terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mais um debate do 21 Congresso Brasileiro de Arquitetos (21o CBA) sobre o ensino de projeto

No dia 10 de outubro de 2019, no âmbito do 21o CBA ministrei palestra sobre o ensino de projeto na Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF, junto com dois outros colegas, Carlos Eduardo Plens da Universidade do Contestado e William Moog do Programa de Pós Graduação da UFRGS. A minha palestra tinha o título de Apontamentos sobre as aulas de Projeto Executivo no âmbito da EAU-UFF, a do colega Carlos Eduardo Plens; Antártida como abstração de projeto e a de William Moog; Entre Vilas o percurso no ensino de projeto urbano. A diversidade de posicionamentos enriqueceu o debate, conformando um quadro rico e variado das experiências de ensino de projeto numa diversidade de contextos. Em termos sintéticos, minha palestra apresentava os desafios do ensino de projeto executivo, frente a recorrente prática das escolas de arquitetura de se limitar as entregas a fase de anteprojeto. Enquanto, a palestra de Carlos Eduardo Plens abordava o desafio de se projetar na Antártida, a Estação Almirante Ferraz, um ambiente inóspido que forçava aos alunos a pensar fora da zona de conforto. E a palestra de William Moog abordava o tema de vivenciar os espaços a serem projetados, na disciplina de Urbano, para se atingir uma maior compreensão da espacialidade real.

O ensino de projeto é de difícil abordagem teórica, por ser uma atividade intrinsecamente operativa e empírica, necessitando da experiência para ser apreendido pelo estudante, aonde a vivência do fenômeno conta mais que sua sistematização teórica. A prática é que traz mais segurança ao aluno, que consegue identificar seu caminho a partir de um experimentalismo recorrente, seja no campo do urbano, seja no arquitetônico. A academias francesas, que são a origem de nossas escolas de arquitetura, encaravam o projeto como um âmbito autônomo dos alunos, que na verdade selecionavam e elegiam o professor que os exercitava na cadeira de Composição de Projetos. Essa autonomia, e liberdade de escolha nos ateliers de projeto não deve ser reprimida, pois o ato de projetar se aproxima da concepção artística, sendo uma ato sempre autobiográfico. Abaixo publico a íntegra do meu texto, que apresentei nessa seção do 21 Congresso Brasileiro de Arquitetos.



APONTAMENTOS SOBRE AS AULAS DE PROJETO EXECUTIVO NO ÂMBITO DA EAU-UFF


A EXPERIÊNCIA DO PROJETO EXECUTIVO NAS ESCOLAS DE ARQUITETURA E URBANISMO, UMA REFLEXÃO

EIXO TEMÁTICO: FORMAÇÃO E O FAZER PROFISSIONAL


NOME DO AUTOR
– Pedro da Luz Moreira (EAU-UFF) - e-mail: daluzmoreira.pedro@gmail.com


Resumo: O presente trabalho apresenta a experiência atualmente desenvolvida no âmbito da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense(EAU-UFF), em Niterói, decorrente das aulas de Projeto 5, que abordam o projeto executivo. A matéria de Projeto 5 na grade do currículo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF) acontece no esquema geral do curso no 6º período, antes da matéria de Projeto de Arquitetura de Restauração (7º período) e Projeto de Arquitetura de Habitação Social (8º período), sendo portanto a ante penúltima disciplina antes do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que ocupa os dois últimos períodos. As escolas de arquitetura no Brasil tem se restringido a cobrar de seus alunos nas disciplinas de projeto, trabalhos no nível de Estudo Preliminar, ou no máximo de Anteprojeto. A experiência é fundamental na aproximação dos esforços didáticos da EAU-UFF com a prática profissional e com o processo de amadurecimento do aluno no enfrentamento do projeto.. Existe aqui um notável esforço da instituição de superar a vivência do projeto, apenas como criação e concepção inusitada, mas de conquista de um discurso mais técnico, descritivo de uma construção efetiva e materializada de forma concreta.

Palavras-chave: Projeto Executivo; Tectonia; Arquitetura; Cidade; Habitar; Edifício Multifamiliar.





1. Premissas Teóricas Gerais:

A matéria de Projeto 5 na grade do currículo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF) acontece no esquema geral do curso no 6º período, antes da matéria de Projeto de Arquitetura de Restauração (7º período) e Projeto de Arquitetura de Habitação Social (8º período), sendo portanto a ante penúltima disciplina antes do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que ocupa os dois últimos periodos. A matéria pretende fornecer aos alunos a dimensão real do projeto de arquitetura, em sua integridade desde a concepção a seu detalhamento, enquanto representação de uma obra, que ele antecipa. A EAU-UFF sempre se caracterizou desde a sua fundação por ser um curso com preocupações sociais, buscando formar um profissional capaz de dar respostas às graves condições de precariedade habitacional, que afligem a população brasileira. Os temas como urbanização de favelas, produção de habitação de interesse social, projeto participativo são constantes nas bancas de TCC na EAU-UFF. Existe aqui um notável esforço da instituição de superar a vivência do projeto, apenas como criação e concepção inusitada, mas de conquista de um discurso mais técnico, decritivo de uma construção efetiva e materializada de forma concreta. Em sua ementa a disciplina de Projeto 5 define de forma categórica, que seu tema é o projeto executivo, buscando fazer com que o aluno vivencie os problemas de detalhamento e maior precisão na descrição do objeto. 
Figura 1: Croqui fornecido aos alunos da unidade 
simplex com núcleo de circulçao vertical







Na verdade, desde a década de setenta a EAU-UFF oferece um curso de arquitetura, que se destaca no panorama da cidade metropolitana do Rio de Janeiro por seu perfil vinculado ao debate dos problemas sociais das cidades e da arquitetura brasileira. Essa preocupação nunca foi tida como em contradição com a sofisticação do desenho e o aprimoramento técnico do projeto, como aliás está destacado por SANTOS 1988, na interação entre análises e sínteses que ocorre na proposição arquitetônica e urbanística;

O dilema se arma entre dois extremos. De um lado, estão ANÁLISES que não querem ou não conseguem interferir nas práticas urbanas cotidianas. Do outro, estão SÍNTESES impostas como corpos estranhos á vida real das cidades que não alcançam decompor em seus elementos e mecanismos fundamentais. SANTOS 1988 página44

E, mais não podemos nos refugiar no conforto das análises, mas se arriscar nas proposições e desenhos, que materializam o desejo, não só do projetista mas também e principalmente dos usuários. O arquiteto Carlos Nelson Ferreira dos Santos possui uma trajetória dentro da arquitetura brasileira bastante singular, ele foi o principal ideólogo da fundação da EAU-UFF e um polemista notável. Incomodado com o messianismo da produção arquitetônica brasileira pós-Brasília, formado em 1966 ainda pela Universidade do Brasil, logo após o Golpe Civil-Militar, fez seu mestrado no Massachuseffs Institut of Technology (MIT) nos EUA em 1971. Em sua trajetória, ele também se deixará contaminar pela antropologia social do Museu Nacional da UFRJ em seu doutorado defendido em 1979. Na verdade, desde 1964 militava na assessoria à Federação e Associação de Favelas da Guanabara (FAFEG), e num órgão deste mesmo Estado denominado Companhia de Desenvolvimento de Comunidades (CODESCO), afirmando de forma categórica seu desejo de inflexão da prática do ofício. Sempre esteve ligado a academia, primeiro como professor do Instituto de Economia Industrial da UFRJ, e depois como professor e ideólogo da EAU-UFF. O seu livro A Cidade como um jogo de cartas permanece um testemunho notável de uma época, mas também uma experiência que ainda está para ser vivida pela prática profissional brasileira. A explicitação do conflito, presente na nossa sociedade, e portanto, nos desejos aflorados no processo de projeto, não impedia o alcance do consenso, que jamais deveria suprimir o embate.

