segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Entrevista minha para a BBC de Londres sobre o Porto do Rio de Janeiro

A BBC de Londres publicou uma entrevista comigo sobre a região portuária do Rio de Janeiro, o que procurei destacar foi que a área tende a seguir a inércia instalada no centro da cidade, onde existe a absoluta predominância do uso corporativo de escritórios. Esse tipo de edificação determina na cidade uma sazonalidade no seu uso muito específica que corresponde aos momentos de pico de chegada para o trabalho, horário de almoço e volta para a casa. Tirando esses horários a infraestrutura aí instalada é subutilizada, pois há pouco movimento, gerando-se uma cidade insegura. Daí a importância de se fomentar a habitação nessas áreas pois ele é o único que determina a intensificação do uso da cidade fora desses horários, pois os cidadãos possuem cotidianos variados, e acabam se reportando a cidade em horários variados.

Os links da entrevista estão listados abaixo.

http://www.bbc.com/news/world-latin-america-30707802

http://www.bbc.com/news/world-latin-america-30766026

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A cidade de New Haven nos EUA e os suburbios americanos de casas

A cidade de New Haven ao norte de Nova York é a sede da famosa universidade de Yale, fundada em 1701 como uma dissidência de Harvard, e, é onde meu irmão Paulo mora. Numa bucólica casa de três pavimentos, no bairro de Beaver Hills. A casa é datada de 1928, e, é toda construída em madeira, no sistema construtivo tipo balloon framing que gerou uma infinidade de casas nos EUA. O sistema inventado em meados do século XIX transformou a casa unifamiliar acessível à classe média americana, generalizando uma forma de morar que irá conquistar o mundo todo, o subúrbio americano monofuncional. Apesar dessa pré moldagem o sistema permite uma infinidade de composições e expressões estilísticas, não havendo qualquer homogeneização e impressão de repetição entre as casas.

A implantação das casas em Beaver Hill, sem definição do lote
Os bairros americanos, que se generalizaram a partir do segundo pós guerra eram estruturados em torno da habitação unifamiliar, e não dispõe de equipamentos comerciais próximos, o único equipamento admitido é a escola básica. Com a hegemonia do automóvel a partir do segundo pós guerra passou-se a sua celebração, como única forma de se movimentar no território da cidade. As casas no bairro possuem uma interessante implantação, não havendo uma precisa definição de seu lote através de muros ou cercas. A testada frontal do lote não possui qualquer definição, o que transmite a ampliação da presença do verde no bairro, uma vez que há sempre generosos jardins pontuados por árvores de vários tipos. O fundo do lote de meu irmão não possui qualquer definição com seu vizinho confrontante. Aqui se manifesta uma clara diferenciação cultural entre o Brasil e os EUA, que me parece vai muito além da questão climática, a ausência de qualquer resguardo para a área do quintal, que na casa brasileira está sempre presente. A intimidade do quintal no Brasil se faz presente, como uma extensão da área social da casa, uma parte que a familia resguarda da vida pública. Nos EUA os quintais, os fundos das casas possuem uma definição extremamente fluída e indefinida, que acaba lhe dando um caráter mais público e exposto.

Por outro lado, a intimidade da casa também possui a típica descrição presente no livro de Gaston Bachelard A poética do espaço, se desenvolvendo em porão, térreo, 1o pavimento e sótão, num interessante gradualismo expressivo entre a escuridão e a luminosidade. No livro o filósofo das ciências francês  descreve a dialética entre porão e sótão de maneira poética, fazendo analogias entre nossa mente e aspectos das vivências espaciais da casa nesses dois estágios. O porão para Bachelard é a representação do nosso subconsciente, irracional e incontrolado, com suas áreas sombrias e mau iluminadas próximas da intransparência da terra e do subsolo. Já o sótão no alto da casa era a representação de nosso consciente, racional e dotado de auto controle, iluminado, de visão ampla, capaz de descortinar amplos horizontes. Na verdade na casa de meu irmão, o desnível entre a frente do terreno e os fundos desvenda para o quintal uma parte da fachada do porão, tirando um pouco dessa analogia. Mas como estamos no inverno e as temperaturas beiram os zeros graus, e a vida está aprisionada pela interioridade, acabando por reforçar essa dialética, que se faz presente.

