quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O encontro Londres e Rio de Janeiro, metrópoles olímpicas em transformação

Nos dias 02 e 03 de fevereiro de 2015 foi realizado na sede do IAB-RJ o Encontro Londres e Rio de Janeiro, metrópoles olímpicas em transformação, que pretende estabelecer um canal de colaboração contínua entre o Royal Institute of British Architectes (RIBA) e o IAB-RJ. Importante salientar que a organização britânica fundada em 1884, assim como a brasileira fundada em 1921 são instituições da sociedade civil, sem portanto qualquer obrigação compulsória de filiação. São portanto instituições nas quais seus filiados se inscrevem pelo livre arbítrio, pela simples vontade de participar do debate.

Os motivos que impulsionam essa filiação são muitos, variados e particulares, mas principalmente giram em torno da questão da promoção da qualidade da produção da arquitetura, ou da produção do espaço construído pelo homem. Há também uma questão recorrente, que essas instituições encarnam na própria sociedade civil, são organizações reconhecidas pelo conjunto da sociedade como idôneas, dotadas de competência específica e capazes de se posicionar de forma independente, frente a interesses particulares.

O encontro com os ingleses se desenvolveu em torno de quatro eixos temáticos. O primeiro envolvia a estrutura da profissão no Reino Unido, na qual os arquitetos do RIBA - Marcus Deeley e Rob Earl - apresentaram os serviços prestados pela instituição, tais como; formação de potenciais clientes demandantes de serviços aos profissionais, concursos de projeto, desenvolvimento geral da qualidade arquitetônica, exposições e debates. Essa apresentação foi restrita a poucos membros do IAB-RJ, dentre os quais estavam o presidente do CAU-RJ Jeronimo Moraes e o professor da FAU-UFRJ Pablo Benetti. Interessante destacar que no Reino Unido existe; o Conselho, que é uma organização a qual os arquitetos são obrigados a estar filiados para o exercício profissional, e o RIBA, que é uma instituição na qual a inscrição é livre sem qualquer obrigatoriedade. Essa estrutura é muito semelhante a do Brasil, onde o Conselho (CAU) é responsável pela fiscalização do exercício profissional, e o IAB é responsável pela promoção da qualidade da arquitetura. Cabe apenas assinalar, que o RIBA no Reino Unido possui oitenta por cento da categoria fidelizada a ele.

O arquiteto John MacAslan apresenta a cidade de Londres
O segundo eixo temático envolvia a mobilidade nas duas cidades olímpicas e foi realizado no auditório do IAB-RJ e foi franqueado ao público, que se inscrevera com antecedência. A mesa foi composta por John McAslan, importante arquiteto britânico, nomeado arquiteto do ano em 2009 no Reino Unido, autor do projeto de reestruturação da estação de King Kross, e pelo arquiteto Vicente Loureiro, que é Subsecretário de Estado de Projetos de Urbanismo Regional e Metropolitano do Estado do Rio de Janeiro. A mesa foi mediada pela arquiteta Fabiana Izaga, vice presidente administrativo do IAB-RJ. O tema da mobilidade das duas cidades partiu das pré-existências colocadas nos seus territórios, suas infraestruturas já instaladas e como essas devem ser consideradas pelos novos projetos. Outra questão importante foi a da legibilidade do sistema como um todo, desde os modais de alta capacidade como o metrô e trens urbanos até suas micro complementariedade, que devem se esforçar para construir na cabeça dos usuários uma descrição coesa, uma leitura capaz de ser reproduzida por qualquer um. A capacidade desses sistemas troncais de transporte de criar uma hierarquia no território, baseada em grandes centralidades e subcentralidade também foi destacada pelos palestrantes. Por último, foi também assinalado a capacidade desses sistemas de induzir  a feição do território, criando centralidades, densidades, reorientando o crescimento da mancha urbana a partir da oferta de qualidade de deslocamento, que deve ter rapidez e tarifação acessível.

