terça-feira, 4 de outubro de 2016

Mais uma vez Jürgen Habermas em Para a reconstrução do Materialismo Histórico

Mais uma vez volto ao texto do filósofo alemão Jürgen Habermas, Para a reconstrução do Materialismo Histórico, uma das mais importantes reflexões do nosso tempo contemporâneo, por abordar a evolução social de nossos sistemas de interação, ou governos. No último texto, aqui mesmo nesse blog, no dia 16 de setembro de 2016, abordei o livro sobre o aspecto do didatismo contínuo que a experiência da interação humana traz para seus participantes. Os textos do livro são datados da década de setenta. num tempo no qual ainda não havia sido produzido o desmonte do estado de bem-estar social. pelo neo-liberalismo. Essa condição traz para os textos uma percepção generalizada de desenvolvimento positivo, que para Habermas significa a ampliação de formas de vida democráticas e de emancipação do indivíduo. Havia nos anos setenta, a percepção de ampliação das formas de regulação do mercado, e a inclusão social promovidas pelas formas de ordenação governamental, pelo menos no espaço da Europa, Japão e dos EUA.

"Com as fraquezas funcionais do mercado e os efeitos colaterais disfuncionais do mecanismo de mercado também desmorona a ideologia burguesa baseada na troca justa. Por outro lado, surge uma necessidade intensificada de legitimação: o aparelho do Estado, que agora não assegura mais apenas os pressupostos para a existência do processo de produção, mas toma a inciativa de intervir em tal processo, precisa ser legitimado nos domínios crescentes da intervenção estatal, sem que agora houvesse a possibilidade de recorrer à existência de tradições que foram soterradas e desgastadas no capitalismo concorrencial." HABERMAS, 2016 página431

Havia então um declínio do capitalismo concorrencial e uma forma de regulação das sociedades avançadas baseadas no fordismo, no domínio monopolista da economia, e no keynesianismo, que começou a desmoronar com a ascensão de Tatcher e Reagan no final dos anos setenta. Nesse contexto era fundamental a existência do Estado, regulando as interações humanas e arrecadando impostos para promoção do estado de bem-estar social. O reconhecimento, o acato das ordens, e as estruturas burocráticas do Estado eram reconhecidas e identificadas como ordenadores das interações humanas, e necessitavam ter legitimidade para operar. O livro, como já visto, está subdividido em quatro secções; a primeira Perspectivas filosóficas, seguida de Identidade, depois Evolução, e por último Legitimação, agrupando textos de diferentes motivações.

Agora, me concentro sobre a secção da Legitimação, um dos problemas mais agudos dos sistemas de governo representativos, pois medem a qualidade da relação entre governados e governantes, e que no Brasil dos últimos anos assume uma dimensão dramática. Ou metaforicamente, a capacidade de lobos se transmutarem em cordeiros, ou a delegação conferida a chacais para cuidar de rebanhos dóceis, ou ainda a variação entre passividade e ativismo de cidadãos e seus representantes.

A última eleição do ano de 2014 já apontava algumas fragilidades nesse quadro; a vitória do Partido dos Trabalhadores de Dilma Roussef foi por pequena margem e garantida por votos do Nordeste do país, o que soou para o eleitorado pré conceituoso do Sul/Sudeste, como fragilidade. Nossa história recente registra a manipulação, que os eleitores dessa região do país foram submetidos, notadamente durante a Ditadura Civil e Militar, elegendo a ARENA partido de apoio ao regime de exceção, que se aproveitava de uma certa minoridade do cidadão nos afastados grotões do país. Em nossa contemporaneidade de um Brasil urbanizado, arrisco a identificar os grotões alienados nos bolsões de pobreza de nossas cidades, grandes médias e pequenas, estejam elas no Amazonas, ou no São Paulo.

Mas o que me parece fundamental na reflexão de Habermas, sobre a legitimação é o seu reconhecimento de uma ordem política específica e escolhida que alcança a estabilidade na ordem de dominação. Segundo o autor, na tradição ocidental a legítima dominação foi difundida pelo império de Roma na antiguidade, e sofreu uma crise de legitimidade a partir de movimentos proféticos e messiânicos, típicos de sociedades tradicionais, como o da expansão do cristianismo primitivo, na Israel da época de Jesus. Na Idade Média européia revoltas de camponeses, artífices e comunidades urbanas aconteceram muitas vezes vinculadas a movimentos heréticos, como a seita panteísta de Irmãos e Irmãs do Espírito Santo em 1300 ao longo do Reno, ou os Franciscanos radicais do norte da Itália no século XIV. Invariavelmente, existem nesses movimentos a construção de uma identidade, que consolida uma legitimidade alternativa ou questionadora, que determina um nós da revolta, diferenciado de um eles da manutenção do status quo. Com a modernidade, que traz a dissolução do pensamento mítico, das figuras cosmológicas, religiosas e ontológicas do pensamento, a legitimidade passa a ser reflexiva, e constituída a partir da classe social;

