sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O artigo do Veríssimo no jornal O Globo de 29/01/2015

Imagem do artigo do Veríssimo
O colunista do jornal O Globo Luiz Fernando Veríssimo nos brinda hoje com um excelente artigo sobre as cidades no mundo em nossa contemporaneidade, merecendo um destaque e uma reflexão. O artigo com o título de "Banlieues" se refere as favelas do Rio de Janeiro e as periferias intermináveis e genéricas de Paris, descrevendo os desequilíbrios de urbanidade presentes tanto numa como na outra. Em determinado trecho nosso irônico articulista nos brinda com uma precisa descrição da alienação das nossas elites - dentre as quais o próprio se inclui - que celebram a parte que conhecem, e se recusam a identificar as mazelas do desenvolvimento da nossa contemporaneidade em todo o mundo.

"A Paris que a gente conhece é apenas o centro de uma cidade que, assim como preservou sua arquitetura e seus monumentos, conserva sua solene indiferença ao cinturão de pobreza e ressentimento que a cerca."

A urbanidade que é um conceito que se refere a presença de uma certa civilidade, que envolve a presença de uma série de serviços de infra-estrutura urbana, tais como; segurança, calçadas, iluminação, arborização, presença de parques, transporte público, mobilidade, coleta de esgoto, lixo e outros foi comprada e privatizada. Na cidade capitalista o acesso a esses confortos custa caro, e invariavelmente, pelo preço da terra urbana, mantém longe de si a presença da pobreza. Nesse sentido, o velho cronista acaba nas entrelinhas por apontar uma vantagem dessa cidade do sul, de tantas balas perdidas, onde o "inevitável, como se lê no noticiário do Rio de todos os dias, já aconteceu." Afinal, aqui no Rio de Janeiro estamos entremeados pela pobreza...

A íntegra do artigo pode ser lida abaixo.

http://oglobodigital.oglobo.globo.com/epaper/viewer.aspx?noredirect=true

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Matéria no jornal O Globo sobre o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) que será implantado no centro do Rio de Janeiro

Comparação entre os antigos bondes e o novo VLT
No último domingo dia 25 de janeiro de 2015, o jornal O Globo publicou matéria sobre a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na Zona Portuária e no Centro do Rio de Janeiro, obra que se insere na ampliação da mobilidade na cidade. As linhas dos VLTs serão mais um modal de transporte que auxiliarão a população nos seus deslocamentos diários, para tal é importante que o seu bilhete esteja dentro do sistema geral de bilhete único, que o Governo do Estado do RJ implantou, permitindo a baldeação entre trens, metrô, barcas e ônibus.

A tarifa desses modais, quando utilizado o bilhete único, deveria ser reduzida, uma vez que o usuário antecipa o pagamento às concessionárias, uma vez que é preenchido de forma prévia com crédito nesse cartão. Interessante notar, que ao compararmos o sistema de transportes públicos de Nova York com o da cidade do Rio de Janeiro percebe-se na cidade americana uma tarifa muito mais favorável ao usuário, do que a praticada na cidade brasileira. O preço unitário do bilhete na cidade de Nova York é de US$2,10, mas o preço do bilhete semanal, válido por sete dias, custa US$21,00, o que mostra o desconto dado a quem antecipa o dinheiro para o sistema de transportes. No Rio de Janeiro, o cartão não recebe qualquer abatimento pela antecipação do crédito ao sistema de transportes, porque?

A matéria pode ser vista abaixo...


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Matéria na Revista do Secovi sobre os 450 anos do Rio de Janeiro

Uma parte da matéria da Revista do SECOVI-RIO
O SECOVIRIO é um sindicato ligado as administradoras de imóveis da cidade do Rio de Janeiro, que publicou uma interessante reportagem sobre os 450 anos da cidade, na qual há uma pequena fala minha, abordando a mudança de mentalidade das famílias cariocas, que abandonam a casa unifamiliar para viver nos edifícios multifamiliares. Essa me parece uma transformação que foi naturalizada em nossa sociedade, mas que envolveu uma importante mudança de mentalidade, permitindo a densificação da cidade, com a exploração mais intensa de seus terrenos, que passaram a sofrer maior valorização.

A apropriação da renda urbana, a partir dessa mudança nos hábitos da nossa população determinou a valorização fundiária dos terrenos na cidade de maneira inusitada. A densidade na cidade (habitantes/hectare) teve um crescimento contínuo até o inicio da era do automóvel e do pneu na cidade.

O desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro até o começo da década de sessenta do século XX foi extremamente dependente dos ramais de trilhos, seja dos trens, seja dos bondes. Essas linhas e suas paradas acabaram configurando uma rede de centralidades e sub-centralidades, que possuiam um claro e legível gradiente de densidades a partir da proximidade ou do afastamento das paradas e ou estações. De uma maneira geral a densidade era maior, assim como a presença do comércio no entorno das paradas e estações. A cidade dos trilhos é uma cidade mais coesa e densa do que a que emerge a partir da hegemonia do automóvel e do pneu.

