segunda-feira, 14 de março de 2016

O artigo de Janot sobre as obras na cidade do Rio de Janeiro

No dia 12 de março de 2016 foi publicado no jornal O Globo, o artigo do arquiteto Luiz Fernando Janot, sobre as obras da prefeitura na cidade do Rio de Janeiro, para as Olimpíadas de 2016, que aborda a questão da qualidade no seu desenvolvimento, que tende a aperfeiçoar sua definição. Cada vez mais, em nosso mundo contemporâneo se desenvolve a ideia, de que a adequação de uma obra a um contexto determinado depende do processo de desenvolvimento do projeto. A fase de projeto tem que passar a ser vista como um processo, que ao antecipar a intervenção, como uma simulação da obra no papel e nas maquetes permite um debate amplo sobre os custos e benefícios a serem alcançados.

A pré-figuração da obra obtida pelo projeto garante que amplos setores da sociedade tomem conhecimento das mudanças propostas, permitindo que o interesse público seja medido e objetivado. A participação cidadã deve ser fomentada nos estágios iniciais do projeto ou do plano, para aprimorar as intenções e proposições do mesmo. Os agentes que projetam devem ser distintos dos que realizam a obra, para que não se misturem os interesses públicos com os particulares, a estrutura de planejamento e de projeto deve ser pautada pelo interesse público.

Enfim, vale a pena a leitura, confiram na imagem anexa ou no link abaixo

https://docs.google.com/document/d/1YiNtKoLH_UACGw_muj6CMKqfWR2EdM1YRz7wLNHPjHk/pub

sábado, 12 de março de 2016

Seminário Desenho[...] Cidade - Moderna no IAB-RJ

Na mesa de debates; Diogo Pereira, Lucas Andrade, Francesco
Maggiore, Miguel Baptista-Bastos, Luisa Sol e Pedro da Luz


Nos dias 07,08 e 09 de março de 2016 foi realizado no auditório do IAB-RJ o III Seminário Internacional Arquiteturas Imaginadas sobre o tema Desenho [...] Cidade - Moderna, um debate que reuniu arquitetos brasileiros, portugueses, espanhóis e italianos. A ideia do seminário reuniu abordagens sobre um tema central para o ofício da arquitetura e do urbanismo, sobre as investigações escritas ou acadêmicas, as imagens e o ato de projetar. A organização do Seminário foi capitaneada pelos arquitetos, português Pedro Janeiro, e a brasileira, Cessa Guimarães, que possuem reflexões importantes sobre a arquitetura moderna, e sua capacidade de doutrinação dos mundos da vida.

No dia 08 de março participei da mesa de abertura, que foi mediada pelo arquiteto Miguel Baptista-Bastos, contando com as palestras - Imagens Fotográficas e Desejos de Cidades Modernas: Rodoviárias no Arquigrafia - dos arquitetos Diogo Pereira e Lucas Andrade de São Paulo - Territórios do Cinema: Quartos, Lugares, Paisagens - pesquisa do arquiteto Francesco Maggiore da Itália, e - Cidade Moderna, Cidade Pós-Moderna e Espaço-Representado em 'Anarchitekton' de Jordi Colomer - da arquiteta portuguesa Luisa Sol.

A minha palestra abordou o tema do Desenho e Projeto Moderno, que procurou problematizar os tres conceitos do título, mais a ideia de cidade, dentro de nossa contemporaneidade, que já não pode mais ser considerada essencialmente moderna, ou com a mesma carga dada aos termos no início do séculoXX. Já na abertura, enfatiazei o paradoxo do termo moderno a partir de dois versos de um poeta americano denominado Charles Olson que na década de sessenta declamava;

"What does not change,/is the will to change."
"O que não muda,/é a vontade de mudar." Charles Olson ANDERSON 1999 página15

Esse presente contínuo e interminável do moderno perpassa experiências humanas desde o século XI no ocidente, que se auto-definiram como tal, em contraposição a atitudes arcaicas ou ancestrais, calcadas na tradição, ou numa inércia do fazer. O termo moderno carrega portanto um problema, pois só pode ser qualificado de forma referenciada à tradição, ao passado e à ortodoxia, na medida que o moderno se institucionaliza ele perde sua potência, se cristalizando no acadêmico ou ortodoxo, que são suas antíteses.

