sábado, 5 de março de 2022

A arquitetura do Império Romano

Mapa da Pax Romana

Seguindo a sequência histórica da disciplina de Teoria e História da Arquitetura 1 (THArq1) da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF), da qual sou professor, chegamos ao Império Romano e sua arquitetura, urbanismo e sua gestão do território. Uma das civilizações que demonstrou um enorme apuro no esforço construtivo, e articulou um território imenso, o Império Romano, que ia da península Ibérica até a borda da Índia, a partir de obras como estradas, aquedutos, pontes e fortificações. As origens da cultura de Roma são muito antigas, sua fundação remonta a 756 a.C., e os registros da cidade antecedem ao Império Grego no mar Mediterrâneo e nos apresentam uma certa disponibilidade inicial de interação franca com as mais diversas culturas. Os etruscos, que dominaram a região da antiga Roma a partir de 616 a.C. sentiam profunda afinidade pelas manifestações da Grécia Antiga, que dominava o sul da península itálica, com vários entrepostos coloniais. Ao norte estavam os povos bárbaros, gauleses e normandos, que dominavam a região, a partir do vale do Rio Pó, a partir dessa diversidade de culturas, que se constituirá o imenso império, que se estabiliza na República Romana, a partir de 416 a.C.. Amplo período, que na verdade foram identificados por alguns historiadores como a Pax Romana, desde 27 a.C. a 180 d.C., que constroe a coesão de um território imenso, que no limite ocidental envolve os atuais países da Inglaterra, Espanha e Portugal, passando pelo norte da África, Egito, Oriente Próximo, e chegando aos atuais Irã e Iraque. Na verdade, o Mar Mediterrâneo, aquilo que os romanos chamavam de "Mare Nostrum" era a grande coesão dessa imensa região, que articulada por estradas, pontes e cidades, constituíram uma rede coesa de impostos e taxações, que fizeram a fortuna da cidade de Roma. Como em todo império, existia a força coercitiva das legiões romanas, às opressões e revoltas dos diferenciados povos escravizados, mas também houve a disseminação de uma cultura e de uma arte singular e pragmática. 

“A Itália antiga não tinha unidade étnica nem cultural: era um mosaico de povos diversos pela origem, pelas tradições, pelos costumes e pela língua. Ao norte do Pó, já era a terra dos bárbaros, gauleses e germanos; o sul era um pedaço da Grécia. A única cultura autóctone, ainda que fortemente influenciada pela arte grega, era a etrusca, nas regiões centrais. Mesmo, a cultura romana, que acabara por dominar toda a península, tem suas raízes na grega, mas a combina, em seu desenvolvimento histórico, com a tradição etrusca e a renova, acolhendo grandemente as infiltrações bárbaras.” ARGAN, 2003

Nesse contexto, de forte referência a cultura grega, toda a arte de Roma reproduz as ordens presentes em suas colunas, em seus capitéis, a sistematização dessas ordens é realizada por um tratado, Os dez livros da Arquitetura, ou simplesmente De Arquitetura, de um arquiteto-engenheiro militar Marcos Vitrúvio Polião, que viveu no século I a.C. O tratado é dedicado ao imperador Augusto, e inaugura a tradição da arquitetura de vinculação com o poder, com o patronato, o papado, devido ao imenso dispêndio de recursos que a arte de construir envolve.  Vitrúvio, no único tratado que nos chegou graças a Idade Média, será o formulador da classificação da linguagem clássica da arquitetura grega, com a presença de apenas uma coluna originária da península itálica, a Toscana. Na verdade uma derivação da mais sóbria das colunas gregas, a Dórica, que parece nos mostrar o espírito prático da civilização de Roma, que objetiva e sintetiza seu decoro, se desfazendo até das caneluras.

 “Construído sobre um alto pedestal, com colunas maciças e baixas, o templo etrusco evocava longinquamente as formas de um templo dórico; mas era mais largo do que longo e dividido em duas partes, das quais a anterior era aberta e de pórticos, enquanto a outra continha uma cela tríplice. As colunas ‘toscanas’ não tinham caneluras e o capitel era constituído por um anel equino fortemente comprimido.” ARGAN 2003 página 163


Mas o elemento síntese da arquitetura romana, não é mais a coluna, mas o Arco, uma arquitrave em arco pleno no qual o centro do raio corresponde ao meio do inter-colúnio ou do vão a ser vencido, a chave ou fechamento, é a pedra ou o tijolo colocada no vértice que confere toda a estabilidade a estrutura. Uma composição estrutural, que trabalha a partir dos conceitos de encaixe de posição e reciprocidade mútua, que desembocará como uma linguagem em outros elementos mais complexos, tais como; abóbodas, abóbadas de berço, abóbodas cruzadas. Manipulados primeiro pelos etruscos e depois pelos romanos, farão a fortuna da sua arquitetura, configurando espacialidades como naves centrais, laterais, absides, etc..., que disponibilizam a solução da curva, libertando-nos da mera reta. As imensas possibilidades oferecidas por esse elemento, o Arco, e suas infinitas combinações oferecerá a arquitetura, as infra estruturas, as estradas uma rede construtiva de criatividade.

“Nos muros e nas portas urbanas revela-se o gênio construtivo dos etruscos, mestres no entalhar e no compor encaixes a macia pedra local; sobre o princípio do encaixe e da recíproca sustentação dos blocos funda-se o sistema da cobertura em arco e abóboda que constitui, na ordem da técnica construtiva, o caráter notável da arquitetura etrusca e tornar-se-á, também na ordem estética, o tema base da arquitetura romana.” ARGAN 2003 página163

O Coliseu de Roma

A intencionalidade, a proporção entre elementos e uma representação da organização das instituições humanas se desenvolvem, sem deixar de ter uma certa monumentalidade dominadora, que assinala a centralidade de Roma, a cidade eterna. Ritos, mitos e racionalidade se fundem na expressão de uma civilidade com hábitos particulares, que constituem-se em edificações concretas como; o Arco Triunfal, o Fórum, a Basílica, as Termas, o Anfiteatro, os Aquedutos, as Estradas, as Pontes. O edificar, a base física e material da sociedade; a cidade, seus confortos, suas infra estruturas passam também a espelhar a civilidade ou a cidadania do homem, como construções mútuas e retro alimentadas. As construções públicas expressam e concentram uma série de práticas e hábitos, que espelham um Bem Viver,a cidade romana garante o acesso a confortos, comodidades e asseamentos higiênicos jamais pensados. A urbs e a civitá, construções e comportamentos humanos parecem estar interligados numa didática mútua, num desenvolvimento compartilhado e interdependente. A construção da personalidade do cidadão é impulsionada, dependente e mutuamente interligada com a estrutura física do espaço construído pelo mesmo cidadão, como numa rua de mão dupla, não só na cidade mas no território que vivencia. A grande cidade, a fuga para os idílios das Villas do interior, as obras de infra estrutura, tais como; aquedutos, pontes e estradas, a compreensão do território vivenciado conformam uma consciência particular e única na história da humanidade.

"O texto do arquiteto e engenheiro Marco Vitrúvio Polião, ou só Vitrúvio foi escrito no século I a.C., e foi redescoberto pelo Renascimento no século XVI. Um texto seminal da Antiguidade Clássica, pode ser considerado como o texto fundador de um entendimento moderno da arquitetura, da construção e da cidade. “Em meados do século XVI o rei Dom João III, consciente da importância do tratado de Vitruvio para a renovação da cultura portuguesa da construção, encomendou a sua tradução ao célebre matemático Pedro Nunes... Segundo Vitrúvio, a arquitetura nasce da fabrica e da ratiocinatio. A primeira consiste na experiência que o arquiteto vai adquirindo com o acto de construir. A segunda é a teoria que se vai constituindo como resultado da prática.”  MACIEL 2006 páginas 7

As Termas de Caracala, a "commoditas" romana

A arquitetura nasce portanto da manipulação mecânica de uma materialidade concreta e específica que se articula numa espacialidade, que demanda uma intencionalidade antecipadora alcançada pela racionalidade humana. Uma síntese complexa entre artes mecânicas e artes liberais, ainda não conscientemente explicitada pela antiguidade clássica, mas já implicitamente presente, e, que será alcançada apenas no Renascimento italiano. O Tratado de Vitrúvio é representativo desse espírito, aonde a boa cidade, o bem viver, a vida com o diálogo, se somam no sentido de humanizar o homem torná-lo civilizado e disponível para a vida pública, que mira o interesse de todos. A Grécia no espaço da Ágora mostra-nos como o diálogo, o discurso convincente e argumentativo persuade a comunidade, Roma terá o Fórum, a Basílica como espaço da construção também do diálogo e da justiça, que passa a ser proclamada por uma lógica da impessoalidade. Apesar do militarismo romano, que perpassa a história de todo o Império, as legiões, que voltando de campanhas vitoriosas, volta e meia usurpam o poder civil, Roma terá na justiça a representação de um código escrito consolidado que regula a atuação das pessoas. São um exemplo dessa mentalidade, os escritos do Cônsul Marco Túlio Cícero (106a.C. - 43a.C.), redescobertos por Francisco Petrarca (1304-1374) no pré renascimento italiano nos mostram a constituição do interesse comum, a res publica. Também o tratado de Vitrúvio nos mostra, o que significa edificar uma linguagem clássica, profundamente vinculado aos gregos, mas também a commoditas (utilidade e comodidade) romana, que procura desvendar a eleição da materialidade, dos procedimentos construtivos, da escolha do lugar, da adequação da edificação ao seu contexto, etc.

“Dependente, pelo menos em parte, de fontes gregas, demonstra, como se quisesse traduzir, a grande lição clássica em uma série de regras quase gramaticais, aplicáveis a todo tipo de discurso construtivo e a todas as exigências ditadas pelo sentido prático, pela commoditas romana. Vitrúvio enquadra a arquitetura em toda a problemática técnica e urbanística, que vai da escolha e da elaboração dos materiais aos procedimentos construtivos, à escolha do lugar, à adaptação do edifício ao terreno, à paisagem e à decoração... distingue os tipos dos edifícios com relação as suas funções práticas e representativas; descreve até mesmo a figura moral e profissional do arquiteto, cuja a função é considerada essencial à estrutura do Estado. Demasiado romano para desaprovar a tradição pátria, reduz a “ordem” também a arquitetura etrusca, toscana, confirmando, assim, sua intenção de inserir a experiência estética grega na praxe construtiva etrusca e romana. Como gramático e filólogo, Vitrúvio deduz da viva linguagem da arquitetura grega uma morfologia e uma sintaxe, mas, exatamente porque as formas gregas se tornam uma espécie de léxico, podem adaptar-se a uma arquitetura que deseja ser sobretudo discurso, desenvolvimento articulado de elementos representativos e funcionais no contexto de uma cidade.” ARGAN 2003 página

A Basílica de Constantino

A ânsia pragmática de Roma se expressa na sanha classificatória de Vitrúvio, que se manifesta também na ordenação das funções edilícias, e na sua disposição no território, ou inserção urbana, que lançam um conceito fundamental para a estruturação projetual, a ideia de "Tipo". O planejamento e a projetação entenderá o conceito de "Tipo", como algo diferenciado do "Modelo", que portanto seria uma ordenação esquemática que sintetizaria a distribuição arquitetônica no contexto, no terreno, no lugar mostrando-nos constâncias históricas do construir humano. Como, uma gênese da forma, um processo de esquematização das proporções entre espaço edificado e não edificado; a casa em torno de um pátio, a torre, a evolução do Templo Paleo-cristão a partir da Basílica Romana, e outros. A lógica do Tipo envolve também diversas escalas e interrelações numa relação de proporção esquemática que envolve a função prática e contemplativa da edificação, o construído e o não construído, como formas em interação dialética, que se constituem mutuamente. A metodologia do "Tipo" só será plenamente sistematizada pelos arquitetos do Iluminismo, mas ela já se apresenta de forma implícita no Tratado de Arquitetura, os Dez Livros de Vitrúvio.