O terceiro eixo do encontro envolvia a questão do Meio Ambiente e das Cidades, no qual se destacava a questão dos corpos hídricos, como o rio Tâmisa em Londres ou a Baía de Guanabara no Rio de Janeiro, ou ainda as Lagoas de Jacarepaguá na mesma cidade no bairro da Barra da Tijuca. Os palestrantes foram os arquitetos Adam Williams e Ephim Scluger, o primeiro coordenador da firma de projetos AECOM e responsável pelo Masterplan do Parque Olímpico da Barra da Tijuca, e o segundo vice presidente institucional do IAB-RJ. A baía de Guanabara e o rio Tâmisa foram caracterizados como dois acontecimentos ambientais, paisagísticos e conformadores do território das duas cidades, que foram a razão da fundação e do desenvolvimento delas; Londres um porto fluvial e o Rio de Janeiro, um porto de baía. A questão da despoluição e a subsequente manutenção da qualidade ambiental dos corpos hídricos foi articulada com a questão da visibilidade que pode ser criada ou impulsionada por ações de planejamento e projeto. Outra questão debatida foi o da valoração da paisagem e sua capacidade de gerar amenidades para o espaço público da cidade, criando animação e compromisso com a promoção e manutenção da despoluição. Há na interação entre ser urbano e a paisagem natural um certo potencial ou capacidade de criar um didatismo de conservação e preservação.

Pablo Lazo (ARUP), Otávio Espírito Santo (SMH), Pedro da
Luz Moreira (IAB-RJ) e José Martins de Oliveira (Rocinha)
No quarto e último eixo de debates foi debatido o tema da Habitação nas cidades, os palestrantes foram; Pablo Lazo, diretor adjunto de Planejamento urbano na ARUP, importante firma inglesa de projetos, o líder comunitáro da Favela da Rocinha José Martins de Oliveira, e Pedro da Luz Moreira presidente do IAB-RJ. Um dos principais pontos que foram abordados foi a centralidade do tema da habitação nas cidades do mundo, e como o valor da terra urbana afeta a dinâmica habitacional em todas as cidades. A ideia de promoção de empreendimentos imobiliários com a presença da diversidade de categorias sociais e de usos, tornando as vizinhanças mais seguras é o grande desafio do nosso tempo contemporâneo. A habitação corresponde a uma demanda de oitenta por cento do solo construído em nossas cidades, e é o único uso que não gera uma sazonalidade especializada no espaço público da cidade. Daí a importância de sua presença em todas as partes da cidade. A definição da correta densidade, que articula a definição do gabarito em altura das edificações, e fachadas amigáveis que impulsionam a vida urbana intensa é também outro grande desafio. No campo mais específico da arquitetura foi também mencionada a importância do desenvolvimento de uma arquitetura mediana de qualidade, que reconstrua uma certa continuidade, e que se afaste dos gestos espetaculares. Por último também foi mencionado a absoluta importância da participação dos usuários na definição do desenho de seu ambiente.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O artigo do Veríssimo no jornal O Globo de 29/01/2015

Imagem do artigo do Veríssimo
O colunista do jornal O Globo Luiz Fernando Veríssimo nos brinda hoje com um excelente artigo sobre as cidades no mundo em nossa contemporaneidade, merecendo um destaque e uma reflexão. O artigo com o título de "Banlieues" se refere as favelas do Rio de Janeiro e as periferias intermináveis e genéricas de Paris, descrevendo os desequilíbrios de urbanidade presentes tanto numa como na outra. Em determinado trecho nosso irônico articulista nos brinda com uma precisa descrição da alienação das nossas elites - dentre as quais o próprio se inclui - que celebram a parte que conhecem, e se recusam a identificar as mazelas do desenvolvimento da nossa contemporaneidade em todo o mundo.

"A Paris que a gente conhece é apenas o centro de uma cidade que, assim como preservou sua arquitetura e seus monumentos, conserva sua solene indiferença ao cinturão de pobreza e ressentimento que a cerca."

A urbanidade que é um conceito que se refere a presença de uma certa civilidade, que envolve a presença de uma série de serviços de infra-estrutura urbana, tais como; segurança, calçadas, iluminação, arborização, presença de parques, transporte público, mobilidade, coleta de esgoto, lixo e outros foi comprada e privatizada. Na cidade capitalista o acesso a esses confortos custa caro, e invariavelmente, pelo preço da terra urbana, mantém longe de si a presença da pobreza. Nesse sentido, o velho cronista acaba nas entrelinhas por apontar uma vantagem dessa cidade do sul, de tantas balas perdidas, onde o "inevitável, como se lê no noticiário do Rio de todos os dias, já aconteceu." Afinal, aqui no Rio de Janeiro estamos entremeados pela pobreza...

