sábado, 8 de fevereiro de 2020

Os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas e a Arquitetura

Os dezessete Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)
da ONU
Em 2015 a Organização das Nações Unidas (ONU) fixaram 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), para que em 15 anos eles sejam atingidos por todas as nações do mundo, principalmente as 150, que o assinaram. É um desafio imenso colocado pela ONU, e, pelo estágio atual de penetração na sociedade da mentalidade neoliberal considera-se difícil seu alcance, principalmente no que se refere a uma melhor distribuição de renda. É um fato comprovado por diferentes estudiosos, que a concentração de renda tem se intensificado, nos últimos anos determinando que poucos tenham muitos recursos. Tal situação decorre de uma série de desregulamentações, que foram implantadas em nossa contemporaneidade por essa mentalidade, que vem de forma sistemática endemonizando o Estado, e celebrando a iniciativa privada. É importante firmar que historicamente a figura do Estado com sua arrecadação de impostos e a promoção de urbanidade, educação e saúde universalizadas é a  forma conhecida de promoção de divisão de renda. Segundo a OXFAM, organização da sociedade civil criada no Brasil em 2014, que apresentou relatório para a tradicional reunião de Davos na Suíça em janeiro de 2020 "...em 2019, os bilionários do mundo, que somam apenas 2.153 indivíduos, detinham mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas." Tal situação confronta de forma veemente uma série dos 17 ODS da ONU, e principalmente o seu primeiro; "Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares."

Mas de uma maneira geral, a sociedade contemporânea, e particularmente a brasileira não consegue fazer as conecções desses objetivos com nossa condição espacial do mundo de hoje, em nossas cidades e na forma como ocupamos o território do planeta. Esse artigo pretende exatamente relacionar cada um dos dezessete ODS, com nossa concepção do que é o "bem viver"(1) e a "boa cidade"(2). As formas de produção e reprodução da cidade contemporânea, e a maneira como encaramos a boa moradia foram geradas em outros tempos da humanidade, aonde os recursos do planeta como os combustíveis fósseis ou os mananciais de água doce pareciam intermináveis e inesgotáveis. O modelo anglo saxão de cidade com subúrbios jardins de baixa densidade, próximos da natureza, afastados dos centros urbanos com o uso exclusivo habitacional, contraposto às centralidades dominadas pelo uso do trabalho e da concentração de empresas continuam dominando o senso comum (3) como o paradigma do "bem viver". O rodoviarismo continua sendo celebrado de uma maneira irresponsável, na perspectiva inocente ou as vezes interessada de que a transformação do combustível de fóssil para o elétrico garantirá carros para todos. Comprovando a presença dessa mentalidade basta vermos os imensos investimentos feitos na China contemporânea para incrementar o uso do carro particular para todos. Imensas estradas para automóveis particulares, complexos de viadutos que articulam variadas interconexões, imensas torres de escritórios com vidros espelhados, complexos comerciais concentrados e pontuais continuam fazendo a fantasia do cidadão comum em todos os quadrantes. Esse fetiche da boa vida urbana permanece sendo a representação do bem viver em diferentes pates do mundo, isto é, uma cidade dispersa de baixa densidade, dependente do automóvel particular e centrada numa vida competitiva e pouco solidária. Enfim, um desastre social e ambiental anunciado. 

Mas listemos os ODS. O primeiro fala literalmente em extinção da pobreza, e decreta; "Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares." Em nossas cidades aonde encontramos a pobreza; em favelas ou bairros precarizados que não desfrutam da plenitude dos serviços urbanos, faltando infraestruturas básicas, tais como água, esgoto, lixo, segurança, iluminação, lazer, educação, habitação salubre, saúde, etc. A implantação desses serviços deve ser fruto de um projeto de urbanização, um ordenamento territorial que permita a promoção da salubridade geral e ao mesmo tempo preserve os esforços já empreendidos pela comunidade. Por outro lado, é importante a produção habitacional para todos em condições de urbanidade apropriada, garantindo que não haja mais moradores de rua.

O segundo, menciona; "Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável." Especialistas de diferentes tendências apontam que o incremento dos preços dos alimentos é invariavelmente decorrência direta do seu transporte em grandes distâncias. A implantação de micro-hortas urbanas a partir do associativismo de condomínios de apartamentos e nas favelas e bairros precarizados me parece ser a fórmula que garantiria proximidade entre produção e consumo no setor de alimentos, garantindo preços mais acessíveis.

O terceiro objetivo sustentável decreta; "Assegurar uma vida saudável e promover o bem estar para todos em todos os lugares." Devemos promover uma urbanidade que incite o caminhar diário em calçadas e travessias seguras, promovendo a articulação de modais de transportes ativos, como bicicletas. Estruturar áreas de lazer e de promoção de exercícios ao ar livre próximo de todas as habitações da cidade, enfatizando o convívio social nas diversas horas do dia.

O quarto; "Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos." A escola deve possuir uma certa centralidade no ambiente urbano sendo um elemento aglutinador no bairro ou contexto que se insere, devendo estar próxima de um caminhada curta, mesmo para as crianças. A ideia dos CEUs em São Paulo, ou os CIEPs no Rio de Janeiro, ou ainda os CIACs pelo Brasil é o que o simbolismo de suas construções representavam essa centralidade, aonde se podia praticar esportes, se informar e interagir com a comunidade. 

O quinto ODS é "Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas". A cidade que tenha claro em sua espacialidade o empoderamento de todas as mulheres e a igualdade de gênero é um ambiente urbano acolhedor, de intimidade e que transmita conforto. O acolhimento deve acontecer em situações variadas, quando caminhamos, atravessamos, pedalamos, dirigimos, buscamos o transporte público, etc. São situações cotidianas nas quais nos achamos seguros e acolhidos pela ambiência e pelas outras pessoas, é o desfrute de uma gentileza urbana que se manifesta em todas nossas operações.

O sexto; "Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos." Se refere a gestão de nossos mananciais de água, como rios, praias e baías, garantindo não só sua potabilidade, mas também sua balneabilidade. Essa gestão é impulsionadora de saúde para a população e reforça todos os outros ODS. A água deve ser entendida como elemento da paisagem urbana, e mostrada, e apreciada em todo seu dinamismo, nas épocas de chuvas ou secas, e na diversidade das marés. Os rios particularmente no ambiente urbano devem ser mostrados e apreciados como elementos da paisagem, entendendo sua dinâmica variada e rica para o meio ambiente.