“Diversamente do cânon grego, que consiste em um sistema de relações ou proporções ideais, o tipo é um esquema de distribuição de espaços e partes em relação à função prática ou representativa do edifício. O tipo, mesmo conservando o esquema, permite as mais amplas possibilidades de variantes na determinação formal e na decoração.” ARGAN 2003, página

O cotidiano de uma cidade nova
do Império Romano

Enfim, uma forma de pensar que transita entre as várias escalas do pensamento construtivo, desde a concepção geral e abrangente da disposição edificatória até o detalhe do decoro, pensando-os como uma unidade inseparável e coesa. A partir dessas reflexões fornecidas pelo Tratado de Vitrúvio e as leituras de Giulio Carlo Argan sobre esse texto fundador, a aula procurou apresentar numa ordem classificatória os esforços da Arquitetura Romana. Entendendo cada um desses temas como inseridos num determinado contexto pré-existente, que desvendava e explicava a obra: os Arcos Triunfais, os Templos, os Anfiteatros, a Basílica, o Circo Máximo, as Residências e a Insulae de Roma, as Grandes Construções como Aquedutos e Pontes. Até chegar a uma fictícia Cidade Romana de colonização do território, que na Europa se apresenta em grande número e em grande variedade de ocorrências, tais como; Paris (Lutécia), Londres (Londum), Barcelona (Barce), e outras. Na verdade, esta referência a uma cidade nova de colonização romana foi retirada do livro de David Macaulay, que tem como título; Construção de uma Cidade Romana. Ele nos mostra que a configuração da cidade é um elemento central no processo de colonização, dominação, controle e doutrinação da cultura de Roma frente aos diferentes contextos nos quais se insere. A cidade é um elemento fundamental na articulação do imenso território do Império de Roma, marcando o lugar e mostrando nas suas especificidades o módus vivendi dessa cultura

BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo – História da Arte Italiana – da antiguidade a Duccio vol.1 - Cosac & Naif São Paulo 2003
MACAULAY, David - Construção de uma Cidade Romana - Editora Martins Fontes São Paulo 1989
MACIEL, Justino – Tratado de Arquitetura, Decem Libri – Editora Universitária, Lisboa 2006

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A Arquitetura grega

A costa entrecortada da Grécia, cheia de baías,
impulsionadora do comércio e da interação entre povos

No contexto da disciplina Teoria e História da Arquitetura 1 (THArq.1), após abordarmos os períodos; a Pré História, a Antiguidade do Oriente Próximo (Mesopotâmia e Antigo Egito), uma Civilização Pré Colombiana (o Império Inca), nos debruçamos sobre a Grécia. Civilização e cultura, que na verdade lançarão as bases daquilo que entendemos como a cultura ocidental euro-cêntrica, que por diferenciados caminhos desembocará no Renascimento, que a revisita como exemplo e paradigma comportamental. Se comparada com a Antiguidade do Oriente Próximo e a Civilização Pré Colombiana não se identifica no território da Grécia, nenhuma dádiva natural, como foram caracterizados os rios Tigre, Eufrates, Nilo e Urubamba, que garantiam excedentes de produção agrícola e de pastoreio, que fizeram a fortuna destas civilizações da antiguidade. Mas, o que há nesse espaço-território, uma península entre os Mares Egeu e  Jônio, no Mediterrâneo, que induz essa mudança ou possibilita a emergência de uma sociedade sofisticada, cosmopolita e inventora da democracia. Não há mais a generosidade-dádiva de um grande rio, mas há uma costa entrecortada de baías e portos que se lançam ao mediterrâneo, uma configuração que fomentará a navegação e o comércio. Há também uma cultura das oliveiras e uvas, que gera o azeite, o vinho e o pastoreio de rebanhos de caprinos e bovinos, que fundam uma nova maneira de interação com o outro, o estrangeiro, não mais baseada na sua supressão, mas na sua colonização comercial. A cidade assume um protagonismo central, pois é nela que é representada a democracia determinando personalidades de cidadãos diferenciados, entre por exemplo, a militarizada Esparta e a a cultura civil de Atenas.

 “O que vemos surgir na Grécia, nesse contexto? Algo de totalmente novo: a ideia de que só existe sociedade humana digna desse nome se essa soberania de valor quase religioso se achar despersonalizada e, para falar como os gregos, situada no centro, ou seja, se ela se tornar uma coisa comum. Só pode haver vida social se todos os membros de uma comunidade tiverem direitos iguais para gerir os interesses comuns do que é também um modo de instaurar uma diferença entre o público e o privado.” VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo

Me parece que segue sendo um mistério, como se processou essa transição entre as autocracias orientais e a cultura helenística democrática e cosmopolita, que desenvolve maior aceitação da diferenciação e da alteridade entre semelhantes. Os chamados dóricos descendem de linhagens indo-europeias, que se instalaram na Península da Ática por volta de 2.000 a.C., vindos do Cáucaso, interagindo com assírios, egípcios, fenícios e cretenses, naquela parte do Mediterrâneo. Certamente, a cultura cretense, anterior ao esplendor grego do século V a.C. influenciou fortemente essa maneira de agir e comportar do povo grego. Mas, há um período obscuro entre a Grécia dos monarcas entre 1450 e 1200 a.C. e o século 9 a.C., quando a atividade econômica e a cultura retornam com força e com uma nova forma de encarar o poder.

“Em todas as grandes civilizações que precederam a civilização grega, e de que ela foi tributária (assírio-babilônica, egípcia, fenícia, cretense), não se tinha visto nada comparável. Os chamados dóricos, isto é, indo-europeus que, na aurora do 2o milênio a.C., instalaram se na Grécia continental vindos talvez do Cáucaso, impregnaram-se da cultura de civilizações mais avançadas, em particular a dos cretenses [...] arquivos palacianos que nos permitem abarcar o que era a Grécia entre 1450 e 1200 a.C., uma Grécia de monarquias que, em certos aspectos, lembrava os reinos orientais, o rei, "anax", controla o conjunto da vida social, econômica e mesmo religiosa, ao que parece. Esse período micênico deu lugar ao que chamamos os séculos obscuros: os reinos desaparecem, a escrita também, os contatos com o Oriente, a densidade demográfica e a superfície cultivada diminuem. E depois o comércio retorna, lá pelo século 9o a.C. O que aparece então, e dessa vez o sabemos, afora os documentos arqueológicos, graças à época homérica, à "Ilíada" e å "Odisseia" (difícil datar, pois se trata de uma tradição oral que remonta talvez a 1250 a.C., mas cujo texto só foi fixado no século 6o a.C.), é um mundo marcado por uma nova maneira de considerar o poder. “VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo

Ágora de Assos

Há uma espacialidade, que representa essa forma de pensar e de agir dos gregos, a Ágora, na verdade um espaço vazio descoberto limitado por uma continuidade de "stoas", arcadas sombreadas em dois pavimentos, que o contornam, e que abrigam o caminhar e o diálogo, muitas vezes controverso entre seus cidadãos. Esse espaço, não construído, sem teto, a praça ou mercado, nada mais é de que o público, algo que pertence a todos enquanto dádiva auto-construída, que representa o conflito, a persuasão, o convencimento e a possibilidade de acordo, na manutenção da diversidade. Um espaço, que em Atenas está logo abaixo da Acrópole, um outro lugar do culto da divindade da cidade, uma religião e um culto que conforma a identidade do cidadão ateniense, que entende o compartilhamento do sagrado com um valor estratégico de coesão. Mas essa cultura tão peculiar e específica volta e meia se envolveu com uma certa prepotência, advinda dessa mesma forma de ser, e na verdade, dependeu de outras culturas para garantir sua permanência, e seu renascimento. Esse contínuo reaparecer muitas vezes veio da veneração dessa forma de agir e pensar, que outras culturas identificaram nela; romanos, árabes, cristãos, humanistas, germânicos, anglo saxões. Sem dúvida, este registro histórico foi constantemente revisitado e venerado, como um acontecimento na história da humanidade, capaz de ser revivido pelos mais diferentes lugares e pensares.

"Claro, tudo mudou desde então, o espaço, o tempo, a autoconsciência, a memória, as formas de raciocínio... Mas é o homem grego que está na origem dessa espetacular evolução [...] o mundo de onde viemos [...] Foi, aliás, por intermédio da cultura árabe que a Grécia sobreviveu a si mesma na Idade Média, antes de ser redescoberta pela Europa. Como se vê, o caudal do helenismo seguiu todo tipo de meandros, mas ressurgiu, periodicamente.“ VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo
A Acrópole de Atenas, lugar em que a disposição dos 
edifícios é estruturada por complexos traçados, numa clara 
intenção de reunião entre natureza e cultura

A composição arquitetônica, tanto da cidade sagrada a Acrópole, quanto o espaço das assembleias, a Ágora, se utiliza e se reduz a poucos elementos, que passam a ser estudados como entidades quase independentes, a Coluna, a Arquitrave, e o Frontão. O sistema de junção entre eles é o trilítico, o esforço talvez mais simplificado de vencer um vão, que determina a presença do ritmo, da proporção, dos claros e escuros, das sombras e da luz. Elementos que sinalizam uma clara e objetiva linguagem, a todos acessível, entre construção e usuários, que pode ser resumida a um dualismo entre; monumentalidade (sagrado) e cotidianeidade (civilidade). Essa objetividade e simplificação da linguagem construtiva alcança uma universalidade de comunicação, um cosmopolitismo, onde qualquer estrangeiro compreende as suas mensagens de forma imediata. Na verdade, a integração entre o hábito geral da sociedade e suas construções trabalha nessa simplificação com a sofisticação e o aprimoramento de relações abstratas e complexas, tais como; ordem, simetria, proporção, harmonia, ritmo, claro e escuro. A ordenação dessas relações abstratas nascem da contemplação do natural, em nítida disputa com a vida humana, que constantemente afirma e desafirma sua artificialidade, se aproximando e se distanciando do antropoformismo. 

