domingo, 26 de junho de 2016

Cultura e capital financeiro

O edifício de Koolhaas em Pequim para a TV chinesa
Retorno mais uma vez ao livro de Frederic Jameson, A cultura do dinheiro, ensaios sobre a globalização, no artigo, Cultura e capital financeiro, que possui profundas relações com o texto do mesmo livro, O tijolo e o balão, arquitetura, idealismo e especulação imobiliária, já comentado aqui no blog, na última postagem. Mais uma vez, o tema é a produção do simbólico e a geração de um valor agregado ou futuro, típico da nossa sociedade, onde está instalada uma clara hegemonia financeira. Enquanto no último post do O tijolo e o balão, podemos perceber um crítico literário falando de arquitetura e urbanismo como cultura, aqui no ensaio Cultura e capital financeiro percebe-se o retorno do crítico marxista a sua zona de conforto.

Assim como no O tijolo e o balão, Jameson também faz menção ao livro do italiano Giovanni Arrighi, O longo século XX dinheiro, poder e as origens do nosso tempo, que pode ser considerado uma das interpretações mais apuradas da nossa realidade contemporânea, e que também já foi comentado nesse blog no dia 06 de março de 2014. O mérito do livro de Arrighi está em estabelecer um padrão com suficiente dinamismo, para explicar o desenvolvimento do capitalismo no longo prazo e a longa transição do feudalismo para o sistema do capital, a partir de três ciclos que se repetem na história. Apesar dessa qualidade na interpretação de nosso mundo contemporâneo, Arrighi ainda não foi reconhecido de maneira adequada, muito na minha leitura, pelas consequências propositivas de sua construção.

Segundo Arrighi, na longa duração o sistema do capital se desenvolve; num primeiro ciclo, onde  se estabelece com o comércio e invariavelmente se baseia na violência e brutalidade da acumulação primitiva, gerando um excedente de capital, que se voltará para o estabelecimento de uma produção concreta. O segundo ciclo é o desenvolvimento de uma determinada produção territorializada, que especializa uma região numa determinada ação, seja agrícola ou manufatureira, que a transforma num centro dinâmico. O capital excedente dessa fase e as inseguranças inerentes ao processo produtivo, com lucros declinantes, determinam a emergência do terceiro ciclo, onde a moeda ou forma líquida ganha autonomia com relação a produção, determinando formas de investimento nas quais a moeda gera ganhos por si, sem passar pela produção.

Esses três ciclos, se repetem na história do capitalismo desde o século XV nas cidades estados italianas, numa dinâmica que evolui em espiral, numa aceleração cada vez mais intensa do tempo, e também do espaço. Assim, existiriam quatro ciclos sistêmicos de acumulação referenciados a bases geográficas específicas e a tendência do capital a procurar sua forma monetária. O primeiro seria o ciclo Genovês e iria do século XV ao início do XVII, o segundo seria o ciclo holandês do fim do século XVI até meados do século XVIII; o terceiro seria o ciclo britânico da segunda metade do século XVIII até o início do século XX; e por fim um ciclo americano, iniciado no fim do século XIX até a nossa atual fase de expansão financeira da atualidade. Todos envolvem bases produtivas vigorosas que migraram para os serviços financeiros, tornando-se de certa forma os banqueiros do mundo, a partir da constatação de que a verdadeira flexibilidade e liberdade estava no acúmulo de moeda.

A fórmula utilizada por Marx para descrever o processo da realização dos lucros no sistema capitalista, que envolvia D-M-D', na qual D era o dinheiro inicial, M era mercadoria e D' era o dinheiro final, que realiza o lucro, é utilizada por Arrighi para descrever como o sistema possui uma tendência a se manter na forma monetária, ou pelo menos de considerá-la mais segura. Pois essa última maneira (D') é a que realiza a riqueza, dando liberdade de escolha ao seu agente de reinvestir na diversificação dos seus investimentos, que podem tanto se voltar para a produção já feita, como também buscar outras paragens, que não necessariamente produtivas.

Jameson tenta então construir analogias entre esse processo de desenvolvimento em espiral, do dinheiro e da mercadoria, e a recente história da arte e da literatura, que de forma ortodoxa divide as sensibilidades da modernidade em; realismo, modernismo e pós-modernismo, numa sequência histórica. Essa construção claramente se refere ao campo da crítica literária, mas possui pretensões de generalização para a cultura de forma geral, e possui como premissa, que o desenvolvimento gradual e progressivo de uma base niveladora das trocas de mercadorias, que a moeda representa leva a uma ampliação e diversificação de novas formas de perceber os objetos.

"Esse é o centro não ortodoxo dessas explicações ortodoxas: a suposição tácita é que com o surgimento do valor de troca aparece um novo interesse nas propriedades físicas dos objetos." JAMESON 2001 página155

A dialética manipulada por Jameson envolve; realismo e modernismo, fatos e linguagem, quantidade e qualidade, valor de uso e valor de troca, numa proposição que celebra tanto o modernismo, como também o pós modernismo, quase como um desenvolvimento inevitável do realismo. Afinal, um realismo como modernismo, que reconhece o caráter subversivo, crítico e destrutivo no topos modernista, que afasta qualquer monumentalidade ou exceção para se aproximar do cotidiano e do contínuo. Jameson se afasta da ortodoxia marxista, que sempre considerou o realismo como atitude artística mais consistente para o enfrentamento do sistema, celebrando o modernismo, e mesmo o pós-modernismo.

