terça-feira, 22 de julho de 2014

Aula para alunos de Yale sobre o Aterro do Flamengo

Mapa que mostra o sítio da cidade do Rio de Janeiro
como foi encontrada pelos portugueses em 1500
No último dia 21 de julho de 2014 dei uma aula para alunos de YALE, dos mais variados cursos de graduação, sobre o Aterro do Flamengo. A turma de alunos estuda nossa língua, o maltratado português, e fazem incursões ao Rio de Janeiro e São Paulo para estudar nossa cultura e nossos arranjos culturais. As duas megacidades, São Paulo e Rio de Janeiro, pela classificação da ONU, são efetivamente exemplos únicos de desenvolvimentos urbanos concentrando uma maravilhosa diversidade de implantações. O tema do Aterro do Flamengo é também uma experiência maravilhosa e bem sucedida de adequação de um projeto urbano a um sítio único e cheio de ícones geológicos, como o Pão de Açúcar e o Corcovado. Portanto o Parque do Flamengo, para a cultura do projeto e da cidade é uma experiência emblemática, e que representa um resultado que supera em muito o âmbito da mera banalidade. Nesse sentido é interessante destacar o texto, que a comissão de elaboração do Parque do Flamengo, composta por Reidy, Lota Macedo Soares, Burle Marx e Jorge Moreira, destaca como o momento pelo qual passava a cidade na década de 60:

“O maior inimigo da beleza e do conforto de uma cidade é o automóvel. As pistas cada vez mais largas, os estacionamento cada vez maiores vão destruindo rapidamente os edifícios antigos, as travessas estreitas, os jardins os becos, as tortuosas ruas...Assim a cidade vai perdendo o seu caráter e sua personalidade para se parecer cada vez mais com os subúrbios de Los Angeles... Fica, pois, ao governador Carlos Lacerda a tarefa de devolver o mar ao carioca...” Maria Carlota Macedo Soares 1964

Há no texto uma compreensão apurada dos problemas atuais da cidade, e, uma correta identificação do automóvel particular como um destruidor do caráter e a alma das cidades. O texto está no livro sobre Afonso Eduardo Reidy, o arquiteto da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro que projetou o Aterro do Flamengo, e, aparece na publicação assinado pela Lota Macedo Soares. Recente filme sobre o romance entre a Lota Macedo Soares e a poetisa americana Elizabeth Bishop - Flores Raras - incorreu em inverdades históricas graves. Na ocasião publiquei um texto do Alfredo Brito, que apontava essas inverdades. No filme Lota Macedo Soares é retratada como a paisagista do Parque do Flamengo, o que é uma injustiça muito grande com Roberto Burle Marx, o verdadeiro autor do projeto de paisagismo.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Candidatura do Rio de Janeiro a sediar o Congresso Mundial de Arquitetura da UIA 2020

Nosso site do Congresso Mundial de Arquitetura no
ano 2020 
A cidade do Rio de Janeiro está se candidatando a sediar o 27o Congresso Mundial de Arquitetos, em 2020 da União Internacional de Arquitetura (UIA). O tema que propomos para o encontro tem como título; Todos os Mundos. Um só Mundo. Arquitetura 21 (All the worlds. Just one world. Architecture 21), que pretende apontar a imensa diversidade de formas de construir o habitat humano no planeta Terra, e ao mesmo tempo, a emergência de uma consciência planetária, da finitude dos recursos para promover essa construção. Num planeta urbano, reconhecemos a imensa diversidade de formas e possibilidades que os diversos grupos humanos desenvolveram para promover seu habitat, e também apontamos que essa multiplicidade deve ser acatada por todos, lembrando apenas que esses fatores não devem impedir o desenvolvimento de uma consciência cosmopolita, que cuide dos recursos naturais. A cidade é o elemento central nessa questão, uma vez que a maioria da nossa população mora em aglomerados urbanos e grande parte do nosso passivo ambiental depende da construção das infraestruturas aí presentes.