“Sim, mesmo nas constituições arcaicas do século 7o a.C. há uma "boulé", uma assembléia do povo, que delibera sobre o "cratos", o poder, para fazer isso ou aquilo. Mas não se trata de uma democracia, senão de uma aristocracia guerreira. O que ocorre em seguida? A partir do século 6o a.C. em Atenas, esse grupo restrito de eleitos que tem o direito à palavra na assembleia amplia-se com as reformas de Sólon e sobretudo as de Clístenes: vemos surgir então a ideia de que todos os que nasceram atenienses, os cidadãos, têm direitos iguais de participar na coisa política.” VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo

Traçados reguladores, que definem a posição das edificações
e suas visadas, apenas a partir da porta do Propileu


A disposição das edificações na Acrópole de Atenas segue uma complexa lógica, que articula o caminhar humano numa subida de colina, com a descoberta e o desvelamento progressivo da hierarquia entre cada um deles, numa sequência visual, que só é inteiramente compreendida na integridade do processo. O caminhar e o edificado trabalham num complexo sistema de enquadramentos, sucessivos e múltiplos, no qual o usuário e a vivência concreta da espacialidade parecem construir experiências sempre inusitadas. A subida para a Acrópole de Atenas, e também sua descida parecem demonstrar, que a sequência vivida será sempre uma nova descoberta, num sentido e no outro, que na verdade, não se restringe apenas as suas edificações, mas aos espaços vazios entre edifícios, e também às vistas que proporciona da cidade indiferenciada. Estamos diante de um fato construído, penso que pela primeira vez na história humana, que reúne, colina, edificações, vazios entre edificações, vistas da cidade da acrópole e para a acrópole que constroem uma estabilidade dinâmica só encontrada naqueles lugares mágicos. Uma forma de articular o humano, ao cosmos natural, que vai muito além do visual, pensando na vivência da efetiva espacialidade, - visual, táctil, epitelial e corporal - a partir de um observador-usuário caminhante, que experimenta uma sucessão de enquadramentos tão ricos e sempre inusitados, que nos obrigam a pensar sobre a intencionalidade do fazer humano. Livre e precisa, mas em diálogo com qualquer "contingência acidental".

“As próprias leis do Estado tem seu fundamento nas leis naturais; e ‘natural’ é o fundamento da lógica e da ciência, da moral e da religião. Mas nem por isso a vida é equilíbrio imóvel, estagnação;  é antes aspiração contínua a uma condição ideal, de perfeita liberdade natural. Por esse ideal de liberdade a Grécia combaterá longamente o império Persa, última forma do obscuro despotismo asiático; e essa longa luta histórica nada mais será do que o resultado da mítica luta de liberação da consciência dos opressivos terrores do mundo pré-histórico e proto-histórico com suas ameaçadoras potência sobrenaturais. Dessa contínua luta, mítica e histórica, pela libertação da consciência e pelo límpido conhecimento do real, a arte figurativa é, mais ainda do que um testemunho, um fator essencial. Concebida como o mais puro e perfeito dos fenômenos naturais, revela na clareza de suas formas a forma ideal da natureza na sua essência universal, que está além de qualquer contingência acidental ” ARGAN 2003 página.

O Parthenon na Acrópole, hierarquia, monumentalidade e 
sobriedade, apesar de seu estado ruína

Nesse contexto, o Parthenom se insere como edificação hierarquicamente mais importante, dominando e se debruçando sobre a colina da Acrópole, uma construção que define seus limites a partir de uma colunata contínua, que combina; correções óticas, harmonia, simetria, ritmo, dois frontões, luz e sombras. Essa delimitação entre exterior e interior, marcada por breves degraus e sem a presença de paredes contínuas, com a presença da colunata de tamanho monumental determina uma continuidade anunciadora e preparatória. Sua construção iniciou-se em 448 a.C., logo depois da paz com a Pérsia, com projetos de Calícrates e Ictino, que manipularam proporções grandiosas e esforços construtivos inusitados até então. O grande templo, de mármore, enquadrado na ordem dórica, por Vitruvio vários séculos depois surge sobre uma pequena base alta, chamada de  Estilobata na cota mais alta da Acrópole, visível de qualquer parte da cidade, e mesmo da região. As frentes, com oito colunas, medem mais de trinta metros; os lados, com dezessete colunas, medem cerca de setenta; as colunas que ultrapassam dez metros de altura, têm na base quase dois metros de diâmetro. Apesar desse dimensionamento monumental, sua expressão é de absoluta sobriedade e justeza em todas as suas articulações. Enfim, sobriedade e concisão na sua diferenciação hierárquica no contexto geral da Acrópole, uma construção onde recursos e efeitos se combinam numa integridade entre parte e todo, percebida mesmo em seu estágio de ruína. Importante assinalar a espoliação colonialista, praticada pelo Império Britânico, que até hoje mantém no British Museum os frisos e as esculturas de seu frontão, saqueados de seu contexto no século XIX, e que, hoje a Grécia reinvindica seu retorno.

A arte “... alia-se ao pensamento dos filósofos e ao gênio inspirado dos poetas na busca de uma verdade que não está além, mas dentro das coisas e que não se alcança ultrapassando a experiência, mas aprofundando-a e esclarecendo-a. Explica-se também assim o que, aos nossos olhos, poderia parecer um limite da arte clássica: o fato de eleger quase como único objeto a figura humana... o desenvolvimento histórico da arte grega em três períodos: arcaico, do século VII ao VI a. C.; clássico, até a metade do IV a.C.; helenístico, até a metade do século I a.C.” ARGAN 2003 página

Teatro de Dionísio na borda da Acrópole de Atenas, uma 
obra de uma objetividade sintética e única


Por último, um tema da vida grega que não pode estar ausente de qualquer reflexão sobre seus esforços construtivos e civilizatórios é o Teatro Grego, uma manifestação que permanece conosco numa demonstração de transtemporalidade única. O teatro grego teve início em Atenas, na Grécia, por volta de 550 a.C. e surgiu a partir das celebrações realizadas principalmente para o Deus Dionísio. Essa era uma divindade da mitologia grega relacionada às festas, fertilidade e vinho. Nas celebrações Dionisíacas, que duravam cerca de uma semana, as pessoas bebiam, cantavam e dançavam. Com o passar do tempo, as festividades foram evoluindo em organização e elaboração, chegando ao que hoje conhecemos como o teatro com enredo, atores, plateia, encenações, etc... Os dramas, tragédias e comédias gregas possuem uma incrível interligação entre contexto, conteúdo, vestuário, expressões que nos remetem a natureza humana frágil, diante das contingências naturais e humanas da vida. A vaidade, a sedução, a manipulação, a indução, o poder e a dominação intra humana nos demonstram nossa fragilidade enquanto seres naturais, sociais e políticos. Todo conteúdo se dirige de forma singela. direta sóbrea e imediata a demonstrar nossas limitações diante dos fenômenos, dos contextos, das circunstâncias estereotipadas e reais. A representação de nossos personagens, heróis e fantasmas passeia diante de nossos olhos, reunindo o dionisíaco e apolíneo e nos mostrando a fraqueza da luta incessante de poder e de fama. A singeleza e sobriedade da arquitetura dos teatros gregos espelha tudo isso, muitas vezes uma simples encosta encaixa a plateia, numa geometria pura e absoluta, que manipula visibilidade e acústica com uma sabedoria nunca vista. A articulação dessa arte com a cidade, a rua, a quadra e a casa - o urbanismo e a arquitetura - é total, não apenas na tarefa cenográfica, mas nas suas analogias corporais e espaciais, que invariavelmente transformam essas tipologias em estado da alma.

 “ A forma aberta do teatro está ao mesmo tempo em relação com o espaço natural, lugar ideal do mito, e com a vida da sociedade ou da polis: não somente geometriza ou reduz à ordem racional(...), mas cria também o espaço ideal para a manifesta repetição do mito diante da comunidade reunida” ARGAN (2003, página74)

Enfim, a cultura grega testemunha a vinculação entre a democracia, a filosofia, o sagrado e a representação do drama humano com sua construção e materialização da sua territorialidade, espacialidade, urbanidade e habitação em formulações que demonstram como a manipulação de três elementos simples; a coluna, a arquitrave e o frontão se combinam a partir da harmonia, equilíbrio dinâmico, simetria, proporção, sombra e luz constituidores de um lugar. Além dos temas aqui mencionados a aula sobre a Grécia Antiga, ainda fez menção a habitação, e a arte de construir cidades, dois pontos que testemunham a sofisticação dessa sociedade notável.

BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo - A Arte Grega em História da Arte Italiana: da Antiguidade a Duccio volume 1 – Editora Cosac Naif São Paulo 2003

VERNANT, Jean Pierre – Os gregos inventaram tudo - 

domingo, 30 de janeiro de 2022

As sociedades Pré colombianas, o exemplo do Império Inca na América do Sul


A capital do Império Inca, Cuzco e sua sobreposição de
Patrimônios; pré colombianos e espanhóis

No âmbito da disciplina de História e Teoria da Arquitetura 1, na contextualização das civilizações da antiguidade pré clássica, uma outra sociedade também foi apresentada aos alunos fora do eixo euro-cêntrico, o Império Inca. Uma organização social com alto desenvolvimento tecnológico, que também se articula com um acontecimento que é uma dádiva do planeta, o Vale Sagrado do Urubamba no altiplano dos Andes, assim como as sociedades que se desenvolveram em torno dos rios Tibre, Eufrates e Nilo, no Oriente Próximo. Uma síntese referente a um tempo posterior ao período estudado pela disciplina, mais vinculado ao período da Reforma e da Contra Reforma do Maneirismo europeu, a inserção de uma cultura pré colombiana cumpre o papel de abrandamento da vertente euro cêntrica de nossa matriz arquitetônica e urbanística, buscando a multilateralidade do desenvolvimento cultural. O Império Inca, nos coloca diante de um relato histórico que problematiza a visão centrada numa unidirecionalidade evolutiva e hegemônica da cultura ocidental europeia, questionando e oferecendo a visão de uma diversidade de desenvolvimentos que reforça a ideia de reavaliação da linearidade evolutiva das sociedades humanas. A multipolaridade do desenvolvimento das civilizações humanas, que na verdade não podem ser avaliadas como mais capacitadas ou menos, simplesmente pela manipulação de tecnologias destrutivas, ou de guerra.

