A Andrade Gutierrez publicou no dia 09 de maio de 2016, carta de página inteira em alguns jornais nacionais de grande circulação, além de um pagamento de indenização de R$1 bilhão, como parte do acordo de leniência feito com a justiça brasileira. A carta da Andrade e Gutierrez, a segunda maior empreiteira do Brasil, reconhece a falta de protagonismo dos planos e projetos nas obras contratadas no país. Num trecho da carta a empresa aponta erros graves, e destaca que é necessário mudar práticas e costumes, que ainda estão arraigadas nas formas de contratação das obras brasileiras.
"Reconhecemos que erros graves foram cometidos nos últimos anos e, ao
contrário de negá-los, estamos assumindo-os publicamente. Entretanto,
um pedido de desculpas, por si só, não basta: é preciso aprender com os
erros praticados e, principalmente, atuar firmemente para que não voltem
a ocorrer."
No mesmo comunicado, a Andrade Gutierrez lista oito pontos que devem nortear a mudança nas práticas e costumes das obras brasileiras. Destaco aqui tres pontos, que fazem parte da pauta da rede do IAB nos últimos anos; a autonomia do projeto, que pré figura a obra, determinando sua forma. seu orçamento e cronograma de forma precisa. A obrigatoriedade de projeto executivo, coordenado pela disciplina de arquitetura, que define os princípios gerais, coleta as informações das diversas disciplinas e compatibiliza-as entre si. E, por último a manipulação do projeto como o documento que impulsiona o debate sobre a adequação da obra a seu contexto específico, sendo aprovada por diversas esferas sociais e ambientais, evitando-se as contestações judiciais;
"1) Obrigatoriedade de estudo de viabilidade técnico-econômica
anterior ao lançamento do edital de concorrência, descartando-se obras
que não contribuam para o desenvolvimento do país;
2)
Obrigatoriedade de projeto executivo de engenharia antes da licitação do
projeto, permitindo a elaboração de orçamentos realistas e evitando-se
assim previsões inexequíveis que causem má qualidade na execução,
atrasos, rescisões ou a combinação de todos estes fatores;
3)
Obrigatoriedade de obtenção prévia de licenças ambientais, evitando-se
contestações judiciais ao longo da execução do projeto e o início de
obras que estejam em desacordo com a legislação;"
Me parece importante frizar aqui, que os últimos acontecimentos ligados as obras públicas brasileiras precisam de um realinhamento geral e de novas práticas de amplos setores; gestores públicos, planejadores, projetistas, empreiteiras e subempreiteiras, que devem passar a considerar o plano e o projeto como o verdadeiro protagonista da obra. Recentemente afiliados do IAB-RJ comunicaram ao instituto licitações para escolha de projetos públicos de Arquitetura Hospitalar, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pela modalidade de Pregão Eletrônico, o que demonstra claramente a continuidade do aviltamento do projeto em nossa sociedade. O pior no caso desse certame licitatório, é que os preços que resultaram dessa concorrência foram totalmente aviltantes, chegando a disciplina de arquitetura ao valor de R$1,90/m2, quando o preço inicial era de R$44,14.
Há muito que planos e projetos não são considerados em sua devida importância, fazendo com que a sociedade não tenha consciência daquilo que está para ser realizado, e não possa discutir e ajustar o seu próprio vir-a-ser de forma adequada e compartilhada. Programar, desenhar, detalhar, especificar, quantificar, orçar e prever prazos são tarefas dos planos e dos projetos, que precisam ser corretamente remuneradas e respeitadas. Afinal, as sociedades mais transparentes, simplesmente pensam antes de fazer...
Diário de Pedro da Luz Moreira, interessado em discutir a arquitetura, a cidade e o projeto
terça-feira, 10 de maio de 2016
domingo, 8 de maio de 2016
Técnica e ciência como "ideologia"
O texto do filósofo alemão Jürgen Habermas, Técnica e ciência como "ideologia", é datado de 1968, mesmo ano do livro Conhecimento e Interesse, tendo o escrito sido caracterizado pelo autor como um trabalho de ocasião, em contraposição a um estudo mais sistemático, que corresponde ao livro. No entanto, o mesmo Habermas já se posicionou que as proposições do livro foram abandonadas, enquanto as construções do texto Técnica e ciência como "ideologia" convergiram para formulações posteriores, como os contidos em Teoria da ação comunicativa, que hoje podem ser considerados como a referência central de sua obra. Há uma questão importante no texto, que se refere fortemente a nossa contemporaneidade, onde algumas vozes se levantam para afirmar a desideologização dos discursos em nome de uma melhor técnica. Quando, por exemplo, menciona-se a necessidade de composição de um ministério técnico e de alto gabarito, em contraposição a um ministério político. Toda técnica precisa dialogar, e portanto precisa ser política, no sentido de ser eleita ou de ser persuasiva para o conjunto da sociedade.