Acreditamos também, que a cidade do Rio de Janeiro e o Brasil possuem uma imensa experiência em construir uma convivência diversificada e plural entre diferentes agentes e interesses. Por isso propomos a cidade maravilhosa como sede do Congresso Mundial de Arquitetura de 2020. Estamos competindo com Paris na França e Meulborne na Australia. E a decisão será agora em Durbam na África do Sul no 25o Congresso Mundial de Arquitetura. Visitem o site da nossa candidatura no link abaixo:

http://www.uia2020rio.org/index_pt.asp

terça-feira, 15 de julho de 2014

Visita ao BRT de Belo Horizonte, do Centro até a Pampulha

Estação do BRT na Avenida Paraná no centro de BH, local da
partida da visita até o bairro da Pampulha
No último dia 07 de julho de 2014, estive com meu filho Felipe visitando e experimentando o sistema de Bus Rapid Transit (BRT na sigla em inglês) na capital mineira, que vai do Centro para o bairro da Pampulha pela Avenida Antonio Carlos. O mesmo sistema dá acesso ao estádio de futebol do Mineirão e se enquadra dentro do programa do governo federal, denominado Programa de Aceleração do Crescimento da Mobilidade Urbana (PAC-Mobilidade), que pretende ser o legado de transporte público da Copa do Mundo. A situação da mobilidade urbana nas cidades brasileiras é particularmente ruim e muito precária, os serviços possuem tarifas altas e consomem grande parte das horas de quem dependem deles. Há uma clara hegemonia do carro particular frente aos modais de alta capacidade de transporte de passageiros, que frequentemente são relegados nas soluções e desenhos ao papel de coadjuvantes, quando na verdade deveriam ser os protagonistas.

A Avenida Paraná leito exclusivo para os BRTs, com novo
desenho com ciclovia privilegiando o pedestre
Por isso acho importante a instalação desses novos serviços nas nossas cidades, que no meu entendimento deveriam ser encarados como sistemas integrados de mobilidade e alcançar uma maior legibilidade e compreensão por parte do conjunto da população. Nesse sentido, ao comprar os bilhetes para acessar o sistema cobrei e senti falta da presença de mapas e esquemas, que explicassem as linhas e seus itinerários de forma global e sistêmica. Haviam atendentes e recepcionistas no acesso das estações e nas bilheterias de compra dos cartões, que sabiam as linhas e os itinerários, mas não haviam mapas e esquemas que sintetizassem a complexidade do sistema, dando ao usuário a noção de conjunto. Creio que aí reside uma importante carência das linhas de BRTs de BH, pois a legibilidade do sistema como um todo e sua comunicação de forma sintética e direta com a população deveriam ser um dos principais objetivos perseguidos pelo poder público e pelas concessionárias. Tal visibilidade e legibilidade do sistema são fundamentais, pois o usufruto da população deve ter como pressuposto a livre montagem e acessibilidade, permitindo ao usuário diferentes combinações e o livre arbítrio. Além disso, a sensação de controle e de auto-consciência na sua escolha devem ser oferecidas ao usuário de forma que esse se encontre seguro e livre de qualquer dúvida Nas cidades uma das piores sensações é justamente a do labirinto, onde a insegurança nos domina fazendo com que não tenhamos certeza de nossas escolhas e determinações.

Outro aspecto também importante é que esses serviços de transporte coletivo, devem se instalar nas cidades brasileiras visando competir com a utilização do carro individual, garantindo ao usuário do transporte público uma clara vantagem frente ao automóvel. O pressuposto deveria ser, que o sistema de transporte público passa a ofertar a população como um todo um serviço melhor que o desfrutado por aqueles que se utilizam de carros particulares. Nesse sentido o BRT de Belo Horizonte ainda deixa muito a desejar, pois principalmente na Avenida Antonio Carlos, que dá acesso ao bairro da Pampulha, houve um custo de desapropriação substancial, que na verdade foi demandado pelas pistas dedicadas aos automóveis. Portanto, percebe-se nas obras do BRT da avenida Antonio Carlos no trecho entre a Lagoinha e o viaduto do Anel Rodoviário, que uma percentagem expressiva do custo das obras foram dedicadas a ampliação das vias dos automóveis particulares, e não as pistas do sistema de transportes coletivos.

