quinta-feira, 19 de maio de 2016

Debate no IAB-RJ sobre a utilização da energia solar em edificações

Na última segunda feira dia 09 de amio de 2016 foi realizado um debate na sede do IAB-RJ com Hans Rauschmayer, engenheiro especialista na implantação de placas foto voltaicas e sistemas de aquecimento de água por aquecimento solar, sócio gerente da empresa Solarize, e o engenheiro Claudio Brandão, gerente de vendas da Octagon Solar, que é uma fábrica que se instala no Brasil de produção de painéis fotovoltaicos. A palestra se fixou em aspectos bastante operativos da instalação tanto de placas fotovoltaicas, quanto de módulos de aquecimento de água.

Foram apresentadas as diferentes formas de aproveitar a energia solar para aquecimento de água e geração de eletricidade, os palestrantes também abordaram as modalidades de micro e minigeração em residências e empresas com destaque para o novo compartilhamento em condomínios, bem como o novo marco institucional da ANEEL. O debate apontou para as amplas possibilidades que se abrem para o conjunto da sociedade brasileira, a partir do projeto e de uma assessoria técnica adequada das diversas economias possíveis com a utilização da captação solar. O Brasil, pelo seu posicionamento planetário - inserido no cinturão solar - apresenta um potencial de exploração da energia solar, que corresponde a uma capacidade 45% superior a países como a China e Alemanha, que já exploram de forma expressiva essa fonte.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Carta da Andrade Gutierrez aponta falta de protagonismo para o plano e o projeto nas obras brasileiras

A Andrade Gutierrez publicou no dia 09 de maio de 2016, carta de página inteira em alguns jornais nacionais de grande circulação, além de um pagamento de indenização de R$1 bilhão, como parte do acordo de leniência feito com a justiça brasileira. A carta da Andrade e Gutierrez, a segunda maior empreiteira do Brasil, reconhece a falta de protagonismo dos planos e projetos nas obras contratadas no país. Num trecho da carta a empresa aponta erros graves, e destaca que é necessário mudar práticas e costumes, que ainda estão arraigadas nas formas de contratação das obras brasileiras.

"Reconhecemos que erros graves foram cometidos nos últimos anos e, ao contrário de negá-los, estamos assumindo-os publicamente. Entretanto, um pedido de desculpas, por si só, não basta: é preciso aprender com os erros praticados e, principalmente, atuar firmemente para que não voltem a ocorrer."

No mesmo comunicado, a Andrade Gutierrez lista oito pontos que devem nortear a mudança nas práticas e costumes das obras brasileiras. Destaco aqui tres pontos, que fazem parte da pauta da rede do IAB nos últimos anos; a autonomia do projeto, que pré figura a obra, determinando sua forma. seu orçamento e cronograma de forma precisa. A obrigatoriedade de projeto executivo, coordenado pela disciplina de arquitetura, que define os princípios gerais, coleta as informações das diversas disciplinas e compatibiliza-as entre si. E, por último a manipulação do projeto como o documento que impulsiona o debate sobre a adequação da obra a seu contexto específico, sendo aprovada por diversas esferas sociais e ambientais, evitando-se as contestações judiciais;
 
"1) Obrigatoriedade de estudo de viabilidade técnico-econômica anterior ao lançamento do edital de concorrência, descartando-se obras que não contribuam para o desenvolvimento do país;
2) Obrigatoriedade de projeto executivo de engenharia antes da licitação do projeto, permitindo a elaboração de orçamentos realistas e evitando-se assim previsões inexequíveis que causem má qualidade na execução, atrasos, rescisões ou a combinação de todos estes fatores;
3) Obrigatoriedade de obtenção prévia de licenças ambientais, evitando-se contestações judiciais ao longo da execução do projeto e o início de obras que estejam em desacordo com a legislação;"