O cerne da construção de Habermas parece estar contido na distinção proposta pelo filósofo entre; trabalho, ou ação racional com respeito a fins, ou regras técnicas e interação, ou ação comunicativa simbolicamente mediada, ou normas sociais. Ambas se encontram em nossas sociedades modernas, ao mesmo tempo dirigidas e impostas por expectativas de comportamento reciprocamente entrelaçadas e sancionadas por instituições. A proposição de Habermas parte das reflexões de Max Weber que caracterizou a modernidade como a ampliação da racionalidade, que incluia a urbanização dos modos de vida, e a ampliação do controle burocrático;
A racionalidade com respeito a fins, se distingue portanto do debate e da concertação, que envolvem a interação entre uma diversidade de proposições, o contraditório e a eleição de prioridades, a razão instrumental, particular e subjetiva se diferencia da razão intersubjetiva, que é pública e coletiva. A técnica e a ciência se ideologizaram pois desfrutam de um reconhecimento e de uma legitimação obtidos num mundo que as celebra de forma exclusiva. Mas em nosso mundo contemporâneo, de grande ampliação da comunicação é possível imaginar uma única direção para a técnica, ou a eleição de uma mais desenvolvida e adequada do que outras? Ou a comunicação manipulada pela melhor técnica nos imporia de forma definitiva a alienação dos nossos desejos e vontades de construir uma vida melhor?
Na verdade, as diferentes técnicas se adequam a contextos específicos em função de sua acessibilidade por atores e agentes diversificados, toda ciência ou técnica é dependente do grau de sua aceitação ou manipulação social. A técnica e a ciência é em cada um dos possíveis pontos de sua elegibilidade parte de um projeto histórico-social, que portanto deve ser explicitado, debatido e eleito como forma adequada da superação.
Habermas em seu texto, ainda faz uma distinção importante entre tradição e modernidade, num movimento que Weber denominou como a secularização, que se refere ao abandono das interpretações cosmológicas do mundo, que são trocadas pela imposição da racionalidade com respeito a fins. A expressão sociedade tradicional, se relaciona exatamente com a circunstância de que o quadro institucional repousa, sobre uma base legitimadora não questionada das explicações místicas, religiosas ou metafísicas. Esse movimento de crítica ao dogmatismo das interpretações tradicionais do mundo, que são substituídas por um caráter científico objetivante, também precisam ser legitimadas como práticas. Segundo o filósofo alemão é assim que nascem as ideologias, paradoxalmente na mesma origem da sua crítica;
O Iluminismo, e de forma mais restritiva, o Positivismo, são essas ideologias que legitimam a técnica e a ciência no nosso mundo contemporâneo. Essa destruição contínua da tradição, mencionada por Marx e também por Schumpeter, faz com que o modo de produção seja entendido como um mecanismo de expansão contínua da ação racional com respeito a fins, abalando a supremacia da tradição. A idealização do mercado como um mecanismo nivelador, sem hierarquia entre agentes e atores promete a justiça na equivalência entre trocas, onde os proprietários de mercadorias se encontram com os desprovidos de qualquer propriedade, ou com sua única mercadoria, a sua própria força de trabalho, de maneira igualitária.
Habermas menciona então dois sentidos para essa ampliação da racionalização ou secularização dos mundos da vida, um de baixo para cima e outro de cima para baixo, deixando entender que esse último mantém a dominação, enquanto o primeiro amplia a autonomia. De um lado, no sentido de cima para baixo a ciência e a técnica legitimam a permanência da dominação, no lado oposto de baixo para cima percebe-se a ampliação da autonomia dos indivíduos.
Desenvolve-se uma interdependência entre técnica e ciência, que antes do final do século XIX, com o advento operativo do mundo moderno ainda não existia, articulada por uma expansão significativa da intervenção estatal. A técnica passa a impulsionar de tal forma a produção, com uma significativa elevação da produtividade do trabalho, que se transforma numa fonte de mais valia independente, fazendo com que a força dos produtores imediatos tenha cada vez menos peso.