A erosão contínua dos princípios do modernismo, no nosso mundo contemporâneo se iniciam com as explosões das bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945, que determinaram uma profunda desconfiança frente a técnica, o industrialismo e a padronização crescente. Implanta-se o discurso da alteridade, onde as lutas materialistas (salário, seguridade), dão lugar às reinvindicações simbólicas (relações interpessoais, experiências da subjetividade). Emerge também um forte discurso anti-ocidente, ou anti-europeu, que recupera práticas e ritos alternativos, conforme o historiador Toymbee já havia assinalado em 1934; 


“As comunidades ocidentais tornaram-se modernas tão logo conseguiram produzir uma burguesia numerosa e competente o bastante para se tornar o elemento predominante na sociedade… o contemporâneo já não apresentaria essa predominância, mas uma inteligência fora do ocidente e muitas vezes contra ele. ” TOYMBEE 1934 Study of History

No cenário brasileiro, Brasília assinala a conquista pelo modernismo como forma de expressão oficial do Estado, com uma iconografia assentada nos traçados de Lucio Costa e Oscar Niemyer, que acabou se infiltrando no imaginário coletivo da nação. O paradigma do bem viver passa a ser dominado por um rodoviarismo, articulado com a baixa densidade da unidade unifamiliar, isolada num lote em subúrbios cada vez mais afastados. A cidade européia densa, que representara fortemente a burguesia na longa transição do feudalismo para o capitalismo, como o lugar do livre comércio, agora era descartada, substituída pela aproximação idílica com o campo.

Em 1979 Margareth Thatcher é eleita primeira ministra da Inglaterra, um ano depois Ronald Reagan assume a presidência dos EUA determinando o declínio do estado de bem estar social e a ascensão do neo-liberalismo. Desenvolve-se então um forte declínio do setor industrial e a ascensão do setor de serviços na demanda de empregos, apontando nos anos noventa uma forte hegemonia do capital financeiro frente ao capital industrial. O mundo passa a ser governado por uma lógica financista, muitas vezes afastada do setor produtivo, sofrendo variações especulativas com forte impacto em diversas economias 

Também em meados dos anos 1990, o filósofo Habermas decreta num texto, no qual ironiza a tendência contemporânea de se utilizar continuamente do prefixo pós, para caracterização do nosso tempo, a incompletude do projeto moderno. O texto de Habermas faz uma distinção importante entre a modernidade, e o modernismo, dizendo que a pretensão humana de desígnio do seu futuro, que era uma pretensão da modernidade, e que as revoluções americana e francesa tinham expressado permanecia inalcançado.O projeto, portanto da modernidade de construção do livre arbítrio humano, da auto-determinação de nosso vir a ser estava incompleto e permanecia uma aspiração alcançável.

Habermas, também constroe sua teoria da racionalidade comunicativa, que se contrapõe a racionalidade meramente instrumental, determinando que a razão não deve estar carregada de personalismos, mas construída a partir de consensos, acordos e eleição de linhas de prioridade construídas coletivamente. Há um claro resgate da razão, que superando sua subjetividade, alcança uma dimensão do diálogo, das diferenças e das possibilidades criadas a partir da explicitação dos conflitos.

Enfim, o que pretendi demonstrar são as infinitas possibilidades para o projeto da sociedade contemporânea, a partir da ampliação democrática. Abaixo a entrevista de Pedro Janeiro, um dos organizadores do Seminário Desenho [...] Cidade Moderna ao jornal O Globo


domingo, 6 de março de 2016

Matéria sobre o fechamento do Hotel Glória na Bandnews

Hotel Glória, da murada da Glória
Recentemente dei entrevista sobre o Hotel Glória na cidade do Rio de Janeiro, uma edificação que possui uma grande carga simbólica para o turismo, para o bairro, para a cidade e para o país, afinal foi o primeiro hotel de cinco estrelas do país. A pauta da matéria cobrava uma maior definição do impacto ou do ônus causado pela não inauguração do hotel, que permanece com as obras paralisadas e sem previsão de reinauguração.