Além desses aspectos, cabe ainda notar que num trecho curto, entre a Avenida Paraná e a Lagoinha a via do BRT da Antonio Carlos não é exclusiva para o sistema de transportes coletivos, sendo compartilhada com outros veículos. Tal situação, mais uma vez aponta para nós como os sistemas de transportes ainda são encarados no Brasil, um sistema que não pretende atender as elites do país, mas apenas as parcelas da população mais fragilizada economicamente. A falta de rigor com esses pequenos detalhes apontados pelo texto denunciam claramente uma visão do poder público, que ainda não identificou como prioritário o investimento no transporte público, que deve buscar uma clara eficiência frente ao deslocamento de automóvel particular. O transporte público precisa passar a ter vantagens claras frente ao transporte individual de automóveis, atraindo inclusive as elites endinheiradas do país, que pelas vantagens comparativas certamente passarão a usá-lo. Cabe ainda aqui um destaque positivo, a viagem da Avenida Paraná no centro de BH até o bairro da Pampulha na área da barragem da lagoa, onde termina a Avenida Antonio Carlos e começa a Avenida Pedro I levou apenas vinte minutos, o que é um índice realmente animador.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Debate com Charles Landry no IAB-RJ sobre economia criativa

Debate no IAB-RJ; Olga Campista Subsecretária da Cultura
do Estado do RJ, Charles Landry nosso debatedor, Pedro da
Luz Moreira Presidente do IAB-RJ e Ephim Schluger
Vicepresidente do IAB-RJ
Na última quarta feira dia 02 de julho de 2014, o IAB-RJ recebeu para um bate papo o inglês Charles Landry, para debater sobre o fomento a economia criativa nas cidades do mundo. A conversa inicialmente se focou em torno do tema da regulação, da burocracia e do fomento a criatividade, uma certa vertente presente no mundo contemporâneo que pode ser caracterizada como criatividade ansiosa. Uma busca incessante das empresas, meios de comunicação e sociedade por novas idéias, que de certa forma reforçam a perda de sentido do mundo contemporâneo, sempre sobrecarregado de informações. A questão da tradição ou história ou ainda da recorrência a velhas soluções, em contraposição, as novas idéias rapidamente volatizadas ou a criatividade ansiosa foram debatidas, na perspectiva de formação e construção tanto de uma vitalidade econômica, como também da viabilidade e sustentabilidade dos agentes promotores. Algo relacionado, tanto ao fomento de novas iniciativas, como também a garantia de sua manutenção, como forma de sustento no longo prazo, enfim vitalidade e viabilidade.

Há uma dimensão provocadora nas colocações de Charles Landry, principalmente quando faz uma distinção entre complicado e complexo. O primeiro está além da sistematização e da legibilidade, enquanto o segundo é possível de ser descrito e formulado, capturado pelo discurso. A diferenciação e a fragmentação contemporâneas nos levam às lógicas interdisciplinares, que encontram convergências nos diferentes olhares e discursos. Os lugares criativos são os locais que possibilitam que o conjunto da população participe da construção de seu meio ambiente, lugares de reunião e de conexão, onde a representação de uma nova forma comprova a possibilidade de mudança.

Na minha provocação tentei colocar as imensas dimensões da cidade metropolitana do Rio de Janeiro, e como era importante disseminar a criatividade no território, tentando reequilibrar o conjunto da metrópole, reforçando o antigo centro da cidade, que deveria ser o local da expressão das diversas vozes. Mas a melhor provocação emergiu no seio dos participantes, a partir da colocação de que a verdadeira criatividade subverte inércias instaladas, e que no Brasil estávamos fartos da cultura do improviso e da surpresa, necessitando na verdade de sermos criativos numa maior celebração do planejamento e das atitudes pensadas...