"Não causa surpresa que as oposições de classes estejam na base dos diferentes fenômenos de deslegitimação; pois a organização estatal da sociedade é a condição mais importante de uma estrutura de classes no sentido de Marx...Se as legitimações convencem, se são críveis, é algo que certamente depende de motivos empíricos; mas esses motivos não se formam independentemente da força de justificação, a ser analisada de maneira formal das próprias legitimações... O que é aceito como razão que tem força para construir consenso e, com isso, formar a motivação, depende sempre do nível de justificação exigido." HABERMAS 2016, página387,388

Para Habermas, com a modernidade os processos identitários inerentes a legitimação deixam de ser narrativos e passam a ser argumentativos, podendo ser advindos de argumentações teóricas e práticas, mas sendo portanto decisivo que o nível de justificação se torne reflexivo. Na modernidade, com as teorias contratualistas de filósofos como Hobbes, Locke e Rousseau rompe-se com o estado de natureza ou o instinto, assumindo o contrato social, que institucionaliza a dominação justa ou reconhecida pela maioria. E, aqui o discurso se torna complexo, pois as democracias contemporâneas com a celebração da alteridade e da expressão individual fragmentaram o discurso identitário em tal ordem gerando tipologias tais como; democracias identitárias ou de conselhos. Habermas ainda menciona Schumpeter e sua redução da democracia a um método de escolha das elites, ou ainda os pragmáticos, ou os idealistas, ou os basistas. Todos na verdade se expõem a uma crítica justificada, uma vez que confundem a justificação da dominação, com a organização da dominação, eleição e operação, governo e governabilidade são distintos.

"Logo, podemos facilmente objetar o que Rousseau já sabia: que nunca existiu e também nunca existirá uma verdadeira democracia." HABERMAS 2016 página394

E, aqui voltamos a questão da democracia brasileira no seu estágio atual de legitimação, e sua forma de operar, aquilo que se convencionou chamar de presidencialismo de coalizão parlamentar, onde o presidente depende do Congresso. Os governos do PT não mudaram a matriz de funcionamento e de operação do presidencialismo de coalizão das gestões conservadoras anteriores, apesar de terem tido uma justificação reflexiva da dominação sem precedentes. Essa justificação reflexiva foi construída a partir da constatação de que era necessária a promoção de um país com maior equidade, onde se promovesse maior distribuição de renda. No entanto, a continuidade com a forma de operar dos governos anteriores, num país com baixo nível de transparência sobre as ações do governo, como; contratação de obras, implantação de projetos de infraestruturas sem suas pré figurações precisas, desenvolvimento de programas de promoção social, junto com a contínua erosão dessa mesma intransparência determinada pela ampliação dos mecanismos judiciais de controle, fizeram a exposição pública de práticas pouco republicanas dos governos do PT. Nossa crise política está aí localizada, e apesar de serem necessários ajustes, esses não significam o abandono de uma busca por uma sociedade com maior equidade de oportunidades, que me parece ficou sem um agente localizado no nosso espectro político, extremamente fragmentado.

A democracia pressupõe ajustes contínuos, e como afirma Rousseau ela talvez nunca seja alcançada em sua face verdadeira e completa, mas vale a pena buscar por ela.

BIBLIOGRAFIA:

HABERMAS, Jürgen - Para a reconstrução do Materialismo Histórico - Editora Unesp 2016 São Paulo


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Quando acaba ou se dá por acabado?

Mais uma vez volto ao tema do desenho. Abstrato? Será? Ou simples devaneio, diante de uma nova caixa de Crayola. Linhas, pontos, cortes, planos, módulos, partidas e chegadas. Acabei nomeando-o; foice e ponto, por mera solicitação de salvamento do computador. Podia também ser; ponta e curso, para compreensão dos referenciais e o processo de promoção de suas conexões direcionadas. Pontos cheios, pontos vazios, e eixos de conexão cansada.

Um desenho sempre começa, mas nunca sabe aonde acaba. Mais um traço ou um tema, e o papel não comporta mais, foi tudo perdido. Quando acabar, ou dá-lo por acabado?

