sábado, 9 de abril de 2022

A Idade Média

Mapa da Península Ibérica no século VIII,
mostrando o domínio Islâmico nos atuais
territórios de Portugal e Espanha

Mais uma vez, no âmbito da disciplina de Teoria e História da Arquitetura 1, que faz parte do currículo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF) trago aqui um texto referente as aulas que abordaram o período da Idade Média. Um período que se estende de 476 d.C. com a queda do Império Romano do Ocidente, até 1453 com a queda de Constantinopla e a consequente queda do Império Romano do Oriente. A denominação Idade Média, é produzida pelo Renascimento, que com um olhar excessivamente europeu encara esse período de dez séculos, como algo indefinido e sem expressividade artística, denotando um claro euro centrismo. Esse imenso período só passa a ter uma expressividade artística digna de nota, a partir do século X, quando as cruzadas, o reaparecimento de uma cultura urbana exemplar e o declínio do feudalismo emergem. No entanto, acontecimentos e expressividades artísticas notáveis como; o Império de Bizâncio, a Expansão Islâmica no norte da África e na Península Ibérica, bem como o Império Carolíngeo, que precedem o ano 1000 passaram a margem dos registros históricos e hegemônicos do ocidente, até o período do século XVIII e XIX. Quando então, o Romantismo e nossa contemporaneidade vão se debruçar sobre a Idade Média, criando inclusive a figura do historiador medievalista, que nos remete a figuras que abordaram o período com grande brilhantismo, tais como; Jacques Le Goff (1924-2014), George Duby (1919-1996), Marc Bloch (1886-1994), Eugène Violet-le-Duc (1814-1879), dentre outros. Em nossa contemporaneidade, a reflexão sobre a Idade Média permanece aberta envolvendo muitas vezes o deslocamento do eixo da compreensão sobre esse período, que na verdade nos permite melhor compreender o nosso tempo, num processo de diferenciação e identificação que nos permite entender de onde viemos. Nesse aspecto, a compreensão do sistema feudal é fundamental, onde se nota a grande importância da posse da terra, articulada com o declínio das trocas monetárias, pela ausência ou declínio das moedas constituídas.

“Cada propriedade feudal tinha um senhor. Dizia.se comumente do período feudal que não havia “senhor sem terra, nem terra sem um senhor”, O leitor já viu, com certeza, fotografias dos solares medievais. É sempre fácil reconhecê-los porque, fosse um castelo ou apenas uma casa grande de fazenda, eram sempre fortificados. Nessa moradia fortificada, o senhor feudal vivia (ou o visitava, já que freqüentes vezes possuía vários feudos; alguns senhores chegavam mesmo a possuir centenas) com sua família, empregadas e funcionários que administravam sua propriedade.” HUBERMAN

As contínuas expansões dos califados árabes entre os séculos 
VII e VIII na Idade Média 

Na verdade, a expansão Islâmica no norte da África se inicia com a morte do profeta Maomé, provavelmente entre os anos de 622 e 632 da nossa era, ocupando a Península Arábica, depois se processa a expansão do Califado Ortodoxo entre os anos de 632 e 661, envolvendo os atuais Estados do Egito, Líbia, Irã, Iraque, até chegar no Califado Omíada, que vai de 661 a 750, quando atinge e domina grande parte da Península Ibérica, marcando fortemente as culturas de nossos colonizadores, Portugal e Espanha. O Emirado de Córdoba, irá gerar um dos objetos mais emblemáticos da História da Arquitetura a Mesquita da cidade de Córdoba (1) (785-987), por seu hibridismo de espacialidades muçulmana e cristã, assinalando uma das marcas de nossa vertente Ibérica. O Emirado de Córdoba será também um exemplo da convivência entre as três grandes religiões do ocidente, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, conforme atestam a citada mesquita, a Sinagoga de Toledo (século XII), e a Alhambra ou Medina de Granada (1248-1354). Além desses fatos urbanos concretos, percebe-se na arquitetura de Portugal, de Espanha e em suas colônias uma série de elementos e detalhes que constituem a personalidade do nosso construir, como as casas em torno de pátios, os alpendres, as gelosias e muxarabis de nossas esquadrias. O olhar sobre essas vertentes e forças culturais da história da cultura do construir ainda estão a demandar pesquisas e abordagens criativas sobre um patrimônio único e particular.

"Tome-se o Alhambra de Granada. Ele já não hospeda nem os reis mouros, nem os reis castelhanos, no entanto, se aceitássemos as classificações funcionalistas, deveríamos declarar que ele constitui a principal função urbana de Granada. É evidente que em Granada, experimentamos a forma do passado de um modo totalmente diferente do que podemos fazer em Pádua. (Ou, se não totalmente, pelo menos em grande parte). No primeiro caso, a forma do passado adquiriu uma função diferente, mas está intimamente ligada à cidade, modificou-se e nos faz pensar que ainda poderia se modificar; no segundo, ela está, por assim dizer isolada na cidade. nada lhe pode ser acrescentado, ela constitui uma experiência tão essencial que não se pode modificar (veja-se neste sentido a substancial falência do palácio de Carlos V, que poderia ser tranquilamente destruído); mas, em ambos os casos, esses fatos urbanos são uma parte insuprimível da cidade, porque constituem a cidade." ROSSI 1995 página53

La Alhambra de Granda na Espanha

Aqui, precisa-se destacar que além da polêmica entre funcionalismo e formalismo, típica dos anos sessenta de Aldo Rossi, emerge a presença particular de uma cultura deixada a margem pelo euro centrismo, que envolve no período da Idade Média, tanto a Expansão Islâmica, como o Império Bizantino, que florescem e geram fatos arquitetônicos dignos de nota, antes do século IX. Essa cultura extra europeia com a presença de sofisticados aparatos construtivos e citadinos nos mostram como o compartilhamento de conhecimentos funcionais, formais  e também tectônicos permaneceu operando no desenvolvimento humano. Por outro lado, a denominação Bizantina, segundo o historiador Ciryl Mango é incorreta, uma vez que nunca existiu um Estado com esse nome, na verdade os cidadãos dessa parte do mundo se viam como Romanos. A fundação da cidade de Constantinopla ocorreu em 324 d.C., que era mencionada como a nova Roma, e que segue sendo a capital do Império Romano do Oriente até 1453, quando ocorre a conquista pelos turcos otomanos. Na verdade, a cidade de Bizâncio será o cruzamento de várias vertentes culturais desse tempo da Idade Média; o Romano, o Românico, o Gótico e o Islâmico. Portanto, chama-se arquitetura bizantina aquela desenvolvida pelo Império Romano do Oriente, que passou a ser denominado modernamente de Bizantino em referência a Bizâncio, o antigo nome da capital imperial bizantina Constantinopla, atualmente Istambul, que convive com a Idade Média Europeia era muitas vezes, a Nova Roma. Sobre essa perspectiva, mesmo atualmente será mais correto denominar este período Antiguidade Tardia - a dita decadência romana, no qual se nota um desenvolvimento mais contínuo da arquitetura romana, sobre a influência do Românico, do Gótico e do Islã. O estilo caracteriza-se pelos mosaicos vitrificados e pelos ícones, pinturas sacras normalmente feitas sobre madeira, com disposição tríptica. A arquitetura é marcada pelo processamento das várias influências estéticas recebidas pelo Império Bizantino. Também destacou-se no desenvolvimento da tectônica e de processos construtivos arrojados, tendo sido responsável pela difusão de novas formas e tipologias de cúpulas. Sua obra mais emblemática é a Haia Sofia ou Santa Sofia, que foi construída pelo imperador Constantino em 360, mas com a ideia encomendada por Justiniano, que contratou dois matemáticos para realizarem o projeto, Antemio de Trales e Isidoro de Mileto.

"A única resposta que pode dar-se é que os historiadores, em sua necessidade de subdividir o passado em períodos razoavelmente coerentes e analisáveis, decidiram que o Império Bizantino começo com a fundação de Constantinopla em 324, e terminou com sua conquista pelos turcos otomanos em 1453 [...] Segundo essa definição, a arquitetura bizantina foi a arquitetura do Império Bizantino, e teve uma duração de onze séculos, descontando sua prolongação em países de fé ortodoxa até muito depois de 1453. Mas isto nos coloca uma nova questão; supondondo-se que essa divisão cronológica seja aceitável para os historiadores; ela também tem sentido, quando se fala de arqujtetura? Ou para dizê-lo de outro modo, os monumentos erigidos no Império Bizantino entre 324 e 1453; têm características comuns que permitem identificá-los como bizantinos e distinguí-los de outras culturas e estilos, tais como o romano, o românico, o gótico e o islâmico? " MANGO 1975 página 9

Interior da Mesquita de Córdobra, sincretismo
de culturas

Afinal, para nos restringirmos à construções específicas, materializadas nas proximidades dessa sensibilidade denominada Bizâncio; quais as distinções e semelhanças entre Santa Sofia em Constantinopla e São Marcos em Veneza? Ou, quais as continuidades e rupturas existentes na corrente da cultura do construir da Igreja Ortodoxa, que aproxima e distancia Istambul de Moscou? O desenvolvimento dos conhecimentos construtivos, das morfologias espaciais e das comodidades apresentadas por diversificadas construções e cidades se influenciam mutuamente, não obedecendo a rigidez dos ciclos históricos e dos limites geográficos. Aqui, o que é importante ressaltar é que a cultura além dos limites do ocidente permaneceu com manifestações dignas de referência, durante o período de adormecimento ou desaceleração - do século V ao IX - daquilo que consideramos; Ocidental. Mas é exatamente essa desaceleração ou adormecimento da sanha construtiva, que nos permite imaginar e pensar como se deram as estratificações dos conhecimentos construtivos, funcionais e estéticos no campo das cidades e da arquitetura. Apenas, para citar um dos mais emblemáticos exemplos da História da Arquitetura, a Catedral de Santa Maria del Fiori em Florença inicia sua construção em 1296, com o projeto de Arnolfo de Cambio, e terá o concurso para realização do seu Duomo em 1418, levando portanto mais de um século para se materializar na cidade medieval, palco maior do Renascimento. A desaceleração do tempo na Idade Média, de certa forma permitiu a estratificação de camadas formais, estruturais, funcionais e espaciais, no longo prazo. A riqueza das pequenas cidades da Itália, nos dias de hoje desde o sul até o norte, não estaria exatamente no desenvolvimento de tecnologias construtivas, arranjos funcionais e composição espacial e volumétrica estratificadas no longo prazo, ainda por cima alicerçada pelo renascer da cultura urbana, envolvendo; a observação, a fruição e a contemplação de soluções já construídas. Enfim, a longa tragetória da cultura do construir no Ocidente pode ser emblemáticamente contada pela evolução morfológica, funcional e tectônica da basílica paleo cristã.

