sábado, 20 de setembro de 2014

A cúpula de Santa Maria del Fiori

A cúpula de Santa Maria del Fiori em Florença uma concepção
extraordinária onde há adequação entre o conjunto da catedral,
e também ao conjunto da cidade
No dia 19 de agosto de 1418 foi lançado na cidade de Florença na Itália um concurso para cobrir o altar da magnífica igreja de Santa Maria del Fiori, que vinha sendo construída a mais de um século, e que prometia ao vencedor um prêmio de duzentos florins. O concurso envolvia um desafio enorme cubrir um octógono de paredes com um vão de 43,12 metros, numa altura com relação ao solo de 58,19 metros. O simples envio dos materiais necessários para essa empreitada, numa altura de quase 60 metros do solo, o que corresponde a um edifício moderno de quinze andares era um desafio de proporções épicas. Muitos levantavam a hipótese de enchimento da área do octógono com areia compactada até o perfil da futura cúpula, com a utilização dessa base como fôrma da imensa estrutura, para depois esvaziá-la. O anúncio do concurso de 1418 do Bando da Opera del Duomo, simplesmente conclamava:

A dupla cúpula, que resolve com maestria em 1418 o problema
de vencer o vão extraordinário da catedral de Florença, que
vinha sendo construída a mais de um século
"Quem desejar fazer algum modelo ou desenho para a abóboda da grande Cúpula que está sendo construída pela referida Opera, para um estrutura de suporte, andaime ou outra coisa ou qualquer mecanismo para alçar relativos à construção e ao aperfeiçoamento da dita Cúpula ou abóboda... deverá fazê-lo antes do final do mes de setembro."

A solução dada por Bruneleschi ao problema é de uma incrivel maestria, que muitos teóricos passaram a considerar como a fundação de uma nova forma de encarar o problema da construção, fundando a figura do arquiteto moderno. A dupla cúpula, que foi construída se auto sustentava e garantia ao mesmo tempo uma das mais belas relações de proporção, não apenas com o objeto arquitetônico da catedral, mas também com o conjunto da cidade. Simplesmente, uma síntese bem equilibrada de eficiência construtiva e beleza estética. ARGAN, Giulio Carlo numa passagem memorável no artigo "O significado da cúpula", citando Vasari, o primeiro historiador de arte declara:

Técnica persa de construção de cúpula sem escoras dominada
pelos persas, que Bruneleschi utilizou em Florença
"Vendo-se ela elevar-se em tamanha altura, que os montes ao redor de Florença parecem semelhantes a ela.' Portanto, também está relacionada ao céu que domina aquele horizonte de colinas e contra o qual 'parece que realmente combata - e na verdade, parece que o céu dela tenha inveja, pois sem cessar os raios todos os dias a procuram'."

A cúpula de Bruneslechi é talvez o objeto arquitetônico mais citado e debatido, desde sua concepção em 1418, começando por Alberti que considerava sua formulação, "quase que por milagre, mas por um milagre da inteligência humana no céu de Florença." O único que não dedicou uma linha sequer a esse feito grandioso foi o próprio autor, Bruneleschi, que permaneceu apenas realizando e construindo.

Quando eu era jovem, um estudante na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ na cidade do Rio de Janeiro não entendia muito bem porque os professores invariavelmente citavam essa obra de forma recorrente. Meu argumento um tanto simplista repetia; "Porque tanto debate e discurso, se  o cara fez apenas a cúpula da igreja?" Apenas quando visitei Florença e vivenciei sua espacialidade compreendi porque tanta reflexão teórica sobre esse feito humano extraordinário. A cúpula de Bruneleschi permanece na cidade de Florença questionando simplesmente, a capacidade humana de construir de forma adequada.