"Como sugeriu Hobsbawn, uma das peculiaridades das quais nasce o marxismo de Gramsci está exatamente no fato de ele haver vivido tanto a experiência de uma região extremamente atrasada, marginal e periférica, como a Sardenha, quanto a de uma grande cidade industrial capitalista como Turim." DEL ROIO 2017 página 38

Na verdade, a história e a teoria inferida a partir dela, não é um relato apenas sobre o passado, mas é uma reflexão sobre o nosso presente e o nosso futuro, enquanto identidade, tecnologias e compartilhamentos. Essa trans temporalidade tão presente nas ações de plano e projeto, a partir da lógica de gestão do território, seja na constituição do abrigo, da cidade, ou da região, precisa se debruçar sobre a história a partir dos novos olhares do presente e do futuro. Nosso presente impôs de forma determinante um novo paradigma da adequação entre atividade e produção humanas e os impactos sobre os humores do planeta Terra. Nesse sentido, relatos, narrativas, vestígios e conhecimentos esquecidos pela história estão abertos a apropriações variadas e ricas, capazes de mudar trajetórias e comportamentos. Uma questão central, em nossa contemporaneidade é que o silenciamento dos grupos subalternos ou derrotados pela colonização europeia invisibiliza identidades, tecnologias, conhecimentos, comportamentos e culturas, que devem ser reavaliados e problematizados frente ao novo paradigma. Longe da mistificação romântica ou dos alinhamentos automáticos, o que se pretende para a teoria do plano e do projeto é entender como a manipulação de recursos e dádivas naturais podem trazer o bem viver para o humano, buscando sempre a consciência, sem qualquer traço arrogante, que a sucessão de fatos nos ensina. É sempre bom lembrar, que o que se busca é uma nova forma de interação entre homem e natureza, uma sintonia fina entre ocupação e manipulação do território mais sensível e delicada do que aquela que hoje exercemos.

"Não fiquemos demasiado lisonjeados com nossas vitórias sobre a natureza. Esta se vinga de nós por toda vitória desse tipo. Cada vitória até leva, num primeiro momento, às consequências com que contávamos, mas, num segundo e num terceiros momentos, tem efeitos bem diferentes, imprevistos, que com demasiada frequência anulam as primeiras consequências. As pessoas que acabaram com as florestas na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e em outros lugares para obter terreno cultivável nem sonhavam que estavam lançando a base para a atual desertificação dessas terras, retirando delas, junto com as florestas, os locais de acúmulo e reserva de umidade [...] Os introdutores da batata inglesa na Europa não sabiam que, com o tubérculo farináceo estavam disseminando a escrofulose. E, assim, a cada passo somos lembrados de que não dominamos de modo nenhum a natureza como um conquistador domina um povo estrangeiro, ou seja, de alguém que se encontra fora da natureza - mas fazemos parte e estamos dentro dela com carne sangue e cérebro e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, distinguindo-nos de todas as outras criaturas, somos capazes de reconhecer suas leis e aplicá-las corretamente." (ENGELS, A Dialética da Natureza contracapa Boitempo

Enfim, a sucessão factual da série histórica não nos autoriza a novas arrogâncias e certezas desmedidas, mas demanda um outro pensar, agir e atuar, que não condene ou celebre de forma mecânica e automática os impasses e opções por que passamos, mas nos cobra a conformação de formas de monitoramento e medição constantes que pautem de forma continuada nossa ocupação. O fato, é que a sociedade Inca com um domínio mais apurado de técnicas agrícolas e colheitas muito mais generosas será derrotada pelo Império Espanhol, no massacre da Batalha de Cajamarca, em 16 de novembro de 1532 mostrando-nos que, na verdade, o domínio de artefatos de destruição e guerra (o mosquete e o canhão) determinaram a sua derrota. Apesar da inferioridade numérica da Espanha, pois segundo relatos eram 168 espanhóis, 62 cavalos, vários mosquetes e um canhão, contra 30 mil soldados incas acampados em Pultumarca, nas proximidades da cidade inca de Cajamarca, na região da cordilheira andina (2.720 metros de altitude), no norte do atual Perú, próximo a fronteira do atual Equador. Francisco Pizarro era o espanhol que recebeu a nomeação do rei de Espanha como governador e capitão geral para promover a conquista do Vice Reinado do Perú era então o comandante das tropas espanholas. As armaduras, capacetes e espadas metálicas, os cavalos, os mosquetes e o canhão, artefatos e técnicas de longo desenvolvimento foram confrontados com boleadeiras, arcos e flechas, armaduras de lã de alpaca e ornamentos de ouro e prata. Na verdade, além das fragilidades de suas tecnologias bélicas, havia uma guerra civil em curso no Império Inca entre dois pretendentes ao trono; Atahualpa e Huáscar, filhos do imperador, que reinvindicavam a coroa para si, e que, fragilizaram a resistência a conquista espanhola. Esse silenciamento, ou a supressão das culturas, comportamentos e hábitos dos incas impacta nossa compreensão daquilo que consideramos o patrimônio a ser preservado e referenciado, determinando a unidirecionalidade emburrecedora da colonização. A proteção, preservação e a reavaliação da forma como gerimos a ocupação do território conforma a memória que temos de nós mesmos, sendo importante para nossa identidade.

"O que protegemos ontem é o que temos hoje. O que protegemos hoje é o que teremos amanhã." reflexão apresentada na aula da arqueóloga e professora Mariana Peltry Cabral sobre a elegibilidade do nosso patrimônio a ser preservado, contrapondo as imagens da Igreja setecentista na Serra da Piedade no município de Caeté MG e o sítio arqueológico de Calçoene, de população pré colombina no Brasil, no estado do Amapá. PELTRY 2021

A redenção de Cam (1897) do pintor Modesto
Brocco representa o desejo do Embranquecimento
da população do Brasil

O que a professora Mariana Peltry Cabral nos mostra é que a valoração daquilo que elegemos para ser preservado é de suma importância para a promoção da diversidade dos nossos modus vivendi, dos relatos e narrativas que nos conformam. Em nossa história há uma sucessão interminável de fatos e acontecimentos que foram arbitrariamente apagados, e, que contam formas diferenciadas de apropriação do território. O Quilombo de Palmares, na serra da Barriga, no estado de Alagoas, que representa uma outra forma de gerir um território, e que, é suprimido em 20 de novembro de 1695 com a morte de Zumbi, o que isso representa como Patrimônio para a História do Brasil. O sítio de Bom Jesus de Canudos, no sertão da Bahia, que abrigou a revolta de Antônio Conselheiro, que envolvia 5 mil domicílios e 20 mil pessoas, e que, também foi suprimido pela forças do Estado brasileiro em 1897, na nossa primeira república. Ou, a própria história da escravidão negra no Brasil, que é até hoje apagada e suprimida por nossos representantes conservadores, que desejam embranquecer nossa cultura, nossos hábitos e nossos procedimentos. Todos nos mostram, que a história verdadeira integral, como destacou Antonio Gramsci no Caderno 25 do Cárcere, aquele dedicado ao estudo dos grupos subalternos, no qual está escrito; “...todo traço de iniciativa autônoma por parte dos grupos subalternos deve ser de valor inestimável para o historiador integral.” GRAMSCI 1934 Q25. E, mais a tentativa de caracterizar o outro, o desconhecido, o dominado como bárbaro, que foi tentado de forma recorrente pela historiografia oficial deve ser questionado:

“...Este era o costume cultural do tempo: em vez de estudar as origens de um acontecimento coletivo, e as razões de sua difusão, de seu ser coletivo, isolavam o protagonista e se limitavam a fazer sua biografia patológica, muito frequentemente partindo de motivos não comprovados ou passíveis de interpretação diferente: para uma elite social, os elementos dos grupos subalternos têm sempre algo bárbaro ou patológico” GRAMSCI 1934 Q25

A cantaria Inca de pedra é até hoje um mistério de precisão 
e apuro construtivo

Mas muito longe de qualquer idealização, a estrutura hierárquica da civilização inca não era exemplo no que concerne a dominação de outros povos; o termo Inca significa "governante" ou "senhor", que em quechua era usado para se referir à classe dominante ou à família governante. Os incas em si compunham uma porcentagem muito pequena da população total do império, provavelmente numerando apenas 15 mil a 40 mil indivíduos, mas governando uma população de cerca de 10 milhões de pessoas. A federação desses povos diferenciados e plurais desenvolveram tecnologias de medir o tempo notáveis, muito mais precisas do que as europeias, o que lhes garantia uma manipulação muito mais precisa dos procedimentos de seleção de sementes, plantio, desenvolvimento e colheita, garantindo os excedentes alimentares. Os calendários incas estavam ligados à astronomia e a observação dos astros como constelações, o sol e a lua. Os astrônomos incas entendiam os equinócios, os solstícios e as passagens do zênite, assim como o ciclo de Vênus, a estrela mais brilhante em nossos céus. Eles não previam eclipses, e certamente es espantavam e se maravilhavam com esses acontecimentos. O calendário inca era essencialmente lunissolar, pois dois calendários eram mantidos em paralelo, um solar e outro lunar. Com 12 meses lunares ficam 11 dias aquém de um ano solar completo de 365 dias, sendo que os responsáveis pelo calendário tinham que ajustá-lo a cada solstício de inverno. Cada mês lunar era marcado com festivais e rituais, tais procedimentos ainda representam mistérios para a nossa sociedade contemporânea, havendo hipóteses de que tais calendários - lunares e solares combinados - acabavam por representar maior sintonia com os ciclos do milho, da batata, da quínua, ou das suas criações, Lhamas e Alpacas. Aparentemente, os dias da semana não eram nomeados e os dias não eram agrupados em semanas. Da mesma forma, os meses não eram agrupados em estações. O tempo durante o dia não era medido em horas ou minutos, mas em termos de distância percorrida pelo Sol ou de quanto tempo levava para uma tarefa de plantio e de pastoreio.

"Eis por que a categoria de "subalterno" foi retomada  e relançada, e encontrou sucesso crescente a partir dos países da "periferia" capitalista, nos quais a contradição capital/trabalho se enriquece e se complica por meio de muitas determinações, mesmo distantes daquela da subordinação salarial." DEL ROIO 2017 página 39


Aspecto Geral de uma rua de Cuzco, 
a arquitetura colonial ibérica sobre a 
base da cantaria Inca

Os incas fizeram muitas descobertas na medicina, eles realizavam trepanações bem-sucedidas, cortando orifícios no crânio para aliviar o acúmulo de fluido e a inflamação causada por ferimentos na cabeça. As taxas de sobrevivência eram de 80-90%, em comparação com cerca de 30% antes dos tempos incas. Os incas reverenciavam a planta da coca como sagrada e mágica, pois o mascar de suas folhas eram usadas em quantidades moderadas para diminuir a fome e a dor durante o trabalho, sendo também muito usadas principalmente para fins religiosos, nos festivais do solstício e em ritos de saúde. Possuíam também um complexo sistema de contabilidade ligado ao controle da produção de bens Agrários e Pastoris, que era o Quipu Inca, uma espécie de ábaco, feito a partir de uma sucessão de noz em fios de tecido. A tecelagem e a confecção de roupas a partir da lã de Alpaca e Lhama eram muito desenvolvidas, e até hoje ainda movimentam teares e apetrechos compartilhados pelas populações quechua e aymara no Equador, Perú e Bolívia. A alvenaria de pedra das cidades incas encontradas pelos espanhóis e ainda hoje presentes em cidades como Cuzco, Olantaitambo ou Machu Pichu representam um mistério com relação a forma do corte e seu acabamento final. Muitas pedras apresentam várias arestas, assentadas sem argamassa onde não é possível se quer se inserir uma lâmina fina de faca moderna. Há teorias que apontam para a maior adequação desses procedimentos construtivos às instabilidades geológicas dos Andes, inclusive o terremoto de 1986, na cidade de Cuzco revelou que o Convento dos Franciscanos estava sobre o Antigo Templo de Coricancha em homenagem ao Sol, e que, abriu um amplo campo de explorações arqueológicas na antiga capital Inca. Uma das imagens mais marcante das cidades do Vale Sagrado, na região de Cuzco, que receberam edificações ibéricas é justamente esta sobreposição de processos construtivos. Uma expressão particular e única do maneirismo ibérico, que combina uma interação, dominação e sobreposição mostrando-nos que no campo da cultura a fusão visual dos elementos é recorrente. Ao final, uma síntese única e particular, que numa analogia por exemplo, com uma escola de pintura, a Cuzquenha, que ocorre ao mesmo tempo e lugar, mostrando-nos que o hibridismo prevaleceu. A combinação de um lirismo com uma religiosidade exagerada e excludente acaba nos demonstrando um traço único de uma América Latina dramática, que aparece eternamente envolta num sonho utópico, que nos traga de novo a ingenuidade dos povos primitivos.