O sétimo; "Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos." As novas tecnologias de captação, como eólicas e solar devem ser franqueadas no ambiente urbano para todos impulsionando uma economia pulverizada e compartilhada, que associe diferentes agentes nos bairros e comunidades. As soluções devem ser construídas de forma associativa e colaborativa, aglutinando usuários, que a partir de um assessoramento correto optam pela solução mais adequada. Os impactos ambientais e paisagísticos devem ser avaliados de uma forma holística, demonstrando um cuidado com a paisagem construída e natural.

O oitavo; "Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos." Esse objetivo traz logo em seu início, o seguinte texto; "O desemprego global aumentou de 170 milhões em 2007 para cerca de 202 milhões em 2012, dentre eles, aproximadamente 75 milhões são mulheres ou homens jovens." O incentivo a economia criativa, ao empreendedorismo, a multiplicação dos pequenos negócios através do crédito devem ser políticas continuadas, pois são esses empreendimentos que mais geram empregos. O desdobramento disso no espaço deveria ser impulsionar os centros de bairros pulverizados no território, incentivando o comércio localizado.

O nono é; "Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação." O sistema capitalista desregulamentado vem destruindo empregos de forma predatória, desde o final da década de setenta, quando Thatcher e Reagan chegam ao poder na Inglaterra em 1979, e nos EUA em 1981. O neo liberalismo ainda dominante precisa de regulamentação, principalmente no seu braço financeiro, que bloqueia claramente o alcance desse objetivo. Do ponto de vista espacial, as infraestruturas pulverizadas e avessa a grandes concentrações parece ser a atitude que promoverá esse ODS, isto é, ao contrário dos grandes centros de geração ou tratamento de energia ou esgotos, por exemplo, devemos ter essas pulverizadas no território, atendendo pequenas comunidades. Mas, mais uma vez isso contraria uma tendência do sistema capitalista neo liberal, que sempre foi de concentrar empreendimentos, numa vertente inercial monopolista.

O décimo é; "Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles" Como já assinalado essa não é a tendência inercial do capitalismo em sua versão neo liberal, que na verdade vem concentrando renda, e gerando mais desigualdade. O fomento a micro empreendedores locais, o desenvolvimento de um cotidiano de consumo micro localizado, como propõe a permo cultura, isto é a compra de produtos dentro de um raio de proximidade menor possível.

O décimo primeiro é; "Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis". A espacialidade das cidades e dos assentamentos humanos precisam transmitir segurança, resiliência e sustentabilidade. O empoderamento das micro comunidades, bairros ou localidades precisam ser fomentados a partir do debate sobre o plano e projeto desses lugares, desenvolvendo uma consciência local. O debate sobre o vir-a-ser desses lugares precisam ter como premissa a inclusão, que me parece o maior desafio nas condições atuais do desenvolvimento capitalista neo liberal.

O décimo segundo é; "Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis" Esse objetivo é na verdade um desdobramento dos últimos quatro, que serão atendidos a partir do fomento aos pequenos e pulverizados empreendedores.

O décimo terceiro é; "Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos". Os desequilíbrios ecológicos e seus impactos são consequência direta do individualismo empreendedor e do declínio das práticas de solidariedade tão fomentados pela ideologia do capitalismo neo liberal. A reversão dessas práticas, com o fomento do associativismo e da solidariedade parece ser uma urgência contemporânea. A arquitetura e urbanismo que fomente o encontro a interação entre pessoas e agentes, como se celebrasse a diversidade das pessoas e opiniões possui um papel relevante aqui.

O décimo quarto é; "Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável". Os teóricos DARDOT E LACVAL 2017 destacam de forma correta, o papel dos mares e oceanos como um patrimônio comum da humanidade, que resiste a seu cercamento e privatização pelo capitalismo. A exploração racional e solidária dessa imensa espacialidade é fundamental para se atingir o objetivo anterior.

O décimo quinto é; "Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade". DARDOT e LACVAL 2017 também apontam as florestas, parques e ecossistemas como patrimônio comum da humanidade, que não pode ser cercado e privatizado. O Comum é um conceito jurídico, que emerge do juízo consuetudinário, que é a naturalização de nossa compreensão da justiça, que compreende esses espaços como pertencentes a todos.

O décimo sexto é; "Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis" Mais uma vez a espacialidade correspondente a esse objetivo deveria ser a representação da transparência e do republicanismo, fornecendo ou facilitando todas as informações aos cidadãos comuns. A paz e a reunião das diferenças humanas é claramente celebrada aqui, e possui sua correspondência espacial nos territórios adequados ao encontro e a interação.

Por último, o décimo sétimo é; "Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável". Percebe-se mais uma vez a falta de um maior poder de síntese na elaboração dos 17 ODS, uma vez que muitos deles me parecem repetidos, gerando uma certa dispersão pelo número excessivo de objetivos. A representação espacial desse último objetivo é uma repetição do anterior, aonde a união dos povos e a diversidade de opiniões devem ser adequadamente fomentadas.

NOTAS:


(1) O conceito de bem viver é uma disputa ideológica em torno de padrões de vida. ÁBALOS, Iñaki em seu livro La buena vida, visita guiada a las casas da modernidade aponta o morar moderno como constituído por retiro edílico e proximidade da natureza. Esse padrão se adapta aos novos paradigmas ambientais?

(2) O modelo de cidade, ou sua cristalização numa tipologia permanece preso ao referencial romântico moderno, aonde a habitação está próxima aos idílios naturais, gerando baixa densidade no morar e alta concentração do trabalho; a cidade estado unidense.