As cartas representam as várias formas de oposição ou conjugação. Cada naipe é uma classe: copas o clero, espadas a nobreza, ouros a burguesia e paus os camponeses. É fácil deduzir que, até a burguesia pudesse se impor e fazer sua revolução, o naipe superior era espadas. O predomínio de ouros é recente. A troca de precedências dá um suporte óbvio ao argumento. SANTOS 1988 página 12

As procedências nos apontavam as supremacias e dominações presentes nos desejos da cidade e da habitação que buscamos, mais do que um juízo de valores era bom que intenções fossem explicitadas para se compreender a amplitude do projeto. Havia uma crença na processualidade do plano e do projeto, que ao materializar formas e conceitos socialmente compartilhados estabelecia um jogo de longa duração, que era a cidade, numa transformação constante. A base deveria partilhar uma mesma estrutura ancestral e compreensível, por todos, um retorno à história da cidade e aos seus elementos primários; a rua, o lote e a quadra, um limite mais preciso entre esfera pública e privada. Mais também, do que um limite preciso havia uma proposta de retorno a uma certa proporcionalidade entre o público e privado, como entidades interdependentes que se auto regulavam. Mas longe da comodidade das análises comportadas Carlos Nelson dos Santos sempre fustigava na direção da síntese e da formulação concreta do projeto;

“O erro, porém, não está em materializar o desejo de intervir no espaço através de estudos preliminares que viram anteprojetos e projetos, se corrigindo sucessivamente. Não é pela renúncia a responsabilidade de dar formas aos lugares, caindo nas neutralidades cômodas dos diagnósticos e dos planejamentos que só cuidam de generalidades, que iremos construir saídas.“ SANTOS 1988 página 17

Havia aqui a clara interpretação do projeto como intervenção, síntese e prognóstico, muito além das neutralidades objetivas das análises e diagnósticos, uma atividade ou forma de conhecer o mundo intervindo. Muito além da mera dedução, o que se cobra dos alunos nos ateliers de projeto é um compromisso com a indução, transformação e imaginação com o vir-a-ser da cidade, e da sociedade. A atividade didática de projeto é em sua essência empírica e experimental, não podendo ser transmitida a partir de conteúdos teóricos, em suma; aprende-se fazendo e exercitando. A experiência confere musculatura e confiança ao aluno na sua capacidade de articular demandas, contexto, técnicas construtivas, orçamento e valores simbólicos conformando uma representação do objeto. A atividade é crítica, no sentido de que não se restringe a reproduzir uma experiência espacial já constituída, mas ao mesmo tempo é operativa, no sentido de uma síntese das experiências construtivas em andamento no conjunto da sociedade. Foi Manfredo Tafuri (1935-1994), um crítico de arquitetura italiano, que destacou um grupo específico de teóricos como promotores da “crítica operativa do real”[1]1[i].

Segundo TAFURI 1979, essa corrente aproximava a crítica da arquitetura do campo da projetação, uma vez que se interessava pela definição de um sentido para as construções humanas, capacitadora de uma ampliação da civilidade. Os pensadores dessa corrente procuravam intuir a partir da história ou da obra de determinados arquitetos, a construção de um sentido de civilidade, tanto da arquitetura, quanto da cidade. O campo do plano e do projeto de urbanismo ou de arquitetura sempre tiveram uma forte tendência pela operatividade, pois pretendem a materialização da transformação. Mas, também operam no campo da crítica, uma vez que apontam para transformações concretas nos hábitos e costumes humanos materializados na espacialidade proposta. Há no campo do plano e do projeto uma salutar tensão entre desejos de materialização e o alcance de premissas utópicas, transformadoras de práticas arraigadas na sociedade. A projetualidade é um conceito que envolve as complexas relações de custo e benefício, cultura e inovação, representando a capacidade de operar no sentido de um impulso de uma mudança, mas também de exercer uma crítica ao desenvolvimento social instaurado. O projeto é enfim, uma forma de se abordar o real é também uma forma de conhecimento, aonde o protagonismo está colocado no futuro, no vir-a-ser da sociedade.

A pretensão aqui é fazer o aluno encarar o caráter da arquitetura e do urbanismo como arte, entendida como força presente e sintética que coo habita com suas premissas; funcionais, ideológicas e construtivas. Neste sentido, a palavra arquitetura é esclarecedora quando dissecada, estando seu significado ligado a uma dualidade enriquecedora e potencializadora;

“Assim precedendo ao termo tektonicos (carpinteiro, fabricante, ação de construir, construção) acrescentou-se o radical arche (origem, começo, princípio)...A arche é o centro da esfera social daquele Mundo, e deverá ser traduzida nos edifícios, apresentando os deuses, a história e o espírito ético do povo grego.” BRANDÃO 1991 página22

O conceito de arche, princípio equilibrado do universo, ponto de equilíbrio entre o homem e o kosmos, como um signo síntese da ordenação do mundo pelo homem é a chave que abre para nós a compreensão das várias sensibilidades, que irão construir a idéia do homem moderno. A arche é um conceito que está além da materialidade do edifício, mas que só é possível ser desvendado pela sua própria materialidade. Como um mundo que a transformação humana da natureza torna visível quando é desempenhada com preocupação estética, portanto distinto da simples construção. Encontra-se neste conceito uma tríade explicadora; primeiro uma volta a origem, segundo uma unidade ordenadora e por último, uma expressividade que dá visibilidade ao mundo específico que a ele está vinculado.
2.  Premissas Teóricas Específicas da Disciplina:

A partir dessas premissas gerais, a disciplina de Projeto 5 estabelece com os alunos uma diferenciação conceitual fundamental para a compreensão do processo de projeto em sua totalidade; a partir do anteprojeto, consolidada uma solução, o projeto executivo irá se dedicar a descrever de forma precisa a construção do objeto arquitetônico. De certa forma, abandonando uma linguagem acessível a todos (leigos e especialistas) para se comunicar com profissionais que militam na obra, que portanto, compreendem plantas e cortes. A diferenciação, nessas duas formas de se comunicar do projeto é banal e corriqueira, mas de grande importância para sua expressão e linguagem. Afinal, o público que se debruçará sobre o projeto muda seu perfil com a aprovação do anteprojeto, passando os documentos a ter um caráter mais técnico e preciso.

Na verdade, um dos desafios da matéria Projeto 5 é no espaço exíguo de um semestre, quatro meses de aula ou 32 aulas de três horas desenvolver e aprofundar um projeto executivo, que além disso, não contará com o aporte das disciplinas complementares, tais como; estrutura, instalações elétricas, instalações hidráulicas e sanitárias, impermeabilização, etc... Aporte que se constitui num elemento fundamental do desenvolvimento do executivo, uma vez que a interação com as disciplinas complementares se constitui num efetivo aprofundamento das decisões de projeto, na prática concreta. A pretensão é fazer os alunos vivenciarem a fenomenologia empírica do projeto executivo, entendido como um conjunto de documentos coerente entre si, que descrevem uma construção de forma precisa e detalhada, além do estudo preliminar e anteprojeto. Essas duas etapas preliminares no desenvolvimento do projeto acabam sendo os produtos mais corriqueiros dos alunos nas escolas de arquitetura, pela exiguidade do tempo, pela impossibilidade da interação com as outras disciplinas complementares, e por uma certa comodidade geral. Tal situação, acaba gerando um profissional que sobrevaloriza o desenho, não o entendendo como representação de um ato construtivo. Aquilo que MARTINEZ 2000 aponta como a representação analógica do construído, uma descrição do objeto urbano ou arquitetônico, que se busca controlar e dimensionar de forma adequada. O desenho é meio, e não fim em si mesmo, no entanto ele possui um claro poder indutor e revelador, pois de certa forma aquilo que não é visto por ele, não será contemplado.