Aqui é importante localizar o texto de HABERMAS no ano 1968, como já mencionado, quando ainda não havia o forte impulso neo-liberal determinado por Thatcher e Reagan do final dos anos setenta, que determinaram um forte declínio da intervenção estatal. Por outro lado, o autor também retrocede ao último quarto do século XIX, localizando nesse momento a expansão do intervencionismo do estado na economia, com o declínio do capitalismo liberal, enquanto outros autores apenas o identificam no segundo pós guerra. De qualquer modo, para HABERMAS tal ordenação reduziu a força da aplicação do sistema criado por Marx, uma vez que a ideologia da troca justa desmascarada por ele, também será admitida e adotada pelo sistema, com a intervenção reguladora do estado.
A pesquisa fomentada pelo Estado promove o progresso técnico e científico inicialmente para o aparato militar de dominação, sendo depois apropriada pelo domínio civil da produção de bens, se transformando numa fonte de mais valia independente. Essa institucionalização do progresso técnico e científico, coincidente com o interesse pela manutenção do sistema, determina a supressão da diferenciação entre trabalho e interação das nossas consciências. Dessa condição deriva uma sensação de que a evolução do sistema social parece ser determinada pela lógica do progresso técnico e científico.
Dentro desse contexto a identificação das classes sociais se torna extremamente difícil, pois os interesses na manutenção do modo de produção não são mais claramente identificáveis. Paradoxalmente, os potenciais de conflito são acirrados, conflitos de raça, de religiões e crenças beiram explosões semelhantes muitas vezes às guerras civis, mas não se sustentam como questionadores continuados do módus operandi do sistema. A mais vigorosa força produtiva, o progresso técnico-científico, submete-se ao controle e se auto-legitima como ideologia desideologizada, transformando a ciência num fetiche.
Essa condição determina uma adequação passiva do quadro institucional, contraposta a uma submissão ativa da humanidade, e da natureza, que se amplia de forma descoordenada, que se manifesta na maneira como os homens fazem a sua história. O quadro institucional, que é do âmbito da interação se adequa de forma passiva, enquanto que o trabalho e a produção submetem natureza e humanidade de forma ativa. Há um extraordinário desenvolvimento produtivo, contraposto a um débil desenvolvimento institucional e associativo. Percebe-se claramente esse desequilíbrio no desenvolvimento extraordinário contemporâneo da circulação de moeda pelo mundo, em contraposição a debilidade de controle fiscal desse mesmo dinheiro.
Os tecnocratas do planejamento sejam capitalistas, ou do socialismo burocrático querem submeter o conjunto da sociedade ao controle produtivo como foi feito com a natureza, no entanto se deparam com um contexto linguisticamente mediado. Portanto, nos deparamos com dois conceitos distintos de racionalização, de um lado a razão instrumental, e de outro lado a razão intersubjetiva ou dialógica, construída a partir da discussão sem entraves e livre de dominação.
Habermas irá concluir seu texto projetando uma grande esperança sobre os movimentos de ativistas estudantis, que no ano de 1968 questionaram fortemente o sistema na Europa, nos EUA e em outras partes do mundo. Para o contexto brasileiro, me parece fundamental reforçar que é pelo questionamento da despolitização que pode-se questionar a ideologia do desempenho e da produtividade, trocando-a pela auto constituição da cidadania, que me parece essencial nesse nosso momento.
BIBLIOGRAFIA:
HABERMAS, Jürgen - Técnica e Ciência como "ideologia" - Editora Unesp São Paulo 2014
O cerne da construção de Habermas parece estar contido na distinção proposta pelo filósofo entre; trabalho, ou ação racional com respeito a fins, ou regras técnicas e interação, ou ação comunicativa simbolicamente mediada, ou normas sociais. Ambas se encontram em nossas sociedades modernas, ao mesmo tempo dirigidas e impostas por expectativas de comportamento reciprocamente entrelaçadas e sancionadas por instituições. A proposição de Habermas parte das reflexões de Max Weber que caracterizou a modernidade como a ampliação da racionalidade, que incluia a urbanização dos modos de vida, e a ampliação do controle burocrático;
"Max Weber introduziu o conceito de "racionalidade" para designar a forma de atividade econômica capitalista, das relações do direito privado burguês e da dominação burocrática...Isso corresponde à industrialização do trabalho social, tendo por consequência a penetração dos critérios da ação instrumental em outros âmbitos da vida (como a urbanização dos modos de vida, a transformação técnica das trocas e da comunicação)." HABERMAS 2014, página 75
A racionalidade com respeito a fins, se distingue portanto do debate e da concertação, que envolvem a interação entre uma diversidade de proposições, o contraditório e a eleição de prioridades, a razão instrumental, particular e subjetiva se diferencia da razão intersubjetiva, que é pública e coletiva. A técnica e a ciência se ideologizaram pois desfrutam de um reconhecimento e de uma legitimação obtidos num mundo que as celebra de forma exclusiva. Mas em nosso mundo contemporâneo, de grande ampliação da comunicação é possível imaginar uma única direção para a técnica, ou a eleição de uma mais desenvolvida e adequada do que outras? Ou a comunicação manipulada pela melhor técnica nos imporia de forma definitiva a alienação dos nossos desejos e vontades de construir uma vida melhor?