Abaixo um filme sobre a cúpula

http://www.archdaily.com.br/br/627169/como-brunelleschi-construiu-a-cupula-da-catedral-de-florenca

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Filme e debate sobre o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé no IAB-RJ

O presidente do CAU-BR Haroldo Pinheiro e o presidente
do IAB-RJ Pedro da Luz no debate sobre a obra do arquiteto
João Filgueiras Lima, o Lelé
No último dia 03 de setembro aconteceu no IAB-RJ a projeção de dois filmes sobre o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. O primeiro era um registro da palestra que o arquiteto dera na série Arqfuturo, e o segundo uma entrevista para a televisão argentina, dentro de uma série sobre arquitetura. O Presidente do CAU-BR, Haroldo Pinheiro, que trabalhou com o arquiteto Lelé participou do debate e deu um depoimento emocionante sobre sua convivência com ele. Haroldo destacou aspectos fundamentais da atuação de Lelé, sublinhando que suas premissas de projeto eram; o apuro tecnológico, um compromisso ético e uma filiação incondicional as demandas sociais de seu país.

A obra do arquiteto Lelé é realmente única e dotada de uma mensagem importante para o estágio atual da cultura arquitetônica na contemporaneidade, não só no Brasil, mas no mundo de forma geral. Como professor universitário da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF) percebo nas novas gerações um certo encantamento com o desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), tal situação acabou por determinar o declínio do interesse dos estudantes pelo efetivo domínio do canteiro de obras, que Lelé tão bem controlava. Nesse contexto foi inevitável a lembrança ao arquiteto Marcio Tomassini, que compôs minha chapa vencedora do IAB-RJ como vice presidente financeiro, e que também tinha um grande dominio do canteiro de obras e das tecnologias de construção.

Na verdade todo esse debate se refere a uma questão central presente hoje nas obras brasileiras; qual o papel do projeto e do planejamento na sua definição? Porque temos hoje um certo declínio da consideração pelas operações de projeto e de plano, que passaram a ser considerados exercícios de futurologia pouco convincentes? A obra do arquiteto Lelé é um testemunho da importância do protagonismo do projeto, como atividade antecipadora, que controla custos e prazos que no Brasil constantemente são refeitos e revistos, O projeto de arquitetura completo é um importante instrumento de ampliação da avaliação da adequação das diversas obras e transformações necessárias para melhoria da vida cotidiana no país. O plano e o projeto são os únicos instrumentos capazes de construir uma matriz de prioridade para a transformação de nossas cidades, dando a sociedade a possibilidade de controlar e se posicionar com relação a uma série delas. O patrimônio construído pelo arquiteto Lelé é um instrumento poderoso na comprovação dessas teses.

Importante visitar o site do IAB-RJ para conferir o filme no site abaixo:

http://www.iabrj.org.br/iab-rj-e-laboratorios-de-midias-urbanas-da-uff-exibem-filmes-sobre-lele

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

As eleições do Conselho de Arquitetura e Urbanismo

A chapa eleita do IAB nacional, com alguns conselheiros
vitalícios
Nos dias 27, 28, 29 e 30 de agosto aconteceu a 146a Reunião do Conselho Superior (COSU) do IAB na cidade de Brasilia, para eleger a nova diretoria dessa instituição que está para completar cem anos de existência. A eleição ocorreu no dia 28 de agosto, sendo a atual diretoria do presidente Sérgio Magalhães reencaminhada a presidência da entidade. Há no horizonte de atuação da rede do IAB, a realização do Congresso da UIA 2020 na cidade do Rio de Janeiro. Um importante evento, que deverá servir para discutir a inserção do ofício da arquitetura e do urbanismo na sociedade brasileira, revalorizando as ações do plano e do projeto como além de antecipadoras de melhoramentos, um forte fator de ampliação da transparência de seus custos e benefícios.

Além disso a reunião também discutiu a eleição, que se aproxima do novo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), tanto no nível federal, como também na esfera dos diferentes estados do Brasil. Os debates envolveram, antes da discussão de nomes e personalidades, a construção de um perfil ideal de conselheiro do CAU, tanto na esfera federal, quanto na estadual. A idéia principal é que os conselheiros do CAU deveriam representar as entidades existentes dos arquitetos, que são; o IAB, a ABAP, a ASBEA, a ABEA e a FNA. Essa vinculação entre conselheiro do CAU e entidade dos arquitetos pretende contextualizar essa representação, no sentido de evitar a auto-representação isolada. A tese do COSU do IAB da representação de uma entidade pretende exatamente construir um vínculo, no qual o conselheiro passa a representar um conjunto de propostas, que sua entidade defende e encarna.