Isso tudo me lembra um velho poema de Paulo Mendes Campos, sobre Paris, na verdade seu nome é;

POEMA DE PARIS

Sopravam ventos largos sobre a rua
Que vai de meu hotel até meu bar.
Mais longe, além do bar, surgiu a lua
Vulgar e trsite sobre o boulevar.
Vous êtes triste? - perguntou-me nua
Uma sueca com que fui amar.
Triste de uma tristeza como a tua,
Como a lua no céu, triste e vulgar.
Sobre os Campos Elísios, cor de vinho
Chegava a madrugada... e seu carinho
Fez do luar, luar de Apollinaire -
Além do bar, da lua, da mulher.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Texto na revista Projeto debate os modelos de cidade

A última revista Projeto traz um texto meu, Cidades precisam de mais projetos, que debate o modelo que a cidade brasileira vem seguindo para promover sua expansão interminável sobre o território natural que as cercam, um referencial baseado na cidade americana. Estruturado por áreas habitacionais de baixa densidade, uni funcionais portanto sem a presença de comércio e escritórios, e com benfeitorias exclusivas tipo condomínio clube, dependentes do automóvel particular ou de modais de transporte de baixa capacidade e baseado no pneu, e com centros de negócios dominados por escritórios comerciais, que por essa condição sub aproveitam as infraestruturas instaladas. Essa discussão sobre a cidade, ou esse modelo, ou sobre seu vir-a-ser não consegue entrar na pauta de nossos candidatos a prefeito, pois esses não explicitam o referencial que deveriam perseguir com seus governos. Essa ausência acaba fazendo com que suas futuras administrações se tornem reféns de lógicas de grupos de interesses específicos, que acabam sequestrando suas diversas propostas para essa continuidade desse modelo hegemônico de fazer cidade. Há uma naturalização dessa forma de viver e de conviver em nossas cidades, como se esse processo não fosse fruto de escolhas muito claras e objetivas.

O texto portanto, tenta lançar luz sobre essa prática, apontando a necessidade de elaboração de planos e projetos contra-hegemônicos a esse modelo de cidade, de forma que o seu vir-a-ser possa ser escolhido pelo interesse público maior.

sábado, 17 de setembro de 2016

Arquiteto Gustavo Restrepo da Colômbia faz discurso convincente em Manaus

Escadas rolantes em San Xavier Medellin*
A abertura do encontro do IAB nacional do II Congresso Internacional de Arquitetura e Sustentabilidade na Amazônia (IIArqamazônia), em Manaus foi feita pelo arquiteto colombiano Gustavo Adolfo Restrepo, trazendo um discurso convincente sobre a construção do ambiente humano, principalmente para as aglomerações brasileiras. Restrepo concentrou sua palestra sobre a questão da mobilidade urbana em nossas cidades, afirmando que a obtenção de melhores performances nessa área, garantem melhor qualidade de vida, ampliação significativa da auto-estima das pessoas, e incremento da sensação de pertencimento a um lugar. A receita de Restrepo serve como uma luva para o Brasil, segundo ele; planejamento continuado, participação social, uso intensivo de concursos públicos de projeto, e transparência nas montagens das parcerias público-privadas garantem a construção de uma espacialidade reformadora de práticas cotidianas inadequadas, ou seja uma nova cidade. Ainda segundo Restrepo um Estado que não improvise, que tenha um planejamento estruturado podem reverter situações de violência urbana instalada, territórios urbanos dominados pelo tráfico de drogas podem ser resgatados por essas ações.

"O urbanismo pode combater o narcotráfico..O uso arquitetônico permite que a família se empodere, criando lugares de esperança onde antes havia o medo." RESTREPO, 2016

Escadas rolantes em San Xavier Medellin*
O arquiteto destacou que o pilar da questão é a mobilização das pessoas, que com seu engajamento nas transformações geram a sensação de pertencimento inerente a uma cidadania plena, onde a auto-estima é ampliada de forma convincente. A palestra também abordou a necessidade de políticas continuadas de Estado, que transfiram às populações a confiança na reversão de descalabros comportamentais inseridos no cotidiano das comunidades menos favorecidas. O desenvolvimento de índices e parâmetros capazes de medir de forma sintética a evolução da qualidade de vida urbana são importantes para o monitoramento dos planos. Enfim, planejamento e participação são elementos fundamentais da gestão da cidade, pois constroem uma integração progressiva de comunidades excluídas.

