domingo, 21 de fevereiro de 2016

Palestra do arquiteto Comas sobre a curadoria da exposição Latin American in Construction Architecture 1955-1980

Cartaz do evento
No dia 16 de fevereiro de 2016, o arquiteto Carlos Eduardo Comas fez uma palestra no IAB-RJ, sobre a sua curadoria da Exposição Latin American in Construction Architecture 1955-1980, narrando sua experiência no Modern Museum of Arts (MOMA) em Nova York, para a montagem da exposição. A palestra foi bastante ilustrativa, elucidando a complexa montagem de uma exposição, que tinha um recorte temporal bastante concreto, 1955 a 1980, um período extremamente rico para o continente da América Latina. A exposição tinha também como curador principal de arquitetura do MOMA Barry Bergdoll, curador assistente Patricio del Real e os curadores convidados; Carlos Eduardo Comas (Brasil) e Jorge Francisco Liernur (Argentina).

Com uma área de 1200M2, e tendo como referência uma antiga exposição do MOMA de 1955 montada por Henry-Russel Hithcock, que tinha como mote o triunfo oficial da arquitetura moderna no mundo todo no segundo pós guerra, que com Brasília e os Campus Universitários de Caracas e México assumia então a face de representação do Estado na América Latina. Em 1943, ainda no clima da segunda Guerra Mundial também foi realizado no MOMA a Exposição Brazil Builds, que maravilhou uma série de observadores com a produção pré-Brasília da arquitetura nacional, que mostrava um grupo de obras construídas no Brasil. Essa última exposição teve uma curadoria menos histórica e mais projetual, mostrando um grupo de arquitetos que manipulavam princípios corbusieanos, com uma potente interpretação particular.

Na apresentação de Comas houve a construção de uma interpretação sobre a percepção internacional da arquitetura brasileira, e dentro dessa do papel desempenhado por ela no cenário latino americano. A visão de Comas é que a crítica internacional a partir de Bruno Zevi* passou a celebrar a vertente orgânica de Frank Lloyd Wright, esvaziando a importância do discurso corbusieano, mais racionalista, que estava na gênese do modelo brasileiro.

De certa forma, Comas repete a avaliação do final dos anos setenta de Edgar Graeff, que considerava a crítica de Zevi não respondida pela arquitetura brasileira, um problema que estava referenciado ao meio onde a expressão se manifestava e também a uma atitude ideológica. Graeff, contrapôs o racionalismo ao organicismo na arquitetura, caracterizando o primeiro como um alinhamento ideológico mais próximo do socialismo, enquanto o segundo adotava posturas mais liberais e individualistas.

"Cabe destacar, para o melhor esclarecimento do nosso tema, que a convicção dos racionalistas - queiram eles ou não queiram - reflete a ação de ideologias que de algum modo tendem para o socialismo; e que a convicção dos organicistas, também a margem de sua vontade, reflete a ação de ideologias que se voltam para ideais burgueses de livre iniciativa e afirmações individualistas." GRAEFF 1979 página43

Aqui cabe apenas registrar, que frente ao esvaziamento da corrente racionalista por parte de Zevi e outros membros atuantes da arquitetura mundial como Gropius e outros, a arquitetura brasileira seguiu produzindo sem responder às reflexões, que passaram a condená-la como destituída de espacialidade interna. Apenas em 1979, com o refluxo das demandas de projeto é que Graeff irá produzir a resposta, que além da argumentação ideológica, também apresentava a justificativa do meio ambiente; da arquitetura dos trópicos, contraposta a arquitetura da neve.

Enfim, o que me parece importante destacar em todo esse debate; é que a construção de nossa capital - Brasília - no final dos anos cinquenta representa uma inflexão importante em nossa cultura arquitetônica. Há nesse momento um envolvimento com uma certa monumentalidade, que era absolutamente essencial no programa da nova capital, mas que não se justifica em outras demandas.