"Propus que víssemos esses modos historicamente distintos e aparentemente incompatíveis do realismo e do modernismo, como dois dos muitos estágios de uma dialética da reificação, que se apodera das propriedades e das subjetividades, das instituições e das formas de um mundo pré-capitalista anterior, a fim de destituí-las de seu conteúdo hierático ou religioso. O realismo e a secularização são um primeiro momento iluminista nesse processo: o aspecto dialético nisso tudo é o salto ou virada da quantidade em qualidade. Com a intensificação das forças da reificação e sua expansão em zonas cada vez mais amplas da vida social - incluindo a subjetividade individual - , é como se a força que gerou o primeiro realismo agora se volte contra ele e o destrua por sua vez. As pré-condições ideológicas e sociais do realismo - sua crença ingênua em uma sociedade estável, por exemplo - são agora desmascaradas, desmistificadas e desacreditadas; e as formas modernistas - geradas justamente pelas mesmas pressões da reificação - tomam seu lugar." JAMESON 2001 página157

A ampliação da abstração processada pelo modernismo são vistos como consequências inevitáveis da ampliação crescente da monetarização dos mundos da vida, onde o valor se impõe sobre o uso. E, assim chega-se ao pós modernismo, como uma radicalização da reificação, afinal com a aceitação geral do modernismo, que era tipicamente anti-social e estranho ao estabelecido, e se transformou na forma predominante do horizonte cultural oficial, gerando a necessidade de reinvenção da rebeldia. A crise da linguagem, ou a perda de significado geral acabam movimentando uma série de sensibilidades para tentar refundá-las pelo menos localmente a partir de uma regressão religiosa ou de recuperação de costumes e ritos. Ao final, a alienação da compra, ou do estabelecimento do valor se estabelece como padrão, sendo naturalizados como um comportamento, que já não é mais meio de otimização da troca, mas fim em si mesmo.

Jameson volta a citar Georg Simmel e o seu ensaio A metrópole e a vida mental para enfatizar a radicalização da abstração, que é impulsionada pelas flutuações da moeda, mas também pelas dimensões da moderna cidade industrial, que assumem tamanhos indescritíveis, e portanto também abstratas. A experiência da grande cidade industrial muda radicalmente a forma das pessoas se apropriarem do local, que deixa de ser percebido como uma unidade coerente e articulada para passar a ser visto como caótico e multi identitário. A equivalência monetária dada pela moeda e a desterritorialização, que a grande cidade representa acabam construindo um estado mental, no qual o conteúdo é suprimido em favor da forma vazia, uma mera persuasão do marketing. Estamos diante de uma perda de substância, uma incapacidade de contextualizar ou territorializar, uma dinâmica que amplia de sobremaneira a abstração.

Então, Jameson volta a fórmula de Marx e Arrighi de relacionamento entre mercadoria e dinheiro, que no momento de maior importância da primeira é expressa na seguinte sequência M-D-M', segundo a qual o agente econômico vende uma mercadoria e reinveste esse dinheiro para comprar a mesma mercadoria. Nesse momento, de um capitalismo mais mercantilista é percebido uma maior concretude da vida econômica, mais referenciada aos contextos produtivos e geográficos, a moeda ainda não está autonomizada, como na fase D-M-D'. O declínio do realismo no campo da cultura é dado como dedução inevitável do sistema de trocas, mas também como indutor e potencializador da ampliação da financeirização.

"Proponho examinar essa contribuição (de Arrighi) primeiro em termos da categoria da abstração e, em particular, daquela forma peculiar de abstração que é o próprio dinheiro." JAMESON 2001 página160

Na conclusão do texto Jameson, identifica a potencialização obtida com as novas tecnologias de informação e comunicação pelo capital financeiro, que passa a circular no ciberespaço sem qualquer referência de conteúdo. Por outro lado, a cultura se autonomiza, se retirando do mundo real que já foi colonizado por ela própria, mas sem conseguir encontrar o antigo poder de síntese totalizante, se fragmenta numa série de estereótipos. Ambos, parecem ir em direção a um inevitável crash, que apesar de anunciado não pode mais ser evitado.

BIBLIOGRAFIA:
ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
JAMESON, Frederic - A cultura do Dinheiro, ensaios sobre a globalização - editora Vozes Petrópolis 2001, particularmente o ensaio Cultura e Capital Financeiro
SIMMEL, Georg - A filosofia do dinheiro -

domingo, 19 de junho de 2016

O tijolo e o balão

Um dos textos mais provocativos de Frederic Jameson é O tijolo e o balão: arquitetura, idealismo e especulação imobiliária do livro A cultura do dinheiro, que reune uma série de artigos e ensaios escritos do ponto de vista materialista. A ideia central, do artigo como também do livro é a interrelação contemporânea entre bens simbólicos e economia no nosso mundo de hegemonia financeira, onde cultura e entretenimento estão inexoravelmente misturados, não podendo mais ser separados. O problema central envolve a relação entre arquitetura e urbanismo, o abrigo e a cidade, e dentro desses, a questão da abstração, como um posicionamento presente nos vários modernismos e no pós-modernsmo contemporâneo. O objeto arquitetônico e o seu contexto urbano adjacente, onde as noções de controle, de público, de privado e suas graduações são lidas e mediadas pelos usuários.