terça-feira, 24 de junho de 2014

Entrevista com o físico Luiz Alberto Oliveira

O entrevistado será o curador do Museu do Amanhã no Rio de Janeiro, além disso foi interlocutor no escritório do Oscar Niemyer nos últimos anos de sua vida. Ele já esteve no IAB-RJ num evento memorável discutindo nosso futuro e nosso projeto, junto com Maria Alice Resende e Margareth Pereira. Naquela ocasião, sua visão me pareceu excessivamente confiante na ciência, quase positivista, apesar de nada otimista com relação ao futuro da humanidade, e da cidade. Na verdade, me pareceu então que provocava os profissionais do plano e do projeto para que buscassem o inusitado e o inesperado. Sua responsabilidade de ser o curador do Museu do Amanhã no Rio de Janeiro, bem como sua interação com Oscar Niemyer no final da vida trouxeram para o seu depoimento uma série de questões muito provocadoras para quem pensa o futuro. Destaco abaixo algumas frases e idéias provocadoras da entrevista;

- "Nós somos muito breves e muito acelerados..."

- "Homo sapiens 2.0..."

- " O cérebro é a última fronteira...há nele uma dimensão insignificante e ao mesmo tempo singular..."

- "Há uma capacidade de aprender e ao mesmo tempo de encontrar o outro..."

- "A faixa etária com maior crescimento será a dos centenários..."

- "Pela primeira vez temos a possibilidade de desenvolvimento de uma cultura humana planetária..."

- A intuição como explicadora da queda da maçã em Newton, numa analogia entre maçã e lua pelo menos para mim inusitada..

Vale a pena assistir a entrevista no link abaixo...

http://globotv.globo.com/globo-news/roberto-davila/v/roberto-davila-a-fisica-do-doutor-em-cosmologia-e-curador-do-museu-do-amanha/3441789/

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sérgio Bernardes, um arquiteto visionário

Residência de Lota Macedo Soares projeto
de Sérgio Bernardes
"Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sutil que participa de uma  e outra, que se tornou inútil, insensato." HELDER, Herberto - Os Passos em Volta - Azougue editorial Rio de Janeiro 2010

Nessa segunda feira dia 16 de junho de 2014 assisti o filme sobre Sérgio Bernardes, numa avant premiére no cine Kinoplex do Shopping Leblon. Um maravilhoso documentário sobre um dos maiores provocadores do campo cultural no Brasil, um visionário incomodado com sua própria zona de conforto, um arquiteto na mais pura definição desse ofício. Um inventor, como ele constantemente se auto definia.  Ainda me lembro, quando era estudante de arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ, numa de suas palestras, da sua capacidade de sedução e persuasão, mesmo quando apresentava formulações visionárias e fantásticas.

O filme mostra uma série de projetos realizados por Sérgio Bernardes, que retratam sua face de inventor e empreendedor incansável. Desde residências como a de Lota Macedo Soares em Itaipava no estado do Rio de Janeiro, passando pela reordenação espacial de Copacabana com suas torres em parafuso, até propostas geopolíticas de reformulação das comunicações do território brasileiro, como a da integração
Proposta de reordenamento do bairro de Copacabana no
Rio de Janeiro de Sérgio Bernardes
das bacias hidrográficas do país. Enfim, os projetos e propostas do arquiteto, polemista e
animador cultural nos levam a refletir sobre a forma de ocupação do território do planeta Terra, pela humanidade em diversas escalas. Nada parece impossível para a prancheta desse arquiteto, que parece ter introjetado a missão de nos tirar da zona de conforto, com suas provocações nada ortodoxas.

Creio que um dos maiores méritos do filme é reconhecer que a produção desse incansável arquiteto ainda está por ser descoberta, e
Hotel Tambaú em Natal, projeto de Sérgio Bernardes
adormece no Núcleo de Projetos e Documentação (NPD) da FAU-UFRJ, que hoje guarda seu acervo. É engraçado, que eu mesmo me lembro de um projeto do Sérgio Bernardes, que me marcou profundamente e que nunca mais encontrei a fonte onde está guardado e registrado, da qual não me recordo mais com precisão. E, que ansiosamente esperava por reencontrá-lo nesse filme, mas que infelizmente não é mencionado. É verdade, todavia que o filme faz menção a atitude geradora do projeto - uma certa negação da arquitetura - um posicionamento que Bernardes chamava de não arquitetura, e que está presente no Hotel Tambaú de Natal. Na verdade, uma vontade de fazer a arquitetura desaparecer, mimetizando-a com seu entorno, um posicionamento raro e inusitado entre arquitetos, sempre afeitos aos afagos no seu próprio ego.

