quinta-feira, 9 de junho de 2016

A cultura do novo capitalismo de Richard Sennett

O livro A cultura do novo capitalismo, do professor de sociologia da London School of Economics, Richard Sennett nos traz para uma importante reflexão sobre como o mundo do trabalho, e da previdência atuam sobre o cotidiano de diferentes atores e agentes, no mundo contemporâneo. Escrito em 2006 e traduzido para o português em 2008, fruto de um Ciclo de Conferências Castle realizado em 2004, na Universidade de Yale na cidade de New Heaven, estado de Conecticut nos EUA. As Conferências Castle homenageiam o reverendo James Pierpoint, fundador da Universidade de Yale e antepassado de John K. Castle, e tem como objetivo refletir sobre a ordenação moral de nossa sociedade contemporânea, a partir da ética, da política e da economia. O livro foi publicado logo após, A corrosão do caráter, consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo, que é de 1999, traduzido em 2015, e que já se debruçava sobre os impactos da acumulação flexível do capital na psicologia dos empregados e na sua compreensão dos locais onde trabalham. O livro também antecede O Artífice, escrito em 2008 e traduzido para o português em 2009 que celebra um fazer bem feito, profundo e comprometido com a permanência e não com a obsolescência programada, que se transformou no paradigma da nova economia capitalista neo-liberal dos nossos tempos.

A virtude de Sennett, nos tres livros me parece a recorrência ao que o filósofo alemão Habermas denomina os mundos da vida, que nada mais é do que nosso cotidiano efetivo. O mapeamento do esforço humano concreto, modulado por diversas gerações num ciclo de vida real, que envolvem; ter uma ocupação para trabalhar, que garanta seu sustento, educar os filhos, dando-lhes condições de nos superar, e, ao final se aposentar.


Interessante assinalar, que ambas as duas primeiras publicações antecedem a grave crise do sistema financeiro americano, que acontece em março 2008, e a terceira - O Artifície -, é sua contemporânea. Os fortes movimentos especulativos do ano de 2008, que culminam com a quebra  do quarto maior banco de crédito dos EUA, o Lehman Brothers, que arrastou outras instituições bancárias, naquilo que ficou conhecido como a Crise Sub-Prime das hipotecas imobiliárias americanas. Nesse mesmo momento, para evitar um colapso geral do sistema, o governo americano estatizou as duas maiores agências de crédito imobiliário do país, a Fannie Mae e a Fredie Mac, injetando nelas US$200bilhões. Essas agências haviam sido privatizadas em 1968. Ao mesmo tempo, na Espanha também são verificados calotes nos pagamentos das hipotecas imobiliárias, que ameaçaram quebrar as instituições financeiras do país. Em 2008 os inadimplentes dos créditos hipotecários na Espanha somavam 2,7milhões de pessoas, por outro lado o censo de 2011 identificou 3,5milhões de imóveis vazios no país. Em outubro de 2008, a Alemanha, a França, a Austria, a Itália, e os Países Baixos injetam US$1,58 trilhão em auxílio às suas instituições financeiras.

Sennett várias vezes qualifica o capitalismo pré-neoliberal - anterior a década de setenta - como "capitalismo social", onde identifica estabilidade tanto das grandes corporações, como também para seus empregados e suas aposentadorias. O sistema de regulação, que até então vigorava no capitalismo e no socialismo real se baseava no fordismo, no pleno emprego e keynesanismo, que representavam para o cotidiano de amplos setores, a estabilidade. Com a ruptura do acordo de Bretton Woods, que foi assinado por 44 nações em julho de 1944, vigorando desde o final da segunda guerra mundial, por parte do governo Nixon, uma imensa massa de moeda se viu disponível para investimentos especulativos. O Acordo Monetário de Bretton Woods determinava a conversibilidade do dólar ao ouro, que ao ser revogado de forma unilateral pelo presidente Richard Nixon em 15 de agosto de 1971 determinou a transformação do dólar em moeda fiduciária, ou base de reserva.

