terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A Espanha e o fracasso da política habitacional baseada no Estado Neo-liberal

O drama do endividamento das famílias na Espanha
Após a segunda guerra mundial, as bases do Estado de Bem Estar Social foram lançadas na Europa e nos Estados Unidos, tendo como premissa evitar enfrentar uma outra crise semelhante a de 1929, determinada pelo crack da Bolsa de Nova York. A doutrina de John Maynard Keynnes determinava um pacto redistributivo, para se evitar a tendência concentradora e especulativa do sistema capitalista, eterno produtor de crises cíclicas. Além da promoção da saúde, um dos campos de ação era a promoção e o subsídio a obtenção da moradia pelas classes menos favorecidas, seja pela alocação social ou pelo subsídio à hipoteca. Portanto, o modelo de regulação, tanto do Estado, quanto da Iniciativa Privada reunia o desenvolvimento econômico e a justiça social, num pacto que gerou uma continuidade de crescimento econômico e distribuição de renda, entre os anos de 1945 a 1975.

Assim, no Reino Unido e na Irlanda do Norte cerca de 5,5 milhões de unidades habitacionais foram construídas entre 1945 e 1981. Mesmo nos EUA, país de tradição liberal, ao final dos anos 1970 o estoque de moradias públicas para aluguel a famílias de baixa renda chegou a 1,4 milhão de unidades. Ao final dos anos setenta, começo dos anos oitenta, o Estado de Bem Estar Social começa a ser desmanchado, ressurgindo a ideologia do (neo) liberalismo que havia gerado o crack da bolsa de Nova York em 1929.

A Espanha nunca teve uma política baseada no Estado de Bem Estar Social para a produção da habitação. No tempo da ditadura franquista, enquanto países como a Holanda e a Inglaterra investiam fortemente numa política de locação social, a Espanha mantinha-se presa a ideia de "quem tem um título de propriedade tem algo a perder, interesses concretos a defender e pouco tempo para conspirar." COLAU e ALEMANY 2012 página35 Era então a típica mentalidade propalada e divulgada pela ditadura franquista, que frente as tendências de outros países vizinhos da Europa, mantinham a Espanha num claro isolamento.

Após a segunda guerra mundial a Espanha permaneceu isolada, não tendo participado sequer da ONU, mantendo-se  à margem, dominada por um atraso sistêmico, que parecia ser o programa da ditadura franquista. A guerra civil espanhola (1936-39) determinou uma enorme cisão no país entre a Frente Popular e os Nacionalistas, o primeiro grupo apoiado pela União Soviética, México e pelas Brigadas Internacionais, enquanto o segundo recebia o apoio dos Nazistas alemães e dos Fascistas italianos. A guerra civil espanhola foi uma terrível ferida, tirou a vida de 500 mil, e forçou a imigração de outros 500 mil, apenas a Argentina recebeu nesse período 300 mil espanhóis.

As duas potências ocidentais, EUA e Inglaterra, que irão combater os países do Eixo, Alemanha, Itália e Japão se isentaram do conflito da guerra civil espanhola, por isso durante a segunda guerra, a Espanha se declara neutra, apesar de sua clara simpatia pelo nazi-fascismo. Na primeira década logo após o final da segunda guerra, com a guerra fria o alinhamento espanhol, assim como o português permanece dúbio, envolvendo um anti-comunismo com pitadas também de anti-capitalismo.

Franco irá falecer apenas em 1975, assumindo o poder de forma provisória o rei Juan Carlo, que convoca eleições para a formulação de uma nova constituição, que é declarada em 1978. Em 1981 ocorre uma tentativa de golpe apoiado pelos EUA, que o rei Juan Carlo contorna, enquadrando as forças armadas espanholas. Portanto a redemocratização espanhola ocorre exatamente no momento de ascensão dos ideais neo liberais, na Inglaterra e nos EUA, a primeira ministra britânica Margareth Thatcher é eleita em 1979, e o presidente norte americano Ronald Reagan em 1980.