Na história do turismo carioca, o Hotel Glória registra uma mudança na pauta principal dos interesses de nossos visitantes, inaugurado em 15 de agosto de 1922, para a Exposição Internacional de comemoração dos cem anos da independência do país, a construção se posiciona na frente marítima da cidade. Ao se aproximar da frente marítima, registra-se uma mudança no tema focal do turismo na cidade, que abandona a floresta tropical para a balneabilidade do mar. Durante grande parte do século XIX e inicio do século XX a cidade é procurada pela exuberância em seu sítio da sua floresta tropical - a rain forest - , que pode ser comprovada pela presença recorrente da rede hoteleira construída até então, que se localiza de forma preferencial na própria floresta (Hotel das Paineiras), ou em bairros em suas adjacências, como no Alto da Tijuca, ou ainda em Santa Teresa.

Outro aspecto notável do Hotel Glória é sua inserção urbana e sua proximidade ao centro do poder republicano, localizado no Palácio do Catete, sede do poder executivo nacional, na então capital federal. Essa proximidade determinou a presença recorrente em seus quartos de figuras ilustres de nossa história republicana, que se aproximavam do poder central por diferentes motivos e interesses. Havia no lobby do antigo Hotel Glória uma sucessão memorável de figuras internacionais e nacionais, que visitaram a então capital federal da república para estabelecer contactos com o poder central do país.

Impressionante como a cidade do Rio de Janeiro perde oportunidades...A baixo o link da matéria.

http://noticias.band.uol.com.br/jornaldorio/video/2016/03/01/15784979/hotel-gloria-vira-grande-foco-de-aedes-aegypti.html


terça-feira, 1 de março de 2016

Encontro Lusófono no IAB-RJ

Nos dias 24, 25 e 26 de fevereiro de 2016 realizou-se na sede do IAB-RJ o encontro do Congresso Internacional de Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP), que organizou o V Fórum Internacional, A cidade Metropolitana. A multiplicidade na Lusofonia. O encontro reuniu arquitetos de; Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa, Guiné Bissau, Macau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, congregando entidades de representação profissional, que reúnem juntas 150 mil arquitetos, nos diferentes países.

O encontro pretendeu debater a estrutura das cidades metropolitanas no mundo de colonização portuguesa, sua diversidade e sua capacidade de impulsionar a economia local, justamente pela presença de um patrimônio construído notável. As apresentações feitas no auditório do IAB-RJ abordaram as cidades; do Rio de Janeiro (Brasil), Lisboa (Portugal), Luanda (Angola), Salvador (Brasil), Brasilia (Brasil), Macau (China) e Mindelo (Cabo Verde), formando um rico painel do desenvolvimento desses assentamentos.

Na minha percepção geral das cidades identifiquei um elemento comum, que me parece ser o legado mais importante da tradição lusa no campo da arquitetura e da cidade, pelo menos dentre as cidades apresentadas, com exceção de Brasília; um adequado domínio de sitios naturais sem incorrer em manipulações grandiloquentes de escala. Há uma certa singeleza nos monumentos de talha portuguesa, que se apresentam como obras de presença potente no sítio, mas que ao serem visitadas e percorridas demonstram uma maravilhosa adequação à escala humana, sem se envolverem com dimensões desmesuradas.

Um dos exemplos notáveis dessa condição é a Igreja do Outeiro da Glória no Rio de Janeiro, que apesar de suas dimensões singelas, ainda nos dias atuais, domina a enseada da Glória marcando o lugar de forma indelével. A colonização portuguesa do mundo ultramarinho sempre se desenvolveu dentro de precariedades do estado português, tanto do ponto de vista material, como também do ponto de vista da disponibilidade de população. Portugal dentre os reinos coloniais europeus, como Espanha, Inglaterra, França e Holanda, era o que dispunha de menor população e de um orçamento restritivo para a empresa ultramarinha. Tal condição acabou determinando construções e cidades singelas em sua escala, afastadas da grandiloquência exagerada das cidades espanholas na América.

Importante salientar também, que a exclusão de Brasília desse rol deve-se unicamente a seu perfil modernista, que lhe retirou da processualidade das cidades de construção sedmentadas no longo prazo, a partir de estratificações pré-modernas. Brasília é uma cidade de gesto único, concebida numa tacada, sem portanto as interações de longo prazo com seu contexto, que caracterizavam o desenvolvimento urbano pré-moderno. Certamente, Brasília também possui presenças lusas, como na descrição de Lucio Costa que identificou na distinção dos dois eixos; habitacional e monumental, o gesto simples de quem toma posse de um território.

"Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja o próprio sinal da cruz." Lucio Costa em BRAGA 2010 página156.