"Esta mudança teve uma data precisa: um enorme superávit de capital para investimentos foi liberado em escala global quando os acordos de Bretton Woods entraram em derrocada, no início da década de 1970. Todo um bolo de riqueza que estivera confinado a empresas locais ou nacionais ou estocado em bancos nacionais podia agora movimentar-se com muito maior facilidade por todo o planeta. " SENNETT 2008 página41

Há também uma distinção importante de ser registrada entre as evoluções histórico-políticas do sistema capitalista, de um lado o modelo do Reno e de outro o Anglo-americano, nos quais a relação entre o mercado e o estado constroem a diferença. No modelo do Reno, que na origem envolve os estados nacionais da Holanda, Alemanha e França, que envolve uma rede de benefícios em pensões, educação e saúde, e que se dissipou pelo mundo em diversas nuances pela Itália, Japão, Escandinávia e Israel. No modelo Anglo-americano há uma acentuada subordinação da burocracia do estado à economia liberal produzindo-se um afrouxamento da rede de benefícios. Em muitas ocasiões denomina-se neo-liberal ao modelo Anglo-americano, enquanto o modelo Renano é denominado capitalismo de estado Para o autor, ambos os modelos demonstram capacidades diferenciadas de se adequar ao novo modelo de acumulação flexível.

"O modelo do Reno pode comportar-se de maneira tão flexível e decisiva quanto o anglo-americano em termos de mercado. O norte da Itália, por exemplo, é bastante renano em sua mistura de empresa governamental e privada, e também flexível, ao responder com rapidez e eficiência à mutante demanda do mercado." SENNETT 2015 página61

Mas, o que me parece importante destacar nesse pequeno ensaio é a imensa tragédia determinada pelo modelo de acumulação flexível do novo capitalismo, nas vidas de diferentes agentes pelo, que reduziram a capacidade de suas familias de planejarem seu futuro, lançando o mundo numa ansiosa busca de resultados imediatos.


BIBLIOGRAFIA:
SENNETT, Richard - A corrosão do caráter, consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo - Editora Record Rio de Janeiro 2015
SENNETT, Richard - A cultura do novo capitalismo - Editora Record Rio de Janeiro 2008
SENNETT, Richard - O Artífice - Editora Record  Rio de Janeiro 2009

terça-feira, 7 de junho de 2016

Encontro no IAB-RJ debate alternativas para a cidade metropolitana do Rio de Janeiro

Nessa última terça feira dia 31 de maio de 2016, foi realizado na sede do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio de Janeiro (IAB-RJ), encontro para debater a formulação do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da metrópole carioca. O evento está dentro da etapa de Diagnóstico e Visão do Futuro do desenvolvimento do plano, procurando elencar as principais carências e potencialidade da cidade metropolitana do Rio de Janeiro. A perspectiva do Plano Estratégico é pensar a aglomeração urbana de 12,3 milhões de pessoas nos próximos 24 anos. Esse acontecimento urbano, que está no entorno da Baía de Guanabara é hoje o segundo território metropolitano do Brasil, o terceiro da América Latina, o vigésimo do mundo, e está classificado como uma megacidade pela ONU.

Foto de Carlos Magno
Na minha fala procurei enfatizar como a identidade da cidade metropolitana do Rio de Janeiro é dificil de ser captada, pois com uma extensão de 60kms no sentido leste/oeste, e 30kms no norte/sul, e 12,3milhões de habitantes, a imensa mancha urbana é de complexa apreensão. Comprovando tal dificuldade, basta pensarmos, em quem, entre seus moradores consegue ter uma noção da legibilidade de seu território de forma integrada e única.

Composta por uma imensa diversidade de identidades, que misturam 18 municípios; Rio de Janeiro, Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Japeri, Magé, Nilópolis, Niterói, Cachoeira de Macacu, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo, São João de Meriti, Seropédica, Mesquita e Tanguá, a cidade metropolitana do Rio de Janeiro deve primeiro valorizar essas particularidades. E, procurar elementos que construam essa consciência de que sua população pode compartilhar um futuro comum, tais como; a Baía de Guanabara e sua bacia hidrográfica, os ramais de trens da Central do Brasil e Leopoldina, as florestas municipais, e elementos que perpassam mais de um município.

