O meu artigo no jornal O Globo de hoje, 22 de fevereiro de 2014 discute a área de Guaratiba, que entrou na pauta da cidade com a visita do papa Francisco em julho de 2013. Defendo a idéia de que Guaratiba deve ser preservada e conservada devido suas fragilidades ambientais. Defendo também que a área consolidada da região receba as infraestruturas urbanas, tais como esgoto sanitário, drenagem, abastecimento de água, iluminação, calçamento, arborização, etc..., garantindo a quem mora nessa região as comodidades da vida urbana. Aliás não é aceitável, que em pleno século XXI a oitava economia conviva com cidades com os atuais índices de saneamento (52% dos domicílios brasileiros não destinam de forma correta seu esgoto).
Guaratiba é um exemplo notável da situação em que se encontra a cidade brasileira, uma região periférica, uma imensa área intocada até recentemente, que se disponibiliza para uma ocupação imobiliária intensa, dentro de uma lógica imediatista, rasteira e apressada. É importante lutar, a partir do caso de Guaratiba, para a transformação do modus operandi da cidade brasileira, revertendo uma lógica perversa que governa essas expansões impensadas.
Diário de Pedro da Luz Moreira, interessado em discutir a arquitetura, a cidade e o projeto
sábado, 22 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
A aceleração do mundo, pressa para quê?
Em 1867 Karl Marx escreveu sobre as mudanças tecnológicas que determinaram a diminuição do tempo de circulação das mercadorias, e uma certa aceleração do momento;
"Mas a revolução no modo de produção da industria e da agricultura provocou também uma revolução nas condições gerais do processo de produção social, isto é, nos meios de comunicação e transporte, que foram gradualmente ajustados ao modo de produção da grande industria por meio de um sistema de navios fluviais transatlânticos a vapor, ferrovias e telégrafos." MARX, Karl - O capital - editorial Boitempo 2013 São Paulo
Em nossa época, os aviões, os carros e a internet garantem um grau de conectividade à produção que é assustador. O tempo que o capital tende a ficar imobilizado antes de realizar o lucro diminuiu de forma acentuada, o mundo parece tender para uma aceleração cada vez mais intensa. Neste inicio de ano de 2014, todos temos a sensação de estarmos acelerados, sempre conectados e interligados. As demandas do trabalho chegam nas mais diversas horas e nas ocasiões mais diversas, estamos condenados a receber e a gerar demandas a todo momento. Basta que alguém te ligue ou mande uma mensagem, que logo nos reprogramamos para ativar circuitos e redes. No entanto esta aceleração da quantidade de informações que manipulamos e geramos acabou significando a perda de sentido e de direção para o mundo, uma certa dissolução do objetivo. Corremos muitas vezes sem ter um objetivo maior, um sentido para nossa pressa, simplesmente respondemos pois estamos sendo solicitados a responder. Por isso, selecionei algumas frases de mestres para combater a febre da pressa:
"Não se alcança o coração de alguém com pressa" Luiz Fernando Veríssimo
"Não se afobe não. Que nada é pra já. O amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio. Num fundo de armário. Na posta restante. Milênios, milênios..." Chico Buarque de Holanda
"Mas a revolução no modo de produção da industria e da agricultura provocou também uma revolução nas condições gerais do processo de produção social, isto é, nos meios de comunicação e transporte, que foram gradualmente ajustados ao modo de produção da grande industria por meio de um sistema de navios fluviais transatlânticos a vapor, ferrovias e telégrafos." MARX, Karl - O capital - editorial Boitempo 2013 São Paulo