(3) A ideia de senso comum aqui compartilhada provém de GRAMSCI, que em geral entendia-o vinculado a ideologia mais difundida e com frequência partilhada pelo grupo social dominante. No Dicionário Gramsciano; "Em geral, trata-se da ideologia mais difundida e com frequência implícita de um grupo social de nível mínimo. Por isso, ele se relaciona dialeticamente com a filosofia, isto é com o segmento alto da ideologia..." LIGUORI  e VOZA 2017 página723

BIBLIOGRAFIA:

ÁBALOS, Iñaki - La buena vida, visita guiada a las casas da modernidade - Editorial Gustavo Gilli Barcelona 2000

DARDOT, Pierre e LACVAL, Christian - Comum, ensaio sobre a revolução no séculoXXI - Editorial Boitempo São Paulo 2017

LIGUORI, Guido e VOZA, Pasquale orgs. - Dicionário Gramsciano - Editora Boitempo Saõ Paulo 2017

domingo, 19 de janeiro de 2020

Ciclos históricos na América Latina, a partir do século XX, um projeto de continente e a questão indígena

A América Latina e suas afinidades nos ciclos históricos
A América Latina compartilha ciclos históricos semelhantes, desde os diferenciados processos de independência dos seus países ainda no século XIX, quando no período de 1808 a 1829 há a formação dos diversos países da América Ibérica. Na verdade, a Espanha e Portugal, perdem uma área colonial imensa nesse período do século XIX, que vai da Patagônia até uma parte substancial do território do atual Estados Unidos, que então fazia parte do Vice Reinado da Nova Espanha (México), que ia muito além da hoje Califórnia. A Espanha manterá apenas Cuba e Porto Rico como suas colônias até 1898, que com a Guerra Hispano-Estado Unidense, que procurou afirmar um anti colonialismo convencional, promovendo o que se padronizou chamar do neocolonialismo da emergente e nova potência. Nesse momento, a história latino americana já mostra grande afinidade, pois as elites promotoras da libertação mantém as populações das novas nações a margem dos processos de descolonização, demonstrando uma profunda demofobia, no seu nascedouro. Esse mesmo temor da massificação dos processos de independência contamina, na verdade, todo o continente americano, incluindo as treze colônias Estado Unidenses, que se separam da Inglaterra ainda no século XVIII (1776). A então proclamada democracia americana, apesar de influenciada pelo iluminismo, jamais se aproximou da radicalização do processo revolucionário, que ocorrerá na França em 1789, treze anos depois. Vários historiadores de diferentes tendências apontam as inclinações restritivas com relação a participação popular nas democracias do Novo Mundo, articulado com as declarações de independência dos diferentes países.

Essa característica determinará no Novo Mundo, um certo alijamento das massas populares fazendo da democracia um regime de elites isoladas, que em diferentes nuances sempre perpassou as democracias em nosso continente. Mas iniciado o século XX, os países latino americanos seguem um padrão de ciclos históricos, que se repetem de diferentes formas da patagônia ao Rio Bravo no México. Com diferentes gradientes de autonomia e heteronomia, os projetos nacionais alternam uma subordinação ao irmão mais poderoso do norte, os Estados Unidos, ou a explicitação de um projeto construtor de uma efetiva independência, sempre precária e descontínua. Dentro de uma perspectiva de auto construção de um projeto de autonomia para os países latino americanos podemos identificar quatro ciclos, ao longo do século XX. O primeiro, de 1920 até meados dos anos 1930, no qual impera uma crença numa transformação radical simultaneamente, socialista, democrática e anti-imperialista, muito pautada pela Revolução Russa. A insurreição de 1905 a 1917, na Russia trazia uma promessa para as nações deixadas para trás pelo desenvolvimento capitalista mais vigoroso, afinal o grande império dos Czares ainda estava preso numa economia pré-capitalista, e tinha conseguido fazer uma revolução socialista. O segundo ciclo, que vai de meados de 1930 até 1961, aonde predomina uma visão soviética, ortodoxa e stalinista da obtenção da autonomia latino americana, e que proclama um certo etapismo para a transformação, no qual seria necessário primeiro fazer a revolução burguesa. Para então desenvolver a classe operária na América Latina, e só assim empreender a revolução socialista, partia-se de um etapismo rígido, que tinha uma premissa baseada na crença da capacidade de revolução, das burguesias nacionais. O terceiro ciclo, se inicia com a Revolução Cubana em 1961 e se encerra com a queda do Muro de Berlim em 1989,e se caracteriza pela crença na conquista pelo poder a partir da guerrilha armada. Nesse terceiro ciclo, uma minoria radicalizada propõe a tomada violenta do poder a partir da estratégia da guerrilha, tendo como exemplo a vitória de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e sua turma contra a ditadura de Batista, em Cuba. Por último, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fracasso do bloco soviético em 1991 inicia-se um processo de valorização da democracia como um princípio básico de convivência com a diversidade. Num texto ainda de 1979, Carlos Nelson Coutinho já afirmava o valor universal da democracia, como uma alternativa ao modelo soviético, ou do socialismo real, que haviam vivido experiências de democracia direta, como os sovietes, mas que se burocratizaram e se encastelaram num isolamento do poder. Nesse mesmo texto, citando Enrico Berlinguer, Secretário Geral do PCI, num discurso de 1977 em plena Moscou por ocasião dos festejos oficiais dos 60 anos da Revolução de Outubro, já destacava;

“A democracia é hoje não apenas o terreno no qual o adversário de classe é obrigado a retroceder, mas é também o valor historicamente universal sobre o qual fundar uma original sociedade socialista”. COUTINHO 1979 página35 

Nesse sentido, a experiência chilena do governo popular de Salvador Allende (1970-73) é uma experiência notável, dotada de um caráter vanguardista para os tempos de sua ocorrência, e por sua concepção de reconhecer na democracia a explicitação do conflito, que é contínuo e impossível de ser suplantado pela decretação do socialismo. Como um ponto fora da curva das tendências majoritárias, a experiência do governo popular no Chile envolve claramente a pretensão de construção de uma autonomia efetiva, não apenas relativa a potência do norte do continente, mas também ao domínio soviético. Interessante também notar, que ao longo dos quatro ciclos apontados acima há sempre a presença de um gradiente entre uma certa intensidade de euro-centrismo, sempre contraposto pelas teses do excepcionalismo indo-americano de alguns teóricos. Desde a Aliança Popular Revolucionária Americana  (APRA) peruana de Haya de la Torre(1) até José Carlos Mariatégui(2), ou Carlos Manoel Cox(3), ou ainda Alejandro Martinez Cambero(4) percebe-se o embate entre teses eurocêntricas e o excepcionalismo indo-americano. Sem dúvida nenhuma, a questão indígena, em suas complexas proposições nas diferentes sociedades latino americanas é um dos pontos mais importantes no projeto de construção de uma efetiva autonomia desses países.