Esses acontecimentos impactam a vida cotidiana das pessoas da metrópole, e são elementos que devem receber atenção do plano, pois podem significar a costura dessa consciência metropolitana. O IAB-RJ, durante meu mandato nas cerimonias de premiação elegeu a Baía de Guanabara como tema provocador aos arquitetos, que deveriam sugerir propostas e projetos, que revalorizassem sua presença na cidade metroplitana. Esse esforço partia da premissa, que a requalificação da Baía de Guanabara e da sua bacia representaria um ganho expressivo, para a população lindeira, tanto nos seus bairros como; Cajú, Maré, Ramos, Ilha do Governador, como também para municípios como; Caxias, Magé, São Gonçalo, Niterói.

Enfim o desafio, da formulação do Plano Diretor da Metropole do Rio de Janeiro, que temos pela frente é imenso, que demanda a construção dessa consciência de pertencermos a esse território, do qual precisamos tratar e equilibrar.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Entrevista para a entidade da Casa Fluminense sobre a cidade metropolitana do Rio de Janeiro

Há mais ou menos um mês concedi a entrevista para a Casa Fluminense, uma entidade da sociedade civil carioca, que vem demonstrando uma imensa capacidade de mobilização e capilaridade nas periferias da cidade metropolitana do Rio de Janeiro. O tema chave da entrevista era como promover a participação de uma forma mais horizontal possível, empoderando os diferentes atores da metropole, evitando os inevitáveis constrangimentos dos agentes mais fragilizados.

Na curta entrevista abaixo destaquei os pontos, que precisam ser revertidos na forma como a cidade vem sendo construída no Brasil; 1 Dispersão interminável da mancha urbana, o que determina uma baixa densidade dificultando a universalização dos serviços urbanos. 2 Abandono dos centros históricos mais antigos. 3 Estratifificação social intensa com guetos de pobres e de ricos. 4 Péssima mobilidade penalizando a população com tarifas caras e tempos de deslocamentos pendulares excessivos. 5 E, por último, aproximação predatória do meio ambiente.

Nas minhas considerações além do video anexo, tentei ponderar que a participação efetiva da sociedade precisa chegar ao estágio do engajamento, que representa uma forma de mobilização que transcende o mero fornecimento de informações, mas alcança os estágios da compreensão, do envolvimento, do monitoramento e da cobrança. O Plano e os planejadores precisam fazer um esforço de comunicação, que envolve a transformação do discurso técnico num conjunto de informações, indices e parâmetros capazes de serem lidos pelos usuários da cidade, com rebatimento nos seus cotidianos efetivos. Os agentes e atores diferenciados precisam ser instados a expressar seus interesses com relação a ordenação espacila da cidade, criando um clima de transparência e colaboração. Todas as pressões e interesses são legítimos, desde que expressados publicamente e a partir de argumentos persuasivos e socialmente racionais para o interesse público.

É presciso reconhecer, que muitos dos últimos planejamentos desenvolvidos no Brasil se transformaram em letra morta, não atingindo a realidade, não impactando o cotidiano das populações envolvidas, e cumprindo apenas o papel de cumprir exigências legais de agências ou órgão da administração federal, que repassa verbas. Os planos precisam cooptar o envolvimento efetivo da população interessada, fazendo dela um vigilante dos objetivos acordados. Todo plano precisa criar ações emblemáticas no inicio do seu prazo, para mobilizar as diversas populações para seus objetivos de longo prazo, fornecendo ao conjunto da sociedade indices e parâmetros que monitorem esses mesmos objetivos.