"A chave é planejar para não improvisar. Não podemos fazer nada se a cada quatro anos se quer mudar tudo... Os cidadãos têm que fazer observatórios para acompanhar as políticas, com dados e informações”

Na verdade, o arquiteto apresentou as importantes transformações dos últimos anos, que a cidade de Medellin vem sofrendo, e que nas décadas de oitenta e noventa mostrava  um cenário de degradação e de ampliação do domínio do Cartel de Medellin, passando a ser modelo de construção de políticas públicas para o combate da violência urbana. O traficante Pablo Escobar chegou a ser eleito deputado federal, tendo sua posse acompanhada pelo então primeiro ministro espanhol, Felipe Gonzales, com uma clara demonstração de poder da economia do tráfico de drogas.

Importante salientar que na década de noventa, gestores públicos e arquitetos de Medellin visitaram a cidade do Rio de Janeiro, que então estava engajada no programa Favela Bairro, de urbanização de comunidades carentes. Um programa que chegou a ser reconhecido pelo Banco Mundial e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), como uma política notável na promoção da inclusão social. Naquela época os colombianos buscavam sintetizar uma política, que sinalizasse com um maior controle das áreas informais da cidade, os arquitetos colombianos então souberam desenhar uma política, que enfrentasse o problema da ocupação espacial. Se apropriaram de uma política para as áreas informais, dando um passo adiante, nos programas de urbanização de favelas, agregando a eles uma atitude mais sistêmica, referenciada aos modais de transportes e a uma melhor condição de mobilidade.

O arquiteto Gustavo Restrepo demonstrou que uma política urbana estruturada, que articula diversas questões do cotidiano espacial de nossas cidades, que promove o planejamento como ação do Estado, e que elege os concursos públicos de projeto como a forma mais democrática de definir a relevância de uma obra pública podem ser um importante fator para alcançar transformações sociais e um urbanismo sustentável. A qualidade da arquitetura e do ambiente espacial de nossas cidades são fatores fundamentais para a construção de uma cidadania consciente.

NOTAS:
As fotos são de Roberto Ghione, publicadas no texto do site Vitruvius Transformação social e urbanística de Medellin, acessível no link abaixo

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.166/5177

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Jürgen Habermas, Para a reconstrução do materialismo histórico

O livro do filósofo alemão Jürgen Habermas, Para a reconstrução do materialismo histórico, é uma das mais importantes reflexões sobre o nosso mundo contemporâneo, composto por uma reunião de textos diferenciados escritos ao longo da década de setenta, que precedem sua importante obra escrita em 1981, Teoria da ação comunicativa. O tema central do livro são os sintomas da evolução social, sejam evolutivos ou regressivos, que para Habermas em seu sentido progressista significa a ampliação de formas de vida mais democráticas e emancipadas. Dentro das quais a linguagem, o trabalho e a comunicação são especificidades humanas, que impulsionam aquilo que o filósofo alemão considera como fundamental na vida social, a capacidade de aprendizagem. Essa na verdade, não possui um sentido teleológico, mas necessita e demanda da humanidade uma constante reflexão, viabilizada pelo conflito e o embate de visões dentro da ação comunicativa.

Habermas rediscute os conceitos de Marx, na sua categorização da infraestrutura e superestrutura, negando-se a considerar o condicionamento do desenvolvimento social apenas por sua base produtiva e material, o economicismo. E, também os conceitos de Max Weber relativos a racionalidade instrumental e ao desencantamento do mundo promovidos pela modernidade, que talvez só possam ser resignificados pela disposição didática ou vontade de aprendizagem. O livro esta subdividido em quatro secções; a primeira Perspectivas filosóficas, seguida de Identidade, depois Evolução, e por último Legitimação, agrupando textos de diferentes motivações. Dois deles, Desenvolvimento moral e identidade do Eu, e Sociedades complexas podem formar uma identidade racional?, que estão na segunda secção, Identidade, e que foram escritos em 1974, o primeiro em função das comemorações do jubileu de cinqüenta anos da Escola de Frankfurt, e o segundo por ocasião da concessão do Prêmio Hegel da cidade de Stuttgart. Os dois fazem analogias entre o desenvolvimento cognitivo do indivíduo, e os complexos processos da estruturação social. A conquista do domínio da linguagem e da comunicação pelo indivíduo são comparados com a consolidação de instituições associativas e representativas, que implicam no desenvolvimento de um discurso ou narrativa persuasiva e convincente de diversificados interesses. A ideia está ancorada na maioridade kantiana, do indivíduo consciente de suas ações e posicionamentos, tanto que o estágio mais desenvolvido considerado por Habermas, da identidade seria a da sua vinculação com o ser cosmopolita e universalista.