Em nossa época, os aviões, os carros e a internet garantem um grau de conectividade à produção que é assustador. O tempo que o capital tende a ficar imobilizado antes de realizar o lucro diminuiu de forma acentuada, o mundo parece tender para uma aceleração cada vez mais intensa. Neste inicio de ano de 2014, todos temos a sensação de estarmos acelerados, sempre conectados e interligados. As demandas do trabalho chegam nas mais diversas horas e nas ocasiões mais diversas, estamos condenados a receber e a gerar demandas a todo momento. Basta que alguém te ligue ou mande uma mensagem, que logo nos reprogramamos para ativar circuitos e redes. No entanto esta aceleração da quantidade de informações que manipulamos e geramos acabou significando a perda de sentido e de direção para o mundo, uma certa dissolução do objetivo. Corremos muitas vezes sem ter um objetivo maior, um sentido para nossa pressa, simplesmente respondemos pois estamos sendo solicitados a responder. Por isso, selecionei algumas frases de mestres para combater a febre da pressa:
"Não se alcança o coração de alguém com pressa" Luiz Fernando Veríssimo
"Não se afobe não. Que nada é pra já. O amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio. Num fundo de armário. Na posta restante. Milênios, milênios..." Chico Buarque de Holanda
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Filme destaca a tradição e a modernidade das pedras portuguesas
O filme de Marco Antonio Pereira destaca a tradição de nossas calçadas em pedras portuguesas. A promoção do filme seleciona dois trechos de uma entrevista minha feita no Boulevard 28 de setembro em Vila Isabel, projeto do Rio Cidade do escritório Archi 5 arquitetos associados, do qual fui sócio durante muitos anos. Muito além dos depoimentos, acho importante enfatizar a necessidade que as cidades brasileiras possuem de valorizar seus espaços públicos, como locais que deveriam privilegiar o caminhar dos seus pedestres. A celebração das calçadas promovida pela técnica das pedras portuguesas nos remetem ao caminhar urbano, como um cotidiano que deveria ser privilegiado pelas gestões municipais.
Veja a promo do filme abaixo
https://www.youtube.com/watch?v=YDk964pkJxI&feature=youtu.be
Veja a promo do filme abaixo
https://www.youtube.com/watch?v=YDk964pkJxI&feature=youtu.be
Guaratiba, em busca de maior participação
O debate na verdade reafirmou o documento entregue pelo IAB-RJ ao prefeito do Rio de Janeiro em outubro de 2013, que cobrava do poder público um maior protagonismo na definição do futuro da área, uma cobrança por um planejamento sistêmico e uma gestão e controle cotidiano de Guaratiba. Além disto, o debate também enfatizou a necessidade de ampliação da participação da população local na definição do seu futuro. As questões envolvidas no tema de Guaratiba, transcendem em muito os interesses locais e apontam para a possibilidade de estabelecimento de uma nova forma de interação entre população e planejamento territorial.
Para mais detalhes, veja o link abaixo...
http://www.iabrj.org.br/debate-publico-reforca-importancia-da-elaboracao-de-plano-geral-para-guaratiba
Debate sobre viagem a Cuba em 1963 por estudantes brasileiros para congresso da UIA
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| O debate com o autor Cesar Dorfmann no IAB-RJ |
Uma das questões levantadas no debate no dia 10 de fevereiro no IAB-RJ foi exatamente sobre os debates mais candentes, que perpassavam as falas dos estudantes de arquitetura na ida a Cuba. O autor do livro Cesar Dorfmann afirmou que a discussão política dominava os debates, deixando de lado as questões relativas à arquitetura e ao urbanismo. Estranho, como seria possível abordar questões relativas a ocupação do espaço, ou da construção do ambiente humano, apenas enquanto técnica ou instrumental, sem menção à política? O nosso mundo contemporâneo parece me muito mais complexo, perpassado por uma impossibilidade de separação destas esferas.
Mas o mais importante do evento é que ele resgata uma tradição importante, que deveria ter um cunho mais sistemático; o resgate de vivências diferenciadas que nos faz refletir sobre as atuações profissionais mais variadas. O depoimento dos vários participantes da viagem formam um interessante conjunto sobre os impasses e possibilidades do ofício da arquitetura, e, deveria ser uma atividade mais recorrente entre nós...