A sociedade brasileira já monitora alguns indices que são divulgados mês a mês, como a inflação de preços, o crescimento do PIB, emprego e outros. As cidades metropolitanas precisam também criar indices de monitoramento da qualidade de vida urbana, tais como; tempo médio de deslocamento casa/trabalho, indices de coleta adequada de esgotos e resíduos sólidos, indices de urbanidade, iluminação pública, segurança, e etc... Com esses índices sendo divulgados de forma transparente, sobre a base espacial da cidade, a população poderá verificar o cumprimento dos objetivos, ou o seu afastamento, possibilitando a vigília sobre os governantes.

Abaixo minha entrevista em video...

https://www.youtube.com/watch?v=0xVxNVhSsAc&index=25&list=PL9-9_GVgawSuXiRAO8C-_gDgZdQXxg0vV

sábado, 28 de maio de 2016

O livro sobre o arquiteto Carlos Leão

Na última terça feira dia, dia 24 de maio de 2016 foi lançado o livro sobre o arquiteto Carlos Leão (1906-1983) com produção de Claudia Pinheiro, Maria Helena Rohe Salomon e do historiador Roberto Conduru. O livro teve uma longa maturação, pois era um projeto antigo da década de oitenta do arquiteto Jorge Cjajkowski, já falecido. De forma enviesada participei do nascimento do projeto, pois Jorge Cjajkowski, que me conheceu na FAU-UFRJ, entre o final dos setenta e começo dos oitenta, como meu professor, identificou um parentesco distante com Carlos Leão, que era na verdade primo da minha avó. Fiquei então responsável por agendar com Tia Ruth, uma entrevista com Carlos Leão, o Caloca em sua casa em Ipanema. O casal então passava a maior parte do tempo na cidade de Vassouras, num sítio desenhado pelo arquiteto. Nessa ocasião, ainda me lembro de Carlos Leão me pedir para acender um cigarro, que ele gostaria de dar umas tragadas, que já não eram mais permitidas por Ruth, dado ao seu estado de saúde. A entrevista foi uma amostra da personalidade boêmia e sensível de um artista culto, irreverente e provocador, que nos apresentou sua visão da cultura arquitetônica da sua geração.

De uma maneira geral, a parte da obra de Carlos Leão mais conhecida é a de desenhador de mulheres nuas, além de como arquiteto ter participado da equipe que elaborou o emblemático edifício do Ministério da Educação e Saúde (MES), chefiada por Lucio Costa, a partir de uns esboços imprecisos de Le Corbusier. Na casa de minha mãe em Belo Horizonte ainda está pendurado na parede da nossa sala, um retrato de uma bela mulher, algo voluptuosa, definida apenas por um traço minimalista, elegante e seguro de Caloca.

Ainda me lembro, que o crítico de arquitetura Jorge Cjajkowski tinha estruturado um plano para o livro, que pretendia lançar uma luz sobre um dos representantes da primeira geração modernista brasileira, que se envolvera em sua trajetória arquitetônica, principalmente nas demandas domésticas com casas que se afastavam do racionalismo corbusieano e tendiam para uma atitude romântica, próximo de um nativismo da arquitetura colonial brasileira. Esse conjunto de obras longe da ortodoxia racionalista e modernista, com uma feição mais tradicional era o que mais incitava a Czaikowski a produzir uma reflexão sobre Carlos Leão.

"Até recentemente a avaliação crítica desse conjunto esbarrava num problema de difícil superação: a maioria das obras apresenta uma feição tradicionalista e é posterior a projetos modernos de importância do MES e da Cidade Universitária - fato que talvez explique a clandestinidade a que foram relegadas." CZAIJKOWSKI 2016 página 13

Interessante assinalar que essa atitude de se aproximar de um vernáculo arquitetônico mais tradicional, não significa perder de vista a continuidade dos espaços, obtida pela independência estrutural, ou a fluidez entre interior e exterior, tão presente na arquitetura dos trópicos. Afinal, muito desssa atitude está também presente na primeira obra de Lucio Costa, principalmente em suas casas unifamiliares. Parece-me que o temperamento afável de Carlos Leão admitia fazer concessões ao gosto de uma clientela nostálgica, sem abrir, no entanto, mão de uma qualidade espacial notável, e muitas vezes contraditoriamente moderna.