NOTAS:

(1) Victor Raúl Haya de la Torre (1985-1979) político peruano fundador da APRA
(2) José Carlos Mariategui (1894-1930) escritor, jornalista marxista peruano, com um pensamento bastante original dentro dessa tradição, que escreveu;  Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana
(3) Carlos Manuel Cox (1902-1986) advogado, economista e político aprista no Peru
(4) Alejandro Martinez Cambero (1916-1999) advogado poeta mexicano

BIBLIOGRAFIA:

COUTINHO, Carlos Nelson - A democracia como valor universal - captado no site https://www.marxists.org/portugues/coutinho/1979/mes/democracia.htm em janeiro de 2020

LÖWE, Michael - O marxismo na América Latina, uma antologia de 1909 aos dias atuais - Expressão Popular Perseu Abramo São Paulo 2016


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A Revolução Cubana; e um projeto comum e compartilhado para a América Latina

Ernesto Che Guevara e Fidel Castro, com menos de trinta
anos conquistam o poder em Cuba
Além do primeiro dia do ano, o dia 01 de janeiro de 2020 comemora  os 61 anos da Revolução Cubana, que alcançou Havana vitoriosa em 1959 nesse mesmo dia. Longe da perfeição ou da celebração acrítica, a Revolução Cubana construiu índices invejáveis em relação com outros países latino americanos; inexistência de crianças fora das escolas, um serviço de saúde pública
universalizado e invejável mesmo em relação a países super desenvolvidos, e analfabetismo zerado. Passados 61 anos, ela nos traz a um debate importante em nosso mundo contemporâneo, haveriam áreas ou regiões de nosso planeta que representam unidades históricas e geográficas, que compartilham passados comuns? E, que por isso se constituiriam em unidades solidárias, que compartilham anseios e desejos comuns? A América Latina do sul do Rio Bravo até a Patagônia se constituiria nessa unidade histórica e geográfica, que compartilha passados comuns, e portanto anseios de autonomia comuns. A Revolução Cubana, em seu tempo produziu essa identidade com uma certa celebração da conquista do Estado por meio violento, a partir da guerra de guerrilhas, que de certa forma já foi superado (0), mas a mensagem de construção autônoma dos países latino americanos ainda permanece atuante.

É claro, no entanto que tal construção jamais poderia ser tocada por um governo como o de Jair Bolsonaro, que não se remete a coletivos, não se considera representativo de nenhum grupo, mas apenas afirma uma vontade de destruição do anteriormente constituído, celebrando um anti intelectualismo, um espontaneísmo anti científico e primário. O próprio economista Paulo Guedes, que se diz ligado a Escola de Chicago foi recentemente classificado por seu colega Pérsio Árida como um desqualificado. Em setembro de 2018, Arida declarou ao jornal O Estado de S. Paulo que “Paulo Guedes é um mitômano (…). Nunca escreveu um artigo acadêmico de relevo e tornou-se um pregador liberal. (…) Ele nunca dedicou um minuto à vida pública, não tem noção das dificuldades. Partiu para uma campanha de difamação que é de um grau de incivilidade que não se vê em outro assessor econômico”.  Envolvido em acusações de fraudes em fundos de pensão, Guedes pode ser classificado sem erro como um representante de si mesmo.(1) Enfim, o governo Jair Bolsonaro, por característica inata, é avesso a qualquer projeto coletivo de longo prazo, que a União Latino Americana poderia vir a representar.

"Não é classe, não é coletivo, não forma grupos. Não há previsibilidade ou rotina possível em um conjunto de indivíduos para os quais vigoram as saídas individuais e a disputa de cada um contra todos." (2)

Mas deixemos passar esses quatro anos de desconstrução desse governo torpe e despreparado, avesso a solidariedades ou projetos de identidade coletiva ou de mais longo prazo. Devemos lembrar que a identidade latino americana é uma construção, que não se iniciou com a Revolução Cubana, ela retrocede a tempos anteriores, como no texto abaixo de 1924;

"Formar uma frente unida é executar um ato de solidariedade no que diz respeito a um problema concreto e uma necessidade urgente. Isso não significa renunciar às teorias que cada partido sustenta nem à posição que cada um ocupa na vanguarda. Uma variedade de tendências e de grupos bem-definidos e distintos não é um mal; ao contrário, um sinal de um período avançado no processo revolucionário. O que importa é que esses e essas tendências saibam como agir concertadamente ao confrontar a realidade do dia... Que não empreguem suas armas... para ferir um ao outro, mas para combater a ordem social, as suas instituições, as suas injustiças e os seus crimes." MARIÁTEGUI citado em LÖWE 2016 página65 

O texto acima é uma citação de um marxista peruano conhecido, José Carlos Mariátegui, em 1o de maio de 1924, defendendo a ideia de uma frente única, uma proposição que passados noventa anos segue sendo importante para os países latino americanos. Principalmente, para aqueles que lutam por um desenvolvimento com maior inclusão social, um projeto que rompe com a inércia de nossas histórias, que sempre se pautaram por uma dinâmica de submissão aos ditames internacionais. Um desenvolvimento autônomo, que inclua a maioria de sua população, e não apenas uma minoria de privilegiados. Na verdade, desde os diferenciados processos de independência do colonialismo ibérico percebe-se nos países latino americanos, que uma minoria se apropria do Estado, usando-o em seu benefício. Uma das características mais marcantes de nossas histórias, apesar de suas diferenças e especificidades, é a ausência de uma elite pensante autônoma, que não estivesse desde a independência comprometida com os mecanismos do império, sejam às antigas ou novas metrópoles. A presença e proximidade dos Estados Unidos no mesmo continente, nação hegemônica e central no sistema capitalista mundial condicionou uma dependência cômoda, que bloqueou a construção autônoma de um projeto de inclusão geral, mantendo o processo econômico capitalista restrito a uma minoria privilegiada. A construção de um bloco de países latino americano deveria se esforçar para contemplar pelo menos economias como as da: Argentina, Brasil, Bolivia, Colômbia, Chile, México, Paraguai, Perú, Uruguai e Venezuela.