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Istambul, uma cidade maravilhosa
| Vista da cidade de Istambul da torre de Galata para o casco mais antigo |
| A grande diversidade do Grand Bazar |
Por outro lado, há na cidade de Istambul na gênese da sua morfologia de espaços públicos (ruas e praças) outra importante lição para nós arquitetos. A espacialidade de suas ruas, vielas, becos e mesmo pequenas praças se assemelha em muito ao desenvolvimento de nossas favelas no Brasil. Ambas seguem a tradição da cidade árabe e também medieval, que possuem uma gênese na qual, a casa, o espaço particular ou privado, antecede ao espaço público, da rua, como primeira conformação. Muito além de uma simplificação celebratória, o que Istambul nos ensina é que o espaço da favela possui potencialidades e qualidades, que quando recebem as devidas atenções públicas, via urbanização e oferecimento de infraestrutura urbana adequada podem se tornar em espaços muito agradáveis e aprazíveis.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
O IAB completou 93 anos
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| A projeção do filme com a palestra de Iwan Baan |
A noção de cultura envolve um dos temas mais complexos da nossa contemporaneidade e se refere a uma ampla gama de aspectos que precisam ser explicitados, para objetivação do debate. Cultura é tradicionalmente definida como algo que se contrapõe a natureza, algo que separa o homem dos condicionamentos animais. No entanto, essa definição é por demais idealizada e romântica, pois trabalha com uma separação muito rígida da experiência humana, cindida entre artficial e natural, que não corresponde ao real. Por isso, pode se também dizer que cultura é cultivo, uma forma de cuidar que é ativa e que trabalha com o natural, num processo dialético que relaciona o artificial e o natural, como aquilo que fazemos ao mundo, e o que o mundo nos faz. Assim a palavra cultura reúne na verdade opostos como; liberdade e determinismo, racionalidade e espontaneidade, liberdade e necessidade, mudança e identidade, o dado e o criado, enfim criação e repetição. A idéia de cultura combina no mesmo conceito, projeto consciente e um excedente não planejado, portanto, ação coordenada e pensada, e improviso estão reunidos. Encarar arquitetura como cultura significa reconhecer que a sua construção envolve também não iniciados, leigos que produzem seu próprio espaço. O fenômeno da arquitetura, ou da construção do espaço, assim como a arte não podem ser encarados como de domínio de alguma categoria. A ampliação da divisão social do trabalho e a interdependência das sociedades humanas podem nos fazer acreditar, que a produção do espaço construído pelo homem poderia ser monopólio de arquitetos formados com diplomas. No entanto, o caráter basicamente empírico ou experimental, portanto cultural, da percepção do espaço, da construção estrutural, do conforto do abrigo, fazem da arquitetura um domínio aberto ao fazer humano.
O debate que foi suscitado pela projeção do filme de Iwan Baan, sobre formas de ocupação de espaços variados espalhados pelo mundo, nos trouxe para a dimensão da produção da cidade brasileira, tal qual ela vem se reproduzindo. Problemas como precariedade, o improviso, necessidade, o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida (MC,MV), produção da habitação, qualidade e quantidade. Há na cidade brasileira um pesado dominio do improviso, das ações voluntariosas, do fazer sem planejar. Sem dúvida, mais celebração destes aspectos nos parece arriscado e comprometedor, não só por uma lógica do discurso corporativo, mas também para o seu próprio desenvolvimento social. Por outro lado, o reconhecimento de que grande parte da produção do espaço construído pelo homem escapa do controle dos arquitetos é um fato a ser debatido e entendido por nós mesmos. As vanguardas do centro da Europa que geraram e gestaram o modernismo, defendiam que estavam interessadas em produzir não mais os monumentos, mas a arquitetura indiferenciada da cidade industrial, que já demonstrava um crescimento explosivo. Loos, Wagner, Mies, Gropius, Hannes Meyer e outros ironizavam o empostamento eclético da arquitetura, que se restringia aos grandes monumentos e a grandes casas burguesas e não participava no desenho das periferias indiferenciadas das cidades industriais. Na contemporaneidade, as grandes figuras do star sistem arquitetônico parecem que novamente se refugiaram nos monumentos e nas grandes obras, deixando de lado uma imensa informalidade, que acaba por definir muito o aspecto geral de nossas grandes metrópoles.
A pergunta, que fica do debate no IAB-RJ é que, será que os arquitetos conseguem construir uma estratégia de atuação diante deste cenário de ampliação da informalidade no mundo? Há um antigo paradigma fundador do ofício, desde os tempos de Vitruvio, que distinguia a construção com intenção estética, da mera construção do abrigo, caracterizando a primeira como a verdadeira arquitetura. Será que os tempos mudaram, com a explosão das cidades industriais e das metrópoles contemporâneas?
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