Jameson, reconhece de forma antecipada a semi-autonomia do ofício da arquitetura e do urbanismo, e do próprio campo da cultura, e que as reflexões que ligam de forma ligeira e rápida o simbólico com a economia do mundo contemporâneo, incorrem em reduções perigosas. Mas assume o risco, apontando que no campo do espaço há um equivalente análogo da lógica financeira, que nos governa, que é a especulação imobiliária. Jameson cita Niklas Luhmann na sua teoria dos sistemas, e sua conceituação de mediação dentro dos ambientes fechados, ou pretensamente autônomos, ou ainda que pretendem e afirmam sua autonomia como presos ou tributários dessa mediação financeira. Aqui me parece, mais uma vez se manifesta a pretensão marxista de captura da totalidade, uma pretensão perigosa num mundo fragmentado e segmentado, mas que no autor soa elegante, afinal;

"...meu termo é deliberadamente ambíguo ou ambívalente para poder sugerir uma rua de mão dupla, na qual se pode tanto enfatizar a relativa independência ou relativa autonomia da área em questão quanto o oposto, ou seja, insistir em sua funcionalidade e seu lugar dentro do todo,..." JAMESON 2001 página175

Nesse contexto, a compreensão do autor de forma bastante convincente é que tanto o dinheiro, como também a terra urbana são elementos funcionais dentro do sistema ou do subsistema mencionado, mas que por isso mesmo são meios e não fins em si mesmos. Jameson também cita George Simmel no livro A filosofia do dinheiro de 1900, apontando-o como formulador de uma complexa dialética descentrada ou não hegeliana, o que de certa maneira garante sua vacinação diante do problema da totalidade. Apesar de não conhecer a obra de Simmel, o que me é possível inferir da citação, particularmente na sua ênfase no ensaio "Métropole e vida mental", é que a reafirmação da abstração na vida contemporânea é sublinhada ´por essa realidade tão cara a Baudelaire e Benjamim, da grande cidade moderna. Uma realidade, que nos foge, produtora de uma atitude blasé, de um descentramento, de uma ansiedade, de crise de valores, de ausência de pertencimento, dentre outras, tão típicas das grandes aglomerações. As grandes cidades, tais como São Paulo e o Rio de Janeiro são uma abstração em si, afinal quem de nós seria capaz de alcançar sua inteira legibilidade, ou uma descrição sintética. Numa longa citação de Simmel, Jameson descreve a separação entre preços de ações e fatores objetivos da constituição das próprias empresas correspondentes, demonstrando a presença clara e expansiva da abstração nas nossas sociedades e grandes cidades;

"As flutuações no preço das ações frequentemente indicam motivações subjetivo-psicológicas, que em sua crueza e movimentos independentes, estão totalmente fora de proporção em relação aos fatores objetivos...Por exemplo, assim que um grupo poderoso, por razões que nada tem a ver com a qualidade da ação, se interessa por ela, seu preço subirá; por outro lado, um grupo em baixa pode criar uma queda do preço através da mera manipulação." JAMESON 2001 página178

Enfim, não há mais estabilidade na relação entre o valor real e final de uma ação e sua representação das condições efetivas de uma empresa qualquer, numa sociedade financeirizada, onde o valor funcional foi soterrado pelo de troca, ou de especulação futura. Onde, também o meio - dinheiro e ou terra urbana - passaram a ser fins em si mesmo, promessas de realizações de um mercado futuro, que ascena com lucros exorbitantes, sem qualquer produção.

Outra citação importante de Jameson é a do livro de Giovanni Arrighi, O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo, que já foi comentado aqui nesse blog, num ensaio com o nome de O longo século XX. Arrighi mapea de forma elegante a construção da extrema volatilidade que o capital atingiu em nosso mundo contemporâneo. A incapacidade do processo de desenvolvimento econômico no nosso tempo de se fixar por um período mais longo numa determinada base geográfica, que vem se repetindo de forma recorrente. Efetivamente dos anos 70 para cá assistimos a processos de desenvolvimentos rápidos e efêmeros em diversas localidades; Tigres Asiáticos, Espanha, Brics ou Países Emergentes. Nenhum deles se mantém por muito tempo sobre sua base geográfica, preferindo migrar para localidades mais rentáveis, deixando atrás de si um rastro de destruição.

Arrighi retira a base de sua interpretação do mundo contemporâneo, da afirmação do historiador francês Fernand Braudel, para o qual; "o estágio de expansão financeira é sempre sinal de outono". Isto é, nos tres estágios cíclicos do desenvolvimento histórico do capitalismo, o primeiro é a implantação de uma base produtiva numa nova região, seguida pelo desenvolvimento produtivo da região com industrias e manufaturas, que por último culmina com a desterritorialização do capital possibilitada pela reprodução e multiplicação financeira em processos especulativos. A partir desse terceiro estágio volátil e instável, o capital tenderia a buscar nova base geográfica para repetir os três ciclos novamente. Assim, esses três estágios se repetem em diferentes bases geográficas desde o século XV na Itália configurando ciclos de desenvolvimento repetido.

Assim existiriam quatro ciclos históricos mais importantes de acumulação referenciados a bases geográficas específicas, que desembocam na tendência predominante do capital a procurar sua forma líquida ou monetária. O primeiro seria o ciclo da cidade de Gênova na Itália, e iria do século XV ao início do XVII, o segundo seria o ciclo holandês do fim do século XVI até meados do século XVIII; o terceiro seria o ciclo britânico da segunda metade do século XVIII até o início do século XX; e por fim um ciclo americano, iniciado no fim do século XIX até a nossa atual fase de expansão financeira da atualidade. Arrighi também se envolve em especulações sobre a possibilidade de migração dessa base para o Oriente, particularmente na China, a partir de alguns indícios do nosso tempo. Mas todos envolvem bases produtivas vigorosas que migraram para os serviços financeiros, tornando-se de certa forma os banqueiros do mundo, a partir da constatação de que a verdadeira flexibilidade e liberdade estava no acúmulo de moeda, e não na produção, que enfim é a que representa grande capacidade de liberdade. Arrighi historiciza a centralidade ou o maior dinamismo do sistema capitalista, reconhecendo que cada um deles desenvolveu periferias específicas e enfrenta condições particulares de aceleração ou de realização da forma monetária.

A partir dessas premissas teóricas interpretativas o texto de Jameson envereda para tentar compreender fenômenos especulativos particulares da cidade de Nova York, baseado no livro de Robert Fitch, The assassination of New York, que também não conheço. Mas, que com uma mentalidade típica da América - anti-intelectual e anti-sistêmica - explica a homogeneização do território da cidade, seja na expulsão do Distrito Tecelão do sul de Manhattan, ou na operação do Rockefeller Center, como consequências das atitudes de Robert Moses ou Nelson Rockefeller, que manipulam a visão da boa cidade na Nova York do século XX.