Desde a redemocratização da Espanha dois partidos tem se revesado no poder, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) de cunho social democrata e o PP (Partido Popular) de posicionamento liberal de direita. Apesar disso, tanto o partido social democrata, quanto o liberal implantam uma política habitacional alinhada com os ideais do neo-liberalismo, isto é, baseado na casa própria e no crédito hipotecário.

"O problema não é que na Espanha, a maioria das pessoas não tenham moradia - diz-se que 82% das moradias são habitadas por proprietários - mas o fato de que a maioria das famílias tem financiamentos que levarão a vida inteira para pagar e que os riscos de exclusão aumentam. Em 2003, só os créditos para a moradia representavam 62% da renda disponível, e a relação da dívida creditícia total sobre a renda atingia 91%. Também não se trata de que não se construam moradias, uma vez que nunca tinham sido construídas tantas - setecentos mil em 2004 - ,mas de que muitas delas se encontram vazias, pois são objeto de investimento ou então de abandono." MONTANER e MUXI 2014 página172

No ano de 2007 ocorre uma forte crise, com o estouro da bolha imobiliária, lançando um grande contingente de espanhóis na inadimplência. Em 2008, 2,7 milhões de pessoas terminam o ano sem poder pagar suas dívidas, no ano seguinte 850mil imóveis são requisitados pelos bancos para cubrirem as dívidas. Em 2011 existiam 3,5 milhões de imóveis vazios na Espanha, grande parte desse contingente tinham passado para as mãos dos bancos, que com os imóveis subvalorizados continuavam cobrando das familias mesmo depois de despejadas. ROLNIK 2015 página 77

O resultado disso tudo foi que em 2008, 170 milhões de euros do contribuinte espanhol foram utilizados para resgatar entidades financeiras em dificuldades por conta da farra das hipotecas, assim como nos EUA no mesmo ano, a ideologia do Estado Neo-liberal considera justo resgatar o sistema financeiro em dificuldade, mas não acha correto subsidiar a habitação de interesse social. Enfim, parece claro em todas essas operações a hegemonia do capital financeiro no mundo contemporâneo, que dita a atuação do estado e dos indivíduos.

BIBLIOGRAFIA:

COLAU, Ada e ALEMANY, Adriá - Vidas hipotecadas: de la burbuja imobiliária al derecho a la vivienda - Cuadrilátero de Libros, Barcelona 2012

MONTANER, Josep Maria e MUXI, Zaida - Arquitetura e política: ensaios para mundos alternativos - Gustavo Gilli São Paulo 2014

 ROLNIK, Raquel - Guerra dos Lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças - Editora Boitempo São Paulo 2015

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Desafios das próximas gestões das cidades brasileiras e do Rio de Janeiro

Rede de mobilidade da cidade, com alguns trechos ainda em projeto

O texto que escrevi sobre a transparência e a gestão de projetos para o município do Rio de Janeiro defende a ideia, de que a explicitação dos programas, planos e projetos a serem realizados pela gestão política é um poderoso instrumento para tomada de consciência do modelo de cidade, que pretendemos legar para as gerações futuras. O processo de desenvolvimento dos planos e projetos são uma oportunidade única para checar se as prioridades apontadas atendem as demandas do interesse público geral, ou estão aprisionadas por interesses particulares. Essa atitude garante ao governante e aos governados a pactuação de um modelo de cidade a ser perseguido, dando mais clareza sobre as transformações prioritárias e as de menor monta.

No texto defendo a ideia de que três eixos devem ser prioritários na cidade do metropolitana do Rio de Janeiro; a questão da moradia articulada à urbanização de favelas, a mobilidade urbana e o meio ambiente. Na figura mostrada acima, da Rede de Mobilidade da cidade metropolitana do Rio de Janeiro percebe-se alguns trechos que ainda não foram entregues a população, como o BRT da Transolímpica e a Linha 3 do metrô, que liga Itaboraí ao centro de Niterói. Obras fundamentais para a melhoria da mobilidade na cidade, uma está para ser inaugurada, enquanto a segunda ainda nem foi iniciada. Além da mobilidade menciono a questão da despoluição da Baía de Guanabara como principal eixo do meio ambiente e a articulação entre construção de novas unidades habitacionais (Programa Minha casa, Minha vida) e a requalificação das favelas.