Para fazer frente a esses condicionantes, uma das hipóteses para alcançar esse aprofundamento era o desenvolvimento de projetos  pré desenvolvidos em matérias anteriores, escolhidos pelos próprios alunos. Outra hipótese, seria o oferecimento de um anteprojeto consolidado, que permitisse aos alunos o desenvolvimento do projeto executivo desde as primeiras aulas do semestre. Essas hipóteses não se revelaram aplicáveis, pois muitos dos alunos não reconheciam em suas experiências anteriores, experiências bem sucedidas, e por outro lado, um anteprojeto oferecido não produziria aquilo que todo militante no projeto, e em seu ensino reconhece como um; envolvimento emotivo efetivo[2] na matéria de Projeto 5. Ítem fundamental na obtenção de um engajamento efetivo na disciplina e no alcance de seus objetivos, uma vez que projeto é também expressão artística, aonde a expressão pessoal conta muito. Na verdade, a atividade de projeto se aproxima do ato artístico em sua essência, afinal ela envolve a ordenação espacial, a eleição de um sistema de proporções, uma particular relação orgânica e unitária entre parte e todo, uma definição de uma materialidade adequada, enfim um processo obsessivo de controle do objeto construído, que se aprofunda a medida que se desenvolve. As considerações técnicas e estruturais desse processo não estão em contradição com a criação e a concepção auto-biográfica, ou da expressão pessoal, mas fazem parte da obtenção de uma certa potência, que deve ser vivenciada pelo aluno a partir da experiência empírica, do aprender fazendo.

 







Figura 2: Croqui fornecido aos alunos das unidades duplex com núcleo de circulçao vertical, que pretendem a diversidade de extratos sociais na estrutura condominial








A saída encontrada pela matéria foi oferecer aos alunos uma série de croquis genéricos, de duas unidades habitacionais de sala e dois quartos, articuladas por um núcleo de circulação vertical, que deverá ser usado pelos alunos de forma livre em sua reprodução, a partir de terrenos concretos escolhidos por eles mesmos. Além dessa planta padrão é definido, que o térreo da edificação deve oferecer um contínuo comercial à cidade, a presença de módulos de loja, de forma a conformar uma edificação multifuncional. As especificidades de funcionamento desse espaço comercial não são definidas, devendo esse espaço ter flexibilidade para poder abrigar; um bar, ou um restaurante, ou um cabelereiro, ou uma padaria, ou qualquer outro comércio. Junto com a planta padrão e a loja genérica no térreo, é também apresentada uma unidade com a mesma projeção horizontal, mas que se desenvolve em dois pavimentos, uma unidade duplex. O argumento para inserção dessa outra tipologia, o duplex, pretende fazer crítica a uma forma inercial de desenvolvimento das cidades brasileiras, que estratificam de forma muito violenta, classes sociais distintas. Portanto, a ordenação condominial pretende se como multifuncional e com diversidade de extratos sociais, que são aproximados pelo núcleo de circulação vertical. A partir da estruturação de uma unidade condominial concreta, inserida num contexto urbano específico, o aluno conforma um edifício multifamiliar, com comércio no térreo e com unidades de metragens diferenciadas, com o claro objetivo de criticar a inércia do desenvolvimento da cidade brasileira contemporânea. Isto é, identifica-se na cidade brasileira características nefastas, que são a rigidez monofuncional, áreas habitação ou dormitórios separadas das áreas de trabalho ou serviços, e com a tendência de aglutinar extratos sociais diferenciados, guetos de pobres e ricos,e com a presença de rodoviarismo exacerbado..























 Figura 3 e 4: Croquis dos alunos explicitando os arranjos condominiais propostos a partir da utilização das unidades habitacionais de simplex e duplex

 



3. Crítica a cidade brasileira e a hegemonia modernista corbusieana:

Além dessa crítica a forma de reprodução da cidade brasileira, os terrenos devem ser procurados pelos alunos em áreas estruturadas e centrais, aonde já exista oferta de comércio e serviços abundante, inserindo o uso habitacional. A proposta claramente pretende fomentar o habitar no centro, aonde além da ampla oferta de comércio e serviços, também se faz presente as comodidades da ampla mobilidade urbana, que possibilitam rápido acesso a todas as partes do território metropolitano, sem a celebração do automóvel particular. Esse preenchimento habitacional nas áreas centrais de nossas cidades é uma efetiva ação de revitalização, pois o uso habitacional acaba por demandar o próprio comércio, impulsionando seu uso mesmo nos fins de semana e feriados, otimizando o uso de nossas infraestruturas, já instaladas. Portanto, a estruturação condominial não obriga a oferta de vagas de automóveis, buscando incentivar o uso dos diversos modais de mobilidade também presentes nessas áreas. A partir disso, há uma relativização da legislação urbanística imposta nessas áreas, liberando os alunos da configuração de pavimentos garagem, numa clara vertente crítica ao rodoviarismo imperante.

Na verdade, o que se busca é a diversidade e inclusão, numa clara crítica às premissas de reprodução da cidade brasileira, que segue com um território estratificado entre ricos e pobres. A inclusão é o maior desafio das cidades brasileiras, que possuem um passivo na sua história de contínua exclusão de pessoas e áreas, que permanecem como guetos da pobreza, desassistidos das infraestruturas mais básicas. Afinal, uma das características mais marcantes de nossa sociedade é a marcante concentração de renda. De uma maneira geral, nossos políticos e nossas políticas ainda não despertaram para o fato de que a distribuição territorial da população pode ser um fator capaz de distribuir oportunidades, e portanto renda de forma mais equânime. O simples acesso a uma centralidade mais fortemente constituída, pode significar a frequência em equipamentos culturais e ou educacionais de boa performance, mudando de forma substancial a perspectiva de populações vulneráveis. A simples implantação de saneamento básico em certas localidades afasta de maneira significativa a ocorrência de doenças como desarranjo e difteria, que podem nos primeiros anos de vida significar comprometimentos definitivos na capacidade cognitiva de indivíduos.



A diversidade é didática, atesta tal fato a estratégia adotada pelas universidades norte americanas, que há anos fazem um esforço sistemático para reunir na mesma sala de aula alunos de diferentes procedências e nacionalidades, na expectativa de que suas vivências compartilhadas formem uma massa crítica. A excelência da universidade norte americana possui um dos seus pilares nessa pré determinação, que possibilita uma vivência de compartilhamento de experiências, que acaba produzindo um aprendizado, onde a passividade dá lugar ao ativismo. A própria experiência da nação norte americana3[ii], que baseou seu desenvolvimento na atração de diferentes nacionalidades, e durante a passagem do século XIX para o XX representou uma promessa para a imigração de todos os povos. De certa forma, o Novo Mundo, da América em sua totalidade também representou esse local de forma emblemática, um local onde as oportunidades estavam abertas para pessoas do oriente e do ocidente. As operações urbanas precisam encampar esse objetivo, incentivando o intercâmbio entre diversidades.



A pedagogia de Paulo Freire, também aponta no mesmo sentido, a diversidade é didática, capacitada de nos fazer relativizar nossos valores, e portanto produz um impulso didático de relativização dos nossos valores. A teoria dialógica de FREIRE 1970 aponta a premissa básica do diálogo entre experiências de qualquer procedência como operação didática, contraposta a concepção binária da educação, que não gerava autonomia do pensar, mas dominação e colonização. Há aqui um nivelamento importante entre as culturas do colonizador e colonizado, do centro e da periferia, numa nova proposição de relação entre professor, aluno e sociedade. Trazer esses valores para a ordenação do espaço físico das cidades, dos bairros e vizinhanças imediatas é restaurar o sentido inicial das aglomerações humanas, onde a diversidade é didática.



Há também aqui uma clara indução de implantação, negando a cultura do modernismo corbusieano, que naturalizou a presença dos pilotis nos térreos, destruindo a limitação historicamente bem compreendida entre esfera pública e privada. Há uma clara pontuação por parte do professor, de que o tema habitacional em nossas cidades contemporâneas é bem resolvido a partir de uma graduação socialmente compreendida e compartilhada entre esfera pública e privada, nas suas diversas nuances. Importante salientar, que essas nuances e sua gradação na percepção dos usuários, que do espaço público genérico de amplo acesso, passa-se ao espaço condominial controlado, e desse para a intimidade da família e do lar. A limitação clara e objetiva desses espaços reforça a vitalidade das nossas cidades, uma vez que a interação social é ampla e diversificada, não se restringindo aos habitantes do condomínio, mas também envolvendo; visitantes, entregadores, enfim, estrangeiros a estrutura condominial. O que se enfatiza junto aos alunos é a obtenção de uma estrutura legível e clara dessas graduações, que seja socialmente compartilhada. Por outro lado, se identifica na postura do urbanismo corbusieano um certo hiper dimensionamento do espaço público, que acabou invariavelmente incentivando uma ocupação por perversões.