Aerofotogrametria do Rio de Janeiro, mostrando a Lagoa
Rodrigo de Freitas e a praia de Copacabana, onde assinalo
o terreno do projeto perdido de Sérgio Bernardes
O meu grande encantamento por esse esquecido projeto de Sérgio Bernardes era seu caráter específico de referência a um lugar particular da cidade do Rio de Janeiro, e ao mesmo tempo e paradoxalmente sua capacidade de ser uma proposta genérica, utilizável em outros sítios, onde existam pedreiras desativadas. As mais novas gerações não tem na memória a ferida que esta pedreira desativada representava para o cenário estonteante da Lagoa Rodrigo de Freitas, pois nesse terreno havia uma concessionária de veículos, que era uma construção baixa, que não
Corte geral da proposta
escondia o estrago da antiga atividade mineradora. Hoje a construção de dois edifícios mais altos de habitação multifamiliar, de certa forma esconderam a ferida que a antiga exploração de granito e brita para construção determinavam na cidade. Nesse contexto, o arquiteto Sérgio Bernardes irá desenhar, num de seus mais belos gestos, um projeto simplesmente genial, que a cidade certamente até hoje se ressente por sua não realização. Recompondo o perfil da montanha, o arquiteto constroi um edifício de habitação multifamiliar com as lajes de cada pavimento escalonadas e alinhadas pela antiga silhueta do relevo. Esse escalonamento também determina um grande átrio com um imenso pé-direito, que
Corte ampliado da proposta
desnuda ao fundo o antigo corte da rocha, um espaço de convivência dos condôminos, uma imensa portaria com uma monumentalidade impressionante. Do lado externo, Sérgio Bernardes localiza nas bordas das lajes uma grande jardineira contínua, com capacidade para receber uma vegetação de médio porte, que garante a reconstituição do perfil da montanha. Os três núcleos de circulação vertical, são os únicos elementos artificiais que se destacam e pontuam a fachada verde escalonada, conforme descritos nos meus croquis ao lado, que desenhei de memória desse
Perspectiva da proposta de Ségio Bernardes
fabuloso projeto de arquitetura.

Concedi também uma entrevista ao jornal O Globo sobre a trajetória de Sérgio Bernardes, um arquiteto que precisa do reconhecimento da sociedade brasileira.

Abaixo link da entrevista sobre o filme no jornal O Globo

http://oglobo.globo.com/rio/design-rio-na-prancheta-de-sergio-bernardes-ideal-de-um-mundo-melhor-12866554

domingo, 15 de junho de 2014

Da série: Aulas de Teoria e História da Arquiteura IV - Premissas Gerais

As bombas de Hiroshima e Nagasaki marcam o fim da 2a
Guerra Mundial e o inicio de uma profunda descrença com
relação a técnica. A emergência da consciência de que os
recursos do planeta são esgotáveis
No último ano - segundo semestre de 2013 e primeiro semestre de 2014 - passei a ser o professor da matéria História e Teoria da Arquitetura IV na Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF) em Niterói, na cidade metropolitana do Rio de de Janeiro. Essa solicitação fez com que tivesse que estudar o periodo do segundo pós-guerra, no campo da produção cultural urbanística-arquitetônica. Do final da segunda grande guerra, o ano de 1945 até nossa contemporaneidade, para colocar em termos precisos.

A primeira premissa que coloquei para mim mesmo para ser explicitada na primeira aula era buscar definições para o debate com os alunos dos conceitos; de história e de teoria, como uma base elementar do que tratava a matéria. Enfim um recorte, que procurava limitar um campo, que me parecia tão amplo e abstrato, diante do qual era necessário, uma contextualização. Por último, nessa primeira aula pretendia também explicitar, o que tinha sido minha trajetória, apresentando as reflexões que fiz na ocasião da defesa da minha tese no Prourb em 2007.