Me parece importante frizar aqui, que os últimos acontecimentos ligados as obras públicas brasileiras precisam de um realinhamento geral e de novas práticas de amplos setores; gestores públicos, planejadores, projetistas, empreiteiras e subempreiteiras, que devem passar a considerar o plano e o projeto como o verdadeiro protagonista da obra. Recentemente afiliados do IAB-RJ comunicaram ao instituto licitações para escolha de projetos públicos de Arquitetura Hospitalar, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pela modalidade de Pregão Eletrônico, o que demonstra claramente a continuidade do aviltamento do projeto em nossa sociedade. O pior no caso desse certame licitatório, é que os preços que resultaram dessa concorrência foram totalmente aviltantes, chegando a disciplina de arquitetura ao valor de R$1,90/m2, quando o preço inicial era de R$44,14.

Há muito que planos e projetos não são considerados em sua devida importância, fazendo com que a sociedade não tenha consciência daquilo que está para ser realizado, e não possa discutir e ajustar o seu próprio vir-a-ser de forma adequada e compartilhada. Programar, desenhar, detalhar, especificar, quantificar, orçar e prever prazos são tarefas dos planos e dos projetos, que precisam ser corretamente remuneradas e respeitadas. Afinal, as sociedades mais transparentes, simplesmente pensam antes de fazer...

domingo, 8 de maio de 2016

Técnica e ciência como "ideologia"

O texto do filósofo alemão Jürgen Habermas, Técnica e ciência como "ideologia", é datado de 1968, mesmo ano do livro Conhecimento e Interesse, tendo o escrito sido caracterizado pelo autor como um trabalho de ocasião, em contraposição a um estudo mais sistemático, que corresponde ao livro. No entanto, o mesmo Habermas já se posicionou que as proposições do livro foram abandonadas, enquanto as construções do texto Técnica e ciência como "ideologia" convergiram para formulações posteriores, como os contidos em Teoria da ação comunicativa, que hoje podem ser considerados como a referência central de sua obra. Há uma questão importante no texto, que se refere fortemente a nossa contemporaneidade, onde algumas vozes se levantam para afirmar a desideologização dos discursos em nome de uma melhor técnica. Quando, por exemplo, menciona-se a necessidade de composição de um ministério técnico e de alto gabarito, em contraposição a um ministério político. Toda técnica precisa dialogar, e portanto precisa ser política, no sentido de ser eleita ou de ser persuasiva para o conjunto da sociedade.

O cerne da construção de Habermas parece estar contido na distinção proposta pelo filósofo entre; trabalho, ou ação racional com respeito a fins, ou regras técnicas e interação, ou ação comunicativa simbolicamente mediada, ou normas sociais. Ambas se encontram em nossas sociedades modernas, ao mesmo tempo dirigidas e impostas por expectativas de comportamento reciprocamente entrelaçadas e sancionadas por instituições. A proposição de Habermas parte das reflexões de Max Weber que caracterizou a modernidade como a ampliação da racionalidade, que incluia a urbanização dos modos de vida, e a ampliação do controle burocrático;

"Max Weber introduziu o conceito de "racionalidade" para designar a forma de atividade econômica capitalista, das relações do direito privado burguês e da dominação burocrática...Isso corresponde à industrialização do trabalho social, tendo por consequência a penetração dos critérios da ação instrumental em outros âmbitos da vida (como a urbanização dos modos de vida, a transformação técnica das trocas e da comunicação)." HABERMAS 2014, página 75

A racionalidade com respeito a fins, se distingue portanto do debate e da concertação, que envolvem a interação entre uma diversidade de proposições, o contraditório e a eleição de prioridades, a razão instrumental, particular e subjetiva se diferencia da razão intersubjetiva, que é pública e coletiva. A técnica e a ciência se ideologizaram pois desfrutam de um reconhecimento e de uma legitimação obtidos num mundo que as celebra de forma exclusiva. Mas em nosso mundo contemporâneo, de grande ampliação da comunicação é possível imaginar uma única direção para a técnica, ou a eleição de uma mais desenvolvida e adequada do que outras? Ou a comunicação manipulada pela melhor técnica nos imporia de forma definitiva a alienação dos nossos desejos e vontades de construir uma vida melhor?