Ao final, o livro me parece uma oportunidade única de rever leituras históricas cristalizadas e posicionamentos ortodoxos e rígidos, mostrando-nos que auto-construção do Brasil está sempre aberta para reinterpretações e releituras.

BIBLIOGRAFIA:
CZAJKOWSKI, Jorge - Carlos Leão: Arquitetura - Bazar do Tempo Rio de Janeiro 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

O filme São Sebastião do Rio de Janeiro, a formação de uma cidade

O filme São Sebastião do Rio de Janeiro, a formação de uma cidade, que estreou na última segunda-feira dia 26 de maio de 2016, com produção e direção de Juliana de Carvalho e apoio do IAB-RJ tem o mérito de reconhecer a cidade, como um personagem. E, no caso específico do Rio de Janeiro, com uma personalidade bastante particular e única no mundo, afinal segundo as palavras do jornalista Rui Castro no filme; "Aqui tudo se transforma em carioca".  Localizada num sítio mágico, na beira do Atlântico Sul, onde massas graníticas expressivas e verticais contrastam com a horizontalidade do mar, com uma Baía, chamada de Guanabara, que literalmente está cercada por um anfiteatro de montanhas. A região é pontuada por ícones geológicos, tendo portanto uma personalidade que antecede em muito as diferentes ocupações humanas, sejam elas; indias, francesas ou portuguesas.

Outro mérito do filme, é sua referência contínua à base espacial concreta do construído, A Arquitetura da Cidade, seu desenvolvimento que sempre foi determinado pelo sítio natural, sua transformação e domesticação, por planos e projetos humanos. Daí a presença quase massiva de depoimentos de arquitetos e urbanistas - Augusto Ivan, Carlos Fernando, José Pessoa e Pedro Rivera - , que desfiam os processos de desenvolvimento da grande metrópole, que implicam em mazelas, mas também em potencialidades inumeráveis de transformação.

No final, o filme também aborda uma questão central para a cidade e seu futuro, as condições da Baía de Guanabara, a partir de um sintomático travelling da câmera sobre o Piscinão de Ramos, onde fica clara a imensa concentração de amenidades e benfeitorias na grande metrópole. A despoluição, a obtenção da balneabilidade da Baía de Guanabara, e a valorização de diversos bairros e municípios do Grande Rio se entrelaçam num desejo de se conquistar uma cidade com maior equidade. A imensa escala da Baía de Guanabara, origem e razão do aparecimento da cidade colonial portuguesa, poderá apontar para um futuro, onde as benesses da vida urbana estão mais bem distribuídas e compartilhadas.

domingo, 22 de maio de 2016

Saber e Fé no mundo contemporâneo

O texto Fé e Saber de Habermas possui um caráter circunstancial, foi escrito como discurso do filósofo alemão ao receber o Prêmio da Paz da Associação dos Livreiros da Alemanha, um mês após os dramáticos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 em Nova York. Diante dos atentados às torres gêmeas do World Trade no sul de Manhattan, Habermas reencontra e repensa as questões colocadas pelas tendências a secularização dos mundos da vida, impostos pela ampliação geral da modernização, procurando claramente encontrar pontos de conciliação. Sempre houve uma tensão entre fé e saber, de um lado o temor pelo obscurantismo da exaltação de sentimentos arcaicos que desconfiam da ciência, de outro, uma prepotência científica baseada num naturalismo cru destruidor da ética e da moral.