Os alunos são apresentados a obras e esforços construtivos notáveis, como; a síntese da Cidade de Cusco, o umbigo do mundo, a fortaleza de Sacsuahaman, as ruínas de Pessac, a cidade de Olantaytambo e seus mistérios cósmicos e a interação entre sítio arqueológico e vida contemporânea, culminando em Machu Pichu, um lugar que nos arrebata, mostrando-nos uma síntese geográfica inusitada de onde parece emergir uma conexão cósmica entre humanidade e planeta. O Vale Sagrado, região do hinterland da capital Inca de Cuzco, parece nos mostrar uma estruturação única e sensível de um lugar humano. As lições da cultura inca e de outros traços abandonados pela exclusidade medrosa do catolicismo espanhol e português, parecem ainda nos mostrar que a interação entre técnicas e comportamentos ainda está para se realizar. Tudo isso, nos mostra de forma contraditória, as imensas potências presentes na estruturação do "Genius Locci", categoria da fenomenologia do arquiteto Christian Norberg Schulz, presente em cada local de forma isolada e também no seu conjunto. No século XX, um arquiteto dos EUA, de família imigrante de origem na Rússia, Loui I. Khan, nos perguntou que; "precisamos parar para ouvir, aquilo que o lugar quer ser". Essa condição aparece de forma indelével, naqueles que visitam esses lugares - Cuzco, Sacsuhuaman, Pessac. Ollantaytambo e Machu Pichu - nos mostram ainda de forma velada e subliminar como essa condição pode ser alcançada pela cultura humana.

BIBLIOGRAFIA:

CABRAL, Mariana Peltry - Aula Como valorizamos nosso patrimônio? - História e Teoria da Arquitetura 1 2021-1 EAU-UFF
DEL ROIO, Marcos (org.) - Periferia e Subalternidade - USP São Paulo 2017
ENGELS, Friedrich - A Dialética da Natureza - Boitempo São Paulo 2018
GRAMSCI, Antônio, tradução  - Cadernos do Cárcere, volume 25 -  


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A disciplina História e Teoria da Arquitetura 1 e a Antiguidade Pré Clássica Euro cêntrica


A região do crescente fértil, o entorno das dádivas pluviais
do Tigre, Eufrates e Nilo

Dentro do programa da disciplina História e Teoria da Arquitetura 1, o período da antiguidade pré clássica, antes da Grécia e de Roma, que envolve as civilizações do chamado crescente fértil. a Mesopotâmia e o Antigo Egito, são fundamentais para estabelecer os diversos padrões de ocupação do território do planeta pelo homem. A presença da generosidade do acontecimento dos cursos fluviais, como; o Tigre, o Eufrates e o Nilo são determinantes para o desenvolvimento de tecnologias de semeadura, desenvolvimento e colheita de alimentos, que permitiram a essas sociedades acumularem excedentes jamais observados de alimentos. A interação entre homem e natureza se manifesta a partir da observação dos ritmos dos corpos hídricos, dos níveis de insolação e da manipulação de sementes ou de espécies animais domesticadas agregadas como novos conhecimentos humanos, que impulsionam a obtenção de farta alimentação. A presença de abundância de água, altos índices de insolação e a manipulação humana diversificada de tecnologias de medição do tempo garantem uma produtividade inusitada, mostrando e fixando os tempos mais adequados de semear, desenvolver e colher, na agricultura, ou de pastorear, reproduzir e ordenhar na domesticação animal. Tecnologias de armazenamento, comércio e intercâmbio se estabelecem, determinando graus elevados de acessibilidade a confortos e comodidades, que acabam transmitindo a falsa impressão de distanciamento do homem para com o natural. O acúmulo de excedentes alimentares permite a essas sociedades o desenvolvimento de uma complexa divisão social do trabalho, impulsionando a sofisticação da vida e fazendo surgir; sacerdotes, escribas, arquitetos, poetas, músicos, etc. O registro escrito permite a contabilidade precisa das safras de grãos, das quantidades de proteína animal obtidas, da documentação do cotidiano imediato, essas sociedades desenvolvem uma iconografia particular que as identifica, impulsionando a sensação de pertencimento aos seus membros. Acaba por emergir uma forte identidade visual, que caracteriza essas sociedades com manifestações únicas de sensibilidade, que se expressam na forma das colunas de sustentação, das esculturas, da música, dos grafismo pictóricos.

“O trabalho é, antes de tudo, um processo entre o homem e a natureza, processo este em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele se confronta com a matéria natural como com uma potência natural [Naturmacht]. A fim de se apropriar da matéria natural de uma forma útil para sua própria vida, ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporeidade: seus braços e pernas, cabeça e mãos... Agindo sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências que nela jazem latentes e submete o jogo de suas forças a seu próprio domínio.”. (MARX, 201 página 326-327)

Uma outra questão também foi apresentada para os alunos, de forma a ampliar a compreensão do papel das cidades na ordenação das sociedades humanas, a Revolução Urbana, que ocorreu na história humana como um grande alavancador do intercâmbio social. As cidades superam a escala das Fátrias, lançando os humanos num intercâmbio muito além de seus clãs, determinando uma interação pessoal de culturas, costumes e crenças muito diferenciadas. Cada clã, família ou fátria muitas vezes dominava processos tecnológicos específicos, que a partir da sua intensa interação social propiciada pela cidade trará um grande impulso ao desenvolvimento humano. As cidades ampliam as transformações humanas sobre o território, criando além dos abrigos uma diversidade de tipologias construtivas, tais como; templos, locais de reunião, armazéns, muralhas, ruas, praças, poços e fontes. Há uma ampliação da artificialização da vida, pela arquitetura e o urbanismo, que passam a subverter os ciclos naturais do nosso planeta, construindo uma existência que tende a superar os condicionantes naturais; diferenciação entre dia e noite, amenização dos calores e frios intensos, proteção da chuva e das intempéries.

“Cada sociedade, a partir de um certo nível evolutivo, tem que possuir sua própria arquitetura. Uma sociedade sem pintura ou sem tragédia é perfeitamente imaginável, e até existiu diversas vezes; mas não uma sem edifícios.” LUKÁCS, Gregory

Essas condições não são alcançadas sem conflitos, dominações e controles, a mera coleta ou extrativismo só foi superada na medida em que se estabelece um centro que gerencia a produção em armazéns e construções que se apropriam do acúmulo de excedentes. Se estabelece um controle que é político, que forjou conquistadores hábeis, habitantes da cidade, que protegiam e se apropriavam dos excedentes determinando que o núcleo urbano se apoderasse de domínios cultivados. Nasce a representação do poder, a cidade, um local produtor de mercadorias não naturais, transformadas pelo artezanato humano, que domina um entorno fornecendo-lhe proteção e identidade. Nasce a regulação, proteção e gestão do território por um ente edificado denso, no qual florescem o controle, a taxação de impostos, o armazenamento da produção, surge embrionário a estrutura controladora e burocrática do Estado. A Cidade-Estado, a representação do poder expresso numa iconografia funcional e simbólica, onde estão a muralha, o palácio, o templo, os armazéns, que também produz a construção de uma identidade da população que passa a ser seu cidadão. A divisão social do trabalho entre moradores urbanos e produtores agrícolas permanecerá na história humana durante longo período, com clara predominância da população rural, até a Revolução Industrial. Apenas nesse ponto mais recente de nossa história, meados do século XIX, que a população urbana encontra as primeiras condições de superar a população rural, iniciando uma grande transformação que só se materializará no final do século XX, quando, pela primeira vez a população urbana superou a rural.

“A agricultura somente superou a coleta e se constituiu como tal sob impulso (autoritário) de centros urbanos, geralmente ocupados por conquistadores hábeis, que se tornaram protetores, exploradores e opressores, isto é, administradores, fundadores de um Estado. A cidade política acompanha, ou segue de perto, o estabelecimento de uma vida social organizada, da agricultura, e da aldeia. “ LEFEBVRE, 2004 página 21

Gráfico presente em LEFEBVRE, referente a passagem
do agrário ao urbano

O gráfico presente no livro A revolução urbana de Henri Lefebvre nos mostra a tendência das sociedades ocidentais em direção a completa subordinação do agrário ao urbano, que representa uma Implosão-Explosão, onde o rural se urbaniza, e a cidade se dispersa pelo mundo. Condição típica da nossa contemporaneidade, quando segundo Lefebvre opera uma grande confusão, "na qual passado e o possível, o melhor e o pior se mistiram." LEFEBVRE 2004 página27 A realidade urbana opera no sentido de revolucionar de forma contínua as formas de produção, sem, no entanto ser suficiente para transformá-las completamente. O que é importante, no contexto da disciplina de História e Teoria da Arquitetura 1, para os alunos é que o urbano mesmo em seu estágio embrionário insere a festa da interação entre diferenças, marcando para o início da história a promessa da sua transformação. A arquitetura e urbanismo comprovam o intercâmbio de tecnologias construtivas que se constituem como um Bem Comum, algo que não pode ser cercado e privatizado, apesar de uma minoria privilegiada que quer manter estes saberes como sua propriedade. Além das tecnologias, há a questão da apropriação das imagens, que essas construções monumentais geram na população; uma identidade locacional que acaba por promover a identificação de um lugar único no cosmo geral e indiferenciado do planeta, uma humanização da paisagem, que gera identidade entre população e lugar.