O Conceito de História:

No dicionário de termos filosóficos de JAPIASSÚ e MARCONDES, o termo história está definido dentro de uma dualidade, ao mesmo tempo "uma disciplina, constituída de relatos, análises, pesquisas de documentos cujos os artífíces são os historiadores" uma pretensa objetividade, e por outro lado; "um relato e não os acontecimentos contados", portanto uma interpretação, uma pretensa subjetividade. Por outro lado, há uma pretensão humana de que a história na sequência dos acontecimentos segue um movimento determinado, e se materializa segundo grandes linhas de força. Ou numa outra visão, ela seria um suceder aleatório de fatos incontrolados, aos quais os homens se adequam, sem possibilidade de qualquer controle. A idéia de projeto e de plano está profundamente alicerçada na primeira concepção, ela também significa que existe um sentido geral para a história, uma teleologia.

Há uma pergunta nesse dicionário absolutamente desconcertante para todos nós, participantes da existência e da história;

"Seu alvo lógico consiste em saber se a história do mundo se desenrola no sentido de um aperfeiçoamento moral, de um progresso da cultura ou se exprime uma decadência dos costumes."
JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo - Dicionário Básico de Filosofia - editora Zahar 2011 

O anjo da história de Paul Klee,
segundo Walter Benjamim
A pretensão da historicidade é um respeito a factualidade do acontecido, no entanto, a sequência dos acontecimentos é passível de leitura, de interpretação, de construção de coerência e casualidade, como as buscas por sentido e coerência típicas do relato, que necessariamente é subjetivo e interpretativo. Em nosso mundo contemporâneo estamos sobrecarregados de informação. Inclusive, a histórica, paralisados diante de uma infinidade de dados, corremos o risco da imobilização, pois já não compreendemos as demandas e os sinais de uma forma sintética. Benjamim, o filósofo da Escola de Frankfurt, nos traz uma construção importante sobre a busca do sentido;

"Articular historicamente algo passado não significa reconhecê-lo como ele efetivamente foi. Significa captar uma lembrança como ela fulgura num instante de perigo... O perigo ameaça tanto os componentes da tradição quanto os seus receptores... A cada época é preciso sempre de novo tentar o que foi transmitido do conformismo que ameaça subjugá-lo... Captar no passado a centelha da esperança só é dado ao historiador que estiver convicto do seguinte: se o inimigo vencer, nem mesmo os mortos estarão a salvo dele. E esse inimigo ainda não parou de vencer."
BENJAMIM, Walter - Teses sobre a Filosofia da História - editora Ática São Paulo 1985

Aqui a noção de perigo e de esperança me parecem algo de fundamental, como um abandono da zona de conforto, que todo pensamento faz, quando quer mudar. Não interessa mais a reprodução mecânica da existência, mas "captar no passado a centelha da esperança", cada época precisa reconstruir seu sentido não de forma confortável, mas buscando o novo e o inusitado.

O Conceito de Teoria:

Outro conceito que precisa ser esmiuçado é o de teoria. Segundo o mesmo dicionário, na concepção clássica da filosofia grega era conhecimento especulativo, abstrato e puro, que se afasta do mundo da experiência concreta e sensível. Numa concepção mais contemporânea seria um modelo explicativo de um fenômeno ou conjunto de fenômenos, que construísse um sentido e uma direção da sua natureza. No conhecimento científico moderno seria um conjunto de hipóteses organizadas de forma sistemática que verificadas na experiência e na prática, produzem uma explicação convincente dos fenômenos. A teoria seria portanto um afastamento da sucessão aleatória de fenômenos incompreensíveis, para construção de um sentido explicativo, que passaria a uní-los ou vinculá-los numa relação interdependente.