Para exemplificar tal situação, basta mencionar o bairro da Barra da Tijuca, que é o primeiro bairro da cidade a ter seu desenvolvimento determinado pelo automóvel e pelo ônibus, independente dos trilhos. Percebe-se claramente nessa distinção de espacialidades, a diferenciação na gênese dos bairros cariocas.

O link da revista está mostrado abaixo:

http://secovi-rj.cviewer.com.br/srj/cviewer/edicao.asp?ed=92


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A onipresença do individualismo no mundo contemporâneo, ou como ser feliz sózinho

Os anos Thatcher e Reagan, no começo dos anos oitenta, determinaram uma predominância do livre mercado em nosso cotidiano contemporâneo, uma compreensão compartilhada pelo senso comum, de que a economia precisa ser desregulada do controle público (governamental). A desregulamentação da atividade econômica acabou levando a crise de liquidez de 2008 dos bancos americanos, devido a enorme especulação que se descolou da prática efetiva das empresas e atividades. A doutrinação repetia, e ainda repete de forma incessante, que a iniciativa dos indivíduos atuando de forma isolada deve ser festejada, frente as ações coletivas e públicas que sempre seriam ineficientes e demoradas.

No âmbito da atuação privada essa atitude acabou determinando uma supremacia da alteridade, uma afirmação repetida e contínua da diferença absoluta entre os seres humanos, que deixam de compartilhar objetivos comuns. Os interesses e objetivos passam a ter uma origem variada compartilhada por identidades que são cada vez menores e mais pulverizadas. Há uma constante reafirmação da diferença entre nós, que pode variar pela nossa origem; mineiros, paulistas, cariocas... ou pela nossa existência; empresários, trabalhadores, ricos, pobres..., ou pelas crenças; cristãos, muçulmanos, judeus..., ou ainda por todas essas e outras. Longe de querer negar essa diferenciação, o que aqui se questiona é a paralisação do diálogo, que parece não ser mais possível. O discurso da racionalidade universal compartilhada por diferentes atores e agentes - um certo universalismo humanista - tornou-se uma vertente do colonialismo ocidental redutor e homogeneizador.

No âmbito da vida privada passamos a uma hierarquização emburrecedora e simplista, que afirma de forma repetida, que para amarmos o outro é preciso que primeiro nos amemos a nós próprios, tenhamos uma auto-estima elevada. Antes de tudo é preciso amar-se a si próprio, para depois amar ao outro. Esse psicologismo barato de botequim permeia quase toda nossa sociedade contemporânea, que parece se esqueceu de forma definitiva da dialética entre o particular e o universal, entre o individual e o outro, que na verdade continuam se construindo mutuamente...

sábado, 24 de janeiro de 2015

O aquário do arquiteto Rui Ohtacke na cidade de Campo Grande

A vista do Aquário do arquiteto Rui Ohtacke
Durante a 147a Reunião do Conselho Superior do IAB foi programada uma visita ao Aquário do Pantanal, do arquiteto Rui Ohtacke, uma imensa estrutura que trará informação sobre a fauna que habita nessa região do Brasil, e que está em obras. O nome oficial da edificação é Centro de Pesquisa e Divulgação Científica da Biodiversidade de Mato Grosso do Sul e terá 27mil metros quadrados, que denota para todos nós a enorme relevância desse programa no Brasil. Em 2004 visitei o Aquário de Chicago nos EUA, na qual percebi que há um setor inteiro dessa edificação dedicado as espécies amazônicas, o que aponta a importância desse tipo de programa no nosso país.

Vista interna do Aquário de Campo Grande do MTS
Muito além das questões arquitetônicas da edificação do arquiteto Rui Ohtacke, que ao meu ver se envolve numa excessiva espetacularização, acho importante a iniciativa do governo do Estado do Mato Grosso do Sul de realizar um espaço dessa natureza. Um centro de pesquisa sobre nossa biodiversidade pode ser um instrumento poderoso para disseminar em nossa sociedade o hábito do estudo sobre a natureza. Esse tipo de espaço pode ser um importante mecanismo para pulverizar no seio da sociedade o interesse pela pesquisa num campo que passará a ser central no nosso futuro.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

147a Reunião do Conselho Superior do IAB em Campo Grande, Mato Grosso do Sul

Ontem dia 21 de janeiro de 2015 começou a 147a Reunião do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) na cidade de Campo Grande em Mato Grosso do Sul, que homenageia o arquiteto Miguel Pereira. Os debates giram em torno da montagem do Congresso Mundial de Arquitetura da União Internacional de Arquitetos (UIA) do Rio de Janeiro em 2020, certamente uma oportunidade para repensar a maneira de como as cidades brasileiras vem sendo construídas. Há uma premissa que a rede do IAB, pretende atingir em 2020 com o Congresso Mundial de Arquitetura, que é uma maior inserção das ações de planejamento e de projeto na sociedade brasileira.