"Pois segundo normas que precisam ser justificadas universalmente, determinados grupos não podem mais se privilegiar em razão de uma força formadora de identidade (como família, cidade, Estado ou nação)...De maneira correspondente, a identidade política (staatbürgerlich) ou nacional deveria ser ampliada para uma identidade cosmopolita (weltbürgerlich) ou universal." HABERMAS 2016, página140

Seriam os sinais de um mundo multipolar, onde não há mais uma nação hegemônica, onde todas as nações se sentissem igualmente niveladas? Sem dúvida, são apenas sinais, ainda incapazes de representar uma prática efetiva entre as nações, mas o que me parece importante nessa teoria nascente de Habermas é sua explicitação não como uma conformação objetiva, mas que aceita o divagar inerente ao didatismo. Enfim, processos didáticos de aprendizagem são auto constitutivos de identidades, que podem se referir ao indivíduo ou a instituições coletivas de associação de pessoas, como órgãos de categorias, cidades, estados e nações.

As proposições de Habermas retomam de certa forma a construção de uma perspectiva histórica e utópica para a humanidade, no entanto, seu investimento num gradualismo e didatismo nos alertam que o objetivo jamais será integralmente atingido. A demanda é por construção contínua, aprendizagem e aperfeiçoamento podem ser progressistas ou regressivas, que ao final significam vigilância interminável.

BIBLIOGRAFIA:

HABERMAS, Jürgen - Para a reconstrução do materialismo histórico - Editora Unesp 2016 São Paulo

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O filme Aquarius e a cultura brasileira do bem viver

O edifício Aquarius do filme, tres andares de altura
O filme Aquarius vem conseguindo mobilizar uma quantidade excepcional de público, que invariavelmente se manifesta ao final da projeção, com pedidos de Fora Temer, que relembram as manifestações dos atores e da direção no último Festival de Cannes, quando abriram cartazes manifestando-se contra o golpe de estado, que então estava em curso, da presidente Dilma Roussef. Mas além dessas questões políticas importantes, o filme na verdade se concentra na discussão da opção cultural, que o país realizou com relação a construção de suas cidades, e o seu modelo cultural do bem viver. Afinal a câmera obessivamente detalha para a sua audiência uma maneira que acabou caindo em desuso em nossos empreendimentos imobiliários em nossas cidades, o edifício multifamiliar sem elevador, e portanto de baixo gabarito, que na verdade assume uma relação com o espaço público da rua muito mais amigável, que as enormes torres em altura. Hoje esse desenvolvimento em torre passou a ser o padrão do bem viver no Brasil, não existindo mais o empreendimento de pequena escala, que caracteriza o Edifício Aquarius.

No filme, essa forma de habitar arcaica é constantemente desdenhada pela familia de Clara, a personagem de Sonia Braga, como insegura, inadequada e ultrapassada pelos modernos empreendimentos das torres em altura, que povoaram a praia de Boa Viagem e o Brasil de maneira tão agressiva e especulativa. Invariavelmente, nossas frentes marítimas ou nossos bairros mais valorizados passaram a receber essas imensas torres isoladas, que acabaram por representar o padrão do bem viver de nossas elites endinheiradas. Além de seu desenvolvimento em altura excessiva, a estrutura funcional alardeada é a do condomínio clube isolado da urbanidade, que passa a representar o controle da exclusividade para o bem viver nacional. Os impactos sobre a vizinhança e o espaço público adjacente são enormes, determinando uma sensação de insegurança na rua, que também foi potencializado pelo rodoviarismo dominante.

Edifício no bairro de Botafogo na rua 19 Fevereiro
Importante registrar que as imensas torres com desenvolvimento em altura condicionam uma forma de promoção do adensamento imobiliário, que acaba dominada por grupos de empreendedores monopolistas, que não admitem mais o pequeno investidor, que promoviam nos anos cinquenta e sessenta uma infinidade de condomínios como o Edifício Aquarius nas cidades brasileiras. Basta circularmos por nossas metrópoles para constatar a presença de uma série de edifícios com as mesmas características do Edifício Aquarius, que também foram gerados pelo adensamento urbano. Isto é, nasceram também do lucro imobiliário e da intensificação do uso do solo urbano, que substituiu unidades unifamiliares por unidades de apartamentos, mas sobre a lógica de outra escala de investimento e de produção. O filme retrata de forma emblemática essa nova forma de fazer negócio, hiper especulativa e agressiva, por que promovida por grupos de negócios, que já não encontram concorrentes pois agem de forma monopolista, bloqueando de certa forma a opção de menor escala, que simplesmente não é mais oferecida.