Abaixo um trecho do texto e o link do site do IAB-RJ, onde o artigo pode ser lido na íntegra.

"A prefiguração de planos e projetos por governantes permite que os governados avaliem sua relevância, seu grau de prioridade, comparem as propostas do ponto de vista de seu custo e benefício, enfim, a sua adequação ao interesse público. A prefiguração das propostas, em suas fases iniciais da concepção e da ideia, permite ao governante aprovar uma pauta de transformações, que são de interesse geral, evitando o aprisionamento da sua gestão por grupos de pressão particulares e específicos."

http://www.iabrj.org.br/os-desafios-da-cidade-do-rio-de-janeiro

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Responsabilidade Fiscal, Irresponsabilidade Social e a Questão da Habitação

Ausência de políticas públicas no setor da habitação
impulsionam processos especulativos
A pauta da mídia brasileira não muda de assunto envolvendo sempre o equilíbrio entre arrecadação e gastos públicos, a responsabilidade fiscal, enfim, as pedaladas fiscais que são panfletadas como principal motivo para o impedimento da presidente. Constantemente se faz uma analogia entre o governo e os gastos domésticos, reafirmando-se a integridade orçamentária da dona de casa, que mantém seus gastos dentro de seu orçamento, enquanto que o Estado gasta mais do que arrecada. As virtudes de uma contabilidade familiar austera são celebradas, em contraposição a despesas perdulárias e descontroladas do governo, que só pensa em aumentar sua arrecadação via aumento de impostos. Me parece, que há uma simplificação interessada nesse posicionamento recorrente.

Na verdade, não é bem assim, ou melhor historicamente não foi sempre assim, havendo um tempo relativamente recente em que os gastos públicos eram encarados como importante fator para reverter tendências inerciais do capitalismo, evitando recessões cíclicas. Durante o segundo pós guerra, as democracias ocidentais mais desenvolvidas implantaram o que se convencionou chamar de Estado de Bem Estar Social, que atuava a partir de investimentos públicos em infraestruturas e benfeitorias sociais acabando por reverter tendências cíclicas depressivas da iniciativa privada. Cabe ainda enfatizar que durante esse periodo, de 1945 a 1970, o sistema capitalista distribuiu renda e apresentou crescimento constante, sem as crises recorrentes.

Mas, segundo dados do Banco Central o endividamento das famílias no Brasil não anda assim tão austero, tendo crescido muito, comprometendo quase 46,3% da sua renda em abril de 2015, quase a metade dos recebimentos domésticos. Grande parte dessa dívida é consequência do crédito habitacional, que ao ser retirado da conta faz essa média descer para apenas 27,94%, o que demonstra de forma inequívoca que é a compra da casa própria que rompe o equilíbrio orçamentário. Tais dados nos levam para uma reflexão sobre a capacidade de regulação dos governos sobre o preço da terra urbana no Brasil e no Mundo, e o debate sobre a financeirização geral da moradia, a partir da hegemonia neo-liberal. E, aqui parece que a simplificação interessada de parte da mídia começa a ser demonstrada, pois a interconectividade entre orçamentos público e privado é cada vez maior no mundo globalizado dominado pela ideia neo-liberal.

Tal hegemonia vem sendo construída no mundo, a partir dos governos da primeira ministra britânica Margareth Thatcher em 1979, e do presidente norte americano Ronald Reagan em 1980, que iniciam o esforço de adequação da produção e da manutenção da moradia social à lógica do mercado de serviços financeiros, com o argumento de equilibrar o orçamento público. E, essa atitude ainda se mantém dominante, apesar da recorrente sucessão de crises financeiras que passam a assolar o mundo, chegando ao ápice com a crise das hipotecas subprime de 2008 nos Estado Unidos, que levou a bancarrota instituições de crédito e de seguros da nação mais poderosa economicamente, gerando uma enorme insegurança, da qual o mundo ainda não se livrou.