Na verdade, as diferentes técnicas se adequam a contextos específicos em função de sua acessibilidade por atores e agentes diversificados, toda ciência ou técnica é dependente do grau de sua aceitação ou manipulação social. A técnica e a ciência é em cada um dos possíveis pontos de sua elegibilidade parte de um projeto histórico-social, que portanto deve ser explicitado, debatido e eleito como forma adequada da superação.

Habermas em seu texto, ainda faz uma distinção importante entre tradição e modernidade, num movimento que Weber denominou como a secularização, que se refere ao abandono das interpretações cosmológicas do mundo, que são trocadas pela imposição da racionalidade com respeito a fins. A expressão sociedade tradicional, se relaciona exatamente com a circunstância de que o quadro institucional repousa, sobre uma base legitimadora não questionada das explicações místicas, religiosas ou metafísicas. Esse movimento de crítica ao dogmatismo das interpretações tradicionais do mundo, que são substituídas por um caráter científico objetivante, também precisam ser legitimadas como práticas. Segundo o filósofo alemão é assim que nascem as ideologias, paradoxalmente na mesma origem da sua crítica;

"É assim que nascem as ideologias em sentido estrito: elas substituem as legitimações tradicionais da dominação ao se apresentarem com a pretensão da ciência moderna e se justificarem como crítica da ideologia. As ideologias possuem a mesma origem que a crítica da ideologia. Nesse sentido não podem existir 'ideologias' pré-burguesas." HABERMAS 2014 página 101

O Iluminismo, e de forma mais restritiva, o Positivismo, são essas ideologias que legitimam a técnica e a ciência no nosso mundo contemporâneo. Essa destruição contínua da tradição, mencionada por Marx e também por Schumpeter, faz com que o modo de produção seja entendido como um mecanismo de expansão contínua da ação racional com respeito a fins, abalando a supremacia da tradição. A idealização do mercado como um mecanismo nivelador, sem hierarquia entre agentes e atores promete a justiça na equivalência entre trocas, onde os proprietários de mercadorias se encontram com os desprovidos de qualquer propriedade, ou com sua única mercadoria, a sua própria força de trabalho, de maneira igualitária.

"O capitalismo é na história universal o primeiro modo de produção que institucionalizou um crescimento auto-regulado...A novidade encontra-se muito mais em um estágio de desenvolvimento das forças produtivas que torna permanente a expansão dos subsistemas de ação racional com respeito a fins e que, por seu meio coloca em questão os modos como as civilizações legitimam a dominação por meio de interpretações cosmológicas do mundo." HABERMAS 2014 página 96,97

Habermas menciona então dois sentidos para essa ampliação da racionalização ou secularização dos mundos da vida, um de baixo para cima e outro de cima para baixo, deixando entender que esse último mantém a dominação, enquanto o primeiro amplia a autonomia. De um lado, no sentido de cima para baixo a ciência e a técnica legitimam a permanência da dominação, no lado oposto de baixo para cima percebe-se a ampliação da autonomia dos indivíduos.

Desenvolve-se uma interdependência entre técnica e ciência, que antes do final do século XIX, com o advento operativo do mundo moderno ainda não existia, articulada por uma expansão significativa da intervenção estatal. A técnica passa a impulsionar de tal forma a produção, com uma significativa elevação da produtividade do trabalho, que se transforma numa fonte de mais valia independente, fazendo com que a força dos produtores imediatos tenha cada vez menos peso. 