"Estamos em 1928 e desde então, sustenta Fitch, "até 1988 quando venderam o Rockefeller Center aos japoneses, a compreensão do que os Rockefellers querem é pré-requisito para entender o que a cidade se tornou." JAMESON 2001 página187

Jameson, então opera uma celebração da colocação de Fitch, de que indivíduos determinariam o desenvolvimento histórico, contrariando aparentemente sua filiação marxista, afinal estariamos diante de uma afirmação audaz e prometéica, onde muda-se o mundo para se acomodar um indivíduo.

"Mas pelo contrário, Fitch nos dá aqui uma demonstração clássica da "lógica do capital" e em particular daquele "ardil da razão" ou "ardil da história" hegelianos, através dos quais um processo coletivo utiliza indivíduos para seus fins." JAMESON2001 página189



Rockefeller Center em Nova York
Não conheço a fundo as particularidades do desenvolvimento do Rockefeller Center, ou da expulsão do Distrito Tecelão do sul de Manhattan, mas o Rio de Janeiro viu recentemente no seu projeto olímpico as determinações impostas pelo Doutor Carlos Carvalho Hosken para a Vila dos Atletas, no empreendimento imobiliário do Ilha Pura na Barra da Tijuca. A proposição de Jameson no texto mostra-nos como lógicas individuais e locais são operadas por indivíduos e governos concretos em cada especificidade urbana, e longe de avaliações condenatórias ou celebratórias cada cidade apresenta sua dinâmica. A questão central, me parece aqui, a transparência republicana sobre as hipóteses de desenvolvimento que todo planejamento ou projeto contém. Isto é, a explicitação do interesse público ou do Estado frente a estruturas de pressão tanto de governos, como também de indivíduos e suas conveniências momentâneas, que acabam se sobrepondo, seja pela urgência olímpica do Rio de Janeiro, ou pelas concepções familiares (Rockefeller) ou do planejador (Moses) no caso de Nova York. A pretensão de Jameson me parece a construção de uma dialética entre global e local, sistêmico e individual, que são coordenados ou acomodados na pré-figuração da cidade, onde o interesse público é recalcado em nome do particular;

“Uma concepção satisfatória de política é aquela na qual tanto o sistêmico quanto o individual são de algum modo coordenados (ou, se preferirem, para usar um slogan popular do qual Fitch faz uma paródia, na qual o global e o local são de algum modo reconectados.)” JAMESON 2001 página190

Nesse ponto Jameson se envereda por um dos temas mais polêmicos do marxismo, - a renda imobiliária e como ela recebe valor da cultura - ou as relações complexas entre infra-estrutura e superestrutura, entre totalidade e particularidade O autor então se apoia em três autores; Manfredo Tafuri, Siegfried Giedion, e Rem Koolhaas para debater o papel do estético, da arquitetura e do urbanismo, na construção de um sobre-valor. O primeiro livro é La Ciudad Americana, organizada por Francesco Dal Co, com um texto de Tafuri sobre o desenvolvimento histórico do arranha céu, que tem como título A Montanha Mágica, que faria o papel de detrator desesperançado da impossibilidade estética no capitalismo, que submete qualquer pretensão a coordenação da dinâmica da cidade para se tornar numa "ilha de especulação equilibrada". O segundo é Espacio Tiempo e Arquitectura de Giedion, que é considerado por muitos anos, como o panfleto histórico celebratório do movimento moderno, e que identifica o papel de excepcionalidade do Rockefeller Center, como um primeiro caso no contexto imobiliário, antes de sua generalização mediocrizante. E, o terceiro é Delirious New York de Rem Koolhaas, que como exemplar contemporâneo festeja a atitude de hiper concentração do manhattanismo, como uma cidade dentro da cidade, um conceito de Raymond Hood.

Jameson se distancia das análises de Giedion pela proliferação ocorrida no periodo pós Rockefeller Center (1940), afirmando que o entusiasmo modernista retrocedeu em função da perda de excepcionalidade do edifício, passando a se concentrar nas mediações propostas por Tafuri e Koolhaas. Os dois autores se concentram na intencionalidade do ato do arquiteto diante do terreno, ou antes da existência da obra, nos elementos que são manipulados nesse processo; materialidade, função, inserção urbana, centralidade, carga simbólica, etc... Enfim, o desejo ou desígnio dos autores da obra, que tomam decisões e conformam um objeto com determinadas características, que configura um ato simbólico.

"Tenho a impressão de que para Tafuri o Rockefeller Center é este último - um mero ato simbólico, que não consegue resolver suas contradições, enquanto que para Koolhaas, é o fato da ação criativa e produtiva no interior do simbólico, que é a origem do interesse estético." JAMESON2001 página198

Nesse ponto do texto, Jameson abandona o campo simbólico, e retorna ao campo da economia política clássica, afirmando que o valor imobiliário sempre colocou dificuldades insuperáveis, pois nos séculos XVIII e XIX a mercantilização das terras coletivas se processava na cidade, mas também envolvia o meio rural. O autor contrariando economistas brasileiros como Paul Singer vai afirmar que a renda fundiária e o valor da terra são estruturais para a dinâmica do capital, apenas reconhecendo que em alguns momentos se recolhem a um papel secundário, e que no nosso tempo ganham relevância como "centro da acumulação capitalista". Jameson vai recorrer a mais um livro Os limites do capital de David Harvey, para enfrentar a questão espinhosa da renda fundiária em Marx, ao final um economista político clássico do século XIX. Harvey irá formular o conceito de capital fictício para tentar compreender o paradoxo da origem do valor imobiliário, que não se origina no trabalho, ou não se restringe a ele, mas na verdade a uma espectativa de ganho colocada no futuro.