Há muito que reflito, com meus alunos da EAU-UFF sobre as complexas relações que a cultura brasileira costurou entre a nossa tradição patrimonialista e a casa da familia. Os valores simbólicos envolvidos são imensos e complexos, não devendo ser reduzidos de forma linear e simplificadora. Os dois países são também imensos, havendo neles uma grande diversidade de tempos e culturas, mas a cultura da unidade familiar no Brasil é muito diversa da americana.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Nova York, o comércio de rua, o parque, a quadra, suas tipologias e o sistema locacional

Impressionante a vitalidade do comércio de rua na cidade de Nova York. Na região do Midtown, que corresponde ao espaço contido entre a rua 30 e a borda sul do Central Park, há uma concentração de lojas abertas diretamente para o logradouro público simplesmente impressionante. As calçadas da cidade ficam lotadas de consumidores gerando fluxos de deslocamentos, que chegam ao limite de precisar de sinal, principalmente nas esquinas onde os deslocamentos são  mais complexos. O comércio de rua possui uma imensa vitalidade, a cidade não se deixou encantar pelo comércio de shopping, dando uma qualidade para a vida no espaço público, que é invejável. Apesar das grandes corporações muitas vezes estarem dominando esse comércio, há ainda uma pulverização entre empreendedores locais, que mantém seus negócios. A cidade parece uma festa com suas ruas cheia de gente, apesar da temperatura beirar os zero graus centígrados e o vento encanado pelas grandes torres determinar a potencialização dessa sensação térmica.

O plano de Nova York data de 1811 e em seu desenho original não existia a presença do Central Park, que seria uma imensa desapropriação realizada em 1853, e que em 1858 escolheu o projeto de Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux como proposta paisagística a ser implantada. O contraste entre ambiente urbano artificial circundante e parque natural no centro da ilha parece querer nos mostrar um certo aprisionamento da natureza, ou uma celebração da vida urbana, que também se aproxima e domestica a natureza. Aqui também apesar das baixas temperaturas encontram se uma impressionante massa de estrangeiros e habitantes da cidade, que desfrutam de um paisagismo inteligente, de Olmsted e Vaux, que volta e meia contrasta o desenho romântico dos traçados curvos, com eixos de perspectivas retas e racionais.

A quadra do plano de Nova York de 1811, na sua parte planejada, ao norte do Downtown, que era a antiga New Amsterdan, possui um dos desenhos mais homogêneos, onde não só as quadras são iguais em suas dimensões gerais, mas também no tamanho dos lotes. Apesar disso, o desenvolvimento da cidade gerou uma imensa diversificação de tipologias arquitetônicas, das antigas  casas brownstone as imensas torres que podem ser percebidas numa caminhada pela cidade. Nesse conjunto, a torre que mais se destaca é a do Empire State Building por se posicionar ao sul da região da Midtown, onde a densidade de torres sofre uma expressiva diminuição.

Além disso, Manhattan na área do plano desfruta de um sistema locacional cartesiano baseado na malha xadrez numerada em ordem sequencial de ruas e nas direções cardiais, norte, sul e leste e oeste, que possibilita ao mais estrangeiro dos visitantes uma constante identificação de sua própria posição. Sem dúvida um sistema dotado de um imenso cosmopolitismo locacional capaz de transmitir segurança a qualquer visitante, por mais estrangeiro que seja.

O Brasil caiu numa imensa mediocridade paralisante

Nos primeiros dias de 2015 cabe uma reflexão sobre as práticas e atuações políticas com as quais o Brasil vem se confrontando ao longo dos últimos anos. Uma revisão do que conseguimos ou lutamos por realizar. Num balanço geral, no campo da política urbana chegamos a conclusão de uma imensa mediocridade, nos nossos debates e em nossas experiências concretas, que não superaram velhos paradigmas instalados, que se repetem, sem ao menos ser oferecida uma alternativa. As cidades brasileiras, espaço onde habitam 85% da população nacional, permanecem presas numa produção habitacional, que reproduz práticas do antigo BNH, como o Programa Minha Casa, Minha Vida (MC,MV). Ou na área de mobilidade urbana, onde reproduzimos de forma pouco criativa programas colombianos do sistema Bus Rapid Transit (BRTs) como o Transmilenium, sem obter a mesma ação coordenada entre diversos programas, que o urbano sempre exige.