Abaixo matéria do jornal O Globo que repercutiu a palestra do arquiteto Carlos Eduardo Comas no IAB-RJ

http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/carlos-eduardo-comas-arquiteto-toda-sociedade-tem-arquitetura-que-merece-18703880

* Bruno Zevi (1918-2000), crítico de arquitetura italiano, que celebrava a arquitetura orgânica de Frank Lloyd Wright, como o ápice da formulação moderna

BIBLIOGRAFIA:

GRAEFF, Edgar - Cidade Utopia - Editora Vega Belo Horizonte 1979


domingo, 7 de fevereiro de 2016

A mentira da carga tributária brasileira

A mentira sobre o imposto de renda no Brasil vem sendo repetida de forma recorrente por associações empresariais como a FIESP e a FIRJAN, que acabaram convencendo a população, de que a tributação no país é abusiva. No entanto, quando comparamos a relação da taxa tributária brasileira com nosso PIB, constatamos que o Brasil recolhe 34,4% apenas de imposto, o que é muito menos do que a Bélgica 46,8%, França 44,6%, Alemanha 40,6%, Reino Unido 39%, Argentina 37,2%. Se demandamos por melhores serviços públicos, como transporte, escolas, saúde, previdência, segurança, etc..., precisamos arrecadar de forma mais inteligente e justa.

O problema da injusta carga tributária brasileira é que ela penaliza fortemente o salário do empregado e o consumo, deixando com pouca tributação os lucros das empresas e o fruto da venda de imóveis. Na verdade, os proprietários brasileiros acabam pagando muito pouco imposto, segundo dados do FMI e da Heritage Foundation, instituições que não podem ser acusadas de estatizantes ou com discurso de esquerda. A especialista em orçamento público e assessora do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), Graziela Custódio David apresenta o problema de forma correta;

“Se a gente compara um assalariado que paga na alíquota máxima de 27% com alguém que recebe mais do que o limite do imposto de renda, há uma situação terrível. Porque a maioria deles [os mais ricos] recebe por lucros e dividendos e, quando a gente avalia quanto eles pagam em imposto de renda, normalmente chega em 6%. Olha a situação: um grupo, que é a classe média, paga 27,5% de IR. E quem ganha muito mais que este grupo paga muitas vezes só 6%, porque existe a isenção de cobrança do Imposto de Renda sobre lucros e dividendos”

Essa injustiça tributária fica claro quando comparamos as diversas origens da carga tributária brasileira, juntando as três esferas de arrecadação, na qual; 51,28% provém de consumo de bens e serviços, 24,98% da folha de salários, 18,10% da renda e apenas 3,93% da propriedade. As alíquotas máximas cobradas sobre dividendos nos diferentes países também aponta para a mesma direção; Dinamarca 42%, França 38,50%, Canadá 31,70%,  Estados Unidos 21,20%, Turquia 17,50%, enquanto no Brasil esses rendimentos são isentos. Segundo dados da Receita Federal em 2014 71 mil brasileiros que ganharam cerca de R$ 200 bilhões não pagaram qualquer imposto, pois aferiram esses valores em sua maioria como lucros e dividendos.

É claro que o governo que aí está não demonstra muita capacidade de comunicação e vontade política para explicitar essa situação para o conjunto da sociedade brasileira, mantendo-se com uma atitude pouco criativa e inerte. Foi forjado em nossa sociedade uma percepção equivocada de que a carga tributária no Brasil é alta, ela na verdade é desequilibrada, penalizando os extratos de renda assalariados, deixando os super-ricos isentos.

