sábado, 5 de janeiro de 2019

O jovem Gramsci, a linguagem e as formas de construir

Capa do livro de Leonardo Rapone
Gramsci chegou a Turim em outubro de 1911, aos vinte anos de idade, havia conseguido em junho o diploma do liceu em Cagliari, capital da Sardenha, e chegara ao Piemonte pretendendo ingressar na Faculdade de Letras. Não era um abastado, se confrontava com uma grande penúria de meios de sustento, sua saúde era precária, e era um imigrante da Sardenha, uma das regiões mais pobres da Itália recém unificada, exatamente pelo Piemonte rico e industrializado. Sua família era bastante precarizada, seu pai em 1898 havia sido preso por peculato, concussão e falsidade ideológica, deixando a família sobreviver com os bens da herança materna, e de seus trabalhos como costureira. Por outro lado, havia sido um excelente estudante, naquele ano de 1911 participara de um concurso do Colégio Carlos Alberto, uma instituição beneficiente que fornecia bolsas de estudos para estudantes em condições desfavoráveis, obtendo a bolsa pelos anos de 1911-12. Naquela sua chegada a uma metrópole como Turim, seu primeiro esforço foi se despir de seu provincianismo paroquial, de um homem da Sardenha do princípio do século, abraçando a modernidade cosmopolita, que rapidamente se industrializava com a instalação de fábricas como a FIAT e a LANCIA. Essa condição de subalterno no espaço social da Itália será uma das fontes mais profícuas do seu pensamento, a noção de um certo centro impulsionador do capital, constituído primeiro pela Inglaterra e depois pelos EUA. A subalternidade da Itália nesse sistema mundial, a minoridade da burguesia italiana frente a inglesa, americana e francesa, sua declaração de dependência do Estado Nacional, a fraqueza do liberalismo italiano frente a essas outras três nações. A posição da Sardenha e a parte meridional da Itália agrária, católica e arcaica, frente ao norte industrializado, urbano e moderno. A reflexão de Gramsci terá sempre esse componente histórico espacial e cultural, que identifica especificidades, mapeia suas potencialidades e problemas, buscando sempre a estratégia da transformação. Mantendo sempre um otimismo propositivo. Sua consciência do desenvolvimento capitalista, sempre nos remete ao confronto entre o arcaico e o moderno, aonde as duas condições não são apenas polos antagônicos, mas realidades que tomam conhecimento mútuo, e muitas vezes exploram sua proximidade de forma complementar.

"Em 1913, nos meses de interrupção da atividade universitária, Gramsci pode assistir na sua ilha à campanha para as primeiras eleições com sufrágio semiuniversal* e dela retirou uma impressão muito viva da eficácia da política como fator de mobilização e transformação das massas camponesas, admitidas pela primeira vez ao exercício do voto. Em setembro, na esteira das eleições, realizou seu primeiro ato político público, aderindo ao grupo de ação e propaganda dos interesses da Sardenha, de inspiração antiprotecionista, que se constituira  no verão**. São particularidades de certa importância, porque nos conduzem ao tema da desprovincialização e nos ajudam a entender a natureza do processo que se realizou no espírito do jovem sardo. A inscrição de Gramsci no PSI é parte integrante de sua nacionalização; com tal ato Gramsci não cortava as raizes territoriais, mas especificava a dimensão intelectual e política na qual buscaria a explicação e perseguiria a solução para as angústias e os problemas específicos da Sardenha, lugar originário e indelével da sua tomada de consciência dos antagonismos sociais." RAPONE 2014 páginas63 e 64

E, mais do que sua nacionalização, Gramsci toma consciência das interações no sistema capitalista entre as nações da Europa e dos EUA, hierarquizando suas histórias e constituições, definindo uma centralidade muito além da mera simplificação econômica. Mas logo após sua chegada a Turim, Gramsci circulava no meio sindical, como produtor de ensaios e textos para jornais ligados ao Partido Socialista Italiano (PSI), ao mesmo tempo, era demandado pela Faculdade de Letras de Turim para temas acadêmicos, como os estudos de glotologia*** do professor Matteo Bartolli, uma referência dos neolinguistas. Também a língua, sua evolução e seu desenvolvimento irão sempre constituir para Gramsci como um ordenamento estruturado de forma molecular e dispersa, e de baixo para cima, com transformações contínuas, que lhe permitiam analogias com a política. Além disso, a questão da língua sempre esteve nas reflexões de Gramsci relacionada à organização da cultura e à função dos intelectuais orgânicos das diferentes classes sociais. Gramsci também construirá um forte vínculo entre linguagem e forma de estruturar o pensamento, negando de forma enfática o naturalismo e o mecanicismo, que imperava nos meios marxista do início do século XX. Mas ao mesmo tempo valorizando de sobremaneira a forma como a linguagem se estrutura, possibilitando a criação, a reformulação e a revolução dentro de parâmetros e regulações socialmente introjetadas em cada indivíduo. Para Gramsci, o estudo e o aprofundamento no fenômeno da linguagem sempre será proveitoso, reunindo criatividade e compreensão socialmente compartilhada, que na verdade impulsionam um devir histórico real e apartado do idealismo.

"Mas aqui quem se pronuncia não é só o discípulo de Bartoli: é também o militante político para o qual opor-se ao esperanto equivale a declarar-se 'revolucionário' e 'historicista': de fato, significa afirmar que na base do devir histórico está 'a atividade das energias sociais livres', excluindo as utopias - isto é, a pretensão de buscar projetos abstratos, ao mesmo tempo arbitrários e ilusórios, sobrepostos ao agir dos homens - e combatendo a ideia de que o movimento da vida e da história, entendido por Gramsci como perpétuo 'fluir de matéria vulcânica liquefeita', possa atingir um estágio último e definitivo, porque hipoteticamente perfeito: 'Por isso abaixo o esperanto, tal como abaixo todos os privilégios, todas as mecanizações, todas as formas definitivas e enrijecidas de vida, cadáveres que empestam e agridem a vida em devir'"****RAPONE 2014 página57