Por outro lado, também se definiu que o conselheiro deveria ter uma expressiva atuação profissional, com compromisso com os diversos campos da atuação profissional, como; o projeto, a formação profissional, a gestão governamental, o canteiro de obras, etc... Os conselheiros do CAU nas diversas esferas não devem ser profissionais da representação, mas compromissados e vinculados a uma prática profissional concreta.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Filme sobre João Filgueiras Lima, o Lelé, no IAB-RJ

Será apresentado nessa quarta feira dia 03 de setembro de 2014 as 18:30, filme sobre o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, com a presença do presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo Federal CAU-BR Haroldo Pinheiro, que trabalhou com ele e foi seu colaborador. 

A exibição do filme é uma parceria entre IAB-RJ e Laboratório de Mídias Urbanas (LAMUR) da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (EAU-UFF).

Estão todos convidados...

As superquadras em Brasilia

Nova diretoria do IAB eleita para o triênio 2014-17 com os conselheiros
vitalícios
Nos dias 27, 28, 29 e 30 de agosto aconteceu a 146a Reunião do Conselho Superior do IAB na cidade de Brasilia, para eleger a nova diretoria dessa instituição que está para completar cem anos de existência. A eleição ocorreu no dia 28 de agosto, sendo a atual diretoria do presidente Sérgio Magalhães reencaminhada a presidência da entidade. Há no horizonte de atuação da rede do IAB, a realização do Congresso da UIA 2020 na cidade do Rio de Janeiro. Um importante evento, que deverá servir para discutir a inserção do ofício da arquitetura e do urbanismo na sociedade brasileira, revalorizando as ações do plano e do projeto como além de antecipadoras de melhoramentos, um forte fator de ampliação da transparência de seus custos e benefícios.

A emblemática superquadra 308, que tem no seu centro a
Igreja de Nossa Senhora de Fátima, projetada por Oscar
Niemyer
Durante a 146a Reunião do Conselho Superior, no dia 29 de agosto não almocei com os participantes, e consegui fugir para visitar a emblemática superquadra 308 sul, onde há uma igreja de Nossa Senhora de Fátima, projetada por Oscar Niemyer a partir de uma encomenda de Dona Sara Kubitscheck. Muito além dessa presença essa superquadra é valorizada pela integridade de suas edificações, e por suas iniciativas de restauro e preservação de nossa tradição modernista, tanto em suas fachadas, quanto na permeabilidade dos seus pilotis. Sempre considerei a proposta habitacional das superquadras de Brasilia, como a melhor parte do Plano Piloto do arquiteto Lucio Costa. A escala, a proporção entre espaço construído e área livre, o gabarito das edificações me parecem o ponto alto dessa parte do Plano Piloto de Brasília. Além disso a teoria mais contemporânea sobre a cidade, enfatiza a importância das áreas habitação frente aos seus monumentos, afirmando que o contínuo dedicado ao habitar representa mais de 80% do seu território. O crítico italiano Aldo Rossi no clássico Arquitetura da Cidade afirma que grande parte da personalidade de um aglomerado urbano vem desse desenvolvimento de formas particulares de morar, que nas cidades italianas com sua imensa estratificação temporal, se encontra uma infinidade de modus que representam a diversidade de formas de morar ao longo da história. Brasília, com sua tradição moderna fundou um módus operandi do bem viver, representado pelas superquadras, que simbolizam uma personalidade do morar muito particular.

A escala, a proporção entre espaço edificado e área livre e o
gabarito das edificações atestam a qualidade das superquadras
No entanto é preciso reconhecer, que há uma certa homogeneização do território, que poderia ser combatida com a convocação de outros arquitetos operantes nos tempo de sua concepção, que inclusive haviam participado do concurso de Brasília, tais como; Artigas, Rino Levi, Henrique Midlin, MMM Roberto, ou outros que não participaram, mas que atuavam fortemente na ocasião como; Jorge Moreira, Afonso Eduardo Reidy, Alfredo Brito, dentre outros. Gostaria de ver sobre o plano de massa do Doutor Lucio Costa, com suas definições de pilotis, gabarito e afastamentos, reinterpretados nas propostas desses arquitetos, que certamente ampliariam a diversidade presente na cidade. Aliás a emblemática superquadra 308, assim como outras partes do Plano Piloto estão demandando das novas gerações de arquitetos um desenho que celebre o caminhar do pedestre, como um novo tempo da cidade. Uma sobreposição de um novo desenho, que celebre o caminhar para o bicicletário ou para a estação de metrô, ou ainda o simples caminhar, numa proposta que nasceu sobre a hegemonia do automóvel, iniciando uma convivência profícua de diferentes tempos da cidade.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lançamento do Concurso do Anexo da Biblioteca Nacional na Zona Portuária do Rio de Janeiro