“A basílica romana é simétrica relativamente aos dois eixos: colunatas em frente de colunatas, abside em frente de abside. Cria, pois, um espaço que tem um centro preciso e único, função do edifício, e não do caminho humano. O que é que faz o arquiteto cristão? Praticamente duas coisas: 1) suprime uma abside; 2) desloca a entrada para o lado menor. Desta forma, rompe a dupla simetria do retângulo, deixa o único eixo longitudinal e faz dele a diretriz do caminho do homem. Toda a concepção planimétrica e espacial e, por isso, toda a decoração, tem uma única medida de caráter dinâmico: a trajetória do observador.” ZEVI, 1977


A arquitetura paleo cristã em sua singeleza manifesta essa estratificação das decisões funcionais, técnicas e espaciais a partir da manipulação do vocabulário, da antiga linguagem da arquitetura do Império Romano, num longo processo. A transformação da basílica pagã em templo de reunião de fiéis da nova religião católica é um interessante debate, o descarte do antigo templo pagão e a eleição da basílica romana segue a lógica da sua sucessão de colunatas e naves, contrastantes com o espaço central da nave, que perde sua centralidade para se metamorfosear num caminho entre a entrada e o altar.
Em cima; planta baixa da Igreja Paleo Cristã de
Sta Sabina 422-432 Abaixo; Basílica de Ulpia
Roma século II

Programaticamente, o templo paleo cristão estabelece um claro direcionamento longitudinal, margeado por duas naves mais baixas, numa clara manipulação da entrada de luz pelo alto, numa ordenação que parece espelhar um culto em expansão, comprometido com a cidade e a comunidade. Esse vínculo entre espacialidade interna, - eixo longitudinal entre a porta urbana e o altar, - e o espaço da cidade se desenvolverá numa infinidade de arranjos e proposições, sempre orientados por um evangelismo expansionista. A singelez dos primeiros templos paleo cristãos nos mostram a casa de um Deus acessível, uma espacialidade que parece querer reforçar mais a reunião e comunhão dos fiéis, do que o distanciamento institucional do poder da igreja nascente. O caminhar em direção a uma revelação, contido na espacialidade do templo católico espelha de forma emblemática a transformação de um culto subversivo no Império Romano em culto oficial do mesmo império. O exemplar assinalado como notável é a igreja de Santa Sabina em Roma realizada entre 422 e 432, num local de martírio de uma cidadã romana convertida ao novo culto, que foi martirizada pelos pagãos. Em contraste, a grande catedral gótica seguirá essa ordenação de elementos, se posicionando nas pequenas cidades medievais com um destaque escalar impressionante, que nos mostra a permanência e transformação desse evangelhismo. 

(O termo Gótico) "... Foi aplicado a arquitetura e a arte medieval do ocidente por alguns escritores do século XV (Filarete e Manetti) e do XVI, especialmente por Vasari, para qualificar a barbárie da arte anterior aos séculos do Renascimento. A "maneira tedesca", ou "maneira Goti" é o contrário  da boa tradição antiga, a que retornam os séculos XV e XVI. Esta noção se propôs, pois, e se aceitou unanimemente no século XVII, com um sentido pejorativo, para expressar censura, e para explicar la por circunstâncias históricas (as invasões da alta Idade Média) e étnicas; conhecido poema de Moliére, La Gloire du Val de Gráce (1669), que alude ao "...insípido gosto dos ornamentos góticos. Estes monstros odiosos dos séculos ignorantes. Que tem produzido torrentes de barbárie..." No século XVIII, quando se esboça um primeiro movimento crítico que tende a valorizar a arte medieval, o termo gótico foi adotado de novo pelo Padre Laugier, por William Gilpin, ou por August Wilhelm Schlegel, com um conteúdo Positivo ou laudatório. E foi adotado pelo eruditos do século XIX e XX, não sem certa resistência, por certo; um grande número de escritores alemães viam nele, seguindo a Goethe, a expressão do gênio germânico (deutsche Architectur); e certo número, mais reduzido, de escritores franceses (como Camile Enlart) que propõe o termo arquitetura francesa; se apoiavam estes na paisagem da crônica de Burchard von Halle (1280), segundo o qual a construção da igreja de Wimpfen-im-Thal (1269-1274) se fez como "opere francigeno", " a maneira francesa". Ao final de tais querelas nacionalistas, que parecem ter terminado em nossos dias, o termo gótico tem sido adotado universalmente. Sua definição aparece hoje desembaraçada de toda referência as civilizações nômades, invasoras do Ocidente, durante a alta Idade Média, "godos", germanos ou francos, ainda quando determinados autores, Hans Seldmayr, entre os mais recentes, continuam descobrindo nele alguma raiz "antimediterrânea", oposta a civilização greco-romana. A princípios deste século atrás do Romanticismo, esta ideia se propagou em formas mais abruptas e ingênuas, por exemplo, por Wilhelm Worringer" GRODECKI 1977 página9

A sucessão de plantas de Saint Denis na França,
a longa estratificação da cultura do construir
na Idade Média

A arte gótica se desenvolveu fortemente na última fase da Idade Média, na França, a partir do século X, durante a dinastia dos Capetos na região de Saint Denis, ao norte de Paris. A reconstrução do coro da Abadia de Saint Denis entre 1140 e 1144, aonde se encontra um tipo de rocha calcáreo muito fácil de ser trabalhada é considerada o advento do gótico. Como já assinalado, o termo gótico provavelmente expressa um preconceito renascentista, que a classificou como a arquitetura dos godos, em contraposição a arquitetura românica, proveniente de Roma. Do ponto de vista da gênese da forma, da manipulação das técnicas construtivas e da sua funcionalidade há um claro esforço no gótico para supressão dos panos cegos do muro e ampliação das áreas de vitrais e entrada de luz. Uma ênfase na verticalização das composições nas naves centrais e laterais das Basílicas, numa concepção espacial que enfatiza o místico e o espiritual. O grande arquiteto do Brasil, Oscar Niemyer enfatizava em suas palestras de forma recorrente, exatamente essa dimensão mística na sua fruição da catedral de Notre Dame de Paris, dizendo; "Eu um materialista histórico, quando adentrava seu espaço, sentia que minha alma, independente de minha vontade, ajoelhava." Era a prova cabal da eficiência programática daquela espacialidade, aonde a captura da luz pelos vitrais, os encaixes dos arranjos de cantaria e a altura inusitada das naves nos remetem ao sagrado.

“A arte gótica desenvolveu-se na Europa na última fase da Idade Média (séculos XII e XIV), num período de profundas transformações em que se assistiu à superação da sociedade feudal e à formação de novos centros de poder: as primeiras monarquias, as grandes cidades, o clero, as classes ‘novas’ dos comerciantes e banqueiros.”
“A enfática verticalidade de tais edificações revela plenamente as transformações do gosto, do pensamento filosófico, dos ideais estéticos, traduzidas, no plano arquitetônico, por uma renovação das técnicas mediante a introdução de uma série de elementos originais típicos do estilo gótico: a abóbada sustentada por uma cruzaria ogival, a utilização do arco quebrado em vez do arco de volta perfeita (ou de volta inteira, arco românico), o emprego do arcobotante e dos contrafortes.” GOZZOLI (1994: 9)
 

Esse renascer da cultura urbana na Europa, no período que se convencionou de ser chamado de Baixa Idade Média, entre os séculos IX e XIII, quando se percebe o retorno do comércio, o retorno da cultura urbana, com a auto consciência da produção de seu futuro, e a construção da cidadania articulada ao combate a servidão e a escravidão mostra a retomada  do foco da historiografia eurocêntrica no fatos construídos. Nesse sentido, é emblemático se debruçar sobre os processos de longo prazo de construção das catedrais européias, invariavelmente elas nascem como pequenos templos paleo cristãos e vão se desenvolvendo continuamente com expansões e transformações. O caso de Notre Dame de Paris é representativo. O local da catedral contava já, antes da construção do edifício, com uma sólida memória relativo ao culto religioso de diferenciadas crenças. Os celtas teriam aqui celebrado as suas cerimônias onde, mais tarde, os romanos erigiriam um templo de devoção ao deus Júpiter. Também neste local existiria uma das primeiras igrejas do cristianismo de Paris, a Basílica de Saint-Etienne, projetada por Quildeberto I por volta de 528 d.C.. Em substituição desta obra surge uma igreja românica que permanecerá até 1163, quando se dá o impulso na construção da catedral gótica, que hoje está lá. Já em 1160, e em resultado da ascensão centralizadora do Império Sacro Franco Germânico, o bispo Maurice de Sully considera a presente igreja pouco digna dos novos valores e manda-a demolir. O gótico inicial, com as suas inovações técnicas que permitem formas até então impossíveis, é a resposta à demanda de um novo conceito de prestígio no domínio citadino.