Todas essas nações são manifestações de um desenvolvimento capitalista tardio, desigual e combinado, apresentando cidades nas quais a inequidade é um fato, que está emblematicamente representada em baixos indices de saneamento, coleta precária de lixo, déficit habitacional, periferias precarizadas, transportes públicos deficientes e caros, patrimônio dilapidado, etc.... Todos esses sintomas demonstram um desenvolvimento sem autonomia própria, que atendeu a interesses exteriores articulados com elites exclusivas, que não souberam generalizar seus benefícios. A espacialidade latino americana, principalmente em suas grandes cidades manifesta esse estágio da distribuição desigual do desenvolvimento. A divisão social do trabalho, no sistema produtivo contemporâneo condenou à exclusão parcelas significativas das suas populações, que não conseguem acesso a; saneamento básico, habitação, segurança, coletas de esgoto e lixo, iluminação, transporte público, etc... Uma urbanidade incompleta, desigual e combinada. No regime atual de desenvolvimento do mundo percebe-se uma clara produtividade socializada e disseminada no mundo, enquanto sua apropriação é particularizada e individualizada num universo restrito. Tal regime fez com que a concentração de renda se disseminasse pelo mundo de uma maneira explosiva, gerando indices nunca vistos de excluídos e deixados a margem. Reverter essa tendência e incluir parcelas expressivas da nossa população estava no programa da Revolução Cubana, no Governo da Unidade Popular de Allende e segue sendo uma demanda importante para a América Latina.

NOTAS:

(0). Um texto clássico de Carlos Nelson Coutinho de 1979, tem como título; A Democracia como valor universal, e procura reforçar o vínculo estreito entre democracia e socialismo, que não foi realizado no modelo soviético. Em 1994, o talentoso jornalista mexicano Jorge Castanheda publicou A utopia desarmada, que também aborda como a conquista violenta do poder condicionou um modelo autoritário do seu exercício. Interessante também destacar, que a experiência de acesso ao poder por meio do voto universal ocorreu no Chile com a coalizão de esquerda comandada por Salvador Allende, a Unidade Popular, que foi destituída a força pelo General Augusto Pinochet em 1973, num golpe de Estado violento, comandado pela direita.
(1). Retirado de reportagem do Le Monde, intitulada ¨O lumpesinato no poder - Bolsonaro,100 dias¨. Especial da edição digital de Le Monde Diplomatique Brasil, assinada por Gilberto Maringoni e Artur Araujo.
(2). Retirado da mesma reportagem do Le Monde.

BIBLIOGRAFIA:

LOWE, Michael (org.) - O Marxismo na América Latina, uma antologia de 1909 aos dias atuais - Expressão Popular: Perseu Abramo São Paulo 2016


sábado, 28 de dezembro de 2019

Uma Banca de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), notável

Banca de arguição da aluna Priscila Rembischwski (em pé), com os 
professores Roberto Lucas Junior (co-orientador), Vera Hazan (orientadora) 
e Fernando Betim, sentados
Uma das vantagens de ser professor universitário no ensino de arquitetura no Brasil é poder desfrutar de uma visão crítica sobre o desenvolvimento da ocupação do espaço em nossa sociedade, e suas consequências para o meio ambiente, a economia, e a nossa sociabilidade. Um dos momentos aonde isso se materializa são nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), nas escolas de arquitetura, quando alunos recortam um problema e constroem um plano ou projeto, que enfrentem suas dimensões de forma inteligente e sensível. Numa quarta feira, dia 11 de dezembro de 2019 fui convidado para participar da banca de TCC da aluna Priscila Rembischewski, no Curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio, juntos com os professores Vera Hazan (orientadora),  Fernando Betim, e Roberto Lucas Junior (co orientador). Em novembro participei da banca preliminar dessa aluna na PUC-Rio, e já havia percebido o enorme potencial didático e revolucionário da sua proposta.

O projeto se insere no campo do tratamento dos efluentes, ampliando sua visibilidade para a população, e articulando isso com a criação de um parque no centro da cidade de Itaboraí, um  município da periferia metropolitana do Rio de Janeiro. O título, PARQUE EM ITABORAÍ, UM NOVO OLHAR PARA O TRATAMENTO DE EFLUENTES, retrata com precisão a necessidade de mudança de práticas arraigadas em nossa sociedade ocidental. A potência do trabalho nasce exatamente do seus esforço para trazer visibilidade ao problema de nossos mananciais, rios e corpos hídricos de nossas cidades, que seguem sendo maltratados pelo esgoto gerado diariamente em nossas residências.

Maquete do trabalho, mostrando o Parque e o centro da cidade de Itaboraí
Num tempo, em que a questão ambiental ganha uma dimensão central como problema maior de nossa geração e das futuras, uma vez, que nosso planeta já começa a apresentar sinais de estresse na questão climática, a proposta de Priscila sintetiza a verdadeira dimensão crítica do projetar. O paradigma ambiental nos aponta para novas formas de convivência com os ritmos da natureza, entendendo nossas práticas do dia a dia como necessitadas de reeducação. A partir da presença do rio Vargem, que corre em direção a Baía de Guanabara, e passa junto ao antigo centro da cidade de Itaboraí, aonde estão localizados, o Teatro João Caetano e a Matriz de São João, edifícios emblemáticos do casco histórico da cidade. Num terreno, de uma antiga olaria desativada com 300 mil metros quadrados, o projeto de Priscila implanta "wetlands construídos", lagoas de despoluição, dando visibilidade ao processo de saneamento e gerando um imenso parque urbano didático. No sentido, que explicita para o conjunto da população processos de despoluição das águas a partir da fitorremediação, gerando ao mesmo tempo pontos de amenidades e lazer.