Foi exatamente essa celebração do acaso no devir histórico, que sempre mobilizou a curiosidade de Gramsci, e sua capacidade de pensar estratégico, aonde a pretensão ao controle total, já denotava sua crítica aos processos revolucionários violentos. E, as formulações posteriores da distinção entre guerra de posição e guerra de manobras, e o próprio conceito de hegemonia, que dinamiza a ideologia como instrumento efetivo de ação no cotidiano. Mas, outro professor, que incentivou Gramsci ao ensaísmo foi Umberto Cosmo, livre-docente de Literatura Italiana, que incentivou-o a escrever sobre Maquiavel desde 1917, buscando uma ponte entre a cultura e a política, que tanto seduzia o jovem sardo. Nesse sentido, sua simpatia pela ação de ruptura das vanguardas culturais, que contaminavam o ambiente italiano do início do século XX é apontado sempre com destaque de sua vivacidade intelectual, além de um traço de pertencimento geracional. A revista La Voce de caráter burguês e L´Ordine nuovo fundado em 1919, da qual fazia parte mostram esse esforço de tentar dar agilidade e vivacidade à acadêmica e "balofa cultura italiana", nas palavras do próprio Gramsci. Percebe-se nas posições do filósofo da Sardenha, já na sua juventude um profundo vínculo com a cultura humanista italiana, que muito além da política constroe uma conexão entre vida cotidiana e estratégia de construção socialista. Uma continuidade didática, e que celebra na atividade política uma capacidade pedagógica de constante aperfeiçoamento, cada vez mais distante do idealismo, fazendo um enorme esforço em direção ao pragmatismo. Num exemplo dessa atitude embrionária, a partir de um discurso em 1916 de Filippo Turati, um socialista reformista, que declara ferrenha oposição a qualquer forma de sabotagem do esforço bélico italiano na primeira guerra, finalizando no seu texto com a expressão; "isto seria ao mesmo tempo idiota e nefando", Gramsci nas páginas do Avanti de janeiro de 1917 coloca a questão do léxico do líder reformista contra ele próprio;

"Pesemos as palavras. Idiota: palavra nobilíssima, de origem grega. Idiota significa, antes de mais nada, soldado simples, soldado que não tem galão. Significa em seguida: quem pensa com a própria cabeça, quem é peculiar, quem ainda não se submeteu à disciplina social vigente...Idiota é quem é diferente, quem pensa e fala diferentemente da maioria. Idiotismo é a palavra ou o modo de dizer próprio de uma região, e não usado na língua literária ou nacional... Nefando, palavra igualmente nobre, de origem latina. Significa: quem fala como a divindade proibiu que se falasse, quem faz afirmações proibidas pela lei. Duas palavras que têm um valor autenticamente democrático do ponto de vista social." RAPONE 2014 página55

Fica claro nesse posicionamento do jovem Gramsci, essa dimensão questionadora e fora dos parâmetros de uma zona de conforto cômoda, que esse pensamento nos propõe a nos levar, aonde a mentalidade solidária e socialista não se restringe a conquista do poder, mas permeia o agir diário. O livro de Leonardo Rapone, traduzido em 2014 destaca uma série de textos onde o jovem Gramsci, a partir da ironia e em torno do significado assumido pelas palavras em diferentes ocasiões e contextos fustiga seus opositores levantando a adaptação das palavras à diferentes realidades ideológicas e temporais. Gramsci sempre irá celebrar esse caráter indomável e avesso ao autoritarismo, que a língua carrega, como no caso da unidade linguística da Itália, proposta em seu tempo a partir do dialeto da toscana, proposta por Manzoni, ou no caso da adoção do Esperanto como facilitador da comunicação internacional. O linguista e filósofo sardo irá repelir com veemência a imposição de cima para baixo, sobre o argumento de que "a linguagem, ainda antes de mecanismo comunicativo, é produto em contínuo devir." RAPONE 2014 página56. Na questão da lingua internacional, o Esperanto, Gramsci sem dúvida já celebrava a internacionalização da solidariedade entre despossuídos, mas reafirmava a presença da necessidade pulverizada e molecular, que criaria as condições para a emergência da nova língua a partir do cotidiano, e não por decreto. Há nas referências linguísticas de Gramsci uma constante menção às energias sociais livres, que nunca irão parar de se desenvolver, fazendo pouco caso das narrativas que pensavam num estágio último e definitivo das contradições sociais, que para ele jamais cessariam. Assim como, a linguagem, a arquitetura, que é uma necessidade humana difundida e presente em toda a humanidade, afinal o homem em suas diversas culturas produz seu próprio abrigo, e não reconhece no planeta e no seu ambiente, tal qual está constituído, um acolhimento adequado. Afinal, existe a produção da arquitetura culta dos arquitetos, e aquela produzida pela auto construção, pela necessidade do abrigo, aonde as referências construtivas estão presentes, assim como na língua. Essa condição, de auto reprodução das técnicas de construção do sua própria sobrevivência se dissemina entre as pessoas conforme o vocabulário, que dominam, seja na materialidade disponível, ou na parcela aonde estão autorizados a realiza-la, o que vincula de forma definitiva, a linguagem à cultura do construir, que sempre tem profundos vínculos com o lugar e com o tempo. O que também está constituído na cidade, que nunca é a mesma, justamente em função das variações dessa linguagem do construir, tanto no espaço, como no tempo.

"O povo italiano, há cinquenta anos, não existia, era só uma expressão retórica, Não existia nenhuma unidade social na Itália, existia uma unidade geográfica. Existiam milhões de indivíduos dispersos no território italiano, cada qual vivendo para si mesmo, preso no seu torrão particular; ninguém sabia da Itália, cada qual falava um dialeto particular, acreditava que todo mundo estava limitado ao horizonte de sua aldeia. Conhecia o coletor de impostos, conhecia o carabineiro, conhecia o juiz e o tribunal: sua Itália. E, no entanto, esse indivíduo, muitos destes milhões de indivíduos superaram este estágio particularista, formaram uma unidade social, sentiram-se cidadãos, sentiram-se colaboradores de uma vida, que saia do horizonte da sua aldeia, que se estendia por espaços cada vez mais amplos do mundo, que se estendia ao mundo inteiro.... Ele fez com que um camponês da Puglia e um operário de Biella falassem a mesma língua, passassem, tão distantes, a se expressar de modo igual em relação ao mesmo fato, a dar um juízo igual sobre um acontecimento, um homem..." RAPONE 2014 páginas 66 e 67

Aqui há uma profunda vinculação entre espaço nacional, esforço particular e individual, construção de uma mentalidade coletiva solidária, identidade linguística e cultural, consciência e determinação, particularidades que também estarão presentes na arquitetura. Na verdade, os alicerces conceituais do jovem Gramsci são vários e diversificados, indo do socialista Benedeto Croce ao fascista Giovanni Gentile, ambos neo-idealistas e hegelianos, de Henri Bergson com sua construção da consciência, ao engenheiro sindicalista George Sorel, ambos detratores do positivismo. Sua filiação ao marxismo problematiza sempre a tendência a um certo economicismo, e reafirma a centralidade da cultura e a necessidade de atuação na revolução dos costumes cotidianos dos diversos agentes. Gramsci encara a teoria de Marx não como a elaboração de uma síntese fechada, baseada em ortodoxias, mas como um pensamento sistêmico que permite apropriações variadas em função das conjunturas históricas e espaciais específicas. A identificação da figura do intelectual como uma possibilidade acessível aos diversos extratos sociais, na construção do pensar orgânico, que por vivenciar uma determinada experiência carrega um conhecimento, que merece um espaço de narrativa a ser ouvida. Sua construção da cultura e do pensar humano sempre se afastou de um certo elitismo exclusivo, mirando numa prática cotidiana portadora de uma potência didática e reveladora da liberdade. Seu marxismo jamais tendeu a redução determinista e etapista, suas reflexões a partir do advento da revolução russa e seu ainda embrionário sistema capitalista, sempre enfatizaram a questão do indivíduo como impulsionador da história.