“Uma vez que o sistema de construção gótico permite fazer com que o peso vertical da abóbada incida sobre os pilares e a pressão lateral sobre os arcobotantes e seus contrafortes (implantados diretamente no terreno do lado de fora do edifício), as paredes não têm funções estáticas e podem ser substituídas sem qualquer problema por uma série de arcadas e de grandes janelas: graças ao princípio das paredes francamente rasgadas, invenção exclusiva da arquitetura gótica, estas perdem toda a materialidade, transformando-se num como que leve diafragma de vidro multicolorido.” GOZZOLI (1994: 21)

Monastério de Batalha, Portugal 1385; a unificação
precoce do Estado Português e sua arquitetura gótica



Esse desenvolvimento da linguagem gótica vai assumir diferenciados sotaques e composições a medida que se afasta desse primeiro núcleo franco-germânico desenvolvendo e se articulando com variadas demandas e aspirações regionais. Em Portugal, o chamado gótico tardio ou mediterrâneo se desenvolve com especificidades inerentes ao pioneirismo da organização do Estado Nacional nessas paragens. Por exemplo, o Convento de Batalha, na cidade de mesmo nome em Portugal teve sua construção iniciada em 14 de agosto de 1385, perto da aldeia de Aljubarrota, onde Dom João I com o seu fiél condestável Dom Nuno Alvares Pereira derrotaram os Castelhanos, o que forjou a construção da nação portuguesa. Para agradecer a Deus por esta vitória, o fundador da nova e lendária dinastia de Avis manda construir um dos mais belos mosteiros da península ibérica: o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, em Batalha. Sem dúvida nenhuma, uma construção única, que terá profundos rebatimentos no desenvolvimento da cultura lusa até o nosso presente, com claros rebatimentos no Estilo Manuelino, nas Construções Ultramarinas das Colônias de Portugal, até chegar ao ecletismo e modernismo português, que assim como em outras partes retomará o tema do Arts and Crafts (2). Na cidade do Rio de Janeiro, o Gabinete Real de Leitura Português é um exemplar dessa longa extirpe, inaugurado em 1887 faz parte dos estilos historicistas ecléticos, e é denominado Neo Manuelino.  A arquitetura e o urbanismo mesmo em seus momentos de importações de sensibilidades de outras paragens permanece sendo a expressão de um lugar, tanto pela materialidade, como também por sua comodidade e adequação climática e expressão.

“Na Espanha e na Itália, o gótico é menos puro, surge, por assim dizer, latinizado, perdendo as suas características mais puras. As manifestações mais extremas datam dos finais do século XV, com o chamado gótico flamejante, que, no entanto, não tem a vitalidade criativa anterior.” GOZZOLI (1994: 4)
Assim como o Monastério de Batalha teremos como representantes de um gótico mediterrâneo, ou flamejante; a Catedral de Milão na Itália (século XIV), a Catedral de Salamanca na Espanha (século XII ao XIV), e a catedral de Sevilha na Espanha (século XV). Exemplares, que latinizam o gótico dando-lhe uma acentuação clássica, que provocaram os debates já apresentados aqui sobre as especificidades do mundo europeu, na Idade Média, partida entre seu norte culturalmente mais bárbaro, e seu sul Mediterrâneo, mais clássico. Essa linha divisória não estará subdivida de forma rígida, mas apresenta gradientes e nuances diversificadas, que condicionarão o desenvolvimento futuro de países e regiões de forma tão característica.

Notas:

(1) Há um interessante debate em ROSSI 1995 páginas 49-58, sobre a natureza das permanências no contexto das cidades, que são caraterizadas em duas categorias como; monumentos isolados e aberrantes, ou monumentos persistentes, envolvendo exatamente a Alhambra de Granada e a Mesquita de Córdoba. O endereço da reflexão de ROSSI 1995 é o questionamento do funcionalismo, contrapondo a este a persistência da forma da arquitetura, sobre diferenciadas perspectivas; isolada e aberrante (Alhambra de Granada) ou persistente (Mesquita de Córdoba ou a Cidade de Pádua).

(2) O Tema do Arts and Crafts, literalmente; arte e artezanato envolvia o debate entre a arte mecânica e o arte liberal tão caro ao Renascimento Italiano, ao Romantismo Alemão e ao Modernismo Anglo Saxão, Catalão e Português.

Bibliografia:

GOZZAI, Maria Cristina – Come reconhecere l’arte gótica

GRODECKI, Louis - Arquitetura Gótica - edição Aguilar Madrid 1977

HUBERMAN, Leo – História da Riqueza do Homem, capítulo 7 Sacerdotes, Guerreiros, Trabalhadores 

MANGO, Cyril - Arquitetura Bizantina - Edição Aguilar Madrid 1975

ROSSI, Aldo - A arquitetura da Cidade - Editora Martins Fontes São Paulo 1995

ZEVI, Bruno – Saber ver a arquitetura – Arcadia Lisboa 1977


sexta-feira, 11 de março de 2022

Os Tratados de Arquitetura e Urbanismo do Renascimento e do Maneirismo, ou a Arquitetura e o Urbanismo: arte ou ciência

 

Capa da Tradução portuguesa do Tratado Decem Libri
de Arquitetura de Vitrúvio, tradução do latim de M.
Justino Maciel

A autora Petra Lamers-Schütze em seu livro
Teoria da Arquitetura, do Renascimento até os nossos dias lista 13 Tratados sobre a arte de construir apenas na Itália, num período que parte do fundador Tratado do De re aedificatória de Leon Battista Alberti de 1452, até o Tratado de Guarino Guarini Architeture Civile de 1737. Se, levamos em conta apenas o período de vida dos escritores, e não a data da edição das diversas publicações o período reduz significativamente, pois parte de Alberti (1404-72) e chega a Guarino Guarini (1624-83). Mas, todos fazem alguma referência ao Tratado da antiguidade clássica escrito por Marco Vitrúvio Polião, Os dez livros da Arquitetura ou na acepção consagrada pelo Renascimento, De Architectura, do século II a.C. A grande contribuição do engenheiro militar Vitrúvio, que dedica seu tratado ao Imperador Augusto é a caracterização da arquitetura pautada entre três vertentes; firmitas (firmeza), comoditas (1) ou utilitas (comodidade e utilidade) e venustas (beleza). Interessante também assinalar que Vitruvio coloca entre seus axiomas a ideia de que; "Arquitetura é ciência", "architectura est sciencia". Danielle Bardaro (1514-70), um dos tratadistas renascentistas ou maneiristas desenvolve esse argumento no seu, I dieci libri dell´architectura di M. Vitruvio numa edição de Veneza de 1570, classificando a arquitetura nas ciências matemáticas, fazendo dela uma expressão da verdade. Mas, muito além desse debate o esforço de Vitrúvio me parece por caracterizar a arquitetura como uma linguagem construtiva, estruturada por um elemento fundamental na sua existência, a coluna. Os treze tratados de arquitetura do renascimento ao maneirismo mencionados por Petra Lamers-Schültze são:

1. Leon Battista Alberti (1404-1472) - De re aedificatória libri decem - Editado no Vaticano 1442-52

2. Antonio Averlino (Filareto) (1400-1465) - Codex Machliabechianus II, I, 140 - editado em Florença 1461-64

3. Francesco do Giorgio Martini (1439-1501) - Codex Ashburnham 361 - editado em Florença 1470-90 - Codex Saluzzianus 148 - editado em Turim 1482-86, e - Codex Machliabechianus II, I, 141 - editado em Florença 1489-92

4. Anônimo - Hypnerotomachia Poliphili, O sonho de Polifilio - editado em Veneza 1499

5. Fra Giovanni Giocondo da Verona (1433-1515) - M. Vitruvius per locundumsolito castigator factus, cum figuris et tabula ut iam legi et intellegi possit - editado em Veneza 1511

6. Cesare Cesariano (1476/78- 1543) - Di Lucio Vitruvio Pollione de Architetura - editado em Como 1521

7. Sebastiano Serlio (1475- 1553/55) - Tutte l´opere d´architettura et prospectiva - editado em Veneza 1619

8. Jacono Barozi da Vignola (1507-1573) - Regola delli cinque ordini d´architettura - editado em Roma 1562

9. Pietro Cataneo (1510 - 1571) - I quattro libri di Architettura - editado em Veneza 1554

10. Daniele Barbaro (1514-1570) - I dieci libri dell´architettura universale - editado em Veneza 1615

11. Andrea Palladio (1508 - 1580) - I quatro libri dell´architettura - editado em Veneza 1570

12. Vicenzo Scamozzi (1548-1616) - L´idea della architettura universale - editado em Veneza 1615

13. Guarino Guarini (1624 - 1683) - Disegni di architetura civile ed ecclesiastica - editado em Turim 1686 - Architetture civile 2 volumes - editado em Turim 1737

As chaves classificatórias do Tratado de Vitrúvio são muitas, mas todas pretendem reduzir o ato construtivo a uma língua manipulada pelos seres humanos na ordenação e constituição dos seus espaços construído. Vitruvio inaugura, ou melhor explicita a profunda dependência do ofício da arquitetura e do urbanismo ao poder; imperadores, reis, papas, patronato, etc precisam ser convencidos da justeza do construir. E, muitas vezes serem seduzidos, que essa adequação precisa ser cultivada pelo poder, fazendo uma demonstração de suas intenções cultas, justas e sofisticadas sem ostentação. Apesar dessa doutrinação com claros pressupostos civilizatórios, a arquitetura e o urbanismo demonstram em sua fundação, nesses posicionamentos, um claro vínculo com o poder instituído. Giulio Carlo Argan, o crítico de arte e arquitetura, que foi também prefeito de Roma destacava nos seus comentários do tratado dos Decem Libri;

“... distingue os tipos dos edifícios com relação as suas funções práticas e representativas; descreve até mesmo a figura moral e profissional do arquiteto, cuja a função é considerada essencial à estrutura do Estado. Demasiado romano para desaprovar a tradição pátria, reduz a “ordem” também a arquitetura etrusca, toscana, confirmando, assim, sua intenção de inserir a experiência estética grega na praxe construtiva etrusca e romana. Como gramático e filólogo, Vitrúvio deduz da viva linguagem da arquitetura grega uma morfologia e uma sintaxe, mas, exatamente porque as formas gregas se tornam uma espécie de léxico, podem adaptar-se a uma arquitetura que deseja ser sobretudo discurso, desenvolvimento articulado de elementos representativos e funcionais no contexto de uma cidade.” ARGAN 2003

Mas, o que cabe aqui também destacar é que, a revisitação promovida pelos humanistas do texto fundador de Vitrúvio aproxima e institucionaliza a teoria da Arquitetura da teoria da Arte, transformando-a de arte mecânica em arte liberal, destacando-a dos procedimentos das corporações de ofício medievais. Nesse sentido, a emblemática obra da Cúpula de Santa Maria del Fiori, na cidade de Florença, projetada e executada por Filippo Brunelleschi, e sobre a qual nunca escreveu uma linha de texto, mas que foi tema de uma pleiade de pensadores e críticos que o sucederam, demonstra-nos o potencial legitimador da reflexão textual no campo do espaço construído. A independência da proposição de Brunelleschi, com relação as determinações das corporações de ofício da construção é sublinhada pela articulação das duas cúpulas; uma interna, com dois metros de espessura, baseada nas formas de amarrar os tijolos das abóbadas persas, e outra externa, com oitenta centímetros de espessura, com clara inspiração nas abóbadas nervuradas da arquitetura gótica. Ambas articuladas, promoveram a realização da obra sem que fossem necessárias escoras e cimbramentos, que pré apoiariam a materialidade, antes de sua consolidação como corpo íntegro. Essa atitude nos mostram a emergência de um profissional que elege o desenho, proporções, materialidade e processos construtivos a partir da sua avaliação e juízo, e dita isso para o canteiro de obras, como um cientista isolado. Volta-se para o tema já mencionado de Bardaro, que vincula arquitetura à ciência e à verdade no exercício do plano ou do projeto, como ações intermediada pelas tecnologias, pelas artes, mas também pelas antropologias e sociologias do comportamento humano. O vínculo entre plano, projeto e procedimentos científicos não advém do isolamento e personificação da solução, como no caso de Brunelleschi, afinal é perfeitamente possível realizar, arte e ciência de forma coletiva. Mas, o vínculo com uma forma de proceder que pretende se antecipar e portanto prever e controlar os desenvolvimentos futuros das obras e da cidade, dirigindo-as no sentido do "Bem Viver". O que já foi destacado, na atitude de Brunelleschi é a sua subversão dos procedimentos instituídos para a construção de cúpulas, se arriscando numa nova forma de fazer, que avalia o contexto, os recursos disponíveis e o resultado a ser alcançado, num procedimento próximo ao científico.