A teoria da arquitetura e da urbanística se refere muitas vezes a dois campos estruturados, uma que pretende avaliar os objetos ou os projetos realizados vinculando-os aos fenômenos artísticos e históricos - uma teoria da excelência do objeto - e outra, que estuda a gênese e a concepção do mesmo objeto, buscando entender como o ofício dialoga com a sociedade, colonizando-a, e por ela sendo colonizado - uma teoria do projeto. A diferença entre as duas vertentes está materializada em trabalhos teóricos como; Espaço, Tempo e Arquitetura de Giedion, ou Por uma Arquitetura de Le Corbusier. Enquanto o primeiro é uma construção interessada em entender o desenvolvimento histórico da arquitetura moderna, mais alinhada com o primeiro campo, o segundo por sua vez é também uma construção interessada mas pretende de forma mais explícita doutrinar a sociedade para a aceitação da arquitetura moderna, se constituindo numa teoria do projeto, ou crítica operativa.  TAFURI, um crítico italiano de arquitetura da segunda metade do século XX possui um discurso esclarecedor no seu livro Teorias e Histórias da Arquitetura, num capítulo intitulado A Crítica Operativa;

"Nesta acepção, a crítica operativa representa o ponto de encontro entre a história e a projetação. Assim pode dizer-se que a crítica operativa projeta a história passada projetando-a em direção ao seu futuro...O seu horizonte teórico é a tradição pragmatista e instrumentalista... Pode ainda acrescentar-se que esse tipo de crítica, antecipando as vias da ação, força a história..."
TAFURI, Manfredo - Teorias e História da Arquitetura - Editorial Presença Lisboa 1979

Esse segundo campo estará muito mais presente em nossas aulas, uma vez que a história nessas aulas não será encarada como um dado ou um fato objetivo, mas um conjunto de informações, que demanda interpretação e arranjo, pois o juízo crítico pode mais do que influenciar o curso da realidade, pode modificá-lo. Essa é enfim uma pretensão dessas aulas, de História e Teoria da Arquitetura IV, construir um instrumental para os alunos, que os habilite não apenas a analisar o seu tempo, mas também a projetá-lo e modificá-lo. Entendendo aqui o projeto como a atividade síntese do ofício da arquitetura e da urbanística, como uma forma de conhecer o real, como uma atitude que abandona o conforto do diagnóstico e se arrisca no campo do prognóstico, como um enfrentamento do real a partir da proposição.

Minha Trajetória:

Projeto para Ilha do Fundão para a exposição Penso Cidade
Além desses dois conceitos, tentei explicitar o que havia sido minha trajetória no campo da reflexão teórica, dentro do ofício da arquitetura e do urbanismo, e, porque esta havia sido convincente para meus colegas de curso, para me responsabilizar na matéria de História e Teoria da Arquitetura IV. Nesse contexto era importante fazer o esforço de mapear minha trajetória, de forma a deixar meus interlocutores - os alunos - conscientes da formação que nessa oportunidade discursava para eles. Para tal nada melhor, que apresentar minha tese de doutorado defendida no ano de 2007, no Programa de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, que teve o título de; Projeto, Ideologia e Hegemonia, em busca de um conceito operativo para as cidades brasileiras.

Uma das premissas dessa reflexão era que o projeto era um discurso, que invariavelmente fazia um esforço para convencer diferenciados interlocutores, de que aquela era a melhor forma para modificar uma determinada condição específica. Há no projeto uma dimensão operativa, que o carrega para uma dimensão persuasiva, isto é, um discurso de convencimento de variados atores e agentes, que gerenciam o processo de transformação. Segundo o Dicionário Básico de Filosofia de JAPIASSÚ e MARCONDES, o termo projeto seria;

"1. Na filosofia de Heidegger característica do Dasein (ser-aí), de estar sempre lançado para além de si mesmo pela preocupação. 2. No existencialismo de Sartre, o projeto é a resposta que cada indivíduo dá a situação em que se encontra no mundo, aquilo que dá sentido a sua existência, as escolhas que faz e que constituem sua liberdade: o para-si, com efeito, é um ser cujo ser está em questão sob forma de projeto de ser." JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo - Dicionário Básico de Filosofia - editora Zahar 2011