Enfim, o sistema gramsciano de pensamento está fortemente estruturado em torno das dimensões da linguagem, do conceito de centro e de hierarquia, bem como a ideia de espacialidade e temporalidade diversificadas, que geraram especificidades, que precisam ser estudadas. Tudo isso configura um instrumental importante para a compreensão da cidade e da arquitetura no nosso mundo contemporâneo.

NOTAS:

* O sufrágio universal masculino foi decretado em 1912, e apenas em 1945 admitiu a participação das mulheres.
** RAPONE 2014 página 64 destaca que a adesão de Gramsci foi publicada na Voce9 de outubro de 1913.
*** Glotologia, ciência que estuda comparativamente as diversas línguas, considerando suas origens e formação. (Sin.: glossologia, glótica.)
****RAPONE 2014 página57 destaca que Bartoli sempre destacava a mobilidade da vida da linguagem.

BIBLIOGRAFIA:

RAPONE, Leonardo - O jovem Gramsci: cinco anos que parecem séculos 1914-1919 - Editora Contraponto Rio de Janeiro 2014

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O espaço da Europa em 1848, e o nosso tempo contemporâneo

Mapa da região da atual Alemanha em 1848, ano de publicação do
Manifesto Comunista
Karl Marx nasceu em 1818 na Prussia, e morreu em 1883 em Londres, é portanto um típico homem do século XIX, com alguns traços burgueses e conservadores, característicos do seu tempo notadamente em suas relações familiares e pessoais. Uma das mais belas sínteses sobre essa faceta da vida do filósofo alemão é o livro da sua biógrafa inglesa, Mary Gabriel, Amor e Capital, a saga da família de Karl Marx e a história de uma revolução, que nos revela sua vida afetiva. Um dos aspectos mais destacados por Mary Gabriel é o amor e a dedicação da nobre prussiana Jenny von Westphalen, que foi sua mulher durante toda sua vida. Mas, uma das questões apresentadas logo no começo do livro, que exatamente assinalam essa condição de um homem do século XIX é o mapa da ainda inexistente Alemanha em 1848, mesmo ano da publicação do Manifesto Comunista. A pequena cidade de Treveris aonde Marx nasceu em maio de 1818 ao norte de Berlim, mau está assinalada no mapa. A Prússia que domina a costa do Mar do Norte ainda se estende em sua parte oriental, com o nome de Prússia Polonesa. O Império Austríaco, com sua capital na cidade de Viena ainda domina uma ampla região no sul, mantendo fronteira com o Império Otomano, chegando ao que foi a Hungria. Esse mesmo Império também denominado de Austro Húngaro, alcançava o Mar Adriático, dominando a região da Lombardia-Venecia, que envolve a atual região do Veneto da Itália, e que abriga uma das cidades mais marcadamente italianas do nosso tempo, a charmosa Veneza. A Alemanha atual ainda está partida em uma série de reinos e feudos, como; a Silésia, a Baviera, a Saxônia, a Westphalia, e outros, sendo denominada como Confederação Germânica. No mesmo ano de 1848, a Itália também está partida em uma série de pequenos reinos, iniciando o processo do que se denominou, o risorgimento, que foi sua unificação.

O segundo mapa apresentado por Mary Gabriel é o da Europa também em 1848, com uma nota esclarecedora de que grande parte das fronteiras da Europa haviam sido definidas pelo Congresso de Viena de 1815, que após a queda de Napoleão haviam consolidado fronteiras a oeste da França de monarquias, apesar dos clamores pelas liberdades democráticas. Vários historiadores destacam o papel de Napoleão na disseminação dos ideais da Revolução Francesa, através das Guerras Napoleônicas no continente europeu.  Nessa mesma nota, também assinala-se, que no ano de 1848 ocorerram uma série de rebeliões, que reforçavam as demandas por liberdades democráticas, e que foi a única revolta continental da história europeia, segundo a biógrafa inglesa. Tal fato, explica a veemência da frase inicial do Manifesto Comunista, que se inicia com o anuncio de que; "Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo."

Mais uma questão também se destaca no mesmo livro, as condições de salubridade da Londres da Rainha Vitória, aonde a família do velho Marx viveu, que não era das melhores e que acabou determinando a morte de dois de seus filhos, devido a epidemias como cólera, típicas das condições sanitárias e das péssimas formas de sustentação. O mapa de Londres ao lado, assinala o ano da morte de Marx 1883, mas em 1851 quando chegou a cidade o filósofo alemão estava com 33 anos e a cidade mantinha as mesmas condições. Marx e sua mulher, Jenny von Westphalen e cinco filhos ocuparam um sótão na Dean Street no terceiro andar sem instalações sanitárias refugiados primeiro da França e depois da Bélgica. Apesar disso, a cidade se destacava no cenário europeu como destino preferencial de irlandeses, alemães, franceses, húngaros, italianos refugiados de seus países por conta das rebeliões contra as monarquias de seus países.

"Eram refugiados políticos após tentativas fracassadas de derrubar a monarquia e lutavam pelas liberdades mais fundamentais. Agora, castigados pela chuva e pelo frio cortante, até a ideia de lutar pelos próprios direitos parecia absurda. O farol que Londres parecia ser se provara uma miragem; a cidade lhes abrira as portas, mas não lhes dera nada. Morriam de fome. Dia e noite uma cacofonia de vozes aflitas se esgoelava para se fazer ouvir em meio ao rumor da capital. Para sobreviver, os recém-chegados vendiam tudo o que podiam – cortes de tecido, botões, cadarços. O mais frequente, contudo, era venderem-se a si mesmos, por hora ou por dia, no trabalho ou na prostituição. " GABRIEL 2013 página21

Apesar dessa grande força de atração das diferentes nacionalidades, as condições sanitárias de Londres e de Manchester eram absolutamente degradantes, envolvendo densidades inimagináveis e condições habitacionais insuportáveis, nunca antes vistas. As cidades na Inglaterra, e logo depois na Europa explodem com um número de população nunca visto, Manchester em 1760 tinha 12mil habitantes, em 1850 atinge 400mil. Engels descreveu as terríveis condições desse crescimento explosivo das cidades industriais inglesas dessa época, reconhecendo a perda de uma certa unidade comunitária, para uma diversidade de grupos culturais e de raças. As condições da infância eram aviltantes, não havendo qualquer proteção contra o trabalho infantil nas fábricas, nas ruas, muitas vezes oferecendo seus próprios corpos para exploração sexual.