" Se aceitarmos a tese de que o objeto arquitetônico é o mediador das relações sociais, além de ser uma totalidade de fruição, uso e construção, muitas perguntas teremos de fazer sobre o tempo e o mundo em que vivemos, para criarmos os seus objetos de mediação.[...] A sociedade da informação é algo que começamos a viver e que precisamos entender. Não sabemos como ela se espacializa, se é que ela se espacializa. A arquitetura não sabe mais o que ela vai mediar, pois ainda não criamos as formas que podem mediar as relações virtuais, se é que elas podem ser criadas. Não sabemos, ainda, quais são as espacializações da sociedade da informação, quais são os novos programas, se é que eles são realmente novos. O problema não está sequer formulado; portanto não pode ser resolvido." MALARD 2013 página260

O que nos coloca diante do vínculo da imagem arquitetônica aos procedimentos, processos e costumes de fruição, uso e construção da nossa sociedade contemporânea, baseada nas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Mas, também nos revela num paradoxo, uma permanência dos desafios da arquitetura e da cidade com relação a um tempo de cinco séculos atrás, quando a totalidade de fruição, uso e construção delimitam nosso ofício, e deveriam sintetizar espacialmente nosso modo de ser. Os tratados renascentistas são uma antecipação do desenvolvimento teórico que a arquitetura e urbanismo demandam, não só dos profissionais, mas da sociedade como um todo. Num ofício marcado pela construção do espaço humano, que envolve a interação  intra humana, mas também com a natureza e o planeta. Nessas artes ou ciências se desenvolve uma interessante interação entre o construir do mundo humano, e a própria humanização do mesmo ser, como um ente dependente de sua coletividade, que nessa dependência engendra a superação das suas determinações naturais, pelo menos de forma parcial. A ideia de vínculo entre o "Bem Viver" individual e coletivo estão condicionados e se impulsionam mutuamente, gerando uma sinergia que precisa cuidar tanto do interesse público, quanto da comodidade individual, que quando se desenvolvem de forma conjunta nos demonstram a felicidade.

NOTAS:

(1) Alguns autores como BRANDÃO 2016, apontam a inserção do termo comoditas na tríade vitruviana ao tratado de Alberti, apontando que Vitruvio apontava apenas o termo utilitas

BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo – História da Arte Italiana; da antiguidade a Duccio vol.1 - Editora Cosac & Naif São Paulo 2003

BRANDÃO, Carlos Antônio Leite - Arquitetura, Humanismo e República; a atualidade do De re aedificatoria - Editora UFMG Belo Horizonte 2016

BRANDÃO, Carlos Antônio Leite (org.) - Na gênese das racionalidades modernas; em torno de Leon Battista Alberti - , MALARD, Maria Lucia - Projeto Arquitetônico e Pensamento Científico - Editora UFMG Belo Horizonte 2013

LAMERS-SCHÜTZE, Petra - Teoria da Arquitetura, do Renascimento até os nossos dias - Editora Taschen Tóquio 2003

MACIEL, M. Justino - Tratado de Arquitetura de Vitrúvio - Editôra 1st Press Lisboa 2006

sábado, 5 de março de 2022

A arquitetura do Império Romano

Mapa da Pax Romana

Seguindo a sequência histórica da disciplina de Teoria e História da Arquitetura 1 (THArq1) da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF), da qual sou professor, chegamos ao Império Romano e sua arquitetura, urbanismo e sua gestão do território. Uma das civilizações que demonstrou um enorme apuro no esforço construtivo, e articulou um território imenso, o Império Romano, que ia da península Ibérica até a borda da Índia, a partir de obras como estradas, aquedutos, pontes e fortificações. As origens da cultura de Roma são muito antigas, sua fundação remonta a 756 a.C., e os registros da cidade antecedem ao Império Grego no mar Mediterrâneo e nos apresentam uma certa disponibilidade inicial de interação franca com as mais diversas culturas. Os etruscos, que dominaram a região da antiga Roma a partir de 616 a.C. sentiam profunda afinidade pelas manifestações da Grécia Antiga, que dominava o sul da península itálica, com vários entrepostos coloniais. Ao norte estavam os povos bárbaros, gauleses e normandos, que dominavam a região, a partir do vale do Rio Pó, a partir dessa diversidade de culturas, que se constituirá o imenso império, que se estabiliza na República Romana, a partir de 416 a.C.. Amplo período, que na verdade foram identificados por alguns historiadores como a Pax Romana, desde 27 a.C. a 180 d.C., que constroe a coesão de um território imenso, que no limite ocidental envolve os atuais países da Inglaterra, Espanha e Portugal, passando pelo norte da África, Egito, Oriente Próximo, e chegando aos atuais Irã e Iraque. Na verdade, o Mar Mediterrâneo, aquilo que os romanos chamavam de "Mare Nostrum" era a grande coesão dessa imensa região, que articulada por estradas, pontes e cidades, constituíram uma rede coesa de impostos e taxações, que fizeram a fortuna da cidade de Roma. Como em todo império, existia a força coercitiva das legiões romanas, às opressões e revoltas dos diferenciados povos escravizados, mas também houve a disseminação de uma cultura e de uma arte singular e pragmática. 

“A Itália antiga não tinha unidade étnica nem cultural: era um mosaico de povos diversos pela origem, pelas tradições, pelos costumes e pela língua. Ao norte do Pó, já era a terra dos bárbaros, gauleses e germanos; o sul era um pedaço da Grécia. A única cultura autóctone, ainda que fortemente influenciada pela arte grega, era a etrusca, nas regiões centrais. Mesmo, a cultura romana, que acabara por dominar toda a península, tem suas raízes na grega, mas a combina, em seu desenvolvimento histórico, com a tradição etrusca e a renova, acolhendo grandemente as infiltrações bárbaras.” ARGAN, 2003

Nesse contexto, de forte referência a cultura grega, toda a arte de Roma reproduz as ordens presentes em suas colunas, em seus capitéis, a sistematização dessas ordens é realizada por um tratado, Os dez livros da Arquitetura, ou simplesmente De Arquitetura, de um arquiteto-engenheiro militar Marcos Vitrúvio Polião, que viveu no século I a.C. O tratado é dedicado ao imperador Augusto, e inaugura a tradição da arquitetura de vinculação com o poder, com o patronato, o papado, devido ao imenso dispêndio de recursos que a arte de construir envolve.  Vitrúvio, no único tratado que nos chegou graças a Idade Média, será o formulador da classificação da linguagem clássica da arquitetura grega, com a presença de apenas uma coluna originária da península itálica, a Toscana. Na verdade uma derivação da mais sóbria das colunas gregas, a Dórica, que parece nos mostrar o espírito prático da civilização de Roma, que objetiva e sintetiza seu decoro, se desfazendo até das caneluras.

 “Construído sobre um alto pedestal, com colunas maciças e baixas, o templo etrusco evocava longinquamente as formas de um templo dórico; mas era mais largo do que longo e dividido em duas partes, das quais a anterior era aberta e de pórticos, enquanto a outra continha uma cela tríplice. As colunas ‘toscanas’ não tinham caneluras e o capitel era constituído por um anel equino fortemente comprimido.” ARGAN 2003 página 163


Mas o elemento síntese da arquitetura romana, não é mais a coluna, mas o Arco, uma arquitrave em arco pleno no qual o centro do raio corresponde ao meio do inter-colúnio ou do vão a ser vencido, a chave ou fechamento, é a pedra ou o tijolo colocada no vértice que confere toda a estabilidade a estrutura. Uma composição estrutural, que trabalha a partir dos conceitos de encaixe de posição e reciprocidade mútua, que desembocará como uma linguagem em outros elementos mais complexos, tais como; abóbodas, abóbadas de berço, abóbodas cruzadas. Manipulados primeiro pelos etruscos e depois pelos romanos, farão a fortuna da sua arquitetura, configurando espacialidades como naves centrais, laterais, absides, etc..., que disponibilizam a solução da curva, libertando-nos da mera reta. As imensas possibilidades oferecidas por esse elemento, o Arco, e suas infinitas combinações oferecerá a arquitetura, as infra estruturas, as estradas uma rede construtiva de criatividade.