A ideia de futuro modulado e programado é cara aos urbanistas e arquitetos, que em seus planos e projetos se dedicam a reorganização estrutural do tempo, uma colonização contínua do futuro, que não por acaso se inicia com o renascimento italiano. Mas esse mesmo futuro programado assumiu uma dinâmica acelerada no nosso sistema atual, estando sempre atrás da reinvenção, ou da destruição criativa, ou ainda da obsolescência programada, trazendo um caráter efêmero para os objetos.

"Pode-se iniciar um questionamento estético mais apropriado dessas questões com uma pergunta sobre o modo através do qual 'futuros' específicos - no sentido financeiro e temporal - se tornam traços estruturais da arquitetura mais recente, algo como um arcaísmo planejado na certeza de que o prédio não terá jamais uma aura de permanência, mas carregará em seus próprios materiais a certeza eminente de sua futura demolição." JAMESON2001 página201

Aqui, claramente Jameson faz eco ao pessimismo de Tafuri, diante da aceleração dos processos capitalistas em nossa contemporaneidade, mas então ele próprio parece indicar uma solução estética apropriada, "o espaço isométrico extremo" de Mies Van Der Rohe. Na verdade, uma canibalização do livro de Charles Jencks, The New Moderns, no qual o crítico de arquitetura sistematiza uma das tendências da arquitetura contemporânea, a hiper modernidade. A espacialidade neutra, infinita e universal das formulações de Mies se transformaram na imagem do desejo das grandes corporações em nossas cidades.

"A evolução da parede de vidro 'diminui a massa e o peso enquanto enfatiza o volume e o contorno - a diferença entre o tijolo e o balão'...Sem querer abusar do argumento, parece-me surpreendente que a dimensão abstrata ou sublimação materialista do capital financeiro tenha algo da semi-autonomia do espaço cibernético." JAMESON2001 páginas202e203

Por fim, Jameson irá mencionar as histórias de fantasmas, sempre articuladas com experiências espaciais concretas como quartos, casas, bairros, marcados pela memória de eventos macabros, que tanto sucesso fazem em nossa contemporaneidade. Os fantasmas parecem fazer sucesso em função da presença de uma certa nostalgia; de tempos perdidos, do ornamento, da abstração, onde a reação mais apropriada parece para Jameson a retomada do realismo, concluindo seu ensaio.

Mas o realismo na arquitetura do começo do século XX, sintetizado pelos movimentos das vanguardas centro européias, em torno da nova objetividade (neue saslichkeit), procurava se afastar do romantismo culturalista, por uma agenda que encarava a grande cidade industrial como seu desafio. Os temas excepcionais, como os monumentos e as representações do poder eram afastados, em nome de uma celebração do cotidiano representado pela residência operária construída em massa, pelas estações dos sistemas de transportes de alta capacidade, enfim por uma arquitetura presente e operante no dia a dia. No seu programa básico, a arquitetura do realismo procurava reessencializar o construído, deixando de ser uma questão de linguagem para se transformar na essência operativa do abrigo. De certa forma o neo racionalismo italiano dos anos sessenta recolocava a mesma questão a partir do estudo dos fatos urbanos concretos, e da proposição de uma continuidade com as pré existências. A retomada da abstração tomou força com as proposições do próprio Koolhaas nos anos noventa, com a constatação de que o projeto moderno ainda era uma possibilidade em aberto, já num contexto político neo liberal, que naturalizou a especulação como forma de produzir a cidade. Mas enfim essas são outras considerações...

BIBLIOGRAFIA:
ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
DALCO, Francesco, organizador - La ciudad americana, de la guerra civil al new deal - editora Gustavo Gilli Barcelona 1975, particularmente o ensaio de TAFURI, Manfredo - La Montaña desencantada, el rascacielo y la ciudad
FITCH, Robert - The assassination of New York
GIEDION, Siegfried - Espacio, Tiempo y Arquitectura - editorial Dossat Madrid 1978
HARVEY, David - Os limites do capital -editorial Boitempo São Paulo 2013
JAMESON, Frederic - A cultura do Dinheiro, ensaios sobre a globalização - editora Vozes Petrópolis 2001, particularmente o ensaio O tijolo e o balão: arquitetura, idealismo e especulação imobiliária 
JENCKS, Charles - The New Moderns - Nova York 1990
KOOLHAAS, Rem - Delirious New York - The Monaceli Press Nova York 1994
LUHMANN, Niklas - Introdução a teoria dos sistemas -editora Vozes Petrópolis 2010
SIMMEL, Georg - A filosofia do dinheiro -

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A cultura do novo capitalismo de Richard Sennett

O livro A cultura do novo capitalismo, do professor de sociologia da London School of Economics, Richard Sennett nos traz para uma importante reflexão sobre como o mundo do trabalho, e da previdência atuam sobre o cotidiano de diferentes atores e agentes, no mundo contemporâneo. Escrito em 2006 e traduzido para o português em 2008, fruto de um Ciclo de Conferências Castle realizado em 2004, na Universidade de Yale na cidade de New Heaven, estado de Conecticut nos EUA. As Conferências Castle homenageiam o reverendo James Pierpoint, fundador da Universidade de Yale e antepassado de John K. Castle, e tem como objetivo refletir sobre a ordenação moral de nossa sociedade contemporânea, a partir da ética, da política e da economia. O livro foi publicado logo após, A corrosão do caráter, consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo, que é de 1999, traduzido em 2015, e que já se debruçava sobre os impactos da acumulação flexível do capital na psicologia dos empregados e na sua compreensão dos locais onde trabalham. O livro também antecede O Artífice, escrito em 2008 e traduzido para o português em 2009 que celebra um fazer bem feito, profundo e comprometido com a permanência e não com a obsolescência programada, que se transformou no paradigma da nova economia capitalista neo-liberal dos nossos tempos.