Há muito tempo que o debate entre as diferenças e particularidades das implantações portuguesas e espanholas na América dominam arquitetos e sociológicos. É conhecida a metáfora construída pelo grande sociólogo brasileiro Sérgio Buarque de Holanda, que associou as cidades espanholas com sua grelha regular ao trabalho do ladrilheiro, enquanto as portuguesas eram associadas ao semeador na sua interação com o sítio. O posicionamento do brilhante sociólogo é claramente condenatório com as implantações portuguesas, celebrando a regularidade das cidades espanholas, e o suposto improviso dos traçados das cidades brasileiras.

Na verdade, tal posicionamento já foi contestado por ampla documentação, que comprovou que a traça das cidades portuguesas eram planejadas e préfiguradas por engenheiros militares, que na verdade interagiram de forma mais intensa com as especificidades dos diversos sítios. Essa especificificidade das cidades de traça portuguesa, contraposta a uma certa homogeneização da cidade espanhola garantiu também um caráter de maior interação entre sítio e ocupação humana nas implantações brasileiras.

O debate e o conhecimento das diversas formas de implantação das cidades portuguesas pelo mundo abre um amplo campo de pesquisas e reflexão sobre o projeto e o plano desses assentamentos.

BIBLIOGRAFIA:

BRAGA, Milton - O Concurso de Brasília - Editora Cisac Naif São Paulo 2010

HOLANDA, Sérgio Buarque de - Raízes do Brasil - Editora Companhia das Letras São Paulo 1997

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Palestra do arquiteto Comas sobre a curadoria da exposição Latin American in Construction Architecture 1955-1980

Cartaz do evento
No dia 16 de fevereiro de 2016, o arquiteto Carlos Eduardo Comas fez uma palestra no IAB-RJ, sobre a sua curadoria da Exposição Latin American in Construction Architecture 1955-1980, narrando sua experiência no Modern Museum of Arts (MOMA) em Nova York, para a montagem da exposição. A palestra foi bastante ilustrativa, elucidando a complexa montagem de uma exposição, que tinha um recorte temporal bastante concreto, 1955 a 1980, um período extremamente rico para o continente da América Latina. A exposição tinha também como curador principal de arquitetura do MOMA Barry Bergdoll, curador assistente Patricio del Real e os curadores convidados; Carlos Eduardo Comas (Brasil) e Jorge Francisco Liernur (Argentina).

Com uma área de 1200M2, e tendo como referência uma antiga exposição do MOMA de 1955 montada por Henry-Russel Hithcock, que tinha como mote o triunfo oficial da arquitetura moderna no mundo todo no segundo pós guerra, que com Brasília e os Campus Universitários de Caracas e México assumia então a face de representação do Estado na América Latina. Em 1943, ainda no clima da segunda Guerra Mundial também foi realizado no MOMA a Exposição Brazil Builds, que maravilhou uma série de observadores com a produção pré-Brasília da arquitetura nacional, que mostrava um grupo de obras construídas no Brasil. Essa última exposição teve uma curadoria menos histórica e mais projetual, mostrando um grupo de arquitetos que manipulavam princípios corbusieanos, com uma potente interpretação particular.

Na apresentação de Comas houve a construção de uma interpretação sobre a percepção internacional da arquitetura brasileira, e dentro dessa do papel desempenhado por ela no cenário latino americano. A visão de Comas é que a crítica internacional a partir de Bruno Zevi* passou a celebrar a vertente orgânica de Frank Lloyd Wright, esvaziando a importância do discurso corbusieano, mais racionalista, que estava na gênese do modelo brasileiro.

De certa forma, Comas repete a avaliação do final dos anos setenta de Edgar Graeff, que considerava a crítica de Zevi não respondida pela arquitetura brasileira, um problema que estava referenciado ao meio onde a expressão se manifestava e também a uma atitude ideológica. Graeff, contrapôs o racionalismo ao organicismo na arquitetura, caracterizando o primeiro como um alinhamento ideológico mais próximo do socialismo, enquanto o segundo adotava posturas mais liberais e individualistas.