“Nos muros e nas portas urbanas revela-se o gênio construtivo dos etruscos, mestres no entalhar e no compor encaixes a macia pedra local; sobre o princípio do encaixe e da recíproca sustentação dos blocos funda-se o sistema da cobertura em arco e abóboda que constitui, na ordem da técnica construtiva, o caráter notável da arquitetura etrusca e tornar-se-á, também na ordem estética, o tema base da arquitetura romana.” ARGAN 2003 página163

O Coliseu de Roma

A intencionalidade, a proporção entre elementos e uma representação da organização das instituições humanas se desenvolvem, sem deixar de ter uma certa monumentalidade dominadora, que assinala a centralidade de Roma, a cidade eterna. Ritos, mitos e racionalidade se fundem na expressão de uma civilidade com hábitos particulares, que constituem-se em edificações concretas como; o Arco Triunfal, o Fórum, a Basílica, as Termas, o Anfiteatro, os Aquedutos, as Estradas, as Pontes. O edificar, a base física e material da sociedade; a cidade, seus confortos, suas infra estruturas passam também a espelhar a civilidade ou a cidadania do homem, como construções mútuas e retro alimentadas. As construções públicas expressam e concentram uma série de práticas e hábitos, que espelham um Bem Viver,a cidade romana garante o acesso a confortos, comodidades e asseamentos higiênicos jamais pensados. A urbs e a civitá, construções e comportamentos humanos parecem estar interligados numa didática mútua, num desenvolvimento compartilhado e interdependente. A construção da personalidade do cidadão é impulsionada, dependente e mutuamente interligada com a estrutura física do espaço construído pelo mesmo cidadão, como numa rua de mão dupla, não só na cidade mas no território que vivencia. A grande cidade, a fuga para os idílios das Villas do interior, as obras de infra estrutura, tais como; aquedutos, pontes e estradas, a compreensão do território vivenciado conformam uma consciência particular e única na história da humanidade.

"O texto do arquiteto e engenheiro Marco Vitrúvio Polião, ou só Vitrúvio foi escrito no século I a.C., e foi redescoberto pelo Renascimento no século XVI. Um texto seminal da Antiguidade Clássica, pode ser considerado como o texto fundador de um entendimento moderno da arquitetura, da construção e da cidade. “Em meados do século XVI o rei Dom João III, consciente da importância do tratado de Vitruvio para a renovação da cultura portuguesa da construção, encomendou a sua tradução ao célebre matemático Pedro Nunes... Segundo Vitrúvio, a arquitetura nasce da fabrica e da ratiocinatio. A primeira consiste na experiência que o arquiteto vai adquirindo com o acto de construir. A segunda é a teoria que se vai constituindo como resultado da prática.”  MACIEL 2006 páginas 7

As Termas de Caracala, a "commoditas" romana

A arquitetura nasce portanto da manipulação mecânica de uma materialidade concreta e específica que se articula numa espacialidade, que demanda uma intencionalidade antecipadora alcançada pela racionalidade humana. Uma síntese complexa entre artes mecânicas e artes liberais, ainda não conscientemente explicitada pela antiguidade clássica, mas já implicitamente presente, e, que será alcançada apenas no Renascimento italiano. O Tratado de Vitrúvio é representativo desse espírito, aonde a boa cidade, o bem viver, a vida com o diálogo, se somam no sentido de humanizar o homem torná-lo civilizado e disponível para a vida pública, que mira o interesse de todos. A Grécia no espaço da Ágora mostra-nos como o diálogo, o discurso convincente e argumentativo persuade a comunidade, Roma terá o Fórum, a Basílica como espaço da construção também do diálogo e da justiça, que passa a ser proclamada por uma lógica da impessoalidade. Apesar do militarismo romano, que perpassa a história de todo o Império, as legiões, que voltando de campanhas vitoriosas, volta e meia usurpam o poder civil, Roma terá na justiça a representação de um código escrito consolidado que regula a atuação das pessoas. São um exemplo dessa mentalidade, os escritos do Cônsul Marco Túlio Cícero (106a.C. - 43a.C.), redescobertos por Francisco Petrarca (1304-1374) no pré renascimento italiano nos mostram a constituição do interesse comum, a res publica. Também o tratado de Vitrúvio nos mostra, o que significa edificar uma linguagem clássica, profundamente vinculado aos gregos, mas também a commoditas (utilidade e comodidade) romana, que procura desvendar a eleição da materialidade, dos procedimentos construtivos, da escolha do lugar, da adequação da edificação ao seu contexto, etc.

“Dependente, pelo menos em parte, de fontes gregas, demonstra, como se quisesse traduzir, a grande lição clássica em uma série de regras quase gramaticais, aplicáveis a todo tipo de discurso construtivo e a todas as exigências ditadas pelo sentido prático, pela commoditas romana. Vitrúvio enquadra a arquitetura em toda a problemática técnica e urbanística, que vai da escolha e da elaboração dos materiais aos procedimentos construtivos, à escolha do lugar, à adaptação do edifício ao terreno, à paisagem e à decoração... distingue os tipos dos edifícios com relação as suas funções práticas e representativas; descreve até mesmo a figura moral e profissional do arquiteto, cuja a função é considerada essencial à estrutura do Estado. Demasiado romano para desaprovar a tradição pátria, reduz a “ordem” também a arquitetura etrusca, toscana, confirmando, assim, sua intenção de inserir a experiência estética grega na praxe construtiva etrusca e romana. Como gramático e filólogo, Vitrúvio deduz da viva linguagem da arquitetura grega uma morfologia e uma sintaxe, mas, exatamente porque as formas gregas se tornam uma espécie de léxico, podem adaptar-se a uma arquitetura que deseja ser sobretudo discurso, desenvolvimento articulado de elementos representativos e funcionais no contexto de uma cidade.” ARGAN 2003 página

A Basílica de Constantino

A ânsia pragmática de Roma se expressa na sanha classificatória de Vitrúvio, que se manifesta também na ordenação das funções edilícias, e na sua disposição no território, ou inserção urbana, que lançam um conceito fundamental para a estruturação projetual, a ideia de "Tipo". O planejamento e a projetação entenderá o conceito de "Tipo", como algo diferenciado do "Modelo", que portanto seria uma ordenação esquemática que sintetizaria a distribuição arquitetônica no contexto, no terreno, no lugar mostrando-nos constâncias históricas do construir humano. Como, uma gênese da forma, um processo de esquematização das proporções entre espaço edificado e não edificado; a casa em torno de um pátio, a torre, a evolução do Templo Paleo-cristão a partir da Basílica Romana, e outros. A lógica do Tipo envolve também diversas escalas e interrelações numa relação de proporção esquemática que envolve a função prática e contemplativa da edificação, o construído e o não construído, como formas em interação dialética, que se constituem mutuamente. A metodologia do "Tipo" só será plenamente sistematizada pelos arquitetos do Iluminismo, mas ela já se apresenta de forma implícita no Tratado de Arquitetura, os Dez Livros de Vitrúvio.

“Diversamente do cânon grego, que consiste em um sistema de relações ou proporções ideais, o tipo é um esquema de distribuição de espaços e partes em relação à função prática ou representativa do edifício. O tipo, mesmo conservando o esquema, permite as mais amplas possibilidades de variantes na determinação formal e na decoração.” ARGAN 2003, página

O cotidiano de uma cidade nova
do Império Romano

Enfim, uma forma de pensar que transita entre as várias escalas do pensamento construtivo, desde a concepção geral e abrangente da disposição edificatória até o detalhe do decoro, pensando-os como uma unidade inseparável e coesa. A partir dessas reflexões fornecidas pelo Tratado de Vitrúvio e as leituras de Giulio Carlo Argan sobre esse texto fundador, a aula procurou apresentar numa ordem classificatória os esforços da Arquitetura Romana. Entendendo cada um desses temas como inseridos num determinado contexto pré-existente, que desvendava e explicava a obra: os Arcos Triunfais, os Templos, os Anfiteatros, a Basílica, o Circo Máximo, as Residências e a Insulae de Roma, as Grandes Construções como Aquedutos e Pontes. Até chegar a uma fictícia Cidade Romana de colonização do território, que na Europa se apresenta em grande número e em grande variedade de ocorrências, tais como; Paris (Lutécia), Londres (Londum), Barcelona (Barce), e outras. Na verdade, esta referência a uma cidade nova de colonização romana foi retirada do livro de David Macaulay, que tem como título; Construção de uma Cidade Romana. Ele nos mostra que a configuração da cidade é um elemento central no processo de colonização, dominação, controle e doutrinação da cultura de Roma frente aos diferentes contextos nos quais se insere. A cidade é um elemento fundamental na articulação do imenso território do Império de Roma, marcando o lugar e mostrando nas suas especificidades o módus vivendi dessa cultura

BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo – História da Arte Italiana – da antiguidade a Duccio vol.1 - Cosac & Naif São Paulo 2003
MACAULAY, David - Construção de uma Cidade Romana - Editora Martins Fontes São Paulo 1989
MACIEL, Justino – Tratado de Arquitetura, Decem Libri – Editora Universitária, Lisboa 2006

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A Arquitetura grega

A costa entrecortada da Grécia, cheia de baías,
impulsionadora do comércio e da interação entre povos

No contexto da disciplina Teoria e História da Arquitetura 1 (THArq.1), após abordarmos os períodos; a Pré História, a Antiguidade do Oriente Próximo (Mesopotâmia e Antigo Egito), uma Civilização Pré Colombiana (o Império Inca), nos debruçamos sobre a Grécia. Civilização e cultura, que na verdade lançarão as bases daquilo que entendemos como a cultura ocidental euro-cêntrica, que por diferenciados caminhos desembocará no Renascimento, que a revisita como exemplo e paradigma comportamental. Se comparada com a Antiguidade do Oriente Próximo e a Civilização Pré Colombiana não se identifica no território da Grécia, nenhuma dádiva natural, como foram caracterizados os rios Tigre, Eufrates, Nilo e Urubamba, que garantiam excedentes de produção agrícola e de pastoreio, que fizeram a fortuna destas civilizações da antiguidade. Mas, o que há nesse espaço-território, uma península entre os Mares Egeu e  Jônio, no Mediterrâneo, que induz essa mudança ou possibilita a emergência de uma sociedade sofisticada, cosmopolita e inventora da democracia. Não há mais a generosidade-dádiva de um grande rio, mas há uma costa entrecortada de baías e portos que se lançam ao mediterrâneo, uma configuração que fomentará a navegação e o comércio. Há também uma cultura das oliveiras e uvas, que gera o azeite, o vinho e o pastoreio de rebanhos de caprinos e bovinos, que fundam uma nova maneira de interação com o outro, o estrangeiro, não mais baseada na sua supressão, mas na sua colonização comercial. A cidade assume um protagonismo central, pois é nela que é representada a democracia determinando personalidades de cidadãos diferenciados, entre por exemplo, a militarizada Esparta e a a cultura civil de Atenas.