Mas o filme vai além na sua abordagem sobre a situação urbana brasileira, trazendo reflexões importantes sobre a forma como nossas cidades vem se reproduzindo, e gerando um espaço segregado em extratos sociais, com ruas dominadas pelo automóvel e o pneu, condenadas a baixos indices de interação social. Em vários momentos as cenas nos mostram como a geração de Clara, a personagem de Sonia Braga, veneroou e ainda venera o automóvel, seu glamour, sua capacidade de nos transportar fazendo-nos ouvir boa música. Já nas cenas iniciais, na reconstrução dos anos sessenta somos confrontados como essas máquinas que violavam até o espaço noturno de nossas praias, num uso arrogante e exclusivista. Mais contemporaneamente a reunião da familia de Clara, mostra-nos como cada um de seus filhos requisita novos carros cada vez mais potentes e com equipamentos sonoros de última geração. Num determinado momento a sobrinha de Clara, procurando nos albuns de fotos antigas da família, pergunta a seu pai, o irmão da protagonista, porque nos anos passados as pessoas tiravam fotos juntas com seus carros? A resposta é que "eles (os carros) naqueles tempos faziam parte da constituição da personalidade dos seus proprietários", dando-lhes características próprias.

Por último, a questão da segregação urbana também está retratada no filme de forma notável. Num passeio pela praia da Boa Viagem, com a visitante carioca, que aliás mora no Largo dos Leões, na Rua Mario Pederneiras, uma rua de escala notável na sua relação entre espaços públicos e privados no Rio de Janeiro, Sonia Braga explica a subdivisão entre o bairro de classe média alta e a favela de Brasília Teimosa. A fronteira, o limite, a cisão entre a classe média próspera e a auto construção da favela, que fornece a mão de obra de porteiros, empregadas domésticas, babás, etc... é a vala negra de esgoto, que corta a areia da praia. A precariedade de nossas infraestruturas mais básicas é o sinal para a mudança do território. Logo após na sequência, mais uma vez aparece a tipologia habitacional e sua interação com a urbanidade, agora no espaço da precariedade, numa festa, um churrasco dada por uma ex empregada de Clara que mora na favela de Brasília Teimosa; a laje, o terraço, o pavimento mais afastado da rua e da viela, também reconstroe essa distância do burburinho inesperado da vida urbana.

Enfim, o filme Edifício Aquarius é uma reflexão importante sobre o processo de construção e reprodução da cidade brasileira, um processo que tende a radicalizar a separação entre espaços privados e públicos, determinados por uma série de costumes e culturas, que vão desde a celebração da intimidade, a negação da surpresa da rua, o culto exacerbado do automóvel particular, a segregação social, e a produção da intimidade entre precariedade ou auto construção e o distanciamento ou alheamento da urbanidade. Ao final o principal protagonista do filme é esse edifício - Aquarius -, que não se alienava da urbanidade.

sábado, 10 de setembro de 2016

Da série desenhos; abstratos?

Há muito desenho compulsivamente sobre todos o temas figurativistas ou abstratos, não importa. O desenho é uma terapia, que administra a ansiedade, a solidão...São um desafio, pois afinal uns acabam outros não, outros ainda não agradam, alguns são guardados. Muitas vezes eles são produzidos enquanto esperamos, ou quando compramos lápis de cor ou crayolas, e não aguentamos mais esperar para usá-los.

Quando escaneio um desenho, como, o ao lado, o computador solicita um nome para o arquivo. Como nomeá-lo? Acabei chamando-o de Dedos, piano e peito. Mas quando nomeamos desaparece a abstração e reaparece a figuração, dando contexto ao que era uma composição de formas, um arranjo de campos de cor em relação as dimensões totais do limite do papel. Apesar disso, acaba permanecendo a abstração, afinal também podia nomeá-lo como a Obesidade voltando a andar.

Nada é gratuito no desenho; linhas, pontos, planos de cor, proporções, encaixes, contrastes. Tudo se resume a um esforço de domínio das proporções do papel branco e vazio. Ao mesmo tempo sua dimensão de exploração e experimentação, nos coloca sempre a possibilidade do abandono, ou passagem para o próximo....