Na verdade, as diferentes técnicas se adequam a contextos específicos em função de sua acessibilidade por atores e agentes diversificados, toda ciência ou técnica é dependente do grau de sua aceitação ou manipulação social. A técnica e a ciência é em cada um dos possíveis pontos de sua elegibilidade parte de um projeto histórico-social, que portanto deve ser explicitado, debatido e eleito como forma adequada da superação.
Habermas em seu texto, ainda faz uma distinção importante entre tradição e modernidade, num movimento que Weber denominou como a secularização, que se refere ao abandono das interpretações cosmológicas do mundo, que são trocadas pela imposição da racionalidade com respeito a fins. A expressão sociedade tradicional, se relaciona exatamente com a circunstância de que o quadro institucional repousa, sobre uma base legitimadora não questionada das explicações místicas, religiosas ou metafísicas. Esse movimento de crítica ao dogmatismo das interpretações tradicionais do mundo, que são substituídas por um caráter científico objetivante, também precisam ser legitimadas como práticas. Segundo o filósofo alemão é assim que nascem as ideologias, paradoxalmente na mesma origem da sua crítica;
"É assim que nascem as ideologias em sentido estrito: elas substituem as legitimações tradicionais da dominação ao se apresentarem com a pretensão da ciência moderna e se justificarem como crítica da ideologia. As ideologias possuem a mesma origem que a crítica da ideologia. Nesse sentido não podem existir 'ideologias' pré-burguesas." HABERMAS 2014 página 101
"O capitalismo é na história universal o primeiro modo de produção que institucionalizou um crescimento auto-regulado...A novidade encontra-se muito mais em um estágio de desenvolvimento das forças produtivas que torna permanente a expansão dos subsistemas de ação racional com respeito a fins e que, por seu meio coloca em questão os modos como as civilizações legitimam a dominação por meio de interpretações cosmológicas do mundo." HABERMAS 2014 página 96,97
Desenvolve-se uma interdependência entre técnica e ciência, que antes do final do século XIX, com o advento operativo do mundo moderno ainda não existia, articulada por uma expansão significativa da intervenção estatal. A técnica passa a impulsionar de tal forma a produção, com uma significativa elevação da produtividade do trabalho, que se transforma numa fonte de mais valia independente, fazendo com que a força dos produtores imediatos tenha cada vez menos peso.
"Desde o último quarto do século XIX tornam-se perceptíveis nos países capitalistas mais avançados duas tendências de desenvolvimento: 1. um crescimento do intervencionismo estatal, o qual procura assegurar a estabilidade do sistema; e 2. uma interdependência crescente da pesquisa e da técnica, que transformou a ciência na principal força produtiva." HABERMAS 2014 página 102
Aqui é importante localizar o texto de HABERMAS no ano 1968, como já mencionado, quando ainda não havia o forte impulso neo-liberal determinado por Thatcher e Reagan do final dos anos setenta, que determinaram um forte declínio da intervenção estatal. Por outro lado, o autor também retrocede ao último quarto do século XIX, localizando nesse momento a expansão do intervencionismo do estado na economia, com o declínio do capitalismo liberal, enquanto outros autores apenas o identificam no segundo pós guerra. De qualquer modo, para HABERMAS tal ordenação reduziu a força da aplicação do sistema criado por Marx, uma vez que a ideologia da troca justa desmascarada por ele, também será admitida e adotada pelo sistema, com a intervenção reguladora do estado.