"Cabe destacar, para o melhor esclarecimento do nosso tema, que a convicção dos racionalistas - queiram eles ou não queiram - reflete a ação de ideologias que de algum modo tendem para o socialismo; e que a convicção dos organicistas, também a margem de sua vontade, reflete a ação de ideologias que se voltam para ideais burgueses de livre iniciativa e afirmações individualistas." GRAEFF 1979 página43

Aqui cabe apenas registrar, que frente ao esvaziamento da corrente racionalista por parte de Zevi e outros membros atuantes da arquitetura mundial como Gropius e outros, a arquitetura brasileira seguiu produzindo sem responder às reflexões, que passaram a condená-la como destituída de espacialidade interna. Apenas em 1979, com o refluxo das demandas de projeto é que Graeff irá produzir a resposta, que além da argumentação ideológica, também apresentava a justificativa do meio ambiente; da arquitetura dos trópicos, contraposta a arquitetura da neve.

Enfim, o que me parece importante destacar em todo esse debate; é que a construção de nossa capital - Brasília - no final dos anos cinquenta representa uma inflexão importante em nossa cultura arquitetônica. Há nesse momento um envolvimento com uma certa monumentalidade, que era absolutamente essencial no programa da nova capital, mas que não se justifica em outras demandas.

Abaixo matéria do jornal O Globo que repercutiu a palestra do arquiteto Carlos Eduardo Comas no IAB-RJ

http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/carlos-eduardo-comas-arquiteto-toda-sociedade-tem-arquitetura-que-merece-18703880

* Bruno Zevi (1918-2000), crítico de arquitetura italiano, que celebrava a arquitetura orgânica de Frank Lloyd Wright, como o ápice da formulação moderna

BIBLIOGRAFIA:

GRAEFF, Edgar - Cidade Utopia - Editora Vega Belo Horizonte 1979


domingo, 7 de fevereiro de 2016

A mentira da carga tributária brasileira

A mentira sobre o imposto de renda no Brasil vem sendo repetida de forma recorrente por associações empresariais como a FIESP e a FIRJAN, que acabaram convencendo a população, de que a tributação no país é abusiva. No entanto, quando comparamos a relação da taxa tributária brasileira com nosso PIB, constatamos que o Brasil recolhe 34,4% apenas de imposto, o que é muito menos do que a Bélgica 46,8%, França 44,6%, Alemanha 40,6%, Reino Unido 39%, Argentina 37,2%. Se demandamos por melhores serviços públicos, como transporte, escolas, saúde, previdência, segurança, etc..., precisamos arrecadar de forma mais inteligente e justa.

O problema da injusta carga tributária brasileira é que ela penaliza fortemente o salário do empregado e o consumo, deixando com pouca tributação os lucros das empresas e o fruto da venda de imóveis. Na verdade, os proprietários brasileiros acabam pagando muito pouco imposto, segundo dados do FMI e da Heritage Foundation, instituições que não podem ser acusadas de estatizantes ou com discurso de esquerda. A especialista em orçamento público e assessora do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), Graziela Custódio David apresenta o problema de forma correta;

“Se a gente compara um assalariado que paga na alíquota máxima de 27% com alguém que recebe mais do que o limite do imposto de renda, há uma situação terrível. Porque a maioria deles [os mais ricos] recebe por lucros e dividendos e, quando a gente avalia quanto eles pagam em imposto de renda, normalmente chega em 6%. Olha a situação: um grupo, que é a classe média, paga 27,5% de IR. E quem ganha muito mais que este grupo paga muitas vezes só 6%, porque existe a isenção de cobrança do Imposto de Renda sobre lucros e dividendos”

Essa injustiça tributária fica claro quando comparamos as diversas origens da carga tributária brasileira, juntando as três esferas de arrecadação, na qual; 51,28% provém de consumo de bens e serviços, 24,98% da folha de salários, 18,10% da renda e apenas 3,93% da propriedade. As alíquotas máximas cobradas sobre dividendos nos diferentes países também aponta para a mesma direção; Dinamarca 42%, França 38,50%, Canadá 31,70%,  Estados Unidos 21,20%, Turquia 17,50%, enquanto no Brasil esses rendimentos são isentos. Segundo dados da Receita Federal em 2014 71 mil brasileiros que ganharam cerca de R$ 200 bilhões não pagaram qualquer imposto, pois aferiram esses valores em sua maioria como lucros e dividendos.