Figura 5 e 6: projeto de Bruno Taut  para o bairro de Karl Liegen Stadt, em Berlim. Um modernismo de continuidade com a cidade pré existente novecentista, apresentado aos alunos como alternativa ao modernismo corbusieano hegemônico no Brasil.






Na verdade, a crítica ao modernismo corbusieano busca ampliar o vocabulário dos alunos, mostrando que a sensibilidade moderna abriga uma grande diferenciação de posturas ideológicas e de leituras da cidade, que não só a de Le Corbusier. De acordo com FRAMPTON 2008, tomando-se os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAMs) percebe-se uma clara hegemonia dos alemães até 1930, que após essa data terão a supremacia corbusieana, e da sua visão urbana. As experiências de construções massivas habitacionais da Alemanha da República de Weimar e da Europa Central são apresentadas aos alunos, mostrando um modernismo de maior continuidade com a cidade novecentista. As intervenções de Bruno Taut em Berlim e de Karl Ehn em Viena, no período pré Hitler são apresentadas como ordenações que trabalham com a mencionada graduação entre espaço público e familiar ou íntimo, permitindo uma legibilidade da cidade socialmente compartilhada.








Figura 7: projeto de Karl Ehn em Viena  para o bairro de Karl Marx Hof. Um modernismo de continuidade com a cidade pré existente novecentista, apresentado aos alunos como alternativa ao modernismo corbusieano hegemônico no Brasil



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 4.    Pré definições modulares e estruturais:

Por último, é sugerido aos alunos a adoção do método construtivo da alvenaria armada, técnica que é apontada pelo Sindicato da Cosntrução Civil (SINDUSCON), como a mais barata por metro quadrado para os empreendimentos habitacionais. E, capaz de realização de edificações de até oito andares, impondo verticalmente a coordenação modular entre pavimentos. Tal adoção pretende induzir os alunos ao raciocínio da modulação dimensional, como um elemento fundamental para o controle técnico da construção. As possibilidades e limitações desse método construtivo pretende impulsionar nos alunos um maior compromisso com o raciocínio tectônico, aonde os desenhos se afastam do esquemático, adotando seu real caráter descritivo e de representação analógica do construído. É enfatizado o caráter dialógico e interdisciplinar do projeto, aonde as contribuições e insites aperfeiçoadores podem ser obtidos a partir da interação com as disciplinas complementares, tais como hidraulica, esgoto sanitário, iluminação, estrutura, impermeabilização, etc. O projeto de arquitetura é encarado como disciplina coordenadora e indutora das demais disciplnas de projeto, não se eximindo no entanto de interagir e se aprimorar com as informações técnicas. A dimensão dialógica da arquitetura é reforçada. A arquitetura como disciplina coordenadora das disciplinas complementares é definida como diretora das demais disciplinas, sem no entanto se recusar a ser induzida por elas. A analogia constantemente utilizada no Atelier é a da direção do filme, que não só determina, mas se deixa também induzir pelo iluminador, pelo cenógrafo, pelo figurinista, e outros. A estrutura, as instalações, as impermeabilizações são encaradas como um aprimoramento técnico, que efetiva a componente estética do projeto, não havendo contradição entre tectonia e beleza. A beleza está no construído e não no desenhado.









Figura 8: Croquis de explicitação construtiva do sistema de alvenaria armada.





O apoio dos computadores é bem recebido no atelier de desenho do projeto executivo, no entanto suas limitações e distorções são assinaladas no sentido de sensibilizar os alunos de que as complexas relações entre todo e parte são prejudicadas por essa forma de desenhar. E, que o projeto em sua complexidade, desde de suas fases preliminares de concepção envolve uma adequação e compatibilização extrema entre parte e todo, que se mantém importante no executivo. O desenho é encarado como um campo de consciência, aonde aquilo que não é desenhado não pode ser pensado e decidido, a representação do problema e do contexto precisa ser alinhavado para ser enfrentado. O processo de projeto é encarado como o cotejamento de hipóteses de desenho aonde só é possível ter uma escolha consciente na medida em que comparamos as opções. O fenômeno do raciocínio projetual é uma reflexão sobre uma série de escolhas que se demonstram coerentes entre si desde o início. Daí a importância de reforço sobre a dimensão autoral do projeto, que ao se identificar com uma expressão auto biográfica, se aproxima da arte e ao mesmo tempo da objetividade construtiva. São constantemente reforçados, no âmbito do atelier a importância do desenvolvimento do olhar, para soluções de detalhe consagradas pelo uso, enfatizando a dimensão de patrimônio de bem comum construído a partir das condições das intempéries no contexto da cidade do Rio de Janeiro, e das experiências pretéritas. A coleta e classificação das soluções de detalhe, a partir do olhar e da pesquisa dos alunos é uma dimensão constante, aonde a capacidade da edificação de resistir ao tempo é enfatizada e reforçada.


5.    Conclusões preliminares:

A partir desses apontamentos iniciais sobre o ensino do Projeto Executivo é possível inferir algumas questões para o impulsionamento e aprofundamento da formação no ofício de arquitetura e urbanismo.

·         A compreensão do projeto como uma forma propositiva de abordagem do real, recoloca a dimensão crítica desse instrumento para a sociedade, que na verdade pode utilizá-lo para pré figurar outras condições da forma inercial de reprodução histórica da cidade brasileira

·         A atual condição de reprodução da cidade brasileira nos confronta com um horizonte de exclusão continuada de amplas parcelas da população brasileira, incitar os alunos a refletir sobre essa condição transforma o atelier de projeto, dando-lhe uma dimensão crítica, que intensifica o envolvimento dos alunos.

·         A eleição dos terrenos por parte dos alunos, a partir de premissas locacionais inseridas em contextos centrais, traz uma dinâmica de macro crítica a cidade brasileira, que também aumenta o envolvimento dos alunos.

·         O fornecimento das plantas padrão abrevia o processo de concepção do objeto, dando-lhe um caráter de reunião e composição de elementos pré concebidos, permitindo uma definição rápida do objeto a ser construído, e não retirando dos alunos seu desejo de expressão auto biográfica.

·         O entendimento do desenho a partir de computadores como uma ferramenta de otimização das reproduções e repetições do projeto pretende afastar uma certa fetichização desse instrumental, que hoje povoa o senso comum das escolas de arquitetura.

·         O exercício quer reforçar o compromisso com o objeto efetivo e construído, entendendo o desenho como instrumento indutor e participante, mas como representação do mundo real, que deve ser sua referência.

·         Uma certa autonomização dos desenhos através das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) com relação ao canteiro de obras é um fato no mundo contemporâneo, que seduziu fortemente as novas gerações. A crítica a essa condição é fundamento do atelier de projeto também.





1 TAFURI 1979 página ... Há uma clara analogia nesse autor entre a projetação e a crítica, entendida essa última como consciência da direção tomada pela história, a partir das iniciativas humanas. A definição do projeto como teoria crítica e operativa está nesse livro.

2[i] A categoria de envolvimento emotivo efetivo no projeto, desenvolvida por ROSSI ... no livro Auto biografia científica desenvolve a ideia de objetividade científica e expressão pessoal na fenomenologia do projeto, ítem considerado essencial para o envolvimento entusiasmado do arquiteto ou aluno com a disciplina e o conteúdo.