A pesquisa fomentada pelo Estado promove o progresso técnico e científico inicialmente para o aparato militar de dominação, sendo depois apropriada pelo domínio civil da produção de bens, se transformando numa fonte de mais valia independente. Essa institucionalização do progresso técnico e científico, coincidente com o interesse pela manutenção do sistema, determina a supressão da diferenciação entre trabalho e interação das nossas consciências. Dessa condição deriva uma sensação de que a evolução do sistema social parece ser determinada pela lógica do progresso técnico e científico.
"A isso corresponde, subjetivamente, que a diferença entre ação racional com respeito a fins e a interação desapareça não apenas do conhecimento científico, mas da consciência dos próprios homens. A força ideológica da consciência tecnocrática é garantida pela ocultação dessa diferença." HABERMAS 2014, página 112
Dentro desse contexto a identificação das classes sociais se torna extremamente difícil, pois os interesses na manutenção do modo de produção não são mais claramente identificáveis. Paradoxalmente, os potenciais de conflito são acirrados, conflitos de raça, de religiões e crenças beiram explosões semelhantes muitas vezes às guerras civis, mas não se sustentam como questionadores continuados do módus operandi do sistema. A mais vigorosa força produtiva, o progresso técnico-científico, submete-se ao controle e se auto-legitima como ideologia desideologizada, transformando a ciência num fetiche.
Essa condição determina uma adequação passiva do quadro institucional, contraposta a uma submissão ativa da humanidade, e da natureza, que se amplia de forma descoordenada, que se manifesta na maneira como os homens fazem a sua história. O quadro institucional, que é do âmbito da interação se adequa de forma passiva, enquanto que o trabalho e a produção submetem natureza e humanidade de forma ativa. Há um extraordinário desenvolvimento produtivo, contraposto a um débil desenvolvimento institucional e associativo. Percebe-se claramente esse desequilíbrio no desenvolvimento extraordinário contemporâneo da circulação de moeda pelo mundo, em contraposição a debilidade de controle fiscal desse mesmo dinheiro.
Os tecnocratas do planejamento sejam capitalistas, ou do socialismo burocrático querem submeter o conjunto da sociedade ao controle produtivo como foi feito com a natureza, no entanto se deparam com um contexto linguisticamente mediado. Portanto, nos deparamos com dois conceitos distintos de racionalização, de um lado a razão instrumental, e de outro lado a razão intersubjetiva ou dialógica, construída a partir da discussão sem entraves e livre de dominação.
Habermas irá concluir seu texto projetando uma grande esperança sobre os movimentos de ativistas estudantis, que no ano de 1968 questionaram fortemente o sistema na Europa, nos EUA e em outras partes do mundo. Para o contexto brasileiro, me parece fundamental reforçar que é pelo questionamento da despolitização que pode-se questionar a ideologia do desempenho e da produtividade, trocando-a pela auto constituição da cidadania, que me parece essencial nesse nosso momento.
BIBLIOGRAFIA:
HABERMAS, Jürgen - Técnica e Ciência como "ideologia" - Editora Unesp São Paulo 2014
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Cidade amistosa e inclusiva
Muitas vezes a pauta da imprensa não é positiva, mas carregada de negatividade, no caso era sobre arquitetura hostil, um tipo de atitude que vem se generalizando em nossas cidades basicamente para afastar moradores de rua e outras mazelas determinadas pela ´pobreza. Há de uma maneira geral uma criminalização da pobreza no mundo contemporâneo, que é assustadora.
Minha posição tentou se movimentar no sentido de identificar na forma hegemônica do bem viver no Brasil - o condomínio clube - uma imensa falta de generosidade, com relação a expressivos contingentes de nossa população. Na verdade, percebe-se hoje no país uma clara segmentação da sociedade, e com isso a produção habitacional se hegemonizou em torno dos condomínios clubes. Áreas públicas exclusivas para determinado tipo de renda, que procura evitar o acesso público e universalizado, que o espaço urbano da cidade garantia. Essa tipologia de implantação domina mesmo os extratos médios da sociedade, que procuram se diferenciar do tecido geral, resguardando espaços privativos, que acabam potencializando a violência na cidade.