Abaixo o link da matéria, "Os super ricos no Brasil são sustentados pela classe média e pelos pobres." Acima a imagem mostra tabela sobre a arrecadação prevista pela CPMF.

http://cartacampinas.com.br/2016/02/super-ricos-no-brasil-sao-sustentados-pela-classe-media-e-pelos-pobres/

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Mudança Estrutural da Esfera Pública e o campo do projeto

O livro Mudança Estrutural da Esfera Pública, do filósofo alemão da Escola de Frankfurt Jürgen Habermas é leitura fundamental, para compreender nosso tempo contemporâneo, principalmente no que concerne a ampliação ou redução da efetiva experiência democrática. Habermas caracteriza o nosso tempo moderno, a partir das Revoluções Americana e Francesas, como um grande esforço por criar arenas públicas com a função de discutir nossas ações prioritárias e futuros possíveis. A pretensão é reforçar a ideia kantiana do uso público da razão, como forma de convencer nossos pares da justeza de nossos argumentos, para tal, é necessário a existência de debatedores livres e iguais. O que significa disponibilidade para debater, ouvir, argumentar e formular, tendo como premissa a vontade de colocar suas próprias convicções em dúvida, como possíveis de serem modificadas pelo outro. Tal disponibilidade de debater também deve permear o ato de planejar e de projetar em nossa contemporaneidade, podendo ser visto como um esforço que vem se ampliando.

A Escola de Frankfurt, que depois do diagnóstico pessimista contido no livro a Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer, envereda com Habermas para uma construção mais otimista, apesar da manutenção de forte crítica aos mundos da vida, tal qual eles se configuram em nosso cotidiano. Mudança Estrutural parte da possibilidade da ampliação e construção de um fórum de debates entre iguais, com o confronto de argumentos racionalmente defendidos. Há nessa primeira grande sistematização do pensamento de Habermas um foco sobre o desenvolvimento dos processos da vida pública e política nos séculos XVIII, XIX e XX, nos países da Inglaterra, França e Alemanha. A construção claramente pretende sanar o déficit democrático dos pensadores marxistas, de forma geral, como também os da Escola de Frankfurt, que se envolveram mais especificamente com a crítica da cultura de massas.

O texto foi publicado em 1962, inicialmente seria submetido, justamente a Adorno e Horckheimer, como tese de pós-doutorado exigida para se obter o cargo de professor na Alemanha. No entanto, os dois professores da Escola de Frankfurt consideraram o texto, pouco crítico às democracias de massas do capitalismo administrado de então, e ao mesmo tempo, muito radical, na sua proposta de aprofundamento da disponibilidade do debate. Habermas acabou submetendo-o na Universidade de Marburg ao jurista e cientista político Wolfgang Abendroth, que participou ativamente dos debates de constituição da democracia alemã no segundo pós-guerra. De certa forma, Mudança Estrutural da Esfera Pública retoma a crença inicial do racionalismo alemão no Esclarecimento ou Iluminismmo (Aufklärung), como um processo emancipatório da espécie humana, se confrontando de maneira frontal com a assinalada desconfiança explicitada por Horkheimer e Adorno.

Dentro da questão da ampliação da emancipação possibilitada pelo Esclarecimento emerge o problema da qualidade da comunicação, ou da constituição de uma rede densa e aprofundada de opiniões, que pressupõe um público informado e argumentativo. As nossas sociedades contemporâneas de massa acabaram por construir um sistema de informação oligopolizado e altamente manipulador, que contrasta fortemente com o impulso inicial do Iluminismo.

"Na Alemanha, até o fim do século XVIII, havia surgido 'uma esfera pública pequena, mas que discutia de forma crítica'... transcendendo a república dos eruditos, um público leitor universal que não se limita a ler e reler...uma rede relativamente densa de comunicação pública. O súbito e crescente número de leitores é complementado por uma expansão considerável da produção de livros, revistas e jornais, por um aumento no número de escritores, editoras e livrarias, pela fundação de bibliotecas públicas e salas de leitura..., que funcionam como entroncamentos sociais de uma nova cultura literária." HABERMAS 2014 página39