"Em Manchester, os ricos se empenharam para não ver os pobres - a cidade era disposta de modo que as classes ricas pudessem viver sem de fato jamais encontrar nenhuma pobreza. Em Londres tais esforços nunca tinham sido feitos. Ricos e pobres parilhavam as mesmas ruas, mas era como se fossem duas espécies diferentes, tão socialmente afastados, que era como se não existissem a não ser como objetos da exploração.. Em Manchester, os bairros operários se espraiavam como ervas daninhas ao longo do rio, mas em Londres os cortiços eram verticais, e os pobres lotavam edifícios de quatro andares do porão ao sótão. Cada centímetro, inclusive as escadas era ocupado. Algumas pessoas alugavam apenas um lugar na cama, nem mesmo uma cama inteira... A industria do sexo que reunia os pobres em Soho Square, St. Giles e no Strand era lendária. Crianças imitando adultos proferiam suas ofertas repulsivas para qualquer passante que pudesse lhes dar um centavo" GABRIEL2013 página127 e 128

Por tudo isso, percebe-se a condição de homens do século XIX tanto de Marx, como de Engels, apesar disso, a construção feita por eles do sistema capitalista, ainda mostra algumas permanências na sua forma de operar. Sem dúvida, o mundo capitalista e sua própria espacialidade mudaram de forma brutal do século XIX para o XXI, as formas de atuação e operação mudaram havendo uma clara aceleração dos processos, no entanto a lógica de procurar na forma monetária a segurança da realização do lucro permanece intocada. E, esse fato acarreta uma série de permanências que não parecem mudar. Uma certa aproximação inevitável, e inexorável com as crises. Aquilo que SCHUMPETER 2017 denominou como destruição criativa do capitalismo, uma forma constante de revolucionar as formas de atuação. Marx no século XIX já apontava essa marca do sistema capitalista de funcionamento, que tendia a procurar a forma monetária, tendendo inexorávelmente a especulação e ao rentismo para de certa forma se livrar da forma mercadoria. Essa capacidade de descrever criticamente o sistema capitalista é talvez o principal legado de Marx e Engels, que identificaram nas crises cíclicas da economia um modo atávico de realizar o lucro para poucos, e sempre concentrar renda. O historiador francês Fernand Braudel, na sua imensa obra fazia uma distinção, que me parece importante entre mudanças superficiais, que ocorrem na superfície do mar fustigado por ventos e ondas, enquanto as grandes profundidades se mostram imutáveis, e funcionando do mesmo jeito. Na sua analogia Braudel, se referia a longa transformação, sofrida entre o feudalismo e o capitalismo, fixando um certo padrão de repetição no capitalismo, no qual a última metamorfose era sempre a fase de predominância financeira, da realização do lucro, ou sua monetarização.

"O ponto de partida de nossa investigação foi a afirmação de Fernand Braudel, de que as características essenciais do capitalismo histórico em sua longue durée - isto é, durante toda suas existência - foram a flexibilidade e o ecletismo do capital, e não as formas concretas assumidas por ele em diferentes lugares e épocas: 'Permitam-me enfatizar aquilo que me parece ser um aspecto essencial da história geral do capitalismo: sua flexibilidade ilimitada, sua capacidade de mudança e de adaptação. Se há, segundo creio, uma certa unidade no capitalismo, da Itália do século XIII até o ocidente dos dias atuais, é aí, acima de tudo, que essa unidade deve ser situada e observada.'" BRAUDEL 1982 pagina 433, citado por ARRIGHI 1996 página4

Os ciclos repetidos do capitalismo são sem dúvida uma constante na sua história desde o século XIII europeu, conforme demonstrado por ARRIGHI 1996, aonde a sucessão de hegemonias dominadoras assinalam o processo apontado por Braudel. Uma fase de intensa produção, aonde a mercadoria parece ser a própria representação da riqueza, seguida por uma fase aonde a moeda passa a ser centralidade da prosperidade. ARRIGHI 1996, também assinala, que no século XIX o capital parecia ter encontrado uma nova casa, algo inusitado até então, que eram as unidades fabris de produção da revolução industrial, que pareciam ter ancorado o capital na produção. Mas logo, a repetição das crises em 1870 e 1929 mostraram que o padrão de busca pelo padrão rentista e especulativo se repetia da mesma forma. Desde os banqueiros genoveses do século XV, que descobriram que era mais seguro emprestar dinheiro aos reis da península ibérica, aos investidores de Wall Street em Nova York em 1929 ou em 20018, vale mais apostar do que produzir. As crises das duas grandes guerras na Europa determinaram para ARRIGHI 1996 a emergência de um novo modo de regulação, notadamente depois do segundo pós guerra, orientados pelo fordismo e pelo keynesianismo. Ainda, segundo o autor italiano, único momento em que o sistema distribuiu renda, mesmo assim apenas nas economias centrais, a partir da super exploração das economias emergentes e periféricas, que mantiveram as condições da acumulação primitiva, também apontada por Marx. No entanto, o modelo de regulação, pelo fordismo e keynesianismo começa a demonstrar esgotamento, com a crise do petróleo dos anos setenta, determinando nova desregulação representada pela ascensão de Thatcher (1979) e Reagan (1981). O mundo dos anos oitenta e noventa reencontra o liberalismo, a partir de sua nova face, o neoliberalismo, que primeiro no mundo anglo-saxão, e depois da Queda do Muro de Berlim, no resto do mundo ditam a celebração da concorrência, e a recusa a qualquer tipo de solidariedade. Diferentemente do liberalismo do final do século XIX e início do XX, o neo-liberalismo elege como fundamental a conquista e domínio do Estado, como aparato regulador da economia, e portanto, criador das regras de sua própria autoajuda.