3[i] A referência para essa história americana é dada por TOTA, Antonio Pedro – Os americanos – Editora Contexto São Paulo 2009

 6. Referências:

BRANDÃO, Carlos Antonio Leite Brandão – A formação do homem moderno vista através da arquitetura – editora Ap Cultural 1991 Belo Horizonte.
FRAMPTON, Keneth – História Crítica da Arquitetura Moderna – Editora Martins Fontes São Paulo 2008
FREIRE, Paulo – A pedagogia do oprimido – Editora Paz e Terra Rio de Janeiro 1970
MARTINEZ, Alfonso Corona – Ensaio sobre o Projeto – Editora da UNB Brasília 2000, 200 páginas
MOREIRA, Pedro da Luz – Projeto, Ideologia e Hegemonia, em busca de uma conceituação operativa para as cidades brasileira – Tese de Doutorado apresentada no PROURB em 2007
ROLNIK, Raquel – Guerra dos Lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças – Boitempo São Paulo 2015
ROSSI, Aldo – A arquitetura da cidade – Editora Martins Fontes São Paulo 1995
ROSSI, Aldo – Para uma arquitetctura de tendência, escritos 1956-1972 – Editorial Gustavo Gilli Barcelona 1977
ROSSI, Aldo – Autobiografia científica – Editorial Gustavo Gilli Barcelona 1984
SANTOS, Carlos Nelson Ferreira – A cidade como um jogo de cartas – EDUFF Niterói 1988
TAFURI, Manfredo - Teorias e História da Arquitetura - editorial Presença Lisboa 1979
TAFURI, Manfredo – The Sphere and the Labyrinth, avant-gardes and architecture from Piranesi to the 1970,s – MIT Press Bosto 1987
TOTA, Antonio Pedro – Os Americanos – Editora Contexto São Paulo 2009





segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Debate importante no âmbito do 21 CBA sobre a utopia, diversidade e autoritarismo na cidade contemporânea

Debate no Centro Cultural da URRGS; Pedro da Luz e Carlos Vainer
Nessa última sexta feira, dia 11 de outubro de 2019 houve um importante debate sobre a nossa condição contemporânea, no ambiente das cidades, entre eu e o professor doutor Carlos Vainer, no âmbito do 21o Congresso Brasileiro de Arquitetos (21CBA) em Porto Alegra, no Centro Cultural da UFRGS. O professor Carlos Vainer é professor do IPUR da UFRJ, e lidera junto com Henri Acserald o ETTERN (Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza). O debate recebeu um título algo niilista de;  "A cidade está morrendo, viva a cidade!", que aborda uma certa distopia do mundo atual, aonde a intolerância e uma certa homogeneização da diversidade do humano parece voltar a emergir, e ser celebrada. Há uma certa Crise da Cidade, instalada pela condição contemporânea, derivada da perda do seu sentido mais antigo definido pela ascensão da burguesia, que teve sua  própria auto definição como classe, profundamente vinculada a essa forma de implantação humana. Segundo Vainer, a burguesia abandonou a cidade a sua própria sorte, não se importando mais pelo seu embelezamento ou desenvolvimento, uma vez que se desterritorializou de forma definitiva, com o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. A ampliação da violência, da intolerância, e da insegurança no seu território fizeram a cidade perder o status de definidora do sentido da história da humanidade, fazendo-a vagar sem direção aparente. A descrença no plano e no projeto da cidade foi determinada pela ampliação da mercantilização geral, aonde se estabelece um balcão de negócios, que negocia e impõe valor a tudo.

Mas, o que seria a cidade? Carlos Vainer se utiliza da definição da Escola de Sociologia de Chicago, que a definiu como o lugar do encontro e do diverso, dotado de uma certa densidade, o lugar da variedade do ser humano. A cidade de Chicago, no começo do século XX era o lócus de uma concentração de pessoas, jamais vista na história humana, aonde 80%  eram estrangeiros, que migraram para ela de diferentes partes do mundo. A citação de WIRTH 1973, membro dessa escola, utilizado por Vainer menciona a sua principal característica baseada na; "dessemelhança dos seus concidadãos, num aglomerado denso e diverso". A menção a metáfora da fundação de Roma, a partir da lôba que alimenta os irmãos Rômulo e Remo, que definem uma cava aonde as diferentes nacionalidades, que se reúnem para formar a cidade e depositam os torrões de suas terras natais de aonde vieram, reunindo diferentes identidades, que se desfazem no solo de Roma. A perda das identidades específicas dos diferenciados clãs e famílias se desfaz no território da grande cidade, que a partir da mistura das terras pátrias originais permite a convivência de diferentes costumes e crenças. A grande cidade irá permitir a liberdade de comportamentos e crenças aos mais diversos agentes, possibilitando a relativização e desnaturalização dos nossos próprios, gerando o "citadino tolerante."

Por outro lado, algumas cidades da Idade Média europeia possuíam códigos que tolhiam a servidão, determinando que se um escravo passasse mais de 24 horas em seu solo, ele se tornaria livre, e capaz de buscar seu sustento pelo seu trabalho. A revolução burguesa, intrinsecamente conectada ao território da cidade busca a extinção da servidão, para que todos se transformassem em trabalhadores e consumidores no seu mercado. Algumas aglomerações na Europa Central, notadamente na atual Alemanha possuíam na portada de suas muralhas a inscrição "Die Stadtluft macht frei nacht Jahr und Tag", literalmente, "O ar da cidade liberta depois de um ano ou um dia". Mas as grandes cidades industriais de meados do século XIX e começo do século XX eram estruturas que haviam superado a própria noção de uma comunidade única e íntegra da cidade medieval, se desintegrando numa plêiade de grupos. Essa condição trará para a existência nas grandes cidades, uma certa indiferença e anonimato hogeneizador, que potencializa a liberdade de comportamento livre e independente, mas também gera um clima geral de indiferença. Esse cosmopolitismo do confronto de uma diversidade incrível de individualidades e de grupos de práticas diferenciadas, gera aquilo que é denominado de pluriversal. Um cosmopolitismo não nivelador e supressor das diferenças e das diversidades, mas enfatizador dessas identidades, que representam uma série de valores que enraízam e dão sentido a diversas práticas. Num mundo preso pelos discursos identitários, como o nosso contemporâneo, começa a emergir uma perda da solidariedade entre diferentes, que passa a se restringir apenas aos iguais.

Por último, a questão da utopia foi levantada pelo professor Carlos Vainer, e sua gestação no seio das próprias cidades, a partir de uma clara referência da autora Françoise Choay, que mencionou os urbanistas utópicos, em seu livro Urbanismo, como antecessores dos urbanistas de fato. Também a partir do autor neokantiano CASSIRER, Vainer reforça a ideia de que o homem possui um passado, e por isso, problematiza seu futuro, pensando que ele e as futuras gerações pensam numa existência melhor e diferenciada. Por isso, a formulação utópica envolve a construção de um outro lugar, ou de um não lugar, aonde emerge a construção de expectativas, muitas vezes abstratas e não compartilhadas por todos. Daí surge a emergência de uma vertente autoritária no discurso utópico, a partir desse caráter subjetivo e abstrato das suas formulações, que invariavelmente envolveram desvios autoritários e colonizadores. Pois, foram formulações que não forjaram uma didática para as massas, se restringindo a uma vanguarda isolada, que de libertadora se transforma em opressora, pelo seu próprio isolamento. A distopia, atualmente instalada no ambiente das cidades brasileiras é um fato, aonde cada vez mais emerge uma grande intolerância com as diversidades de posicionamentos ideológicos e comportamentais.