O mundo alemão era ainda dominado pelo poder autocrático de príncipes, mas nessas sociedades e salões, nesses entroncamentos sociais já começavam a ser ensaiadas as normas da igualdade política da sociedade vindoura. A comunicação emancipadora é constituída pela presença de uma imprensa opinativa, que luta contra a censura, e que adota formas igualitárias de tratamento, liberdade de discussão e argumentação. E, que não se restringe ao campo da política e da representação estatal, mas envereda pelos costumes, pela arte, pela literatura e pela arquitetura, conformando uma esfera pública que discute os temas mediante razões. Habermas também mencionará a emergência de uma esfera pública plebéia, que ao lado da burguesa constituirá um projeto contra-hegemônico, e que já coloca a questão de que não há um público singular e homogêneo, mas altamente diferenciado.

"É evidente que essa cultura popular não era de maneira alguma apenas um pano de fundo, isto é, uma moldura passiva da cultura dominante; era também a revolta violenta ou moderada, retomada periodicamente, de um contraprojeto para o mundo hierárquico da dominação, com suas festividades oficiais e suas disciplinas cotidianas." HABERMAS 2014 página44

Além das culturas populares, Habermas também aponta o caráter patriarcal dos canais de comunicação no século XVIII, afinal a esfera pública burguesa e o contraprojeto plebeu excluiram as mulheres e a lógica feminina. Habermas irá apontar a literatura do século XIX, como o esforço de vanguarda nesse campo para mudar mentalidades enraizadas, permitindo a nossa percepção para o caráter patriarcal da esfera pública burguesa. O sufrágio feminino apenas será alcançado na Inglaterra e no Brasil na década de trinta do século XX, comprovando que apesar do desenvolvimento e da ampliação lenta da inclusão das mulheres, na prática a participação efetiva só se materializa com muita luta.

No mundo contemporâneo, a comunicação manipuladora parece vitoriosa, grandes conglomerados de forma monopolista dominaram a mídia, fazendo-a prisioneira de interesses particulares que manipulam a esfera pública. A pulverização de vários editores, jornais, revistas do início do Iluminismo é substituída por grandes conglomerados de mídias, repetindo-se uma tendência geral do sistema capitalista de suprimir a concorrência pela monopolização. Nesse sentido, Habermas é muitas vezes visto como um utópico, um formalista descontextualizado da barbárie, que se instalou a partir da monopolização dos veículos de comunicação. Na verdade, me parece que o projeto habermasiano opera no sentido de nos lembrar, que o impulso inicial da esfera pública burguesa pode ser recuperado, mesmo que no âmbito da afirmação utópica.

No campo do projeto de arquitetura e de urbanismo, nos mesmos anos sessenta, três autores empreenderam um grande esforço no sentido de ampliar o acesso ao processo de debate do nosso vir-a-ser construído; Aldo Rossi, Christopher Alexander e Kevin Linch. Três arquitetos que constroem sua obra na perspectiva de ampliação do espaço democrático da cidade, do debate entre ações essenciais e prioritárias, contrapostas a operações manipuladoras e espetaculares do seu futuro. Os livros; A Imagem da Cidade de Kevin Lynch, de 1960, Ensaio sobre a Síntese da Forma, de Christopher Alexander, de 1964 e A Arquitetura da Cidade de Aldo Rossi de 1966 operam no sentido de ampliar a compreensão da produção do espaço construído pelo homem. Todos os três estão fortemente vinculados a um viés estruturalista, bastante presente naqueles anos. Rossi se autoproclama de forma clara, um neo-racionalista, uma exceção, naqueles tempos de forte crítica à razão.

O campo do plano e do projeto vem ampliando de forma contínua sua disponibilidade para ampliar a participação em torno de suas decisões...