"Superpondo-se parcialmente a essa biografia, numerosos estudos seguiram os passos da "escola de regulação" francesa, interpretando as atuais mudanças no modo de funcionamento do capitalismo como uma crise estrutural do que eles denominam de "regime de acumulação" fordista-keynesiano. Esse regime é considerado uma fase particular do desenvolvimento capitalista, caracterizada por investimentos em capital fixo que criam uma capacidade potencial para aumentos regulares da produtividade e do consumo em massa. Para que esse potencial se realize, são necessárias uma política e ação governamental adequadas, bem como instituições sociais, normas e hábitos comportamentais apropriados (o"modo de regulação"). O keynesianismo é descrito como o modo de regulação que permitiu que o regime fordista emergente realizasse todo o seu potencial. E este, por sua vez, é concebido como a causa da crise da década de 1970." ARRIGHI 1996 página2

Mais uma vez retornamos a Marx, e constatamos o poder convincente de sua argumentação no distante século XIX, que já naquele tempo entendia os Estados Nacionais como uma construção de ordenação do mercado, e portanto profundamente vinculado aos interesses da burguesia. A falsa dicotomia construída pela mídia conservadora entre estatismo e mercado demonstram como a esquerda foi se limitando em um raciocínio cada vez mais defensivo de posições a manter, do que a conquistar. Em Marx, Engels e até meados do século XX, o pensamento de esquerda mais estruturado afastava-se da defesa incondicional do Estado como representação do interesse público geral, e enfatizava seu caráter classista, e seus interesses inexoravelmente vinculados à burguesia. E mais, Estado e mercado eram estruturas que se constituíram mutuamente, viabilizando-se a partir de regulações que estruturavam a possibilidade de existência de ambos. A força de convencimento do argumento neo-liberal, que repete menos Estado e mais mercado é exatamente pelo recalque da interdependência. O mercado imaginado pelos economistas clássicos liberais era uma verdadeira utopia, inexistente em nenhum lugar ou qualquer época da história humana, pois era um espaço onde os agentes econômicos estavam horizontalmente nivelados, sem a dominação hierárquica dos monopólios, que são outra tendência inevitável do Capital. Afinal, qual a capacidade de resistência de uma cerveja artezanal no cenário econômico do Brasil, diante do monopólio do mercado exercido pela AMBEV? O argumento neo-liberal, repetido ad-infitum, "de que não existe almoço de graça" deveria ser substituído por; porque deram tanto almoço grátis aos monopólios e aos grande grupos econômicos, que acabam sendo defendidos pelos Estados por serem muito grandes para quebrar? Termino por aqui, citando o grande historiador Eric Hobsbawn, que em um de seus últimos livros colocou de forma apropriada nosso problema contemporâneo, que contrapôs o socialismo de Estado, aos fundamentalistas do mercado;

"Paradoxalmente, ambos os lados tem interesse em voltar a um importante pensador cuja a essência é a crítica do capitalismo e dos economistas que não perceberam aonde levaria a globalização capitalista, como ele previa em 1848. Mais uma vez é óbvio que as operações do sistema econômico devem ser analisadas tanto historicamente, como uma fase da história, e não como seu fim, quanto de forma realista, isto é, em termos não de um equilíbrio de mercado ideal, e sim de um mecanismo integrado que gera crises periódicas capazes de transformar o sistema. A crise atual pode ser uma dessas. Mais uma vez, fica patente que, mesmo no intervalo entre grandes crises, "o mercado" não tem nenhuma resposta para o principal problema com que se defronta o século XXI; o fato de que o crescimento econômico ilimitado e cada vez mais tecnológico, em busca de lucros insustentáveis, produz riqueza global, mas às custas de um fator de produção cada vez mais dispensável, o trabalho humano, e, talvez convenha acrescentar, dos recursos naturais do planeta. O liberalismo econômico e o liberalismo político, sozinhos ou combinados, não conseguem oferecer uma solução para os problemas do século XXI. Mais uma vez chegou a hora de levar Marx a sério. " HOBSBAWM 2001 página375


BIBLIOGRAFIA:

ARRIGHI, Giovanni - O longo século XX, dinheiro, poder e as origens do nosso tempo - editora Unesp São Paulo 1996
BRAUDEL, Fernand - The Wheels of Commerce - Harper & Row, Nova York 1982
GABRIEL, Mary - Amor e Capital, a saga da família de Karl Marx e a história de uma revolução - editora Zahar Rio de Janeiro 2013
HOBSBAWM, Eric - Como Mudar o Mundo, Marx e o marxismo de 1840-2011 - Editora Companhia das Letras São Paulo 2011
SCHUMPETER, Joseph A - Capitalismo, socialismo e democracia - Editora UNESP São Paulo 2017

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A premiação Arquiteto do Amanhã de 2018

A premiação Arquiteto do Amanhã 2018
A premiação denominada Arquiteto do Amanhã do IAB-RJ completou nesse ano de 2018 sua trigésima quinta versão, premiando arquitetos a partir do quinto período nas Escolas de Arquitetura do Rio de Janeiro. Sem dúvida nenhuma é um feito que deve ser comemorado, tanto por sua recorrência, como por sua qualidade. Nesse ano tivemos 38 projetos do estado do Rio de Janeiro e de outros estados como São Paulo e Espírito Santo. O júri foi constituído pelos arquitetos Noêmia Barradas, Claudio Crispim e César Jordão, que selecionaram cinco projetos para concorrerem ao Prêmio do CAU-RJ, Arquiteto Grandjean de Montigny, que oferece ao primeiro colocado uma viagem a uma capital sul americana. De uma maneira geral, os trabalhos tiveram um nível bastante alto, havendo um claro incremento de projetos de escala regional, talvez pela retomada no Rio de Janeiro do plano de escala metropolitana, que o Estado promoveu nos dois últimos anos, após a extinção da FUNDREM em 1989.

As escolas de arquitetura são um importante ponto de debates sobre a inserção e a utilização pela sociedade brasileira da prática de plano e projeto. E, portanto são elementos chaves num debate, que entende o maior desenvolvimento social justamente na adoção e intensificação de práticas prospectivas, isto é, a capacidade de programação de nosso vir-a-ser ou futuro. O ambiente acadêmico, pelo seu distanciamento crítico com relação a operação efetiva do ofício, oferece a possibilidade de se arriscar por proposições de contra-plano ou contra-projeto mais contundentes com relação a forma inercial de reprodução da cidade brasileira, da ocupação do espaço do país, ou da habitação. Essa condição traz para as amostras estudantis de uma maneira geral, uma maior capacidade crítica, um frescor de questionamento frente a prática profissional operante, que só lhe faz bem.

O júri do Prêmio IAB-RJ Arquiteto do Amanhã escolheu os seguintes trabalhos mostrados abaixo, sendo os identificados como prêmio, os que foram encaminhados para o júri do CAU-RJ, que foi composto pelos arquitetos; Luiz Carlos Toledo, Celso Girafa e Tainá de Paula. Os projetos, que estão com imagens adjacentes foram os selecionados pelo júri do CAU-RJ, como Grande Prêmio Grandjean de Montigny.


