sábado, 3 de outubro de 2015

Uma quadra habitacional para a cidade brasileira

A exposição Casa cidade mundo: a beleza possível no Centro Cultural Hélio Oiticica no Rio de Janeiro traz uma prancha com uma proposta minha, para uma quadra habitacional para a cidade brasileira. A ideia é enfatizar, que a casa não existe sem a cidade, assim como a cidade não existe sem a casa, uma relação dialética, que os dados quantitativos do déficit habitacional querem negar. O déficit habitacional brasileiro, que segundo dados da Fundação João Pinheiro em Minas Gerais está em 6 milhões de casas reduz o problema a uma mera questão quantitativa. Na verdade, a produção dessas 6 milhões de residências precisam estar inseridas num território urbano rico e pleno de diversidade, e a fixação desse dado não ajuda, mas confunde o real dimensionamento do desafio, que temos pela frente. A produção da cidade com qualidade, com uma ocupação do território que promova equidade e aproximação entre os diversos setores que compõem a sociedade brasileira é um imenso desafio.

A quadra proposta é apenas um ítem de uma política habitacional, que deveria ser mais ampla e articulada com as pré-existências como favelas, antigos contínuos implantados, áreas históricas, enfim com a cidade existente.Pesquisas recentes mostram que existem cerca de 30% de imóveis vazios em bairros consolidados como Copacabana no RJ ou Higienópolis em SP. Colocá-los no mercado faz parte da estratégia de tentar fazer frente aos 6 milhões de unidades do déficit.

A quadra proposta faz menção aos territórios onde será necessário construir o novo, mas ela se refere a elementos presentes em todas as cidades, portanto também ao existente; o lote, a quadra e a rua. Elementos da cidade, que estruturam nossa compreensão do privado e do público.

A abertura da exposição é nesse sábado dia 03 de outubro de 2015.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Visita a Arena do Morro dos arquitetos Herzog e De Meorun em Natal

O projeto completo dos arquitetos Herzog e De Meorun me Natal
A obra dos arquitetos Herzog e De Meorun em Natal, a Arena do Morro, na favela Mãe Luiza, que faz o papel de ginásio da Escola Estadual Dinarte Mariz é bastante provocadora e instigante, manipulando uma materialidade que capta a exuberante luz da capital potiguar de forma inusitada. A obra inaugurada em abril de 2014 é fruto de uma interessante reunião entre a Comunidade Mãe Luiza, o Centro Pastoral Nossa Senhora da Conceição, a Fundação Ameropa da Suíça, o escritório dos arquitetos suíços Herzog e De Meorun e a Escola Estadual. A intervenção faz parte de um conjunto de projetos desenvolvidos pelo escritório de arquitetura suíço para a favela, que certamente irá impulsionar a auto-estima dos seus moradores.

Os elementos; a quadra, a cobertura e os volumes curvos
A obra tem o mérito de investir numa simplificação compositiva de elementos sintéticos; a cobertura de dupla água, a quadra poliesportiva e polifuncional, e as formas curvas vedadas por elementos vazados, que tangenciam o uso principal. O caráter provocante e instigante é dado por uma imagem geral de grande permeabilidade e leveza dos elementos, que apenas pelas fotos transmite uma impressão de fragilidade construtiva e desabrigo geral. Na verdade, a obra comprova e reafirma que a arquitetura sempre demanda de nós a visitação presencial e a vivência da obra, pois só assim é possível formular o seu juízo. A minha atenção pela obra foi despertada pelos comentários dos colegas; Fabiana Izaga e Alder Catunda, que ao visitarem e comentarem o projeto expressaram um distanciamento de suas respectivas zonas de conforto. Já tinha observado fotos da Arena do Morro, e as imagens me transmitiam uma frágil sensação de ausência de abrigo, um limite extremamente frágil entre exterior e interior, se distanciando fortemente da produção corrente dos arquitetos suíços.

A incrivel captação da luz da capital potiguar na Arena do Morro
O terreno de esquina, o reaproveitamento de uma estrutura metálica pré-existente, que se acomoda a projeção construída de forma inteligente, marcam um forte ritmo e espaçamento das vigorosas tesouras de sustentação do telhado da Arena do Morro. Os elementos vazados de concreto, que conformam os volumes circulares limitadores verticais da quadra são magistralmente bem elaborados e acabados, conferindo a obra um caráter de uma beleza simples e despojada. Aliás, a obra comprova de maneira convincente, que a boa arquitetura não demanda uma materialidade sofisticada e cara, podendo atingir a boa qualidade com uma materialidade robusta e barata.