O sentido da cidade, em sua essência, é o convívio com a diversidade e com a diferença. Os sociólogos apontam que a Revolução Urbana, acontecida a mais de quatro mil anos atrás trouxe para a experiência humana cotidiana essa convivência com a diversidade, de crenças, práticas e costumes. O impacto dessa nova forma de comportamento - a cidade, - muito além da família e do clã, determinou um imenso avanço das descobertas humanas, porque permitiu a interação entre diferentes, levando à relativização de nossos pré-conceitos. Esse sentido didático da cidade continua operando hoje em dia, precisamos retomar essa direção, que já tiveram presentes em bairros como Copacabana no Rio de Janeiro, ou Higienópolis em São Paulo. Bairros onde empreendimentos imobiliários reuniam diferentes extratos de renda compartilhando o mesmo núcleo de circulação vertical ou elevador. Nessa mesma configuração o rodoviarismo também não desempenhava papel tão hegemônico como hoje, o automóvel e o pneu transformaram o espaço público em locais insalubres e de dificil promoção da convivência e do encontro. Essas configurações espaciais dos bairros de Copacabana e Higienópolis geraram cidades muito mais seguras para seus habitantes, com possibilidades de convívio e encontro.
Abaixo o link da matéria...
http://projetocolabora.com.br/cidades/a-arquitetura-hostil-das-cidades/
Minha posição tentou se movimentar no sentido de identificar na forma hegemônica do bem viver no Brasil - o condomínio clube - uma imensa falta de generosidade, com relação a expressivos contingentes de nossa população. Na verdade, percebe-se hoje no país uma clara segmentação da sociedade, e com isso a produção habitacional se hegemonizou em torno dos condomínios clubes. Áreas públicas exclusivas para determinado tipo de renda, que procura evitar o acesso público e universalizado, que o espaço urbano da cidade garantia. Essa tipologia de implantação domina mesmo os extratos médios da sociedade, que procuram se diferenciar do tecido geral, resguardando espaços privativos, que acabam potencializando a violência na cidade.
O sentido da cidade, em sua essência, é o convívio com a diversidade e com a diferença. Os sociólogos apontam que a Revolução Urbana, acontecida a mais de quatro mil anos atrás trouxe para a experiência humana cotidiana essa convivência com a diversidade, de crenças, práticas e costumes. O impacto dessa nova forma de comportamento - a cidade, - muito além da família e do clã, determinou um imenso avanço das descobertas humanas, porque permitiu a interação entre diferentes, levando à relativização de nossos pré-conceitos. Esse sentido didático da cidade continua operando hoje em dia, precisamos retomar essa direção, que já tiveram presentes em bairros como Copacabana no Rio de Janeiro, ou Higienópolis em São Paulo. Bairros onde empreendimentos imobiliários reuniam diferentes extratos de renda compartilhando o mesmo núcleo de circulação vertical ou elevador. Nessa mesma configuração o rodoviarismo também não desempenhava papel tão hegemônico como hoje, o automóvel e o pneu transformaram o espaço público em locais insalubres e de dificil promoção da convivência e do encontro. Essas configurações espaciais dos bairros de Copacabana e Higienópolis geraram cidades muito mais seguras para seus habitantes, com possibilidades de convívio e encontro.
Abaixo o link da matéria...
http://projetocolabora.com.br/cidades/a-arquitetura-hostil-das-cidades/
terça-feira, 26 de abril de 2016
A ciclovia Leblon - São Conrado tragédia anunciada 2
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| A Laje demolida pela onda, com uma viga central e duas abas laterais maiores, o que potencializou o esforço de cima para baixo da onda. |
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| A Laje que não foi demolida com duas vigas e abas laterais menores, que resistiu melhor ao esforço de baixo para cima. |
Há ainda um outro aspecto, que foi noticiado nos primeiros momentos, mas que a mídia abandonou como não sendo relevante, o fato da troca do responsável técnico da obra nas últimas fases do cronograma de implantação. Enfim, estamos diante de um caso grave, onde as evidências sobre a maneira da materialização do projeto, cada vez mais nos mostra o desdém com que vem sendo tratado o projeto e o planejamento em nossa sociedade.
Foi gravado, hoje dia 27 de abril de 2016, entrevista com a CBN-Rio sobre o assunto, o link está abaixo.