No ano eleitoral de 2014 a questão urbana, que hoje aflige milhões de brasileiros, aproximadamente 170 milhões, não foi discutida na campanha presidencial de forma clara e articulada. Os principais candidatos não polemizaram o espaço construído brasileiro, e as alternativas a sua atual forma de se reproduzir e expandir. A cidade brasileira segue sendo produzida gerando; guetos de pobres e guetos de ricos que se protegem, evitando qualquer contaminação mútua, uma cidade com sua mobilidade dependente do automóvel particular, uma cidade dispersa e espraiada, onde as infraestruturas não estão universalizadas, e por último uma cidade que não convive bem com o meio ambiente natural.

Apenas nesses quatro pontos não identificamos e não formulamos qualquer proposta para se contrapor a inércia da atual produção da cidade brasileira, isto é seguimos com o Ministério das Cidades refém de uma política que repete práticas dos tempos tecnocráticos da Ditadura Militar. O déficit habitacional, que segundos estudos recentes chega a 6 milhões de moradias segue inalcansável, com os governos produzindo empreendimentos distantes e destituídos de qualquer urbanidade, nas periferias afastadas. Por outro lado, os antigos centros urbanos brasileiros, que invariavelmente concentram construções e esforços notáveis seguem esvaziados e abandonados, com seu patrimônio sendo deteriorado. As obras de mobilidade são tímidas e não penalizam os automóveis individuais que seguem recebendo subsídios dos governos, seja em isenção fiscal ou em obras viárias.

Enfim, precisamos urgentemente sacudir a poeira e mudar nossa política urbana, encarando de frente nossa inercial forma de fazer cidades.

Se é fácil porque não implantamos? A despoluição da baía de Guanabara

Cartaz da 52a Premiação Anual do IAB-RJ
Mais um texto da série; Se é fácil porque não implantamos? Agora sobre a Baía de Guanabara, que foi tema da 52a Premiação Anual de Arquitetura do Instituto de Arquitetos do Brasil, departamento do Rio de Janeiro. Há dezenove meses da realização das olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, com a previsão da realização de uma série de provas de iatismo nas suas águas, nem 50% do esgoto da cidade metropolitana é corretamente destinado, sendo despejado in natura na Baía de Guanabara. Atualmente o correspondente a 10 mil litros por segundo de esgotos é lançado na baía. As obras de saneamento dos 15 municípios que estão em sua bacia não são implementadas pela CEDAE, companhia responsável pelo saneamento do governo do estado do Rio de Janeiro. Porque?

As Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs) estão prontas, no entanto não recebem a carga de esgotos, pois as obras de coletas nos diversos municípios e bairros da cidade metropolitana não foram realizadas. Uma pergunta é inevitável. Será que as obras de realização das ETEs interessam as grandes empreiteiras, pelo seu volume de concreto, e as de assentamento de tubos de esgoto e caixas de passagem não são importantes? Quem pauta a importância das obras, o interesse público, ou o interesse das grandes construtoras?

Abaixo um link com entrevistas minhas na Revista Exame e no Estadão sobre o assunto.

http://iab.org.br/sites/default/files/exame_-_olimpiada_de_2016_sera_na_guanabara_ainda_poluida.01.01.2014_0.png

http://iab.org.br/sites/default/files/correio_24_horas_-_olimpiada_de_2016_sera_na_guanabara_ainda_poluida.31.12.2014_0.png

domingo, 28 de dezembro de 2014

Se é fácil por que não implantamos: O Hospital IV Centenário em Santa Teresa permanece vazio

Apesar de uma demanda brasileira imensa por novas habitações urbanas, o antigo edifício do Hospital IV Centenário no bairro de Santa Teresa na cidade do Rio de Janeiro permanece fechado, desocupado e se deteriorando. Porque?

A pergunta se insere na série que começa a ser publicada no meu blog Arquitetura, cidade e projeto denominada; Se é fácil porque não implantamos? Uma pergunta básica e simples, que pretende cobrar do poder público e da sociedade brasileira soluções para problemas instalados complexos, mas que na nossa percepção cotidiana da cidade se mostram como enigmas banais e simples. Essa postura, ao final desvenda que a falta de importância dada para uma política urbana estruturada, articulada e pensada representam um fardo pesado para as cidades do país. As três esferas de poder no país, federal, estadual e municipal, precisam começar a reconhecer a centralidade de uma política urbana mais estruturada. As ações nesse segmento podem impulsionar transformações importantes, inclusive na distribuição de renda.