Detalhe do posicionamento dos panos de telhas na Arena do Morro
A vedação do telhado com telhas brancas posicionadas no sentido inverso de seu caimento demonstram também o apuro da obra, e sua sintonia com seu contexto, atitude distanciada da prática da maioria dos arquitetos do star-sistem, como Herzog e De Meorun, que invariavelmente reapresentam seus gestos de desenho requentados. A obra claramente se distancia da produção corrente da dupla de arquitetos, oferecendo uma solução carregada de novidades. A fresta alcançada entre panos de telhas contribui de maneira enfática tanto para a qualidade ambiental da obra, como também para a captação inusitada da luz natural da cidade de Natal. A dúvida, que me ficou com relação a essa solução é a sua capacidade de enfrentar de maneira apropriada os grandes e concentrados volumes pluviométricos dos trópicos, que segundo o vigia da escola não comprometiam seu uso.

A seguir apresento uma série de fotos que tirei no local... Além delas fui alertado por outro colega Luiz Fernando Freitas, que postou um comentário bastante elucidativo sobre a obra, relativo a autoria do projeto, e que aqui reproduzo; Projeto do escritório Herzog & de Meuron, com apoio e desenvolvimento da equipe local, composta pelos seguintes profissionais: Arquitetos - Lúcio Dantas (Coordenador), Verner Monteiro, José Carlos de Souza, Glênio Lima, André Alves, Lorraine Egito, Alice Ruck, Juliana Montenegro (Paisagismo) e Bernadete Lula (Ritur). Engenheiros - Márcio Medeiros (Cálculo Estrutural), Carlos Linhares e Raul Rebouças (Instalações prediais). Execução: AR Construções Ltda., através dos Engenheiros Edma Medeiros, Roberto Antunes e Antônio José de Oliveira. Mestre de Obras: Geraldo Dias. Serralheria: Aldomilson Pelé Soares. Formas de concreto: Imeco (Eng. Adília Aquino), Estrutura Metálica: Vulcano (Eng. Mec. Alexandre Câmara e Gustavo Costa), Pintura: Sherwin Williams. Blocos de concreto: PavBlocos (Eng. George Neves). Revestimento de Piso e paredes em granilite: Revindústria (Eng. Angelo Vilaça). Qualidade do Concreto: EEPC Engenharia (Eng. Martins Júnior). Iluminação: Lustres Projeto. Equipamentos esportivos: Pequita Sports. Esquadrias: Divmark (Sistema Neocom) e Pollyana Móveis (Ailton Azevedo). Obra de arte: Flávio Freitas. Cliente: Centro Sócio Pastoral N. Sra. da Conceição / Fundação Ameropa. 

Aspecto externo da Arena do Morro em Natal


A laje na extremidade da esquina na Arena do Morro em Natal


Detalhe do elemento vazado de concreto pré-moldado

Matéria no Jornal Nacional menciona escolas em Cuiabá com projeto feito no Rio Grande do Sul

Escola Polivalente em Uberlândia MG
Foi ao ar no dia 24 de setembro de 2015 matéria no Jornal Nacional da TV Globo, sobre o calor insuportável sentido pelos alunos numa escola na capital Cuiabá do estado de Mato Grosso, que tinha um projeto desenvolvido no Rio Grande do Sul. A escola apresentava uma série de sheads ou clarabóias, utilizados para captar a luz natural, que sofriam forte irradiação solar, conforme pode ser visto na íntegra da matéria, no link abaixo. As escolas na verdade são fruto de um acordo entre Brasil e EUA na década de setenta, portanto em plena ditadura militar, denominado MEC-USAID, que espalharam a mesma edificação por vários cantos do país.

A matéria é ligeira e não detalha essa origem despreocupada com o os diversos contextos onde elas foram realizadas, fazendo parte, na verdade da recorrente divulgação da agenda negativa, que perpassa o país contemporaneamente. Mas mesmo com esse projeto repetido e carimbado, me parece que a solução do problema é bastante simples, merecendo a contratação de um arquiteto com experiência na adequada produção de conforto térmico nas construções. Me parece, que bastaria a aplicação nos planos verticais dos sheads de venezianas de vidro, que permitissem a saída do ar quente, gerando uma circulação de ar constante, melhorando sensivelmente o conforto térmico na edificação.

Abaixo o link com a matéria, vale a pena checar...

 http://g1.globo.com/jornal-nacional/edicoes/2015/09/24.html#!v/4492388

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Debate no IAB-RJ sobre a demolição do viaduto da Perimetral no Rio de Janeiro

Janot, eu e Geronimo Leitão
No último dia 28 de setembro de 2015 no auditório do IAB-RJ foi mostrado o filme "Perimetral: memória e reflexão" do Laboratório de Mídias Urbanas (LAMUR) da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF), seguido de um debate com os professores Luiz Fernando Janot e Geronimo Leitão. O LAMUR é composto pelos jovens arquitetos; Christian Guitton, Diogo Braga, Isabella Rocha e Juliana Pajek, que demonstraram grande capacidade de manipulação da linguagem dos documentários e do cinema. O grupo faz parte de um núcleo do IAB-RJ, que promove uma série de sessões de cinema na instituição, que tem como tema a ocupação humana do território. Durante o debate também se registrou a ausência do professor Alfredo Britto, que também fez depoimento no filme, e que foi convidado para participar dos debates, mas em função de problemas de saúde não pode participar.