É claro que o governo que aí está não demonstra muita capacidade de comunicação e vontade política para explicitar essa situação para o conjunto da sociedade brasileira, mantendo-se com uma atitude pouco criativa e inerte. Foi forjado em nossa sociedade uma percepção equivocada de que a carga tributária no Brasil é alta, ela na verdade é desequilibrada, penalizando os extratos de renda assalariados, deixando os super-ricos isentos.

Abaixo o link da matéria, "Os super ricos no Brasil são sustentados pela classe média e pelos pobres." Acima a imagem mostra tabela sobre a arrecadação prevista pela CPMF.

http://cartacampinas.com.br/2016/02/super-ricos-no-brasil-sao-sustentados-pela-classe-media-e-pelos-pobres/

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Mudança Estrutural da Esfera Pública e o campo do projeto

O livro Mudança Estrutural da Esfera Pública, do filósofo alemão da Escola de Frankfurt Jürgen Habermas é leitura fundamental, para compreender nosso tempo contemporâneo, principalmente no que concerne a ampliação ou redução da efetiva experiência democrática. Habermas caracteriza o nosso tempo moderno, a partir das Revoluções Americana e Francesas, como um grande esforço por criar arenas públicas com a função de discutir nossas ações prioritárias e futuros possíveis. A pretensão é reforçar a ideia kantiana do uso público da razão, como forma de convencer nossos pares da justeza de nossos argumentos, para tal, é necessário a existência de debatedores livres e iguais. O que significa disponibilidade para debater, ouvir, argumentar e formular, tendo como premissa a vontade de colocar suas próprias convicções em dúvida, como possíveis de serem modificadas pelo outro. Tal disponibilidade de debater também deve permear o ato de planejar e de projetar em nossa contemporaneidade, podendo ser visto como um esforço que vem se ampliando.

A Escola de Frankfurt, que depois do diagnóstico pessimista contido no livro a Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer, envereda com Habermas para uma construção mais otimista, apesar da manutenção de forte crítica aos mundos da vida, tal qual eles se configuram em nosso cotidiano. Mudança Estrutural parte da possibilidade da ampliação e construção de um fórum de debates entre iguais, com o confronto de argumentos racionalmente defendidos. Há nessa primeira grande sistematização do pensamento de Habermas um foco sobre o desenvolvimento dos processos da vida pública e política nos séculos XVIII, XIX e XX, nos países da Inglaterra, França e Alemanha. A construção claramente pretende sanar o déficit democrático dos pensadores marxistas, de forma geral, como também os da Escola de Frankfurt, que se envolveram mais especificamente com a crítica da cultura de massas.

O texto foi publicado em 1962, inicialmente seria submetido, justamente a Adorno e Horckheimer, como tese de pós-doutorado exigida para se obter o cargo de professor na Alemanha. No entanto, os dois professores da Escola de Frankfurt consideraram o texto, pouco crítico às democracias de massas do capitalismo administrado de então, e ao mesmo tempo, muito radical, na sua proposta de aprofundamento da disponibilidade do debate. Habermas acabou submetendo-o na Universidade de Marburg ao jurista e cientista político Wolfgang Abendroth, que participou ativamente dos debates de constituição da democracia alemã no segundo pós-guerra. De certa forma, Mudança Estrutural da Esfera Pública retoma a crença inicial do racionalismo alemão no Esclarecimento ou Iluminismmo (Aufklärung), como um processo emancipatório da espécie humana, se confrontando de maneira frontal com a assinalada desconfiança explicitada por Horkheimer e Adorno.

Dentro da questão da ampliação da emancipação possibilitada pelo Esclarecimento emerge o problema da qualidade da comunicação, ou da constituição de uma rede densa e aprofundada de opiniões, que pressupõe um público informado e argumentativo. As nossas sociedades contemporâneas de massa acabaram por construir um sistema de informação oligopolizado e altamente manipulador, que contrasta fortemente com o impulso inicial do Iluminismo.