A íntegra do artigo pode ser lida abaixo.

http://oglobodigital.oglobo.globo.com/epaper/viewer.aspx?noredirect=true

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Matéria no jornal O Globo sobre o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) que será implantado no centro do Rio de Janeiro

Comparação entre os antigos bondes e o novo VLT
No último domingo dia 25 de janeiro de 2015, o jornal O Globo publicou matéria sobre a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na Zona Portuária e no Centro do Rio de Janeiro, obra que se insere na ampliação da mobilidade na cidade. As linhas dos VLTs serão mais um modal de transporte que auxiliarão a população nos seus deslocamentos diários, para tal é importante que o seu bilhete esteja dentro do sistema geral de bilhete único, que o Governo do Estado do RJ implantou, permitindo a baldeação entre trens, metrô, barcas e ônibus.

A tarifa desses modais, quando utilizado o bilhete único, deveria ser reduzida, uma vez que o usuário antecipa o pagamento às concessionárias, uma vez que é preenchido de forma prévia com crédito nesse cartão. Interessante notar, que ao compararmos o sistema de transportes públicos de Nova York com o da cidade do Rio de Janeiro percebe-se na cidade americana uma tarifa muito mais favorável ao usuário, do que a praticada na cidade brasileira. O preço unitário do bilhete na cidade de Nova York é de US$2,10, mas o preço do bilhete semanal, válido por sete dias, custa US$21,00, o que mostra o desconto dado a quem antecipa o dinheiro para o sistema de transportes. No Rio de Janeiro, o cartão não recebe qualquer abatimento pela antecipação do crédito ao sistema de transportes, porque?

A matéria pode ser vista abaixo...


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Matéria na Revista do Secovi sobre os 450 anos do Rio de Janeiro

Uma parte da matéria da Revista do SECOVI-RIO
O SECOVIRIO é um sindicato ligado as administradoras de imóveis da cidade do Rio de Janeiro, que publicou uma interessante reportagem sobre os 450 anos da cidade, na qual há uma pequena fala minha, abordando a mudança de mentalidade das famílias cariocas, que abandonam a casa unifamiliar para viver nos edifícios multifamiliares. Essa me parece uma transformação que foi naturalizada em nossa sociedade, mas que envolveu uma importante mudança de mentalidade, permitindo a densificação da cidade, com a exploração mais intensa de seus terrenos, que passaram a sofrer maior valorização.

A apropriação da renda urbana, a partir dessa mudança nos hábitos da nossa população determinou a valorização fundiária dos terrenos na cidade de maneira inusitada. A densidade na cidade (habitantes/hectare) teve um crescimento contínuo até o inicio da era do automóvel e do pneu na cidade.

O desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro até o começo da década de sessenta do século XX foi extremamente dependente dos ramais de trilhos, seja dos trens, seja dos bondes. Essas linhas e suas paradas acabaram configurando uma rede de centralidades e sub-centralidades, que possuiam um claro e legível gradiente de densidades a partir da proximidade ou do afastamento das paradas e ou estações. De uma maneira geral a densidade era maior, assim como a presença do comércio no entorno das paradas e estações. A cidade dos trilhos é uma cidade mais coesa e densa do que a que emerge a partir da hegemonia do automóvel e do pneu.

Para exemplificar tal situação, basta mencionar o bairro da Barra da Tijuca, que é o primeiro bairro da cidade a ter seu desenvolvimento determinado pelo automóvel e pelo ônibus, independente dos trilhos. Percebe-se claramente nessa distinção de espacialidades, a diferenciação na gênese dos bairros cariocas.

O link da revista está mostrado abaixo:

http://secovi-rj.cviewer.com.br/srj/cviewer/edicao.asp?ed=92


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A onipresença do individualismo no mundo contemporâneo, ou como ser feliz sózinho

Os anos Thatcher e Reagan, no começo dos anos oitenta, determinaram uma predominância do livre mercado em nosso cotidiano contemporâneo, uma compreensão compartilhada pelo senso comum, de que a economia precisa ser desregulada do controle público (governamental). A desregulamentação da atividade econômica acabou levando a crise de liquidez de 2008 dos bancos americanos, devido a enorme especulação que se descolou da prática efetiva das empresas e atividades. A doutrinação repetia, e ainda repete de forma incessante, que a iniciativa dos indivíduos atuando de forma isolada deve ser festejada, frente as ações coletivas e públicas que sempre seriam ineficientes e demoradas.