"Desde o último quarto do século XIX tornam-se perceptíveis nos países capitalistas mais avançados duas tendências de desenvolvimento: 1. um crescimento do intervencionismo estatal, o qual procura assegurar a estabilidade do sistema; e 2. uma interdependência crescente da pesquisa e da técnica, que transformou a ciência na principal força produtiva." HABERMAS 2014 página 102

Aqui é importante localizar o texto de HABERMAS no ano 1968, como já mencionado, quando ainda não havia o forte impulso neo-liberal determinado por Thatcher e Reagan do final dos anos setenta, que determinaram um forte declínio da intervenção estatal. Por outro lado, o autor também retrocede ao último quarto do século XIX, localizando nesse momento a expansão do intervencionismo do estado na economia, com o declínio do capitalismo liberal, enquanto outros autores apenas o identificam no segundo pós guerra. De qualquer modo, para HABERMAS tal ordenação reduziu a força da aplicação do sistema criado por Marx, uma vez que a ideologia da troca justa desmascarada por ele, também será admitida e adotada pelo sistema, com a intervenção reguladora do estado.

A pesquisa fomentada pelo Estado promove o progresso técnico e científico inicialmente para o aparato militar de dominação, sendo depois apropriada pelo domínio civil da produção de bens, se transformando numa fonte de mais valia independente. Essa institucionalização do progresso técnico e científico, coincidente com o interesse pela manutenção do sistema, determina a supressão da diferenciação entre trabalho e interação das nossas consciências. Dessa condição deriva uma sensação de que a evolução do sistema social parece ser determinada pela lógica do progresso técnico e científico.

"A isso corresponde, subjetivamente, que a diferença entre ação racional com respeito a fins e a interação desapareça não apenas do conhecimento científico, mas da consciência dos próprios homens. A força ideológica da consciência tecnocrática é garantida pela ocultação dessa diferença." HABERMAS 2014, página 112

Dentro desse contexto a identificação das classes sociais se torna extremamente difícil, pois os interesses na manutenção do modo de produção não são mais claramente identificáveis. Paradoxalmente, os potenciais de conflito são acirrados, conflitos de raça, de religiões e crenças beiram explosões semelhantes muitas vezes às guerras civis, mas não se sustentam como questionadores continuados do módus operandi do sistema. A mais vigorosa força produtiva, o progresso técnico-científico, submete-se ao controle e se auto-legitima como ideologia desideologizada, transformando a ciência num fetiche.

Essa condição determina uma adequação passiva do quadro institucional, contraposta a uma submissão ativa da humanidade, e da natureza, que se amplia de forma descoordenada, que se manifesta na maneira como os homens fazem a sua história. O quadro institucional, que é do âmbito da interação se adequa de forma passiva, enquanto que o trabalho e a produção submetem natureza e humanidade de forma ativa. Há um extraordinário desenvolvimento produtivo, contraposto a um débil desenvolvimento institucional e associativo. Percebe-se claramente esse desequilíbrio no desenvolvimento extraordinário contemporâneo da circulação de moeda pelo mundo, em contraposição a debilidade de controle fiscal desse mesmo dinheiro.

Os tecnocratas do planejamento sejam capitalistas, ou do socialismo burocrático querem submeter o conjunto da sociedade ao controle produtivo como foi feito com a natureza, no entanto se deparam com um contexto linguisticamente mediado. Portanto, nos deparamos com dois conceitos distintos de racionalização, de um lado a razão instrumental, e de outro lado a razão intersubjetiva ou dialógica, construída a partir da discussão sem entraves e livre de dominação.

Habermas irá concluir seu texto projetando uma grande esperança sobre os movimentos de ativistas estudantis, que no ano de 1968 questionaram fortemente o sistema na Europa, nos EUA e em outras partes do mundo. Para o contexto brasileiro, me parece fundamental reforçar que é pelo questionamento da despolitização que pode-se questionar a ideologia do desempenho e da produtividade, trocando-a pela auto constituição da cidadania, que me parece essencial nesse nosso momento.

BIBLIOGRAFIA:

HABERMAS, Jürgen - Técnica e Ciência como "ideologia" - Editora Unesp São Paulo 2014

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cidade amistosa e inclusiva

Muitas vezes a pauta da imprensa não é positiva, mas carregada de negatividade, no caso era sobre arquitetura hostil, um tipo de atitude que vem se generalizando em nossas cidades basicamente para afastar moradores de rua e outras mazelas determinadas pela ´pobreza. Há de uma maneira geral uma criminalização da pobreza no mundo contemporâneo, que é assustadora.

