seu potencial. E este, por sua vez, é concebido como a causa da crise da década de 1970." ARRIGHI 1996 página2

Mais uma vez retornamos a Marx, e constatamos o poder convincente de sua argumentação no distante século XIX, que já naquele tempo entendia os Estados Nacionais como uma construção de ordenação do mercado, e portanto profundamente vinculado aos interesses da burguesia. A falsa dicotomia construída pela mídia conservadora entre estatismo e mercado demonstram como a esquerda foi se limitando em um raciocínio cada vez mais defensivo de posições a manter, do que a conquistar. Em Marx, Engels e até meados do século XX, o pensamento de esquerda mais estruturado afastava-se da defesa incondicional do Estado como representação do interesse público geral, e enfatizava seu caráter classista, e seus interesses inexoravelmente vinculados à burguesia. E mais, Estado e mercado eram estruturas que se constituíram mutuamente, viabilizando-se a partir de regulações que estruturavam a possibilidade de existência de ambos. A força de convencimento do argumento neo-liberal, que repete menos Estado e mais mercado é exatamente pelo recalque da interdependência. O mercado imaginado pelos economistas clássicos liberais era uma verdadeira utopia, inexistente em nenhum lugar ou qualquer época da história humana, pois era um espaço onde os agentes econômicos estavam horizontalmente nivelados, sem a dominação hierárquica dos monopólios, que são outra tendência inevitável do Capital. Afinal, qual a capacidade de resistência de uma cerveja artezanal no cenário econômico do Brasil, diante do monopólio do mercado exercido pela AMBEV? O argumento neo-liberal, repetido ad-infitum, "de que não existe almoço de graça" deveria ser substituído por; porque deram tanto almoço grátis aos monopólios e aos grande grupos econômicos, que acabam sendo defendidos pelos Estados por serem muito grandes para quebrar? Termino por aqui, citando o grande historiador Eric Hobsbawn, que em um de seus últimos livros colocou de forma apropriada nosso problema contemporâneo, que contrapôs o socialismo de Estado, aos fundamentalistas do mercado;

"Paradoxalmente, ambos os lados tem interesse em voltar a um importante pensador cuja a essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a globalização capitalista, como ele previa em 1848. Mais uma vez é óbvio que as operações do sistema econômico devem ser analisadas tanto historicamente, como uma fase da história, e não como seu fim, quanto de forma realista, isto é, em termos não de um equilíbrio de mercado ideal, e sim de um mecanismo integrado que gera crises periódicas capazes de transformar o sistema. A crise atual pode ser uma dessas. Mais uma vez, fica patente que, mesmo no intervalo entre grandes crises, "o mercado" não tem nenhuma resposta para o principal problema com que se defronta o século XXI; o fato de que o crescimento econômico ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano, e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta. O liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XXI. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério. " HOBSBAWM 2001 página375


BIBLIOGRAFIA:

ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
BRAUDEL, Fernand - The Wheels of Commerce - Harper & Row, Nova York 1982
GABRIEL, Mary - Amor e Capital, a saga da família de Karl Marx e a história de uma revolução - editora Zahar Rio de Janeiro 2013
HOBSBAWM, Eric - Como Mudar o Mundo, Marx e o marxismo de 1840-2011 - Editora Companhia das Letras São Paulo 2011
SCHUMPETER, Joseph A - Capitalismo, socialismo e democracia - Editora UNESP São Paulo 2017

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A premiação Arquiteto do Amanhã de 2018

A premiação Arquiteto do Amanhã 2018
A premiação denominada Arquiteto do Amanhã do IAB-RJ completou nesse ano de 2018 sua trigésima quinta versão, premiando arquitetos a partir do quinto período nas Escolas de Arquitetura do Rio de Janeiro. Sem dúvida nenhuma é um feito que deve ser comemorado, tanto por sua recorrência, como por sua qualidade. Nesse ano tivemos 38 projetos do estado do Rio de Janeiro e de outros estados como São Paulo e Espírito Santo. O júri foi constituído pelos arquitetos Noêmia Barradas, Claudio Crispim e César Jordão, que selecionaram cinco projetos para concorrerem ao Prêmio do CAU-RJ, Arquiteto Grandjean de Montigny, que oferece ao primeiro colocado uma viagem a uma capital sul americana. De uma maneira geral, os trabalhos tiveram um nível bastante alto, havendo um claro incremento de projetos de escala regional, talvez pela retomada no Rio de Janeiro do plano de escala metropolitana, que o Estado promoveu nos dois últimos anos, após a extinção da FUNDREM em 1989.

As escolas de arquitetura são um importante ponto de debates sobre a inserção e a utilização pela sociedade brasileira da prática de plano e projeto. E, portanto são elementos chaves num debate, que entende o maior desenvolvimento social justamente na adoção e intensificação de práticas prospectivas, isto é, a capacidade de programação de nosso vir-a-ser ou futuro. O ambiente acadêmico, pelo seu distanciamento crítico com relação a operação efetiva do ofício, oferece a possibilidade de se arriscar por proposições de contra-plano ou contra-projeto mais contundentes com relação a forma inercial de reprodução da cidade brasileira, da ocupação do espaço do país, ou da habitação. Essa condição traz para as amostras estudantis de uma maneira geral, uma maior capacidade crítica, um frescor de questionamento frente a prática profissional operante, que só lhe faz bem.