CATEGORIA ARQUITETURA DE EDIFICAÇÕES



MENÇÕES HONROSAS



Trabalho 105-A

ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO: REQUALIFICAÇÃO DOS CIEPs A PARTIR DA LÓGICA DOS GEOS

Autora: Isabella Lopes Farias

Orientador: Luciano Alvares

Universidade: PUC



Trabalho 106-A

A Entre Objeto e Cidade: Autonomia e Resistência no Campo da Arquitetura

Autora: Júlia de Carvalho Carreiro

Orientadores: Diego Aníbal Portas e Guilherme Carlos Lassance

Faculdade: FAU/UFRJ



PRÊMIO:



Trabalho 103-A

OVO - Gastronomia com Origem - Uma Escola de Ecogastronomia em Botafogo - RJ


Autor: Thais Lendrick Souto Alves

Orientadores: Anna Rachel Baracho e Eduardo Julianelli

Faculdade: UFF

1o PRÊMIO ARQUITETO GRANDJEAN MONTIGNY DO CAU-RJ




CATEGORIA ARQUITETURA DE EQUIPAMENTOS CULTURAIS



MENÇÃO HONROSA



Trabalho 202-A

Centro Musical Urbano – Revitalização e Expansão da Casa de Shows Áudio Rebel

Autor: João Brum Rodrigues

Orientadores: João Calafate e Suzane Queiroz

Faculdade: PUC-Rio



CATEGORIA TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NA ARQUITETURA



MENÇÃO HONROSA



Trabalho 404-A

Soluções em madeiras laminadas coladas: arquitetura projetada por catálogo

Autora: Taissa Fontenelle Sily de Assis

Orientador: Denise Solot

Faculdade: PUC-Rio



PRÊMIO



Trabalho 403-A

TENDAS ILÊ



Autora: Maria Clara Barsotti

Orientadores: Vera Hazan e Fernando Betim

Universidade: PUC



3o PRÊMIO GRANDJEAN DE MONTIGNY DO CAU-RJ

 


CATEGORIA URBANISMO E PAISAGISMO



MENÇÕES HONROSAS



Trabalho 502-A

Projeto Urbano na Central do Brasil

Autor: André Ricardo Paiva dos Santos

Orientador: Fabiana Izaga

Faculdade: FAU/UFRJ



Trabalho 504-A

RETERRITORIALIZAÇÃO PÓS-GUERRA. O LUGAR DE RETORNO A PARTIR DO CONCEITO DE URBANIDADE.

Autora: Natalie Przechacki

Orientadores: Leila Beatriz Silveira e Vera Hazan

Universidade: PUC



Trabalho 505-A

A Infraestrutura, Monumento e Paisagem

Autor: Igor Machado

Orientador: Guilherme Lassance

Faculdade: FAU/UFRJ



PRÊMIO



Trabalho 506-A

Experiência no Sertão: Paisagem e Vivências às Margens do São Francisco

Autor: Natalia Ávila Brandão Ferreira

Orientadores: Duarte Vaz e Vera Hazan

Faculdade: PUC-Rio



CATEGORIA IMPACTO METROPOLITANO:



MENÇÕES HONROSAS



Trabalho 703-A

Porto de Itaguaí: Logística, Indústria e Infraestrutura Verde

Autor: Lucas Di Gioia

Orientador: Marcos Osmar Favero

Faculdade: PUC-Rio



Trabalho 704-A

A Infraestrutura e reterritorialização: a reivindicação da Orla do Guaíba no 4º Distrito

Autor: Philip Daniel Shoes

Orientador: Luciano Alvares

Faculdade: PUC-Rio





Trabalho 708-A

A Interfaces Fluídas, Especulações sobre Logística e Cidade

Autor: Julia Novaes Tabet

Orientador: Gabriel Nogueira Duarte

Faculdade: PUC-Rio



PRÊMIOS



Trabalho 702-A

H.I.T. – Hack de Infraestruturas de transporte

Autor: Rodrigo D’Avila

Orientadores: Guilherme Lassance e Pedro Varella

Faculdade: FAU/UFRJ



Trabalho 709-A|

OCUPAÇÕES RIBEIRINHAS: DA DEPENDÊNCIA PETROLÍFERA À RESILIÊNCIA LOCAL DA INTEGRAÇÃO COMERCIAL



Autora: Tainá Lopes


Orientadores: Carlos Eduardo Spencer

Universidade: PUC

2o PRÊMIO ARQUITETO GRANDJEAN MONTIGNY DO CAU-RJ

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A 56a Premiação Anual do IAB-RJ de 2018 e uma reflexão

Vista da Amostra de projetos
A premiação anual do Instituto de Arquitetos do Brasil, departamento do Rio de Janeiro (IAB-RJ) de 2018 vem se realizando a 56 anos de forma ininterrupta, com formatos variados e diferentes categorias, que agrupam diferentes propostas. Atualmente, existe uma comissão curadora constituída por arquitetos de diferentes estados do Brasil, que selecionam e indicam trabalhos de colegas, que são avaliados com um certo grau de qualidade. Tal maneira de atuar foi consolidada a partir de 2017, garantindo que a exposição dos trabalhos apresentados no IAB-RJ seja uma expressiva mostra da produção arquitetônica dos últimos três anos. O interessante na amostra é a recorrente convicção de que a arquitetura brasileira segue sendo um braço importante da cultura no país, mostrando para a sociedade que a produção de seu espaço precisa ser qualificado. E, que grande parte da produção arquitetônica média do Brasil segue sem sequer imaginar sua inadequação, seu desprezo pela cidade pré-existente e pela cidade que será legada às futuras gerações. Enfim, a mediocridade impera num país que possue uma elite endinheirada sem cultura, que prefere esbanjar suas posses consumindo no exterior, e que no país prefere se encastelar em condomínios fechados, carros blindados e shopping centers anti-urbanos. O debate sobre a qualidade arquitetônica, a adequação do que será construído ao contexto existente, e qual cidades estamos reproduzindo é fundamental para as próximas gerações. Estudos recentes mostram, que o parque construído das cidades brasileiras terá que produzir nos próximos 20 anos, o correspondente a 45% do que já está realizado, apenas em função da demanda habitacional. A dinâmica populacional brasileira, já apresenta tendências de estabilização de seu crescimento vegetativo, tal demanda virá da redução da relação de pessoas por domicílio, que nos próximos 20 anos declinará de 2,9 pessoa/ domicílio para 2,0 pessoa/ domicílio. Enfim, apenas no campo habitacional teremos que produzir nos próximos 20 anos, arquitetura em larga escala para atender essa demanda, que deve a todo custo ser produzida onde já temos cidade pronta e infraestruturada, evitando-se a expansão urbana a todo custo. Portanto, cada vez mais teremos que produzir reformando estruturas pré-existentes, onde já há cidade, recusando a expansão de ruas, calçadas, iluminação, coleta de esgoto, distribuição de água, coleta de esgoto, etc..., aprimorando o uso desses serviços, onde já estão instalados.