BIBLIOGRAFIA:

ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max - A Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos -Editora Jorge Zahar Rio de Janeiro 1985

ALEXANDER, Christopher - Ensayo sobre la Síntese de la Forma - Ediciones Infinito México 1975

HABERMAS, Jürgen - Mudança Estrutural da Esfera Pública - Editora Unesp, São Paulo 2014

LYNCH, Kevin - A Imagem da Cidade - Editora Martins Fontes São Paulo 1999

ROSSI, Aldo - A arquitetura da cidade - Editora Martins Fontes São Paulo 1995

O artigo do Presidente Nacional do IAB no O Globo

O texto publicado no último sábado dia 30 de janeiro de 2016, do presidente do IAB Sérgio Magalhães, no jornal O Globo aborda a questão das formas de contratação de projeto por parte do governo brasileiro, e como essas possibilitam que se instale uma promiscuidade indesejada entre alguns agentes públicos e privados. Também as cidades brasileiras e suas carências crônicas de determinados serviços, tais como saneamento, transporte público, segurança são consequência direta da falta de protagonismo das fases de planejamento e de projeto, nas contratações de obras públicas.

As fases de planejamento e de projeto antecipam as figurações desejadas para as cidades que queremos ser no futuro, possibilitando que várias hipóteses possam ser avaliadas por diversos agentes interessados, ampliando a participação cidadã. A prática recorrente de pré-figurar, pelo plano e pelo projeto, a conformação de nossas cidades, garantindo por outro lado que os políticos, e ou as candidaturas se comprometam com modelos concretos, efetivamente materializados em nosso território. Essa prática de maior transparência acaba sendo interessante também para os políticos, uma vez que determina objetivos claros e palpáveis a serem atingidos, evitando que se tornem reféns de interesses particulares e pouco republicanos. Apesar disso, hoje no Brasil poucos políticos se comprometem com essas pré-figurações, preferindo um discurso mais abstrato de promessas vagas e indefinidas.

Acima a imagem e abaixo o link da matéria do jornal O Globo. Vale a leitura...

http://oglobo.globo.com/opiniao/a-venda-que-preco-18574764

domingo, 31 de janeiro de 2016

Palestra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha na reunião do IAB em Vitória

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha
Na última quarta feira dia 27 de janeiro de 2016, na cidade de Vitória, no contexto da reunião do Conselho Superior do IAB (COSU-IAB) foi feita uma palestra do arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha, ganhador do Prêmio Pritzker de 2006. A palestra foi a primeira da noite, seguida dos comunicados dos arquitetos Demetre Anastassakis, sobre habitação popular com arquitetura, Alexandre Feu Rosa que abordou o Plano Lucio Costa da Barra da Tijuca e as novas demandas urbanas, e Alexandre Fernandes falando sobre Projetos de edifícios ambientalmente positivos. Todos os palestrantes destacaram o caráter cultural do fenômeno arquitetônico, como capacitado para produzir um vínculo de maior profundidade entre usuários e o espaço construído. Esse vínculo é de extrema importância para a sustentação dos lugares, onde o homem construiu essa outra natureza, que chamamos cidade, um lugar no mundo que é da ordem da cultura, que conceitualmente está muito próximo  do natural.

Há na sociedade contemporânea uma pressa desmedida na definição da ocupação desse lugar, fazendo com que grande parte dos empreendimentos fiquem presos numa lógica de resultados imediatos, que não olham para os comprometimentos com as gerações futuras. Grande parte dos impactos ambientais, que sentimos hoje no planeta Terra são consequências diretas dessa forma superficial e rápida de conceber a construção do lugar. Na medida que começarmos a compreender a cultura como algo extremamente próximo da ideia de cultivo, portanto muito ligado ao desenvolvimento de processos naturais, enfim uma outra natureza.

