A situação da divisão de renda do mundo contemporâneo é o principal assunto do livro O Capital no século XXI do economista francês Thomas Piketty. Além da questão de uma falsa meritocracia do sistema neo-liberal capitalista, onde quem nasce pobre permanece pobre, e quem nasce rico, torna-se mais rico. A pobreza é corretamente classificada como a falta de liberdade de escolha.
Segundo dados do livro, coletados junto ao Banco Crédit Suisse, 0,7% da população mundial se apropriam de 41% da riqueza do planeta (patrimônio acumulado). Enquanto, do outro lado 68,7% da população se apropria de apenas 3% da riqueza. Segundo Piketty a riqueza vem se concentrando desde o final da década de 1970, quando com as eleições de Margareth Thatcher e Ronald Reagan, no mundo anglo-saxão primeiro, e logo depois no restante dos países começam a desonerar de impostos as grandes riquezas, e a desregulamentar o sistema financeiro internacional.
Há uma clara emergência da hegemoinia do capital financeiro no mundo, que possibilita o cada vez maior enrriquecimento improdutivo dos milionários. Segundo o livro, os ricos mantém em paraísos fiscais de US$21 a US$32 trilhões, sem pagar qualquer imposto. Para Piketty apenas de 1945 a 1975, os anos clássicos da social democracia, o mundo capitalista teve uma ampliação distributiva importante, impulsionada pelas duas guerras mundiais, pelo crack da bolsa de Nova York, e pela presença do socialismo real. Entre 1973 e 2007, os salários reais por hora de trabalho caíram de valor em 4,4%, enquanto no periodo de 1947 a 1973 o salário horário havia crescido 75%.
A partir da década de oitenta e noventa com o declínio dos setores industriais tradicicionais, a regressão da interlocução com os sindicatos, o desenvolvimento da sociedade de serviços e das tecnologias de informação instala-se a hegemonia de grandes grupos financeiros e rentistas. Dos 147 grupos corporativos mais poderosos do mundo, que controlam 40% do capital corporativo do mundo, simplesmente 3/4 deles são bancos, capital improdutivo. Dos anos de 2005 a 2010 os depósitos dos cinquenta maiores bancos do mundo elevaram-se de US$5,4 para US$12 trilhões.
A preferência das democracias nos investimentos no mundo contemporâneo tende claramente para as atividades rentistas e financeiras, em detrimento de atividades impulsionadoras de uma maior equidade, como a educação. Os 25 gestores de fundos de investimentos mais bem pagos ganharam em 2013 US$21 bilhões, mais que o dobro da soma dos rendimentos de cerca de 150 mil professores primários norte americanos.
Tudo isso indica de forma clara e inequívoca, qual é a inércia do mundo contemporâneo e para onde ela nos leva...
Diário de Pedro da Luz Moreira, interessado em discutir a arquitetura, a cidade e o projeto
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
sábado, 5 de setembro de 2015
Matéria de hoje no O Globo traz o problema do tipo da cidade e a violência
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| Foto da matéria do jornal O Globo de 05-09-2015 |
A questão que procurei colocar é que a violência urbana também precisa ser espacializada, e pensada sob a ótica do tipo de cidade que no Rio de Janeiro e no Brasil tornou-se a forma hegemônica de sua reprodução. A dispersão desproporcional, a baixa densidade, a total dependência dos deslocamentos feitos por automóvel individual, os condomínios clubes com pretensão a auto-suficiência, e a estruturação de centros comerciais análogos aos shopping centers acabam determinando um espaço público com ausência de pessoas e transeuntes, que potencializa a insegurança e a realização de crimes.
A Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes na cidade do Rio de Janeiro concentram essas características, mas ela também é reproduzida pelo mercado imobiliário e por consumidores que buscam novas unidades em várias partes da cidade. O tipo portanto encontra grande acolhimento no conjunto da sociedade, envolvendo uma cultura arraigada na sociedade brasileira. A íntegra da minha fala está reproduzida abaixo:
"Para urbanistas ouvidos pelo GLOBO, o modelo de crescimento da região potencializou a violência. Segundo o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Pedro da Luz Moreira, Barra e Recreio têm um modelo que ele classifica como “rodoviarista”, que isola moradores e os divide em estratos sociais:— O modelo seguro é aquele em que você tem várias camadas sociais diversificadas, como é o caso de Copacabana, que também tem o comércio voltado para a rua. Isto aumenta a circulação de pessoas, cria autossegurança. No modelo rodoviarista, você tem o seu carro, mas quando para no sinal, ou vai estacionar, há espaços, mas não há calçadas nem pessoas. O comércio funciona em shoppings onde você não vê a calçada, mas apenas uma massa de veículos. O risco é potencializado — explicou Pedro da Luz."O link abaixo traz a íntegra da matéria;
http://oglobo.globo.com/rio/com-menos-moradores-que-barra-da-tijuca-recreio-registra-mais-roubos-de-veiculos-17412388
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Debate "Políticas Habitacionais nas Regiões Metropolitanas do Rio de Janeiro e Buenos Aires" no IAB-RJ
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| O deputado Javier Gentilli falando sobre a experiência em BAs |
O debate foi extremamente rico e revelou a expressiva presença da informalidade na cidade de Buenos Aires, que segundo os argentinos atinge 10% da população da cidade metropolitana portenha, o que significa um contingente de 1,6 milhão de pessoas. Nos últimos anos as cidades no mundo vem sofrendo com as políticas neo-liberais, que determinarm o declínio do papel dos governos na gestão e modelagem da cidade que queremos produzir. Tal prática determinou a ampliação expressiva da auto-construção e dos territórios informais nas cidades, gerando uma cidade estratificada e segmentada entre ricos e pobres.