A virtude de Sennett, nos tres livros me parece a recorrência ao que o filósofo alemão Habermas denomina os mundos da vida, que nada mais é do que nosso cotidiano efetivo. O mapeamento do esforço humano concreto, modulado por diversas gerações num ciclo de vida real, que envolvem; ter uma ocupação para trabalhar, que garanta seu sustento, educar os filhos, dando-lhes condições de nos superar, e, ao final se aposentar.


Interessante assinalar, que ambas as duas primeiras publicações antecedem a grave crise do sistema financeiro americano, que acontece em março 2008, e a terceira - O Artifície -, é sua contemporânea. Os fortes movimentos especulativos do ano de 2008, que culminam com a quebra  do quarto maior banco de crédito dos EUA, o Lehman Brothers, que arrastou outras instituições bancárias, naquilo que ficou conhecido como a Crise Sub-Prime das hipotecas imobiliárias americanas. Nesse mesmo momento, para evitar um colapso geral do sistema, o governo americano estatizou as duas maiores agências de crédito imobiliário do país, a Fannie Mae e a Fredie Mac, injetando nelas US$200bilhões. Essas agências haviam sido privatizadas em 1968. Ao mesmo tempo, na Espanha também são verificados calotes nos pagamentos das hipotecas imobiliárias, que ameaçaram quebrar as instituições financeiras do país. Em 2008 os inadimplentes dos créditos hipotecários na Espanha somavam 2,7milhões de pessoas, por outro lado o censo de 2011 identificou 3,5milhões de imóveis vazios no país. Em outubro de 2008, a Alemanha, a França, a Austria, a Itália, e os Países Baixos injetam US$1,58 trilhão em auxílio às suas instituições financeiras.

Sennett várias vezes qualifica o capitalismo pré-neoliberal - anterior a década de setenta - como "capitalismo social", onde identifica estabilidade tanto das grandes corporações, como também para seus empregados e suas aposentadorias. O sistema de regulação, que até então vigorava no capitalismo e no socialismo real se baseava no fordismo, no pleno emprego e keynesanismo, que representavam para o cotidiano de amplos setores, a estabilidade. Com a ruptura do acordo de Bretton Woods, que foi assinado por 44 nações em julho de 1944, vigorando desde o final da segunda guerra mundial, por parte do governo Nixon, uma imensa massa de moeda se viu disponível para investimentos especulativos. O Acordo Monetário de Bretton Woods determinava a conversibilidade do dólar ao ouro, que ao ser revogado de forma unilateral pelo presidente Richard Nixon em 15 de agosto de 1971 determinou a transformação do dólar em moeda fiduciária, ou base de reserva.

"Esta mudança teve uma data precisa: um enorme superávit de capital para investimentos foi liberado em escala global quando os acordos de Bretton Woods entraram em derrocada, no início da década de 1970. Todo um bolo de riqueza que estivera confinado a empresas locais ou nacionais ou estocado em bancos nacionais podia agora movimentar-se com muito maior facilidade por todo o planeta. " SENNETT 2008 página41

Há também uma distinção importante de ser registrada entre as evoluções histórico-políticas do sistema capitalista, de um lado o modelo do Reno e de outro o Anglo-americano, nos quais a relação entre o mercado e o estado constroem a diferença. No modelo do Reno, que na origem envolve os estados nacionais da Holanda, Alemanha e França, que envolve uma rede de benefícios em pensões, educação e saúde, e que se dissipou pelo mundo em diversas nuances pela Itália, Japão, Escandinávia e Israel. No modelo Anglo-americano há uma acentuada subordinação da burocracia do estado à economia liberal produzindo-se um afrouxamento da rede de benefícios. Em muitas ocasiões denomina-se neo-liberal ao modelo Anglo-americano, enquanto o modelo Renano é denominado capitalismo de estado Para o autor, ambos os modelos demonstram capacidades diferenciadas de se adequar ao novo modelo de acumulação flexível.

"O modelo do Reno pode comportar-se de maneira tão flexível e decisiva quanto o anglo-americano em termos de mercado. O norte da Itália, por exemplo, é bastante renano em sua mistura de empresa governamental e privada, e também flexível, ao responder com rapidez e eficiência à mutante demanda do mercado." SENNETT 2015 página61

Mas, o que me parece importante destacar nesse pequeno ensaio é a imensa tragédia determinada pelo modelo de acumulação flexível do novo capitalismo, nas vidas de diferentes agentes pelo, que reduziram a capacidade de suas familias de planejarem seu futuro, lançando o mundo numa ansiosa busca de resultados imediatos.


BIBLIOGRAFIA:
SENNETT, Richard - A corrosão do caráter, consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo - Editora Record Rio de Janeiro 2015
SENNETT, Richard - A cultura do novo capitalismo - Editora Record Rio de Janeiro 2008
SENNETT, Richard - O Artífice - Editora Record  Rio de Janeiro 2009

terça-feira, 7 de junho de 2016

Encontro no IAB-RJ debate alternativas para a cidade metropolitana do Rio de Janeiro

Nessa última terça feira dia 31 de maio de 2016, foi realizado na sede do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio de Janeiro (IAB-RJ), encontro para debater a formulação do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da metrópole carioca. O evento está dentro da etapa de Diagnóstico e Visão do Futuro do desenvolvimento do plano, procurando elencar as principais carências e potencialidade da cidade metropolitana do Rio de Janeiro. A perspectiva do Plano Estratégico é pensar a aglomeração urbana de 12,3 milhões de pessoas nos próximos 24 anos. Esse acontecimento urbano, que está no entorno da Baía de Guanabara é hoje o segundo território metropolitano do Brasil, o terceiro da América Latina, o vigésimo do mundo, e está classificado como uma megacidade pela ONU.