Minha posição tentou se movimentar no sentido de identificar na forma hegemônica do bem viver no Brasil - o condomínio clube - uma imensa falta de generosidade, com relação a expressivos contingentes de nossa população. Na verdade, percebe-se hoje no país uma clara segmentação da sociedade, e com isso a produção habitacional se hegemonizou em torno dos condomínios clubes. Áreas públicas exclusivas para determinado tipo de renda, que procura evitar o acesso público e universalizado, que o espaço urbano da cidade garantia. Essa tipologia de implantação domina mesmo os extratos médios da sociedade, que procuram se diferenciar do tecido geral, resguardando espaços privativos, que acabam potencializando a violência na cidade.

O sentido da cidade, em sua essência, é o convívio com a diversidade e com a diferença. Os sociólogos apontam que a Revolução Urbana, acontecida a mais de quatro mil anos atrás trouxe para a experiência humana cotidiana essa convivência com a diversidade, de crenças, práticas e costumes. O impacto dessa nova forma de comportamento - a cidade, - muito além da família e do clã, determinou um imenso avanço das descobertas humanas, porque permitiu a interação entre diferentes, levando à relativização de nossos pré-conceitos. Esse sentido didático da cidade continua operando hoje em dia, precisamos retomar essa direção, que já tiveram presentes em bairros como Copacabana no Rio de Janeiro, ou Higienópolis em São Paulo. Bairros onde empreendimentos imobiliários reuniam diferentes extratos de renda compartilhando o mesmo núcleo de circulação vertical ou elevador. Nessa mesma configuração o rodoviarismo também não desempenhava papel tão hegemônico como hoje, o automóvel e o pneu transformaram o espaço público em locais insalubres e de dificil promoção da convivência e do encontro. Essas configurações espaciais dos bairros de Copacabana e Higienópolis geraram cidades muito mais seguras para seus habitantes, com possibilidades de convívio e encontro.

Abaixo o link da matéria...

http://projetocolabora.com.br/cidades/a-arquitetura-hostil-das-cidades/

terça-feira, 26 de abril de 2016

A ciclovia Leblon - São Conrado tragédia anunciada 2

A Laje demolida pela onda, com uma viga central e duas abas
laterais maiores, o que potencializou o esforço de cima para
baixo da onda.

Em função de novas informações, volto ao tema da ciclovia Leblon - São Conrado, que no último dia 21 de abril de 2016 teve um sério acidente provocado por uma ressaca na costa da cidade do Rio de Janeiro, que causou a morte de duas pessoas. No primeiro texto da série, apontei que o descuido com a fase de projeto era claro, pois a presença de uma obra notável do patrimônio da cidade do Rio de Janeiro - o viaduto Rei Alberto, datado de 1920, da abertura da Avenida Niemyer - não havia sido considerado pelo desenho. Argumentei também, que a forma de contratação das obras públicas no Brasil tendem com o modelo da Contratação Integrada (CI) e do Regime Diferenciado de Contratação (RDC) a não dar a devida autonomia a fase de projeto, tratando-o de forma expedita e rasteira, sem o devido aprofundamento.

A Laje que não foi demolida com duas vigas e abas laterais
menores, que resistiu melhor ao esforço de baixo para cima.
Agora novas informações corroboram àquelas primeiras impressões. Em primeiro lugar, o empreiteiro e o gerenciador das obras eram o mesmo agente, o consórcio Concremat-Concrejato gerenciava e construia a obra, o que claramente nega o princípio da fiscalização ou controle cruzado tirando ou reduzindo a autonomia da fase de projeto. Em segundo lugar, a prefeitura desenvolveu apenas um projeto básico, que segundo a lei 8666/93 corresponde a um projeto sem detalhamento, capaz de gerar apenas os quantitativos e o orçamento da obra, necessários para a promoção da licitação da execução, o que também denota e enfatiza a falta de apuro e esmero. Em terceiro lugar, esse projeto básico envolveu apenas as disciplinas de estrutura e de fundações, não tendo qualquer consultoria de arquitetura, de urbanismo ou de paisagismo, disciplinas que certamente sensibilizariam o desenho para a presença do viaduto Rei Alberto, e teriam pela interdisciplinariedade trazido outros olhares e complexidades ao projeto. Em quarto lugar, a seção tipo da laje da ciclovia muda exatamente no trecho em que havia o registro de ressacas recorrentes, de uma seção com duas vigas junto aos bordos, se passa para apenas uma viga central, portanto com desenvolvimento de abas mais generosas, o que certamente potencializou o esforço de baixo para cima da onda.