O IAB desde o ano de 1963 durante o governo do presidente João Goulart, no Encontro sobre Reforma Urbana realizado no Hotel Quitandinha em Petrópolis, já defendia a ideia de que a urbanização de favelas, devereia ser um dos ítens da política habitacional do país. Na verdade, percebe-se no país um estágio muito atrasado na produção da habitação social. O programa Minha Casa, Minha Vida repete erros históricos do antigo BNH.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Reunião no IAB-RJ debate ação de ONGs em favelas
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| Na mesa do IAB-RJ, Mariana Estevão, eu, Caroline Mignot e Javier Abi-Saab |
O debate gerou em torno do termo resiliência, e da questão da articulação estrutural ou pontual de soluções, que hoje domina alguns fóruns, que vem demonstrando um certo cansaço com relação ao aparelhamento das discussões desses temas. Uma certa supremacia ou emergência da atuação imediata.
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| Caroline Mignot da ONG Litro de Luz |
A ONG Litro de Luz nasce de uma tecnologia bastante simples desenvolvida no Brasil, que se utiliza de garrafas PET enchidas com alvejante para iluminar ambientes. Na experiência apresentada no auditório do IAB-RJ, na mesma comunidade de Vila Beira Mar em Gramacho foram instalados postes de iluminação, usando garrafas PET e células foto votaicas para as ruas da comunidade.
Por último, a ONG Soluções Urbanas milita em comunidades faveladas de Niterói e presta serviço assessorando moradores, que pretendem reformar suas casas, dentro dos princípios da lei de Assistência Técnica aprovada no Congresso Nacional em 2008, que garante o direito à populações carentes dos serviços de arquitetura.
Todas as ONGs militam no campo da produção de uma cidade com maior equidade, o problema que coloquei para todas elas é a excessiva pontualidade das atuações, que se limitam a resolver problemas localizados e imediatos dessas comunidades, não se envolvendo com uma maior estruturação das origens. Todas deram uma resposta convincente de que os probllemas do cotidiano imediato no qual elas se engajam podem iniciar um processo de construção de uma cidadania mais efetiva e duradoura, celebrando o processo, mais que os resultados.
Abaixo o link das tres ONGs, que devem ser conhecidos:
https://www.techo.org/paises/brasil/amigos-do-teto/
http://www.litrodeluz.com/
http://solucoesurbanas.org.br/
Mais um texto sobre A ética protestante e o 'espírito' do capitalismo
Como já assinalado, num texto anterior aqui no blog Arquitetura, cidade e projeto o livro de Max Weber, com o título A ética protestante e o 'espírito' do capitalismo é uma incrível oportunidade para refletir sobre o processo histórico de longa duração, que acabou consolidando o sistema capitalista como forma hegemônica de operar. No outro texto assinalei uma certa tendência do sistema a anular a concorrência, em nome da construção de monopólios, em função da polêmica do UBER e dos táxis, que dominou a agenda há alguns dias atrás.
A longa transição entre o feudalismo e o capitalismo, que criou nuances históricas entre estados nacionais, como o capitalismo mercantilista, uma certa manutenção de princípios feudalistas, ou ainda um capitalismo financeiro, desembocaram em nossa contemporaneidade, onde o sistema parece ter dominado toda a face do planeta Terra, e quando, se percebe uma clara hegemonia do sistema financeiro. Weber coloca de forma apropriada a lenta conquista dos corações e mentes pelo sistema capitalista, na qual as mentalidades e as práticas cotidianas geradas pela reforma desempenharam importante papel;
A construção da hegemonia de determinadas ideias é sem dúvida um processo de longa duração, mas volta e meia é importante perguntar. Como suportar o cotidiano, nessas condições?