A partir desses posicionamentos, meu papel ali como participante daquela mesa era de polemizar  e problematizar os posicionamentos do professor Carlos Vainer, comecei por relativizar as propostas excessivamente caustico, paralisador das ações, afirmando que o ofício dos arquitetos e urbanistas é intrinsecamente propositivo, sem que isso exclua a dimensão crítica. Citando TAFURI 1981 reforcei suas considerações a respeito do plano e do projeto como ações críticas/operativas, nas quais a dimensão subvertora do status quo se combina com operação, se reforçando mutuamente. Essa dimensão, crítica e operativa do ofício me remeteu também as considerações de GRAMSCI, um marxista também italiano como Tafuri, com uma origem muito particular, na Ilha da Sardenha. Uma área periférica ao desenvolvimento econômico italiano mais virtuoso, concentrado no norte industrializado, no entorno das cidades de Turim e Milão, enquanto a região do sul e a Ilha da Sardenha permaneciam agrárias e arcaicas. Para mim Gramsci caracterizou o marxismo como a filosofia da práxis, o que traz a dimensão da crítica para uma aproximação com a operação, similar a colocada por Manfredo Tafuri.

Além disso, sua condição de subalterno com relação ao desenvolvimento capitalista hegemônico da própria Itália, o que confere ao seu pensamento uma imbricação espacial e hierárquica, que envolve os conceitos de centro e periferia como estruturantes. Gramsci é como um nordestino na cidade de São Paulo, porta voz de um discurso da subalternidade, identificando aí uma potência de rebelião e de transformação, a partir da não aceitação de sua própria condição. Essa condição, para mim, está presente nos movimentos sociais urbanos contemporâneos, das cidades brasileiras e outras, nas ocupações de edificações nos centros das cidades, nas favelas e nas populações precarizadas e abandonadas em situação de rua. Uma resistência capaz de gerar um outro programa de inclusão a partir da dimensão concreta do espaço, que afinal acaba sendo a dimensão mais concreta da própria exclusão. Essa potência precisa ser explorada pelo plano e pelo projeto de forma a gerar um contra projeto para o desenvolvimento econômico-espacial do país, visando incluir mais extratos sociais de nossa população.

Na sequência houveram uma série de questionamentos e provocações muito adequados, que colocaram um eixo estruturante básico e preciso; como mudar o desenvolvimento econômico espacial do nosso país? Um contra projeto é possível?

BIBLIOGRAFIA:

CASSIRER, Ernst - A Filosofia do Iluminismo - Editora Unicamp São Paulo 1997

FREIRE, Paulo – A pedagogia do oprimido – Editora Paz e Terra Rio de Janeiro 1970
GRAMSCI, Antonio - Concepção dialética da história - editora Civilização Brasileira Rio de Janeiro 1966

TAFURI, Manfredo – Teorias e História da Arquitetura – Editora Presencial Lisboa 1981

WIRTH, Louis - Life in the Cities - Editora Chicago School Papers Chicago 1973

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A experiência do Workshop Habitar o Centro com a AIA no IAB-RJ

Mapa Síntese da proposta determinando as principais ações no território para
sua requalificação
Durante os dias de 26, 27. 28. 29 e 30 de setembro de 2019, um grupo de arquitetos dos EUA e do Brasil, bem como estudantes do Sul da Flórida e estudantes de diversas escolas de arquitetura da metrópole do Rio de Janeiro se reuniram para pensar o tema do Habitar o Centro no contexto da Zona Portuária da cidade. Os arquitetos são filiados ao American Instiut of Architects (AIA), uma entidade da sociedade civil, similar ao nosso IAB, que reúne profissionais interessados em divulgar a importância e a necessidade da elaboração de planos e projetos em sintonia com amplos setores da população. O programa de assessoria do AIA para diferenciados solicitantes possui o nome de Regional / Urban Design Assistance Team Program (R/UDAT) e também recebe a designação de Design by Comunities. As ações se inserem na tradição anglo saxônica do advocacing planning, ou, planejamento participativo, uma forma de desenvolvimento de projeto que envolve a escuta de setores populares e usuários em geral. O interessante na iniciativa é o reconhecimento do projeto e do plano, como instrumentos de aprofundamento do debate do que pretendemos como desejo, seja uma instituição ou edificação, um bairro, ou uma cidade. No caso, desenvolvido na Zona Portuária do Rio de Janeiro, na Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) do Porto Maravilha, as solicitações e contatos se iniciaram com os EUA há dois anos, quando no âmbito da Comissão de Relações Internacionais (CRI) do CAU-BR foi sugerido esse recorte espacial.

Boulevard Luiz Paulo Conde
Portanto, as determinações espaciais do objeto a ser abordado são de suma importância para seu próprio sucesso, uma vez que deverão ser analisadas e apropriadas por instituições e organizações sociais. O desenho e o projeto passam a ser instrumentos de provocação e mobilização, que fomentam o debate sobre o vir-a-ser da população na área, procurando seu engajamento. A forma é particularmente interessante no contexto da cidade brasileira, uma vez que sua tradicional maneira de reprodução sempre envolveu a construção de um projeto que excluiu parcelas significativas de nossa população, mantendo o direito a urbanidade apenas para poucos. Portanto, o desafio envolve a elaboração de um contra projeto, capaz de sinalizar para o conjunto da população que ninguém deverá ser excluído, procurando vencer as vulnerabilidades e precariedades econômicas presentes na população alvo. Há aqui um profundo questionamento sobre as formas inerciais de reprodução do desenvolvimento econômico brasileiro, que sempre mirou em parâmetros econômicos desterritorializados, não olhando para as profundas diferenças sociais invariavelmente segmentadas no espaço.

Galpão do Cobra, intensificação do uso habitacional, com a manutenção
das suas grandes pinturas
Na verdade, as ações de plano e projeto sempre foram desdenhadas na cultura do país, que parece permanecer acreditando na virtude da improvisação e do espontaneismo, como única atitude autêntica capaz de promover autenticidade. Práticas que envolvem o levantamento de hipóteses, checagem de sua capacidade de inclusão de amplas parcelas da população, gerando uma sinergia de expectativas positivas, capazes de gerar coesão social, aonde ninguém é deixado para trás são as pretensões problematizadas pela área,e, pelo próprio desenvolvimento do país.. Como, a experiência do workshop Habitar o Centro se trata de uma imersão intensa, diante de uma área concreta da cidade, com grupos de interesse diferenciados, com desejos diversos, e compreensões variadas o trabalho é sempre continuado e concentrado, iniciando pela percepção e assimilação da área. Seguido pelas proposições preliminares, que são submetidas ao conjunto da população interessada, em forma de minuta e croquis (ver o desenho síntese). Terminando com retorno de proposições mais estruturadas, que apresentam uma clara visão estratégica, aonde o tempo e o impacto de cada investimento é avaliado a partir de sua capacidade de gerar sinergia entre moradores, pequenos investidores e novos habitantes.  ao longo do tempo. Mas na verdade, o processo é contínuo e deve ser parametrizado por objetivos claros, de fácil apreensão por todos, de forma que a medição do plano e do projeto seja socialmente compartilhada.

Do ponto de vista do IAB-RJ e das entidades de arquitetura e urbanismo que participaram desse esforço nos parece interessante implantar metodologia de assessoramento similar, que rompesse com a tradição instalada no país de demanda exclusiva por parte dos entes governamentais e empresariais, pulverizando entre diferenciados atores a possibilidade de pensar um contra projeto.