"Como cultura, a palavra 'natureza' significa tanto o que está a nossa volta como o que está dentro de nós, e os impulsos destrutivos internos podem facilmente ser equiparados às forças anárquicas externas. A cultura, assim, é uma questão de auto-superação tanto quanto auto-realização...A natureza humana não é exatamente o mesmo que uma plantação de beterrabas, mas, como uma plantação, precisa ser cultivada - de modo que, assim como a palavra 'cultura' nos transfere do natural para o espiritual, também sugere uma afinidade entre eles." EAGLETON 2005 página15

Nesse sentido, a palestra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha versou sobre dois conceitos - linguagem e conhecimento - fundamentais para a construção de um mundo da vida mais compromissado com um tempo de mais longo prazo, portanto com as gerações futuras. Segundo o arquiteto, o conhecimento e a linguagem interagem de forma dialética construindo uma experiência, ou módus operandi, que consolida a forma da cultura do construir.

Nossas cidades são fruto direto dessa interação, que no passado operava manipulando uma gama restrita de elementos, e que no mundo contemporâneo, com a imensa acessibilidade a diversas linguagens, a forma de construir entra em uma crise de síntese. Atuar de forma estruturada, ou a partir da ideia kantiana de um uso público da razão sobre o desenvolvimento do ambiente construído nacional significa pensar uma política para o campo da arquitetura e do urbanismo, que irá manipular os conceitos de linguagem e conhecimento.

A ideia de linguagem envolve o conceito de transmissão, difusão e troca, que está contida nas sociedade modernas pela esfera da comunicação, e que deve partir do pressuposto de que há uma variedade de sistemas construtivos operando. Por outro lado, a ideia de conhecimento envolve o conceito de uma certa estratificação ou cristalização de uma determinada maneira de operar, se comportar, e enfim construir o nosso ambiente humano.

Precisamos portanto, catalogar a imensa diversidade de práticas construtivas atuantes no país, avaliando sua adequação ao meio ambiente social, cultural e econômico, e ao mesmo tempo valorar de forma crítica esses conhecimentos de forma a garantir a preservação das futuras gerações sobre o planeta.

BIBLIOGRAFIA:

EAGLETON, Terry - A idéia de Cultura - Editora Unesp São Paulo2005
HABERMAS, Jürgen - Mudança Estrutural da esfera pública - Editora Unesp São Paulo 2014

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Encontro no IAB-RJ homenageia memória de Alfredo Brito

Na última segunda feira dia 25 de janeiro de 2016 foi homenageado o arquiteto, ativista social, professor, amante da música, das cidades e das mulheres Alfredo Brito, na sede do IAB-RJ,  que faleceu em dezembro de 2015. O evento reuniu arquitetos, amigos, músicos, colegas de profissão, e ex-alunos numa celebração emocionada e saudosa do velho entusiasta da arquitetura, da vida nas cidades e particularmente do Rio de Janeiro.

Alfredo Brito foi meu professor na FAU-UFRJ, no final dos anos 70 e começo dos anos 80 do século passado, na cadeira de Arquitetura Brasileira 2, na qual estudávamos o neoclássico, o ecletismo, o modernismo e a nossa contemporaneidade. Volta e meia nos encontrávamos nas reuniões da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (AMAST), bairro que compartilhamos há mais de vinte anos como vizinhos, e no qual sempre destacávamos a sua diversidade de gente e de culturas. Mais recentemente fomos professores juntos no curso da PUC-Rio, do qual participamos da montagem, nos seus primeiros anos.

O evento foi organizado pelos amigos e familiares de Alfredo Brito e se iniciou por um filme, montado a partir de vários depoimentos seus para diversos assuntos de interesse da cidade do Rio de Janeiro, como a demolição da perimetral, a zona portuária, o conjunto habitacional do Pedregulho, dentre outros. Logos após o filme foi colhido diversos depoimentos sobre a trajetória profissional e afetiva de Alfredo pelos presentes, tais como Dora Alcântara, Claudius Ceccon, Luiz Carlos Toledo, Margareth Pereira, Fabiana Izaga, Sérgio Magalhães, Jeronimo Moraes. Em seguida foi montada uma roda de músicos notáveis, que tocou chorinhos memoráveis, e que tradicionalmente se reunia na casa de Alfredo no primeiro sábado do ano, para celebrar os novos desafios que se apresentavam a cada reinício.