O júri do Prêmio IAB-RJ Arquiteto do Amanhã escolheu os seguintes trabalhos mostrados abaixo, sendo os identificados como prêmio, os que foram encaminhados para o júri do CAU-RJ, que foi composto pelos arquitetos; Luiz Carlos Toledo, Celso Girafa e Tainá de Paula. Os projetos, que estão com imagens adjacentes foram os selecionados pelo júri do CAU-RJ, como Grande Prêmio Grandjean de Montigny.


CATEGORIA ARQUITETURA DE EDIFICAÇÕES



MENÇÕES HONROSAS



Trabalho 105-A

ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO: REQUALIFICAÇÃO DOS CIEPs A PARTIR DA LÓGICA DOS GEOS

Autora: Isabella Lopes Farias

Orientador: Luciano Alvares

Universidade: PUC



Trabalho 106-A

A Entre Objeto e Cidade: Autonomia e Resistência no Campo da Arquitetura

Autora: Júlia de Carvalho Carreiro

Orientadores: Diego Aníbal Portas e Guilherme Carlos Lassance

Faculdade: FAU/UFRJ



PRÊMIO:



Trabalho 103-A

OVO - Gastronomia com Origem - Uma Escola de Ecogastronomia em Botafogo - RJ


Autor: Thais Lendrick Souto Alves

Orientadores: Anna Rachel Baracho e Eduardo Julianelli

Faculdade: UFF

1o PRÊMIO ARQUITETO GRANDJEAN MONTIGNY DO CAU-RJ




CATEGORIA ARQUITETURA DE EQUIPAMENTOS CULTURAIS



MENÇÃO HONROSA



Trabalho 202-A

Centro Musical Urbano – Revitalização e Expansão da Casa de Shows Áudio Rebel

Autor: João Brum Rodrigues

Orientadores: João Calafate e Suzane Queiroz

Faculdade: PUC-Rio



CATEGORIA TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NA ARQUITETURA



MENÇÃO HONROSA



Trabalho 404-A

Soluções em madeiras laminadas coladas: arquitetura projetada por catálogo

Autora: Taissa Fontenelle Sily de Assis

Orientador: Denise Solot

Faculdade: PUC-Rio



PRÊMIO



Trabalho 403-A

TENDAS ILÊ



Autora: Maria Clara Barsotti

Orientadores: Vera Hazan e Fernando Betim

Universidade: PUC



3o PRÊMIO GRANDJEAN DE MONTIGNY DO CAU-RJ

 


CATEGORIA URBANISMO E PAISAGISMO



MENÇÕES HONROSAS



Trabalho 502-A

Projeto Urbano na Central do Brasil

Autor: André Ricardo Paiva dos Santos

Orientador: Fabiana Izaga

Faculdade: FAU/UFRJ



Trabalho 504-A

RETERRITORIALIZAÇÃO PÓS-GUERRA. O LUGAR DE RETORNO A PARTIR DO CONCEITO DE URBANIDADE.

Autora: Natalie Przechacki

Orientadores: Leila Beatriz Silveira e Vera Hazan

Universidade: PUC



Trabalho 505-A

A Infraestrutura, Monumento e Paisagem

Autor: Igor Machado

Orientador: Guilherme Lassance

Faculdade: FAU/UFRJ



PRÊMIO



Trabalho 506-A

Experiência no Sertão: Paisagem e Vivências às Margens do São Francisco

Autor: Natalia Ávila Brandão Ferreira

Orientadores: Duarte Vaz e Vera Hazan

Faculdade: PUC-Rio



CATEGORIA IMPACTO METROPOLITANO:



MENÇÕES HONROSAS



Trabalho 703-A

Porto de Itaguaí: Logística, Indústria e Infraestrutura Verde

Autor: Lucas Di Gioia

Orientador: Marcos Osmar Favero

Faculdade: PUC-Rio



Trabalho 704-A

A Infraestrutura e reterritorialização: a reivindicação da Orla do Guaíba no 4º Distrito

Autor: Philip Daniel Shoes

Orientador: Luciano Alvares

Faculdade: PUC-Rio





Trabalho 708-A

A Interfaces Fluídas, Especulações sobre Logística e Cidade

Autor: Julia Novaes Tabet

Orientador: Gabriel Nogueira Duarte

Faculdade: PUC-Rio



PRÊMIOS



Trabalho 702-A

H.I.T. – Hack de Infraestruturas de transporte

Autor: Rodrigo D’Avila

Orientadores: Guilherme Lassance e Pedro Varella

Faculdade: FAU/UFRJ



Trabalho 709-A|

OCUPAÇÕES RIBEIRINHAS: DA DEPENDÊNCIA PETROLÍFERA À RESILIÊNCIA LOCAL DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL



Autora: Tainá Lopes


Orientadores: Carlos Eduardo Spencer

Universidade: PUC

2o PRÊMIO ARQUITETO GRANDJEAN MONTIGNY DO CAU-RJ