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

As aulas de Arquitetura, Cidade, Filosofia no IAB-RJ

A Escola de Atenas quadro de Rafael Sanzio
A experiência das aulas de Arquitetura, cidade, filosofia ministradas na sede do IAB-RJ nas primeiras semanas de setembro de 2019, se constituíram numa experiência notável envolvendo o pensamento de oito filósofos, desde a antiguidade clássica grega até a contemporaneidade. A eleição dos oito filósofos, que foram; a)Platão (*Atenas 428/427 A.C. + Atenas 348/347 A.C.), b)Santo Agostinho (*Tagaste 354 D.C + Hipona 430 D.C.), c)Adam Smith (*Kirckcald Escócia 1723 + Edimburgo 1790). d)Imanuel Kant (*Konigsberg 1724 + Konigsberg 1804), e)Georg Wilhem Friedrich Hegel (*Stuttgard 1770 + Berlim 1831), f)Antonio Gramsci (*Ales 1891, + Roma 1937), g)Michel Foucault (Poitier 1926, + Paris 1984), g)Jürgen Habermas( * Dusseldorf 1929, ...). Esse quadro geral envolvia uma clara filiação ao pensamento ocidental, cujo o centro é a Europa e a sua eleição se baseava numa vontade de mapear nossa principal estrutura de pensamento no Brasil. A par disso, os principais autores que mapearam o pensamento dos oito filósofos eram brasileiros, envolvendo além dos próprios, autores como Mauricio Puls, José Guilherme Merquior, Leandro Konder e textos meus publicados aqui nesse blog. Na aula sobre Antonio Gramsci me utilizei principalmente da biografia do filósofo quando jovem, escrita por Leonardo Rapone, além do Dicionário Gramsciano, organizado por Guido Liguori e Pasquale Voza. É preciso também reconhecer, que havia nessa seleção alguma conveniência, pois alguns desses foram meus companheiros na minha tese de doutorado defendida no âmbito do PROURB na FAU-UFRJ em 2007, Projeto, Ideologia e Hegemonia; em busca de uma conceituação operativa para a cidade brasileira como; Kant, Gramsci, Foucault e Habermas. Os outros quatros foram selecionados por seu tempo; a antiguidade clássica; Platão, o medievo Santo Agostinho e o otimismo da primeira industrialização iluminista; Adam Smith e Hegel.


Na primeira aula procurei contextualizar para os alunos a situação do nosso campo, a arquitetura e o urbanismo, nesse começo do século XXI procurando limitar nosso ofício à experiência do projeto e do plano, como ações que pretendem compreender e criticar nossa condição contemporânea. A premissa aqui utilizada é que projetar e planejar envolvem uma dimensão além da resolução de problemas, mas que se envolve com a "crítica operativa do real". Feliz construção de Manfredo Tafuri no livro Teorias e História da Arquitetura, que aproxima a crítica da projetação na medida que seleciona objetos arquitetônicos, e descarta outros, que provocam a ampliação da convivência humana.  Desde o Iluminismo, o debate sobre as profissões, tanto sobre a arquitetura quanto sobre o urbanismo, pretende construir a figura do arquiteto como um ideólogo social, capaz de organizar de forma persuasiva a cidade e o viver. Mais contemporaneamente o arquiteto, Manfredo Tafuri dedicou-se ao termo, qualificando muitas vezes a atuação dos profissionais como uma ordenação ideológica, que aponta para um esforço de convencimento e cooptação molecular das idéias, de modo que estas ganhem permeabilidade social ou aceitação geral.


"O que habitualmente se entende por crítica operativa é uma análise da arquitetura (ou das artes em geral) que tinha como objetivo não um levantamento abstrato, mas a projetação de uma orientação poética precisa, antecipada em suas estruturas e resultante de análises históricas programaticamente acabadas e deformadas... Pode ainda acrescentar-se que esse tipo de crítica, antecipando as vias da ação, força a história; força a história passada, dado que, ao investi-la de uma forte carga ideológica, não está disposta a aceitar os fracassos e as dispersões de que a história está impregnada...põe o crítico na situação de quem, depois de ter precisado o porquê dessas antíteses, realiza ele próprio uma escolha que, essencialmente é uma aposta sobre o futuro." TAFURI 1981 página177

Portanto, o ato do plano ou do projeto é entendido como uma forma de compreender o mundo, uma maneira que não apenas descreve como é sua situação atual, mas oferece uma visualização de como ele pode vir-a-ser no futuro. Uma "aposta no futuro", como diz TAFURI 1981. Há aqui um risco positivo, que seleciona da história, não estando "disposta a aceitar os fracassos e dispersões" de que o passado está cheio.  Uma atividade de prognóstico, mas do que de diagnóstico, um esforço de convencimento, que dadas as condições atuais simbólicas, tecnológicas e de disponibilidade de recursos elege uma solução, que desfruta de adequação total, ou pelo menos aceita pela maioria.. A união dos termos crítica e operação nos indica que o esforço será sempre vinculado à indução, mais que a mera dedução. E, mais "antecipando as vias da ação, força a história passada" dando-lhe um caráter de evolução positiva, que a humanidade na contemporaneidade enxerga com profunda desconfiança.

Conceituada essa questão passou-se a definição de dois termos caros às ciências sociais; a ideologia e a hegemonia, que estarão presentes ao longo do curso avaliando o desenvolvimento histórico mais geral e a evolução da ideia de plano e projeto no mundo contemporâneo. A ideologia não é mais definida de forma negativa, como foi por Marx e Engels na Ideologia Alemã, "uma consciência invertida do real" ou uma "falsa consciência". Mas de forma positiva, ou de que é impossível se furtar da presença da ideologia, pois diante do reconhecimento da complexidade da totalidade do real e da parcialidade de nossas vivências, experiência e discurso são sempre parciais e interessados, sobre essa mesma totalidade. Como um ato de reconhecimento da imparcialidade do nosso saber, a ideologia se torna uma presença inescapável. Mas, reconhece-se nesse quadro a presença de ideologias progressistas, que pretendem a transformação do mundo, e conservadoras, que investem na manutenção do status quo atual. "Cada camada social tem sua consciência e sua cultura, isto é sua ideologia, essa portanto não é apenas estreitamente política, mas identifica um grupo ou camada social." LIGUORI e VAZA 2017 página 407 Por outro lado, o termo hegemonia dinamiza o conceito de ideologia, mostrando-nos que determinadas concepções de mundo conquistaram o metabolismo social, passando a governar nossa forma de operar. De forma sucinta os termos são apresentados na aula da seguinte maneira;


Ideologia: Reconhecimento da existência da totalidade do real e consciência da parcialidade do nosso conhecimento e discurso sobre esta mesma totalidade.
Hegemonia: Dinamização do conceito de Ideologia, sendo a capacidade da ideologia de conquistar o metabolismo social.


A partir daí procurei caracterizar a dinâmica do nosso mundo contemporâneo, como um embate ideológico entre uma mentalidade concorrencial, que reforça um estado de luta individual de todos contra todos, contraposto a outro aonde a solidariedade entre agentes abre a possibilidade de construção de um comum coletivo.  O neoliberalismo da imposição da concorrência generalizada, contraposto a solidariedade que luta por maior equidade no gênero humano. A própria cidade e a construção de seu patrimônio construído é entendido como a expressão desses esforços comuns, que muito além de qualquer personalismo investem fortemente na ideia de coletividade específica. Ideologicamente a cidade é única e caracterizada como o encontro da diferença da multiplicidade didática e formadora, potencializadora de um imenso desenvolvimento humano a partir da convivência com o outro.


Em 2030, seis entre dez pessoas viverão em cidades. Hoje em dia 1 bilhão de pessoas vivem em favelas ou em loteamentos irregulares. Em 2030 serão 2 bilhões de pessoas na informalidade. E, em 2050, 3 bilhões de pessoas estarão na informalidade. A partir desses dados procurei estabelecer, que  há um desenvolvimento explosivo da população urbana no mundo, um processo que se acelera de forma definitiva com a industrialização, iniciada na Inglaterra no século XVIII. Esse processo irá determinar pela primeira vez na história da humanidade uma presença maior de pessoas vivendo em cidades, do que no campo. O projeto da modernidade, desde o Renascimento apontava para a pretensão de controle do desenvolvimento, implantando a autodeterminação consciente das comunidades. O mundo ocidental, desde a sua fundação na antiguidade clássica greco-romana buscava estabelecer o compartilhamento de responsabilidades entre os cidadãos, para promoção de um futuro comum e melhor.