Meu depoimento na festa relembrou um fato, ao mesmo tempo inusitado e típico do que era o Alfredo Brito, um ativista militante pela construção de uma cidade com mais diversidade e pluralidade. Num debate na AMAST, no começo dos anos 2000, debatemos o empreendimento do Hotel de Santa Teresa que então se renovava, que trazia para o bairro a proposta de um perfil de hospedagem elitizada e voltada para um público de alto poder de consumo. Grande parte da audiência da assembleia se posicionava contra a nova instalação, defendemos eu e Alfredo a instalação do novo hotel como fator de promoção da diversidade da cidade.

Terminada a reunião, com eu e Alfredo exaustos, o velho ativista insistiu comigo que gostaria de me mostrar uma coisa muito peculiar, que tinha encontrado no meio de seus arquivos, na sua casa, que eram sistematicamente arquivados. Depois de muita insistência, Alfredo Brito me mostrou o meu fichamento que tinha entregue nos tempos da escola de arquitetura, no começo dos anoos oitenta, um trabalho realizado para a matéria de Arquitetura Brasileira 2. Alfredo destacava aspectos do trabalho de um jovem estudante, e que traziam uma abordagem sobre o bairro de Santa Teresa na escolha de edificações que traziam a tipologia repetida da torre, destacando as vistas para a cidade. Acabamos ainda debatendo aspectos sobre as várias personalidades de diferentes partes da cidade do rio de Janeiro.

Realmente, uma atitude que mostrava todo seu envolvimento apaixonado com a arquitetura, com nosso bairro e com as diversas personalidade dessa imensa metrópole.

domingo, 24 de janeiro de 2016

125 anos do nascimento de Gramsci e as nossas cidades contemporâneas

No dia 22 de janeiro de 2016, o filósofo italiano Antonio Gramsci teria completado 125 anos se estivesse vivo. Nascido na Sardenha em 1891, o político antifascista mudou a trajetória do pensamento marxista contemporâneo, criticando de forma veemente o economicismo, o determinismo e o cientificismo dessa linha do pensamento. A contribuição original de Gramsci ao marxismo se deve à crítica ao conceito de objetividade científica, que deveria ser contraposto a um relativismo subjetivo absoluto, principalmente no campo da história.

Marx e Engels são classificados como contaminados por um determinismo científico, pois sua localização histórica no século XIX demanda deles uma certeza mobilizadora, que seja capaz de ser persuasiva naquele momento específico. Em contraposição Gramsci irá se utilizar e se valer muito mais de leis tendenciais, do que da objetividade do determinismo científico histórico, buscando valorizar a interpretação subjetiva da história. Gramsci irá fazer a caracterização do marxismo como filosofia da práxis, pretendendo a reunificação entre ação e pensamento, tendo o sujeito como protagonista, que a cada novo ciclo reconstroe a interpretação histórica de forma a objetivá-la.

"O sujeito humano existe intervindo no mundo, sendo constituído pelo movimento da história e, simultaneamente, constituindo esse movimento." KONDER, 2002, p.109

Há dois conceitos fundamentais na filosofia de Gramsci -a ideologia e a hegemonia -, que demonstram seu esforço de adequar o método marxista ao seu tempo contemporâneo, o começo do século XX, com as presenças da primeira guerra mundial, da revolução russa e da ascenção do fascismo na Itália.