Há ainda um outro aspecto, que foi noticiado nos primeiros momentos, mas que a mídia abandonou como não sendo relevante, o fato da troca do responsável técnico da obra nas últimas fases do cronograma de implantação. Enfim, estamos diante de um caso grave, onde as evidências sobre a maneira da materialização do projeto, cada vez mais nos mostra o desdém com que vem sendo tratado o projeto e o planejamento em nossa sociedade.

Foi gravado, hoje dia 27 de abril de 2016, entrevista com a CBN-Rio sobre o assunto, o link está abaixo.

http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-rio/2016/04/27/EMPRESA-QUE-CRIA-PROJETO-NAO-DEVE-SER-A-MESMA-QUE-EXECUTA-A-OBRA.htm

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A ciclovia Leblon - São Conrado, tragédia anunciada

Foto da Gruta da Imprensa com o viaduto Rei Alberto, antes
da ciclovia Leblon - São Conrado
O acidente com a ciclovia Leblon - São Conrado, ocorrido no dia 21 de abril de 2016 na cidade do Rio de Janeiro  é uma tragédia anunciada, que nos revela muito da forma como o projeto das obras públicas vem sendo desenvolvidos em todo o Brasil. De forma generalizada há a presença de um sentido de urgência, que pensa de forma equivocada, que o tempo dedicado ao projeto é perda de tempo. Como se o ato de pensar antes de fazer, que ao final é o sentido do plano e do projeto, fosse uma perda de tempo, uma vez que a obra com sua dimensão prática resolveria no calor do canteiro todos os problemas. A tragédia do acidente da ciclovia, que significou a morte de duas pessoas por conta do colapso da estrutura da laje nos mostra, que mesmo aspectos da segurança estrutural podem ter sido negligenciados em função dessa urgência.

O viaduto Rei Alberto
A cidade do Rio de Janeiro foi recentemente elevada pela UNESCO à condição de patrimônio natural e construído da humanidade, exatamente por sua configuração única e inusitada, reunindo natureza e obra humana. O descuido no apuro do desenvolvimento dos projetos fica patente pelo desrespeito da nova obra pelas pré-existências do Patrimônio Histórico e Artístico, como a Gruta da Imprensa ou Viaduto Rei Alberto (mostrados nas fotos). Esses aspectos históricos e de interação de novas intervenções com antigas obras de valor, que podem parecer de menor importância frente a segurança da obra, denunciam muito da forma açodada como as obras públicas vem sendo realizadas. A nova intervenção não teve o devido cuidado na sua aproximação com a obra antiga, denunciando de forma clara a pressa e a urgência das obras.

Estamos diante de graves acontecimentos que precisam ser apurados e monitorados com rigor, mas que as recentes notícias mudando a forma de contratação das obras públicas por parte do governo federal, como a contratação integrada e o Regime Diferenciado de Contratação (RDC) demonstram exatamente a supremacia vitoriosa da pressa e da urgência, ou por um certo desdém pela etapa de desenvolvimento dos projetos. Há muito, que a rede nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) defende que os realizadores dos projetos, sejam eles; de estrutura, de urbano, de arquitetura ou de qualquer natureza não sejam os mesmos dos responsáveis pela implantação das obras e que sejam contratados pelo poder público. Tal prática nos parece garantiria uma maior autonomia para o desenvolvimento do projeto minimizando riscos, e determinando um controle compartilhado dos canteiros de obras. A contratação integrada, que delega ao empreiteiro a responsabilidade pelo desenvolvimento dos projetos e pela implantação das obras, não possibilita a devida autonomia à etapa fundamental, de pensar o que será feito.