http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-rio/2016/04/27/EMPRESA-QUE-CRIA-PROJETO-NAO-DEVE-SER-A-MESMA-QUE-EXECUTA-A-OBRA.htm
quinta-feira, 21 de abril de 2016
A ciclovia Leblon - São Conrado, tragédia anunciada
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| Foto da Gruta da Imprensa com o viaduto Rei Alberto, antes da ciclovia Leblon - São Conrado |
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| O viaduto Rei Alberto |
Estamos diante de graves acontecimentos que precisam ser apurados e monitorados com rigor, mas que as recentes notícias mudando a forma de contratação das obras públicas por parte do governo federal, como a contratação integrada e o Regime Diferenciado de Contratação (RDC) demonstram exatamente a supremacia vitoriosa da pressa e da urgência, ou por um certo desdém pela etapa de desenvolvimento dos projetos. Há muito, que a rede nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) defende que os realizadores dos projetos, sejam eles; de estrutura, de urbano, de arquitetura ou de qualquer natureza não sejam os mesmos dos responsáveis pela implantação das obras e que sejam contratados pelo poder público. Tal prática nos parece garantiria uma maior autonomia para o desenvolvimento do projeto minimizando riscos, e determinando um controle compartilhado dos canteiros de obras. A contratação integrada, que delega ao empreiteiro a responsabilidade pelo desenvolvimento dos projetos e pela implantação das obras, não possibilita a devida autonomia à etapa fundamental, de pensar o que será feito.
Todos aguardamos ansiosos pela apuração dos fatos.
Debate no IAB-RJ sobre o Mat-building proposto pelo Team X na década de 60
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| O arquiteto Graziano Brau Pani |
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| Cartaz da palestra |
Uma espacialidade aberta a múltiplos usos e não mais determinada por um funcionalismo restritivo desembocava numa racionalidade processual, capaz de entender o projeto e o desenho como o território do conflito. Os exemplos trazidos pelo arquiteto italiano mostraram diferentes apropriações da metodologia mat-building, como a Casa Patio em Tolouse de 1961, a Kasbah de Piet Bloom de 1973, a Nexus World em Tóquio de 1991 do escritório OMA, e a Carambachel 11 em Madrid de 2006 do escritório Morphosis. A análise desses diferentes exemplos se pautou pela compreensão dos espaços de circulação, de estar, da capacidade de abrigar múltiplas funções e da sua inserção urbana. A modulação e a flexibilidade de alguns espaços foram destacados a partir de um rigoroso trabalho de compilação dos desenhos desses projetos, que media sua adequação a partir da presença da repetição e da surpresa, a legibilidade geral e o particularismo específico.
Nas minhas considerações sobre a palestra do arquiteto italiano Graziano Brau Pani, citei os trabalhos dos arquitetos Manfredo Tafuri e Carlos Nelson dos Santos, o primeiro no livro A esfera e o labirinto e o segundo em A cidade como um jogo de cartas, que citam sistemas modulares, homogeneizadores e repetitivos que geraram diversidades. A questão da forma do projeto, tanto no processo de concepção, como também na sua apropriação depois da construção permanecem como temas centrais para o nosso ofício.
Abaixo link para o site do IAB-RJ.
http://www.iabrj.org.br/graziano-brau-discute-sistema-mat-housing-no-iab-rj
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Debate sobre a crise atual brasileira no IAB-RJ esclarece vários pontos
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| Marcos Nobre, Lena Lavinas, Argelina Figueiredo e André Singer |
A primeira fala do cientista político ligado ao PT, André Singer procurou identificar no movimento do Impeachment da Presidente Dilma uma inflexão, ou ruptura de aliança, entre dois projetos distintos de país. De um lado, o recrudescimento do neo-liberalismo, expresso no documento a Ponte do PMDB, e de outro o social-desenvolvimentismo do PT, que se aliou de forma precária com o mesmo neo-liberalismo, desde o primeiro governo Lula. Singer reconhece e identifica a presença de uma certa hegemonia neo-liberal e financeira na política, que não arrefeceu desde os anos 1980 com a ascensão de Thatcher e Reagan, oferecendo como exemplo a recente ascensão do partido radical de esquerda na Grécia, que acabou adotando encaminhamentos rentistas, alinhados com os neo-liberais, que privilegiaram o pagamento das dívidas.
Um elemento, ainda posicionado fora dessa dualidade política é a Operação Lava-Jato, instalada no Poder Judiciário brasileiro, que pode representar algo novo, "se possibilitar a identificação da corrupção de forma equilibrada entre várias forças políticas, sem pretender se alinhar ou eleger qualquer uma delas como principal operadora." Efetivamente, a partir da prisão coercitiva do presidente Lula e do vazamento seletivo de algumas conversas telefônicas, por parte da Operação Lava-Jato instala-se uma forte suspeição, com relação ao não alinhamento com as tendências neo-liberais em luta.