“O que nos interessa em nosso contexto é que as emoções desencadeadas agora já não se enlaçam só com o fato geral e objetivo da segurança, mas que são produto imediato do modo aparencial visual da muralha (altura, massa, etc.).” (LUKÁCS, 1982, v. 4, p. 95) 

TEMPLO DE LUXOR: A) Avenida das Esfinges;
B) Pilone de Ramsés II; C) Obeliscos de Ramsés II; D) Colossos;
E) Pátio de Ramsés II; F) Colunata de Amenófis III;
G) Pátio de Amenófis III; H) Sala do Nascimento;
I) Santuário de Alexandre Magno;  J) Sala Hipóstila;
K) Vestíbulo; L) Câmara (sancta sanctorum)
Médio Imperio - Tebas


A partir dessas reflexões de base se apresentam as construções que chegaram ao nosso conhecimento destas civilizações; o Templo Alto de Uruk, o Zigurate de Ur, O Zigurate e a Muralha de Nama, a cidade de Khorsabad. Todas sítios arqueológicos atuais da Mesopotâmia (atual Iraque e Irã) mostrando-nos a permanência parcial da monumentalidade e a completa incapacidade de resistir ao tempo das habitações comuns. Na sequência se mostram as grandes obras do Antigo Egito dentro de uma cronologia geral; o período Arcaico, o Antigo Império (3.200 a 2.200 a.C.), Médio Império (2.200 a 1580 a. C.) e Novo Império (1.580 a 1.085 a. C.). Nessa subdivisão histórica geral se destaca a predominância no Antigo Império da cidade de Mênfis na fox do Nilo com o Mar Mediterrâneo, e a partir do Médio Império a predominância da cidade Tebas no médio Nilo. Foram também mostradas as principais realizações construtiva do Império Egípcio, as antigas mastabas, a pirâmide escalonada de Djoser, as pirâmides de Queóps, Quéfren e Miquerino no Antigo Império, nas proximidades de Mênfis. E, os templos de Luxor e Carnac nas proximidades da cidade de Tebas, e o Templo de Abu Simel no médio Império. Este último próximo a atual barragem de Assuan, na atual da fronteira do Egito com o Sudão, obra de infraestrutura do Estado Egípcio contemporâneo, que foi traslado para uma cota mais alta, para se evitar seu alagamento pelo Lago Nasser. Importante salientar, que estes exemplos estabelecem um padrão específico da arquitetura e da cidade, frente a outras artes, uma certa presença da abstração e distanciamento da imitação ou mímesis da natureza, das artes pictóricas. O ambiente humano, para sua convivência desenvolve-se numa imagética presa a sua necessidade de ficar em pé, ou de se auto sustentar, mostrando-nos que os esforços construtivos se subordinam a tectônica.

“Não é da imitação que dependem a beleza e a graça da arquitetura, porque se assim fosse ela deveria ter mais beleza quanto mais exatas fossem estas imitações. As colunas não recebem a aprovação do gosto quanto mais se parecem ao tronco de uma árvore que servia de coluna às primeiras cabanas” PERRAULT, Claude - Ordonnance des Cinq Espèces des Collones


Por último, foi destacado para os alunos o papel da mulher na sociedade egípcia, que segundo os historiadores foi exercido de forma afirmativa e tinha praticamente os mesmos direitos dos homens, o que não ocorria em outras civilizações da antiguidade. Segundo estes historiadores, elas chegaram a postos, posições e papéis, que só foram alcançados pelas mulheres novamente na nossa sociedade contemporânea. Apenas como exemplo, o casamento no antigo Egito era considerado importante para as mulheres. As garotas egípcias costumavam se casar na faixa dos 12 anos, enquanto os garotos tinham entre 15 e 19. Elas também podiam se divorciar, caso sofressem algum tipo de maltrato, por exemplo. Nesse caso recorriam aos seus familiares e pediam ajuda para intervir no casamento. O divórcio era algo simples e não necessitava de muito tempo para a sua obtenção. Entre os principais motivos de divórcios estavam os maus-tratos, o adultério e a infertilidade. Esta condição coloca para a nossa contemporaneidade uma interessante questão, que desnaturaliza a diferença entre os sexos e a coloca na condição de uma ordenação societária imposta pela produção humana de subalternidades. O determinismo biológico é problematizado de forma crítica, mostrando-nos de que a produção da relação hierárquica entre os gêneros é uma determinação da ordenação social. A questão foi abordada pelo conjunto de textos disponibilizados para os alunos, dentre os quais destaco o de Maria Mies, Origens sociais da divisão sexual do trabalho; a busca pelas origens sob uma perspectiva feminista. Texto que questiona fortemente as determinações "naturais", biológicas ou anatômicas na gestação e origem das sociedades patriarcais.

"Quando as mulheres começaram a se questionar sobre as origens da relação hierárquica entre os gêneros, elas constataram rapidamente que nenhuma das antigas explicações apresentadas pela ciência era suficiente. Pois todas as explicações veem a assimetria social e a hierarquia entre os gêneros como algo, em última análise, biologicamente determinado – e isso significa estar fora do
alcance de processos de transformação social. Esse determinismo biológico velado ou explícito – resumido na declaração de Freud de que anatomia é destino – é provavelmente o maior obstáculo no caminho do conhecimento das causas para a divisão desigual do trabalho entre homens e mulheres." MIES 2002 página840

Enfim, se debruçar sobre os resultados arquitetônicos e urbanos destas sociedades antigas traz-nos a uma reflexão importante sobre o nosso presente, nos fazendo pensar sobre os engendramentos que condicionam o nosso futuro. Uma transtemporalidade típica do planejar e projetar, tão presente nas ações de arquitetos e urbanistas, que olha para a tradição, tira dela lições, problematiza nossa atual existência, e projeta novos arranjos espaciais capazes de abrigar uma outra sociedade. Ao final, porque não podemos imaginar um outro futuro? Porque não podemos pensar na ordenação espacial de uma sociedade, onde os gêneros colaboram em solidariedade, e não mais em disputa?

BIBLIOGRAFIA:

LEFEBVRE, Henri - A Revolução Urbana - UFMG Belo Horizonte 2004
LUKÁCS, Gregöry - Marx e Engels como historiadores da literatura - Editôra Boitempo São Paulo 2016
MARX, Karl - O Capital, crítica da economia política - Boitempo São Paulo 2013
MIES, Maria - Origens sociais da divisão sexual do trabalho; a busca pelas origens sob uma perspectiva feminista - Revista Direito e Práxis UERJ Rio de Janeiro 2002
PERRAULT, Claude - Ordonnance des Cinq Espèces des Collones


quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

A divisão social do trabalho na antiguidade pré-clássica

O crescente fértil, dádiva dos cursos dos 
rios Tigre, Eufrates e Nilo

Dentro do contexto da disciplina da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF) de História e Teoria da Arquitetura 1 houve um profícuo debate a respeito da instituição da divisão social do trabalho nas sociedades da antiguidade pré clássica. A região que assistirá a emergência das primeiras sociedades humanas complexas e diversificadas está localizada numa região denominada o "Crescente Fértil", limitada pelos fluxos de três importantes rios; o Tigre, o Eufrates e o Nilo, importantes planícies fluviais com grande incidência solar. O Tigre e o Eufrates naquilo que hoje é o Irã, e que, na antiguidade se constituiu enquanto as civilizações Suméria e Mesopotâmia. Enquanto, o Nilo, naquilo que hoje é o Egito contemporâneo, e na época se constitui como o Antigo Império do Egito, uma das civilizações mais sofisticadas da antiguidade pré clássica. A observação do tempo, a repetição de um certo padrão cíclíco num ano, articulado com as vazões desses rios determinaram tecnologias de seleção de sementes, tempo do plantio, tempo da colheita, desenvolvimento das criações, num ambiente generosamente fornecido pelo nosso planeta. O "Crescente Fértil" permitiu às sociedades humanas agrícolas acumularem imensos contingentes de super produção de alimentos, desembocando em sociedades sofisticadas, aonde a divisão social do trabalho gera o aparecimento de profissionais tais como: escribas, sacerdotes, arquitetos, agricultores, pastores, imperadores, faraós, etc... O aparecimento da nova classe de artesãos: resolvidas as questões mais elementares do cotidiano (produção de alimentos), uma parcela da população se torna apta a se dedicar ao artesanato e a atividades contemplativas e críticas. A invenção da escrita é fundamental no controle das safras e na documentação das tecnologias, na sua difusão, seu registro para as futuras gerações se tornam mais sistemáticos e o seu questionamento se aprimora continuamente. A cidade, uma concentração de indivíduos de diferentes procedências, crenças, tecnologias, localizações e costumes determina a intensificação do intercâmbio humano, garantindo à espécie avanços significativos. A cidade é um acontecimento que arranca a espécie humana de suas tradições familiares e do clã possibilitando a observação de diferentes tradições e culturas que se aproximam e intercambiam.

“...é muito provável que os homens viveram, no início, isolados e ao ver que, mais tarde, tinha vantagens ao contar com a ajuda de outros homens para obter aquelas coisas que poderiam fazê-lo feliz (se é que se pode falar de alguma felicidade aqui em baixo), ele (o homem) chegou de modo natural a desejar e amar a companhia de outros homens. E assim, os grupos de casas se converteram em aldeias e os grupos de aldeias em cidades” PALADIO, 1965

O processo de ampliação e radicalização da divisão social do trabalho se intensifica, a partir da perspectiva da garantia da preservação da espécie e otimização da existência dos grupo humanos, que ampliam suas próprias condições de existência. Ela se iniciou pela diferenciação entre idosos e jovens, homens e mulheres, famílias, frátrias (cúrias) e cidades ainda nos tempos da pré história, e ganhou em complexidade. Nos tempos antigos, quando os grupos humanos permaneciam ainda nômades, havia o costume do enterro dos entes queridos em locais específicos para que pudessem ser revisitados e lembrados. A humanidade chocava-se com a violação desses locais por animais e feras, como lobos e chacais, imagina-se que para combater esses procedimentos os grupos humanos, primeiro cercaram, e depois protegeram esses lugares, acabando por determinar com que os anciãos, os membros mais velhos, ficassem guardando os túmulos. Exatamente, os membros que representavam o maior fardo nas jornadas itinerantes da humanidade, àqueles que guardavam as memórias e feitos mais notáveis do clã, seus ritos e mitos compartilhados. A vigília dos túmulos e restos mortais dos entes queridos, certamente deve ter impulsionado a geração de relatos, ritos e mitos, que caracterizavam e identificavam aquele grupo, enquanto identidade singular. Nesse sentido, é que vários antropólogos mencionam que a cidade dos mortos precede a dos vivos, e determina a  divisão etária do trabalho, que acaba por sua vez, por fazer emergir a figura do sacerdote, ou guardião das tradições daquele grupo ou clã. O mistério da morte deveria fascinar nossos antepassados, fazendo-os imaginar entes, entidades e fenômenos mágicos e sobrenaturais, que eram consolidados nos relatos desses guardiães de túmulos.

“As mais antigas gerações, muito antes ainda de existirem filósofos, acreditavam já em um segunda existência passada para além desta nossa vida terrena. Encaravam a morte, não como decomposição do ser, mas como simples mudança de vida.” COULANGES, 1987 página 15. 