O Hospital IV Centenário em Santa Teresa é uma edificação dos anos sessenta, que funcionou como hospital hotel até o começo do século XXI. Era portanto, uma unidade de saúde que não realizava procedimentos complexos agendados como cirurgia, ou emergência e não tinha alto grau de resolutividade no atendimento ao público. Era portanto, uma unidade que atendia longa permanência e oferecia acompanhamento nos quartos e enfermarias para pacientes que se recuperavam de procedimentos complexos. É portanto, uma unidade de saúde com serviços de longa internação, com uma estrutura que se aproxima daquilo que o jargão da arquitetura hospitalar denomina hospital-hotel. Tal configuração abre para a antiga edificação um leque imenso de opções para sua reocupação, podendo abrigar novos usos como habitação, hotel, centro cultural, enfim qualquer programa arquitetônico.

Pois bem essa estrutura está abandonada há anos. Já houve projeto da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro de implantar um empreendimento do programa do governo federal Minha casa, Minha vida, que não foi para frente. Depois foi anunciado que o edifício abrigaria o 1o Batalhão da PM carioca, no entanto nada ainda aconteceu para tal.

No mundo contemporâneo cada vez mais essas estruturas são reutilizadas e reocupadas com novas funções, reaproveitando as energias já dispendidas para sua construção. Essa atitude revela também uma profunda consciência ambiental e ecológica...

sábado, 20 de dezembro de 2014

José Mariano Beltrame e Museu da Maré homenageados no IAB-RJ na festa da 52a Premiação Anual

O Secretário de Segurança do RJ José Mariano
Beltrame e o Presidente do IAB-RJ Pedro
da Luz Moreira

No último dia 12 de dezembro de 2014 na festa da 52a Premiação Anual do IAB-RJ foram homenageados como personalidade do ano; o Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame  e o Museu da Maré. Duas homenagens que se complementam, e possuem profundas consequências sobre a gestão do território da cidade do Rio de Janeiro. Uma das homenagens se refere as favelas, criação brasileira para se confrontar a ausência de políticas públicas na área urbana e habitacional do país durante décadas, e que permanecem com soluções precárias e improvisadas. E, a outra se refere a uma política de segurança denominada Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), que pretende retomar o território das mesmas favelas para a normalidade constitucional. Sem dúvida duas ações que possuem um profundo impacto sobre o desenvolvimento de uma política de ocupação do território urbano nas cidades brasileiras. As ações podem ser vistas como desconexas e descoordenadas, mas na verdade possuem grande conexão e são interdependentes.

O mundo contemporâneo tende a uma grande fragmentação das ações sobre o território, há uma enorme segmentação das responsabilidades, há esferas governamentais diferentes que se responsabilizam por serviços que não conversam com outros setores públicos. O problema tem efeitos deletérios sobre a construção das cidades brasileiras, que seguem com sua gestão do território fragmentada e dividida. A esfera urbana demanda uma atitude de coordenação, que só pode ser construída por um maior protagonismo do plano e do projeto, que são atividades que tem a pretensão de se antecipar aos impactos da implantação de infraestruturas variadas.


O Secretário de Segurança do Estado do RJ folhea o
Catálogo de Metodologias de urbanização de Favelas

Há muito que se apontam as favelas no Brasil como organismos capazes de estruturar redes de solidariedade e de auto-sustentação para populações fragilizadas economicamente. De uma maneira geral elas se constituem como ambientes onde a edificação da habitação é auto-empreendida e de forma precária pelas próprias famílias, determinando espaços urbanos de difícil legibilidade, onde o limite entre esfera privada e pública permanece indefinido. Apesar disso, elas foram capazes de construir configurações notáveis tanto do ponto de vista arquitetônico, como urbano. Invariavelmente elas demandam pela consolidação do limite entre esfera pública e privada, infraestruturas urbanas como distribuição de água, coleta de esgotos e lixo, acessibilidade, drenagem, iluminação, etc...E, também segurança pública.

A idéia por trás da 52a Premiação Anual do IAB-RJ, ao homenagear o Beltrame e o Museu da Maré, era reforçar que a política de segurança do governo do estado do Rio de Janeiro precisa ser reforçada pelo projeto de reurbanização de favelas. Abaixo o link da minha entrevista na TV Brasil sobre a premiação.

http://tvbrasil.ebc.com.br/reporterrio/episodio/trabalho-de-contar-a-historia-do-complexo-da-mare-vai-receber-premio