O projeto pelas definições filosóficas; é um incômodo, que nos leva a pensar um vir a ser diferente, e que controlamos. Uma insatisfação com uma condição presente que precisa ser modificada, um incômodo com situações postas. Projeta-se uma viagem, a perda de peso, a melhora de vida, a transformação do espaço humano... Enfim projetar segundo a etimologia da palavra está cindida pelo prefixo pro, que significa antecipar, antever, prever e pelo sufixo jactar que significa lançar, arriscar, atirar... Há uma motivação de incômodo com uma situação dada, que impulsiona um fazer que pretende a mudança a transformação. Argan, num passagem memorável menciona;

"Não se projeta nunca para mas sempre contra alguém ou alguma coisa: contra a especulação imobiliária e as leis ou as autoridades que a protegem, contra a exploração do homem pelo homem, contra a mecanização da existência, contra a inércia do hábito e do costume, contra os tabús e a superstição, contra a agressão dos violentos, contra a adversidade das forças naturais; sobretudo projeta-se contra a resignação ao imprevisível, ao acaso, à desordem, aos golpes cegos dos acontecimentos, ao destino."
ARGAN, Giulio Carlo - Projeto e Destino - Editora Ática São Paulo 2000

Há no projeto uma presença do operativo, uma vontade de realização. Essa construção aproxima muito esse discurso, daquilo que Bobbio qualificou como caracterização neutra do termo ideologia, uma idéia que pretende se transformar numa prática, uma idéia que pretende operar, atuar sobre o real. Para tal ela supera a mera idealização pura, e abraça a práxis. Em um sentido amplo, a ideologia pode ser caracterizada como um conjunto de idéias, princípios e valores, que refletem uma concepção do mundo e orientam uma forma de ação, sobretudo política. A idéia de projeto, seja edilícia ou urbanística, trazem consigo uma promessa de integração entre agir e pensar, como na conceituação da ideologia. Entende –se o termo ideologia como a transformação de idéias em operatividade, desfeito portanto de suas conotações negativas.


"Na verdade não se deve caracterizar a ideologia apenas de um modo negativo, como o que comumente se chamava de falsa consciência; ela é também, sempre positiva e necessariamente a teoria de prática." JAMESON, Frederic - Modernidade Singular, ensaio sobre a ontologia do presente - editora Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2006

Portanto, a ideologia pode ser encarada como o ordenamento teórico que estrutura a ação, a operatividade, uma construção que pretende convencer diferentes agentes de sua adequação, ao tema, ao sítio, ao orçamento. Há um termo em Gramsci, que dinamizou o conceito de ideologia, conferindo-lhe um objetivo uma estratégia; a hegemonia. A idéia de Gramsci de construção da hegemonia, aponta que uma determinada classe só poderá obter o poder efetivo, na medida em que transformar sua ideologia particular e restrita em aspiração geral. Assim as revoluções americana e francesa, se estabilizaram como ideais na medida que conquistaram o conjunto do metabolismo social com suas teses; da eleição dos representantes, da supressão da indicação por linhagem familiar (do rei), mas por mérito, da idéia de sufrágio universalizado na sociedade, etc.. A hegemonia é portanto caracterizada como a capacidade de determinadas ideologias conseguirem conquistar o metabolismo social.

Le Corbusier e sua ideologia
Em nosso campo específico - a arquitetura e o urbanismo - percebemos como determinadas ideologias conquistaram o senso comum de forma contundente, determinando a forma de operar de diferentes atores e agentes, se tornando hegemônicas. Dois exemplos emblemáticos podem ser pinçados da história recente da arquitetura e do urbanismo. O primeiro, a doutrina corbusieana dos cinco pontos da arquitetura moderna, como mobilizou o fazer arquitetônico da geração modernista brasileira, que adotou o pilotis, a planta livre, a fachada livre, como padrão do bem construir. E o segundo exemplo, o rodoviarismo, que imperou soberano no mundo do segundo pós guerra até a crise do petróleo na década de 70, determinando a forma de desenhar cidades, que privilegia o automóvel particular como forma de locomoção no território urbano.

Portanto, ao longo dessas aulas os conceitos de projeto, ideologia e hegemonia serão tratados como ferramentas de interpretação da história e teoria da arquitetura e do urbanismo, procurando entender esses dois campos como expressão de manifestações culturais diversas e variadas.