Como em todas as premiações do IAB-RJ, o júri é soberano e se pauta por sua particular reunião de subjetividades, que deve ser plural e diferenciada na sua visão do ofício da arquitetura e do urbanismo. Assim como na arte a avaliação da arquitetura é carregada de subjetividades, e é apenas do debate entre os jurados diante do conjunto de inscritos, que se consubstancia suas decisões, que partem de premissas preliminares, que a partir do embate entre jurados e trabalhos são relativizados e mudados. Muitas vezes a argumentação e persuasão entre os membros do júri flexibiliza os posicionamentos preliminares, levando a uma reestruturação de posicionamentos. Em toda arquitetura de qualidade há um componente auto biográfico, assim como na arte, determinadas escolhas e decisões do projeto do outro nos incomodam e provocam a pensar. Do ponto de vista geral, percebe-se nessa premiação uma significativa ampliação da apresentação de reformas, reusos, retrofits, ou aproximações com objetos preservados, - 14 trabalhos em 52 projetos - que exatamente apontam para a tendência de construir sob o existente. Em 2018, o júri da 56a Premiação Anual foi composto pelos arquitetos; Pablo Benetti. Mauro Neves Nogueira e Guilherme Figueiredo, que escolheram os seguintes projetos nas seguintes categorias:

CATEGORIA ARQUITETURA DE NOVAS EDIFICAÇÕES

Menção Honrosa: Trabalho 105-P: Picadeiro Hípica


Autores: Sergio Conde Caldas, João de Sousa Machado e Miguel Pinto Guimarães.

Membros da Equipe: Marcos Scorzelli, Glauco Lobato, Caleb Chaves e Julia Chaves.



Menção Honrosa: Trabalho 108-P: Lurixs Galeria de Arte

Autor: Miguel Pinto Guimarães.

Membros da Equipe: Renata Duhá, Adriana Moura, Natália Lopes e Aline Soares.






Menção Honrosa: Trabalho 112-P: Casa das Praças

Autores: Daniel Mangabeira, Henrique Coutinho e Matheus Seco.

Membros da Equipe: Marina Lira, Tatiana Lopes e Victor Machado









Prêmio: Trabalho 103-P: Casa Firjan da Indústria Criativa

Autores: Priscila Marinho de Matos e Nanda Eskes

Membros da Equipe: San Jandrey, Fernando Bonini, Rodrigo Bocater e David Serrão





Prêmio: Trabalho 115-P: Edifício Aruá

Autores: Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz

Membros da Equipe: Sonia Gouveia, Ana Paula Barbosa, Alessandra Musto, Caroline Endo e Wanessa Simoe


Outros Participantes: Rodrigo de Moura, Adriana Pastore e James Smaul




CATEGORIA ARQUITETURA DE RESTAURO E TRANSFORMAÇÃO DE USO DE EDIFICAÇÕES

Menção Honrosa: Trabalho 201-P: Centro Universitário Maria Antonia - USP

Autores: Fernanda Barbara, Fabio Valentim, Cristiane Muniz e Fernando Felippe.

Membros da Equipe:
Ana Paula Castro, Andre Ciampi, Apoena Amaral e Almeida, Camila Lisboa, Clovis Cunha, Fernanda Neiva e Felipe Noto.




Prêmio: Trabalho 204-P: Estúdio de Gastronomia em Muriaé

Autora: Isabela Canêdo Montesano Miranda

Membro da Equipe: Fernado Delgado Páez







CATEGORIA ARQUITETURA DE INTERIORES

Menção Honrosa: Trabalho 309-P: Restaurante Xian
Autor: Miguel Pinto Guimarães.
Membros da Equipe: Renata Duhá, Adriana Moura, Natália Lopes e Tati Viany.

CATEGORIA PRODUÇÃO TEÓRICA

Menção Honrosa: Trabalho 505-P: Arquitectura para la salud en América Latina
Autores: Fábio Bitencourt e Luciano Monza (org.).

Prêmio: Trabalho 504-P: Presença Estrangeira: Arquitetura no Rio de Janeiro
Autores: Maria Cristina Cabral e Rodrigo Cury Paraizo
Membros da Equipe: Denise Vianna Nunes, Niuxa Dias Drago, João Magnus Pires, Gustavo Badolatti Racca, Leonardo Rabaça Falcão, Fernanda Lobianco Araujo, Ravisia Avelar e Nina Zonis Nepomuceno.

GRANDE PRÊMIO IAB/RJ 2018

O Júri resolveu, por unanimidade, conceder o Grande Prêmio IAB/RJ 2018 ao Trabalho 115-P: Edifício Aruá

CATEGORIA URBANISMO E PAISAGISMO

402-P: Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado
Autores: Jaime Lerner e Câmara Metropolitana do Rio de Janeiro

CATEGORIA FOTOGRAFIA DE ARQUITETURA

601-P: Moradas da Saúde, um lugar tranquilo no Porto do Rio,
conjunto de registros documentais elaborados
Autor: Philippe Leon Anastassaki

602-P: intitulado Origens, composto por conjunto de imagens fotográficas artísticas
Autor: Oscar Liberal