Foto de Carlos Magno
Na minha fala procurei enfatizar como a identidade da cidade metropolitana do Rio de Janeiro é dificil de ser captada, pois com uma extensão de 60kms no sentido leste/oeste, e 30kms no norte/sul, e 12,3milhões de habitantes, a imensa mancha urbana é de complexa apreensão. Comprovando tal dificuldade, basta pensarmos, em quem, entre seus moradores consegue ter uma noção da legibilidade de seu território de forma integrada e única.

Composta por uma imensa diversidade de identidades, que misturam 18 municípios; Rio de Janeiro, Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Japeri, Magé, Nilópolis, Niterói, Cachoeira de Macacu, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo, São João de Meriti, Seropédica, Mesquita e Tanguá, a cidade metropolitana do Rio de Janeiro deve primeiro valorizar essas particularidades. E, procurar elementos que construam essa consciência de que sua população pode compartilhar um futuro comum, tais como; a Baía de Guanabara e sua bacia hidrográfica, os ramais de trens da Central do Brasil e Leopoldina, as florestas municipais, e elementos que perpassam mais de um município.

Esses acontecimentos impactam a vida cotidiana das pessoas da metrópole, e são elementos que devem receber atenção do plano, pois podem significar a costura dessa consciência metropolitana. O IAB-RJ, durante meu mandato nas cerimonias de premiação elegeu a Baía de Guanabara como tema provocador aos arquitetos, que deveriam sugerir propostas e projetos, que revalorizassem sua presença na cidade metroplitana. Esse esforço partia da premissa, que a requalificação da Baía de Guanabara e da sua bacia representaria um ganho expressivo, para a população lindeira, tanto nos seus bairros como; Cajú, Maré, Ramos, Ilha do Governador, como também para municípios como; Caxias, Magé, São Gonçalo, Niterói.

Enfim o desafio, da formulação do Plano Diretor da Metropole do Rio de Janeiro, que temos pela frente é imenso, que demanda a construção dessa consciência de pertencermos a esse território, do qual precisamos tratar e equilibrar.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Entrevista para a entidade da Casa Fluminense sobre a cidade metropolitana do Rio de Janeiro

Há mais ou menos um mês concedi a entrevista para a Casa Fluminense, uma entidade da sociedade civil carioca, que vem demonstrando uma imensa capacidade de mobilização e capilaridade nas periferias da cidade metropolitana do Rio de Janeiro. O tema chave da entrevista era como promover a participação de uma forma mais horizontal possível, empoderando os diferentes atores da metropole, evitando os inevitáveis constrangimentos dos agentes mais fragilizados.

Na curta entrevista abaixo destaquei os pontos, que precisam ser revertidos na forma como a cidade vem sendo construída no Brasil; 1 Dispersão interminável da mancha urbana, o que determina uma baixa densidade dificultando a universalização dos serviços urbanos. 2 Abandono dos centros históricos mais antigos. 3 Estratifificação social intensa com guetos de pobres e de ricos. 4 Péssima mobilidade penalizando a população com tarifas caras e tempos de deslocamentos pendulares excessivos. 5 E, por último, aproximação predatória do meio ambiente.

Nas minhas considerações além do video anexo, tentei ponderar que a participação efetiva da sociedade precisa chegar ao estágio do engajamento, que representa uma forma de mobilização que transcende o mero fornecimento de informações, mas alcança os estágios da compreensão, do envolvimento, do monitoramento e da cobrança. O Plano e os planejadores precisam fazer um esforço de comunicação, que envolve a transformação do discurso técnico num conjunto de informações, indices e parâmetros capazes de serem lidos pelos usuários da cidade, com rebatimento nos seus cotidianos efetivos. Os agentes e atores diferenciados precisam ser instados a expressar seus interesses com relação a ordenação espacila da cidade, criando um clima de transparência e colaboração. Todas as pressões e interesses são legítimos, desde que expressados publicamente e a partir de argumentos persuasivos e socialmente racionais para o interesse público.

É presciso reconhecer, que muitos dos últimos planejamentos desenvolvidos no Brasil se transformaram em letra morta, não atingindo a realidade, não impactando o cotidiano das populações envolvidas, e cumprindo apenas o papel de cumprir exigências legais de agências ou órgão da administração federal, que repassa verbas. Os planos precisam cooptar o envolvimento efetivo da população interessada, fazendo dela um vigilante dos objetivos acordados. Todo plano precisa criar ações emblemáticas no inicio do seu prazo, para mobilizar as diversas populações para seus objetivos de longo prazo, fornecendo ao conjunto da sociedade indices e parâmetros que monitorem esses mesmos objetivos.

A sociedade brasileira já monitora alguns indices que são divulgados mês a mês, como a inflação de preços, o crescimento do PIB, emprego e outros. As cidades metropolitanas precisam também criar indices de monitoramento da qualidade de vida urbana, tais como; tempo médio de deslocamento casa/trabalho, indices de coleta adequada de esgotos e resíduos sólidos, indices de urbanidade, iluminação pública, segurança, e etc... Com esses índices sendo divulgados de forma transparente, sobre a base espacial da cidade, a população poderá verificar o cumprimento dos objetivos, ou o seu afastamento, possibilitando a vigília sobre os governantes.