 “O que vemos surgir na Grécia, nesse contexto? Algo de totalmente novo: a ideia de que só existe sociedade humana digna desse nome se essa soberania de valor quase religioso se achar despersonalizada e, para falar como os gregos, situada no centro, ou seja, se ela se tornar uma coisa comum. Só pode haver vida social se todos os membros de uma comunidade tiverem direitos iguais para gerir os interesses comuns do que é também um modo de instaurar uma diferença entre o público e o privado.” VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo

Me parece que segue sendo um mistério, como se processou essa transição entre as autocracias orientais e a cultura helenística democrática e cosmopolita, que desenvolve maior aceitação da diferenciação e da alteridade entre semelhantes. Os chamados dóricos descendem de linhagens indo-europeias, que se instalaram na Península da Ática por volta de 2.000 a.C., vindos do Cáucaso, interagindo com assírios, egípcios, fenícios e cretenses, naquela parte do Mediterrâneo. Certamente, a cultura cretense, anterior ao esplendor grego do século V a.C. influenciou fortemente essa maneira de agir e comportar do povo grego. Mas, há um período obscuro entre a Grécia dos monarcas entre 1450 e 1200 a.C. e o século 9 a.C., quando a atividade econômica e a cultura retornam com força e com uma nova forma de encarar o poder.

“Em todas as grandes civilizações que precederam a civilização grega, e de que ela foi tributária (assírio-babilônica, egípcia, fenícia, cretense), não se tinha visto nada comparável. Os chamados dóricos, isto é, indo-europeus que, na aurora do 2o milênio a.C., instalaram se na Grécia continental vindos talvez do Cáucaso, impregnaram-se da cultura de civilizações mais avançadas, em particular a dos cretenses [...] arquivos palacianos que nos permitem abarcar o que era a Grécia entre 1450 e 1200 a.C., uma Grécia de monarquias que, em certos aspectos, lembrava os reinos orientais, o rei, "anax", controla o conjunto da vida social, econômica e mesmo religiosa, ao que parece. Esse período micênico deu lugar ao que chamamos os séculos obscuros: os reinos desaparecem, a escrita também, os contatos com o Oriente, a densidade demográfica e a superfície cultivada diminuem. E depois o comércio retorna, lá pelo século 9o a.C. O que aparece então, e dessa vez o sabemos, afora os documentos arqueológicos, graças à época homérica, à "Ilíada" e å "Odisseia" (difícil datar, pois se trata de uma tradição oral que remonta talvez a 1250 a.C., mas cujo texto só foi fixado no século 6o a.C.), é um mundo marcado por uma nova maneira de considerar o poder. “VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo

Ágora de Assos

Há uma espacialidade, que representa essa forma de pensar e de agir dos gregos, a Ágora, na verdade um espaço vazio descoberto limitado por uma continuidade de "stoas", arcadas sombreadas em dois pavimentos, que o contornam, e que abrigam o caminhar e o diálogo, muitas vezes controverso entre seus cidadãos. Esse espaço, não construído, sem teto, a praça ou mercado, nada mais é de que o público, algo que pertence a todos enquanto dádiva auto-construída, que representa o conflito, a persuasão, o convencimento e a possibilidade de acordo, na manutenção da diversidade. Um espaço, que em Atenas está logo abaixo da Acrópole, um outro lugar do culto da divindade da cidade, uma religião e um culto que conforma a identidade do cidadão ateniense, que entende o compartilhamento do sagrado com um valor estratégico de coesão. Mas essa cultura tão peculiar e específica volta e meia se envolveu com uma certa prepotência, advinda dessa mesma forma de ser, e na verdade, dependeu de outras culturas para garantir sua permanência, e seu renascimento. Esse contínuo reaparecer muitas vezes veio da veneração dessa forma de agir e pensar, que outras culturas identificaram nela; romanos, árabes, cristãos, humanistas, germânicos, anglo saxões. Sem dúvida, este registro histórico foi constantemente revisitado e venerado, como um acontecimento na história da humanidade, capaz de ser revivido pelos mais diferentes lugares e pensares.

"Claro, tudo mudou desde então, o espaço, o tempo, a autoconsciência, a memória, as formas de raciocínio... Mas é o homem grego que está na origem dessa espetacular evolução [...] o mundo de onde viemos [...] Foi, aliás, por intermédio da cultura árabe que a Grécia sobreviveu a si mesma na Idade Média, antes de ser redescoberta pela Europa. Como se vê, o caudal do helenismo seguiu todo tipo de meandros, mas ressurgiu, periodicamente.“ VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo
A Acrópole de Atenas, lugar em que a disposição dos 
edifícios é estruturada por complexos traçados, numa clara 
intenção de reunião entre natureza e cultura

A composição arquitetônica, tanto da cidade sagrada a Acrópole, quanto o espaço das assembleias, a Ágora, se utiliza e se reduz a poucos elementos, que passam a ser estudados como entidades quase independentes, a Coluna, a Arquitrave, e o Frontão. O sistema de junção entre eles é o trilítico, o esforço talvez mais simplificado de vencer um vão, que determina a presença do ritmo, da proporção, dos claros e escuros, das sombras e da luz. Elementos que sinalizam uma clara e objetiva linguagem, a todos acessível, entre construção e usuários, que pode ser resumida a um dualismo entre; monumentalidade (sagrado) e cotidianeidade (civilidade). Essa objetividade e simplificação da linguagem construtiva alcança uma universalidade de comunicação, um cosmopolitismo, onde qualquer estrangeiro compreende as suas mensagens de forma imediata. Na verdade, a integração entre o hábito geral da sociedade e suas construções trabalha nessa simplificação com a sofisticação e o aprimoramento de relações abstratas e complexas, tais como; ordem, simetria, proporção, harmonia, ritmo, claro e escuro. A ordenação dessas relações abstratas nascem da contemplação do natural, em nítida disputa com a vida humana, que constantemente afirma e desafirma sua artificialidade, se aproximando e se distanciando do antropoformismo. 

“Sim, mesmo nas constituições arcaicas do século 7o a.C. há uma "boulé", uma assembléia do povo, que delibera sobre o "cratos", o poder, para fazer isso ou aquilo. Mas não se trata de uma democracia, senão de uma aristocracia guerreira. O que ocorre em seguida? A partir do século 6o a.C. em Atenas, esse grupo restrito de eleitos que tem o direito à palavra na assembleia amplia-se com as reformas de Sólon e sobretudo as de Clístenes: vemos surgir então a ideia de que todos os que nasceram atenienses, os cidadãos, têm direitos iguais de participar na coisa política.” VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo

Traçados reguladores, que definem a posição das edificações
e suas visadas, apenas a partir da porta do Propileu


A disposição das edificações na Acrópole de Atenas segue uma complexa lógica, que articula o caminhar humano numa subida de colina, com a descoberta e o desvelamento progressivo da hierarquia entre cada um deles, numa sequência visual, que só é inteiramente compreendida na integridade do processo. O caminhar e o edificado trabalham num complexo sistema de enquadramentos, sucessivos e múltiplos, no qual o usuário e a vivência concreta da espacialidade parecem construir experiências sempre inusitadas. A subida para a Acrópole de Atenas, e também sua descida parecem demonstrar, que a sequência vivida será sempre uma nova descoberta, num sentido e no outro, que na verdade, não se restringe apenas as suas edificações, mas aos espaços vazios entre edifícios, e também às vistas que proporciona da cidade indiferenciada. Estamos diante de um fato construído, penso que pela primeira vez na história humana, que reúne, colina, edificações, vazios entre edificações, vistas da cidade da acrópole e para a acrópole que constroem uma estabilidade dinâmica só encontrada naqueles lugares mágicos. Uma forma de articular o humano, ao cosmos natural, que vai muito além do visual, pensando na vivência da efetiva espacialidade, - visual, táctil, epitelial e corporal - a partir de um observador-usuário caminhante, que experimenta uma sucessão de enquadramentos tão ricos e sempre inusitados, que nos obrigam a pensar sobre a intencionalidade do fazer humano. Livre e precisa, mas em diálogo com qualquer "contingência acidental".

“As próprias leis do Estado tem seu fundamento nas leis naturais; e ‘natural’ é o fundamento da lógica e da ciência, da moral e da religião. Mas nem por isso a vida é equilíbrio imóvel, estagnação;  é antes aspiração contínua a uma condição ideal, de perfeita liberdade natural. Por esse ideal de liberdade a Grécia combaterá longamente o império Persa, última forma do obscuro despotismo asiático; e essa longa luta histórica nada mais será do que o resultado da mítica luta de liberação da consciência dos opressivos terrores do mundo pré-histórico e proto-histórico com suas ameaçadoras potência sobrenaturais. Dessa contínua luta, mítica e histórica, pela libertação da consciência e pelo límpido conhecimento do real, a arte figurativa é, mais ainda do que um testemunho, um fator essencial. Concebida como o mais puro e perfeito dos fenômenos naturais, revela na clareza de suas formas a forma ideal da natureza na sua essência universal, que está além de qualquer contingência acidental ” ARGAN 2003 página.

O Parthenon na Acrópole, hierarquia, monumentalidade e 
sobriedade, apesar de seu estado ruína

Nesse contexto, o Parthenom se insere como edificação hierarquicamente mais importante, dominando e se debruçando sobre a colina da Acrópole, uma construção que define seus limites a partir de uma colunata contínua, que combina; correções óticas, harmonia, simetria, ritmo, dois frontões, luz e sombras. Essa delimitação entre exterior e interior, marcada por breves degraus e sem a presença de paredes contínuas, com a presença da colunata de tamanho monumental determina uma continuidade anunciadora e preparatória. Sua construção iniciou-se em 448 a.C., logo depois da paz com a Pérsia, com projetos de Calícrates e Ictino, que manipularam proporções grandiosas e esforços construtivos inusitados até então. O grande templo, de mármore, enquadrado na ordem dórica, por Vitruvio vários séculos depois surge sobre uma pequena base alta, chamada de  Estilobata na cota mais alta da Acrópole, visível de qualquer parte da cidade, e mesmo da região. As frentes, com oito colunas, medem mais de trinta metros; os lados, com dezessete colunas, medem cerca de setenta; as colunas que ultrapassam dez metros de altura, têm na base quase dois metros de diâmetro. Apesar desse dimensionamento monumental, sua expressão é de absoluta sobriedade e justeza em todas as suas articulações. Enfim, sobriedade e concisão na sua diferenciação hierárquica no contexto geral da Acrópole, uma construção onde recursos e efeitos se combinam numa integridade entre parte e todo, percebida mesmo em seu estágio de ruína. Importante assinalar a espoliação colonialista, praticada pelo Império Britânico, que até hoje mantém no British Museum os frisos e as esculturas de seu frontão, saqueados de seu contexto no século XIX, e que, hoje a Grécia reinvindica seu retorno.