O fato é que tal atitude e alinhamento ideológico acaba determinando como consequência inevitável uma sobre valorização da terra urbana, que atinge até países com ampla tradição de atuação pública para regulação do preço da terra, como a Holanda ou a Inglaterra. Segundo o Bauco Nacional da Holanda "no final dos anos 1990, metade do crescimento econômico do país teria se dado em função do aumento do valor da home equity e não do crescimento real." ROLNIK 2015 página72. Na Inglaterra, entre os anos de 1981 e 2012 o número de famílias locatárias, que migrou do setor social para o privado foi de 1,9 milhão. ROLNIK 2015 página50

Há muito que economistas e especialistas advertem, que se a propriedade privada do solo fosse socializada, desapareceria a dedução do lucro representada pela renda da terra, mas o capitalismo não só continuaria existindo, mas inclusive se fortaleceria. Pois o lucro imobiliário ou financeiro quando muito incrementado rouba recursos e energias da acumulação de capital investido na produção. O "capital" imobiliário é, portanto, um falso capital SINGER 1973 página65.

Efetivamente, o capital imobiliário e o capital financeiro possuem tendências especulativas claras, podendo ser conceituados como um valor, que se valoriza, mas a origem de sua valorização pode não ser uma atividade produtiva efetiva, mas a monopolização do acesso a uma condição indispensável àquela atividade, posse da terra ou posse de moeda. Esse caráter da propriedade imobiliária ou de ativos financeiros na economia capitalista não aparece de imediato, porque eles raramente se apresentam em sua forma "pura", ou seja, como propriedade de uma extensão de solo urbano, ou como base monetária intocadas por atividades humanas.

Na verdade, o modelo de financeirização da casa própria determina uma sobre valorização do mercado da terra no mundo todo, fazendo com que somas expressivas de capitais abandonem atividades produtivas, para se dedicar a especulação. O crítico literário inglês Frederic Jameson já havia identificado, que a terra e o dinheiro haviam deixado de ser meios, para passarem a ser fins em si mesmos, na nossa sociedade contemporânea.

"A relação entre valor real e final do objeto e sua representação por uma ação perdeu toda estabilidade. Isso mostra claramente a flexibilidade absoluta dessa forma de valor, uma forma que os objetos ganharam através do dinheiro e que os separou completamente de sua base real." JAMESON 2001 página178

Me parece cada vez mais claro, que a cidadania só pode ser alcançada na medida em que for garantido o direito a todos de habitar na cidade, essa responsabilidade social não pode ser suplantada pelo controle fiscal. O cidadão quando passa a ser encarado, como um mero consumidor ou tonador de crédito dispara um processo especulativo incontrolado, que transforma o meio em um fim em si mesmo. Portanto, a questão da habitação urbana para todos é responsabilidade de toda sociedade interessada em contar com cidadãos efetivos.

BIBLIOGRAFIA:
JAMESON, Frederic - A cultura do Dinheiro, ensaios sobre a globalização especificamente o ensaio O tijolo e o Balão: arquitetura, idealismo e especulação imobiliária - Editora Vozes Petrópolis 2001
 ROLNIK, Raquel - Guerra dos Lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças - Editora Boitempo São Paulo 2015
SINGER, Paul - Economia Política da Urbanização - São Paulo: Brasiliense, 1973



quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O filme Chico Buarque é uma preciosidade

O filme Chico Buarque um artista brasileiro é uma obra singular e provocadora, particularmente importante dentro do momento vivido pelo Brasil. Diante de uma crise econômica sem precedentes, com as acusações de corrupção atingindo figuras representativas da república é um grande alento ouvir depoimentos otimistas e positivos sobre o Brasil. Há particularmente um momento muito positivo sobre a forma que nos auto-avaliamos como brasileiros, como um país de mau gosto e brega, sempre envolto por uma sensação de baixa auto-estima. Há no brasileiro de maneira geral uma certa filia pelo estrangeiro, que se remete ao velho pré-conceito de "complexo vira-latas" já citado por Nelson Rodrigues.