Abaixo minha entrevista em video...

https://www.youtube.com/watch?v=0xVxNVhSsAc&index=25&list=PL9-9_GVgawSuXiRAO8C-_gDgZdQXxg0vV

sábado, 28 de maio de 2016

O livro sobre o arquiteto Carlos Leão

Na última terça feira dia, dia 24 de maio de 2016 foi lançado o livro sobre o arquiteto Carlos Leão (1906-1983) com produção de Claudia Pinheiro, Maria Helena Rohe Salomon e do historiador Roberto Conduru. O livro teve uma longa maturação, pois era um projeto antigo da década de oitenta do arquiteto Jorge Cjajkowski, já falecido. De forma enviesada participei do nascimento do projeto, pois Jorge Cjajkowski, que me conheceu na FAU-UFRJ, entre o final dos setenta e começo dos oitenta, como meu professor, identificou um parentesco distante com Carlos Leão, que era na verdade primo da minha avó. Fiquei então responsável por agendar com Tia Ruth, uma entrevista com Carlos Leão, o Caloca em sua casa em Ipanema. O casal então passava a maior parte do tempo na cidade de Vassouras, num sítio desenhado pelo arquiteto. Nessa ocasião, ainda me lembro de Carlos Leão me pedir para acender um cigarro, que ele gostaria de dar umas tragadas, que já não eram mais permitidas por Ruth, dado ao seu estado de saúde. A entrevista foi uma amostra da personalidade boêmia e sensível de um artista culto, irreverente e provocador, que nos apresentou sua visão da cultura arquitetônica da sua geração.

De uma maneira geral, a parte da obra de Carlos Leão mais conhecida é a de desenhador de mulheres nuas, além de como arquiteto ter participado da equipe que elaborou o emblemático edifício do Ministério da Educação e Saúde (MES), chefiada por Lucio Costa, a partir de uns esboços imprecisos de Le Corbusier. Na casa de minha mãe em Belo Horizonte ainda está pendurado na parede da nossa sala, um retrato de uma bela mulher, algo voluptuosa, definida apenas por um traço minimalista, elegante e seguro de Caloca.

Ainda me lembro, que o crítico de arquitetura Jorge Cjajkowski tinha estruturado um plano para o livro, que pretendia lançar uma luz sobre um dos representantes da primeira geração modernista brasileira, que se envolvera em sua trajetória arquitetônica, principalmente nas demandas domésticas com casas que se afastavam do racionalismo corbusieano e tendiam para uma atitude romântica, próximo de um nativismo da arquitetura colonial brasileira. Esse conjunto de obras longe da ortodoxia racionalista e modernista, com uma feição mais tradicional era o que mais incitava a Czaikowski a produzir uma reflexão sobre Carlos Leão.

"Até recentemente a avaliação crítica desse conjunto esbarrava num problema de difícil superação: a maioria das obras apresenta uma feição tradicionalista e é posterior a projetos modernos de importância do MES e da Cidade Universitária - fato que talvez explique a clandestinidade a que foram relegadas." CZAIJKOWSKI 2016 página 13

Interessante assinalar que essa atitude de se aproximar de um vernáculo arquitetônico mais tradicional, não significa perder de vista a continuidade dos espaços, obtida pela independência estrutural, ou a fluidez entre interior e exterior, tão presente na arquitetura dos trópicos. Afinal, muito desssa atitude está também presente na primeira obra de Lucio Costa, principalmente em suas casas unifamiliares. Parece-me que o temperamento afável de Carlos Leão admitia fazer concessões ao gosto de uma clientela nostálgica, sem abrir, no entanto, mão de uma qualidade espacial notável, e muitas vezes contraditoriamente moderna.

Ao final, o livro me parece uma oportunidade única de rever leituras históricas cristalizadas e posicionamentos ortodoxos e rígidos, mostrando-nos que auto-construção do Brasil está sempre aberta para reinterpretações e releituras.

BIBLIOGRAFIA:
CZAJKOWSKI, Jorge - Carlos Leão: Arquitetura - Bazar do Tempo Rio de Janeiro 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

O filme São Sebastião do Rio de Janeiro, a formação de uma cidade

O filme São Sebastião do Rio de Janeiro, a formação de uma cidade, que estreou na última segunda-feira dia 26 de maio de 2016, com produção e direção de Juliana de Carvalho e apoio do IAB-RJ tem o mérito de reconhecer a cidade, como um personagem. E, no caso específico do Rio de Janeiro, com uma personalidade bastante particular e única no mundo, afinal segundo as palavras do jornalista Rui Castro no filme; "Aqui tudo se transforma em carioca".  Localizada num sítio mágico, na beira do Atlântico Sul, onde massas graníticas expressivas e verticais contrastam com a horizontalidade do mar, com uma Baía, chamada de Guanabara, que literalmente está cercada por um anfiteatro de montanhas. A região é pontuada por ícones geológicos, tendo portanto uma personalidade que antecede em muito as diferentes ocupações humanas, sejam elas; indias, francesas ou portuguesas.

Outro mérito do filme, é sua referência contínua à base espacial concreta do construído, A Arquitetura da Cidade, seu desenvolvimento que sempre foi determinado pelo sítio natural, sua transformação e domesticação, por planos e projetos humanos. Daí a presença quase massiva de depoimentos de arquitetos e urbanistas - Augusto Ivan, Carlos Fernando, José Pessoa e Pedro Rivera - , que desfiam os processos de desenvolvimento da grande metrópole, que implicam em mazelas, mas também em potencialidades inumeráveis de transformação.

No final, o filme também aborda uma questão central para a cidade e seu futuro, as condições da Baía de Guanabara, a partir de um sintomático travelling da câmera sobre o Piscinão de Ramos, onde fica clara a imensa concentração de amenidades e benfeitorias na grande metrópole. A despoluição, a obtenção da balneabilidade da Baía de Guanabara, e a valorização de diversos bairros e municípios do Grande Rio se entrelaçam num desejo de se conquistar uma cidade com maior equidade. A imensa escala da Baía de Guanabara, origem e razão do aparecimento da cidade colonial portuguesa, poderá apontar para um futuro, onde as benesses da vida urbana estão mais bem distribuídas e compartilhadas.