Todos aguardamos ansiosos pela apuração dos fatos.

Debate no IAB-RJ sobre o Mat-building proposto pelo Team X na década de 60

O arquiteto Graziano Brau Pani
O jovem arquiteto italiano Graziano Brau Pani debateu no auditório do IAB-RJ na última quinta feira dia 14 de abril de 2016, sobre proposições colocadas no final dos anos cinquenta por um grupo de arquitetos denominado Team 10, que se contrapôs aos posicionamentos funcionalistas colocados pela Carta de Atenas de 1933, no IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), que determinaram a prática arquitetônica até o final dos anos 50 do século XX. As proposições do Team 10 no final dos anos 50 revolucionaram a forma como compreendemos o objeto arquitetônico, sua inserção urbana, a posição dos usuários e os gradientes entre a esfera pública, semi-pública, semi-privada e privada, principalmente no tema habitação. As principais premissas do Team 10 para o projeto, que questionaram fortemente o funcionalismo sistêmico do modernismo, foram a democratização do programa e a responsabilidade social da construção do espaço humano.

Cartaz da palestra
O principal conceito debatido foi o de mat-building, que foi uma premissa desenvolvida por  Peter Smithson (1923-2003) e Alisson Smithson (1928-1993), arquitetos ingleses, que publicaram o artigo;‘How to recognise and read mat-building”, que aborda o tema do sistema,  da repetição e da especificidade na formulação do espaço construído. Portanto, um posicionamento que se colocava fortemente contra uma ortodoxia estabelecida, que permanecia com uma visão estática da construção humana, centrada no objeto espacial isolado, como um elemento de contemplação da arquitetura, e não como processo de produção e reprodução do ambiente construído pelo homem. Nas palavras do arquiteto italiano Graziano Brau, os parâmetros norteadores do mat-building eram; pessoas, participação e tempo. A proposta inseria no processo de desenvolvimento dos projetos, a ideia de sistema, como um processo aberto e acolhedor, para as demandas mutantes dos mundos da vida, não só no período de sua concepção, mas também no da sua operação.

Uma espacialidade aberta a múltiplos usos e não mais determinada por um funcionalismo restritivo desembocava numa racionalidade processual, capaz de entender o projeto e o desenho como o território do conflito. Os exemplos trazidos pelo arquiteto italiano mostraram diferentes apropriações da metodologia mat-building, como a Casa Patio em Tolouse de 1961, a Kasbah de Piet Bloom de 1973, a Nexus World em Tóquio de 1991 do escritório OMA, e a Carambachel 11 em Madrid de 2006 do escritório Morphosis. A análise desses diferentes exemplos se pautou pela compreensão dos espaços de circulação, de estar, da capacidade de abrigar múltiplas funções e da sua inserção urbana. A modulação e a flexibilidade de alguns espaços foram destacados a partir de um rigoroso trabalho de compilação dos desenhos desses projetos, que media sua adequação a partir da presença da repetição e da surpresa, a legibilidade geral e o particularismo específico.

Nas minhas considerações sobre a palestra do arquiteto italiano Graziano Brau Pani, citei os trabalhos dos arquitetos Manfredo Tafuri e Carlos Nelson dos Santos, o primeiro no livro A esfera e o labirinto e o segundo em A cidade como um jogo de cartas, que citam sistemas modulares, homogeneizadores e repetitivos que geraram diversidades. A questão da forma do projeto, tanto no processo de concepção, como também na sua apropriação depois da construção permanecem como temas centrais para o nosso ofício.

Abaixo link para o site do IAB-RJ.

http://www.iabrj.org.br/graziano-brau-discute-sistema-mat-housing-no-iab-rj