"Na Alemanha, até o fim do século XVIII, havia surgido 'uma esfera pública pequena, mas que discutia de forma crítica'... transcendendo a república dos eruditos, um público leitor universal que não se limita a ler e reler...uma rede relativamente densa de comunicação pública. O súbito e crescente número de leitores é complementado por uma expansão considerável da produção de livros, revistas e jornais, por um aumento no número de escritores, editoras e livrarias, pela fundação de bibliotecas públicas e salas de leitura..., que funcionam como entroncamentos sociais de uma nova cultura literária." HABERMAS 2014 página39

O mundo alemão era ainda dominado pelo poder autocrático de príncipes, mas nessas sociedades e salões, nesses entroncamentos sociais já começavam a ser ensaiadas as normas da igualdade política da sociedade vindoura. A comunicação emancipadora é constituída pela presença de uma imprensa opinativa, que luta contra a censura, e que adota formas igualitárias de tratamento, liberdade de discussão e argumentação. E, que não se restringe ao campo da política e da representação estatal, mas envereda pelos costumes, pela arte, pela literatura e pela arquitetura, conformando uma esfera pública que discute os temas mediante razões. Habermas também mencionará a emergência de uma esfera pública plebéia, que ao lado da burguesa constituirá um projeto contra-hegemônico, e que já coloca a questão de que não há um público singular e homogêneo, mas altamente diferenciado.

"É evidente que essa cultura popular não era de maneira alguma apenas um pano de fundo, isto é, uma moldura passiva da cultura dominante; era também a revolta violenta ou moderada, retomada periodicamente, de um contraprojeto para o mundo hierárquico da dominação, com suas festividades oficiais e suas disciplinas cotidianas." HABERMAS 2014 página44

Além das culturas populares, Habermas também aponta o caráter patriarcal dos canais de comunicação no século XVIII, afinal a esfera pública burguesa e o contraprojeto plebeu excluiram as mulheres e a lógica feminina. Habermas irá apontar a literatura do século XIX, como o esforço de vanguarda nesse campo para mudar mentalidades enraizadas, permitindo a nossa percepção para o caráter patriarcal da esfera pública burguesa. O sufrágio feminino apenas será alcançado na Inglaterra e no Brasil na década de trinta do século XX, comprovando que apesar do desenvolvimento e da ampliação lenta da inclusão das mulheres, na prática a participação efetiva só se materializa com muita luta.

No mundo contemporâneo, a comunicação manipuladora parece vitoriosa, grandes conglomerados de forma monopolista dominaram a mídia, fazendo-a prisioneira de interesses particulares que manipulam a esfera pública. A pulverização de vários editores, jornais, revistas do início do Iluminismo é substituída por grandes conglomerados de mídias, repetindo-se uma tendência geral do sistema capitalista de suprimir a concorrência pela monopolização. Nesse sentido, Habermas é muitas vezes visto como um utópico, um formalista descontextualizado da barbárie, que se instalou a partir da monopolização dos veículos de comunicação. Na verdade, me parece que o projeto habermasiano opera no sentido de nos lembrar, que o impulso inicial da esfera pública burguesa pode ser recuperado, mesmo que no âmbito da afirmação utópica.

No campo do projeto de arquitetura e de urbanismo, nos mesmos anos sessenta, três autores empreenderam um grande esforço no sentido de ampliar o acesso ao processo de debate do nosso vir-a-ser construído; Aldo Rossi, Christopher Alexander e Kevin Linch. Três arquitetos que constroem sua obra na perspectiva de ampliação do espaço democrático da cidade, do debate entre ações essenciais e prioritárias, contrapostas a operações manipuladoras e espetaculares do seu futuro. Os livros; A Imagem da Cidade de Kevin Lynch, de 1960, Ensaio sobre a Síntese da Forma, de Christopher Alexander, de 1964 e A Arquitetura da Cidade de Aldo Rossi de 1966 operam no sentido de ampliar a compreensão da produção do espaço construído pelo homem. Todos os três estão fortemente vinculados a um viés estruturalista, bastante presente naqueles anos. Rossi se autoproclama de forma clara, um neo-racionalista, uma exceção, naqueles tempos de forte crítica à razão.

O campo do plano e do projeto vem ampliando de forma contínua sua disponibilidade para ampliar a participação em torno de suas decisões...

BIBLIOGRAFIA:

ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max - A Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos -Editora Jorge Zahar Rio de Janeiro 1985

ALEXANDER, Christopher - Ensayo sobre la Síntese de la Forma - Ediciones Infinito México 1975

HABERMAS, Jürgen - Mudança Estrutural da Esfera Pública - Editora Unesp, São Paulo 2014

LYNCH, Kevin - A Imagem da Cidade - Editora Martins Fontes São Paulo 1999

ROSSI, Aldo - A arquitetura da cidade - Editora Martins Fontes São Paulo 1995