Outra divisão social do trabalho envolveu as mulheres e os homens, aquilo que pode ser caracterizado como a divisão sexual do trabalho nas sociedades humanas, afinal, toda vida animal possui como fim a sua própria preservação. Mas a espécie humana, em suas características básicas envolve e abarca um processo de humanização, que é sempre um processo de longa duração, no qual, a própria repetição mecânica dos ciclos da vida é sempre problematizada e pensada. A observação da germinação da vida, primeiro em seu corpo e depois na terra articula o controle das sementes ao feminino, enquanto a caça, e a domesticação de animais ao masculino; um confecciona utensílios para a germinação da vida, o outro, para a destruição da vida, as armas. A reflexão sobre os gestos, atos e operações da reprodução da vida devem ter mobilizado as energias humanas muito cedo, levando mulheres e homens a encarar um acontecimento biológico como algo a ser problematizado e pensado. A analogia entre esses processos e a geminação de sementes na terra deve ter mobilizado a curiosidade explorativa de nossos ancestrais, que a partir da interação iniciam processos de controle, manipulação e seleção, que desembocarão na agricultura e no pastoreio de espécies domesticadas. Na verdade, esse primeiro conhecimento corporal e intuitivo é problematizado pelo acúmulo histórico, na troca de relatos e experiências, particularmente na doutrinação das novas gerações. Pode se imaginar, que mulheres começaram a identificar comportamentos e práticas contraceptivos, capazes de impulsionar ou retroceder os seus próprios ciclos básicos. Desenvolveram e compartilharam conhecimentos sobre seus próprios corpos, seus fluxos e ciclos, intuíram e se anteciparam a ocorrência cíclica dos fenômenos preparatórios da reprodução, entendendo e registrando suas etapas.

“Buscar uma concepção materialista de mulheres, homens e sua história significa buscar sua natureza humana. A natureza humana, no entanto, não é um dado meramente biológico, mas o resultado da história da interação das pessoas com a natureza e entre si. Porque as pessoas não vivem simplesmente (diferente dos animais), as pessoas produzem suas vidas. “ MIES, 1988. 

Outro polo de produção de divisão social do trabalho foram; a Família, a Fratria (ou Cúria), e a Grande Cidade da antiguidade, estruturas que impulsionaram a separação de funções e atividades intra humanas. Neste sentido, o papel do fogo, e das tecnologias para sua geração foram fundamentais, pois nas sociedades antigas era comum que as famílias ou clãs mantivessem em suas casas altares com fogo permanente acesso em celebração de divindades específicas. Cada família ou agrupamento de famílias, Frátria, e até mesmo a grande cidade possuíam suas divindades específicas, que eram celebradas a partir da manutenção continuada de um altar de fogo, que assinalava e acolhia o ente mágico. A produção de utensílios que possibilitavam essa promoção da veneração de divindades, tais como; artefatos mantenedores de chama como velas e lamparinas deviam ser produzidos e vendidos nos mercados e feiras das cidades da antiguidade. A independência com relação a produção de alimentos e artigos derivados da agricultura e pecuária permitiu aos humanos a interação e aprofundamento em tarefas específicas, que também geravam conforto e bem estar para todos. A ideia de uma produção solidária e colaborativa, a partir da divisão social do trabalho, fizeram a fortuna das sociedades dos sumérios, da mesopotâmia e do antigo Egito transmitindo aos estrangeiros a impressão da boa vida. É claro, também que determinadas categorias sociais passam a desfrutar de sobre privilégios, explorando os efetivos produtores do trabalho.

“Muitas famílias formaram a fratria, muitas fratrias a tribo, e muitas tribos a cidade. Família, Fratria, Tribo, Cidade são, portanto, sociedades perfeitamente análogas e nascidas uma das outras por uma série de federações.” COULANGES, 1987 página 132.

A arquitetura e a grande cidade mostram a emergência dessa divisão social do trabalho; as muralhas, os grandes templos, as habitações mais abastadas e mais simples, os canais de saneamento e de fertilização mostram nos o compartilhamento de tecnologias construtivas, que conformam personalidades e expressões específicas 

BIBLIOGRAFIA:

COULANGES, Fustel – A cidade antiga - Martins Fontes, Lisboa 1987

MIES, Maria - Origens sociais da divisão sexual do trabalho. A busca pelas origens sob uma perspectiva feminista -  1988.

PALADIO, Andrea – The four books of Architecture - Dover Publicatons Nova York 1965

domingo, 12 de dezembro de 2021

Projetação, alienação, objetividade e subjetividade no ato de pensar o vir-a-ser utópico

"Odeio os indiferentes [...] acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir os apenas homens estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes." GRAMSCI

Capa do livro Projeto e Utopia de 
manfredo Tafuri

Há muito que a objetividade produtivista luta pela captura da projetação e do planejamento, o gerenciamento e as metodologias de desenvolvimento de planos e projetos ficam presas ao desenvolvimento comportado e mediocrizante, soterrando as aspirações, desejos e promessas dos agentes envolvidos em nome do cumprimento de uma meta, que ao final perde substância, e frustra expectativas. E, na verdade é esta substância forjada pelo próprio processo - desejos, vontades de novas práticas e aspirações de novos mundos -, que nos interessa; o engendramento de uma outra existência que passa a ser compartilhado, na medida em que o plano e o projeto avançam. Mas isso significa considerar as ações de Plano e Projeto como autônomas, ou intelectualmente críticas e livres das determinações impostas pelo sistema produtivo geral. A alienação do trabalho e pelo trabalho envolve os mais diversos profissionais, que seguem numa reprodução repetida e pouco criativa de práticas, mesmo em atividades que cobram dos agentes inovação e novos procedimentos como no campo da arquitetura e do urbanismo. Aqui há necessidade de reflexão sobre o momento doutrinário e o momento manual ou operacional de se pensar o vir-a-ser, a distinção dos dois momentos não significa a perda de correlação, mas sua representação integral aonde decisão e ato correspondem a uma interpretação histórica plena e consciente. Desde o século XV, no renascimento italiano e mesmo na Idade Média tardia era esse o debate entre as artes liberais e mecânicas, onde a consciência do agir se articulava com a leitura histórica do processo humano geral. Tais questões povoam o Tratado de Re Aedificatoria de Leon Battisti Alberti (1404-1472), que fustiga a questão da auto determinação coletiva dos povos, a partir do plano e do projeto.

"Dera-se conta de que aqueles fatos rompiam a tradicional relação existente entre o momento doutrinal e o momento operacional e manual da arte; não havia mais continuidade, e sim distinção e correlação de dois níveis, o da idealização, ou da teoria, e o da prática. Entre os dois momentos, existe a mesma relação que, no agir "histórico", há entre a decisão e o ato, uma relação pela qual o ato não tem valor a não ser que dependa de uma decisão da mente, assim como, a decisão não tem valor a não ser que se cumpra no ato. Explica-se, assim o propósito albertiano de trazer a arte de volta a mímese clássica; se a imitação deve ser um processo intelectivo, e não apenas mecânico, é preciso que não seja cópia, mas representação, e obedeça às leis, ao princípio teórico da representação como modo de conhecimento." ARGAN 1992 página109

Seria isso possível, ou uma utopia delirante? Para tal, o planejamento e a projetação precisam abandonar a indiferença e se comprometer com a política, pensada a partir do pressuposto de que ninguém deve ser deixado a margem. Antonio Gramsci, considerava a previsibilidade como um direito humano, uma condição que na verdade nos humanizava a medida que se tornava acessível a todos, na verdade, ele considerava, àqueles que não a desfrutavam viviam sobre condições inumanas. Realmente, a incapacidade de pensar sobre uma nova residência, um outro bairro, ou até uma outra cidade, ou mesmo uma viagem, um filho, um casamento, ou uma aposentadoria bloqueia nossa humanização, nos mantendo sem o devido desfrute do desenvolvimento humano. Recentemente, o poeta Mia Couto escreveu um belo texto sobre o medo, em clara contraposição a esperança, dizendo nos da fomentação pelo poder instituído da disseminação dos riscos de se pensar outros mundos. A onda conservadora, que se estabeleceu  no mundo recentemente trabalha exatamente com o medo de outras possibilidades de existência humana; o socialismo, o comunismo, uma sociedade mais solidária e democrática devem ser desacreditadas pelo medo ao inusitado. O medo não é um bom companheiro, quando pensamos o nosso futuro, principalmente porque o poder instituído está sempre a promover o medo em relação aos novos poderes, sejam eles; a des hierarquização da sociedade, a democracia radical, ou a busca por maior equidade. "Para fabricar armas é necessário antes produzir inimigos", e não há melhor inimigo, que o desconhecido, o outro que não conhecemos, sejam "eles"; os chineses que comem crianças, Karl Marx e suas ideias, ou Paulo Freire e a pedagogia do oprimido. Há no mundo contemporâneo, uma presença imensa de dados sem sentido manipulados pelas Big Techs, que nos apresentam a eles a partir de interesses comerciais pouco transparentes, que só ampliam essa sensação do medo.

"A invenção da propaganda dirigida por parte do Google foi pioneira em termos de sucesso financeiro, mas também assentou o alicerce de uma consequência muito maior: a descoberta e elaboração do capitalismo de vigilância. Seus negócios se caracterizam como um modelo de publicidade, e muito foi escrito acerca dos métodos de leilão automatizados do Google e outros aspectos de suas invenções no campo da publicidade on-line. Com tanta verborragia, esses desenvolvimentos são ao mesmo tempo superdescritos e subteorizados." ZUBOFF 2020 página 83

O medo, a partir do Atentado das Torres Gêmeas em Nova York, generalizou e oficializou o acesso às nossas privacidades, colocando nosso cotidiano mais íntimo disponível para as Big Techs, que os comercializam a nossa revelia de forma intensa. Nos novos negócios engendrados pelas novas tecnologias há também a presença da alienação, agora não só do trabalho, mas também de nossas buscas e interesses, que passam a ser vendidos a nossa revelia. Nos manuscritos econômico-filosóficos que foram escritos por Karl Marx (1818-1883) entre março e agosto de 1844 em Paris, portanto quando tinha apenas 26 anos, e quando o autor acabara de ser exilado da Confederação Alemã, por seus artigos no jornal Rheinische Zeitung, a Gazeta Renana (1). Há nos Manuscritos uma importante abordagem sobre questões que partem da economia política a partir de categorias dos mundos da vida, tais como; salário, ganho de capital (lucro) e renda fundiária e chegam a uma visão mais genérica e absoluta de ordem filosófica. A visão de Marx persegue a desnaturalização de práticas gerais cotidianas dos industriais, dos trabalhadores e dos proprietários de terra, que enxergam os processos de lucro, exploração do emprego e valorização de forma mecânica e natural. Mas, que na verdade, precisavam de um arcabouço artificial de leis e normas estabelecendo as novas formas capitalistas da subjetividade, indo contra as noções de Comum e de Solidariedade, que estavam e ainda estão arraigadas em nosso senso compartilhado de justiça. A categoria da alienação é confrontada com os pensamentos de Hegel e Feuerbach, e passa a ser historicizada na sua processualidade sócio material, como trabalho onde não há mais reconhecimento do trabalhador.