O grupo do LAMUR antes da projeção
Os debates rondaram em torno dos benefícios e custos envolvidos, com a demolição do viaduto da Perimetral na cidade do Rio de Janeiro, e também sobre a necessidade de se atingir uma maior participação nos projetos urbanos. A demanda contemporânea para ampliação da transparência dos debates em torno da cidade que estamos produzindo é uma premência, não só no Brasil, mas no mundo todo. O filme do LAMUR, longe de se alinhar de forma automática de um lado ou de outro traz uma reflexão madura de como a cidade contemporânea vem sendo produzida. Há um espaço promissor para o debate e para a objetivação de transformações variadas no mundo contemporãneo. A participação não pode mais ser fator de imobilismo e de manutenção da cidade tal como está.

Enfim, foi uma tarde noite proveitosa...

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Exposição casa, cidade, mundo dia 03 de outubro no Hélio Oiticica

A exposição Casa Cidade Mundo, a beleza possível será inaugurada nesse sábado dia 03 de outubro de 2015 no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, perto da Praça Tiradentes no Rio de Janeiro. Na mostra estou apresentando um trabalho, que envolve uma proposta para uma quadra habitacional para as cidades brasileiras. Nessa quadra de 100 por 100 metros procurei implantar habitações diferenciadas de diferentes tipologias, agregando também usos comerciais. A proposta pretende debater uma configuração de uma quadra habitacional com pluralidade de usos (comércio e habitação), diversidade de tipologias e variedade de extratos sociais para o problema habitacional brasileiro.

Enfim é uma excelente oportunidade para debater  e pensar sobre as formas e forças que vem construindo a cidade brasileira...

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O arquiteto português Nuno Martins esteve no auditório do Instituto de Arquitetos do Brasil departamento do Rio de Janeiro (IAB-RJ) nessa quinta feira dia 17 de setembro de 2015, discutindo as ações de sua ONG Building 4 Humanity, na sigla em inglês. A palestra recebeu o título de “Arquitetura humanitária: desenhando para o risco, construindo resiliência. 

O termo resiliência, no campo da arquitetura e do urbanismo nos últimos tempos, vem sendo recorrentemente utilizado, assim como sustentabilidade, chegando mesmo perto da exaustão. As palavras quando utilizadas nessa intensidade tendem a não significar mais nada, pois denominam tudo. Diferentes conceitos, atitutes e posicionamentos estão abrigados numa palavra tão usada, fazendo de sua própria definição algo fluido, capaz de se moldar em diferentes formatos.

Apesar disso, percebe-se na atitude do arquiteto a emergência de um novo tipo de profissional, que tende a valorizar o processo de construção da benfeitoria, que toda arquitetura envolve, mais que o próprio produto final que essa constrói. De uma maneira geral, tendo a achar essa atitude preconceituosa, apontando uma atitude do arquiteto diferente quando se defronta com a precariedade, e outra quando está diante da plenitude de recursos. Mas quando se verifica a obra apresentada de Nuno Martins, nas difíceis condições da África em Guiné Bissau, percebe-se também um compromisso com o resultado final, que denota uma atitude ética e moral, que muito observa as características culturais, sociais, psicológicos, espirituais e econômicos.

Vale a pena visitar o site da ONG no link abaixo;

https://buildinghumanity.wordpress.com/about/declaracao-de-principios/

Mais uma indicação de como o projeto é desarticulado na cidade brasileira


Cadeirante sofre humilhação para acessar bondes
Já escrevi aqui sobre os problemas da obra do bonde de Santa Teresa na cidade do Rio de Janeiro, de como existe por parte dos governos, nas três esferas - federal, estadual e municipal - uma segmentação de ações, ao invés da coordenação e articulação inerentes ao projeto. Mais um exemplo desse tipo de prática vem a tona com a matéria publicada no jornal O Globo do dia 18 de setembro de 2015, que mostrou a ausência de qualquer previsão para garantir o acesso de cadeirantes no sistema de bondes, que ainda está funcionando em teste, da Estação Carioca até a Curvelo.

As obras do bondinho de Santa Teresa estão mais uma vez paradas, sem qualquer previsão de retomada dos serviços, e ainda mostra essa clara manifestação de desarticulação das suas ações, típica de quem não investe em projeto e planejamento.

Abaixo link da matéria no jornal O Globo...


http://oglobo.globo.com/rio/atleta-cadeirante-enfrenta-dificuldade-de-acesso-em-cartoes-postais-da-cidade-do-rio-17527787