A situação brasileira, no que se refere a produção das nossas cidades é bastante dramática, de uma maneira geral não há sequer uma explicitação clara daquilo que elas querem ser daqui a dez anos, como estão definidos nos Planos Diretores, que são obrigatórios segundo definido no Estatuto da Cidade. Essa ausência determina um vagar aleatório das nossas cidades, que facilmente é capturado por interesses particulares que são pouco republicanos, e que acaba fazendo com que elas tenham um desenvolvimento pouco estruturado.

A questão da torre, reflexões a partir de uma visita a Nova York

A fachada típica do boulevard de Paris
Há muito que os carros são considerados como verdadeiros vilões para a vida das ruas, mas há também outra invenção moderna, que impactou fortemente a espacialidade das vias urbanas, o elevador, abrindo a possibilidade de desenvolvimento de edificações em grande altura. Antes do advento do elevador as unidades habitacionais, se restringiam a quatro ou no máximo seis andares, e as mais valorizadas eram as mais próximas do burburinho da rua nos primeiros andares. A cidade de Paris é um exemplo dessa tipologia edilícia, o corte típico num boulevard hausmaniano indica as unidades mais nobres e mais valorizadas próximas ao solo da cidade. Enquanto, os últimos pavimentos eram ocupados por pequenas unidades mais simples, definidas pelo desenvolvimento do telhado e com janelas nas mansardas.

A cidade de Nova York, na ilha de Manhattan apresenta ainda em alguns trechos a antiga tipologia arquitetônica de antes do advento do elevador, são os apartamentos chamados de brownstone. Uma tipologia recorrente de intensificação do uso do solo urbano, que se generalizou na cidade a partir de meados do século XIX. O advento do desenvolvimento em altura das edificações
As brownstones de Nova York
em torre, seja de escritórios ou habitacional, é um fenômeno típico da cidade americana, que a partir da Escola de Chicago de arquitetura conquistam o resto do mundo. O tema da torre como objeto icônico, dominando o skyline da cidade, trazendo personalidade a seu território foi bastante celebrado pela cultura arquitetônica do século XX.

Interessante observar que houve a pretensão de alguns arquitetos norte americanos, tais como Sullivan, Saarinem e mesmo Wright, que apostaram na tipologia da torre corporativa, como um reestruturador da coesão comunitária da cidade, como um símbolo da sua estruturação no território geral. Os discursos chegaram a imaginar que a torre do centro de negócios poderia simbolizar a ressignificação do território da cidade, como uma estrutura que lhe conferisse coesão. Há um texto de TAFURI, Manfredo a Montanha Desencantada no livro a Cidade Americana da Guerra Civil ao New Deal, que descreve essas pretensões, e que aponta seu fracasso pela diversidade de interesses e pela volatilização dos negócios imobiliários em torno da torre.

Amsterdã Avenue na parte de cima no lado oeste de Manhattan
A questão que Nova York suscita é qual a melhor tipologia para a saúde e vitalidade da rua? A torre representa para a cidade capitalista uma sedução intensa, pois concentra no território um investimento que possui ampla recepção na sociedade. Há fatores que alimentam mutuamente a escolha pela torre e sua celebração; a segurança, a vista, o afastamento do barulho da rua. No entanto, não há como negar que ela reforça alguns aspectos que determinam a deterioração ou a subutilização da rua e do espaço público. Há torres emblemáticas em Nova York, com uma qualidade acima da média, em todas as épocas, a Flatiron, o Woldworth, a recente do New York Times e outras, tendo elas inclusive tratado bem sua inserção na cidade, revelando sempre uma generosidade com a vida da rua. A mais recente do jornal New York Times do arquiteto Renzo Piano resolve muito bem sua relação com a rua, revelando uma certa generosidade que beneficia o comércio aí instalado.

Qual a escala da cidade?
Apesar disso tudo, a torre representa uma quebra de escala com a vitalidade da rua. Lucio Costa na definição do gabarito das superquadras em Brasília usou um critério interessante, tanto a copa das mangueiras que ele pretendia que circundassem as edificações, quanto o grito da mãe que chamaria seus filhos na área dos jardins. Uma certa definição humana da escala, sem heroismos e grandiosidades. Nessa última visita a Nova York acabei andando muito pela Broadway e pela Avenida Amsterdã no Upper West Side. Perto da Columbia University e do Cloister. Uma região com uma certa continuidade expressiva dessa antiga tipologia. Essa cidade onde o módulo da verticalização, ou do incremento do solo urbano com uma continuidade de quatro ou seis andares é uma cidade melhor do que a pontuada com a solidão expressiva da torre.