Uma certa incapacidade de se auto-celebrar, que em certos aspectos considero uma brilhante atitude frente aos riscos de totalitarismos e outros posicionamentos coletivos, que sempre nos rondam nos tempos modernos. Num momento do filme, Chico comenta sobre a bossa nova e sua falta de nostalgia com relação àqueles tempos, reafirmando um compromisso seu com o contemporâneo, reconhecendo a melhoria geral do povo e do país. Num outro momento ele menciona literalmente a vergonha de ser brasileiro, todos acham que o país é brega, e querem pegar um avião e viajar. O problema, com uma certa ironia esclarecedora, é que também viajar de avião passou a ser brega, pois foi ampliado esse direito para amplas camadas da população brasileira, tornando as viagens internacionais também bregas.

Há também um outro documentário, onde surge um depoimento do Tom Jobim, no qual esse músico declara de maneira também simplificada do seu valor a partir do fato da utilização da língua portuguesa nas suas músicas. Um fato tão simples e corriqueiro, que chega a criar um certo estranhamento. Chico é ao fim um cantor de um país inteiro

Enfim são filmes maravilhosos, que nos revelam um pouco desse fenômeno tão misterioso que é ser brasileiro. O trailer abaixo é uma amostra desse belo documento, assim como o outro documentário mencionado. Vale a pena assisti-los...

https://www.youtube.com/watch?v=tmX0SU_4hU4

https://www.youtube.com/watch?v=YaGl1aFtqFw

domingo, 27 de dezembro de 2015

A cidade do Rio de Janeiro precisa de sombra urbana; árvores

A sequência de mapas mostra o armazenamento
de calor na cidade metropolitana nos anos 1980,
90 e 2000
A cidade do Rio de Janeiro possui uma luminosidade ímpar, a incidência de raios solares no verão carioca assume proporções altíssimas, determinando que superfícies suscetíveis a absorção de calor mantenham sua carga térmica alta mesmo depois de terminada a fonte da radiação solar. Em muitas superfícies da cidade constatamos a manutenção de altas temperaturas, que não se mostram capazes de dissipar todo o calor armazenado, mesmo após o periodo de uma noite inteira. A recorrência de um fenômeno climático típico do verão começa a se manifestar em amplas áreas da mancha urbana, denominado de ilhas de calor. As ilhas de calor são determinadas pela manutenção de altas temperaturas, mesmo depois dos horários de pico da irradiação solar (de 10:00 as 16:00 do dia), em comparação com áreas adjacentes mais sombreadas.

Em sua tese de doutorado, defendida em 2012, o geógrafo Andrews Lucena, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), estudou a evolução da ilha de calor da região metropolitana entre as décadas de 1980 e 2000. Sua conclusão: a região metropolitana do Rio de Janeiro não apenas é, em média, 7°C mais quente do que seus arredores, como o fenômeno acentua-se cada vez mais, sobretudo nas áreas pouco arborizadas e distantes dos maciços florestais que a cidade possui (vide mapas ao lado). Há efetivamente na cidade do Rio de Janeiro, trechos onde a presença da arborização urbana determina diferenças de temperatura substanciais. Por exemplo, na Rua Almirante Alexandrino no bairro de Santa Teresa e na mesma rua no trecho da Floresta da Tijuca, ou na rua Gomes Freire bem arborizada e a rua do Lavradio carente de sombra no bairro da Lapa, as diferenças chegam a 3 ou 4 graus centígrados.

Nesse ambiente a produção de sombra é de suma importância, principalmente nos espaço públicos,
como ruas, praças, largos e parques, para evitar que os materiais de revestimento recebam essa imensa carga térmica. O projeto de arborização da cidade deve ter um cuidado especial, procurando produzir contínuos sombreados, que evitem a incidência direta de raios solares sobre a materialidade da cidade, possibilitando um caminhar confortável nos diversos horários. Por isso, também é fundamental adequar as redes de fios e cabos aéreos a presença da arborização, sendo o ideal que ela seja enterrada para não prejudicar o desenvolvimento das árvores.

Praça Mauá, em frente ao Museu do Amanhã
Infelizmente essa não tem sido a preocupação de recentes espaços inaugurados na cidade, como o conjunto constituído pela Praça Mauá, o Pier Mauá e o Museu do Amanhã, que insistem num modelo de projeto no qual se identifica a competição entre edificação e arborização. As nomeadas praças secas, tão características da península ibérica (Espanha e Portugal) não se adequam ao clima tropical do Rio de Janeiro, determinando uma espacialidade inóspida, árida e ao final vazia. Enquanto nas duas laterais do Museu do Amanhã e na frente do Museu de Arte do Rio (MAR) se identifica uma arborização ainda incipiente pelo tamanho, mas adequada no seu espaçamento. Na frente do Museu do Amanhã se retoma a ideia de visualização do objeto arquitetônico sem a interferência da arborização, o que acaba por gerar um espaço árido.