A segunda palestra foi do professor de filosofia política da Unicamp Marcos Nobre, que se utilizou de uma metáfora ferroviária das locomotivas, apontando o PMDBismo ou o centro como principal indutor político brasileiro. O filósofo também se posicionou num lugar "mais favorável para se pensar, no pós-impeachment, seja qual for o resultado" e apontou, que a conjuntura brasileira e a crise atual são fruto da ausência de uma reflexão mais aprofundada, com relação às manifestações de junho de 2013. Para Marcos, o projeto Petista para enfraquecer o PMDB envolveu o incentivo à pulverização das forças partidárias na Câmara Federal, desideologizando uma série de posicionamentos em nome de que essa fragmentação viabilizava a governança.
Para Marcos Nobre o processo de ampliação das conquistas democráticas no Brasil se encerra com as manifestações de rua de junho de 2013, que demonstraram uma forte revigoração da pauta de reinvindicações fora do sistema partidário do país, e ainda sem resposta das lideranças políticas brasileiras. Naquele momento a pauta pela melhoria das condições de vida nas cidades brasileiras, com a generalização de melhoria das condições de habitação, mobilidade, saúde e educação em comparação aos investimentos dispendidos nos estádios da Copa do Mundo, se constituiram na principal força mobilizadora. Também para Marcos Nobre, a Operação Lava-Jato apresenta uma forte indefinição das suas intenções, o que sabemos dela é que se inspira na operação Mãos-Limpas da Itália, que desestabilizou completamente o sistema político daquele país, sem que esse atingisse maior eficiência no combate à corrupção. Por fim, Marcos Nobre apontou a necessidade de rearticulação do campo da esquerda no Congresso e nas Ruas, sem que o PT pretenda ou se coloque como força hegemônica. Para o filósofo existe por parte da esquerda brasileira uma profunda incompreensão, ou incapacidade de se identificar com novos movimentos que representam mudanças efetivas. A distinção importante entre manutenção do status quo, das formas tradicionais de fazer política e as efetivas demandas sociais, do interesse público e geral precisam ser repensadas.
A terceira fala foi da economista Lena Lavinas, que identificou de forma muito veemente no campo da esquerda um erro tático e estratégico com relação ao sistema de funcionamento do capital no mundo contemporâneo. A professora apontou que a forma de regulação do capital não é mais fordista e produtiva, e identificou na financeirização e no endividamento progressivo das pessoas a forma prioritária de atuação do sistema contemporâneo. Portanto, um projeto social-desenvolvimentista não poderia apenas investir e celebrar no consumo do mercado interno apenas de produtos ligeiros, que na verdade impulsionaram um imenso crescimento do endividamento familiar. A professora mostrou dados, que demonstram como o investimento em infra-estrutura desde o fim da ditadura declinou no Brasil, notadamente naqueles ítens que poderiam representar ganhos indiretos de qualidade de vida, como; saneamento, saúde, educação e mobilidade.
Por outro lado, a professora Lavinas também reconheceu na Constituição de 1988, um marco regulatório importante, capaz de impulsionar parâmetros concretos na busca de uma sociedade com mais equidade. Nela estão fixados o direito à seguridade social, à saúde, à moradia para todos, que certamente significam ganhos de renda, muito além dos aumentos salariais, que efetivamente ocorreram a partir do governo Lula. A fala da professora apontou claramente que o projeto da esquerda para o Brasil comandado pelo PT e também no resto do mundo deixou-se capturar pela financeirização;
"Quando voce analisa indicadores relativos à saneamento ou saúde, as alterações são muito pequenas. Quando considera televisões e telefones celulares são altíssimos. Vivemos uma financeirização da esquerda, como definiu Roberto Grün, abrimos mão da criação de uma sociedade coesa e unida, na qual pegamos o mesmo metrô e vamos a escola juntos." LAVINAS, Lena
Portanto, o debate no IAB-RJ teve um excelente nível e nos faz refletir, que nossas decisões no presente imediato acabam por determinar e condicionar alinhamentos e rumos futuros para nossa sociedade.
“Quando
você analisa indicadores relacionados à saneamento ou saúde, as
alterações são muito pequenas. Quando considera televisões ou telefones
celulares, são altíssimos. Vivemos uma financeirização da esquerda, como
definiu Roberto Grün: abrimos mão da criação de uma sociedade coesa e
unida, na qual pegamos o mesmo metrô ou vamos à escola juntos” - See
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alterações são muito pequenas. Quando considera televisões ou telefones
celulares, são altíssimos. Vivemos uma financeirização da esquerda, como
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alterações são muito pequenas. Quando considera televisões ou telefones
celulares, são altíssimos. Vivemos uma financeirização da esquerda, como
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