sábado, 15 de dezembro de 2018

A presença de Josep Maria Montaner e Zaida Muxi no RJ

A arquiteta Claudia Escarlate (IRPH), Josep Maria Montaner, Zaida 
Muxi e Pedro Évora (PCRJ)
Nos dias 05 e 06 de dezembro de 2018 estiveram presentes na cidade do Rio de Janeiro, os arquitetos; Josep Maria Montaner e Zaida Muxi, críticos ligados a Escola Superior Técnica de Barcelona (ETSAB), que agora estão engajados em compromissos políticos palpáveis, na área da cidade metropolitana da Catalunha. A arquiteta argentina Zaida Muxi, na localidade de Santa Colona de Gramenet, um município da periferia da capital da Catalunha. E, o arquiteto catalão Josep Maria Montaner, que na eleição de 2015 foi eleito Consejal de Vivienda, na cidade mesmo de Barcelona.  No dia 05 de dezembro, os dois fizeram uma palestra no Planetário da Gávea, para lançamento dos livros; Uma Agenda Contemporânea da Arquiteura de Montaner e Mujeres, casas y ciudades de Zaida Muxi. O livro de Montaner já foi comentado aqui no blog, tendo ido para o portal Vitruvius, selecionado como resenha de publicação. E, no dia 06 de dezembro no Museu de Arte do Rio (MAR) para apresentação dos seus trabalhos profissionais mais contemporâneos, junto com a experiência da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (PCRJ) sobre a área da Favela da Maré e sua frente da Avenida Brasil, na zona norte carioca. Os eventos trouxeram para os arquitetos do Rio de Janeiro, tanto do âmbito mais acadêmico, como também para o profissional, um importante testemunho da centralidade do ato de projetar e de planejar na cidade contemporânea, como elemento produtor de participação e qualificação dos seus espaços. Os dois arquitetos se colocaram desde suas primeiras considerações como participantes de movimentos sociais variados, até um passado recente, que reinvidicavam no contexto da Espanha por habitação, ou por direitos à urbanidades diferenciadas, passando mais recentemente a administradores governamentais. Nessa atual condição reconheciam as dificuldades enfrentadas, num contexto da Espanha, onde a crise das hipotecas de 2008 ainda impacta a atual situação, que ocorre de forma simultânea a grande crise financeira do mesmo ano nos EUA.

O testemunho da arquiteta Zaida Muxi mostrou as dificuldades da atuação nas periferias das cidades espanholas, num território com um claro grau de subalternidade, com relação a cidade de Barcelona, a municipalidade de Santa Colona Gramenet. No contexto de um governo com claro acento feminista, comandado pela prefeita Nuria Parlon, reeleita pelo Partido Socialista da Catalunha (PSC) em 2011, que se cercou de treze secretárias mulheres, num conjunto total de quinze. A proposta envolvia uma clara mudança das proposições dos anos noventa da arquitetura catalã, investindo-se fortemente numa forma de atuar não icônica, não sobre desenhada, enfim mais próxima do cotidiano das pessoas. Um recuo do design excessivo, que fez a fortuna da tradição catalã de fazer cidades, para se buscar uma maior aproximação com o cotidiano mais simples e imediato das necessidades das pessoas. A reflexão de Zaida Muxi nos leva a refletir sobre os vínculos fortemente imbricados entre centralidade, turismo, especulação imobiliária e espetáculo, que seduziram fortemente nosso ofício, durante os anos oitenta e noventa. A luta da arquitetura e do urbanismo, na localidade de Santa Colona Gramenet, de convencimento, se mostra em torno do rechaço ao rodoviarismo imperante na periferia distante, a proposição de espaços híbridos - públicos e ao mesmo tempo privados - , e, um investimento na auto estima da população local. Interessante destacar, que a experiência da jovem prefeita de Santa Colona Granemet também envolve a adoção de uma moeda específica e própria da localidade, denominada Grama. Certamente para amortizar os processos de gentrificação sempre presentes na cidade contemporânea, tão impactada pela hegemonia do capital rentista e especulativo das elites internacionalizadas.

Logo após essas colocações, o arquiteto Josep Maria Montaner apresentou sua experiência como conselheiro eleito a frente da cidade de Barcelona, destacando que o modelo Barcelona de fazer cidades dos anos noventa tinha como referência teórica; Aldo Rossi e Colin Rowe. Mas também o movimento de lutas de vizinhança, e pelo acesso à moradia, que se iniciaram na cidade nos anos setenta, antes da queda de Franco. Na atualidade, o movimento afetados pela hipoteca permanece com forte atuação na cidade devido a dramática situação de Barcelona  e da Espanha em geral no setor da habitação. Apesar da situação dramática de algumas famílias espanholas, que além de serem despejadas de suas habitações permanecem com suas dívidas com os bancos, os neoliberais ainda repetem a mesma ladainha de delegar ao setor privado, os empreendimentos imobiliários de cunho social. Uma questão foi destacada por Montaner, que impacta fortemente a habitação e que envolve o imenso afluxo de turistas atraídos por Barcelona, transformando áreas como no entorno da Sagrada Família de Gaudí em uma região de forte oferta de hospedagens pelo site Airbnb. A questão assume uma dimensão impressionante, a partir dos dados quantitativos trazidos por Montaner, simplesmente 10 milhões de turistas visitam a cidade por ano. O dado é impressionante, quando se compara com o fluxo turístico do Brasil inteiro, que fica nos 6 milhões de visitantes  por ano, o que nos mostra como nesse setor ainda temos muito que fazer. De toda maneira, Montaner assinalou de forma enfática o caráter predatório do turismo contemporâneo, que acaba gerando uma forte resistência por parte da população local, que parece esquecida frente aos imensos fluxos turísticos. A reflexão maior de Montaner, me parece a proposta de construção de uma alternativa às imensas quantidades de moeda investida na Espanha nos anos noventa, que de uma hora para outra sumiram com a crise de 2008.

Após essas duas apresentações foi aberto ao público para perguntas diferenciadas. Como presidente do IAB-RJ, eu fiz uma colocação a respeito da política pública de produção de habitação de interesse social no Brasil, assinalando que desde o ano de 1963, a rede do IAB no país defende a tese, de que a urbanização de favelas deve ser parte constituinte dessa política, articulando e coordenando a produção de novas unidades. Enfatizei também, que o desenvolvimento brasileiro no século XX foi dos mais dinâmicos do mundo, fazendo o país alcançar a posição de oitavo PIB dentre as economias globais, no entanto esse imenso incremento não significou a melhora das condições de vida de parcela significativa de nossa população, fazendo com que o país ainda apresente a pior distribuição de renda do mundo. Tal fato, representa uma clara comprovação de que o desenvolvimento brasileiro foi para poucos. O nosso desafio contemporâneo é efetivamente produzir desenvolvimento com inclusão social, gerando a sensação de que todos estão incluídos. Nesse sentido, as cidades brasileiras são a demonstração mais palpável dessa condição histórica de um desenvolvimento exclusivo, onde as favelas e periferias são os territórios da exclusão. Por outro lado, percebo no casal de arquitetos catalão um alinhamento político ideológico de esquerda de construção de um mundo mais solidário, mas não ortodoxo e fora de uma zona de conforto. Daí meu questionamento para eles, de que a esquerda no mundo contemporâneo se deixara envolver por um maniqueísmo redutor e simplificador, que contrapôs estatismo e privatismo, e, que essa lógica precisa ser superada pela conceituação de alguns pensadores que defendem a idéia de construção do Comum.

BIBLIOGRAFIA:

MONTANER, Josep Maria - A condição contemporânea da arquitetura - Editora Gustavo Gilli São Paulo 2016

MUXI, Zaida - Mujeres, casas y ciudades - Editora Gustavo Gilli Barcelona 2018