Me parece, mais uma vez, que há uma idealização colonizada fora do lugar, querendo impor padrões de pensamento que não se adequam aos valores de uso efetivo. O Rio de Janeiro permanece querendo reproduzir modelos estrangeiros, sem assumir seu caráter particular e único...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O museu da língua portuguesa em São Paulo

Incêndio destruiu o Museu da Língua Portuguesa em 21 de
dezembro de 2015
"A arquitetura é o antônimo da destruição." Essa frase foi postada pelo presidente do IAB-SP - José Armênio - nas redes sociais, no dia 21 de dezembro de 2015, ao saber do incêndio no Museu da Língua Portuguesa, instalado na antiga Gare da Luz no centro da cidade de São Paulo. Sem dúvida a frase expressa de forma contundente, aquilo que as pessoas entendem como o fenômeno da arquitetura.

O grande arquiteto norte maericano Loui I. Kahn falava que a arquitetura era a expressão mais acabada da institucionalidade, que abrigava. Numa divergência aparente com o funcionalismo, Khan expressava assim a capacidade da edificação de resistir ao uso inicial e assumir uma dimensão simbólica maior, que supera sempre a primeira destinação imediata. No Museu da Língua Portuguesa, ainda funciona a Gare de trens, não mais a conexão da cidade de São Paulo com o vasto território do seu estado, mas com as localidades e municípios adjacentes, pois nele chegam os trens urbanos da CPTM.

Esse fato presente na atual Gare da Luz, a reunião de uma Estação de Trens com um Museu, fez desse programa quase um paradoxo instigante, a aproximação da pressa alienada das multidões urbanas voltando para as periferias e o debate aprofundado dos usos revolucionários, corriqueiros e repetidos da nossa Língua Portuguesa. Ou o exato oposto, a consciência do cotidiano alienante das grandes massas em movimento, em contraposição ao uso mecânico e burocrático da língua. Enfim, essa reunião programática da Estação da Luz, muito além de ser apenas o antônimo da destruição, abria também uma imensa possibilidade de desenvolvimentos futuros e inesperados, ao final, oportunidades.

Há aqui, a presença clara daquilo, que Walter Benjamim qualificou como a fruição desatenta das artes, dentre as quais a arquitetura com sua potente presença do valor de uso ocupava o ápice dessa condição. Na minha imaginação, essa edificação emblemática reunia na textura mesmo de seu cotidiano, poetas da periferia, que aprofundavam suas pesquisas de palavras, verbos, interjeições, conjunções, etc... no museu. E, chegavam ávidos para essa vivência, subvertendo a lógica massificada e alienante da grande metrópole, e do uso mesmo mecânico da língua.

Na minha primeira visita a essa edificação, em 2006, devaneei na exposição então montada pela jovem instituição, que abordava a obra, tão instigante para a língua brasileira, de João Guimarães Rosa. Uma obra que muitos mineiros tendem a caracterizar como regional e vinculada ao canto doce dos povos das Geraes, mas que sempre foi encarada por mim como universal, e fruto de uma mentalidade cosmopolita e sintonizada com o mundo. Nesse momento de pesar e de luta pela reconstrução, transcrevo o trecho inicial de O burrinho Pedrês de Guimarães Rosa;

"Era um burrinho Pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete-de-Ouros, e já fora tão bom, como outro não existiu e nem pode haver igual.