"A fitorremediação é o processo que utiliza as plantas como agentes de purificação de ambientes aquáticos ou terrestres, com a remoção dos poluentes por meio das raízes, que drenam os efluentes." REMBISCHEWSKI, Priscila página 11

Na verdade, o encanto do trabalho de Priscila Rembischewski está numa relação dialética entre paisagem e sociedade, que me parece notável, aonde ambos assumem um caráter processual de auto-ensinamento contínuo e mútuo. A proposta também dimensiona um gradualismo de implantação, ao longo do leito do Rio Vargem até sua foz na Baía de Guanabara, que também trabalha com a dimensão da sensibilização e mobilização do conjunto da população para o problema das águas urbanas. Enfim, um trabalho, que explicita toda a capacidade crítica presente no ato de projetar e pensar o vir-a-ser de nossas cidades e atitudes. Muito bem explicitada na primeira citação de seu caderno apresentado aos membros arguidores, na banca intermediária em novembro de 2019;

"Se a paisagem é registro da transformação da sociedade, será normal que se a sociedade mudar, mude com ela a paisagem." DOMINGUES 2009 página23

BIBLIOGRAFIA:

DOMINGUES, Álvaro - Paisagem e Identidade, a beira de um ataque de nervos - in COSTA, Pedro Campos (org.) Duas Linhas Lisboa 2009

REMBISCHEWSKI, Priscila - Parque em Itaboraí - Caderno da Banca Intermediária da Banca de TCC PUC-Rio 2019

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Arquitetura Moderna Brasileira, uma crise em desenvolvimento, um livro notável

Cartaz do lançamento do livro de Ana Paula Koury
No dia 03 de dezembro de 2019, uma terça feira chuvosa no Rio de Janeiro foi o lançamento do livro da Ana Paula Koury sobre Rodrigo Lefèbvre na sede do IAB-RJ, na rua do Pinheiro, 10 no bairro do Flamengo, ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA, UMA CRISE EM DESENVOLVIMENTO. Um livro notável, que se debruça sobre um período da arquitetura brasileira, que parece esquecido por nossa historiografia recente e pelas gerações mais novas de arquitetos e estudantes. Um período, que se sucedeu a construção de Brasília a nova capital do Brasil e o Golpe Civil-Militar de 1964, e envolveu figuras como Rodrigo Lefèvre, Flávio Império, Sérgio Ferro em São Paulo, e Carlos Nelson dos Santos e João Ricardo Serran ou Joca Serran no Rio de Janeiro. Figuras, que emergem e convivem com arquitetos personalistas e calcados no mecenato, como; Vilanova Artigas, Lucio Costa e Oscar Niemyer, dentre outros. Um período, e uma geração que iniciaram uma revisão crítica importante, que com a tendência brasileira de se desfazer e desprezar sua própria história nos indica, a perigosa possibilidade de repetição de erros.

Essa geração enfrentou, em meados dos anos sessenta a perda das liberdades democráticas e repetidos constrangimentos às suas expressões e posicionamentos, foram presos e exilados, mas apesar disso nos legaram uma reflexão importante no campo da teoria do projeto e da construção da nação. O país se defrontava com a massificação da contratação do plano e do projeto, instrumentos fundamentais na ampliação da participação societária na definição de seu futuro. O plano e o projeto ainda representavam documentos respeitáveis de antevisão das intervenções solicitadas, iniciando um processo de ampliação dos agentes indutores das suas definições. A profissão e o ofício do urbanismo e da arquitetura, como formuladora de planos e projetos era ainda considerada como uma elite intelectual, capaz de sintetizar e debater os grandes temas nacionais. A modernidade de Brasília expressa em seu traçado e em sua arquitetura contrastava com as formas arcaicas de contratação do precariado brasileiro, que povoava os canteiros de obras, e ficou relegado as periferias das cidades satélites. A convivência entre a face modernizadora superficial e o arcaísmo das relações entre topo e base da pirâmide social se explicitava de maneira emblemática nos canteiros de obra da nova capital, era uma modernização por cima, sem que o conjunto social o desfrutasse. A geração de Rodrigo Lefèvre, Sérgio Ferro, Carlos Nelson dos Santos e Joca Serran tomou consciência dessa realidade e a discutiu, a partir de suas pranchetas, com os instrumentos do nosso ofício.

De certa forma, a ausência de uma maior sinergia e interação entre a arquitetura paulista e a carioca já pode ser identificada nesse momento, pois ao final pelo que sei as citações mútuas entre esses autores são inexistentes, apesar da similaridade de abordagens e reflexões. Duas cidades afastadas por apenas 450 quilômetros simplesmente não se liam, e ainda não se leem mutuamente. A vertente paulista se mantém mais presa aos aspectos tecnológicos, produtivos e construtivos, enquanto a carioca se envereda mais por questões de composição, uso e uma sociologia aplicada. Apesar disso, ambas conseguem reconstruir um campo específico do urbanismo e da arquitetura, sempre centrados nas ações de plano e projeto. Basta para tal checarmos as páginas de A Cidade como jogo de cartas de Carlos Nelson dos Santos, ou O IAB e a política habitacional de Joca Serran, ou ainda os textos de Sérgio Ferro e de Rodrigo Lefèvre. Há nessa geração uma preocupação comum para entender a arquitetura e o urbanismo como uma linguagem construtiva disponível para todos e manipulável socialmente. A arquitetura das favelas e da auto construção, as formas de apropriação social do discurso erudito das escolas de arquitetura, a assimilação das técnicas do concreto armado, e a produção da cidade brasileira, enfim arquitetura como linguagem.

O relacionamento da velha geração e a nova, com o nacional-desenvolvimentismo e a formulação de uma nova postura de desenvolvimento nacional-popular, que permanece em nossa pauta contemporânea, me parece a contribuição maior do livro de Ana Paula Koury, que traz de novo a tona um debate fundamental da nossa arquitetura. Uma marca na transição entre, "a passagem de um projeto nacional-modernizador-autoritário para outro nacional-democrático-popular." Uma bela e necessária reflexão para a cidade e a arquitetura brasileira. 

Vale a leitura...