A arte “... alia-se ao pensamento dos filósofos e ao gênio inspirado dos poetas na busca de uma verdade que não está além, mas dentro das coisas e que não se alcança ultrapassando a experiência, mas aprofundando-a e esclarecendo-a. Explica-se também assim o que, aos nossos olhos, poderia parecer um limite da arte clássica: o fato de eleger quase como único objeto a figura humana... o desenvolvimento histórico da arte grega em três períodos: arcaico, do século VII ao VI a. C.; clássico, até a metade do IV a.C.; helenístico, até a metade do século I a.C.” ARGAN 2003 página

Teatro de Dionísio na borda da Acrópole de Atenas, uma 
obra de uma objetividade sintética e única


Por último, um tema da vida grega que não pode estar ausente de qualquer reflexão sobre seus esforços construtivos e civilizatórios é o Teatro Grego, uma manifestação que permanece conosco numa demonstração de transtemporalidade única. O teatro grego teve início em Atenas, na Grécia, por volta de 550 a.C. e surgiu a partir das celebrações realizadas principalmente para o Deus Dionísio. Essa era uma divindade da mitologia grega relacionada às festas, fertilidade e vinho. Nas celebrações Dionisíacas, que duravam cerca de uma semana, as pessoas bebiam, cantavam e dançavam. Com o passar do tempo, as festividades foram evoluindo em organização e elaboração, chegando ao que hoje conhecemos como o teatro com enredo, atores, plateia, encenações, etc... Os dramas, tragédias e comédias gregas possuem uma incrível interligação entre contexto, conteúdo, vestuário, expressões que nos remetem a natureza humana frágil, diante das contingências naturais e humanas da vida. A vaidade, a sedução, a manipulação, a indução, o poder e a dominação intra humana nos demonstram nossa fragilidade enquanto seres naturais, sociais e políticos. Todo conteúdo se dirige de forma singela. direta sóbrea e imediata a demonstrar nossas limitações diante dos fenômenos, dos contextos, das circunstâncias estereotipadas e reais. A representação de nossos personagens, heróis e fantasmas passeia diante de nossos olhos, reunindo o dionisíaco e apolíneo e nos mostrando a fraqueza da luta incessante de poder e de fama. A singeleza e sobriedade da arquitetura dos teatros gregos espelha tudo isso, muitas vezes uma simples encosta encaixa a plateia, numa geometria pura e absoluta, que manipula visibilidade e acústica com uma sabedoria nunca vista. A articulação dessa arte com a cidade, a rua, a quadra e a casa - o urbanismo e a arquitetura - é total, não apenas na tarefa cenográfica, mas nas suas analogias corporais e espaciais, que invariavelmente transformam essas tipologias em estado da alma.

 “ A forma aberta do teatro está ao mesmo tempo em relação com o espaço natural, lugar ideal do mito, e com a vida da sociedade ou da polis: não somente geometriza ou reduz à ordem racional(...), mas cria também o espaço ideal para a manifesta repetição do mito diante da comunidade reunida” ARGAN (2003, página74)

Enfim, a cultura grega testemunha a vinculação entre a democracia, a filosofia, o sagrado e a representação do drama humano com sua construção e materialização da sua territorialidade, espacialidade, urbanidade e habitação em formulações que demonstram como a manipulação de três elementos simples; a coluna, a arquitrave e o frontão se combinam a partir da harmonia, equilíbrio dinâmico, simetria, proporção, sombra e luz constituidores de um lugar. Além dos temas aqui mencionados a aula sobre a Grécia Antiga, ainda fez menção a habitação, e a arte de construir cidades, dois pontos que testemunham a sofisticação dessa sociedade notável.

BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo - A Arte Grega em História da Arte Italiana: da Antiguidade a Duccio volume 1 – Editora Cosac Naif São Paulo 2003

VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo - 

domingo, 30 de janeiro de 2022

As sociedades Pré colombianas, o exemplo do Império Inca na América do Sul


A capital do Império Inca, Cuzco e sua sobreposição de
Patrimônios; pré colombianos e espanhóis

No âmbito da disciplina de História e Teoria da Arquitetura 1, na contextualização das civilizações da antiguidade pré clássica, uma outra sociedade também foi apresentada aos alunos fora do eixo euro-cêntrico, o Império Inca. Uma organização social com alto desenvolvimento tecnológico, que também se articula com um acontecimento que é uma dádiva do planeta, o Vale Sagrado do Urubamba no altiplano dos Andes, assim como as sociedades que se desenvolveram em torno dos rios Tibre, Eufrates e Nilo, no Oriente Próximo. Uma síntese referente a um tempo posterior ao período estudado pela disciplina, mais vinculado ao período da Reforma e da Contra Reforma do Maneirismo europeu, a inserção de uma cultura pré colombiana cumpre o papel de abrandamento da vertente euro cêntrica de nossa matriz arquitetônica e urbanística, buscando a multilateralidade do desenvolvimento cultural. O Império Inca, nos coloca diante de um relato histórico que problematiza a visão centrada numa unidirecionalidade evolutiva e hegemônica da cultura ocidental europeia, questionando e oferecendo a visão de uma diversidade de desenvolvimentos que reforça a ideia de reavaliação da linearidade evolutiva das sociedades humanas. A multipolaridade do desenvolvimento das civilizações humanas, que na verdade não podem ser avaliadas como mais capacitadas ou menos, simplesmente pela manipulação de tecnologias destrutivas, ou de guerra.

"Como sugeriu Hobsbawn, uma das peculiaridades das quais nasce o marxismo de Gramsci está exatamente no fato de ele haver vivido tanto a experiência de uma região extremamente atrasada, marginal e periférica, como a Sardenha, quanto a de uma grande cidade industrial capitalista como Turim." DEL ROIO 2017 página 38

Na verdade, a história e a teoria inferida a partir dela, não é um relato apenas sobre o passado, mas é uma reflexão sobre o nosso presente e o nosso futuro, enquanto identidade, tecnologias e compartilhamentos. Essa trans temporalidade tão presente nas ações de plano e projeto, a partir da lógica de gestão do território, seja na constituição do abrigo, da cidade, ou da região, precisa se debruçar sobre a história a partir dos novos olhares do presente e do futuro. Nosso presente impôs de forma determinante um novo paradigma da adequação entre atividade e produção humanas e os impactos sobre os humores do planeta Terra. Nesse sentido, relatos, narrativas, vestígios e conhecimentos esquecidos pela história estão abertos a apropriações variadas e ricas, capazes de mudar trajetórias e comportamentos. Uma questão central, em nossa contemporaneidade é que o silenciamento dos grupos subalternos ou derrotados pela colonização europeia invisibiliza identidades, tecnologias, conhecimentos, comportamentos e culturas, que devem ser reavaliados e problematizados frente ao novo paradigma. Longe da mistificação romântica ou dos alinhamentos automáticos, o que se pretende para a teoria do plano e do projeto é entender como a manipulação de recursos e dádivas naturais podem trazer o bem viver para o humano, buscando sempre a consciência, sem qualquer traço arrogante, que a sucessão de fatos nos ensina. É sempre bom lembrar, que o que se busca é uma nova forma de interação entre homem e natureza, uma sintonia fina entre ocupação e manipulação do território mais sensível e delicada do que aquela que hoje exercemos.

"Não fiquemos demasiado lisonjeados com nossas vitórias sobre a natureza. Esta se vinga de nós por toda vitória desse tipo. Cada vitória até leva, num primeiro momento, às consequências com que contávamos, mas, num segundo e num terceiros momentos, tem efeitos bem diferentes, imprevistos, que com demasiada frequência anulam as primeiras consequências. As pessoas que acabaram com as florestas na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e em outros lugares para obter terreno cultivável nem sonhavam que estavam lançando a base para a atual desertificação dessas terras, retirando delas, junto com as florestas, os locais de acúmulo e reserva de umidade [...] Os introdutores da batata inglesa na Europa não sabiam que, com o tubérculo farináceo estavam disseminando a escrofulose. E, assim, a cada passo somos lembrados de que não dominamos de modo nenhum a natureza como um conquistador domina um povo estrangeiro, ou seja, de alguém que se encontra fora da natureza - mas fazemos parte e estamos dentro dela com carne sangue e cérebro e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, distinguindo-nos de todas as outras criaturas, somos capazes de reconhecer suas leis e aplicá-las corretamente." (ENGELS, A Dialética da Natureza contracapa Boitempo

Enfim, a sucessão factual da série histórica não nos autoriza a novas arrogâncias e certezas desmedidas, mas demanda um outro pensar, agir e atuar, que não condene ou celebre de forma mecânica e automática os impasses e opções por que passamos, mas nos cobra a conformação de formas de monitoramento e medição constantes que pautem de forma continuada nossa ocupação. O fato, é que a sociedade Inca com um domínio mais apurado de técnicas agrícolas e colheitas muito mais generosas será derrotada pelo Império Espanhol, no massacre da Batalha de Cajamarca, em 16 de novembro de 1532 mostrando-nos que, na verdade, o domínio de artefatos de destruição e guerra (o mosquete e o canhão) determinaram a sua derrota. Apesar da inferioridade numérica da Espanha, pois segundo relatos eram 168 espanhóis, 62 cavalos, vários mosquetes e um canhão, contra 30 mil soldados incas acampados em Pultumarca, nas proximidades da cidade inca de Cajamarca, na região da cordilheira andina (2.720 metros de altitude), no norte do atual Perú, próximo a fronteira do atual Equador. Francisco Pizarro era o espanhol que recebeu a nomeação do rei de Espanha como governador e capitão geral para promover a conquista do Vice Reinado do Perú era então o comandante das tropas espanholas. As armaduras, capacetes e espadas metálicas, os cavalos, os mosquetes e o canhão, artefatos e técnicas de longo desenvolvimento foram confrontados com boleadeiras, arcos e flechas, armaduras de lã de alpaca e ornamentos de ouro e prata. Na verdade, além das fragilidades de suas tecnologias bélicas, havia uma guerra civil em curso no Império Inca entre dois pretendentes ao trono; Atahualpa e Huáscar, filhos do imperador, que reinvindicavam a coroa para si, e que, fragilizaram a resistência a conquista espanhola. Esse silenciamento, ou a supressão das culturas, comportamentos e hábitos dos incas impacta nossa compreensão daquilo que consideramos o patrimônio a ser preservado e referenciado, determinando a unidirecionalidade emburrecedora da colonização. A proteção, preservação e a reavaliação da forma como gerimos a ocupação do território conforma a memória que temos de nós mesmos, sendo importante para nossa identidade.