"Mas em 11 de setembro a tensão entre a sociedade secular e a religião explodiu de um modo inteiramente diverso." HABERMAS 2013, página 02

Diante do suicídio dos fundamentalistas, que transformaram máquinas da aviação civil em mísseis atirados contra símbolos capitalistas da civilização ocidental, a reação dos Estados ameaçados tendeu a ser bíblica, numa tonalidade próxima ao velho testamento. De certa maneira, esse tem sido a tônica da reação aos atentados terroristas, desde os das torres gêmeas do arquiteto Minouru Yamasaki em Nova York, até aos de Paris na França de novembro de 2015. HABERMAS caracteriza o fundamentalismo como um fenômeno exclusivamente moderno, apesar de sua linguagem religiosa, e também entende nosso tempo como um processo de secularização ainda inconclusa. Retoma a ideia do cosmopolitismo kantiano, reafirmando um conceito meio vago de crença num poder mundial carregador de uma proposição civilizadora, afastando-se das reações policialescas, que vem caracterizando os estados nacionais atacados.

"Nós só conseguiremos aferir adequadamente os riscos de uma secularização que saiu dos trilhos em outros lugares, se tivermos claro o que significa a secularização em nosas sociedades pós-seculares." HABERMAS 2013 página 05

Na secularização ocidental, desenvolvida a partir do século XVIII, havia a ideia de domesticação do poder eclesiástico e de controle de registros e dados por parte do Estado, que durante muito tempo haviam sido manipulados pela Igreja. A secularização nos países de cultura muçulmana assumiu uma dimensão diversa, uma certa assincronia acelerada entre cultura e sociedade, com fortes consequências desenraizadoras promovidas por uma modernização não endógena. O tema já foi abordado num rexto anterior nesse blog com o título de, A política externa americana no segundo pós guerra e os recentes acontecimentos em Paris, a partir de um texto de ANDERSON 2015.

De qualquer modo, do ponto de vista do Estado Liberal só merecem o status de razoáveis aquelas crenças, que aceitam três predicados muito claros; a coexistência com outras religiões, a aceitação da autoridade das ciências, que detêm o saber mundano, e a adequação ao estado constitucional, que compartilha e divulga uma moral profana. Essas condições pressupõe a ampla aceitação das tradições fortes e aos conteúdos impregnados de visões do mundo, permanecendo aberta para a possibilidade de aprender com todas elas. Mas esses três predicados estão longe de ser aceitos e compartilhados socialmente mesmo nos países centrais ocidentais, que ainda apresentam tensões em questões como o aborto, ou da engenharia genética, ou ainda da posição da espécie humana na história natural, fruto da teoria de Darwin. Tudo isso denota questões extremamente complexas e profundas do ponto de vista do agir humano;

"...o conceito de conformidade a fins, que introduzimos no jogo de linguagem darwinista de mutação e adaptação, seleção e sobrevivência, é pobre demais para abarcar a diferença entre ser e dever ser (Sein und Sollen) que está em jogo quando nós burlamos regras - quando empregamos um predicado equivocadamente ou agimos contrariamente a um mandamento moral. HABERMAS 2013 página12

Me parece que a crença cientificista, ou qualquer outra crença são incapazes de superar a riqueza da interação com o outro, com o diferente de nós, que exatamente por isso relativiza nossas pré-concepções. O reconhecimento dessa possibilidade firmada pela interação entre diferentes é o que garante o sentido da permanência do dever categórico religioso e a autonomia do interesse autoesclarecido. O conceito da reciprocidade do humano não significa sua homogenização, afinal só seremos livres na medida em que não desfaçamos nossas diferenças, como o filósofo pergunta ao final do texto;

"O primeiro homem a determinar um outro em seu ser assim natural, a seu bel prazer, não destruiria aquelas mesmas liberdades que existem entre iguais para, assim assegurar a sua diferença?" HABERMAS página 26

BIBLIOGRAFIA:

HABERMAS, Jürgen - Fé e Saber - Editora Unesp 2013 São Paulo
ANDERSON, Perry - A política externa norte-americana e seus teóricos - editora Boitempo São Paulo 2015

sábado, 21 de maio de 2016

Debate com Janice Perlman no IAB-RJ mostra o desenvolvimento humano das favelas cariocas

Foi realizado na última quarta feira dia 18 de maio de 2016, debate com a americana Janice Perlman no IAB-RJ sobre o desenvolvimento humano da população das favelas cariocas. O evento foi carregado de forte carga emocional, pela apresentação do desenvolvimento social de moradores concretos das favelas cariocas, numa trajetória de mais de quarernta anos. O encontro celebrou também o centenário de nascimento da jornalista, também americana, Jane Jacobs, - autora do livro Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas - que estaria comemorando cem anos, se estivesse viva. A jornalista e ativista americana teve um papel fundamental na cultura arquitetônica do segundo pós guerra, com sua proposta de dar protagonismo ao usuário dos espaços da cidade, impondo uma nova práxis para os profissionais.