BIBLIOGRAFIA:

KOURY, Ana Paula, org. - Arquitetura Moderna Brasileira, uma crise em desenvolvimento, textos de Rodrigo Lefèvre (1963-1981) - Editora da Universidade de São Paulo Edusp 2019 São Paulo

SANTOS, Carlos Nelson dos - A cidade como jogo de cartas - editora Projeto Eduff 1987 Niterói

SERRAN, João Ricardo - O IAB e a política habitacional - editora 1983 Rio de Janeiro

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Um debate com os economistas do CORECON-RJ sobre a ocupação do território

Pedro da Luz (Presidente do IAB-RJ), Henrique Silveira (Casa
Fluminense), Mireli Malaguti (UFRJ) e Alexandre Jerônimo
(UFRRJ)
Na quarta feira dia 11 de dezembro de 2019 estive no Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro (CORECON-RJ) para apresentar o Congresso da UIA2020Rio e a Capital da Arquitetura Mundial no Rio de Janeiro, e aproveitar para destacar as complexas correlações entre ocupação espacial e economia. A mesa foi composta pelo mediador Henrique Silveira (Casa Fluminenese), pelos economistas Mireli Malaguti (UFRJ), Alexandre Jerônimo (UFRRJ), e por Pedro da Luz Moreira (Presidente do IAB-RJ). A primeira fala foi minha, Pedro da Luz (IAB-RJ), uma vez que fiquei com a incumbência, dada por Henrique da Silveira (Casa Fluminense), de articular desenvolvimento econômico, com território e espaço, na cidade metropolitana do Rio de Janeiro. Um assunto central para as sociedade contemporâneas, e que no Brasil, pelo menos por parte dos políticos oficiais não vem sendo debatido de forma integrada. A macro-política, seja do governo Federal, do Estadual, ou mesmo do Municipal não pensa o espaço e o território, como potencializador de ações de saúde, de educação,  de cultura, de finanças, e de outras, que invariavelmente compõem os programas de partidos de diferenciadas tendências ideológicas nas eleições. E, mais não pensam uma política de estruturação espacial das cidades brasileiras, que promova uma melhor divisão de renda, ou um projeto de inclusão de parcelas significativas da nossa população.

No mercado brasileiro de produção imobiliária, a própria reprodução da cidade brasileira, há um déficit continuado de inacessibilidade à moradia urbana de qualidade, isto é, uma célula familiar, casa ou apartamento, com qualidade ambiental e construída em locais onde ocorram; calçamento, arborização adequada, segurança, iluminação pública, coleta de esgotos, de lixo, distribuição de água e de energia, transporte público, equipamentos de educação, cultura, lazer e saúde, etc... Ao final uma urbanidade de qualidade, aonde as infra estruturas estão universalizadas para todos, permitindo o amplo acesso ao;  calçamento, arborização adequada, segurança, iluminação pública, coleta de esgotos, de lixo, distribuição de água e de energia, transporte público, equipamentos de educação, cultura, lazer e saúde, etc... Na verdade, as cidades brasileiras são marcadas pela presença de territórios, aonde há carência de grande parte desses serviços, seja nas periferias distantes, ou nas favelas. A ideia de formulação de um plano e projeto de país, que universalize o acesso a todas essas infra estruturas é quase uma obsessão do IAB, nacionalmente e nos seus departamentos desde a década de sessenta, quando da discussão das Reformas de Base no Governo João Goulart. Num encontro em 1963, no Hotel Quitandinha em Petrópolis, a rede nacional do IAB já defendia a urbanização de favelas, como parte da política habitacional do país. Os tempos, logo após a inauguração de Brasília marcam no campo da arquitetura e do urbanismo, uma reflexão importante para promoção de um desenvolvimento mais inclusivo, principalmente a partir dos canteiros de obra (1). Esses mesmos canteiros de obras, que marcavam, e ainda marcam, uma profunda divisão técnica e social no país, aonde um precariado desassistido e desinformado produzia nossa arquitetura moderna quase sem equipamentos, mostrando como nossa modernidade se amparava no arcaico.

Nesse mesmo momento, deixávamos uma face agrário-exportadora de produtos básicos para se transformar numa economia urbano-industrial, promovendo uma incrível transformação espacial; de país rural, para urbano. Uma transformação, que na verdade sempre se conciliou com os aspectos arcaicos anteriores, evitando o confronto, mantendo sempre uma elite oligárquica no comando de forma autoritária e autocrática, bloqueando a participação, e portanto a inclusão. Nosso desenvolvimento será sempre exclusivo e restrito a parcelas minoritárias, que sempre defenderam a ideia de; "primeiro temos de fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo"(2). A oitava ou décima economia mundial, o Brasil, manteve sempre um arcaísmo explosivo nas formas de reprodução do nosso precariado, condenado a sobreviver em favelas ou loteamentos irregulares, auto produzindo sua própria moradia. O comando de nossas elites manteve sempre um dualismo exploratório(3) entre arcaísmo e modernidade, que lhe beneficiava junto com uma classe média cooptada pela sub remuneração do precariado, que também lhe garantia serviços inusitados, como em nenhum outro lugar do mundo. A manutenção de entradas de serviços, quartos de empregada e outras peripécias programáticas em nossas modernas edificações multi familiares demonstram a estrutura hierarquizada e segmentada da nossa sociedade. Um testemunho material e físico, contido em nossas cidades, moradias, bairros e vizinhanças da super exploração do nosso desenvolvimento, que permanece fomentando mais concentração de renda.

Por outro lado, nos mesmos anos JK, idealizador de Brasilia o país abraça um rodoviarismo imposto pela moderna indústria fordista das montadoras nacionais e multinacionais de ônibus e automóveis, que passam desde a segunda metade dos anos cinquenta a desestruturar nossa incipiente malha ferroviária. A própria nova capital, Brasília, possui um desenho rodoviarista celebrador da incipiente indústria automobilística,, sem previsão de qualquer estrutura de transportes públicos, imaginando que o automóvel e os ônibus se generalizariam para todos em nossa sociedade. Essa mesma indústria automobilística será impositiva e indutora na adoção da dispersão urbana interminável, gerando periferias precarizadas, sem infra estrutura, aonde a terra urbana barata e o loteamento irregular são as opções para a maioria das nossas faixas de renda. As periferias de São Paulo, do Rio de Janeiro, ou as cidades satélites de Brasília atestam para nós essa experiência, que empurram para longe a pobreza, mantendo os centros como exclusivos, mesmo que já esvaziados.  Esse mesmo rodoviarismo cobrará dos governos investimentos vultosos em avenidas, ruas e estradas, conformando um sistema público de transportes baseado no ônibus para as parcelas menos aquinhoadas e no automóvel particular para os remediados, transformando a cidade brasileira num grande engarrafamento sem igual. O interesse das grandes montadoras, dos monopólios de transporte coletivos em ônibus definiram os investimentos públicos da cidade, aprisionando os investimentos governamentais a sua pauta, muitas vezes contrários as expectativas da maioria.