Nesse ponto, na nossa segunda aula tentei caracterizar de forma mais breve possível os dois filósofos temporalmente mais distantes de nossa contemporaneidade; Platão e Santo Agostinho. O primeiro foi vinculado as cidades estado da Grécia antiga, particularmente sua comunidade a Atenas logo após a era de ouro de Péricles, que desenvolveu entre seus cidadãos livres a ideia da democracia ateniense. A reflexão de Platão está profundamente marcada pela imposição do suicídio de Sócrates pela assembleia (eclesia) ateniense, que não compreendeu a complexidade de suas proposições, levando a se refugiar num idealismo que distingue "o que é", do que "o que deveria ser". Depois Santo Agostinho é rapidamente caracterizado como o filósofo da emergência do cristianismo no ocidente, que já vivencia o declínio de Roma, mas paradoxalmente vive a ascensão da cultura e lingua latina como demonstração de erudição e o declínio paulatino do grego. O cristianismo, particularmente romano é também caracterizado como uma especificidade ocidental, que dissemina a ideia universal de igualdade entre todos os seres humanos. Uma ideia absolutamente inusitada e niveladora da humanidade, que conhece uma nova ética, aonde todos podem atingir a salvação.

Na terceira aula abordamos Adam Smith e Imanuel Kant, filósofos que partilham grande otimismo em função das transformações, descobertas e da ampliação da racionalidade científica, que os séculos XVIII e XIX representam na história humana. Adam Smith é mais um economista que um filósofo, mas sua inclusão se justifica por sua inserção na cidade de Glasgow entre 1723 e 1790, que segundo Peter Hall será a representação da "Conquista dos Oceanos" num período mais alargado de 1770 a 1890. David Hume, seu companheiro na Universidade de Glasgow talvez fosse mais adequado, como representante do empirismo inglês. Mas, a otimista leitura de Smith do nivelamento dos mercados mostra-nos uma certa infância ingênua do sistema capitalista, que ainda não percebia sua tendência recorrente de formar monopólios de proteção contra o lucro declinante, justificando sua eleição. Kant, e a filosofia alemã mereceram uma especial atenção. O cosmopolitismo kantiano é destacado, como uma típica atitude do iluminismo alemão, que carrega um verdadeiro paradoxo, afinal Kant nunca saiu de sua cidade natal Konigsberg, na Prússia Oriental. Uma cidade que hoje é Kaliningrado na Russia, que abrigou em sua provinciana atmosfera, o cosmopolitismo do sonho de paz de uma humanidade unificada por suas diferenças, na filosofia de Kant.

Na quarta aula os dois filósofos presentes são Hegel e Gramsci, aonde ainda se percebe a presença de um otimismo teleológico contagiante no futuro da humanidade, afirmativo e quase enlouquecido do primeiro, enquanto no segundo já indicando sinais de melancolia e angústia. Hegel é a expressão de uma confiança desmedida da razão realizada num espírito que só se aprimora, hipótese e antítese resolvem seus embates contraditórios numa síntese sempre melhor e aperfeiçoada. Razão tão prepotente, que desdenha da arte, pois inevitavelmente ligada à mágica,  à religião e ao mistério, que não são mais admitidos mais, sendo suplantados pela compreensão da totalidade, num movimento do espírito do tempo que só se aprimora. A arrogância da razão de Hegel talvez esteja mais claramente expressa em sua construção algo peremptória e definitiva; “O que é racional é real e o que é real é racional.” Gramsci, o genial sardo, apesar de manter a vinculação dos marxistas ao hegelianismo terá uma premissa estruturante da sua juventude ligada aos estudos de linguística. A glotologia, que estuda a evolução molecular das línguas, apontou desde cedo para o filósofo italiano, que o processo revolucionário, só fará sentido quando capilarizado molecularmente no comportamento cotidiano das massas. As noções de grande intelectual, intelectual orgânico apontam para uma das mais criativas relações entre fazer e pensar, na filosofia ocidental, inclusive no que se refere a nossa capacidade de construir o real, e de modifica-lo. Apesar das imensas derrotas, tanto no plano nacional da Itália, com sua prisão nos cárceres de Mussolini, como também no plano internacional, com a Revolução Russa, que começava a se desvirtuar em autoritarismo totalitário, com a emergência de Stálin, Gramsci mantém uma atitude otimista inusitada para sua vivência de perdas importantes. Os conceitos de ideologia e hegemonia são destacados, mostrando que sua diferenciação identitária com a Sardenha agrária e atrasada, e o contexto do Piemonte, industrial e moderno também irá marcar seu pensamento numa dialética entre centro e subalternidade absolutamente genial e operativo. As distinções entre periferia, semi periferia e centro no sistema capitalista será uma de suas mais brilhantes síntese da filosofia contemporânea.


Na quinta aula, Michel Foucault e Jürgen Habermas, dois pensadores contemporâneos atravessados pela presença das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, e o Holocausto na Alemanha Nazista, uma fábrica macábra da morte. O niilismo e a melancolia tomam de assalto o pensamento dos dois filósofos, desencantando o mundo das promessas do modernismo, que prometiam emancipar a humanidade, acabaram por gerar mais opressão. Foucault se isola num certo "niilismo de cátedra", na genial afirmação de José Guilherme Merchior, condenando de forma indiferenciada a racionalidade como produtora de dominação, A presença do poder em todas as partes, significa sua dispersão no cotidiano humano de forma dissimulada, determinando a presença de uma microfísica da dominação nas relações humanas, mais banais. A impossibilidade de existência de interação desinteressada entre seres humanos é constatada, reanimalizando a espécie humana, que estaria condicionada por impulsos de irracionalidade. A matriz nietzcheana desse pensamento parece radicalizada pela ausência do Super Homem, dominações e coerções se generalizam em todas as direções em função da presença do discurso.

“Falar é antes de tudo deter o poder de falar. Ou ainda, o exercício do poder assegura o domínio da palavra: só os senhores podem falar.” Foucault citado em PULS 2006 página560

Habermas irá restituir a necessidade da razão, como única forma de entendimento possível para a humanidade, distinguido uma racionalidade instrumental, da racionalidade intersubjetiva, e reafirmando o projeto da modernidade. A partir de uma distinção importante entre modernismo e modernidade, sendo o primeiro uma sensibilidade de época dominada por uma crença cega na técnica, enquanto o segundo, seria a pretensão humana de governar seu próprio vir-a-ser. As revoluções americana e francesa com a ampliação da democracia e do republicanismo determinaram a pretensão universal de autonomia para todos. Na verdade, a pretensão de autogoverno e autodeterminação retrocedem a antiguidade clássica e ao renascimento italiano, aonde pela primeira vez se manifestam o desejo pela autodeterminação das comunidades.  Para HABERMAS, os sintomas da evolução social, sejam evolutivos ou regressivos, precisam ser impulsionados em seu sentido progressista, o que significa a ampliação de formas de vida mais democráticas, incluidoras e emancipadoras. Dentro das quais a linguagem, o trabalho e a comunicação são especificidades humanas, que impulsionam aquilo que o filósofo alemão considera como fundamental na vida social, a capacidade de aprendizagem. Essa na verdade, não possui um sentido teleológico, mas necessita e demanda da humanidade uma constante reflexão, viabilizada pelo conflito e o embate de visões dentro da ação comunicativa.

Esse portanto, o quadro geral das aulas, que buscaram mapear as reflexões e determinações no que se refere a construção do ambiente humano no nosso planeta desses oito pensadores, pensando no campo do nosso ofício, a arquitetura, a cidade e a região. 


BIBLIOGRAFIA:


KONDER, Leandro - Os marxistas e a arte - Expressão Popular São Paulo 2012

KONDER, Leandro - A questão da ideologia - Companhia das Letras São Paulo 2002

LIGUORI, Guido e VOZA, Pasquale - Dicionário Gramsciano - Editora Boitrempo São Paulo 2017

MERQUIOR, José Guilherme - Michel Foucault, ou o niilismo de cátedra - Editora Nova Fronteira Rio de Janeiro 1985

MERQUIOR, José Guilherme - O marxismo ocidental - Editora Nova Fronteira Rio de Janeiro 1987

PULS, Mauricio - Arquitetura e filosofia - Editora Anna Blume São Paulo 2006

RAPONE, Leonardo - O jovem Gramsci, cinco anos que parecem séculos 1914-1919 - Editora Contraponto Rio de Janeiro 2014