"O que protegemos ontem é o que temos hoje. O que protegemos hoje é o que teremos amanhã." reflexão apresentada na aula da arqueóloga e professora Mariana Peltry Cabral sobre a elegibilidade do nosso patrimônio a ser preservado, contrapondo as imagens da Igreja setecentista na Serra da Piedade no município de Caeté MG e o sítio arqueológico de Calçoene, de população pré colombina no Brasil, no estado do Amapá. PELTRY 2021

A redenção de Cam (1897) do pintor Modesto
Brocco representa o desejo do Embranquecimento
da população do Brasil

O que a professora Mariana Peltry Cabral nos mostra é que a valoração daquilo que elegemos para ser preservado é de suma importância para a promoção da diversidade dos nossos modus vivendi, dos relatos e narrativas que nos conformam. Em nossa história há uma sucessão interminável de fatos e acontecimentos que foram arbitrariamente apagados, e, que contam formas diferenciadas de apropriação do território. O Quilombo de Palmares, na serra da Barriga, no estado de Alagoas, que representa uma outra forma de gerir um território, e que, é suprimido em 20 de novembro de 1695 com a morte de Zumbi, o que isso representa como Patrimônio para a História do Brasil. O sítio de Bom Jesus de Canudos, no sertão da Bahia, que abrigou a revolta de Antônio Conselheiro, que envolvia 5 mil domicílios e 20 mil pessoas, e que, também foi suprimido pela forças do Estado brasileiro em 1897, na nossa primeira república. Ou, a própria história da escravidão negra no Brasil, que é até hoje apagada e suprimida por nossos representantes conservadores, que desejam embranquecer nossa cultura, nossos hábitos e nossos procedimentos. Todos nos mostram, que a história verdadeira integral, como destacou Antonio Gramsci no Caderno 25 do Cárcere, aquele dedicado ao estudo dos grupos subalternos, no qual está escrito; “...todo traço de iniciativa autônoma por parte dos grupos subalternos deve ser de valor inestimável para o historiador integral.” GRAMSCI 1934 Q25. E, mais a tentativa de caracterizar o outro, o desconhecido, o dominado como bárbaro, que foi tentado de forma recorrente pela historiografia oficial deve ser questionado:

“...Este era o costume cultural do tempo: em vez de estudar as origens de um acontecimento coletivo, e as razões de sua difusão, de seu ser coletivo, isolavam o protagonista e se limitavam a fazer sua biografia patológica, muito frequentemente partindo de motivos não comprovados ou passíveis de interpretação diferente: para uma elite social, os elementos dos grupos subalternos têm sempre algo bárbaro ou patológico” GRAMSCI 1934 Q25

A cantaria Inca de pedra é até hoje um mistério de precisão 
e apuro construtivo

Mas muito longe de qualquer idealização, a estrutura hierárquica da civilização inca não era exemplo no que concerne a dominação de outros povos; o termo Inca significa "governante" ou "senhor", que em quechua era usado para se referir à classe dominante ou à família governante. Os incas em si compunham uma porcentagem muito pequena da população total do império, provavelmente numerando apenas 15 mil a 40 mil indivíduos, mas governando uma população de cerca de 10 milhões de pessoas. A federação desses povos diferenciados e plurais desenvolveram tecnologias de medir o tempo notáveis, muito mais precisas do que as europeias, o que lhes garantia uma manipulação muito mais precisa dos procedimentos de seleção de sementes, plantio, desenvolvimento e colheita, garantindo os excedentes alimentares. Os calendários incas estavam ligados à astronomia e a observação dos astros como constelações, o sol e a lua. Os astrônomos incas entendiam os equinócios, os solstícios e as passagens do zênite, assim como o ciclo de Vênus, a estrela mais brilhante em nossos céus. Eles não previam eclipses, e certamente es espantavam e se maravilhavam com esses acontecimentos. O calendário inca era essencialmente lunissolar, pois dois calendários eram mantidos em paralelo, um solar e outro lunar. Com 12 meses lunares ficam 11 dias aquém de um ano solar completo de 365 dias, sendo que os responsáveis pelo calendário tinham que ajustá-lo a cada solstício de inverno. Cada mês lunar era marcado com festivais e rituais, tais procedimentos ainda representam mistérios para a nossa sociedade contemporânea, havendo hipóteses de que tais calendários - lunares e solares combinados - acabavam por representar maior sintonia com os ciclos do milho, da batata, da quínua, ou das suas criações, Lhamas e Alpacas. Aparentemente, os dias da semana não eram nomeados e os dias não eram agrupados em semanas. Da mesma forma, os meses não eram agrupados em estações. O tempo durante o dia não era medido em horas ou minutos, mas em termos de distância percorrida pelo Sol ou de quanto tempo levava para uma tarefa de plantio e de pastoreio.

"Eis por que a categoria de "subalterno" foi retomada  e relançada, e encontrou sucesso crescente a partir dos países da "periferia" capitalista, nos quais a contradição capital/trabalho se enriquece e se complica por meio de muitas determinações, mesmo distantes daquela da subordinação salarial." DEL ROIO 2017 página 39


Aspecto Geral de uma rua de Cuzco, 
a arquitetura colonial ibérica sobre a 
base da cantaria Inca

Os incas fizeram muitas descobertas na medicina, eles realizavam trepanações bem-sucedidas, cortando orifícios no crânio para aliviar o acúmulo de fluido e a inflamação causada por ferimentos na cabeça. As taxas de sobrevivência eram de 80-90%, em comparação com cerca de 30% antes dos tempos incas. Os incas reverenciavam a planta da coca como sagrada e mágica, pois o mascar de suas folhas eram usadas em quantidades moderadas para diminuir a fome e a dor durante o trabalho, sendo também muito usadas principalmente para fins religiosos, nos festivais do solstício e em ritos de saúde. Possuíam também um complexo sistema de contabilidade ligado ao controle da produção de bens Agrários e Pastoris, que era o Quipu Inca, uma espécie de ábaco, feito a partir de uma sucessão de noz em fios de tecido. A tecelagem e a confecção de roupas a partir da lã de Alpaca e Lhama eram muito desenvolvidas, e até hoje ainda movimentam teares e apetrechos compartilhados pelas populações quechua e aymara no Equador, Perú e Bolívia. A alvenaria de pedra das cidades incas encontradas pelos espanhóis e ainda hoje presentes em cidades como Cuzco, Olantaitambo ou Machu Pichu representam um mistério com relação a forma do corte e seu acabamento final. Muitas pedras apresentam várias arestas, assentadas sem argamassa onde não é possível se quer se inserir uma lâmina fina de faca moderna. Há teorias que apontam para a maior adequação desses procedimentos construtivos às instabilidades geológicas dos Andes, inclusive o terremoto de 1986, na cidade de Cuzco revelou que o Convento dos Franciscanos estava sobre o Antigo Templo de Coricancha em homenagem ao Sol, e que, abriu um amplo campo de explorações arqueológicas na antiga capital Inca. Uma das imagens mais marcante das cidades do Vale Sagrado, na região de Cuzco, que receberam edificações ibéricas é justamente esta sobreposição de processos construtivos. Uma expressão particular e única do maneirismo ibérico, que combina uma interação, dominação e sobreposição mostrando-nos que no campo da cultura a fusão visual dos elementos é recorrente. Ao final, uma síntese única e particular, que numa analogia por exemplo, com uma escola de pintura, a Cuzquenha, que ocorre ao mesmo tempo e lugar, mostrando-nos que o hibridismo prevaleceu. A combinação de um lirismo com uma religiosidade exagerada e excludente acaba nos demonstrando um traço único de uma América Latina dramática, que aparece eternamente envolta num sonho utópico, que nos traga de novo a ingenuidade dos povos primitivos.

Os alunos são apresentados a obras e esforços construtivos notáveis, como; a síntese da Cidade de Cusco, o umbigo do mundo, a fortaleza de Sacsuahaman, as ruínas de Pessac, a cidade de Olantaytambo e seus mistérios cósmicos e a interação entre sítio arqueológico e vida contemporânea, culminando em Machu Pichu, um lugar que nos arrebata, mostrando-nos uma síntese geográfica inusitada de onde parece emergir uma conexão cósmica entre humanidade e planeta. O Vale Sagrado, região do hinterland da capital Inca de Cuzco, parece nos mostrar uma estruturação única e sensível de um lugar humano. As lições da cultura inca e de outros traços abandonados pela exclusidade medrosa do catolicismo espanhol e português, parecem ainda nos mostrar que a interação entre técnicas e comportamentos ainda está para se realizar. Tudo isso, nos mostra de forma contraditória, as imensas potências presentes na estruturação do "Genius Locci", categoria da fenomenologia do arquiteto Christian Norberg Schulz, presente em cada local de forma isolada e também no seu conjunto. No século XX, um arquiteto dos EUA, de família imigrante de origem na Rússia, Loui I. Khan, nos perguntou que; "precisamos parar para ouvir, aquilo que o lugar quer ser". Essa condição aparece de forma indelével, naqueles que visitam esses lugares - Cuzco, Sacsuhuaman, Pessac. Ollantaytambo e Machu Pichu - nos mostram ainda de forma velada e subliminar como essa condição pode ser alcançada pela cultura humana.

BIBLIOGRAFIA:

CABRAL, Mariana Peltry - Aula Como valorizamos nosso patrimônio? - História e Teoria da Arquitetura 1 2021-1 EAU-UFF
DEL ROIO, Marcos (org.) - Periferia e Subalternidade - USP São Paulo 2017
ENGELS, Friedrich - A Dialética da Natureza - Boitempo São Paulo 2018
GRAMSCI, Antônio, tradução  - Cadernos do Cárcere, volume 25 -