A mesa formada no IAB-RJ para o lançamento do Concurso
 de Projetos do Edifício Anexo da Biblioteca Nacional na Zona
Portuária do Rio de Janeiro
Na última terça feira dia 26 de agosto de 2014 foi lançado o Concurso Público de Projetos para o Edifício Anexo da Biblioteca Nacional, que será um importante equipamento cultural na Zona Portuária do Rio de Janeiro. As bases do Edital do Concurso serão lançados no dia 05 de setembro, nessa mesma ocasião procurei destacar a importância da Baía de Guanabara para a cidade metropolitana do Rio de Janeiro.

Além do valor cultural do edifício que será selecionado pelo Concurso Anexo da Biblioteca Nacional, o novo empreendimento promoverá uma aproximação da população carioca com a frente marítima da Baía de Guanabara:

“A Baía é um dos elementos mais importantes do Rio. A revitalização do prédio anexo da Biblioteca Nacional e a liberação da frente marítima da Região Portuária permitirão acompanharmos de forma efetiva uma das questões mais importantes para a Região Metropolitana do Rio, a despoluição da Baía de Guanabara”, explicou Pedro da Luz.

Como estarão as cidades brasileiras em 2020

A presidente da Arcasia Pei Ing Tan, o presidente do IAB-RJ
Pedro da Luz, o presidente da UIA Esa Mohamed, o presidente
do IAB Sérgio Magalhães, a vice presidente do IAB-RJ Fabiana
Izaga e o Secretário da FPAA Nivaldo Andrade
Em 10 de agosto de 2014 a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida como sede do Congresso Mundial da União Internacional de Arquitetos no ano de 2020, concorrendo com Paris na França e Meulborne na Austrália. O tema do evento proposto pelo Rio de Janeiro foi "Todos os Mundos. Um só Mundo. Arquitetura 21", enquanto Paris propunha "Arquitetura responsável" e Meulborne sugeria "Lugar". A conquista foi um importante passo para arquitetos e urbanistas brasileiros, para discussão da sua inserção no contexto da sociedade brasileira, e para os debates sobre a construção do espaço humano no planeta.

No contexto brasileiro, há pelo senso comum uma série de leituras positivas do significado da palavra arquitetura; a cidade de Brasília, obra dos arquitetos Lucio Costa e Oscar Niemyer, ou o aterro do Flamengo, obra do arquiteto Afonso Eduardo Reidy e do paisagista Roberto Burle Marx, ou o Parque do Ibirapuera em São Paulo ou o bairro da Pampulha em Belo Horizonte, ambos obras do arquiteto Oscar Niemyer com o paisagista Burle Marx. Todas essas obras se destacam por sua adequação a contextos específicos, que emocionam qualquer visitante e mostram um caráter particular da arquitetura brasileira, que simboliza e carrega uma certa mensagem positiva. Mas há também alguns aspectos negativos, ou uma compreensão ligeira do que seja o conceito de arquitetura, uma vez que é um ofício muito interligado a questão do plano e do projeto. No contexto brasileiro, há pelo senso comum um certo descrédito com as ações do plano e do projeto, uma celebração do improviso que é desmedida.

A vitória obtida pelo Rio de Janeiro para sediar o Congresso Internacional da UIA no ano de 2020 deve ter como sentido maior debater essa situação e revertê-la. Não se trata de uma defesa corporativa, que interessa apenas a categoria dos arquitetos e urbanistas, mas uma luta de toda sociedade, que deve defender o plano e projeto, como instrumentos de ampliação da transparência das obras públicas.