Agora porém estava idoso, muito idoso. Tanto, que nem seria preciso abaixar-lhe a maxila teimosa, para espiar os cantos dos dentes. Era decrépito mesmo a distância: no algodão bruto do pêlo - sementinhas escuras em rama rala e encardida; nos olhos remelentos, cor de bismuto, com pálpebras rosadas, quase sempre oclusas, em constante semi-sono; e na linha, fatigada e respeitável - uma horizontal perfeita, do começo da testa à raiz da cauda, em pêndulo amplo, para cá , para lá, tangendo as moscas." ROSA 1984 pág.17

Inicio de composição magistral, que apenas anuncia a doce manipulação de um linguagem inusitada e jamais formulada e operada. A reabertura, e o mais rápido funcionamento da instituição é urgente, para possibilitar, que novas sínteses com esse mesmo teor sejam possíveis...

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Lançamento do Concurso da marca Rio 2020 UIA

Na foto, Jeronimo Moraes (pres. do CAU-RJ) Haroldo Pinheiro
(pres. Cau-BR) Jeferson Salazar (pres. da FNA) Pedro da Luz
(pres. IAB-RJ) e Fabiana Izaga (sec. geral IAB)
Na última quinta feira, dia 17 de dezembro de 2015 foi lançado na sede do IAB-RJ o concurso para a marca Rio 2020 Congresso Internacional de Arquitetos da UIA (União Internacional de Arquitetos). O evento pretende reunir de dez a quinze mil arquitetos na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 2020 debaixo do tema geral; Todos os Mundos. Um só Mundo. Arquitetura 21, debatendo de forma prioritária, as diversas formas de ocupação do território pelo homem.

Num momento, que a espécie humana toma consciência dos impactos de suas ações sobre o metabolismo do planeta Terra, um encontro dessa natureza é fundamental para a formulação de novas práticas, novas mudanças de comportamento, novas formas de construir o território humano. As cidades serão um tema chave do encontro, Os cinco eixos de debate sugeridos para o Congresso RIO 2020 UIA são:

Arquitetura e Cultura: que trata do reconhecimento do valor cultural da arquitetura e do espaço humano, e que envolve a questão da presença e da produção futura do patrimônio construído, como elemento singular e característico. A especificidade desse patrimônio construído e a construir envolve uma imensa diversidade de situações, que reproduzem a riqueza do país e a adequação dos espaços construído pelo homem nas várias regiões do país e do mundo.

Arquitetura Popular: que aborda a auto construção e a produção da habitação pelo próprio usuário, e que é uma realidade presente nas cidades brasileiras e de muitos outros países. O tema problematiza uma realidade existente e pretende reconhecer o valor dessas estruturas, qualificando essas áreas da cidade, implantando as infraestruturas urbanas que conformam a urbanidade.

Cidade, Paisagem e Ambiente: que abarca a questão do impacto ambiental das cidades, que já abrigam mais de 50% da população mundial, ocupando menos de 2% do território do planeta Terra, mas concentrando grande parte dos problemas nessa área, que provém principalmente da geração de esgotos e efluentes nos mananciais e da emissão de CO2 na atmosfera. Portanto, pensar e problematizar as várias formas de ocupar o território, sua arquitetura e urbanismo, sua resiliência com os fenômenos naturais é fundamental para mitigar esses efeitos.

Urbanismo e o Desenho da Cidade: que se reporta as características físicas e espaciais das cidades, bem como sua capacidade de sustentar economicamente sua população. A capacidade do espaço físico das cidades de potencializar, otimizar e incrementar as diversas atividades econômicas que garantem a sustentabilidade de sua população. Os impactos das ações de planejamento e projeto sobre o espaço físico concreto das cidades, a importância da configuração física das cidades na determinação do cotidiano de sua população.


Metrópoles e cidades médias: que pensa a coesão e governança das cidades metropolitanas, e a importância das cidades médias na estruturação do desenvolvimento dos países. As cidades passaram a ser pontos chaves para a promoção do desenvolvimento e atração de empreendimentos diversos e sustentação de modos diferenciados de vida.

Os cinco eixos temáticos precisam ainda ser debatidos e aprimorados. Já houve novas sugestões para inclusão de novos temas, como Arquitetura e o Mundo do Trabalho, ou Mudanças Climáticas e Resiliência de nossas cidades. Enfim a pretensão dos arquitetos brasileiros é se inserir no debate internacional, reconhecendo ao mesmo tempo, a diversidade de formas de ocupação e a preocupação comum e geral com nosso planeta.