A longa transição entre o feudalismo e o capitalismo, que criou nuances históricas entre estados nacionais, como o capitalismo mercantilista, uma certa manutenção de princípios feudalistas, ou ainda um capitalismo financeiro, desembocaram em nossa contemporaneidade, onde o sistema parece ter dominado toda a face do planeta Terra, e quando, se percebe uma clara hegemonia do sistema financeiro. Weber coloca de forma apropriada a lenta conquista dos corações e mentes pelo sistema capitalista, na qual as mentalidades e as práticas cotidianas geradas pela reforma desempenharam importante papel;
"Para que essas modalidades de conduta de vida e concepção de profissão adaptadas as peculiaridades do capitalismo pudessem ter sido 'selecionadas', isto é, tenham podido sobrepujar outras modalidades, primeiro elas tiveram que emergir, evidentemente, e não apenas em indivíduos singulares isolados, mas sim como um modo de ver portado por grupos de pessoas...Por ora, é suficiente para nosso propósito indicar: que na terra de Benjamim Franklin (o Massachusetts) o 'espírito do capitalismo' no sentido por nós adotado existiu incontestavelmente antes do 'desenvolvimento do capitalismo'." Página 48 WEBER, 2004Weber aponta o abandono da condenação da prática da usura, a concepção do esforço profissional de cada um como uma forma de louvação a Deus, e a idéia de pré-destinação como fundadores de práticas, que impulsionaram a forma de operar do capital, todas presentes no protestantismo. Interessante também os dados apresentados mostrando a maior aproximação dos protestantes com as carreiras técnicas, enquanto os católicos permaneciam nas áreas humanas, apesar da clara tendência de um maior investimento na formação profissional por parte da reforma. A palavra alemã Beruf, que pode ser traduzida por vocação ou profissão, e que muitas vezes envolve o imbricamento dos dois registros, podendo ser; vocação profissional ou profissão como vocação, esclarece muito das concepções divergentes entre católicos e protestantes. Weber irá contrapor a forma de encarar a vida monástica pelos católicos, à maneira de entender as profissões intra mundanas pelos protestantes, esmiuçando a visão desses últimos;
"Ora, a conduta de vida monástica é encarada não só como evidentemente sem valor para a justificação perante Deus, mas também como produto de uma egoística falta de amor que se esquiva aos deveres do mundo. Em contraste com isso, o trabalho profissional mundano aparece como expressão exterior do amor ao próximo.." Página 73 WEBER, 2004Weber também aponta nuances na visão de mundo dos protestantes, apontando que o luteranismo permaneceu condenando a usura e celebrando esse afastamento do mundo dado pela vida monástica. Aponta também uma maior generosidade com o mundo por parte dos jesuítas, católicos da contra-reforma, que promoveram maior adaptação ao cotidiano, pelo probabilismo e uma clara vertente de inclusão de uma diversidade de visões.
A construção da hegemonia de determinadas ideias é sem dúvida um processo de longa duração, mas volta e meia é importante perguntar. Como suportar o cotidiano, nessas condições?
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Livro sobre Mobilidade Urbana traz um artigo meu
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| Capa do livro da FGV |
A mobilidade urbana, não só nos deslocamentos impositivos do dia a dia, como casa-trabalho e casa-escola assumem uma dimensão central na sociedade contemporânea, pois garantem ao conjunto da população acesso a oportunidades diversas e a interação social mais intensa, que também é geradora de novas oportunidades. Muitos dos textos defendem a idéia de se construir uma maior proximidade entre casa-trabalho de forma a demandar menos dos sistemas de mobilidade das cidades. Não concordo com essa visão, pois os vínculos entre trabalho e indivíduo nas sociedades contemporâneas tendem a ser menos estáveis. Além disso, o comportamento atual de intensificação das interações sociais demandam cada vez mais dos sitemas de transportes deslocamentos complexos, muito além dos pendulares. O monitoramento da eficiência do serviço de transportes deve ser constante indicando sempre melhorias para o conjunto da população, que tende a abraçar os projetos como importantes para melhoria de seu cotidiano.
No meu artigo abordo de forma mais aprofundada a questão da cidade metropolitana do Rio de Janeiro, que apesar de uma malha de trens urbanos de dimensões grandiosas vem apresentando uma performance muito fraca, servindo sua população de forma muito precária. Tal situação decorre de uma baixa importância dada as ações de planejamento e projeto, que são instrumentos fundamentais para a democratização das transformações propostas. A leitura vale a pena...
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Encontro com AIA dos EUA e IAB-RJ debate a participação dos usuários nos projetos
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| Wayne Feiden, Pedro da Luz Moreira, Erin Simmons e Joel Mills no auditório do IAB-RJ |
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| O arquiteto Luiz Carlos Toledo apresenta sua experiência na favela da Rocinha no Rio de Janeiro |
Outro aspecto prioritário destacado pelos americanos é a sustentabilidade das comunidades, que muitas vezes a partir de uma reordenação de seu espaço físico conseguem atingir um outro patamar de desenvolvimento econômico, garantindo para seus membros a prosperidade. As equipes da AIA são compostas de forma multidisciplinar, sendo coordenadas por arquitetos e possuem desenvolvedores econômicos, assistentes sociais, engenheiros de infraestrutura, etc... Os trabalhos apresentados tiveram naturezas diversificadas envolvendo cidades como Birminghan no Alabama, que foi assolada por um tornado, ou Sacramento na Califórnia, ou ainda Hampton na Virginia e recebem muitas vezes como demanda das diversas comunidades o combate a sua própria pobreza ou o declínio de alguns de seus bairros.
Abaixo o link da AIA.
http://www.aia.org/aiaucmp/groups/aia/documents/pdf/aiab099668.pdf
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