Marx e Engels enxergavam a ideologia como um condicionamento social ou de classe, que distorcia a capacidade de interpretação do real pelo sujeito, sendo portanto um termo carregado de negatividade. Gramsci irá reafirmar essa visão, mas dando-lhe um aspecto mais positivo, alertando que qualquer pensamento não pode se libertar das vicissitudes da ideologia. Mesmo a ciência, que Marx contrapunha a ideologia, para Gramsci está condenada a reconstruções, revisões e correções contínuas e constantes ao longo da história. Portanto, mesmo a ciência não é capaz de uma representação do real de forma permanente e eterna, estando sujeita a reconstruções e reinterpretações contínuas em função do contexto histórico.

Por outro lado, para Gramsci há ideologias arbitrárias ou conservadoras, que mantém o status quo, ou o módus operandi do mundo sem mudanças, e ideologias historicamente orgânicas ou progressistas, que estão comprometidas com uma visão de transformação e são vitórias da representação sobre o real. A essas últimas - ideologias historicamente orgânicas - Gramsci considerava como "hipóteses científicas de caráter educativo e energético", que tinham a capacidade crítica de realizar o desenvolvimento histórico.

O outro conceito importante na filosofia de Gramsci era a hegemonia, uma dinamização da concepção de ideologia, que na verdade pretendem conquistar o tecido social, tornando-se representações socialmente compartilhadas por todos. Portanto algumas ideologias se hegemonizam no tecido social, determinando práticas e costumes que estruturam nossa concepção de mundo, se transformando em representações socialmente convincentes para todos.

Um exemplo notável de ideologia, que se hegemonizou está na forma de representação dos Estados, que com as revoluções burguesas abandonaram a linha hereditária da realeza com delegação eterna para uma família, passando a adotar a escolha republicana do representante pela eleição de votos e o mandato temporário. A ideologia republicana penetrou nos mundos da vida, convencendo o tecido social de sua maior adequação, desempenhando um papel contra-hegemônico num tempo histórico específico, destituindo a nobreza hereditária que era então a ideologia predominante. Anote-se que a mudança foi de longa duração, afinal o voto demorou a se generalizar na sociedade como um todo, mantendo-se excluídos os analfabetos e as mulheres por longo período.

Nas cidades também temos ideologias arbitrárias ou predominantes que se hegemonizaram, determinando práticas e costumes que estruturam nossa forma de construí-las, e que se naturalizaram como ideias estabelecidas. Dois aspectos representam ideologias arbitrárias instaladas, que demandam formulações de ideologias contra-hegemônicas para desalojá-las de nossas práticas; o rodoviarismo imperante, e o idílio isolacionista da habitação.

Essas duas ordenações ideológicas se estruturam de uma maneira, que mutuamente se justificam, o automóvel individual induz a habitação isolada, que por sua vez também é indutora da necessidade da presença do pneu. As duas na verdade estão profundamente articuladas com a crise do espaço público que nossa sociedade vive, determinado pelo declínio da esfera pública, que também tem entre seus componentes o individualismo exagerado. Nossas cidades apresentam densidades baixas, ocupam um território muito maior que o necessário, e no mundo subdesenvolvido não conseguem universalizar o acesso as infraestruturas urbanas, que permanecem restritas a áreas privilegiadas. Apesar de todos os sinais do planeta de que o modelo baseado no isolamento unifamiliar e no automóvel particular são inviáveis, eles seguem representando o bem viver.

Como articular ideologias contra-hegemônicas que celebrem os meios de transportes públicos e o adensamento da habitação, fazendo-os representar o bem viver? É o desafio de nosso tempo...

BIBLIOGRAFIA:

KONDER, Leandro - A questão da ideologia - Editora Companhia das Letras, São Paulo 2002

MOREIRA, Pedro da Luz - Projeto, Ideologia e Hegemonia, em busca de um conceito operativo para a cidade brasileira - Tese de Doutorado Prourb FAU-UFRJ. Acesso a  http://www.prourb2.fau.ufrj.br/pedro-da-luz-moreira/

http://www.esquerda.net/artigo/125-anos-de-gramsci-o-intelectual-organico/40847, acesso em 23/01/2016