Portanto é na estrutura física de nossas cidades, moradias, bairros, vizinhanças que a sub remuneração se materializa, condenando parcelas expressivas da nossa população a conviver com dificuldades de saneamento, precariedade de segurança e de transportes. Nesse sentido, as favelas aparecem como um enfrentamento também físico e material às condições inerciais de reprodução da sociedade brasileira. Pois elas, invariavelmente se localizam em centralidades, aonde há empregos e biscates, que pelo menos garantem a sobrevivência de sua população, que resiste aí contra o destino das periferias intermináveis. Também diga-se de passagem, favelizadas, mas sem possibilidade de ocupação próxima, condenando o nosso precariado a um movimento pendular de muitas horas, num transporte público ineficiente e caro. Enfim, o plano ou projeto da cidade brasileira é uma máquina de exclusão de uma parcela expressiva da sua população, que luta por se manter em localidade centrais (favelas) densas, sem infra estrutura e insalubres, ou nas periferias intermináveis (loteamentos irregulares) dispersas e também sem infra estruturas e insalubres. Importante salientar, que crianças de 0 a 2 anos, submetidas a essas condições de insalubridade podem apresentar difterias e diarreias continuadas nesse periodo, comprometendo o desenvolvimento de seus cérebros. Nesse sentido, a política urbana brasileira é semelhante a um genocídio, que cada vez mais incrementa os índices de violência urbana, que atingem mais fortemente nossa classe média. Em termos gerais, as cidades brasileiras são dispersas, ocupando uma área muito maior do que a necessária, induzindo uma deseconomia perversa, aonde pobres pagam mais, e ricos se beneficiam de forma continuada de sua localização nas cidades, sendo menos taxados.

Diante disso tudo, procurei enfatizar que  é necessário a formulação de um outro plano-projeto para a cidade brasileira, buscando pela ordenação espacial e territorial promover divisão de renda, revertendo sua lógica concentradora. Na verdade, grande parte das lutas da redemocratização lutaram pela construção de um acordo jurídico, que permitisse o aprisionamento do lucro imobiliário pelos governos municipais, gerando fundos que permitissem a formulação de uma cidade com mais equidade. Os artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Cidade de 2001 procuravam explicitar o lucro imobiliário, taxando um direito intocável no nosso capitalismo; o Direito de Propriedade da terra urbana. A função social da Propriedade Privada, que tanta luta gerou nos anos constituintes, e que teve sua tese regulamentada em lei no Estatuto da Cidade, apenas em 2001, treze anos após a sua vigência demonstram para nós a resistência da cultura patrimonialista a sua efetividade. Até hoje muito poucas cidades brasileiras conseguiram operar os modernos mecanismos do Estatuto da Cidade para aprisionar o lucro imobiliário, gerando uma cidade mais inclusiva. 

A partir dessas colocações lancei a ideia de que é necessário a formulação de um projeto contra-hegemônico, que mudasse a forma inercial de reprodução da cidade brasileira, combatendo quatro pontos, que induzem a exclusão de parcelas significativas da nossa população:

1. Cidade dispersa e esgarçada.
2. Cidade fragmentada entre diversos extratos sociais e usos compartimentados.
3. Cidade com mobilidade ineficiente, e baixo investimento nos modais de alta capacidade.
4. Cidade predadora do meio ambiente.

Para isso a cidade brasileira deveria reverter sua forma de reprodução continuada, devendo formular ações que buscassem um novo arranjo espacial, capaz de promover a inclusão e a coesão social a partir de um plano-projeto claro e debatido com todos:
 
1. Cidade compacta e densa, que inicie o combate a sua dispersão interminável, enfatizando o papel aglutinador dos antigos centros de nossas cidades, que devem passar a abrigar usos diferenciados.
2. Cidade baseada na convivência da diversidade de classes e usos, que combata a tendência de gerar guetos de pobreza e de riqueza da cidade brasileira.
3. Cidade de mobilidade ampliada, que combata a exclusão determinada a partir da ausência ou tarifação cara do transporte público, com investimento em modais de alta capacidade.
4. Cidade que amplie a visibilidade e a aproximação dos seus biomas particulares com seus cidadãos ampliando seu uso e apropriação.

Depois dessas colocações, os economistas Mireli Malaguti (UFRJ), Alexandre Jerônimo (UFRRJ) teceram considerações sobre as especificidades do desenvolvimento brasileiro, que permanece sem considerar a totalidade de sua população, pretendendo-se exclusivo.

NOTAS:

(1) Figuras como Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro em São Paulo, ou Carlos Nelson dos Santos e Joca Serran no Rio de Janeiro, pautam sua atuação profissional por um afastamento do mecenato dos clientes e para entender a produção popular e disseminada das nossas cidades e abrigos.da Economia.
(2) Formulação explícita do Ministro Delfim Neto no governo do General Castelo Branco, o primeiro da Ditadura Civil-Militar.
(3) O sociólogo Chico Oliveira defendeu que a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) deixou-se aprisionar por uma lógica dualista, aonde a modernidade desenvolvimentista conseguiria a superação do arcaísmo, defendendo que as duas posições conviviam de forma simbiótica na América Latina e no Caribe.

BIBLIOGRAFIA:

KOURY, Ana Paula - Arquitetura Moderna Brasileira, Uma Crise em Desenvolvimento - Edusp São Paulo 2019

OLIVEIRA, Francisco - A economia brasileira, crítica a razão dualista / O ornitorrinco - Editora Boitempo São Paulo 2007