No âmbito da atuação privada essa atitude acabou determinando uma supremacia da alteridade, uma afirmação repetida e contínua da diferença absoluta entre os seres humanos, que deixam de compartilhar objetivos comuns. Os interesses e objetivos passam a ter uma origem variada compartilhada por identidades que são cada vez menores e mais pulverizadas. Há uma constante reafirmação da diferença entre nós, que pode variar pela nossa origem; mineiros, paulistas, cariocas... ou pela nossa existência; empresários, trabalhadores, ricos, pobres..., ou pelas crenças; cristãos, muçulmanos, judeus..., ou ainda por todas essas e outras. Longe de querer negar essa diferenciação, o que aqui se questiona é a paralisação do diálogo, que parece não ser mais possível. O discurso da racionalidade universal compartilhada por diferentes atores e agentes - um certo universalismo humanista - tornou-se uma vertente do colonialismo ocidental redutor e homogeneizador.

No âmbito da vida privada passamos a uma hierarquização emburrecedora e simplista, que afirma de forma repetida, que para amarmos o outro é preciso que primeiro nos amemos a nós próprios, tenhamos uma auto-estima elevada. Antes de tudo é preciso amar-se a si próprio, para depois amar ao outro. Esse psicologismo barato de botequim permeia quase toda nossa sociedade contemporânea, que parece se esqueceu de forma definitiva da dialética entre o particular e o universal, entre o individual e o outro, que na verdade continuam se construindo mutuamente...

sábado, 24 de janeiro de 2015

O aquário do arquiteto Rui Ohtacke na cidade de Campo Grande

A vista do Aquário do arquiteto Rui Ohtacke
Durante a 147a Reunião do Conselho Superior do IAB foi programada uma visita ao Aquário do Pantanal, do arquiteto Rui Ohtacke, uma imensa estrutura que trará informação sobre a fauna que habita nessa região do Brasil, e que está em obras. O nome oficial da edificação é Centro de Pesquisa e Divulgação Científica da Biodiversidade de Mato Grosso do Sul e terá 27mil metros quadrados, que denota para todos nós a enorme relevância desse programa no Brasil. Em 2004 visitei o Aquário de Chicago nos EUA, na qual percebi que há um setor inteiro dessa edificação dedicado as espécies amazônicas, o que aponta a importância desse tipo de programa no nosso país.

Vista interna do Aquário de Campo Grande do MTS
Muito além das questões arquitetônicas da edificação do arquiteto Rui Ohtacke, que ao meu ver se envolve numa excessiva espetacularização, acho importante a iniciativa do governo do Estado do Mato Grosso do Sul de realizar um espaço dessa natureza. Um centro de pesquisa sobre nossa biodiversidade pode ser um instrumento poderoso para disseminar em nossa sociedade o hábito do estudo sobre a natureza. Esse tipo de espaço pode ser um importante mecanismo para pulverizar no seio da sociedade o interesse pela pesquisa num campo que passará a ser central no nosso futuro.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

147a Reunião do Conselho Superior do IAB em Campo Grande, Mato Grosso do Sul

Ontem dia 21 de janeiro de 2015 começou a 147a Reunião do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) na cidade de Campo Grande em Mato Grosso do Sul, que homenageia o arquiteto Miguel Pereira. Os debates giram em torno da montagem do Congresso Mundial de Arquitetura da União Internacional de Arquitetos (UIA) do Rio de Janeiro em 2020, certamente uma oportunidade para repensar a maneira de como as cidades brasileiras vem sendo construídas. Há uma premissa que a rede do IAB, pretende atingir em 2020 com o Congresso Mundial de Arquitetura, que é uma maior inserção das ações de planejamento e de projeto na sociedade brasileira.

A situação brasileira, no que se refere a produção das nossas cidades é bastante dramática, de uma maneira geral não há sequer uma explicitação clara daquilo que elas querem ser daqui a dez anos, como estão definidos nos Planos Diretores, que são obrigatórios segundo definido no Estatuto da Cidade. Essa ausência determina um vagar aleatório das nossas cidades, que facilmente é capturado por interesses particulares que são pouco republicanos, e que acaba fazendo com que elas tenham um desenvolvimento pouco estruturado.