"As cidades tem a capacidade de prover algo para alguém, somente porque, e apenas quando, são criadas por todos... Não existe melhor expert na cidade do que aqueles que vivem e experimentam seu dia a dia." JACOBS 2000 página 20

O posicionamento de Jacobs formou e informou as práticas de Janice nos anos sessenta no Rio de Janeiro, trazendo um olhar respeitoso para os esforços comunitários das comunidades faveladas, que impulsionaram a inserção social dos seus habitantes. A compreensão do espaço das favelas como máquinas impulsionadoras da inserção social e da melhoria das condições de vida foram descritas e analisadas a partir de casos concretos de famílias variadas e em localidades diferenciadas.

A coordenadora da ONG Megacities, Janice Perlman iniciou sua apresentação mostrando as condições de favelas como Catacumba e Praia do Pinto no ano de 1968, quando iniciou suas pesquisas na cidade do Rio de Janeiro. Nesse momento, Janice morou na extinta favela da Catacumba, na Lagoa Rodrigo de Freitas, num barraco de madeira, com uma familia que já naquela época não contava com a presença do pai, que num dia saiu para ir a farmácia e nunca mais voltou. Janice também apresentou um panorama da luta das comunidades faveladas no Rio de Janeiro, que parte do estigma da remoção nos anos sessenta, passa pela consolidação nos anos oitenta e noventa com os programas do Mutirão e depois com o Favela-Bairro, chegando ao momento atual, quando retorna o fantasma da marginalidade e novamente da remoção.

Os casos da Vila Autódromo, do PAC de Manguinhos e da implantação do teleférico no Complexo do Alemão foram apontados como esforços desestruturados e impensados, que acabaram apresentando poucos benefícios para as comunidades, atendendo mais aos interesses das construtoras, do que dos moradores. Nessas experiências percebe-se o declínio do tempo e da importãncia dada à fase de planejamento e de projeto, determinando um declínio na participação e mobilização das populações interessadas. A experiência de Medellin na Colômbia, que foi em grande parte inspirada nos exemplos do Favela-Bairro, foi apontada como um caso notável, onde a estruturação dos projetos a partir da participação e mobilização dos moradores, a implantação das obras e sua manutenção seguem apresentando resultados eficientes e notáveis.

Após a exposição de Janice Perlman foi franqueado o microfone para perguntas e questionamentos da platéia, destaco aqui apenas uma questão suscitada pelo presidente nacional do IAB, Sérgio Magalhães. Que a partir da menção ao sociólogo Richard Senett no livro A corrosão do caráter, mencionou a monetarização da produção habitacional nos EUA, gerando a partrir disso um forte desenraizamento dos usuários com relação ao seu habitat. O problema colocado pela questão é extremamente complexo, e sua resposta não pode ser simplificada ou romantizada, mas sem dúvida, o engajamento na auto-produção de seu próprio espaço é um aspecto fortalecedor dos laços entre morador e lugar.

A cidade do Rio de janeiro possui 22% de sua população morando em favelas, São Paulo apresenta 20%, esses números demonstram a importância desses assentamentos na constituição da própria realidade de nossas metrópoles. O enfrentamento dessa dinâmica demanda urbanização e políticas continuadas de manutenção dos serviços públicos implantados, de forma a que essa população participe das benesses da cidade. Janice Perlman, com seu olhar estrangeiro e suas pesquisas levou-nos de forma suave e serena para o cotidiano dessa população mostrando como a micro economia desses locais pode impulsionar nosso desenvolvimento humano de forma potente.