"A alienação do sujeito recebe um novo trato: deixa de ser a objetivação universal e necessária (como em Hegel, que identifica objetivação com alienação) e não se reduz a um produto da consciência (como em Feuerbach). Se em Hegel a supressão da alienação equivale a supressão da objetivação, nos Manuscritos a objetivação só é alienação em condições históricas determinadas - nas condições próprias à existência histórica da propriedade privada (com suas conexões com a divisão do trabalho, a produção mercantil e o trabalho assalariado). Se em Feuerbach ela se mostra privilegiadamente na consciência religiosa, nos Manuscritos esta é, antes, uma dentre várias condições sócio históricas muito determinadas." NETTO 2020 página 104

E aqui, é preciso firmar que essas condições sócio materiais não impactam apenas o trabalho braçal e mecânico, as artes mecânicas, mas também o trabalho intelectual, ou as artes liberais, que de certa forma, escapavam dos manchesterianos Marx e Engels.  De acordo, com Manfredo Tafuri (1935-1994), o que era necessário era (re)historicizar os processos, formas e possibilidades do trabalho intelectual, que sempre esteve ligado às condições impostas pela evolução do desenvolvimento capitalista. Por isso, TAFURI (1985), assim como FORTINI, viu na atividade de investigação histórica (que as vanguardas modernas desde o Renascimento sempre rejeitaram como uma pré-condição de seus projetos) a ferramenta mais poderosa para interrogar os efeitos do desenvolvimento capitalista sobre a agência e a atuação intelectual. Para (re)historicizar as mentalidades intelectuais significava que o local político da luta era o pensador trabalhar a si mesmo em termos de suas qualificações, seus modos de ser especializado, sua capacidade de conectar informações e gerar formas sintéticas, em cada ciclo de produção, pois o sistema sempre definiu um novo mandato para o papel social de intelectuais. Para TAFURI (1985), tal análise deveria fornecer uma forma inevitavelmente ideológica, pois essa presença no sistema seria insuperável, fazendo da compreensão uma possibilidade sempre parcial para a ação (intelectual). Nesse sentido, é interessante observar como, hoje, as reflexões de TAFURI (1985) vêm inesperadamente (e paradoxalmente) estar muito próximas, por um lado, de slogans neoliberais, como "trabalho criativo" e a pretensa autonomia do plano e do projeto. E, por outro lado, e de forma não mais paradoxal, para as discussões do movimento pós-Operaístas da Itália dos anos oitenta sobre as possibilidades de cognições do trabalho como centro dos modos de produção pós-fordistas. Mas enquanto essas posições absorveram completamente o produtivo status de conhecimento, o crítico italiano concentrou a atenção na pressão dos pontos dentro do desenvolvimento capitalista na cultura intelectual, problematizando o desenvolvimento. É impressionante as conexões levadas a cabo pelo crítico italiano, num mundo anterior a emergência da hegemonia neo-liberal, que hoje vivemos e do qual, parece que não nos desvencilhamos.

"A utopia, portanto, não é mais do que "visão estrutural da totalidade que existe e há de existir" (MANHEIM, Karl - O pensamento conservador), transcendência do "dado" puro, "sistema de orientação tendente a romper os laços da ordem existente" para reganhá-los a um nível diferente e mais elevado (a utopia, uma vez afirmada, se transforma de novo em ideologia...). Para Weber e para Mannheim, a crítica da ideologia é um dos fatores dinâmicos do desenvolvimento. Para ambos - tal como para Keynes - a única realidade individualizável é a dinâmica do desenvolvimento. A utopia de Mannheim, para além das afirmações do seu autor, é prefiguração de modelos finais e globais, no sentido da realidade dada. A "crítica ao pensamento conservador" torna-se portanto uma necessidade, um instrumento destinado a libertar o funcionamento dinâmico do sistema. A ruptura constante do equilíbrio só poderá converter-se numa "política científica", anti-ideológica, numa solução racional dos conflitos gerados pelo próprio desenvolvimento, depois de ter reconhecido a inerência daqueles conflitos ao processo dialético do real." TAFURI 1985 página 43

Em 1970, Tafuri publicou o texto "Lavoro Intellettuale e Sviluppo Capitalistico", Trabalho Intelectual e Desenvolvimento Capitalístico, na revista Contrapiano, esse trabalho se converterá no capítulo 3 do livro Projeto e Utopia, que recebeu o título de Ideologia e Utopia, do qual foi tirado a citação acima. Os anos sesseta, setenta e oitenta na Itália, nos aparecem hoje como idílios utópicos frente aos avanços destruidores do neoliberalismo contemporâneo, iniciados naqueles mesmos anos, com os governos de Thatcher (1979) e Reagan (1981). O Reformismo Capitalista, na Itália daqueles anos acreditava ser possível direcionar o desenvolvimento para uma maior sustentabilidade social do sistema, associando racionalidade do plano com uma abordagem mais científica das forças produtivas. Era a domesticação do conflito de classes e a reforma dos processos produtivos do capitalismo, por exemplo no seio da Olivetti(2), como a fábrica que se transformava num campus de elevada produção, reunindo artistas, designers, intelectuais e operários, numa possibilidade de novo humanismo social. Havia um eufórico eixo domesticador do impulso do capitalismo, que envolvia agentes e atores diferenciados como; Umberto Eco, Raniero Panzieri, Franco Fortini, Ítalo Calvino, Alberto Asor Rosa, Massimo Cacciari e o próprio Manfredo Tafuri. Todos empenhados na radicalização da democracia e perpassados por diferentes gradientes de otimismo e pessimismo, mas acreditando num novo ciclo de articulação entre o Estado de Bem Estar Social e o Capitalismo.  Essa problematização foi tão radical que podemos concluir que o verdadeiro objetivo da crítica de Tafuri não era tanto o de estender ao poder, na forma tradicional da política partidária (que, no final das contas, continuou sendo o objetivo dos editores da Revista Contropiano), mas mais um meio de compreender, uma vontade de profundamente desemaranhar os processos históricos através dos quais o intelecto, a subjetividade real foi feita e artificialmente construída. Mas, Tafuri também usou a vontade de entender como o antídoto para o arquiteto e o crítico narcisismo de boas intenções, não só no âmbito arquitetônico "boudoir", mas também no ativismo social dos chamados pró arquitetos agressivos - muitos, presentes hoje - que na luta por demandas acabaram se espetacularizando. Daí seu recorrente refúgio no tempo do Renascimento na Itália, um lugar onde os homens parecem desfrutar de uma ampla visão das condições críticas de operação do trabalho intelectual, jamais reconquistado, na história humana.

"Por meio de sua intensa atividade de historicização do desenvolvimento do projeto de modernidade arquitetônica desde a Renascença até neo-avantgardê dos anos 1970, Manfredo Tafuri foi o primeiro intelectual no campo da história e crítica da arquitetura entender que não era mais possível para os intelectuais para abordar a questão das mudanças sociais e culturais provocadas por desenvolvimento capitalista de uma perspectiva externa. Na verdade, para Tafuri não havia posição externa no capitalismo, uma vez que sua a totalidade era constituída pela realidade do "trabalho assalariado", que também incorporou o papel do intelectual. Consequentemente, ele entendeu que uma crítica ao capitalismo só poderia ser produzido de dentro, a partir das categorias e formas através das quais eram - conscientes ou inconscientes - mediando culturalmente os efeitos da continuação do programa capitalista produção ou participando de sua reificação. Para Tafuri, e para aqueles que influenciaram sua crítica, esta nova condição significava que qualquer discurso crítico e político precisava, antes de mais nada, ser dirigido a intelectuais como trabalhadores em vez de "outros" (trabalhadores), contradizendo a ideia de que o social e político mandato dado ao intelectual pode ser dado como certo." AURELLI 2010 

Essas são questões complexas, que na verdade envolvem; alienação, objetividade, subjetividade, construção utópica compartilhada, que povoam as ações do plano e do projeto desde tempos imemoráveis. O que me parece claro é o enorme retrocesso que sofremos nesse campo desde a emergência do neoliberalismo, as décadas de sessenta, setenta e oitenta do século XX apontavam novas possibilidades produtivas, mediadas por um profundo reformismo, que hoje aparece solapado pela ética do capitalismo único. Tais condições tem determinado imensos índices de concentração de renda, e uma sensação de proximidade de um desastre de escala planetária, onde o futuro das próximas gerações é colocado em risco por um desenvolvimento predatório. O campo do plano e do projeto precisa problematizar essas questões urgentemente, do contrário estaremos caminhando para a supressão do mosso gênero.

NOTAS:

(1) O Rheinische Zeitung foi um jornal de um cunho reformista e liberal, que se opunha ao autoritarismo prussiano, na cidade de Colônia. O jovem Marx escreveu textos contra a censura da imprensa, o conflito entre o arcebispado de Colônia e o governo, a legislação sobre o divórcio, a miséria dos vinhateiros do Mosela e a questão do furto de madeira naturalmente caída nas florestas recém cercadas, que haviam sido criminalizados pelas leis burguesas, que já foi comentado aqui no blog. Em outubro de 1842, Marx se transforma no editor chefe da Gazeta Renana, nesse momento o número de assinantes do jornal que era de 800, em novembro sobe para 1.800, e em dezembro para 3.400 assinaturas.

(2) AURELLI 2010, num texto com o título de, Recontextualizing Tafuri's Critique Of Ideology, aponta as iniciativas da Olivetti, na busca de outro arranjo produtivo;  "O protótipo cultural desta onda do reformismo socialista foi a afirmação de Adriano Olivetti na revista da empresa "Comunità", de uma tentativa de transformar uma fábrica em um campus cultural que elevou a produção como possível habilidade de uma sociedade socialmente sustentável e culturalmente articulada na comunidade. Olivetti envolveu não apenas gerentes, mas também artistas, designers e escritores no trabalho em sua fábrica. A intenção da Olivetti era demonstrar, por um lado, a natureza intrinsecamente racional da produção e por outro a possibilidade de um novo humanismo social baseado no desenvolvimento da indústria." (tradução minha do texto original a seguir); "The cultural prototype of this wave of socialist reformism was the affirmation of Adriano Olivetti's "Comunità," an attempt to transform a factory into a cultural campus that elevated production as the possibility of a socially sustainable and culturally articulated community. Olivetti involved not only managers but also artists, designers, and writers in the work at his plant. The intent of Olivetti was to demonstrate on the one hand the intrinsically rational nature of production and on the other the possibility of a new social humanism based on industrial development."

BIBLIOGRAFIA:

ARGAN, Giulio Carlo - História da Arte como História da Cidade - Editora Martins Fontes São Paulo 1992

AURELLI, Pier Vittorio - Recontextualizing Tafuri's Critique Of Ideology - Anyone Corporation, https://www.jstor.org/stable/41765325

NETTO, José Paulo - Karl Marx, uma biografia - Boitempo São Paulo 2020

TAFURI, Manfredo - Projeto e Utopia, arquitetura e desenvolvimento do capitalismo - Editora Presença Lisboa 1985

ZUBOFF, Shoshana - A era do capitalismo de vigilância, a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder - Editora Intrinseca Rio de Janeiro 2020